RESUMO
O texto procura assinalar algumas características epistêmicas da Magazin zur Erfahrunsseelenkunde (Revista de Psicologia Empírica), primeira publicação alemã dedicada à psicologia empírica. Fundada no século XVIII por Karl Philipp Moritz, que foi seu principal editor, a proposta da revista, que teve muito sucesso à época, era coletar e reunir relatos de observações (escritos, em geral, em forma de carta) sobre as mais diversas doenças da alma.
PALAVRAS-CHAVE:
Revista de Psicologia Empírica; Karl Philipp Moritz; Medicina; Caso; Psicologia empírica; Observação; Gênero epistêmico
ABSTRACT
The text attempts to highlight some epistemic characteristics of Magazin zur Erfahrungsseelenkunde (Journal of Empirical Psychology), the first German issue dedicated to empirical psychology. Established in the 18th century by Karl Philipp Moritz, that was its main editor, the journal proposal, that was highly successful at the time, was collecting and gathering observation reports (writings in form of letter, in general) on various soul diseases
KEYWORDS:
Journal of Empirical Psychology; Karl Philipp Moritz; Medicine; Case; Empirical psychology; Observation; Epistemic genre
I
Antes de a Revista de Psicologia Empírica vir a lume, Karl Philipp Moritz, fundador e um dos editores, publica, em 1782, um texto na revista Deutsches Museum, intitulado “Proposta para uma Revista de Psicologia Empírica”, em que apresenta a natureza e a finalidade da inovadora publicação.2
O texto começa reconhecendo, com certa hesitação, que “o homem talvez tenha considerado a si mesmo o menos digno de sua própria atenção” (Moritz, 2020, p.21). Para sair desse desleixo, ou da minoridade em que o homem se encontra, Moritz não vê outro caminho a não ser o de prestar a atenção às doenças da alma. Essa constatação veio da comparação do que ocorreu com o conhecimento do corpo. Foi uma necessidade - produzida pelas doenças físicas - que tornou o corpo digno de atenção. Como as doenças da alma não provocaram a mesma urgência, embora fossem muito mais variadas, nocivas e contagiosas do que os males do corpo, não se levou em consideração a própria alma.
Se devidamente apreciadas, as doenças da alma poderiam ampliar nosso conhecimento do indivíduo, contribuindo, assim, para aquilo que Moritz classificou como o fim último de qualquer organização e esforço humanos: o enobrecimento (Veredlung) e a formação (Bildung) do espírito humano (Moritz, 2013a, p.9-10). Além disso, o futuro fundador da revista destaca que o estudo da alma contribuirá também para a compreensão do corpo social:
Vimos milhares de criminosos serem executados, sem considerar o prejuízo moral desses membros excluídos do corpo da sociedade humana digno de nossa investigação. Pois tal membro é um objeto tão importante para o médico da moral e para o filósofo especulativo como é para o magistrado que precisa executar a triste operação. (Moritz, 2020, p.21)
A comparação entre a medicina física e aquilo que Moritz pretende estabelecer, uma medicina da alma, nos dá o “objeto de estudo” de sua revista: trata-se de investigar as enfermidades da alma. Aliás, o texto da proposta está construído inteiramente num gesto de transposição - aquilo que o médico físico faz com o corpo, o médico moral irá realizar com a alma. Se o espinho irrita o dedo saudável, se uma farpa permanece ali enfiada, causando algum dano, agora é preciso investigar quais espinhos irritam a alma, quais farpas estão ali fincadas.
A negligência das doenças da alma, no fundo, era uma cegueira dos homens de seu tempo - aqueles que subiram a rampa da abstração. O que obscureceu o olhar dos homens abstratos é o véu da universalidade: denominaram as múltiplas doenças da alma com um único nome (pecado) e prescreveram um único remédio contra elas (obediência aos bons mandamentos).
