Open-access Lâmina afiada na terra: sintaxe decolonial e espiralar no poema “nós mulheres”, de Sony Ferseck

Sharp blade in the earth: decolonial and spiral syntax in Sony Ferseck’s poem “nós mulheres”

Lámina afilada en la tierra: sintaxis decolonial y tiempo espiral en el poema “nós mulheres”, de Sony Ferseck

Resumo

O artigo analisa o poema “nós mulheres”, de Sony Ferseck, presente na obra Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022). A investigação articula a teoria feminista decolonial (Lugones, 2014), a reflexão sobre a escrita como ato de afirmação comunitária (Munduruku, 2018) e a noção de tempo espiralar (Martins, 2021) para examinar o retorno geracional entre mulheres indígenas. Demonstra-se como a persona lírica de Ferseck constrói, por meio de uma sintaxe e semântica que espelham a temática de ausências e de nós existenciais, uma poética que resgata e honra a existência dessas mulheres. Argumenta-se, por fim, que a melancolia do texto, amparada pela voz lírica, não é fonte de sujeição, mas terreno onde as palavras se tornam ornamentos de luta.

Palavras-chave:
Sony Ferseck; poesia contemporânea indígena; poesia de mulheres; feminismo decolonial

Abstract

This article analyzes the poem “nós mulheres” by Sony Ferseck, featured in Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022). The investigation articulates decolonial feminist theory (Lugones, 2014), reflection on writing as an act of community affirmation (Munduruku, 2018), and the notion of spiral time (Martins, 2021) to examine the generational return among indigenous women. It demonstrates how Ferseck’s lyrical persona constructs, through a syntax and semantics that mirror the theme of absences and existential knots, a poetics that rescues and honors the existence of these women. Finally, it argues that the text’s melancholy, supported by the lyrical voice, is not a source of subjection but rather the ground where words become ornaments of struggle.

Keywords:
Sony Ferseck; contemporary indigenous poetry; women poetry; decolonial feminism

Resumen

Este artículo analiza el poema “nós mulheres”, de Sony Ferseck, presente en Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022). La investigación articula la teoría feminista decolonial (Lugones, 2014), la reflexión sobre la escritura como acto de afirmación comunitaria (Munduruku, 2018) y la noción de tiempo espiral (Martins, 2021) para examinar el retorno generacional entre mujeres indígenas. Se demuestra cómo la persona lírica de Ferseck construye, a través de una sintaxis y una semántica que reflejan la temática de las ausencias y los nudos existenciales, una poética que rescata y honra la existencia de estas mujeres. Se argumenta, finalmente, que la melancolía del texto, sustentada por la voz lírica, no es fuente de sujeción, sino terreno donde las palabras se convierten en ornamentos de lucha.

Palabras-clave:
análisis del discurso; materialidad; enunciación; fragmento

Laranja, amarelo, vermelho: inundam os olhos a ilustração de capa do livro Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022). As cores, após um momento de análise, colocam a leitora sob um desafio: o que mostra este bordado transposto à ilustração da artista visual Georgina Sarmento? Na parte inferior da imagem, vemos um corpo-cobra que forma uma mão. Esta mão puxa a parte inferior de um corpo feminino; dessa forma, surge um outro corpo também com formas femininas, cujas penas descansam sob um sol vermelho1 vibrante. Este pictórico cartão de visitas introduz poemas cheios de matizes e contrastes, que misturam o dialeto macuxi e língua portuguesa, a memória, o corpo, a luta e o resgate da existência indígena feminina, todos sob a autoria de Sony Ferseck2, ou Wei Paasi (irmã em sol), em macuxi.

Este artigo investigará um poema sem título3 da obra supracitada, que surge como um resgate geracional de mulheres indígenas. Argumenta-se que a temática do texto constrói uma noção de tempo coletivo, geracional e espiralar, de acordo com Martins (2021). Fundamentalmente, a análise será ancorada pela teoria decolonial e de gênero, segundo Lugones (2014). Ademais, a investigação criará diálogos com os textos de Munduruku (2018), referentes à apropriação da escrita como forma de (re)existência; com o artigo de Silva e Gadelha (2025), que oferece apontamentos sobre a obra de Ferseck. Por fim, recorrerá a Baniwa, Kaingang e Mandulão (2023), para amparar a investigação de um poema que versa, essencialmente, sobre a afirmação existencial de mulheres indígenas.

