Resumo
O artigo propõe um estudo sobre a escrita de Hélène Cixous, no ensaio A Chegada da Escrita, de 1976, publicado no Brasil em 2024, pela editora Bazar do Tempo, e a obra de Paloma Vidal, intitulada Não Escrever [com Roland Barthes], de 2023, publicada pela editora Tinta-da-China. Em uma leitura entrelaçada das duas obras, guiada por questionamentos relacionados a práticas autobiográficas e autoteóricas e à inserção da primeira pessoa na produção das autoras, são evidenciados procedimentos de teorização sobre a escrita em si e de si: a ênfase no percurso, a autobiografia e a autoteoria como possíveis mecanismos de desierarquização, desestabilização, desentrave e reestruturação da própria escritora-pesquisadora, a introdução da diferença e da pluralidade, a correlação entre corpo e escrita e, em particular, a escrita de si como ponte para o outro e para a outra.
Palavras-chave:
Hélène Cixous; Paloma Vidal; autoteoria
Abstract
The article proposes a study of Hélène Cixous’ writing in her 1976 essay A Chegada da Escrita, published in Brazil in 2024 by Bazar do Tempo, and Paloma Vidal’s 2023 work entitled Não Escrever [com Roland Barthes], published by Tinta-da-China. In an intertwined reading of the two texts, guided by inquiries related to autobiographical and autotheoretical practices and the insertion of the first person in the authors’ work, procedures for theorizing about writing itself and self-writing are highlighted: the emphasis on the journey, autobiography and autotheory as possible mechanisms for de-hierarchization, destabilization and restructuring of researchers themselves, the introduction of difference and plurality, the correlation between body and writing, and, in particular, self-writing as a bridge to the other.
Keywords:
Hélène Cixous; Paloma Vidal; autotheory
Resumen
El artículo propone un estudio sobre la escritura de Hélène Cixous, en el ensayo La llegada de la Escritura, de 1976 - publicado en Brasil en 2024 por la editorial Bazar do Tempo - y la obra de Paloma Vidal, titulada No Escribir [con Roland Barthes], de 2023 - publicada por la editorial Tinta-da-China. En una lectura entrelazada de ambas obras, guiada por cuestiones relacionadas con las prácticas autobiográficas y autoteóricas y la inserción de la primera persona en la producción de las autoras, se ponen de manifiesto procedimientos de teorización sobre la escritura en sí y de sí: el énfasis en el camino recorrido, la autobiografía y la autoteoría como posibles mecanismos de “desjerarquización”, desestabilización, desbloqueo y reestructuración de la escritora-investigadora, la introducción de la diferencia y de la pluralidad, la correlación entre cuerpo y escritura y, en particular, la escritura de sí como puente hacia el otro y la otra.
Palabras-clave:
Hélène Cixous; Paloma Vidal; autoteoría
Hélène Cixous é autora de uma vasta produção, que teve início em meados do século XX e se estende até os dias atuais, com a publicação de Encendire, qu’est-ce qu’on emporte, em 2023, e outros textos teórico-críticos, em anos subsequentes. Sua obra conta com dezenas de publicações ficcionais, além de diversos dramas - muitos deles em parceria e encenados pela companhia de teatro francesa, Théâtre du Soleil, e intervenções de cunho teórico - entrevistas, artigos acadêmicos e ensaios - que tratam sobre a obra de autores canônicos, como James Joyce, Jacques Derrida e Clarice Lispector, ou contemporâneos, como a autora indígena canadense Maya Cousineau Mollen (2024). Seus ensaios versam ainda sobre temas relacionados à escrita e à escrita feminina, também presentes em seu ensaio mais célebre, O Riso da Medusa, reeditado na França em 2024 e publicado no Brasil em 2022, com tradução de Natália Guerellus e Raísa França Bastos, e em A Chegada da Escrita, texto reeditado em 1986, em uma coletânea intitulada Entre L’Écriture, e publicado no Brasil em 2024, pela editora Bazar do Tempo, com tradução organizada por Flavia Trocoli, tradutora, pesquisadora e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Paloma Vidal é tradutora, pesquisadora e professora de Teoria Literária da Universidade Federal de São Paulo, autora de diversas publicações, em diferentes gêneros - contos, romances, ensaios, poemas - e linguagens. Em Não Escrever com [Roland Barthes], livro publicado em 2023 pela editora Tinta-da-China, ela apresenta uma obra tecida com e através da obra do autor francês, em especial, A Preparação do Romance. O livro de Vidal é o desdobramento de uma performance proposta pela autora, em 2018, em um registro em primeira pessoa, que explora diversas formas de trabalhar o texto no papel e fora dele, com trechos em versos que se misturam à dicção teórica e com a presença de imagens e de QR Codes que levam a vídeos e áudios, dentre outras experimentações. Em A Chegada da Escrita, por sua vez, Cixous propõe um texto também em primeira pessoa, mais contido em seu formato, com algumas peripécias aqui e ali - títulos inseridos como continuação de texto, diálogos que surgem sem anúncio prévio, a inserção da estrutura em tópicos, em meio ao texto corrido -, mas nem por isso mais linear.
