Open-access Tecnologia e trabalho intelectual a partir do conto “O versificador” de Primo Levi

Tecnología y trabajo intelectual a partir del cuento “El versificador” de Primo Levi

RESUMO:

Vivemos um contexto de onipresença das tecnologias, o que traz grandes desafios à sociedade e à educação em ciências. Primo Levi, reconhecido por sua literatura de testemunho, tem uma vasta obra na interface entre a ciência e a literatura que ainda é pouco explorada no Brasil e na educação científica. Nesse sentido, este trabalho identifica relações entre tecnologia e trabalho intelectual no conto “O versificador”, de Primo Levi, visando propor reflexões críticas sobre a apropriação da inteligência artificial em processos formativos. Organizamos as análises em quatro categorias: i) estrutura e liberdade poética do quimiscritor, ii) exigências contemporâneas do mundo do trabalho, iii) a influência da tecnologia na organização e nos modos de vida da sociedade; e iv) entre a ferramenta neutra e a rendição ao automatismo onipresente. Sugerimos que o conto analisado pode contribuir para uma educação científica preocupada com os aspectos científicos, tecnológicos, culturais, sociais e humanos da sociedade.

Palabras-clave:
Levi; Educación científica; Tecnología; Trabajo intelectual; Versificador; Historias naturales

ABSTRACT

We live in a context marked by the ubiquity of technologies, a condition that poses significant challenges to both society and science education. Although widely recognized for his testimonial literature, Primo Levi produced an extensive body of work at the intersection of science and literature that remains underexplored in Brazil and in the field of science education. In this regard, the present study identifies relationships between technology and intellectual labor in Primo Levi's short story The Versifier, with the aim of fostering critical reflections on the appropriation of artificial intelligence in educational processes. The analyses were organized into four categories: (i) the structure and poetic freedom of the chem-writer; (ii) contemporary demands of the world of work; (iii) the influence of technology on the organization and ways of life of society; and (iv) between the neutral tool and surrender to pervasive automatism. We suggest that the analyzed short story may contribute to a science education concerned with the scientific, technological, cultural, social, and human dimensions of society.

Keywords:
Primo Levi; Science Education; Technology; Intellectual Labor; The Versifier; Natural Histories

RESUMEN:

Vivimos en un contexto de omnipresencia de tecnologías, lo que plantea grandes desafíos a la sociedad y a la educación científica. Primo Levi, reconocido por su literatura testimonial, posee una vasta obra sobre la interfaz entre ciencia y literatura, aún poco explorada en Brasil. En este sentido, el trabajo identifica relaciones entre tecnología y trabajo intelectual en el cuento “El Versificador”, de Primo Levi, con el objetivo de proponer reflexiones críticas sobre la apropiación de la inteligencia artificial en los procesos formativos. Organizamos los análisis en cuatro categorías: estructura y libertad poética del químico; demandas contemporáneas del mundo laboral, iii) la influencia de la tecnología en la organización y los modos de vida de la sociedad; entre la herramienta neutral y la rendición al automatismo omnipresente. Sugerimos que el cuento analizado puede contribuir a una educación científica preocupada por los aspectos científicos, tecnológicos, culturales, sociales y humanos de la sociedad.

Palavras-chave:
Primo Levi; Educação científica; Tecnologia; Trabalho intelectual; Versificador; Histórias naturais

INTRODUÇÃO: PRIMO LEVI, LITERATURA E EDUCAÇÃO CIENTÍFICA

Na minha opinião, o computador acabará por se espalhar como um fogo na pradaria e mudará a face do mundo, pelo menos do mundo industrializado. É impossível resistir. E se chegarmos a uma máquina verdadeiramente inteligente, ou que simule a inteligência relativamente bem, então teremos de ser cuidadosos (Tullio Regge) (Levi, Regge, 2012, p. 99-100).

Vivemos um contexto de onipresença das tecnologias na sociedade. Elas são hegemônicas na estruturação do capitalismo financeiro, na gestão das interações humanas via redes sociais, na organização do campo do trabalho via aplicativos e instrumentos remotos, na socialização e formação da consciência na primeira infância, entre tantos outros aspectos. No campo educacional, notamos uma avalanche tecnológica não mais exclusivamente relacionada ao uso de tecnologias no ensino, mas considerando a recente plataformização da Educação Básica e o uso de inteligência artificial tanto no ensino quanto na própria produção acadêmica de conhecimento. Reside aqui um tema fundamental à educação científica: como podemos pensar o trabalho intelectual nesse cenário?