Antes da análise propriamente textual de “nós mulheres”, torna-se necessário ponderar sobre o impacto de uma expressão artística como a de Ferseck, que adentra e expande as expectativas do espaço literário contemporâneo, tensionado entre disputas e reconfigurações de modelos literários historicamente pré-estabelecidos.

A escrita tecida por mãos indígenas

A literatura, como ferramenta de expressão artística que contempla a expressão de mundos, sonhos, angústias e tessituras de memórias específicas de um povo, sempre foi território de embate e exclusão. Conforme aponta Casanova (2002, p. 38), a tradição canônica “permite decidir o que é ou não literário [...] delineia o limite e a norma do que é e será literário, toma-se no sentido literal o “modelo” de toda literatura futura”. Já no século XXI, vislumbra-se que tal “modelo”, embora ainda insistente, paulatinamente é derrubado por expressões e ensejos artísticos que, antes cerceados ou silenciados dentro de uma determinada raça ou etnia, lutam por existências reconhecidas - seja pela inserção social, política ou artística; mais especificamente, a literatura indígena contempla um grupo com desejo de expressão4 pela escrita, que se apropria das armas do colonizador - a língua portuguesa, a publicação em formato livro - para as ressignificar e refletir sobre as suas próprias questões existenciais.

No caso deste objeto de análise, o discurso lírico ganha contornos ainda mais pungentes; para as mulheres indígenas, a apropriação da escrita como uma forma de expressão surge como ferramenta de denúncia da exclusão, da solidão, do abandono, da desumanização constitutiva da colonialidade de gênero (Lugones, 2014), movimento que realiza a persona lírica de Ferseck. Em “nós mulheres”, há uma lírica que contempla as gerações de mulheres indígenas pelos tecidos próprios da invenção poética, como a semântica e a sintaxe, para construir um mundo simbólico próprio. Este movimento de reconfiguração dos recursos linguísticos encontra eco nas palavras de Daniel Munduruku (2018, p. 82), uma vez que “É preciso interpretar. É preciso conhecer. É preciso se tornar conhecido. É preciso escrever - mesmo com tintas do sangue - a história que foi tantas vezes negada”.

Pelas “tintas com sangue” que evocam a escrita do poema, vislumbra-se uma expressão lírica que amplia o caleidoscópio do discurso lírico contemporâneo, nega o silenciamento autoral - “Nossa classe, nossa cultura, o homem branco, não estão todos nos dizendo que escrever não é pra mulheres como nós?” (Anzaldúa, 2021, p.47) - e afirma as subjetividades artísticas de uma comunidade que forja, na contemporaneidade, um espaço todo seu na literatura.

A mulher na porta

A artista Georgina Sarmento antecede o poema “nós mulheres” com um bordado que submerge a leitora na liricidade que a aguarda. A ilustração retrata uma mulher, castanha, ampla, ancorada no batente de uma casa modesta. A artista não desenvolve a expressão dessa figura feminina; o rosto é limpo de olhos, boca, nariz. Porém, capta-se, imediatamente, a sua postura melancólica. A mulher bordada, assim, introduz um poema que medita sobre essa subjetividade. Analisemos, então, os versos de “nós mulheres”, que dão voz aos pensamentos que poderiam ocupar a memória e o coração da mulher em contemplação:

nós mulheres invisíveis
aprendemos pela casa
a linguagem dos cômodos
apertando entre os dentes
nosso silêncio de sangue
empurrado pelos quartos
como os filhos que teremos
& que nos odiarão pelo espelho
(mas ainda assim o espelho virá).