A frase “O eu é sempre um eu-te-amo”, que utilizo como subtítulo deste ensaio, é um trecho extraído do prefácio escrito por Hélène Cixous para uma seleção de textos de sua autoria, organizada pela pesquisadora, escritora e professora britânica Susan Sellers, intitulada The Hélène Cixous Readers, publicada pela primeira vez em 1994, pela editora Routledge. Em sua versão mais completa, em tradução livre, “O eu nunca é um indivíduo. O eu é assombrado. É sempre e antes de qualquer outra coisa, um eu-te-amo” (Cixous, 1994, p. 18, tradução nossa).1 A afirmação situa-se num contexto mais amplo, em que a autora se propõe a analisar o processo de escrita, questionando-se sobre sua constituição ética, cultural, política e estética, além de levantar proposições sobre a necessidade de escrever para si e para o outro, dentro de uma espécie de deslocamento, em que o ser que escreve está sempre, em suas palavras, “em outro lugar, sempre aqui e em outro lugar, outro lugar como aqui, eu e outro, o eu como o outro, etc” (Cixous, 1994, p. 15, tradução nossa).2
É justamente no que diz respeito à alteridade que a imagem do sujeito em primeira pessoa como um sujeito sempre ligado ao outro pelo amor me chama a atenção, aproximando as duas escritas. Visto que a inserção da primeira pessoa, as articulações entre o eu e o outro e os elementos biográficos são cruciais, tanto na escrita de Hélène Cixous, quanto na prática de Paloma Vidal, encontrei nessa colocação o ponto de partida para minhas reflexões em torno do fazer teórico de ambas as autoras: quais os caminhos e potencialidades da inserção do eu e do outro em suas obras? De que forma é possível falar de escrita autobiográfica na obra de Hélène Cixous? É de fato possível estabelecer uma correlação entre sua escrita teórica e a prática de autoras contemporâneas como Paloma Vidal? Quais as potencialidades desse diálogo? Esses são alguns dos questionamentos que me trouxeram até aqui e que servirão como guia de minhas leituras, trazendo à tona temáticas e procedimentos explorados pelas autoras em seus textos teóricos, na tentativa de melhor compreendê-los e, quem sabe, até desdobrá-los em novas leituras.
Neste ensaio, proponho-me, portanto, a identificar contrapontos estéticos, ao mesmo tempo em que observo a maneira como as autoras se colocam na obra, com o objetivo de formular um pensamento sobre a escrita. Nesse sentido, a autoteoria aparece como forma de estabelecer um terreno teórico comum às duas práticas, ao mesmo tempo que abre espaço para as diferenças existentes entre elas. Trago aqui a definição de Alex Brostoff e Vilashini Cooppan, em tradução livre, presente na introdução do livro editado por elas, intitulado Autotheories:
Podemos começar dizendo que a autoteoria é uma prática que combina elementos autobiográficos à teoria, à filosofia e à crítica literária e cultural. A autoteoria é um jogo de linguagem, é a fala do corpo, são tecnologias de si, expressões do “eu”, interseções e identificações, declarações de desejo, constelações teóricas. [...] A autoteoria faz e desfaz o eu e o eu faz e desfaz a autoteoria. [...] Esse sujeito, o eu da autoteoria, não é singular, nem autônomo, nem solitário (Brostoff; Cooppan, 2025, p. 7).3
Nesses trechos, encontro características importantes, que dizem respeito tanto ao trabalho de Cixous, quanto ao de Vidal, que serão desenvolvidas ao longo deste ensaio: a relação entre a autobiografia e o fazer teórico/crítico, interligando vida e escrita; o trabalho incessante com a linguagem, que torna a leitura sempre nova/outra; a conexão entre escrita e corpo; a presença marcante do desejo; a forma de abordar o Eu e a Teoria como elementos em constante construção, desconstrução e reconstrução, numa relação sempre processual e nunca estanque e, em particular, a escrita de si como ponte para o outro.