Encontramos alguns caminhos na literatura de Primo Levi e em uma visão crítica sobre como entender o trabalho humano na nossa sociedade capitalista contemporânea, em especial considerando a interface entre a arte e a ciência - linha de estudos e pesquisas esta que tem se consolidado na área de educação em ciências.1

Primo Levi foi um químico e escritor italiano, de origem judia, sobrevivente de Auschwitz. Nasceu em Turim no dia 31 de julho de 1919, mesma cidade em que faleceu no dia 11 de abril de 1987. Ficou mundialmente conhecido pelo livro É isto um homem?, de 1947, lançado no Brasil em 1988. É uma das obras fundamentais da literatura de testemunho, que expõe as profundas mazelas civilizatórias que assolaram a humanidade no Holocausto. Sua obra tem crescido em importância diante de contextos e acontecimentos contemporâneos nos quais a intolerância, o preconceito, o desprezo pela ciência e o pouco zelo com a democracia têm ganhado repercussão na vida pública.

Muitas pesquisas nacionais têm se dedicado a construir projetos de ensino que utilizam diversas contribuições de Primo Levi para a educação científica (Gasparetto et al., 2022; Leonardo Júnior, 2022; Leonardo Júnior et al., 2021; Massi et al., 2021; Palcha & Oliveira, 2014; Valero et al., 2023). Gasparetto et al. (2023) investigaram as potencialidades da obra de Levi para discutir questões sobre “[...] a natureza da ciência, potencialidades pedagógicas de textos narrativos, o papel da experimentação, divulgação científica, formação de professores, contexto social e discussões acerca de conceitos químicos” (p. 1). Segundo Russo e colaboradores (2023), a leitura de Levi apresenta possibilidades estratégicas no ensino da química, em particular em uma formação de professores que articule dimensões epistemológicas e sociais. Assentados na perspectiva da educação omnilateral, ancorada na Pedagogia Histórico-Crítica, Leonardo Júnior e colaboradores (2021) promoveram experiências de formação inicial de licenciandos em química a partir da obra A Tabela Periódica, mobilizando como categorias de análise: a relação entre a ciência e a literatura; a percepção ampliada sobre o ofício do químico; e as possibilidades de articulação entre a literatura e a ciência no ensino de química. Partindo dessa obra, o trabalho de Massi e colaboradores (2022) objetivou defender referenciais teóricos estéticos para melhor compreender a relação entre a ciência e a literatura.

Concordamos com Massi e colaboradores (2022) quando afirmam que “como a realidade é uma só, entrar em contato com obras de arte que falem sobre os problemas desta realidade enriquece nossa concepção de mundo” (p. 22). Entretanto, no Brasil e no mundo, essa parte da obra de Levi que se localiza entre o testemunho e a ficção, a ciência e a literatura, ainda está por ser explorada. Segundo Maciera (2014),

[...] Levi não só promove uma espécie de humanização dos objetos da ciência, mas também os utiliza como filtros metafóricos, pois os termos utilizados muitas vezes não se referem exatamente ao trabalho no laboratório ou à química, mas a ações ou a personagens. (p. 120).

Nota-se grande convergência das preocupações de Levi com as discussões e os caminhos tomados pela educação científica crítica ao longo das últimas décadas. Desde os primeiros movimentos de sistematização dessa área de ensino e pesquisa em cenários nacionais e internacionais, tem sido uma exigência cada vez maior pensar não só sobre qual ciência ensinar, mas refletir que ciência é essa, quem a produz, quais interesses estão envolvidos, quais seus impactos na sociedade, como ela se relaciona com a população em geral e como a educação científica pode incorporar a discussão da humanização na educação em ciências (Maurício & Valente, 2013; Rotta et al., 2022).