nós mulheres domésticas
desaprendemos do nosso antigo nome
que antes dizia bicho, rio, sol, beija-flor
pra virar água de batismo-catequese-
castigo
rima qualquer entre o som & o desprezo
que não grita mais a palavra deus
(mas que ainda assim dito)

nós mulheres silenciosas
muito menos parecidas com as outras
vivas ou mortas
guardamos entre as pedras os ossos
dos homens que jamais nos predisseram
assim como a eles
só nos restam cantigas rupestres
encrustadas nos ermos de não ir
(mas que ainda assim iremos)

que não se enganem

toda aquela que faz silêncio
guarda o intocável
assim permanecemos
tecendo a vida como a
fibra de um ornamento
uma língua de fumaça
que só diz palavras de cura
afiando a lâmina pela terra
em luta
nós mulheres infinitas.

*Para as mulheres indígenas.
(Ferseck, 2022, p. 41-42).

“Nós mulheres” é um poema sobre resgate da memória entre gerações. A voz lírica de Ferseck torna-se representante de uma comunidade: as silenciadas e esquecidas mulheres indígenas brasileiras. A temática, que se debruça sobre o esquecimento dessas vivências e subjetividades, denota a avassaladora violência da colonização transposta ao gênero lírico: “Passaram por cima da memória e escreveram no corpo dos vencidos uma história de dor e sofrimento. [...] Tiveram [os indígenas] que aceitar a dura realidade dos sem memória, gente das cidades que precisa guardar nos livros seu medo do esquecimento” (Munduruku, 2018, p. 82). Diferente da “gente da cidade”, que necessitam dos livros para guardar seus esquecimentos, a escrita indígena, neste poema, trabalha a partir do esquecimento imposto sob a brutalidade colonizadora e posterior desamparo - físico, emocional e existencial - de gerações de mulheres indígenas.

O poema, conforme será argumentado na próxima seção, reflete em sua própria estrutura a memória geracional como lacuna: a ausência de um título e dos sinais de pontuação desloca o texto da gramática normativa em língua portuguesa e transmuta os sentidos que poderiam se ancorar nos apostos e nas orações coordenadas assindéticas; a falta da vírgula reconfigura os sentidos semânticos. Essas lacunas personificam as múltiplas e ignoradas existências das mulheres indígenas, movimento que surge da inspiração máxima de Weiyamî: mulheres que fazem sol. Conforme Silva e Gadelha (2025), o impulso para a obra “surgiu da observação da escritora, que notou uma ausência de mulheres como protagonistas nas histórias contadas pelos anciãos indígenas”. Vejamos, a seguir, de qual forma ela representa e eleva a existência dessas mulheres como grupo.

A poética como espelho: infinitivos reflexos de uma coletividade

Os versos iniciais das três primeiras estrofes, “nós mulheres invisíveis”, “nós mulheres domésticas”, “nós mulheres silenciosas”, surgem sem a vírgula após “nós”. Em primeiro lugar, na ausência do aposto que colocaria a qualidade deste pronome reto “nós”, é possível interpretar mais de um sentido: “nós”, na ausência de vírgula, reconfigura a classe gramatical de pronome para substantivo. Em segundo lugar, a escolha sintática de ignorar a vírgula, além de ampliar o sentido da ausência, num vórtex que se comunica com a própria temática do poema, solidifica a ideia de não-pessoa, de ausência de corpo e de identidade destas mulheres “invisíveis, domésticas, silenciosas”. A sintaxe do poema, dessa forma, percorre a “coisificação” do “nós” em substantivo. No entanto - e de forma paradoxal - também une estas mulheres em um grupo: não há uma identidade, mas várias, múltiplas, que se encontram dentro de “nós” coletivos.

Um nó é articulado pelo entrelaçamento de fios, de linhas, que, no poema, surge como linhagem: a coisificação, a anulação destas mulheres pela violência de séculos. Aliado a isto, os versos não apresentam ponto final ou letra maiúscula; não há, sintaticamente, o fim ou início das orações. Esse outro recurso sintático intensifica o sentido de “nós” ao retratar, em sua estrutura lírica, que a retomada e a construção de memória coletiva não seguem uma noção cronológica de acontecimento; é impossível, os versos parecem dizer, apontar o início de algo que não possui fim. Esta percepção do tempo, ancorada na estrutura que difere da concepção filosófica ocidental da linearidade temporal, é materializada em uma cosmopercepção espiralar:

o tempo pode ser ontologicamente experimentado como movimentos de reversibilidade, dilatação e contenção, não linearidade, descontinuidade, contração e descontração, simultaneidade das instâncias presente, passado e futuro (Martins, 2021, p. 14).