Retirado o primeiro véu - ou a parede divisória (Scheidewand) -, que impedia que as doenças da alma fossem percebidas, Moritz não coloca imediatamente o novo material à disposição da ciência natural. Embora reconheça a necessidade de uma doutrina das enfermidades da alma (o que ainda não existe, segundo ele), insiste, em vários momentos do texto e mesmo na Revista de Psicologia Empírica, que não se deve teorizar, não se deve submeter apressadamente esse novo material a reflexões. Antes, é preciso observar, coletar fatos, pois a revista pretende reunir “fatos e não conversa fiada moral” (Moritz, 2020, p.44). Nesse freio à abstração, está contido outra recusa: não submeter essa multiplicidade sensível às ordens de uma legislação universal, seja ela científica ou moral. Não se trata de buscar leis universais para os fenômenos da alma. Seu intuito, ao contrário, parece ser o de dar visibilidade ao particular.3
O que é a nossa moral inteira se ela não for abstraída do indivíduo? O esboço de um edifício na areia, que qualquer brisa desmancha, um contorno impreciso sem conteúdo interno, assim como toda pedagogia que não se funda sobre suas próprias observações e experiências particulares. (Moritz, 2020, p.23)
II
A inspiração e o modelo epistemológico para Revista de Psicologia Empírica veio da medicina. Na primeira metade do século XVIII, na Alemanha, quatro médicos (Friedrich Hoffmann, Johann Gottlieb Krüger, Andreas Elias Büchner e Johann August Unzer) recomendavam, com ênfases distintas e pequenas diferenças entre si, os seguintes passos metodológicos para a ciência da medicina: observação, experimento e auto-observação. Sob o imperativo “observe, escreva!”, F. Hoffmann, por exemplo, via a coleta de dados empíricos e a representação discursiva, a observação (ou o experimento) e o relato (a história médica, historia morbi) como inseparáveis e complementários.4
Da medicina saiu não só a estrutura geral da revista - praticamente cada número está dividido em quatro rubricas: a fisiologia é a parte referente à psicologia (Seelennaturkunde), a patologia é a parte da psiquiatria (Seelenkrankheitskunde), a semiótica é a parte da psicografia (Seelenzeichenkunde) e a dietética, a da psicodietética (Seelendiätetik) -, como também o modelo dos textos (os relatos de casos clínicos).
No texto da proposta, Moritz elenca tipos de textos que gostaria de publicar na revista: Bericht (relato, informe, relatório), Geschichte (história), eigene Geschichte (história própria), Lebensbeschreibung (descrição de vida), Beobachtung über sich selbst (observação sobre si mesmo), Beobachtungen aus der wirklichen Welt (observações do mundo real), gute Romane (bons romances), gute dramatsiche Stücke (boas peças de teatro, e aqui nomeia Shakespeare) e Nachricht (notícia). Esse conjunto de textos é considerado “observações”.
E, de fato, a revista se tornou uma coleção de observações. Não importava se elas fossem anônimas ou não, pessoas conhecidas ou desconhecidas, se escritas por médicos, mães, padres, soldados, juízes; o relevante era manter a diversidade de pontos de vista (ou vozes), que relatavam algum episódio de perturbação da alma. Num texto lemos, por exemplo, o relato de um assassino de criança (J. F. D. Seybell); noutro, os delírios de uma tecelão espanhol que morava em Berlim; também experimentos com surdos-mudos, a história de uma criança que foi molestada por um velho sacerdote; o relato de uma pessoa que duvida da própria existência. Será com base nesses relatos - textos de diversos observadores do coração humano - que uma doutrina empírica da alma (Erfahrungsseelenlehre) poderá ser construída. Com isso, a revista se tornaria um “espelho universal no qual o gênero humano poderia olhar para si mesmo” (Moritz, 2020, p.26-7). O que, para Moritz, teria uma utilidade prática que superaria largamente tudo aquilo que foi prestado por nossos antepassados.5
O conhecimento da alma humana só será possível através da observação de si e dos outros, de relatos, confissões, narrativas - posição compartilhada com outros filósofos contemporâneos (J. G. Herder, por exemplo). Ao criar um espaço de recepção para os relatos, Moritz resiste à soberania do olhar único. Ao longo de sua existência, a revista de fato acabou por reunir uma variedade de pontos de vista - perspectivas de pessoas que se encontravam em diferentes posições sociais.
