Resumo
A produção de Alberto Mussa que tem atraído - ainda que pouca - atenção da crítica é sobretudo a ficcional. Este artigo toma um caminho distinto, detendo-se na crítica literária feita pelo autor e veiculada em jornais. A partir do levantamento mais exaustivo já feito desse material, oferece-se uma primeira aproximação, ainda quantitativa, do perfil de Mussa enquanto crítico literário, cujos maiores veios são resenhas avulsas publicadas em jornais cariocas e paulistas e os textos de sua coluna Manual do Garimpo, primeiro no Jornal do Brasil (entre 2007 e 2008), depois no Rascunho (entre 2012 e 2015). Assim, pretende-se introduzir uma nova dimensão nos estudos sobre Mussa, com possíveis repercussões inclusive para se entender sua ficção.
Palavras-chave:
Alberto Mussa; crítica literária; literatura brasileira contemporânea
Abstract
When it comes to Alberto Mussa, the writing that has attracted most-even if relatively few-critical attention is his fiction. This study heads in a different direction by focusing on his literary criticism, as published in newspapers. Offering the most exhaustive survey of this material yet, the following text suggests the first steps to understanding Mussa the literary critic. We start with a quantitative approach of the data regarding this side of his writing. The two main bodies of work within it are his book reviews, published in newspapers from Rio de Janeiro and São Paulo, and the column Manual do Garimpo-loosely translated as Gold-Mining Manual-first in Jornal do Brasil (between 2007 and 2008), then in Rascunho (between 2012 and 2015). Thus, we seek to introduce a new perspective on Mussa, with possible repercussions in the study of his fiction.
Keywords:
Alberto Mussa; literary criticism; contemporary Brazilian literature
Resumen
La producción de Alberto Mussa que la crítica literaria más ha estudiado -aunque haya pocos estudios en general- es sin duda su ficción. Este paper quiere intentar una nueva mirada, volviéndose a su crítica literaria, sobre todo la que han publicado diarios de Rio de Janeiro y São Paulo. Localizamos todos estos textos y hacemos un análisis inicial, centrado en apuntes cuantitativos. Los dos conjuntos más significativos son las reseñas de libros -brasileños o no- en los diarios de Rio de Janeiro y São Paulo y la columna que Mussa mantuve, llamada Manual de Garimpo -en una traducción libre, un Manual de Minería-, primero en el Jornal do Brasil (entre 2007 y 2008), después en Rascunho (entre 2012 y 2015). Así, se busca introducir una nueva perspectiva sobre la obra de Mussa, quizás con consecuencias también para la interpretación de su ficción.
Palabras-clave:
Alberto Mussa; crítica literaria; literatura brasileña contemporánea
O escritor carioca Alberto Mussa vê-se, antes de tudo, como um ficcionista. É o que se deduz de livros como Meu Destino é Ser Onça (Mussa, 2009) ou A Origem da Espécie (Mussa, 2021), nos quais ele se afasta - ao menos explicitamente - de uma pegada ficcional, mas não deixa de reivindicar a autoridade dessa forma de escrita para validar sua perspectiva. Em Meu Destino é Ser Onça (Mussa, 2009, p. 27), por exemplo, a condição de ficcionista é decisiva, talvez mais do que se costuma considerar na discussão sobre o livro: a voz autoral diz que “quis fazer literatura”, que produziu “um texto novo” a partir dos rastros de mitos tupinambás que teria detectado em fontes bastante diversas. Já em A Origem da Espécie (Mussa, 2021, p. 19-20), uma voz autoral muito similar define o livro como um “ensaio literário, de espírito bastante livre”, e a si mesmo como “um romancista, um contador de histórias”, o que teria levado pessoas próximas inclusive a desencorajá-lo do projeto, pois a análise dos mitos do roubo do fogo seria um tema “que não calha bem a romancistas”. Além disso, é a ficção de Mussa que tem interessado à (pouca) crítica acadêmica dedicada aos seus textos.1
Este artigo procura outro ângulo. Concentra-se na crítica literária - sobretudo na forma de resenhas e do colunismo de Mussa - publicada em quatro jornais relevantes da imprensa, com um recorte temporal específico de vinte anos, entre 2005 e 2024. Como se trata de uma produção ainda não reunida em livros, isto é, espalhada pelos periódicos em que primeiro veio a público, aqui se busca oferecer um mapeamento desses textos, e, depois, apresenta-se uma proposta inicial de análise. Nesse sentido, combinam-se o uso de quadros e tabelas e a discussão de questões literárias a fim de oferecer uma imagem dessa produção, que em estudos futuros, salvo engano, pode ajudar a esclarecer aspectos da escrita ficcional de Mussa, bem como de sua inserção no cenário jornalístico e editorial brasileiro.