As obras de Levi têm sido cada vez mais estudadas na educação em ciências, convergindo com perspectivas que tanto consideram a relação entre a arte e a ciência não apenas atrelada à elucidação de conteúdos científicos, mas também humanísticos (Fernandes Junior & Caluzi, 2020), como refletem as possibilidades de um ensino para a criatividade na interface entre a arte e a ciência (Leite et al., 2025). Nesse sentido:

Tanto a imaginação quanto a criatividade são capacidades humanas que permitiram a sobrevivência e a liberdade da humanidade desde o início de seu processo evolutivo. Essa liberdade está relacionada à exploração da natureza, e não à sua negação. Tais capacidades permitiram ao homem reter a imagem do animal em sua mente mesmo quando ele não estava presente, habituar-se à sua ideia e comportamento, a fim de tomar ações além daquelas puramente instintivas. Nesse sentido, tanto a lança quanto as pinturas rupestres criadas são exemplos de atividades que demonstram que o homem supera os impulsos mecânicos da natureza. (Leite et al., 2025, p. 3)

Integram a vasta produção intelectual de Primo Levi as primeiras e fundamentais obras de testemunho sobre o fascismo e o nazismo, nas quais ele refletiu durante 40 anos os processos de desumanização e as experiências de violência política extrema vigente nos campos de concentração e extermínio; as obras de ficção científica; e as que abordam os elementos químicos na tabela periódica. Em todas elas podemos observar a presença da reflexão sobre o ser humano como um ser capaz de pensar e agir racional e sensatamente, sobre a importância fundamental do trabalho na construção do ser humano capaz de compreender a natureza em suas diversas manifestações, e sobre o destino da razão na modernidade e no século XX. Seja quando reflete os processos culturais e políticos criados pelo fascismo e nazismo, quando analisa a matéria existente nos seres e nas coisas, ou quando especula o significado e o sentido da extrema violência em vigor no século XX, Levi sempre enfatiza a importância do trabalho no processo de construção do ser humano e da humanidade. Em 1983, após o lançamento do livro Se non ora quando? (Se não agora, quando?), perguntado sobre os motivos fundamentais de suas obras, Levi respondeu com duas importantes reflexões: 1) o tema da “dignidade do ser humano” e 2) a importância fundamental do trabalho na existência humana: “o homem que não trabalha é um não-homem” (Levi, 2018b, p. 383).

O acento positivo que Levi sempre pôs no trabalho representa o mais grave dos problemas da sociedade moderna: certamente, a alienação do trabalho degrada o ser humano a uma coisa ou objeto, impossibilitando que o trabalhador compreenda a si mesmo, a realidade social e o mundo. Para Levi, mesmo consciente dos dilemas e das contradições do trabalho na sociedade industrial e tecnológica, no trabalho o ser humano aprende a enfrentar a matéria, a compreender o significado dos seus elementos e substâncias, a experimentar e manipular esses elementos, a pensar e agir de modo racional e sensato. Na relação que todo tipo de trabalho tem com a matéria, pensando e agindo racionalmente, o ser humano “amadurece e cresce” (Levi, 2018b, p. 55).

Nos contos que compõem o livro Histórias Naturais (Levi, 2022), mais especificamente em “O versificador”, Primo Levi escreve sobre a complexa relação que envolve o ser humano, o trabalho, a razão, a ciência, a técnica e a tecnologia, bem como os paradoxos que o progresso gera na sociedade industrial. Se, por um lado, essa relação possibilitou que, na abertura da era moderna, o ser humano fosse capaz de criar os “belos engenhos” e a se orientar pela força do pensamento racional e do cálculo no mundo, por outro, ela pode anulá-lo como criador inventivo e lúcido, como ser virtuoso. Tal é o argumento presente no conto em destaque, no qual um poeta que escreve versos sob demanda adquire uma “máquina criada para fazer versos” da companhia multinacional de produtos eletrônicos NATCA.

Entre as diversas questões que o conto problematiza e que podem ser usadas para qualificar a educação que o ser humano necessita após a tragédia da desumanização e da destruição da razão realizada pelo fascismo e potencializada pelo nazismo, destacamos duas: 1) é dever moral e político do ser humano dotar de sentido a técnica e a tecnologia, pois ambas não possuem um sentido em si mesmas. Como forças produtivas, elas podem ser usadas tanto para a qualificação racional e sensata do ser humano, quanto para a destruição e a violência organizada; e 2) o destino da razão é uma questão vital que deve ser questionada permanentemente, já que, como instigou o pintor espanhol Goya, no final do século XVIII, ao intitular um de seus quadros como: “O sono da razão produz monstros”. Esse sono se concretiza na medida em que, em função das forças econômicas e políticas e do poder tecnológico, o ser humano deixa de ser capaz de pensar racional e sensatamente. Em É isto um homem?, Levi compreende que a criação de uma nova “raça” era um dos principais produtos das experiências que o nazismo realizou: na radical divisão dos seres humanos em escravos e “povo de senhores” (Herrenvolk). Levi afirmou que o nazismo buscou no “laboratório” dos campos de concentração a criação de um homem “em cujo rosto e nos seus olhos não se pode ler o menor pensamento” (Levi, 1988, p. 91).