Ao simbolizar o sentimento de relações temporais espiralares, que guardam a ausência e o silenciamento de linhagens emaranhadas, a estrutura do poema “nós mulheres” personifica o enfrentamento decolonial por meio do discurso lírico - a ressignificação das armas colonizadoras - e encontra um espaço de cura dentro da simultaneidade da memória sem fronteiras entre presente, passado e futuro, dentro de um tempo que “inaugura os seres no próprio tempo e os inscreve em suas rítmicas cinesias” (Martins, 2021, p. 13). Assim, o poema reflete uma cosmopercepção feminina e indígena que demole, pela lírica que amálgama inícios e fins sob a ausência de ponto final e de letras maiúsculas, a colonização da memória, “das noções de si das pessoas, da relação intersubjetiva, da sua relação com o mundo espiritual, com a terra, com o próprio tecido de sua concepção de realidade, identidade e organização social, ecológica e cosmológica (Lugones, 2014, p. 938).

Nota-se, além disso, uma estrutura semântica própria do universo poético: o enjambement, ou encavalgamento, que materializa sintaticamente a noção de “nós” como novelo de existências e percorre todos os versos do poema. A partir desse recurso, os versos criam uma dependência de sentido entre si; isoladamente, não é possível apreender um sentido completo, evidente, por exemplo, em “pra virar água de batismo-catequese-/castigo”. Nestes dois versos, o enjambement entrega o golpe que fere no espaço em branco entre os versos: na perspectiva das mulheres indígenas, batismo e catequese só encontram o sentido completo quando o “castigo”, isolado no verso posterior, surge como fundamental elemento semântico.

Por meio desse laço semântico, o nó que amarra estas invisíveis, silenciosas e domésticas mulheres forja a sensação de união e proximidade entre gerações anônimas. Conforme já mencionado, a voz lírica de Ferseck surge como representante de um grupo anônimo, sem distinção de tempo: é a construção da brutalidade perante o olhar das mulheres indígenas. O léxico do poema, além disso, ampara a semântica do discurso lírico que vislumbra, de forma nua, os sintomas da violência. Surgem, assim, palavras que marcam o universo de existência destas mulheres: sangue, ódio, castigo, morte, ossos, lâmina.

A construção desse léxico, além de engendrar uma disposição de brutalidade à leitura, também desestabiliza momentos normalmente apresentados por sentimentos plácidos e cria situações imagéticas que revestem a maternidade e o amor romântico sob a melancolia dos versos. Em “nós mulheres”, a maternidade surge por desestabilizadoras imagens: o sangue, na sugestão de parto (e de morte), “empurrado” pelos quartos, assim como os filhos, que, ao surgirem na primeira estrofe, também se tornam agentes do desprezo (“como os filhos que teremos/& que nos odiarão pelo espelho/) por suas matriarcas. Aqui, a linhagem indígena (simbolizada pelo espelho pelos quais miram os olhos infantis) é fonte de menosprezo pela descendência dessas mulheres.