Como pressuposto, tem-se que Mussa pode pensar a si mesmo como um ficcionista, mas isso não obriga a reflexão crítica a se ater de modo exclusivo nem preferencial sobre essa sua faceta. Sua reivindicação é legítima, e até necessária, mas talvez não suficiente para compreender sua atuação. Este artigo, assim, quer contribuir para um entendimento mais complexo, porque multifacetado, da obra de Alberto Mussa.
Recorte e levantamento
O discurso crítico, em sentido lato, não é estranho a Alberto Mussa. Quem conhece sua ficção sabe que desde seu primeiro livro, Elegbara (1997), há uma tendência muito forte nos textos a enveredar por passagens dissertativas. Costuma valer-se de exegeses de textos alheios, alguns de modo mais explícito, outros de modo mais velado - operações todas que se encontram já no seu primeiro conto, “A comunhão de Afonso Ribeiro” (Mussa, 1997, p. 7-24). Isso reflete não só o temperamento, como também a trajetória do escritor, que antes de sua estreia como ficcionista, havia se formado em Letras pela UFRJ, trabalhado como lexicógrafo no dicionário de Antonio Houaiss e defendido um mestrado sobre o impacto de línguas africanas no português brasileiro, pela sua alma mater2 - ou seja, teve muito contato e inclusive praticou o discurso crítico. A familiaridade com ele se manteve em publicações posteriores, como nos já mencionados casos de Meu Destino é Ser Onça (Mussa, 2009) e A Origem da Espécie (Mussa, 2021), mas se mostra de modo mais discreto e não menos constante no exercício da crítica literária propriamente dita.
Ela se estabelece em alguns suportes preferenciais: a imprensa, os paratextos de livros e algumas palestras, por exemplo, duas oferecidas na Academia Brasileira de Letras.3 Do que se pôde levantar pela consulta a acervos de jornais, tanto nos sites dos próprios veículos quanto na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, e pela consulta a variados bancos de dados bibliográficos disponíveis na internet, a predominância fica mesmo nos veículos de imprensa, em particular nos jornais, quando analisados em termos quantitativos, e ao longo de um grande intervalo de tempo. Embora os paratextos tenham mais extensão e aprofundamento, como se observa no prefácio ao romance A República dos Sonhos, de Nélida Piñon (Anexo 1), e no posfácio aos contos reunidos em Os Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe (Anexo 1), esse tipo de crítica se mostra menos frequente, mais pontual, mais localizado - por isso, mais incerto como corpus de investigação.
Daí a escolha do recorte deste artigo, concentrado na produção para jornais.4 A rigor, a pesquisa se restringiu a cinco veículos específicos: Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo, Jornal do Brasil e Rascunho. A pesquisa partiu dos quatro primeiros, enquanto jornais de maior circulação nos dois maiores polos do circuito literário, jornalístico e editorial do Brasil, Rio de Janeiro - por onde Mussa transita com maior desenvoltura - e São Paulo. Como não encontrei nenhum texto seu no Estadão, expandi o recorte para o jornal Rascunho, de Curitiba, pois o escritor lá foi colunista entre 2012 e 2015.
Para essa informação, vale um esclarecimento adicional. Na verdade, Mussa foi colunista tanto do Jornal do Brasil quanto do Rascunho, ambos com um mesmo projeto: o Manual do Garimpo. Publicada no Jornal do Brasil entre abril de 2007 e abril de 2008, sempre no suplemento Idéias & Livros, a seção foi reativada no Rascunho, indo de agosto de 2012 a março de 2015. Em ambos os casos, a periodicidade era mensal, e a proposta, a mesma: Mussa comentaria um livro ou uma coleção que o leitor poderia encontrar com maior ou menor facilidade em sebos pelo país. Não à toa, todo texto se encerrava com uma indicação de preço que, para o escritor, seria aceitável, caso o leitor aderisse à sugestão. A retomada da coluna no Jornal do Brasil pelo Rascunho foi total: todos os textos saídos entre 2007 e 2008 foram republicados, com raríssimas e ínfimas alterações5, entre 2012 e 2015.
À parte o Manual do Garimpo, Mussa também praticou a crítica literária de jornal em sentido estrito, ou seja, por meio de colaborações ocasionais, sem periodicidade definida, em resenhas de lançamentos escritas e publicadas conforme a sua disponibilidade e a do jornal. Isso se reflete na produção, altamente esporádica, já que não ultrapassa três resenhas por ano, apesar de se estender por quase uma década e meia, entre 2005 e 2019.