Um olhar materialista sobre a relação entre trabalho manual e trabalho intelectual em Levi

Os Gregos diziam de uma pessoa inculta: “Ele não sabe escrever nem nadar”. Hoje, devia-se juntar: “Nem usar um computador” (Levi & Regge, 2012, p. 97).

Nesta seção, compilamos passagens de Levi que dizem respeito à sua trajetória formativa como químico em um contexto de perseguição nazista. Com base nisso propomos uma interpretação à luz de uma perspectiva materialista, diferenciando trabalho manual e trabalho intelectual e refletindo as relações entre ciência, tecnologia e sociedade a partir de reflexões de Alfred Sohn-Rethel (2001).

Sendo de origem hebraica e tendo sofrido a perseguição nazista das maneiras mais profundas, Levi optou por fazer a graduação em química, em parte por se dispor a enfrentar a matéria que forma o humano, mas em grande parte tentando encontrar nas ciências da natureza uma área de conhecimento que fosse menos influenciada pelos preconceitos e perseguições fascistas. O fascismo, enquanto movimento de massas orientado por ideologias e pela subordinação passiva, forma e exige que se forme um homem sem pensamento. No seu tempo, quando “a conspiração era aplaudida”, ouviu da sua professora de italiano que “os assuntos literários tinham um valor formativo e que os assuntos científicos tinham apenas um valor informativo”:

[...] fiquei com os cabelos em pé. Isto confirmou-me a ideia de que havia uma conspiração. Tu, jovem fascista, jovem crociano, vós, jovens crescidos nesta Itália, não vos deveis aproximar das fontes de conhecimento científico porque elas são perigosas. Nunca li Croce sobre estes assuntos, mas aparentemente ele considerava-os pseudociências, matérias técnicas, úteis para a vida mas não para o entendimento do mundo. (Levi & Regge, 2012, p. 43-44).

A experiência com a universidade foi libertadora, ainda que seu diploma tenha sido impresso com a anotação - “De raça hebraica”:

Para mim, havia uma complicação, como já contei nos meus livros: as leis raciais. A libertação universitária coincidiu com o trauma de me ser dito: cuidado, tu não és como os outros, na verdade vales menos que eles; tu és avarento, tu és um estranho, tu és sujo, tu és perigoso, tu és pérfido. Eu, inconscientemente, reagi acentuando a minha dedicação aos estudos. (Levi & Regge, 2012, p. 50-51).

Apesar dessa situação, Levi admirava a linguagem do curso de química que frequentara: era clara, precisa, “essencial”; ao mesmo tempo, considerava uma bela obrigação o fato de passar várias horas do dia em um laboratório, um espaço de socialização e que o fascinava por conta do trabalho realizado com as mãos. Levi reconhecia e valorizava a necessidade do enriquecimento do logos humano, da capacidade humana de refletir, especular e fazer interrogações sobre a realidade - daí seu interesse pelas duas culturas, a científica e a literária. Pensar, para ele, era não só o que de melhor pode acontecer ao ser humano, como também a única forma de evitarmos a reprodução de ideologias obscuras e anticivilizatórias. Diferentemente da matéria - que, embora dinâmica e em movimento, não constrói significado sobre o mundo -, o ser humano tem uma posição privilegiada, mas também a responsabilidade de fazer diagnósticos da realidade na qual está inserido, usando, para isso, de todo seu aparato racional, cognitivo, sensitivo e cultural. Segundo ele, “discernir ou criar uma simetria, ‘pôr alguma coisa no seu devido lugar’, é uma aventura mental comum ao poeta e ao cientista” (Levi & Regge, 2012, p. 38-39).