III
Quando, na Revista de Psicologia Empírica, Moritz discorre sobre a saúde da alma, ele de novo insiste que deve ser evitada a busca de um sistema fixo (uma doutrina racional da alma ou uma psicologia racional). O que ele está estabelecendo, primeiramente, é um vago esboço (Entwurf), algumas linhas fundamentais, que são traçadas, levando em conta os fatos coletados. O fundamental é fazer a reflexão e os fatos caminharem pari passu.6 O mesmo raciocínio vale para as considerações psicológicas sobre a linguagem que constam em vários volumes da Revista de Psicologia Empírica. As considerações psicológicas se debruçam sobre a língua, observando o modo como os homens a usam.
Na primeira dessas linhas fundamentais, está escrito: “a doença da alma é a falta de uma relação harmônica entre todas as faculdades da alma” (Moritz, 2006, p.813). O editor, no entanto, esmiúça a definição da harmonia entre as faculdades, esclarecendo que não se trata da força ou fraqueza de uma única faculdade, observada em si mesma, mas de sua força ou fraqueza em relação a todas as outras faculdades da alma. Uma pessoa, por exemplo, dotada de imaginação forte pode ser saudável desde que essa imaginação esteja contrabalanceada por outras faculdades (memória, juízo etc.), caso contrário, ela pode estar doente.
É interessante notar que não será estabelecida uma medida universal de saúde sob a qual a alma doente de um indivíduo será avaliada ou julgada. Além de as doenças da alma terem causas múltiplas, cada ser humano traz consigo a própria medida de sua saúde, a medida do funcionamento harmônico de suas faculdades. Essa medida própria, no entanto, não é fixa, mas moldável segundo o desenvolvimento da pessoa, ou seja, certo grau de capacidade de julgar ou analisar criticamente - capacidade própria, segundo Moritz, do acúmulo dos anos vividos - poderia indicar numa criança certo exagero ou doença.
A destruição da relação entre as faculdades só é considerada uma doença quando ela se torna permanente. Falta de atividade, excesso de atividade ou atividade sem propósito são sintomas de doença da alma ou de perturbação da relação entre as faculdades.
Talvez o maior combate do “médico moral” Moritz (2006, p.1300) tenha sido contra a paralisia da alma (Seelenlähmung), pois esta danifica a própria natureza da alma, que “consiste na atividade, assim como a do corpo, na expansão”. A origem da miséria humana se dá justamente quando essa atividade é bloqueada ou reprimida. Compreende-se, assim, por que a melancolia é uma das principais enfermidades da alma: ela abate ou interrompe sua ação.7
Se quisermos considerar, porém, as reflexões sobre a saúde e a linguagem como uma subida na rampa da abstração, Moritz (2022, p.116) poderia responder que elas não passam de um “andaime que envolve uma construção. Ainda desfigurada, a construção um dia se erguerá pura, brilhante e majestosa quando o andaime, que terá se tornado inútil, for suprimido”.8
IV
A ênfase na observação como atividade cognitiva primordial e o freio à teorização apressada (a recusa em fugir do dado em busca das ficções, como diria J. G. Hamann) inserem a Revista de Psicologia Empírica não apenas na medicina de sua época, como também a inclui numa longa tradição das observações ou relatos de casos, que, segundo a historiadora Gianna Pomata, tem início com a coleção de observações. No entanto, a narrativa de caso só vai se consolidar como gênero epistêmico quando os textos começam a ser inteiramente dedicados aos relatos de casos: eles deixam de ser acessórios (um exemplo ou anedota dentro de um texto) e passam a ser o conteúdo principal do livro, o que se dá na segunda metade do século XVI.9
Para chegar à definição de caso como gênero epistêmico, Gianna Pomata (2019, p.16) recorre à definição que André Jolles, na década de 30 do século passado, havia feito para “caso” como uma forma simples, o que dá origem a um gênero literário: o caso (Kasus) é “um evento, real ou fictício, que desafia diretamente a aplicação de uma norma legal ou moral”.10 Por gênero epistêmico, entende-se uma forma escrita que molda uma prática cognitiva e é por ela moldada.