Ainda sobre as relações afetivas e desencontradas do poema, na terceira estrofe, a persona lírica tece sobre outro tipo de amor, também fonte de desilusão. As figuras masculinas, que poderiam sugerir união e companheirismo, são ossos escondidos entre pedras. A imagem de companheiros reduzidos ao pó (incapazes de acompanhar a infinitude dessas mulheres), deve-se ao fato de que esses homens negam às mulheres indígenas a fonte de afeto; não são companheiros que, pela perspectiva da voz lírica, anteciparam ou projetaram uma vida em comum, vide a presença do verbo predizer no verso “dos homens que jamais nos predisseram”. A solidão afetiva dessas mulheres, seja pelos frutos da maternidade ou pela relação romântica, configura-se, dessa forma, como uma “consequência semântica da colonialidade”. De acordo com Lugones,

A consequência semântica da colonialidade do gênero é que “mulher colonizada” é uma categoria vazia: nenhuma mulher é colonizada; nenhuma fêmea colonizada é mulher. [...] Diferentemente da colonização, a colonialidade do gênero ainda está conosco; é o que permanece na intersecção de gênero/classe/raça como construtos centrais do sistema de poder capitalista mundial (2014, p. 939).

O que resta, segundo a persona poética, é enterrar os restos destes homens entre pedras e ouvir as cantigas rupestres em “ermos de não ir”. A estrofe encerra com o parênteses “mas que ainda assim iremos”, verso que faz eco à ideia do espelho da primeira estrofe: a linhagem, a herança existencial e cultural, na perspectiva indígena, configuram-se como pontos de retorno, assim como a memória em nós espiralares; diferente dos filhos que são gerados e dos homens que são enterrados, as mulheres indígenas entendem o caráter inexorável do tempo em constante retorno: é estrada que, não obstante erma e auspiciosa, ainda assim será percorrida.

Se o afeto, “em nós mulheres”, é fonte de arestas e decepções, uma outra presença acossadora paira ao longo do texto: na segunda estrofe do poema, surge a sombra secular do catolicismo. O nome “deus”, em letra minúscula, retoma a indiferença e a ausência de comunhão entre a comunidade indígena e os dogmas desta religião imposta pelos colonizadores portugueses. O impacto de uma relação forjada pela submissão, pelo assassinato, pelo silenciamento, é consumado no esquecimento do próprio nome (“desaprendemos do nosso antigo nome”). Apagados, esses nomes guardam a liberdade existencial das mulheres indígenas: bicho, rio, sol, beija-flor; eles materializam, no plano do léxico, o que Lugones identifica como o cerne do projeto colonial cristão:

Assim, à medida que o cristianismo tornou-se o instrumento mais poderoso da missão de transformação, a normatividade que conectava gênero e civilização concentrou-se no apagamento das práticas comunitárias ecológicas, saberes de cultivo, de tecelagem, do cosmos, e não somente na mudança e no controle de práticas reprodutivas e sexuais (2014, p. 938).

É nesse contexto de apagamento total que a efêmera nesga de beleza natural ganha sua pungência: por um breve momento, enquanto a leitora acompanha o poema, encontra-se uma nesga que abre para a natureza, para a luz solar, para o barulho da água amena, para o colorido do beija-flor. Tais belezas, no entanto, logo encontram as sombras dos ritos católicos (batismo, catequese) e seus nomes forçados. A relação externa que experienciam as mulheres indígenas, portanto, seja por meio das ausentes relações afetivas entre filhos e parceiros, seja por meio da anulação existencial de suas raízes pelo projeto colonial, encontra-se no plano do desemparo.

Dessa forma, a persona lírica de Ferseck amplia a noção de um grupo de mulheres que encontra dificuldades para se vislumbrar em totalidades subjetivas, conforme se vislumbra na terceira estrofe do poema: “muito menos parecidas com as outras/vivas ou mortas”. A possibilidade destas “outras”, dentro de um texto que remete continuamente ao sentido do nó e da linhagem, aponta para aquelas que primeiro sentiram o peso físico, existencial e emocional da colonização no Brasil. O verso acima sugere a alienação de linhagens corrompidas pela brutalidade colonizadora, ao mesmo tempo em que traz uma curiosa locução adverbial de modo (“muito menos”), que simboliza a ambiguidade de construção identitária de um povo. Este recurso linguístico aponta para o excesso (“muito”) - o peso do reconhecimento, de encarar uma linhagem perpetuamente corrompida pela colonização, pela religião, pelo ostracismo social - ao mesmo tempo que vacila entre o “menos”, que indica falta, redução, ausência. Essa vacilação encontra o ápice pelo enjambement com o próximo verso: “vivas ou mortas”. O movimento destes versos, embora vacilante, caminha para a expressão de um esgar de vida que ousa e se rebela, pela lírica, por meio do tempo espiralar, que anula a distância entre vida e morte.