O campo científico se apresentou, assim, como uma oportunidade de lidar com a realidade concreta, longe dos preconceitos e paixões que assolam - e muitas vezes assombram - a subjetividade humana. Explorar a complexidade da matéria, experimentá-la, categorizá-la, construir sentido onde apenas havia movimentos e (ir)regularidades, era não só uma forma de realização profissional, mas também pessoal. Levi admirava o labor do químico e as habilidades desenvolvidas no laboratório, as quais aparentavam ser estritamente técnicas, instrumentais, fragmentadas, em uma relação “fria” com o fenômeno, mas que também dependiam, demandavam e proporcionavam a constituição do humano nesse processo:

Outra virtude que a profissão de químico desenvolve é a paciência, não ter pressa. Hoje, a química está completamente mudada; é química rápida. Hoje, a análise de um mineral já não é manual. É feita por máquinas e demora alguns minutos, quando antes demorava semanas. Era, naturalmente, inconveniente ter de trabalhar toda uma semana para analisar um mineral, mas isso tornava possível desenvolver outras virtudes, que, de facto, são as de perseverança, não ficar desencorajado, aplicação assídua. [...] No passado, fazer uma separação de proteínas era um trabalho muito duro. É claro que, dum ponto de vista prático, uma análise feita pela máquina é mais conveniente. Mas a análise manual, tal como o trabalho manual, tem um valor formativo; é demasiado semelhante às nossas origens, como mamíferos, para ser desprezada. No fim das contas, nós devemos saber como usar as nossas mãos, os nossos olhos, o nosso nariz. (Levi & Regge, 2012, p. 94-95).

Valoriza-se assim uma certa ideia de experiência humana positiva em relação à realidade, de ser humano “vivo”, um ser que pensa e que sente, não só produz o significado das coisas como também cria a si mesmo nesse processo. Compreendendo o mundo, ele compreende melhor a si mesmo e, assim, se autoproduz, toma para si as rédeas da própria vida, não fica sujeito às informações e imposições que vêm de fora. Por outro lado, as experiências com as aulas de ciências naturais não foram totalmente apreciadas na sua formação. Segundo ele, elas se sustentavam em um caráter de ensino tradicional, fundamentado em uma visão de ciência propedêutica, estritamente teórica e de baixo nível de reflexão, sem conexão com sua construção sócio-histórica ou mesmo com alguma atividade prática na qual se pudesse exercer a transformação da matéria. No fundo, essa era uma outra forma - mais sutil, porém de grande impacto - de bloquear o pensamento:

Quanto à minha professora de Ciências Naturais, para ela a Química era um manual escolar e nada mais. Era páginas de um livro. Nunca na vida tinha tocado num cristal ou numa solução. Era um conhecimento transmitido de professor para professor, sem um único teste prático. Havia experiências nas aulas, mas eram sempre as mesmas. Os meus professores eram gente capaz, mas eram completamente destituídos de treino científico, apesar de terem tido alguma instrução. (Levi & Regge, 2012, p. 46).

Essas passagens trazem uma certa problematização da categoria do especialista, do cientista como uma referência absoluta de conhecimento, um intelectual detentor de saberes tão profundos que se colocava em um patamar distinto perante outras pessoas. Levi questiona o patamar intocável da ciência e do cientista por meio da tensão entre trabalho teórico e trabalho prático, trabalho intelectual e trabalho material - dicotomias geralmente compreendidas de maneira reducionista, embora ambas componham o fazer do cientista e contribuam para a constituição do ser humano como animal que pensa:

A especialização da mão significa a ferramenta e a ferramenta significa a atividade especialmente humana, a ação transformadora do ser humano sobre a natureza, a produção. [...] O ser humano foi o único [animal] que conseguiu imprimir sua marca na natureza, não só transferindo de lugar plantas e animais mas também modificando o aspecto, o clima, de seu local de moradia e até plantas e animais, de tal modo que as consequências de sua atividade só poderão desaparecer com a extinção geral do globo terrestre. [...] Porém, junto com a mão, desenvolveu-se passo a passo a cabeça. (Engels, 2020, p. 53-54).

Nesse sentido, para além da sua atual função de sobrevivência da classe trabalhadora, o trabalho humano sempre mereceu atenção das análises sociológicas mais críticas. Para Engels, o trabalho é muito mais do que fonte de riqueza, sendo também - e principalmente - “[...] a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem” (Engels, 2013, p. 13). Karl Marx reforça essa compreensão, na medida em que “ao atuar, por meio desse movimento, sobre a natureza externa a ele e ao modificá-la, ele modifica, ao mesmo tempo, sua própria natureza. Ele desenvolve as potências nela adormecidas e sujeita o jogo de suas forças a seu próprio domínio” (Marx, 2013, p. 32).