Um estudo sobre escritas
Quando questionada sobre a escrita autobiográfica e o porquê de investir nela4, Paloma Vidal evidenciou seu desejo de se aproximar do outro. A autora não se aprofundou mais em sua resposta, deixando a tarefa de desvendar o mistério para a leitora, a pesquisadora. Essa resposta sucinta gerou, porém, uma ponte imediata com a prática de Hélène Cixous, em sua busca pelo outro, pelos outros e pelas diversas formas que podem vir a transformar o Eu, em um constante processo de autodescoberta, que se dá à medida que a escrita toma corpo, convidando a novas interlocuções. No texto escrito por Cixous para introduzir a coletânea organizada por Susan Sellers, que instigou este ensaio, Cixous expressa mais uma vez sua perspectiva sobre a pluralidade do sujeito e da relação entre o Eu e o Outro:
Um sujeito é ao menos mil pessoas. Por isso nunca me pergunto “quem sou eu?” (qui suis-je?), mas “quem são eu?” (qui sont-je?) - frase intraduzível. Quem poderia dizer quem são eu, quantos são e que eu é o mais eu de meus eus? Claro que cada um de nós tem uma identidade social sólida, tão sólida e estável quanto todas as outras fases de nossa identidade são instáveis e surpreendentes. Ao mesmo tempo, somos de todas as idades, as que tivemos, as que teremos e as que não teremos, percorremos a nós mesmos (Joyce e Shakespeare nos lembram) como a criança que choraminga a caminho da escola ou o velho falido… Nós: somos (intraduzível). Sem contar todas as combinações possíveis com os outros, nossas trocas entre línguas, entre sexos - trocas que nos modificam e nos tingem de outros (Cixous, 1994, p. 17-18, tradução nossa).5
Há nessa citação alguns elementos interessantes em relação às duas obras e às formas de escrita desenvolvidas pelas autoras. Em primeiro lugar, a pesquisa sobre o sujeito, como autor sem dúvida, mas como indivíduo que nunca se define completamente. As perguntas “quem sou eu” e “quem são eu”6 estão presentes de diversas formas nas obras das duas autoras, que se questionam, ao mesmo tempo, sobre o ato de escrever e como. A identidade, seja ela social, pessoal ou autoral, nunca se fixa e está sempre posta em relação à outra e ao outro: outras(os) autoras(es), outras(os) interlocutoras(es), outros lugares, outras formas de existência, outros momentos históricos e outras jornadas. As combinações lançadas em ambas as obras parecem sempre buscar a multiplicação e nunca o ponto final.
Vidal inicia seu ensaio colocando a máscara de Roland Barthes, assumindo o rosto do outro autor. Mas a máscara também pressupõe uma face por trás, que face é essa? A máscara que suspende temporariamente o sujeito que a veste e convoca à especulação. A primeira vez que vi a imagem de Vidal cobrindo o rosto com a foto de Barthes, tive uma sensação de déja vu que não soube decifrar de imediato, mas que não demorei muito a elucidar.
A fotógrafa Roni Horn aparece por trás do rosto de Hélène Cixous, em uma imagem feita para a publicação intitulada A Kind of you, 6 portraits by Roni Horn, de 2007. A artista, cuja pesquisa central gira em torno da identidade, inclusive de gênero, também trabalha com instalação, escultura e ilustração. Entre suas publicações, está um livro de fotografias Index Cixous, com reproduções de imagens da escritora. Essas imagens, colocadas lado a lado, tiveram o poder de multiplicar a ação de “se fantasiar de”, a que Paloma Vidal nos convida em sua performance. As identidades que se sobrepõem, superpõem e se misturam, vão perdendo o sentido de hierarquia de um rosto de um Autor que esconde o pesquisador de sua obra, inserindo a todos em um diálogo contínuo e plural que emerge nas múltiplas pesquisas.
