Resumo
Esta pesquisa, de natureza qualitativa, trata-se de um estudo descritivo, a partir de uma pesquisa de doutorado que visou compreender como estudantes do Ensino Médio de uma escola pública do Ceará exploravam e compreendiam marcadores sociais a partir de uma abordagem da educação estatística na perspectiva crítica, utilizando o ciclo Problema, Plano, Dados, Análise e Conclusão (PPDAC) como método investigativo. Para atingir esse objetivo, foi elaborada uma atividade investigativa estatística cujo foco central foi examinar como as inter-relações entre os marcadores de gênero, raça e classe social influenciavam a representatividade dos estudantes na liderança no ambiente escolar. Os estudantes, ao longo da investigação estatística conduzida por eles, perpassaram todas as etapas do processo, o que lhes permitiu desenvolver uma compreensão crítica das desigualdades e injustiças sociais presentes na sociedade. Nesse processo, eles receberam orientações de como utilizar a interseccionalidade como ferramenta analítica. Isso foi essencial para ampliar a compreensão sobre os marcadores sociais que permeiam o contexto escolar. Os resultados desta investigação estatística, conduzida pelos estudantes, evidenciam a necessidade de incorporar, na perspectiva da educação estatística crítica, atividades que promovam a reflexão sobre as injustiças estruturais e sobre o papel dos dados na identificação dessas desigualdades. Mais do que apenas entender os dados, os estudantes começaram a questionar as estruturas sociais que os produzem, indicando um movimento em direção a uma transformação social, na medida em que passaram a reconhecer seu potencial como agentes de mudança em suas comunidades.
Palavras-chave:
Interseccionalidade; Educação estatística crítica; Investigação estatística; Pesquisa participante; Ciclo PPDAC
Abstract
This qualitative research presents a descriptive study drawn from a doctoral investigation that sought to understand how high school students from a public school in Ceará explored and interpreted social markers through a critical statistics education approach, using the Problem-Plan-Data-Analysis-Conclusion (PPDAC) cycle as an investigative framework. To achieve this aim, a statistical investigation activity was designed in order to examine how the interrelations among gender, race, and social class shaped student representation in leadership roles within the school environment. Throughout the statistical investigation they conducted, the students engaged in all stages of the process, which enabled them to develop a critical understanding of the social inequalities and injustices present in society. In this process, they received guidance on how to use intersectionality as an analytical tool, an essential resource for broadening their understanding of the social markers that permeate the school context. The results of this student led statistical investigation emphasize the need to incorporate, from a critical statistics education perspective, activities that foster reflection on structural injustices and on the role of data in identifying such inequalities. More than simply interpreting data, the students began to question the social structures that produce them, signaling a movement toward social transformation as they came to recognize their potential as agents of change within their communities.
Keywords:
Intersectionality; Critical statistics education; Statistical inquiry; Participatory research; PPDAC cycle
Introdução
A escola reflete, em menor escala, os marcadores e estruturas desiguais presentes na sociedade. Questões referentes às inter-relações entre gênero, raça e classe social têm sido amplamente discutidas, porém esses marcadores ainda permanecem, muitas vezes, invisíveis ou pouco exploradas no contexto escolar, o que pode contribuir para a reprodução de práticas educativas pouco inclusivas.
Estudar a interseccionalidade como perspectiva analítica permite compreender como diferentes marcadores sociais se entrecruzam na produção de desigualdades, conforme argumentam Collins e Bilge (2021). Por outro lado, a estatística na educação básica frequentemente é ensinada de forma instrumental, com ênfase em cálculos e representações gráficas, o que limita seu potencial como ferramenta para a leitura crítica da realidade.
Para entender como romper com esse ciclo, buscamos compreender como estudantes do Ensino Médio exploram marcadores sociais a partir de uma abordagem da educação estatística crítica. Para isso, foi desenvolvida uma atividade investigativa com estudantes líderes de uma escola pública do Ceará, em que articulou a educação estatística crítica e a interseccionalidade.
A pesquisa parte da compreensão de que promover uma leitura crítica das dinâmicas de poder que estruturam as desigualdades sociais é fundamental para que os estudantes identifiquem injustiças presentes em seu cotidiano e se engajem em processos de transformação social. Nesse processo, o uso de dados provenientes da realidade dos próprios estudantes pode tornar o ensino mais significativo e contextualizado, como destaca Weiland (2017). Assim, a educação estatística crítica e a interseccionalidade emergem como ferramentas fundamentais para a formação de cidadãos conscientes e engajados na transformação social, capazes de questionar as condições que sustentam as injustiças e de propor caminhos para superá-las.
Sobre este olhar, adotamos o ciclo investigativo Problema, Plano, Dados, Análise e Conclusão (PPDAC), amplamente utilizado na educação estatística (Wild; Pfannkuch, 1999). O ciclo foi aplicado por estudantes do terceiro ano do Ensino Médio para investigar a seguinte questão: como se dão as inter-relações dos marcadores sociais na representatividade dos estudantes líderes na escola?
Assim, o artigo está organizado da seguinte forma: após a introdução, a seção de fundamentação teórica descreve conceitos de educação estatística crítica e interseccionalidade; em seguida, a seção metodológica descreve a aplicação do ciclo PPDAC, descreve os participantes da pesquisa e os procedimentos de produção e análise dos dados; a seção de análise e resultados examina as implicações da investigação estatística no processo de transformação dos participantes; por fim, a conclusão sintetiza os resultados e discute contribuições para a promoção de uma maior equidade no ambiente escolar.