Correlato às resenhas e às colunas, há um conjunto de textos também veiculados nesses jornais, mas cuja classificação não apresenta a mesma facilidade. Dentre eles, há os que, afastando-se da crítica literária, estariam mais distantes do escopo deste artigo, por se aproximarem do depoimento pessoal,6 embora mantenham ligação com a literatura. Outros há que se configuram como um artigo de intervenção no debate público,7 a partir de temas literários. E há, por fim, aqueles que se configuram como um ensaio,8 texto dissertativo sem uma obra recente e determinada como gancho (tal qual a resenha), nem a moldura de uma seção fixa (tal qual a coluna). Na seção mais adiante, de breve análise quantitativa, não considerei esses textos de classificação incerta, atendo-me às resenhas e às colunas.
Apresentada a justificativa para o tipo de produção e os veículos em que a rastreamos, cabe justificar o recorte temporal, de 2005 a 2024. É simples: foi o intervalo mais amplo com que pude trabalhar. Não se encontrou qualquer texto crítico do próprio Mussa publicado em jornal antes de 2005, daí o marco inicial explícito ser esse ano, embora se tenha investigado inclusive as décadas anteriores. Já 2024 foi o ano mais recente que a pesquisa pôde vasculhar por inteiro. Trata-se, portanto, do máximo de abrangência temporal dentro das nossas circunstâncias e condições de pesquisa. Como é um intervalo bastante extenso, quase a totalidade da carreira do Mussa ficcionista, julgo que a amostra é suficientemente representativa para servir aos estudos sobre o autor.
A listagem completa das referências levantadas pode ser consultada na Tabela do Anexo I. Ali se incluem não só as resenhas e colunas, cujo recorte interessa mais a este artigo, como também os textos mais difíceis de classificar, já mencionados, e presentes em outras publicações, sejam periódicos, sejam livros.
Como se pode notar, ao todo são 75 textos, de que se deve descontar 11 republicações, todas elas referentes à coluna Manual de Garimpo. Portanto, são 64 textos. Conforme a Tabela 1, dividi-os em quatro grupos: Coluna (43 textos, incluindo as 11 republicações), Paratexto (6 textos), Resenha (15) e Outros (11). Vale a pena explicitar os critérios das categorias Paratexto e Outros, visto que Coluna e Resenha já foram esclarecidas.
Com “Paratexto”, recupero em sentido lato o conceito de Gérard Genette (2009), que o compreende a grosso modo como o material bibliográfico que acompanha um dado texto, conforme sua apresentação em livro, por exemplo. No caso específico de Mussa, entram aqui três tipos muito nítidos de paratexto: orelhas de livro para o romance Mandingas da Mulata Velha na Cidade Nova, de Nei Lopes (Anexo 1), para A geografia da pele, de Evaristo de Miranda (Anexo 1), e para Araribóia (Anexo 1), de Rafael Freitas da Silva; um longo prefácio interpretativo de A República dos Sonhos, de Nélida Piñon (Anexo 1); e um posfácio para Os Assassinatos da Rua Morgue, de Edgar Allan Poe (Anexo 1). Por se tratar de um artigo, “Virilidade feminina e poesia árabe” (Anexo 1) poderia entrar numa categoria especial (capítulo de livro, por exemplo), mas, como teve veiculação em livro, optei por incluí-lo aqui. Embora o recorte da minha discussão sejam os textos para a imprensa, julguei que valia a pena incluir esta categoria no Anexo 1 para facilitar pesquisas posteriores.
Já “Outros” se refere a uma miscelânea de textos veiculados todos na imprensa, conforme mencionado anteriormente: depoimentos, comentários, artigos, ensaios, etc. Pelo mesmo escrúpulo de completude, julguei que também cabia incluí-los neste levantamento. Como uma classificação mais precisa, ou ao menos conceitualmente mais transparente, exigiria um debate mais detido, optei pela solução provisória de uma categoria mais genérica e neutra. Mais adiante, em seção dedicada especificamente para este grupo de textos, aponto alguns aspectos de interesse para a pesquisa da produção nesta categoria.
Breve análise quantitativa e algumas conclusões preliminares
Feitos o levantamento dos textos e sua quantificação em termos gerais, cabe apontar alguns aspectos interessantes, que ajudam a entender a faceta de crítico literário de Alberto Mussa. As análises a seguir, como já dito, referem-se exclusivamente à produção para jornais, excluindo-se, portanto, da Tabela 1, a categoria Paratextos (6) e o ensaio para a Revista Brasileira, o que significa um total de 68 textos, entre os quais 11 são republicações.