Vidal propõe ainda o questionamento: “Quando começou isso de me fantasiar de Barthes?” (Vidal, 2023, p. 8). A primeira de suas respostas é um relato de como se deu o encontro com o autor. A segunda resposta se dá na transposição da performance Resistindo a Barthes para a escrita, que dá nome ao primeiro capítulo de seu livro e começa com a foto exibida acima. Nele, vemos escrito em negrito “O corpo de Barthes” e, logo abaixo, “O corpo de Barthes, sua voz, seu olhar, uma maneira de olhar, uma maneira de escrever, tomaram em algum momento meu corpo - seu medo, seu prazer”. Após as fotografias de Barthes a que não temos acesso (no texto há apenas “Fotos de Barthes”), vemos mais adiante: “O corpo de Barthes não são estas imagens / Tela vazia / Não são só estas imagens / É uma escrita” (Vidal, 2023, p. 14).
O ensaio de Cixous, por sua vez, também tem início com uma face, talvez de outra natureza, pois não se refere a uma face específica, mas a algo quase divino, alvo de adoração - “No começo, adorei” (Cixous, 2024, p. 5)7, assim começa seu texto. Embora humana, a face descrita pela autora não pertence a um ser a quem se pode nomear ou alcançar, mas que é o desejo e a pergunta:
O que me acontecia, tão poderosamente lançada de um corpo humano, era a beleza: tinha um rosto, todos os mistérios estavam inscritos nele, guardados, eu estava diante, eu pressentia que tinha um além ao qual não tinha acesso, um lá sem limite, o olhar me apressava, me interditava a entrada, eu estava fora, à espreita feito animal. Um desejo buscava sua morada. Eu era esse desejo. Eu era a pergunta (Cixous, 2024, p. 5).8
Por outro lado, talvez a natureza dessas faces não seja tão diversa assim. Quando Vidal projeta a face de Barthes, ela também é uma tela vazia, um convite, o desejo de conhecer algo que está no outro, mas que não se deixa fixar em imagens. Barthes também é a questão que a lança em sua busca pela própria escrita, “o rosto que promete, a resposta pela qual continuamos a nos mover, a causa pela qual não podemos descansar, o amor por ela impede de renunciar, de nos deixarmos levar; a morrer. Que infelicidade, contudo, se a pergunta encontrar sua resposta! Seu fim!” (Cixous, 2024, p. 5).9 Vidal também não está interessada em respostas definitivas, pelo contrário, a autora propõe um texto que se repete e se desdobra em proposições que vão tomando formas e significações diversas, à medida que vão sendo desenvolvidas - um mantra de perguntas, infinitas possibilidades - “Por que Barthes? Quando começou isso de me fantasiar de Barthes?” (Vidal, 2023, p. 9).
Recherche: pesquisa e busca, o jogo com as palavras que anima Cixous, Barthes e Vidal. É por conta desse “cruzamento entre línguas”, desse caminho tortuoso e fértil da tradução, inclusive, que Paloma Vidal parte para a performance, sua primeira resposta ao enigma proposto por Barthes e seu romance nunca escrito, Vita Nova, cuja preparação foi publicada na forma de anotações e transcrições dos cursos ministrados pelo autor, no Collège de France, sob o título A Preparação do Romance. O livro Não escrever [com Roland Barthes] é fruto da continuidade de sua busca por e com o autor: “É esse curso que está no começo destes textos, quando me animei a pôr em prática uma crítica amorosa, imaginando o que ronda os momentos em que se torna impossível continuar a escrever” (Vidal, 2023, p. 9). O não escrever não se encerra, portanto, na impossibilidade de, mas retorna como a pergunta, o enigma, como o convite para novas jornadas.
Como acessar o desconhecido, o outro, os outros, outros caminhos, quando tudo se mostra tão impalpável? A resposta a que ambas as autoras parecem chegar sem pestanejar é o amor. Quando Vidal se propõe a imaginar possibilidades da escrita/não escrita com Barthes, ela o faz através do amor, da crítica e da imaginação amorosas: “amorosa porque diz respeito ao que no fim das contas não se poderá saber, mas que, pela força mesma da indagação, mobiliza o desejo, quando este se encontra à beira da paralisia” (Vidal, 2023, p. 9). O amor apresenta-se como força motriz capaz de mobilizar o desejo, de estabelecer a ponte com o outro, de combater o medo, de atiçar o prazer, de dar a vida e de dar vida à escrita e ao corpo que escreve. Cada uma à sua maneira, Hélène Cixous e Paloma Vidal propõem novas práticas teóricas de contornos autoteóricos, em que autora, corpo e texto se constituem mútua e continuamente, diante dos olhos de quem lê, que é também sujeito em aberto.