A educação estatística na perspectiva crítica
Transformações sociais como crise econômica, pobreza, esgotamento de recursos naturais, mudanças climáticas, polarização da riqueza, nacionalismo extremo e fluxos migratórios têm imposto desafios crescentes à sociedade. Nesse contexto, cresce o reconhecimento da necessidade de incorporar essas questões ao ensino, de modo a favorecer o desenvolvimento de uma compreensão crítica do contexto social, cultural e político e estimular os estudantes a refletirem sobre possibilidades de transformações sociais, conforme argumenta Weiland (2019).
Impulsionados pelo avanço tecnológico, os dados estatísticos exercem uma influência cada vez maior nas decisões e nos posicionamentos públicos diante desses problemas (Engel et al., 2016, 2021; Gal, 2019; Steen, 2001; Weiland, 2017, 2019). Assim, é fundamental desenvolver com indivíduos a habilidade de raciocinar sobre dados; interpretar informações estatísticas; elaborar argumentos e questionar análises que distorcem a realidade. Nessa direção, Gal (2019) destaca que o letramento estatístico, quando desenvolvido criticamente no contexto escolar, possibilita acessar, compreender, interpretar e avaliar informações baseadas em dados, além de expressar posicionamentos fundamentados.
O letramento estatístico está alinhado às concepções da Educação Estatística Crítica (Weiland, 2017), que dialoga com a perspectiva da Educação Matemática Crítica por Skovsmose (2008). Embora profundamente relacionadas, essas abordagens apresentam especificidades, especialmente porque a Estatística envolve formas particulares de raciocínio, interpretação e tomada de decisão baseadas em dados. Nesse sentido, a educação estatística demanda abordagens pedagógicas próprias.
Weiland (2017, p. 399) argumenta que a “estatística é uma disciplina distinta e, como tal, existem diferentes estratégias, hábitos mentais e práticas envolvidas no ensino de conceitos estatísticos”. De acordo com o autor, a Educação Estatística Crítica pode ser caracterizada: i) pelo desenvolvimento do letramento estatístico; ii) pela importância do contexto; iii) pelo estudo da variabilidade dos dados; iv) pela subjetividade nas informações analisadas; v) pela transnumeração no momento de organização e interpretação dos dados estocásticos; e vi) pela colocação de problemas na análise das situações.
O letramento estatístico refere-se à capacidade de identificar, relacionar, analisar e comunicar criticamente informações associadas a fenômenos estocásticos presentes nas esferas sociais, culturais, econômicas, políticas. Esses fenômenos estocásticos envolvem incerteza e probabilidade, de que modo que seus resultados não podem ser previstos com certeza, mas analisados a partir de modelos probabilísticos. Nessa perspectiva, o letramento estatístico também implica a articulação de dados para compreender a complexidade das questões sociais e refletir sobre possibilidades de ação.
Na perspectiva da Educação Estatística Crítica, o contexto assume um papel central no processo de análise de dados, uma vez que “os dados não são apenas números, são números com um contexto” (Cobb; Moore, 1997, p. 801). Com o avanço dos recursos tecnológicos e ampliação do acesso à base de dados, é possível investigar diferentes fenômenos sociais por meio da Estatística. Estudos como Engel et al. (2016), Gal (2019) e Weiland (2017) indicam que a análise de dados permite aos estudantes compreender questões relacionadas a marcadores sociais e reconhecer processos de produção e reprodução de injustiças sociais.
Nesse campo, a variabilidade é onipresente no raciocínio estatístico, pois as decisões baseiam-se na incerteza presente dos dados analisados (Wild; Pfannkuch, 1999). Em uma abordagem crítica, essa variabilidade reflete a complexidade dos fenômenos sociais e naturais. A subjetividade também exerce influência, uma vez que afeta a formulação das perguntas, a seleção de dados e a interpretação dos resultados (Weiland, 2017). Ambas - variabilidade e subjetividade - se relacionam ao processo de transnumeração, entendido como a transformação dos dados para favorecer sua compreensão e representação (Wild; Pfannkuch, 1999).
O ensino baseado na proposição de problemas também contribui para o desenvolvimento do letramento estatístico crítico (Weiland, 2017), ao valorizar a construção coletiva do conhecimento e superar a dicotomia entre professor e estudante (Freire, 2015). Nesse processo, os estudantes podem tornar-se consumidores críticos de informações estatísticas e, ao mesmo tempo, produtores de dados e interpretações (Gal, 2021).
A criticidade, nesse sentido, constitui o centro do letramento estatístico, indo além da argumentação lógica para abarcar a compreensão e a transformação das estruturas sociais. O sentido de ser crítico, na Educação Estatística Crítica, transcende a ideia de criar argumentos, fazer conjecturas e criticar o raciocínio de outros (Weiland, 2017). Ser crítico não significa consumir os dados para melhor compreendê-los estatisticamente, mas utilizar as estatísticas para melhor compreender as diferentes relações de poder que influenciam as diferenças sociais, econômicas, políticas e culturais de cada grupo social.
Essa perspectiva aproxima-se das discussões sobre interseccionalidades (Collins; Bilge, 2021), compreendida como ferramenta analítica que investiga a articulação entre diferentes eixos de subordinação que atuam simultaneamente na vida dos indivíduos. A seguir, apresentamos os principais elementos desse referencial, que fundamentam as análises desenvolvidas nas atividades propostas aos estudantes.