Excluam-se, desde já, as conclusões óbvias, as confirmações numéricas do que se sabia por meio dos fatos. Talvez a mais evidente de todas: considerados segundo o seu local de publicação, isto é, a sede principal dos veículos de imprensa para os quais Mussa colaborou, os textos críticos do autor carioca evidenciam uma predominância de colaborações para jornais do Rio de Janeiro.
Para além do dado óbvio da naturalidade do autor, a predominância do Rio de Janeiro (26 textos, contra 22 inéditos de Curitiba e 9 de São Paulo, como se lê nas linhas 3, 5 e 8 da Tabela 2) explica-se também pelos seus contatos e amizades, inclusive na imprensa: o caso exemplar talvez seja o de sua proximidade pública com o jornalista Alvaro Costa e Silva, que trabalhava no suplemento Idéias & Livros do Jornal do Brasil à época das primeiras colaborações de Mussa para o veículo. A confirmação numérica talvez tenha algum interesse, mas certamente não traz nenhuma novidade.
Quando se espalha no tempo a colaboração para os jornais, no entanto, a situação ganha um interesse maior.
Para quem conhece a trajetória de Mussa, também aqui se tem uma confirmação numérica de informações e fatos conhecidos. Tomado como pista do interesse de editores de jornais pela produção de Mussa, o Gráfico 1 reforça a percepção de que existiriam alguns momentos-chave nessa trajetória: um primeiro, entre 2005 e 2008, com nítido predomínio de colaborações para (portanto, de interesse de) jornais cariocas; um segundo, mais agudo entre 2012 e 2015, mas ainda válido nos anos seguintes, com predomínio de colaborações/interesse em jornais fora do Rio de Janeiro. É verdade que, levando-se em conta de modo estrito o ineditismo, seria preciso alterar os dados referentes ao Rascunho entre 2012 e 2015, para considerar as republicações de textos do Jornal do Brasil. Mais exatamente, seria preciso descontar 2 textos de 2012, baixando para 3 o total deste ano para Curitiba; 5, de 2013, baixando para 7; e 4, de 2014, baixando para 8. No entanto, isso não contradiz a tendência identificada de um predomínio inicial no Rio de Janeiro, que passa depois para fora da cidade.
Quantidade de textos críticos (Colunas, Resenhas e Outros) de Mussa para quatro jornais, 2005-2019
No entanto, significativa mesmo é a coincidência da curva no Gráfico 1 com o que Alvaro Costa e Silva (2017) chamou de uma tripartição na obra de Mussa. Segundo o jornalista, a ficção de Mussa teria passado por três momentos: uma primeira fase de temas brasileiros (Elegbara, 1997, e O Trono da Rainha Jinga, de 1999); uma segunda, de visada “borgiana” ou “universal” (O Enigma de Qaf, 2004, e O Movimento Pendular, 2006a); e uma terceira, de síntese entre as duas, conforme manifesta no projeto do “Compêndio Mítico do Rio de Janeiro” (O Senhor do Lado Esquerdo, 2011; A Primeira História do Mundo, 2014; A Hipótese Humana, 2017; e A Biblioteca Elementar, 2018). Em outro trabalho, já se fez uma crítica à pertinência desse esquema de Costa e Silva (Balbi, 2022), crítica que esse levantamento numérico do Gráfico 1 poderia corroborar: em vez de descrever a dinâmica interna da elaboração literária de Mussa, talvez a tripartição de Costa e Silva reflita, na verdade, a percepção do ficcionista por quem trabalha na imprensa. Em outras palavras, a percepção da figura pública do escritor, e não tanto a dinâmica interna de sua obra.
Das duas análises feitas, uma apenas confirma o já sabido e outra talvez contribua um pouco mais. Seria interessante, no entanto, tentar extrair alguma informação de fato inédita a partir da visada quantitativa. Creio que se possa encontrar algo do tipo olhando exclusivamente para as Colunas e Resenhas, quando consideramos os livros que elas tomam por objeto. Dedicadas todas à área cultural, mais especificamente à literatura, elas oferecem um dado interessante, se analisadas segundo a nacionalidade do objeto.