O medo da paralisia, da não escrita e da escrita, o medo que se integra à escrita de Barthes, que vislumbra a possibilidade de uma “escrita do medo”, coloca Vidal, citando o autor francês. O medo que é sentido, dito, escrito e é superado pelo desejo amoroso que permeia tanto a escrita quanto a leitura - através da não escrita do romance, de abertamente se dedicar a algo que nunca se concretizou na forma desejada, da escrita dos próprios diários e sobre diários, da escrita sobre si, o autor parece abrir caminho para a superação do medo de quem vive e escreve com ele, numa nova multiplicação. A superação do medo que é força motriz na escrita de Cixous: “Amei. Tive medo. Tenho medo. Por causa do medo, reforcei o amor, tornei alertas todas as forças da vida, armei o amor com alma e com palavras, para impedir a vitória da morte. Amar: conservar vivo: nomear” (Cixous, 2024, p. 6).10
Superado o medo, a escrita. A escrita que se torna prazer, gozo, corpo. A escrita do medo, seja lá o que ela for, ficará com Barthes. A própria autora brasileira, inserida como está no contexto político e histórico de seu tempo, afirma que sua obra é sobre o amor e o ódio, sobre um país, sobre o mundo, mas não sobre o medo. Tanto Vidal quanto Cixous encontram na vida o caminho para essa superação e para a escrita. Nesse contexto, ambas se utilizam de elementos da própria biografia, em menor ou maior grau, para construir e dar vazão a seus argumentos. No entanto, o que chama a atenção é a forma como cada autora usa desses elementos para articular seu pensamento e obra, sem que eles se tornem determinantes de suas jornadas, pelo contrário - eles estão sempre em terreno incerto, sendo reconstituídos, reconstruídos e ressignificados a cada passo.
O holocausto e a Argélia durante a ocupação francesa certamente fazem parte da escrita de Cixous, assim como as lutas políticas de meados do século XX - essa é a História que ela partilha com a humanidade e com as mulheres. A história de sua família também está presente em seu texto, o medo da perda da mãe alemã, a morte prematura do pai, ambos judeus, e a infância em um país em constante guerra civil são, sem dúvida, elementos muito importantes para a constituição de seu texto. Por sua vez, Vidal dá muito mais atenção às miudezas da vida quotidiana. Pequenos acontecimentos de seus dias na França, onde se encontra com os filhos para estudar, e depois, em São Paulo, vão se apresentando ao longo da obra como ganchos para a construção do pensamento da autora - o bairro onde mora, os objetos da casa onde está hospedada com os filhos e as excursões pela cidade vão se misturando, por exemplo, à sua relação com Barthes e à maneira como sua pesquisa vai se moldando.
Embora em A Chegada da Escrita a autora não seja tão expressiva em detalhes de sua biografia, os detalhes que Cixous compartilha aparecem, em grande parte, vinculados aos sentidos e ao corpo, tanto em sua constituição física quanto teórica, pois para a autora, o corpo é escrita. Olhos, dedos, línguas, respiração, gozo, contração, parto:
Era a mulher no cume da carne, seu gozo, a força enfim libertada, manifestada. Seu segredo. Se tu te visses, como não te amarias? Ela dá à luz. Com a força de uma leoa. De uma planta. De uma cosmogonia. De uma mulher. Ela toma sua fonte. Ela Tira. Rindo. E sobre os rastros da criança, uma rajada de Sopro! Uma avidez de texto! Confusão! Pelo que ela é tomada? Uma criança! De papel! Embriaguez! Eu transbordo! Meus seios transbordam! Leite! Tinta! Hora de mamar. E eu? Eu também tenho fome. O gosto de leite de tinta (Cixous, 2024, p. 32).11
Cixous está descrevendo um parto baseado nos muitos assistidos por sua própria mãe, que sustentava a família como parteira. A autora relata, durante o ensaio, sua admiração por esse acontecimento de vida. Mas o parto também é um movimento teórico importante: a escrita é um lugar de renascimento a cada instante, em que o sujeito se constitui sempre outro, com o outro, dando a vida e recusando a morte com um novo recomeço. O Eu que renasce dentro de um só texto e a cada nova obra de Cixous, como precisa Flavia Trocoli, em seu artigo Insistir no Eu, Destronar o Eu, Passar à Literatura: movimentos da obra de Hélène Cixous (2020), ao afirmar que é importante questionar de que é feito esse “si”, presente nas obras de Cixous, já que nunca é feito do “mesmo”.