A interseccionalidade como uma ferramenta analítica para os problemas sociais
A interseccionalidade constitui uma abordagem teórica e uma ferramenta analítica voltada à compreensão como diferentes marcadores sociais - raça, gênero, classe, sexualidade, entre outras - se cruzam e se inter-relacionam para moldar as experiências de indivíduos e grupos. O termo foi cunhado por Crenshaw (1989), no contexto das lutas feministas negras nos Estados Unidos, para evidenciar que as experiências das mulheres negras não podem ser compreendidas isoladamente pelos marcadores de raça ou gênero, mas pela interseção de ambas. A autora destaca que a análise das desigualdades exige considerar múltiplas dimensões identitárias, como classe social, orientação sexual, capacidade física ou mental e regionalidade, de modo a compreender as diferentes formas de discriminação presentes na sociedade (Crenshaw, 2002).
Nessa perspectiva, Collins (2022) enfatiza que a interseccionalidade contribui para analisar as relações de poder que estruturam as desigualdades sociais, ao evidenciar como diferentes eixos de subordinação atuam de forma simultânea na vida das pessoas. Os marcadores sociais não operam de maneira isolada; ao contrário, suas interações produzem formas específicas de opressão e exclusão. Há inúmeras possibilidades de as inter-relações acontecerem. Por exemplo, uma pessoa pode pertencer a múltiplas marcadores como: gênero + raça + orientação sexual + capacidade ou raça + gênero + classe ou ainda, raça + classe + regionalidade ou “outros marcadores” que, de acordo com Bilge (2009), podem ser relevantes: migração, situação familiar e idioma.
Um exemplo dessa abordagem pode ser observado no estudo de Signorini (2017) que analisa a situação de mulheres nordestinas migrantes. A pesquisa evidencia que fatores como regionalidade, gênero e raça influenciam as condições de vida dessas mulheres, o que resulta em menor acesso a empregos formais e maior vulnerabilidade social. O estudo também indica que os fluxos migratórios internos no Brasil apresentam padrões demográficos associados à cor ou raça, com maior proporção de mulheres não brancas entre as migrantes oriundas do Nordeste.
Essas análises demonstram que processos como a migração não envolvem apenas deslocamentos geográficos, mas também a incidência de múltiplas formas de desigualdade, como a xenofobia dirigida a nordestinos em determinados contextos. A abordagem interseccional permite, portanto, compreender de forma mais ampla como diferentes relações de poder produzem e reproduzem desigualdades sociais. No campo educacional, essa perspectiva contribui para o desenvolvimento de atividades que reconheçam a diversidade de experiências dos estudantes e promovam ambientes escolares mais equitativos.
Nos próximos tópicos, descrevemos a abordagem metodológica da pesquisa e os participantes. Em seguida, discutimos a utilização do ciclo PPDAC como ferramenta metodológica para analisar marcadores sociais e a representatividade entre os estudantes.
Caminhos metodológicos
Fundamentamos esta investigação na perspectiva da pesquisa participante, entendida como uma abordagem que integra a produção do conhecimento científico ao compromisso ético e político com a transformação da realidade social. Conforme destaca Demo (2008), essa perspectiva preserva o rigor metodológico próprio da pesquisa científica, ao mesmo tempo que reconhece a participação dos sujeitos como elemento constitutivo do processo investigativo, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais. Nessa concepção, produzir conhecimento significa construir, de forma colaborativa, interpretações capazes de compreender criticamente a realidade e de contribuir para sua transformação.
A observação participante foi adotada como técnica de produção e coleta de dados. Desenvolvida ao longo da condução de uma sequência de aulas, essa técnica possibilitou acompanhar as interações estabelecidas no cotidiano escolar, registrar as discussões produzidas durante a atividade e analisar como a proposta pedagógica, fundamentada na educação estatística crítica e na interseccionalidade, foi apropriada pelos estudantes e se articulou às práticas e percepções. Conforme Spradley (2016), a observação participante transcende a simples descrição de comportamentos ou situações, permitindo compreender os significados, as orientações e as dinâmicas que organizam as ações dos participantes no contexto investigado, além de favorecer uma atuação colaborativa comprometida com a compreensão e a transformação da realidade social.
Os participantes de uma investigação estatística
A pesquisa foi realizada com um grupo de nove estudantes do Ensino Médio em uma escola pública do Ceará. O grupo foi constituído no ano de 2023, com participação voluntária e em contraturno, no âmbito da pesquisa de doutorado da primeira autora. Para a composição do grupo, estabelecemos critérios específicos: estar regularmente matriculado na escola, cursar o segundo ano do Ensino Médio e integrar a Trilha Integrada de Matemática e suas Tecnologias intitulada “O que eu faço com esses dados?”. Esta trilha, oferecida como disciplina em extraturno, foi planejada conforme a concepção do Novo Ensino Médio, com o propósito de explorar conceitos matemáticos e estatísticos aplicados a situações do cotidiano, visando desenvolver nos estudantes uma postura crítica frente à produção, interpretação e uso social dos dados.
Os estudantes participantes/voluntários demonstravam, a priori, interesse pela área de Matemática e por iniciativas extracurriculares vinculadas à disciplina. Quatro alunas integravam o projeto “Meninas na Matemática”, que incentivava a aprendizagem colaborativa e o fortalecimento da participação feminina na área. Além disso, os participantes estavam envolvidos em aulas preparatórias para exames de acesso ao ensino superior e para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), bem como em olimpíadas acadêmicas, como a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA). Alguns também participaram de programas institucionais de alcance nacional, como o Jovens Senadores, voltado à formação cidadã.
Embora este estudo seja apresentado em coautoria, a primeira autora atuou simultaneamente como pesquisadora e participante do estudo, uma vez que a investigação foi realizada no contexto de sua atuação como professora de Matemática na instituição, onde exercia a docência desde 2017. Essa condição favoreceu o estabelecimento de vínculos de confiança com os estudantes e possibilitou uma compreensão mais aprofundada das dinâmicas escolares, em consonância com os pressupostos da pesquisa participante. Ressaltamos, ainda, que a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), sob o CAAE nº 69729723.7.0000.5152.