Entre os vários tópicos (forma, consciência do gênero, gênese histórica e social, vínculo com o gênero farmacológico, paralelos com o caso legal, metas epistêmicas) fundamentais para a constituição do relato de casos da medicina como gênero epistêmico, um deles - a de que a medicina é individualizada - está estreitamente ligado ao que Moritz exigia em sua Revista de Psicologia Empírica. O médico - e no caso de Moritz, ele diria, o médico moral - deve levar fundamentalmente em conta a especificidade de cada paciente tanto no diagnóstico como na prescrição e no tratamento. Os “distúrbios” do paciente são vistos em termos de sua história de vida particular.
V
Se a tendência para a observação empírica da alma humana afasta a psicologia empírica da psicologia especulativa e dedutiva, seríamos levados, então, a pensar que os processos de raciocínios dos relatos de caso seriam de tipo indutivo. Nesse caso, a ampliação do conhecimento é feita na seguinte direção: do particular para o geral. Embora se possa usar os casos para inferências indutivas, seu papel epistêmico mais fundamental é o de oferecer um contrapeso à generalização. O caso envolve uma relação entre o particular e o geral, uma movimentação contínua entre os dois, retornando sempre ao particular. Esse movimento acaba por criar um espaço que possibilita o ato de ponderação, no qual a norma geral e as circunstâncias específicas são contrapostas (pesadas, ponderadas) uma contra a outra. O caso “é uma ferramenta para a finalidade cognitiva da individualização” (Pomata, 2019, p.30).
Quem se dedicou a formular, no entanto, a especificidade epistêmica do caso - mostrando sua presença em vários ramos do conhecimento (medicina, direito, psicanálise), em várias culturas e épocas - foi o filósofo e historiador da ciência John Forrester. Baseado nos estilos de raciocínio, desenvolvidos pelo filósofo Ian Hacking, ele acrescentou à lista original, formada por seis estilos de raciocínio científico, mais um, denominado “raciocinando nos casos” (reasoning in cases) ou “pensando nos casos” (thinking in cases) (Forrester, 2017).11
Qual o traço fundamental desse estilo de raciocínio científico? Por envolver ramos do conhecimento que têm de levar em consideração o particular, ele não reduz o caso a um exemplo de uma regra geral, nem o considera um incidente com significado local. Sua especificidade o afasta tanto da posição de Aristóteles (para quem só há conhecimento do universal e necessário) quanto da primazia da teoria em detrimento da prática (é preciso conhecer antes as regras para depois aplicá-las). O estilo “pensando nos casos” instala o conhecimento no interior daquilo que estava, segundo Aristóteles, reservado à sabedoria prática, ou seja, na experiência, no âmbito do incerto, em que é possível se aprender algo sobre o individual, o particular. O processo de raciocínio não é o da subsunção do particular no universal, tampouco o da exemplificação do universal no particular, mas o de estabelecer “uma analogia bem-sucedida entre um caso em outro”, sem a necessidade de passar pela via da generalização (Forrester, 2017).
VI
Uma caracterização epistêmica da Revista de Psicologia Empírica pode também ser encontrada num paradigma surgido no final do século XIX, denominado paradigma indiciário pelo historiador Carlo Ginzburg.
Segundo Ginzburg, revista Zeitschrift für bildende Kunst, entre 1874 e 1876, o italiano, Giovanni Morelli, publicou uma série de artigos, travestido numa dupla autoria: o russo, Ivan Lermolieff, era autor dos textos, que foram traduzidos para o alemão por Johannes Schwarze. Nos artigos, ele propunha um novo método de atribuição de autoria à quadros antigos - o que possibilitaria saber se o quadro era verdadeiro ou falso - baseado não “como normalmente se faz, em características mais vistosas, portanto mais facilmente imitáveis, dos quadros, [...]”, mas ao “[...] examinar os pormenores mais negligenciáveis, e menos influenciados pelas características da escola a que o pintor pertencia: os lóbulos das orelhas, as unhas, as formas dos dedos das mãos e dos pés” (Ginzburg, 2012, p.144).