Mais uma vez, as autoras encontram-se em sua busca pela vida e pela escrita, agora a partir do tema da maternidade, que também está presente na obra de Vidal. A maternidade, a mãe de Barthes, a morte da mãe de Barthes, a cena da mãe que empurra o carrinho e puxa o filho atrás de si - A cena da janela, nome do capítulo que traz as crianças, os filhos da própria pesquisadora-mãe, para dentro da obra. Mais que isso, a introdução do tema da maternidade promove uma mudança de perspectiva, pois a mãe Paloma, pesquisadora e observadora, passa à perspectiva de observada: “essa solidão interrompida por um ser amado - um outro” (Vidal, 2020, p. 89). A mãe que observa o filho que a observa e que se põe a narrar a cena com ela e se põe a narrá-la. Novas vozes, gangorra de desejos, nova multiplicação.
Esse aspecto cíclico que vem da estrutura argumentativa, assim como da inserção e da sobreposição de pontos de vista, também é sentido na formulação da própria estrutura pronominal do texto de Cixous, a exemplo de outra passagem vinculada ao nascimento:
Loucas: aquelas que são obrigadas a refazer o ato de nascimento a cada dia. Eu penso: nada me é dado. Eu não nasci de uma vez por todas. Escrever, sonhar, partir-se, ser eu mesma filha minha a cada dia. Afirmação de uma força interior capaz de olhar a vida sem morrer de medo e, sobretudo, de olhar a si mesma como se você fosse ao mesmo tempo outra - indispensável ao amor -, e nada mais nada menos que eu (Cixous, 2024, p. 9).12
A ideia não difere muito da primeira citação mencionada algumas linhas acima, mas, dessa vez, Cixous promove um deslocamento de pronomes, mais evidente no texto em francês que em sua tradução, começando pelo tratamento da terceira pessoa do plural, que se refere às mulheres, às loucas, para o Eu que se anuncia incompleto; em seguida, passa da terceira para a segunda pessoa do singular, que desembocam novamente na primeira pessoa, em uma mesma frase: “se regarder soi-même comme si tu étais à la fois l’autre [...] ni plus ni moins que moi” (Cixous, 1986, p. 14). Essa passagem traz em si uma espécie de condensação do que está sendo desenvolvido ao longo do ensaio da autora, que faz do deslocamento do Eu ponto central de sua teoria.
Ao analisar as obras de ficção de Hélène Cixous, a partir da ótica do conceito de hiperrealismo ficcional desenvolvido por Derrida, Trocoli corrobora com o fato de ser esse deslocamento parte essencial da obra da autora, permeando tanto seus textos ficcionais, quanto teóricos: “As metamorfoses do Eu, do Você e do Ele em moradas de muitas vozes, de muitos tempos, bem como o trânsito dos pronomes pelas posições de autor, narrador e personagem, acabam por constituir um dos eixos mais complexos da obra de Hélène Cixous” (Trocoli, 2020, p. 193). No mesmo artigo, ela reflete sobre o questionamento lançado por Cixous “Quem sou eu?”, “Quem são eu”, num movimento que se distanciaria do Eu narcísico, em uma construção de sujeito acrescido de camadas, sempre em fuga e metamorfose. Fenômeno que se dá, mais uma vez, tanto no texto quanto no corpo.
Corpos que escrevem e que são escritos por outros, corpos em performance, corpos da diferença e que, através da diferença, podem se aproximar e viver juntos. Vida e ato de escrita entrelaçam-se às linhas textuais e teóricas, à medida que vão sendo traçadas nas duas obras. A construção de si diante de nossos olhos, como ato de inscrever o instante e vivê-lo, em uma aproximação com a autoteoria. A outra é a face, a face de Barthes, a face de Hélène Cixous - a outra também sou eu, leitora e pesquisadora, que também me encontro em exercício de escrita. Essa escrita que se faz em vida, no instante do encontro: “Escrevo ainda. Aqui. Escrevo vida” (Cixous, 2024, p. 8).13 Ao mais uma vez refletir sobre a escrita do romance nunca publicado na forma de romance de Barthes, Vidal discorre sobre essa escrita do instante, que não está obrigada a um objeto futuro, mas se dá diante do processo em si: “Um romance que nega e afirma o romance, ao mesmo tempo. Um romance que ‘diz aqueles que se ama’. Um romance que é o texto da ‘vida concomitante’” (Vidal, 2023, p. 106).