Dessa forma, o presente artigo constitui um recorte de uma pesquisa mais ampla, cujo foco central é o enfrentamento das desigualdades sociais por meio da educação estatística crítica. O recorte parte da tese intitulada “Desvelando desigualdades: educação estatística emancipatória e interseccionalidade na leitura da realidade no Ensino Médio” (Pinho, 2026). Neste texto, especificamente, analisamos uma investigação estatística conduzida pelos estudantes com o objetivo de compreender como se configuram os marcadores sociais no contexto escolar.
O ciclo PPDAC em uma investigação estatística
Para que os estudantes desenvolvessem uma investigação estatística e produzissem dados para a pesquisa, tomamos como referência o ciclo PPDAC (Wild; Pfannkuch, 1999). Este ciclo investigativo descreve os procedimentos e os modos de pensar mobilizados por estatísticos ao investigar fenômenos em determinado contexto (Pfannkuch; Wild, 2004). No presente estudo, o PPDAC foi empregado como estrutura metodológica para articular a interseccionalidade e a educação estatística, incentivando os estudantes a utilizar dados estatísticos para compreender e problematizar questões sociais presentes em seu cotidiano.
O ciclo PPDAC é composto por cinco etapas: Problema, na qual se define a questão de pesquisa; Plano, que envolve a escolha dos métodos e dos instrumentos de coletar; Dados, etapa de produção e organização das informações. Análise, dedicada à interpretação dos dados e identificação de padrões; e Conclusão, momento de sistematização dos resultados e elaboração de respostas à questão inicial (Pfannkuch; Wild, 2004). Ao longo do processo, os estudantes participaram ativamente de todas as etapas da investigação.
Assim, o ciclo orientou desde a formulação da pergunta de investigação até a análise e a interpretação dos dados, o que possibilitou os estudantes utilizassem informações estatísticas para identificar e questionar marcadores sociais presentes na realidade investigada. A seguir, será descrito o passo a passo dessa aplicação. O Quadro 1 sintetiza as etapas da investigação estatística desenvolvida, as atividades realizadas e a duração média de cada encontro, que foi de aproximadamente duas horas. A seguir, os encontros são descritos de forma detalhada.
O ciclo PPDAC não operou apenas como ferramenta metodológica, mas como estrutura que orientou a experiência pedagógica quanto o percurso investigativo do estudo. Na etapa do Problema, os estudantes formularam uma questão que articulasse estatística e realidade social com o intuito de compreender como as inter-relações entre marcadores - como gênero, raça e classe social - influenciam a representatividade de líderes e vice-líderes de turma no contexto escolar.
Na etapa de Planejamento, foram definidas as estratégias para a produção e análise dos dados. A amostra, definida por julgamento para selecionar membros da população que consideravam mais representativos para o estudo, seria composta pelos líderes e vice-líderes das 22 turmas da escola, totalizando 44 participantes. Como instrumento de coleta, optaram por um questionário estruturado. Na fase de Dados, o questionário foi aplicado a todos estudantes na função de líderes estudantis e os dados produzidos foram organizados para posterior sistematização e tratamento estatístico.
A etapa de Análise, os estudantes realizaram análises das frequências e distribuições das variáveis investigadas e, em seguida, exploraram possíveis relações entre os marcadores sociais analisados. Por fim, na etapa de Conclusão, sistematizaram os resultados, construíram gráficos e elaboraram argumentos fundamentados nas evidências produzidas. Esse momento foi marcado pela socialização das análises e pela problematização dos achados à luz das discussões realizadas ao longo do processo.
Cabe destacar que esse processo não ocorreu de forma linear ou meramente técnica. Cada etapa foi permeada por debates e reflexões que extrapolaram a dimensão numérica dos dados. Nesse contexto, o PPDAC atuou como mediador entre o conteúdo estatístico e a leitura social da realidade, possibilitando que os estudantes utilizassem a análise de dados para interpretar e questionar relações de poder presentes no espaço escolar.
Produção e natureza emergente dos dados e a contextualização analítica da pesquisa
A atividade investigativa examinada neste artigo integra um conjunto mais amplo de ações desenvolvidas no âmbito de uma pesquisa vinculada ao Grupo de Pesquisa Equidade na Educação Matemática, Estatística e Científica (GEMEC), espaço formativo em que atividades são problematizadas à luz da educação estatística crítica e da interseccionalidade.
Os dados analisados não foram concebidos como entidades previamente dadas ou externas à investigação conduzida pelos estudantes. Adotamos uma perspectiva em que os dados são compreendidos como construções produzidas na interação entre sujeitos, contextos e referenciais teóricos. Assim, o material empírico possui caráter emergente, constituindo-se no próprio desenvolvimento da investigação, nas discussões e nas argumentações elaboradas coletivamente.
Os encontros foram áudio-gravados e posteriormente transcritos, compondo o corpus de análise juntamente com as notas de observação registradas ao longo dos encontros. Esses registros foram compreendidos não como instrumentos de “captura” de uma realidade fixa, mas como dispositivos de documentação de um processo dinâmico de produção de sentidos (Minayo et al., 2011). Em diálogo com a tradição qualitativa, os dados foram tratados como expressões situadas de experiências sociais, reveladoras de como os estudantes compreendem, reproduzem ou tensionam relações de poder presentes no espaço escolar.