Como tanto as resenhas quanto as colunas sempre tinham como foco algum livro (ao contrário da categoria Outros, por definição mais imprecisa), considerou-se a “nacionalidade” do objeto o fato de ser um trabalho publicado originalmente em língua portuguesa, por autor nascido no Brasil.9 Por exemplo: colunas dedicadas a Ubirajara, de José de Alencar, Vila dos Confins, de Mário Palmério, e Doramundo, de Geraldo Ferraz (Anexo 1), bem como resenhas de romances de Edney Silvestre, Marcelo Moutinho e Dalton Trevisan (Anexo 1), todas elas entraram nas respectivas categorias de “objetos de nacionalidade brasileira” da Tabela 3. No caso de colunas dedicadas à coleção Novelas Imortais, da Rocco, curadoria de Fernando Sabino, e à coleção Autores Africanos, da Ática, ou então nas resenhas sobre as Mil e Uma Noites na tradução de Mamede Mustafa Jarouche ou sobre os poemas de Rumi na tradução de Marco Lucchesi (Anexo 1), todas entraram nas categorias de “objetos de nacionalidade estrangeira” da mesma Tabela 3. Por uma questão de escrúpulos conceituais, destaquei nas linhas 4 e 18 da Tabela 3 quatro casos em que essa classificação me pareceu menos óbvia e merecedora de um debate mais cuidadoso,10 talvez para outra ocasião.
De saída, já se nota uma prevalência significativa de textos que tratam de objetos de nacionalidade brasileira, conforme a definição acima: mais que o triplo, considerando-se ou não as republicações (ver linhas 16 e 17 da Tabela 3). A distribuição ao longo do período temporal tende a confirmá-lo, mostrando prevalência sempre que havia uma produtividade maior. Sugere-se, assim, que, nesse intervalo, Mussa tendia à literatura brasileira quando podia se dedicar mais à produção crítica (Gráfico 2).
Quantidade de textos críticos (Colunas e Resenhas) de Mussa segundo a nacionalidade dos objetso
Há um dado que parece confirmar essa tendência. Ressalte-se a diferença entre as proporções de brasileiros e de estrangeiros nas resenhas e nas colunas, seja na sua distribuição ao longo do tempo (Gráfico 2), seja nos números absolutos (conforme Tabela 3).
Embora haja uma ligeira vantagem para as resenhas de objetos de nacionalidade estrangeira em relação à brasileira (6 contra 5, conforme as linhas 2 e 3 da Tabela 3), a distância não só é pequena, como também é ainda menor em relação ao que se chamou aqui de casos menos óbvios (4, conforme linha 4 da Tabela 3). Num universo de 58 textos (conforme linha 19 da Tabela 3), seria possível afirmar que há uma espécie de equilíbrio entre os três grupos.
A situação altera-se de modo drástico quando se olha para as colunas. A prevalência de brasileiros é inquestionável: cinco vezes mais, considerando-se as republicações (comparar linhas 7 e 14 da Tabela 3); sete vezes mais, desconsiderando-as (conforme linhas 8 e 12 da Tabela 3).
Se o dado objetivo já chama a atenção, ele se torna ainda mais esclarecedor quando o contextualizamos, isto é, quando o inserimos no universo jornalístico de que toda essa produção faz parte. Refiro-me ao fato de que a assinatura pessoal, individual, de uma coluna, tende a oferecer uma maior liberdade na definição das pautas; neste caso, dos livros comentados. Nas resenhas, isso varia: ora a proposta vem de quem a escreve, ora do próprio veículo; de todo modo, costumam depender muito mais da aprovação de quem edita o caderno, de quem encomenda ou aprova a encomenda da resenha. Isso reforça, portanto, a hipótese de um olhar preferencial de Mussa para a produção brasileira, que não se restringe aos lançamentos: afinal, a prevalência está quase toda nas colunas, onde não era preciso - e pela proposta mesmo do Manual do Garimpo, não era o caso - seguir o ritmo ou a proximidade dos lançamentos.
É evidente que, no caso de qualquer análise mais aprofundada da crítica literária de um autor, e ainda mais da sua ficção, uma abordagem quantitativa igual a deste artigo seria insuficiente. De fato, o esforço aqui é oferecer uma primeira aproximação a um conjunto de textos que foi pouco - salvo engano, nunca foi - discutido na fortuna crítica especializada. Menos do que propor uma metodologia a ser seguida, este artigo quer avançar o máximo possível, nas suas circunstâncias, em tarefas fundamentais como o levantamento de fontes primárias, análises preliminares e a apuração de materiais pertinentes.
Isso posto, mesmo aí já se percebe um encaminhamento interessante para a discussão da obra literária de Alberto Mussa. Tendo como pressuposto certa unidade de interesses, pensamento, atividade e produção na sua escrita, a confirmação de uma preferência pela literatura brasileira sugere um caminho importante, talvez decisivo, na leitura de seus contos e romances. Vale repetir que isso vai na contramão de certas tendências de leitura de sua obra, que não raro deram mais ênfase seja aos textos, seja aos modelos evocados no que Costa e Silva chamou de uma fase “borgiana” - a meu ver, com rendimentos críticos raramente satisfatórios.11
Encaminhamentos futuros: algumas possibilidades
Deixando um pouco de lado a abordagem quantitativa, agora com o olhar mais detido no corpus específico dos textos críticos de Mussa, surgem algumas possibilidades de estudo. Pretendo delineá-las aqui como uma forma de encorajar outras pesquisas que, concomitantes ou não às minhas, possam se debruçar sobre o mesmo material e, com sorte, iluminá-lo de outros ângulos, quem sabe chegando a conclusões distintas.