O não romance e a não escrita aparecem, portanto, como ponto de partida para a quebra do paradigma de produção sempre vinculada ao produto final. Paloma Vidal não só produziu com Barthes, como veiculou sua obra em mais de um formato, isso está posto. O mais interessante na negação é poder deslocar o sentido mesmo da escrita e de seus propósitos. O foco está no processo, nas formas de construção, nas perguntas, na multiplicação de sentidos e de possibilidades. O resultado molda-se à busca e não o contrário: “A ideia de uma escrita em aberto, que é busca, que é prática, que é começo, recomeço, que, se chega ao fim, é apenas para arremeter de novo” (Vidal, 2023, p. 103). Arremeter, retomar voo, voler - verbo da escrita feminina, cujo sentido dúbio se multiplica em dois verbos distintos, voo e roubo, em sua tradução para o português.
Também para Cixous, a vida e a escrita não se conformam na imobilidade de formatos preestabelecidos ou de respostas estanques. Talvez por isso a resistência da autora em relação a rótulos como a autobiografia. Refletindo sobre a rejeição de Cixous ao autobiográfico, Flavia Trocoli coloca que a articulação de elementos como o voo e o roubo caminharia na direção da subversão “daquilo que, regulado pela posse, estaria fixado no espaço e no tempo de maneira idêntica a si. Pode-se, então, supor que o idêntico a si seria a causa do horror ao eu autobiográfico tradicional atado aos seus predicados, atributos e propriedades” (Trocoli, 2020, p. 190). Mesmo assim, a autora reconhece o elemento autobiográfico da escrita de Cixous, em relação às diversas outras facetas de sua escrita, realocadas de diferentes maneiras em cada uma de suas obras.
Trocoli pergunta-se, ainda, se, para a autora francesa, aprender a viver não seria aprender a ler e a reescrever as estruturas em que estamos inseridos e que nos moldam, ou seja, se sua escrita não seria um lugar de mudança de paradigmas. A reflexão é interessante, pois uma das características importantes das obras lidas é justamente o trabalho de desarticulação das estruturas e das hierarquias que moldam o fazer teórico de nosso tempo. Talvez não seja tão adequado falar de um tempo comum, quando tratamos de duas obras escritas com um intervalo de quase 50 anos, mas ao ler as duas autoras, a sensação é de que o diálogo se faz de maneira fluida. De todo modo, é notório o fato de novos ensaios terem sido traduzidos e publicados nesta década no Brasil (O Riso da Medusa, em 2022, A Chegada da Escrita, em 2024, e Ayaï! - O grito da literatura, em 2025), no mesmo período da publicação da obra de Paloma Vidal. Talvez seja a oportunidade de um novo fôlego para a obra de uma escritora com uma produção tão vasta e relativamente pouco conhecida de suas contemporâneas.
Além do mais, segundo Trocoli, a escrita de Cixous estruturar-se-ia sobre uma lógica da ressurreição - nada mais adequado para descrever um texto que ressurge 50 anos depois de ter sido escrito, em uma nova língua e em um novo território. Imagem também presente no ensaio A Chegada da Escrita, a ressurreição é uma das formas utilizadas por Cixous para caracterizar o movimento feito pelo sujeito e pela escrita. Nas palavras de Trocoli: “o Eu retorna, insiste, mas nunca de modo estável ou idêntico a si, seguindo seu destino de ser, instantaneamente, determinado e indeterminado pelo próprio fluxo das palavras e dos eventos” (Trocoli, 2020, p. 190). Esse Eu em fluxo encontra eco na teoria desenvolvida por Vidal, que propõe uma escrita aberta, fator reforçado pelo formato circular de sua obra, que também não se entrega a um desfecho, mas continua a se mover em direção à outra, ao outro e ao recomeço.
“Escrever: primeiramente sou tocada, acariciada, ferida, em seguida tento descobrir o segredo desse toque para escutá-lo, celebrá-lo e transformá-lo em uma outra carícia” (Cixous, 2024, p. 44).14
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Referências
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-
1
No original: “I is never an individual. I is haunted. I is always, before knowing anything, an I-love-you” (Cixous, 1994, p. 18).