Por fim, a última estrofe do poema entrega algo que, até então, parecia escondido dentro da melancolia das mulheres que se enxergam entre as sombras da casa, mirando os reflexos dentro de um espelho de mil faces: a pulsão pela revolta e pela agência existencial, através da vida e da cura. Vejamos, portanto, como surge o impulso e a tessitura do enfrentamento pela verve lírica.

Tecendo o impulso para viver: a lírica que cura

A linguagem - aspecto fundamental de afirmação existencial, para uma mulher macuxi - surge aqui como afirmação que denota o apagamento linguístico - “uma língua de fumaça” - mas que ainda é apropriada às palavras de cura e de comunhão. O intocável, que no poema simboliza a memória, o passado sem fim e circular, a herança de uma etnia violentada sob a colonização e despertencimento, é apreendida pelas mãos destas mulheres que, contra o silêncio, constroem fibras de vida: “assim permanecemos/tecendo a vida como a/fibra de um ornamento”.

A noção de protagonismo e agência dos últimos versos traz ao texto um movimento coletivo, não pautado na individualidade da voz poética de Ferseck, mas sim por meio da tessitura de muitas vozes femininas: “quando uma indígena está ocupando um espaço, junto com ela está todo seu povo. Somos carregadas do conhecimento de nossas avós e a continuidade nessa geração” (Baniwa, Kaingang, Mandulão, 2023, p. 9). No caso de um poema que protagoniza as experiências subjetivas das mulheres indígenas, a fibra lírica é um discurso afiado em lâmina. Pela apreensão da língua forçada e apreendida por estas gerações de mulheres infinitas, há a possibilidade de afirmar a luta e expor, pelo domínio das ferramentas linguísticas e literárias, uma expressão de afirmação de vida.

A terra, nesta perspectiva lírica, é matéria de criação literária - que perpassa pela melancolia, mas não é aniquilada por ela - em diálogo com o “saber” das silenciosas gerações de mulheres indígenas: “As mulheres jovens cuidam das avós, dando apoio e suporte na casa e na roça, e estas, por sua vez, ensinam tudo o que aprenderam para as mais jovens, garantindo que aquele saber, ou saber-fazer, possa contribuir na continuidade da vida” (Baniwa, Kaingang, Mandulão, 2023, p. 23). A agência pelo discurso lírico, em “nós mulheres”, torna-se a lâmina que rasga o silêncio e constrói o laço que abraça a existência das mulheres indígenas em comunidade, por meio de discurso que encerra num enjambement em invólucro final do que pulsa entre os versos: “em luta”.

Conclusão

Assim, retorna-se à imagem que introduz o poema “nós mulheres”: a mulher em contemplação silenciosa na porta de sua casa. A análise aqui conduzida permite decifrar o universo de reflexões que sustenta sua postura, pela memória não-linear que circunda seus instantes, os desafetos nascidos do próprio sangue da linhagem, a beleza do canto do pássaro. Sobretudo, foi identificado o sentimento que não anula a melancolia, mas a coloca em posição de fortaleza: o “intocável” guardado no silêncio, semente da luta.

Para vislumbrar esse intocável, o enfrentamento poético de Sony Ferseck ancora-se por uma apropriação radical das ferramentas do colonizador. Ao longo da investigação, evidenciou-se como a sintaxe do poema (o “nós” substantivado, a ausência de pontuação, o enjambement, o léxico que configura as experiências particulares das mulheres indígenas) constrói um sujeito coletivo dentro de um tempo espiralar, expõe a violência e o apagamento colonial e encerra o texto lírico, na última estrofe, com uma afirmação de vida tecida, de lâmina afiada, de uma língua que cura e luta.