De modo mais pontual, caberia estudar com mais afinco a produção aqui reunida na categoria “Outros”. Desse conjunto relativamente heterogêneo, sem dúvida, o material mais interessante são dois artigos, “Monteiro Lobato racista” (Anexo 1) e “Me convençam” (Anexo 1), ambos dedicados à figura do autor de Urupês e suas conexões com ideias preconceituosas. Os textos de Mussa interessam não apenas por buscarem uma discussão franca, criticamente informada e, sobretudo, embasada na obra de Lobato, mas também por certa presciência. Afinal, incisivo desde o título, o artigo “Monteiro Lobato racista” saiu no Jornal do Brasil em 17 de maio de 2008, cerca de dois anos antes, portanto, da apresentação da queixa de conteúdo racista em Caçadas de Pedrinho, que deu início ao debate acirrado no início da década de 2010 - de que Mussa participou de modo mais explícito com “Me convençam”.12 É claro que nisso o escritor não tem nada de profeta, pois o desconforto e o questionamento em relação à obra de Lobato antecediam a intervenção do escritor carioca. Mas é digno de nota e interesse acadêmico o posicionamento tão explícito - aliás, tipo de posicionamento um tanto raro na escrita de Mussa - numa questão que tomaria o centro do debate literário do início da década passada.
Outro ângulo potencialmente rico de investigação do corpus crítico de Mussa seria fazer uma comparação entre sua produção para a imprensa e para livros alheios. Nos termos deste levantamento, portanto, uma análise dos conjuntos de Paratextos e de Colunas e Resenhas. Já se aludiu a essa possibilidade, com a indicação inicial da diferença substantiva de extensão entre, por exemplo, os paratextos de A República dos Sonhos e Os Assassinatos na Rua Morgue comparados às resenhas e colunas, com limite muito mais estreito de páginas. Para além do espaço da escrita e da sua consequência óbvia, isto é, a possibilidade de se alongar em uma ou outra questão determinada, creio que uma comparação entre esses dois tipos de crítica literária de Mussa extrairia temas recorrentes (a oscilação entre a narrativa ficcional moderna e os mitos, por exemplo), recursos argumentativos comuns (os panoramas que arriscam sintetizar milênios de produção literária, ora produzindo juízos tão inusitados quanto provocadores, ora se reconfortando em generalizações pouco rigorosas) e referências intertextuais frequentes (Heródoto aparece nos paratextos dos livros de Nélida Piñon (Anexo 1, p. 7) e Poe (Anexo 1); Lévi-Strauss, na resenha da tradução das Mil e uma noites por Mamede Jarouche (Anexo 1, p. 1) e no paratexto do livro de Poe (Anexo 1), etc. As informações aí levantadas poderiam se cruzar com os livros mais propriamente ensaísticos de Mussa (Os Poemas Suspensos (Mussa, 2006b), Meu Destino é Ser Onça (Mussa, 2009) e A Origem da Espécie (Mussa, 2021)) e, mais adiante, com a sua ficção, onde se faz um uso expressivo de temas, recursos e referências intertextuais muito semelhantes, se não idênticos.