Em tempos de intenso desenvolvimento da ciência e da tecnologia - cujos bônus e ônus recaem direta ou indiretamente sobre toda a sociedade -, torna-se necessário mobilizar teorias críticas que sejam capazes de romper as aparências, as propagandas e ideologias hegemônicas em defesa do capital e de contribuir na superação das profundas crises (sociais, ambientais, culturais, éticas, civilizatórias, entre outras) que esse sistema gera ou, mais ainda, das quais é dependente.

O epistemólogo soviético Pavel Vasilyevich Kopnin nos ajuda a entender que “o pensamento é o reflexo da realidade sob a forma de abstrações” (Kopnin, 1978, p. 121) e que é uma “ficção criada pelo idealismo” (p. 126) achar que o pensamento objetivo existe antes e independentemente da humanidade. Além de afirmar que “o que a máquina faz naturalmente não é pensamento” (p. 134), Kopnin insiste na ideia do “pensamento automático” - conceito interessante para o contexto social atual.

Para aprofundar a discussão da dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual, nos ancoramos em reflexões do filósofo alemão Sohn-Rethel (2001).

Segundo Della Torre (2024), Sohn-Rethel demonstra “[...] como o pensamento abstrato deriva da forma mercadoria, e como o desenvolvimento do dinheiro e da ciência correm em paralelo”. Segundo Sohn-Rethel (2001), “a divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual se encontra em todas as sociedades baseadas na divisão de classes e na exploração econômica” (p. 13, tradução nossa) e a complexidade das relações estabelecidas no capitalismo dificulta a compreensão da totalidade que condiciona as nossas formas de vida, sendo necessária uma teoria que avalie a fundo esse processo e pense as condições de sua possível superação. Na formulação das suas contribuições, ele propõe reflexões nesse sentido:

Quais são as implicações sociais e econômicas de uma tecnologia que tende a absorver o trabalho humano do trabalhador? Esta tecnologia reduz ou aumenta a distância entre o trabalho intelectual e o trabalho manual? Promove ou dificulta a revolução socialista? Que relação existe entre o equilíbrio de ganhos e perdas de capital e o equilíbrio entre o homem e a natureza? Do ponto de vista de classe, a tecnologia pode ser considerada neutra? E a ciência? (Sohn-Rethel, 2001, p. 11, tradução nossa).

Para Barros (2023), Sohn-Rethel já questionava a suposta neutralidade da ciência, “só que fazia isso por um caminho diverso”:

Ele percebia que o processo de abstração se realiza não do interior para o exterior, ou melhor, da consciência para a realidade, e sim da realidade para a consciência. O abstrato advém das formas de sociabilidade que foram organizadas a partir da realização do mercado e é nelas que se efetiva a individualização da consciência privada. A consciência, nascida desse processo, torna-se na verdade a realização empírica da abstração do trabalho. [...] O desdobramento histórico se marca, portanto, pela separação entre a atividade subjetiva e as condições objetivas. (Barros, 2023).

Em Primo Levi inexiste uma concepção de mundo pós-moderna, que fez tábula rasa do progresso associando-o à violência e destruição, mas há uma compreensão realista e lúcida dos paradoxos e das contradições do progresso no século XX. A razão, a ciência, a técnica e a tecnologia devem contribuir no esforço permanente, e sempre renovado em toda geração, de desenvolver a ação social racional e sensata em relação às diversas formas de violências potencialmente intrínsecas ao ser humano e à natureza. Logo, podemos dizer que na base da compreensão da razão e da ciência está a contribuição de formar sujeitos econômicos e políticos, indivíduos lúcidos e cidadãos responsáveis que possam participar da construção da humanidade, da comunidade humana capaz de reconhecer e conter a violência e a irracionalidade, de seres humanos livres e iguais. Se os cientistas e os tecnocratas não colaborarem no esforço de humanizar o ser humano e a sociedade, o destino do ser humano será de uma vida precária, que se manifesta através de choques e tensões econômicas e políticas que causam dor e destruição.