Esses pormenores mais negligenciáveis (lóbulo da orelha, unhas, forma dos dedos), essas pistas infinitesimais, que, no caso de Morelli, são signos pictóricos, apareceram como sintomas na psicanálise de Sigmund Freud e como indícios nas investigações de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle. O elemento comum aos três autores, que eram, por sinal, formados em medicina, é o modelo da semiótica médica. E vale recordar que a medicina hipocrática “definiu seus métodos refletindo sobre a noção decisiva de sintoma (semion)” (Ginzburg, 2012, p.156).
As raízes do paradigma, porém, não estão apenas na medicina antiga. Estão também no saber de tipo venatório - que talvez tenha começado com o gesto do caçador que “agachado na lama, [...] escrutavam as pistas da presa” (ibidem, p.154). A característica desse saber é a “capacidade de a partir de dados aparentemente negligenciáveis remontar a uma realidade complexa não experimentável diretamente” (ibidem, p.152).
Ginzburg arrisca a hipótese de que a própria ideia de narração possa ter nascido, numa sociedade de caçadores, da decifração de pistas, que, em seguida, eram organizadas numa sequência narrativa.
O fato de que as figuras retóricas sobre as quais ainda hoje se funda a linguagem da decifração venatória - a parte pelo todo, o efeito pela causa - são reconduzíveis ao eixo narrativo da metonímia, com rigorosa exclusão da metáfora, reforçaria essa hipótese obviamente indemonstrável. O caçador teria sido o primeiro a “narrar uma história” porque era o único capaz de ler, nas pistas mudas (se não imperceptíveis) deixadas pela presa, uma série coerente de eventos. (ibidem, p.152)
Não apenas a Revista de Psicologia Empírica, mas o pensamento de Moritz se situa no paradigma indiciário. Sua démarche está assentada numa espécie de trabalho de bricolagem: o autor observa o insignificante, o pequeno e o negligenciável para ir descobrindo e alcançando o perfeito e acabado em si mesmo. Fez isso em termos narrativos com o romance Anton Reiser; em termos linguísticos com suas considerações sobre a linguagem; em termos pedagógicos ao apresentar pelo abecedário o mundo, os seres e o homem aos pequenos leitores; em termos estéticos ao pensar a obra de arte como partes atreladas a um fim e, em termos existenciais, ao compreender que o sentido de um episódio isolado só se dá vinculando-o ao todo de uma vida.12
VII
O conhecimento do particular só é possível ser pensado e conhecido se observamos uma subjetividade mergulhada no mundo, inserida nas circunstâncias, sem abdicar de ver o que a impede ou a trava de prosseguir em sua formação. Moritz, que jamais deixou de ser um observador do “é” e admirador da cultura inglesa, não estranharia se essas considerações epistêmicas sobre a Revista de Psicologia Empírica fossem encerradas com os seguintes versos do poeta John Milton - cujo Paraíso Perdido foi companheiro de sua viagem pela Inglaterra:
That which before us lies in daily life
Is the prime wisdom.
Conhecer
O que, na vida cotidiana, está diante de nós
É a sabedoria suprema.
(Paraíso Perdido, VIII, II, 192-184).13
Agradecimentos
Durante a redação, pude contar com a generosa leitura, com os comentários e as críticas de Alexandre Braga Massella e Meire Cristina Gomes. Marcelo Barros deu sua contribuição em inglês. Aos três, fica meu agradecimento.
Referências
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- FORRESTER, J. Thinking in cases Cambridge, UK: Polity Press, 2017. (e-book).
- FÖRSTL, H.; ANGERMEYER, M.; HOWARD R. Karl Philipp Moritz. Journal of Empirical Psychology (1783-1793): an analysis of 124 case reports. Psychological Medicine, v.21, p.299-304, 1991.
- GINZBURG, C. Mitos, emblemas, sinais Trad. Federico Carotti. 2.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
- HACKING, I. Language, Truth, and Reason. In: Historical ontology Cambridge London: Harvard University Press, 2002. p.158-77.
- JOLLES, A. Simple Forms Transl. Peter J. Schwartz. London; New York: Verso, 2017.