A narrativa dos eventos foi organizada a partir da experiência vivida e interpretada pela professora-pesquisadora (Larrosa, 2011), reconhecendo que, na pesquisa participante, o olhar investigativo não é neutro nem externo ao campo. Os excertos selecionados foram escolhidos por sua potência analítica, ou seja, por evidenciarem deslocamentos de pensamento, tensões interpretativas e articulações críticas entre conceitos estatísticos e a realidade social problematizada pelos estudantes. Para preservar os princípios éticos da pesquisa, foram adotados pseudônimos nos diálogos apresentados na seção seguinte. A identificação “Ana - PP” refere-se à professora-pesquisadora, indicando sua dupla posição no campo: como mediadora pedagógica da atividade investigativa e como investigadora do processo.
Desse movimento dialógico entre empiria e teoria emergiram dois eixos analíticos, construídos a partir da leitura reiterada dos registros e da problematização teórica do material. O primeiro eixo examina como estudantes mobilizam conceitos estatísticos para interpretar e problematizar os marcadores sociais no contexto escolar. O segundo focaliza os modos de argumentação e posicionamento assumidos pelos participantes ao longo da investigação, com destaque a análise de dados que possibilitou a construção de leituras críticas da realidade e a elaboração de posicionamentos fundamentados.
Análise e discussão dos resultados
Decorrente da investigação estatística conduzida pelos estudantes, a análise foi organizada à luz de dois eixos construídos ao longo do processo interpretativo da pesquisa. O primeiro eixo, intitulado “Mobilização do ciclo PPDAC na problematização interseccional da representatividade escolar”, e o segundo, denominado “Argumentação baseada em dados e construção de posicionamentos críticos na investigação estatística”. A seguir, apresentamos a análise detalhada de cada um desses eixos.
Mobilização do ciclo PPDAC na problematização interseccional da representatividade escolar
Como parte da pesquisa, solicitamos aos estudantes que desenvolvessem uma investigação, com o objetivo de analisar a interseccionalidade dos marcadores sociais no ambiente escolar por meio de dados estatísticos. Durante uma roda de conversa, os estudantes sugeriram diversos temas para serem abordados com o ciclo. O tema discutido neste artigo envolve as características da liderança estudantil.
Ana-PP: Pessoal, entre as propostas que vocês sugeriram - merenda escolar, transporte público e liderança estudantil - qual vamos focar hoje?
Todos: Liderança escolar!
Ana-PP: E quais marcadores vocês acham importante abordar nessa investigação?
Cauã: Acho que deveríamos focar em raça, gênero, se é PcD, e renda.
Dávila: Precisamos entender melhor quem realmente está no comando estudantil. Tipo, os líderes, vice-líderes e no Grêmio estudantil, né? No ano passado, quando pesquisamos o Grêmio, tinha mais homens do que mulheres tomando as decisões. Será que quem toma as decisões são de fato mais homens ou mulheres?
Linda: E qual a cor e raça dessas pessoas que estão à frente?
Ana-PP: Excelente ponto, Linda. Então, qual seria a pergunta motivadora da nossa pesquisa?
Thy: Acho que poderia ser: “Como podemos analisar as inter-relações dos marcadores sociais na representatividade dos estudantes na escola?”
Cauã: Ótimo! Essa pergunta faz sentido!
Gleiser: Agora que já definimos o primeiro P do ciclo, o problema, vamos para o segundo P.
Linda: Isso, o plano!
Kay: Podemos entrevistar todos os líderes e vice-líderes da escola.
Cauã: E criar um questionário para que eles indiquem raça, gênero, e outras características.
Dávila: Depois disso, tabulamos os dados e começamos a análise.
Gleiser: Assim conseguiremos enxergar as dinâmicas de poder e representatividade mais claramente (Roda de conversa, 3.º encontro).
Inspirado em Freire (2015, p. 79), para quem “o diálogo é um ato de criação”, a análise das interações revelou dois movimentos importantes: o protagonismo estudantil no processo investigativo e o desenvolvimento de uma conscientização crítica acerca das inter-relações de poder no ambiente escolar. Esse protagonismo evidente na escolha do tema e na formulação da pergunta investigativa. Ao optarem por investigar a liderança - em detrimento de outros temas propostos, como merenda escolar e transporte público - os estudantes demostraram interesse em analisar relações de poder em uma esfera que lhes é próxima e tangível.
Nos diálogos também emergiu a busca por compreender a interseccionalidades relacionadas a raça, gênero, pessoas com deficiência (PcD) e renda, marcadores que, segundo os próprios estudantes, deveriam compor a investigação. A sugestão de Cauã ao incluir essas dimensões revela uma de que diferentes marcadores sociais se articulam na constituição de experiências de liderança e representatividade na escola. Esse deslocamento analítico converge com a concepção de interseccionalidade discutida por Collins e Bilge (2021), que a definem como uma lente para compreender a sobreposição de sistemas de opressão. Nesse sentido, os estudantes demonstraram perceber que as dinâmicas escolares podem tanto perpetuar ou desafiar as desigualdades sociais.
A discussão foi aprofundada quando Dávila trouxe à tona a questão da desigualdade de gênero no Grêmio Estudantil, observada em uma pesquisa anterior que indicavam a sub-representação feminina nos espaços de decisão. Ao questionar “quem toma as decisões, homens ou mulheres?”, a estudante estimulou o grupo a refletir sobre como determinadas estruturas de poder podem privilegiar historicamente os homens. A mobilização simultânea de diferentes marcadores reforça a observação de Collins e Bilge (2021) de que os jovens são capazes de reconhecer como múltiplos sistemas de poder atravessam suas experiências cotidianas.