Mas há possibilidades interessantes mesmo restringindo-se ao conjunto específico do material aqui levantado. Nesse sentido, talvez o principal veio esteja num estudo mais detido da coluna Manual do Garimpo, não só o exercício crítico mais extenso e consistente de Mussa, como também uma iniciativa muito peculiar. Afinal, ela parte de uma ambiguidade instigante em relação ao estatuto de mercadoria da obra literária: por um lado, apresenta-se como uma espécie de guia de consumo, até mesmo com indicação de preço, o que pode levantar alguma suspeita em juízos mais severos; por outro, esse impulso se direciona a um setor menos visado do mercado e da circulação do livro, os sebos, e propõe um resgate de autores e obras distantes dos holofotes das editoras, não raro a partir de ângulos inusitados, provocadores, ora generalizantes, ora desautomatizados. Em relação ao contexto, o Manual de Garimpo ocorre em dois intervalos, que talvez ofereçam paralelos interessantes de se explorar: primeiro, entre 2007 e 2008 no Jornal do Brasil, e depois entre 2012 e 2015, no Rascunho - respectivamente um jornal destinado ao público geral, outro especializado em literatura; ambas as vezes com periodicidade mensal. No âmbito jornalístico, a virada dos anos 2000 para os 2010 assiste ao encerramento e à reconfiguração de suplementos literários - é quando se encerram o Mais!, da Folha de S.Paulo; o Sabático, do Estado de S. Paulo; o Prosa & Verso, d’O Globo; e o Idéias & Livros, do Jornal do Brasil, sendo que apenas os dois jornais paulistas buscam oferecer algum outro caderno específico que abarque pautas dos suplementos extintos (a Ilustríssima, no caso da Folha, e o Aliás, no Estado), enquanto o próprio Jornal do Brasil deixa de ter circulação impressa. Num contexto mais amplo, os intervalos coincidem com o reposicionamento político do segundo mandato de Lula, próximo à época de euforia com a aparente arrancada de prosperidade do Brasil no cenário internacional; e com os anos extremamente ambíguos que assistem aos abalos nessa euforia, entre os protestos de junho de 2013 e a degradação das condições de governabilidade em 2015, não esquecendo a então acirrada eleição de 2014, além da condensação simbólica disso tudo, a famigerada Copa do Mundo de 2014. Nem seria preciso dizer, mas vale lembrar que Mussa assiste a tudo isso desde o Rio de Janeiro, onde várias dessas tensões - e das futuras - encontravam uma expressão bastante singular.
De todo modo, independentemente das conclusões a se encontrar ao fim da análise desse material, creio que há um pressuposto necessário para qualquer bom uso dele: encarar a faceta de crítico literário de Alberto Mussa como um prolongamento, seja ele refratado, seja reconfigurado, da sua escrita ficcional.
Com isso quero dizer que sua passagem pela academia e seu exercício da crítica na imprensa podem nos autorizar a leitura desses textos segundo o rigor, a coerência e a pertinência que exibirem (ou não), como se faria no estudo de qualquer estudioso da literatura. No entanto, essa abordagem me parece limitada. Leva apenas até certo ponto. Se Mussa se vê mesmo, antes de tudo, como ficcionista, então talvez seja mais proveitoso estudar inclusive a sua faceta de crítico como subordinada à criação literária. De certa forma, além de projetar seu nome, a sua crítica também pareceria uma maneira de intervir no debate público, sugerindo ou construindo as linhas de recepção que ele preferiria ver aplicadas também a seus textos. Encarar a sério essa faceta da produção talvez relativize e ajude a compreender mais a fundo a própria literatura de Mussa - que é o que mais interessa, no final das contas.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.
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COSTA E SILVA, Alvaro (2017). Com “O Senhor do Lado Esquerdo”, Alberto Mussa começou uma nova fase. Folha de S.Paulo, São Paulo, 10 out., Ilustríssima. Disponível em: Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/10/1925721-com-o-senhor-do-lado-esquerdo-alberto-mussa-comecou-uma-nova-fase.shtml Acesso em: 14 out. 2025.
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- MUSSA, Alberto (1999). O trono da Rainha Jinga. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- MUSSA, Alberto (2004). O enigma de Qaf. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2006a). O movimento pendular. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2006b). Os poemas suspensos. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2009). Meu destino é ser onça. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2011). O senhor do lado esquerdo. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2014). A primeira história do mundo. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2017). A hipótese humana. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2018). A biblioteca elementar. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2021). A origem da espécie. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Alberto (2016). Os contos completos. Rio de Janeiro: Record.
- MUSSA, Beto (1997). Elegbara. Rio de Janeiro: Revan.
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MUSSA, Alberto (2016). O africano Antônio Olinto. Youtube, 4 jul. 1h12mim11s. [Academia Brasileira de Letras]. Disponível em: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=_qYbvkzMPpk&t=3947s Acesso em: 14 out. 2025.
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MUSSA, Alberto (2015). O Rio de Janeiro na literatura: A variável trágica: principais linhagens do conto carioca. Youtube, 18 set. 59min06s. [Academia Brasileira de Letras]. Disponível em: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cXD1EihZicc&t=1s Acesso em: 14 out. 2025.
» https://www.youtube.com/watch?v=cXD1EihZicc&t=1s -
SANTOS, Darlan Roberto; FUX, Jacques (2013). A gênese carioca em O senhor do lado esquerdo, de Alberto Mussa. Todas as Letras V, v. 15, n. 2. Disponível em: Disponível em: https://editorarevistas.mackenzie.br/tl/article/view/4305 Acesso em: 10 jan. 2026.