- MORITZ, K. P. Erfahrungsseelenkunde. In: KARL PHILIPP MORITZ Dichtungen und Schriften zur Erfahrungsseelenkunde Herausgegeben von Heide Hollmer und Albert Meier. Frankfurt am Main: Deutscher Klassiker Verlag, Band I, 2006. p.791-905.
- _______. Lesebuch für Kinder. In: KARL PHILIPP MORITZ Sämtliche Werke. Kritische und kommentierte Ausgabe. Band 6: Schriften zur Pädagogik und Freimaurerei Herausgegeben von Jürgen Jahnke. Berlin/Boston: Walter de Gruyter, 2013. p.251-84.
- _______. In: KARL PHILIPP MORITZ Sämtliche Werke Kritische und kommentierte Ausgabe. Band 11: Denkwürdigkeiten Vorworte, Nachworte und Anmerkungen zu von Moritz herausgegebenen Werken. Herausgegeben von Claudia Stockinger. Berlin/Boston: Walter de Gruyter, 2013a.
- _______. Anton Reiser. Um romance psicológico. Trad. José Feres Sabino. São Paulo: Carambaia, 2019.
- _______. Revista de Psicologia Emprírica e A Miséria Humana Apresentação de Mario Spezzapria. Trad., apres. e notas de Oliver Tolle. Cadernos de Tradução, Departamento de Filosofia USP, 2020.
- _______. Ensaios de Karl Philipp Moritz. Linguagem, Arte, FilosofiaSel., introd., trad. e notas de Jose Feres Sabino. São Paulo: Edusp, 2022.
- POMATA, G. Sharing cases: The Observationes in Early Modern Medicine. Early Science and Medicine, v.15, p.193-236, 2010.
- _______. The Medical Case Narrative in Pre-Modern Europe and China: Comparative History of an Epistemic Genre. In: GINZBURG, C.; BIASIORI, L. (Ed.) A Historical Approach to Casuistry New York, Bloomsbury Academic, 2019, p.15-43.
- ROBERTSON, R. Introduction. In: MORITZ, K. P. Anton Reiser London: Peguin Classics, 1997. p.vii-xxv.
- SCHRIMPF, H. J. Das Magazin zur Erfahrungsseelenkunde und sein Herausgeber. Zeitschrift für Deutsche Philologie, Band 99, Heft 2, p.161-87, 1980.
- SPEZZAPRIA, M. Kant, Moritz e la ‘Magazin zur Erfahruns-Seelenkunde’. Estudos Kantianos, v.3, n.2, p.131-40, Jul/Dez, 2015.
- SUZUKI, M. Os desdobramentos da psicologia experimental em Moritz, Kant e Kierkegaard. Doispontos, v.17, n.1, p.11-25, Agosto 2020.
- TAYLOR, C. Las fuentes del yo La construcción de la identidade Moderna. Trad. Ana Lizon. Madrid: Paidós, 2011. (e-book).
- TOLLE, O. Introdução. Revista de Psicologia Emprírica e A Miséria Humana Apres. Mario Spezzapria. Trad., apres. e notas de Oliver Tolle. Cadernos de Tradução, Departamento de Filosofia USP, 2020. p.12-21.
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Disponibilidade de dados de pesquisa
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (Capes) - código de financiamento 001.
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2
A revista foi publicada ao longo de dez anos, entre 1783 e 1793. Ao todo, teve dez volumes, cada qual lançado anualmente em três números. O título completo da revista era Gnothi s’auton oder Magazin zur Erfarungsseelenkunde als ein Lesebuch für Gelehrte und Ungelehrte (Conhece-te a ti mesmo ou Revista de psicologia empírica como livro de leitura para instruídos e não instruídos). Nascida dentro do espírito do iluminismo berlinense, ela recebeu o apoio de alguns de seus pensadores: Moses Mendelssohn, Marcus Herz, Johann Erich Briester. Além de Moritz, ela teve também como editores Karl Friedrich Pockels e Salomon Maimon.