No âmbito da educação estatística crítica, a utilização do ciclo PPDAC (Wild, Pfannkuch, 1999) assumiu um papel estruturante na organização da investigação. Conforme apontam Engel et al. (2016) o desenvolvimento das competências da estatística, nessa perspectiva, um percurso investigativo marcado por questionamentos, interpretações e reflexões sobre a realidade. Assim, ao decidirem investigar os marcadores sociais presentes na liderança escolar, os estudantes mobilizam a estatística como uma ferramenta para problematizar as estruturas sociais que atravessam o espaço escolar.
Nesse contexto, o grupo definiu como pergunta de investigação: como podemos analisar as inter-relações dos marcadores sociais na representatividade dos estudantes na escola? A formulação da pergunta evidencia um movimento inicial de problematização que conecta conceitos estatísticos às discussões sobre representatividade, abrindo espaço para uma análise interseccional das dinâmicas de poder presentes na instituição.
Em continuidade à investigação, observamos nos diálogos um avanço para a etapa de planejamento da pesquisa. Nessa fase, os estudantes discutiram aspectos fundamentais para a realização da investigação, como o público-alvo, o instrumento de coleta de dados, o cronograma da aplicação e reaplicação (caso necessário) e os marcadores sociais a serem analisados. Esse momento representa um deslocamento em relação ao que Skovsmose (2008) denomina de “paradigma do exercício”, característico de práticas tradicionais nas quais os estudantes apenas resolvem tarefas com respostas previamente definidas. Ao contrário, a situação vivenciada aproximou-se de uma abordagem investigativa, em que os estudantes formulam perguntas, tomam decisões metodológicas e refletem sobre os caminhos da investigação.
A etapa de coleta foi realizada por meio da aplicação do questionário aos estudantes que ocupavam as funções de líderes e vice-líderes das 22 turmas da escola em 2024, totalizando 44 participantes. À época, a instituição contava com aproximadamente 800 estudantes matriculados. Posteriormente, os estudantes organizaram e sistematizaram as informações obtidas. Em uma roda de conversa, realizaram a tabulação dos dados coletados, o que mobilizou procedimentos estatísticos como contagem de frequências, cálculo de porcentagens e identificação de medidas de tendência central. Esse processo permitiu transformar as informações coletadas em evidências passíveis de análise, abrindo caminho para a interpretação das relações de poder e representatividade que seriam exploradas nas etapas seguintes do estudo.
Após a tabulação dos dados, os estudantes reuniram-se para discutir quais seriam as formas mais adequadas de representar as informações produzidas na investigação estatística. Esse momento evidenciou que a etapa de representação dos dados não se restringe a uma escolha meramente técnica, mas envolve decisões interpretativas sobre como tornar visíveis padrões, relações e possíveis desigualdades presentes no conjunto de informações coletadas. Nessa direção, dialogamos com Wild e Pfannkuch (1999), ao ressaltarem que, no processo investigativo estatístico, as escolhas metodológicas devem considerar as condições concretas da investigação e os objetivos analíticos propostos. De modo complementar, Weiland (2019) destaca que o ensino da estatística precisa ultrapassar a dimensão instrumental e constituir-se como prática de leitura e problematização da realidade social.
Em consonância com essas perspectivas, os estudantes decidiram construir um mapa ilustrativo que representasse a distribuição e as características da liderança estudantil na escola. Inicialmente, utilizaram materiais simples - como folhas de papel, post-its e canetas coloridas - organizando coletivamente os dados de modo visual. Esse processo favoreceu um ambiente de colaboração e reflexão, no qual os estudantes puderam discutir como diferentes marcadores sociais se articulavam na composição da liderança escolar. Posteriormente, o grupo optou por transpor essa representação para o aplicativo Canva, com o objetivo de aprimorar a clareza e a organização da visualização. A transposição do material físico para um ambiente digital ampliou as possibilidades de análise e comunicação dos dados, o que favoreceu evidenciar relações entre gênero, raça, renda e outros marcadores analisados, conforme ilustrado na Figura 2.
A representação visual elaborada pelos estudantes, denominada Mapa dos Líderes DP, sintetizou algumas características da liderança estudantil e possibilitou uma leitura das dinâmicas de representatividade na escola. Entre os aspectos identificados, o grupo observou que 65,9% dos líderes são mulheres cis, 56,8% se autodeclaram pardos e 93,1% residiam em área urbana. Em relação às condições socioeconômicas, o grupo constatou que 47,7% dos estudantes líderes declararam possuir renda familiar de até um salário-mínimo e 56,8% afirmaram não receber nenhum tipo de bolsa ou auxílio estudantil. A análise articulada desses dados permitiu compreender que a representatividade estudantil não se explica por um único marcador social, mas resulta da inter-relação entre diferentes marcadores.
Essa leitura dialoga com a perspectiva de Collins (2022), para quem a interseccionalidade permite compreender que opressões e privilégios não operam isoladamente, mas se entrelaçam em múltiplas camadas que estruturam as experiências sociais. Ao analisarem simultaneamente os marcadores, os estudantes ampliaram sua compreensão sobre como as relações de poder atravessam o espaço escolar e influenciam quem ocupa posições de liderança.
Durante a interpretarem dos resultados, os participantes passaram a questionar por que determinados grupos aparecem com maior frequência nas posições de liderança, enquanto outros permanecem pouco representados ou ausentes. Esse movimento evidencia que a análise estatística, quando articulada a uma perspectiva crítica proposta por Weiland (2017), pode provocar deslocamentos na forma como os sujeitos compreendem as relações de poder presentes em seu cotidiano. Nesse processo, os estudantes passaram a elaborar argumentos e levantar hipóteses, mobilizar evidências e posicionar-se diante dos dados produzidos. Esse movimento de construção de argumentos fundamentados em dados constitui o foco do segundo eixo analítico apresentado a seguir.