» https://editorarevistas.mackenzie.br/tl/article/view/4305
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1
À guisa de exemplo, vale mencionar os artigos de Cristhiano Aguiar (2021), Joyce Silva Braga (2013) e Darlan Roberto Santos e Jacques Fux (2013), dedicando-se os dois primeiros ao romance O enigma de Qaf (Mussa, 2004), e o último, a O senhor do lado esquerdo (Mussa, 2011).
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2
Essas informações biográficas constam, de modo sintético, na cronologia ao final de A Origem da Espécie (Mussa, 2021, p. 349-351).
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3
Refiro-me às palestras “A variável trágica: principais linhagens do conto carioca” (Mussa, 2015) e “O africano Antônio Olinto” (Mussa, 2016), disponíveis no YouTube.
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4
Especifico que se trata de sua produção para jornais porque, a rigor, há também duas contribuições para revistas, “O decálogo do leitor”, incluído em Os Contos Completos (Mussa, 2016), mas originalmente publicado na revista Entrelivros, versão esta que infelizmente não pude localizar; e “Quem está diante do espelho?” (Anexo 1). A primeira é um texto leve, sobre hábitos de leitura, e não se encaixaria como texto crítico, ao contrário da segunda. Nesta, publicada na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, Mussa mescla comentários sobre sua ancestralidade árabe e aparições de personagens oriundos dessa cultura na literatura brasileira. Pelo perfil e pela ambição do comentário, está mais próximo dos paratextos. Registro-a para fins de completude do levantamento, mas a excluí das análises para ter mais homogeneidade no corpus, permitindo uma análise mais direta como esta.
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5
Um exemplo de mudança diz respeito a uma informação: num texto sobre Jorge Amado da época do Jornal do Brasil, a coluna se referia à sua casa editorial como a Record; na republicação no Rascunho, a obra já tinha passado para a Companhia das Letras, mudança que Mussa registra simplesmente trocando o nome de uma editora por outra na frase de resto inalterada. Veja-se “Na fonte da cultura popular” (Anexo 1) e “Os velhos marinheiros” (Anexo 1).
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Refiro-me a “1956: o ano da literatura brasileira” (Anexo 1).
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Há uma exceção digna de nota, se considerarmos de modo estrito o que defini como brasileiros. Afinal, foi escrito originalmente em francês o livro A Retirada da Laguna, de Alfredo d’Escragnolle Taunay, comentado por Mussa na coluna Manual de Garimpo (Anexo 1). No entanto, mantive-o na categoria de brasileiro, já que existe uma série de indícios do pertencimento de Taunay à literatura nacional - desde sua participação como fundador da Academia Brasileira de Letras até sua presença como autor estudado em clássicos do quilate de Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido (2014, p. 622-630) e História Concisa da Literatura Brasileira, de Alfredo Bosi (2006, p. 152-154), entre muitos outros.
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São quatro resenhas: “Trilhas sutis do universal” (Anexo 1), sobre a coletânea de ensaios de Per Johns, autor dinamarquês naturalizado brasileiro, cujos textos críticos abordam matéria variada; “Pesquisador vigoroso, Tinhorão subestima senso crítico africano” (Anexo 1), cujo comentário se detém na pesquisa do célebre historiador sobre as congadas, fenômeno que ocorre também em outros territórios, idiomas e períodos do que os costumeiramente associados ao que se entende por nacionalidade brasileira; “Coleção de sete livros tira mitos indígenas do nicho infantojuvenil” (Anexo 1), que aborda uma série de recriações de mitologias de povos ameríndios (em edições bilíngues) que não necessariamente se identificam por completo e muito menos se definem estritamente por sua pertença (quando é o caso) à nacionalidade brasileira; e “Cartas de etnólogos franceses recordam valor de alteridade” (Anexo 1), resenha sobre olhares da França para fenômenos sociais ocorridos no território brasileiro, embaralhando qualquer definição simples.
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Creio que algumas iterações problemáticas desse pressuposto aparecem no modelo de Costa e Silva para a ficção de Mussa (Costa e Silva, 2017), em parte associadas à ideia de um “salto quântico” na obra do autor, conforme orelha de Marco Lucchesi para O Enigma de Qaf (Mussa, 2004), repetida depois por Hermano Vianna em prefácio à segunda edição de Elegbara (Mussa, 1997), e no perfil “Um Borges mestiço” de Joselia Aguiar (2016). A ênfase no diálogo com a literatura estrangeira me parece fundamental em outros aproveitamentos, mais interessantes, como nos textos de Cristhiano Aguiar (2021) e Joyce Silva Braga (2013), ambos sobre O Enigma de Qaf.
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O texto de Mussa consta, por exemplo, na recolha de excertos em torno da polêmica reunidos por Alves e Santiago (2011).



Fonte: Elaboração própria.
Fonte: Elaboração própria.