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2
No original: “elsewhere, ever here as elsewhere, elsewhere as here, I and the other, I as other, etc” (Cixous, 1994, p. 15).
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“No original: We could start by saying autotheory is a practice that combines autobiographical elements with theory, philosophy, and literary and cultural criticism. Autotheory is language play, body talk, technologies of the self, utterances of an “I,” intersections of identifications, declarations of desire, theoretical constellations. Autotheory makes up and unmakes a self, and the self makes up and unmakes autotheory. [...] That subject, the self of autotheory, is neither singular nor autonomous nor alone” (Brostoff; Cooppan, 2025, p. 7).
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Em ocasião da aula ministrada por ela para a disciplina de Seminários II, na Universidade Federal da Bahia, no ano de 2024.
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No original: “A subject is at least a thousand people. This is why I never ask myself “who am I?” (qui suis-je?) I ask myself “who are I?” (qui sont-je?) - an untranslatable phrase. Who can say who I are, how many I are, which I is the most I of my I’s? Of course we each have a solid social identity, all the more solid and stable as all our other phases of identity are unstable, surprising. At the same time we are all the ages, those we have been, those we will be, those we will not be, we journey through ourselves (Joyce, Shakespeare remind us) as the child who goes snivelling to school and as the broken old man… We: are (untranslatable). Without counting all the combinations with others, our exchanges between languages, between sexes—our exchanges which change us, tint us with others” (Cixous, 1994, p. 17-18).
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Em inglês: “who am I” e “who are I”.
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No original: “Au commencement, j’ai adoré” (Cixous, 1986, p. 9).
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No original: “Ce qui m’arrivait, si puissamment lancé depuis un corps humain, c'était la Beauté: il y avait un visage, tous les mystères y étaient inscrits, gardés, j’étais devant, je pressentais qu’il y avait un au-delà, auquel je n’avais pas accès, un là sans limites, le regard me pressait, m’interdisait d’entrer, j’étais dehors, dans un guet animal. Un désir cherchait sa demeure. J’étais ce désir. J’étais la question” (Cixous, 1986, p. 8).
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No original: “la face qui promet, la réponse pour laquelle on continue à se mouvoir, à cause de laquelle on ne peut pas se poser, pour l’amour de laquelle on se retient de renoncer, de se laisser aller; à mourir. Quel malheur pourtant, s’il arrivait à la question de rencontrer sa réponse! Sa fin!” (Cixous, 1986, p. 8-9).
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No original: “J’ai aimé. J’ai eu peur. J’ai peur. A cause de la peur, j’ai renforcé l’amour, toutes les forces de la vie je les ai alertées, j’ai armé l’amour avec de l’âme et des mots, pour empêcher la mort de gagner. Aimer: garder en vie: nommer” (Cixous, 1986, p. 11).
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No original: “C’était la famme au comble de sa chair, sa jouissance, la force enfin délivrée, manifeste. Son secret. Si tu te voyais comment ne t’aimerais-tu pas? Elle accouche. Avec la force d’une lionne. D’une plante. D’une cosmogonie. D’une femme. Elle prend sa source. Elle tire. En riant. Et sur les traces de l’enfant, une rafale de Souffle! Une envie de texte! Confusion! Qu’est-ce que lui prend? Un enfant! Du papier! Ivresses! Je déborde! Mes seins débordent! Du lait. De l’encre. L’heure de la tétée. Et moi? Moi aussi j’ai faim. Le goût de lait de l’encre!” (Cixous, 1986, p. 41).
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No original: “Folles : celles que sont obligées de re-faire acte de naissance tous les jours. Je pense: rien ne m’est donné. Je ne suis pas née une fois pour toutes. Ecrire, rêver, s’accoucher, être moi-même ma fille de chaque jour. Affirmation d’une force intérieure capable de regarder la vie sans mourir de peur, et surtout de se regarder soi-même, comme si tu était à la fois l’autre, — indispensable à l’amour et rien de plus ni de moins que moi” (Cixous, 1986, p. 14).
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No original: “J’écris l’encore. Encore ici, j'écris vie” (Cixous, 1986, p. 13).
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No original: “Ecrire: d’abord je suis touchée, caressée, blessée, ensuite je cherche à découvrir le secret de ce toucher pour l’étendre, le célébrer et le transformer en une autre caresse” (Cixous, 1986, p. 55).


Fonte: Imagens retiradas de