Argumentação baseada em dados e construção de posicionamentos críticos na investigação estatística
Após a construção do mapa ilustrativo, os estudantes avançaram para a fase de análise dos dados, focando nas dinâmicas de poder que influenciam a liderança estudantil. Com os dados coletados, os estudantes iniciaram um processo reflexivo sobre como se manifestam as inter-relações dos marcadores entre os líderes e vice-líderes da escola. A relevância dessa análise se sustenta na perspectiva de Weiland e Williams (2024), que afirmam não existir um contexto neutro pois pessoas, nesse caso os estudantes, sempre carregam consigo suas experiências vividas, as quais influenciam diretamente a forma como interpretam e analisam os dados. Ao lidar com informações que envolvem marcadores sociais, foram consideradas as implicações sociais desses dados. Isso garantiu uma abordagem crítica que foi além da mera quantificação. Durante essa etapa surgiram discussões que possibilitaram a confrontação de preconceitos e a reavaliação das práticas de liderança na escola.
Dávila: - Tem mais mulheres na liderança.
Thy: - A maioria são pardos e não tem indígenas e nossa terra é de um povo indígena.
Cauã: - Dos 44 estudantes somente 2 são negros e não há na escola nenhuma liderança PCD.
Linda: - Gente tem que mudar isso.
Cauã: - A gente só tem uma pessoa que não se identifica com nenhum dos gêneros que estava no questionário.
Belly: Vocês lembram que a gente estudou um gráfico que dizia que nós, mulheres, estudamos mais que os homens, mas mulheres ocupam menos cargo de liderança?
Thy: - Já ia comentar. Aqui tem mais mulheres na liderança, mas não é o comum.
Ana-PP: - E por vocês acham que isso acontece?
Cauã: - Eu acho que pelos incentivos que a gente tem na escola, desde quando chegamos aqui. Tem incentivo para as mulheres estarem à frente dos projetos, como elas na matemática.
Lucena: - Exatamente aqui na escola, tem um ambiente que é favorável para todo mundo. Homem, mulher, preto, branco, amarelo e quando saímos dos muros da escola, não encontram essa realidade.
Cauã: - Eu acho bom da escola fazer isso. Porque a escola representa uma parte da sociedade, e assim é uma instituição que estaria quebrando os padrões da sociedade machista. Nós temos projeto de mulheres na matemática, mulheres nas ciências, enfim, várias coisas que incentivam os que incentivam as mulheres a estar ali, né?
Lucena: - Outro fato: esse dado aqui “Ainda já foi líder?” está mostrando 68% que não tinha sido ainda, né? Então mostra que mulheres pardas estão tendo a oportunidade de ser liderança aqui na escola.
Cauã: - Eu vejo muito disso, que a nossa sociedade hoje é um reflexo também do que já foi vivido. Então, tipo, realmente tempos atrás só era os homens brancos que tinha vez. Vejo essa desconstrução a passos lentos, mas talvez nós possamos na frente ver o que é esse reflexo que a nossa escola hoje é na sociedade (Roda de conversa, 10.º encontro).
O diálogo entre os estudantes revelou elementos importantes sobre como os marcadores sociais atravessam a liderança escolar e como essas relações são compreendidas pelos próprios estudantes. Ao analisarem os dados produzidos na investigação estatística, os estudantes passaram a problematizar aspectos de sua realidade cotidiana, articulando informações estatísticas a reflexões sobre desigualdades e representatividade no espaço escolar. Esse movimento dialoga com a perspectiva de Freire (2015), para quem o processo educativo deve favorecer a leitura crítica do mundo. permitindo que os sujeitos compreendam as estruturas sociais que atravessam suas experiências. Nesse sentido, a investigação desenvolvida aproxima-se da noção freiriana de práxis, entendida como a articulação entre reflexão e ação transformadora.
A questão de gênero emerge como um dos primeiros elementos problematizados no diálogo. Dávila observa a presença significativa de meninas nas posições de liderança, o que inicialmente poderia sugerir maior equidade. Entretanto, Belly e Thy relativizam essa percepção ao destacar que tal configuração não reflete necessariamente a realidade social mais ampla, marcada por desigualdades de gênero ainda em diferentes espaços de poder. Nessa discussão, a escola é interpretada, conforme sugere Lucena, como um espaço que, em certa medida, incentiva a participação feminina, inclusive em áreas historicamente marcadas por desigualdades de gênero, como as ciências e a matemática.
A partir dessa reflexão, os estudantes problematizaram as dimensões raciais da representatividade escolar. Nas falas de Cauã e Thy, destaca-se a ausência de estudantes indígenas e a baixa presença de estudantes negros nas posições de liderança. Tal percepção revela que, mesmo em contexto que valorizam a inclusão, determinadas desigualdades podem permanecer invisibilizadas ou naturalizadas. Essa leitura dialoga com a perspectiva de Crenshaw (1989), ao evidenciar que diferentes formas de opressão não operam isoladamente, mas se articulam e se reconfiguram conforme o contexto social. No caso analisado, a ausência de estudantes indígenas torna-se ainda mais significativa diante da presença histórica e cultural desses povos na região, apontando para processos de apagamento simbólico que extrapolam o espaço escolar.