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3
Esse intuito parece vincular Moritz à tradição de Michel Montaigne. No livro As fontes do self, Charles Taylor (2011) comenta que o objetivo do ensaísta francês “não é a de encontrar uma ordem intelectual por meio da qual as coisas são examinadas em geral, mas antes o de encontrar os modos de expressão que permitem que o particular não passe despercebido”.
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4
Entre os anos 1759-1764, o médico Johann August Unzer, por exemplo, editou a revista Der Arzt (O médico), na Dinamarca, e criou certos “procedimentos narrativos” para que os pacientes pudessem relatar (por cartas) suas doenças. Segundo ele, esses relatórios exigiam dos pacientes uma atenta auto-observação.
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5
O psiquiatra contemporâneo H. Förstl - juntamente com dois outros autores - publicou um artigo, em que reconhece que os relatos publicados na Revista de Psicologia Empírica alcançaram “descrições precisas das síndromes neuropsiquiátricas, permitindo assim diagnósticos confiáveis” (Förstl 1991, p.301).
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6
A mesma postura é adotada também em relação ao belo. Ver o ensaio “Linhas fundamentais para uma teoria completa das belas-artes” (Moritz, 2022, p.187-9).
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7
No romance Anton Reiser, cuja primeira parte é de 1785 e a quarta e última de 1790, a alma do personagem Anton está tomada preponderantemente pela melancolia. O interesse de Moritz por esse sentimento aparece no cuidado vocabular (no romance aparece tanto a palavra Melancholie quanto Schwermut e Wehmut) para explorar suas matizes - ponto assinalado por Ritchie Robertson, tradutor do romance para o inglês.
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8
A ideia do andaime está presente também num dos textos pedagógicos (uma fábula) de Moritz (2013, p.282). Para consolar o filho, que estava doente e triste, o pai leva o menino para passear. Quando passam em frente de uma casa com um andaime de madeira, o menino pergunta ao pai por que aquela bonita casa estava desfigurada. O pai lhe responde: “para ficar mais bonita”. Passado um tempo, tendo já se recuperado, eles passam de novo diante da casa e o andaima já não está mais lá e a casa ficou muito mais bonita. O que o andaime foi para a reforma da casa, a doença foi para o menino.
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9
O primeiro exemplo do novo gênero epistêmico é a obra Curationum medicinalium centuriae septem do médico judeu Amato Lusitano (1511-1568), publicada, entre os anos de 1551 e 1556, em capítulos, cada qual contendo 100 casos clínicos.
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10
Devemos o estudo e a definição de “caso” ao historiador da arte e crítico literário André Jolles, que, no livro Formas Simples (Einfache Formen), fez uma análise sobre as disposições mentais e os gestos verbais que originam as formas simples: nove tipos de textos, elementos embrionários da literatura: a legenda, a saga, o mito, a adivinha, o ditado, o caso, o memorável, o conto e o chiste. Ao desafiar a aplicabilidade das normas diante de circunstâncias específicas, o caso coloca em xeque a validade delas e exige, ao mesmo tempo, uma tomada de decisão. É necessário, então, um ato de ponderação: pesar na balança, de um lado, a norma, e, de outro, o pleito.
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11
Os seis estilos de raciocínio científico são: postulação e dedução; exploração experimental; construção hipotética de modelos por analogia; ordem da variedade pela comparação e taxionomia; análise estatística das regularidades de população; derivação histórica do desenvolvimento genético. Para Hacking, os estilos de raciocínio científico determinam quais afirmações são possíveis candidatas à verdade ou falsidade.
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12
Como exemplo, cito uma passagem do prefácio da parte I do romance Anton Reiser: “- Quem conhece o curso das coisas humanas e sabe que, no desenrolar da vida, aquilo que inicialmente parecia pequeno e insignificante pode muitas vezes se tornar bastante importante não se incomodará com a aparente insignificância de certas situações narradas aqui” (Moritz, 2019, p.8).
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13
Este texto foi concebido originalmente para a Jornada Karl Philipp Moritz, organizada pelo grupo Iluminismo à Contraluz, sob a coordenação dos professores Márcio Suzuki e Oliver Tolle, realizada em 20 de abril de 2023, na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da USP. Agradeço aos coordenadores pelo convite e aos participantes pelas discussões.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