A escrita, portanto, é o espaço onde se afirma uma cosmopercepção própria, por meio de um completo domínio das ferramentas líricas para fins de reexistência. Esse caminho pela escrita, lembra Krenak (2018), não se assenta nas exigências de uma modernidade, mas honra uma perspectiva autoral que, no caso do poema de Ferseck, honra por se configurar como uma escrivã “da memória do nosso povo, e isto se justifica obviamente não apenas fazendo uma imitação da história antiga, mas interagindo, nos habilitando, nos capacitando a cuidar da nossa vida sem fazer uma imitação exagerada da vida moderna e ocidental” (Krenak, 2018, p. 29).

A presença e a investigação lírica de uma obra como Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022) desloca e enriquece o discurso feminista, desafiando suas versões canônicas e eurocêntricas. A análise de “nós mulheres” comprova a potência e a necessidade de articular as teorias feministas às vozes e ponderações decoloniais, uma vez que “o feminismo não fornece apenas uma narrativa da opressão de mulheres. Vai além da opressão ao fornecer materiais que permitem às mulheres compreender sua situação sem sucumbir a ela” (Baniwa, Kaingang, Mandulão, 2023, p. 94). Por meio desse diálogo, a contribuição poética indígena pode ser plenamente acolhida e investigada em sua complexidade lírica e estrutural, a fim de que se articulem caminhos que reconheçam e ampliem as infinitudes contidas no verso final do poema.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

Referências

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  • FERSECK, Sony [Sonyellen Fonseca Ferreira] (2022). Weiyamî: mulheres que fazem sol. Boa Vista: Wei Editora. [ilustração: Georgina Sarmento].
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  • LUGONES, María (2014). Rumo ao feminismo decolonial. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 22, n. 3, p. 935-952. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/ref/a/QtnBjL64Xvssn9F6FHJqnzb/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 20 jan. 2026.
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  • MARTINS, Leda Maria (2021). Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó. E-book.
  • MUNDURUKU, Daniel (2018). Escrita indígena: registro, oralidade e literatura. O reencontro da memória. In: DORRICO, Julie; DANNER, Leno Francisco; CORREIA, Heloisa Helena Siqueira; DANNER, Fernando (orgs.). Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção. Porto Alegre: Editora Fi . p. 81-83. Disponível em: Disponível em: https://atempa.org.br/wp-content/uploads/2020/09/Literatura-ind%C3%ADgena-contempor%C3%A2nea-Livro-.pdf Acesso em: 10 jan. 2026.
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  • SILVA, Elen Karla Sousa da; GADELHA, Dariana Paula Silva (2025). Corpo e território: A poética de Sony Ferseck na literatura indígena contemporânea. Organon, Porto Alegre, v. 40, n. 79, p. 1-16. [Dossiê temático: Literaturas indígenas: possibilidades e limites]. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/organon/article/view/142929/95157 Acesso em: 19 jan. 2026.
    » https://seer.ufrgs.br/index.php/organon/article/view/142929/95157

1

Wei, no dialeto macuxi, significa “sol”. Para o povo da etnia, o sol é visto como presença e símbolo feminino.

2

Pseudônimo de Sonyellen Fonseca. É por meio deste pseudônimo que a autora assina a obra na qual o poema “nós mulheres” está inserido, por isso a escolha em utilizar, nesta análise, Sony Ferseck.

3

A fim de facilitar a fluidez do texto, o poema será intitulado “nós mulheres”. A escolha deve-se à anáfora das três primeiras estrofes, que sintetiza a verve e a temática do poema.

4

Não desejo essencializar a escrita como única e legítima fonte de expressão. Conforme Kambeba (2018, p. 39), a expressão artística sempre foi forte presença na cultura indígena: “Os povos transmitiam seus conhecimentos pela oralidade e pelos desenhos que faziam nas pedras e em seus artefatos como vasilhas feitas de cerâmicas, potes, etc. Os grafismos tinham seu significado e eram de fácil leitura e interpretação entre todos. A arte de desenhar não indicava apenas beleza, mas comunicação pelo imagético”.

Editora

Cristiane da Silva Alves

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Fev 2026
  • Aceito
    20 Jul 2026
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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