A discussão também evidencia que a representatividade não se limita aos marcadores de gênero e raça. A observação de Cauã sobre a ausência de estudantes que se identifiquem como PcD amplia essa reflexão, indicando que diferentes formas de exclusão podem coexistir e se sobrepor no mesmo contexto. Tal perspectiva aproxima-se da formulação de Crenshaw (2002), que argumenta que as experiências de opressão não podem ser compreendidas a partir de uma única categoria de análise, sendo necessário reconhecer as intersecções entre elas. Ao mobilizarem os dados de investigação para discutir essas questões, os estudantes aplicam conceitos estatísticos e os utilizam para construir interpretações críticas da realidade, conforme argumenta Weiland (2017). Nesse processo, a análise estatística ultrapassa sua dimensão técnica e torna-se ferramenta de problematização das relações de poder presentes no contexto escolar.
Por fim, o diálogo evidencia o potencial do ambiente escolar para o desenvolvimento de uma consciência acerca das desigualdades sociais. Como argumentam Collins e Bilge (2021) desenvolver consciência sobre as desigualdades e sobre o próprio lugar dentro dessas estruturas é fundamental para o empoderamento individual e coletivo. Nesse sentido, ao discutirem dados e interpretarem seus significados sociais, os estudantes demonstram não apenas compreender essas problemáticas, mas também refletir sobre possibilidades de transformação.
Na etapa de conclusão da investigação, os estudantes buscaram sintetizar essas relações por meio de representações visuais. Inicialmente construíram um gráfico multivariado com post-its coloridos, permitindo a organização e comparação visual dos dados. Posteriormente, essas representações foram transpostas para o Canva, na forma de um pictograma que sistematizou as relações entre as variáveis investigadas. A Figura 3 apresenta essa representação.
Ao observarem a distribuição dos marcadores no pictograma, os estudantes identificaram que posições de maior renda tendiam a concentrar estudantes identificados como brancos, enquanto estudantes negros apareciam com maior frequência nas faixas de renda mais baixas. Ao relacionarem esses dados com os marcadores de gênero, passaram a discutir como diferentes marcadores podem influenciar simultaneamente as oportunidades e as condições de vida dos sujeitos.
A leitura coletiva do pictograma favoreceu a interpretação das relações entre as variáveis analisadas, permitindo compreender que as desigualdades não se manifestam de forma isolada. Essa percepção aproxima-se da perspectiva da interseccionalidade proposta por Crenshaw (1989), ao evidenciar que diferentes sistemas de opressão se articulam e produzem efeitos combinados. Nesse sentido, a visualização multivariada construída pelos estudantes tornou visíveis essas articulações, o que favoreceu a compreensão sobre como múltiplos marcadores sociais podem se combinar na produção de desigualdades.
Esse movimento interpretativo também dialoga com a perspectiva crítica da educação proposta por Freire (2013), ao evidenciar a importância de processos pedagógicos que promovam a problematização da realidade social. Ao analisarem os dados representados na Figura 3, os estudantes não se limitaram a identificar padrões estatísticos, mas refletiram sobre as estruturas sociais que produzem e sustentam determinadas desigualdades. Nessa direção, a investigação estatística configurou-se como uma prática educativa voltada à leitura crítica do mundo, conforme argumenta Weiland (2017, 2019), ao possibilitar reconhecer como diferentes marcadores sociais se articulam na organização das relações de poder.
Assim, a atividade investigativa desenvolvida ultrapassou o domínio técnico da estatística, aproximando-se de uma formação orientada à consciência crítica e à compreensão das dinâmicas de poder presentes na sociedade. Esses achados reforçam a importância de uma educação estatística crítica que, ao adotar a interseccionalidade como lente analítica, permita não apenas ler as desigualdades estruturais, mas também problematizá-las. Mais do que interpretar dados, essa abordagem contribui para que os estudantes compreendam e atuem criticamente diante dos problemas sociais, favorecendo a construção de uma escola mais equitativa e democrática.
Conclusão
A pesquisa buscou compreender como estudantes do Ensino Médio exploram e interpretam marcadores sociais a partir de uma abordagem da educação estatística crítica. Nesse contexto, a utilização do ciclo investigativo PPDAC mostrou-se um recurso relevante para favorecer a problematização da realidade social no ambiente escolar. Ao mobilizarem dados relacionados a gênero, raça e condição socioeconômica, os estudantes desenvolveram leituras sobre como esses marcadores se articulam na produção de desigualdades.
A análise das produções dos estudantes, especialmente por meio da construção e interpretação de um pictograma, evidenciou que a investigação estatística pode tornar visíveis dinâmicas sociais frequentemente naturalizadas no cotidiano escolar. Ao organizar e interpretar dados, os estudantes e passaram a refletir criticamente sobre as relações entre diferentes marcadores e as posições ocupadas pelos sujeitos na escola.
Dessa forma, o estudo evidencia o potencial da educação estatística para articular o desenvolvimento de conhecimentos estatísticos à compreensão das dinâmicas sociais que atravessam a vida dos estudantes. Ao utilizar dados como instrumentos para interpretar e questionar a realidade, a escola pode contribuir para a formação de sujeitos capazes analisar e problematizar contextos marcados por desigualdades. Afinal, as desigualdades sociais geram desigualdades educacionais, e estas, por sua vez, contribuem para a perpetuação das primeiras, tornando urgente a adoção de atividades investigativas que promovam a equidade e a justiça social, visando uma transformação das realidades sociais.
Por fim, reconhecemos que a investigação foi realizada em um contexto específico e com um grupo particular de estudantes, o que limita a generalização dos resultados. Ainda assim, os achados apontam caminhos promissores para o desenvolvimento de práticas de investigação estatística que integrem análise de dados, perspectiva interseccional e reflexão crítica sobre questões sociais. Como possibilidade para pesquisas futuras, sugerimos estudos sobre atividades voltadas à promoção da equidade no contexto educacional.
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Fonte: Arquivos da pesquisa.
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