Em diversas reflexões que Primo Levi desenvolveu sobre a dignidade humana, inclusive nos contos de Histórias Naturais, a construção social do ser humano que não pensa aparece como um problema na sociedade democrática do pós-guerra.

Histórias Naturais e “O Versificador”

Marco Belpoliti (2015) afirma que a redação do livro A trégua, no qual Levi narra a libertação do campo de Auschwitz e o complexo retorno para a Itália, foi realizada simultaneamente aos contos que formam o livro Histórias Naturais (Levi, 2022), publicado em 1966. A redação conjunta de temas tão distintos revela a presença de uma ampla e insaciável curiosidade do autor e de sua vontade em querer saber e compreender qual é o sentido e o significado das coisas e dos seres, dos fenômenos e das matérias que formam a natureza, da ação do ser humano na cultura e na sociedade. Ainda em 1966, questionado sobre os motivos que o levaram a escrever o livro fantasioso e ficcional Histórias naturais, após a publicação de dois livros sobre a realidade trágica do fascismo e do nazismo, Levi afirmou que

Existe uma ligação íntima entre a obra precedente e este meu último livro. Em ambos há o homem reduzido à escravidão por uma coisa: a “coisa nazista”, e a “coisa”, isto é, a máquina. Sempre o sono da razão produz monstros. (Levi, 1997 apud Belpoliti, 2015, p. 211, tradução nossa).

O químico, o escritor testemunha, o escritor de contos de ficção científica e de realismo fantástico compartilhavam da mesma curiosidade inesgotável, a observação atenta das coisas e dos seus efeitos na natureza e na cultura. Todas essas facetas manifestavam a necessidade de compreender as potencialidades existentes na matéria das coisas, tanto a potencialidade criativa capaz de possibilitar que o ser humano possa agir racional e sensatamente, quanto a vontade de potência que transforma o ser humano em escravo da coisa, que produz vícios e gera violências e brutalidades. Na resposta de Levi, há um outro elemento de fundamental importância para o destino do ser humano: a frase “o sono da razão produz monstros”, da qual Goya se valeu na série Los Caprichos, serve como um alerta permanente sobre as sempre novas formas de irracionalismo, brutalidade e violências na história. Dessa forma, no escritor que redigia o livro que completava a trágica experiência vivenciada no campo de concentração, ao mesmo tempo que escrevia contos breves sobre a “coisa”, a máquina que domina o criador, há sempre o mesmo elemento fundamental: o exercício diário da razão humana e crítica, da ciência que liberta o ser humano do indeterminado e do sofrimento sem nome, causado pela força que há nas coisas.

Nos contos do livro Histórias Naturais, publicados sob o pseudônimo de Damiano Malabaila, Levi utiliza “[...] os recursos do fantástico para imaginar as consequências aporéticas e extremas da racionalidade humana, a qual, através de uma inquietante combinação de audácia científica e falta de escrúpulos éticos, consegue produzir resultados ‘inimagináveis’” (Basevi, 2015, p. 229). Na obra de Levi, a linguagem científica não é mero estilo, mas, sim, a expressão de uma realidade da vida de um escritor que era também químico, e que, por isso, interpretava a realidade a partir dessa perspectiva (Menezes, 2019). Nesse sentido, compreendemos que a obra faz da literatura um “[...] dispositivo a partir do qual se torna possível realizar uma crítica das forças que constituem o presente” (Hilário, 2013, p. 201).

O gênero de ficção científica também tem seu espaço na literatura em educação em ciências, considerando tanto suas reflexões sobre as possíveis transposições didáticas quanto as reflexões socioculturais que podem gerar processos formativos. Segundo Piassi e Pietrocola (2009), a maioria dos autores reconhece a dificuldade de estabelecer uma definição precisa de ficção científica. Apesar disso, eles a postulam “[...] não como um gênero que possui qualquer relação com a ciência, mas, sim, que emprega uma racionalidade do tipo científica para produzir conjeturas sobre a realidade” (p. 528). Assim, “não se trata de mero espanto e estranhamento perante o incomum, que ocorre em histórias de terror ou fantasia, mas de um estranhamento que obriga a pensar no incomum como uma conjetura plausível e lógica, aplicável ao mundo fora da ficção” (Piassi & Pietrocola, 2009, p. 528). É nessa perspectiva que nos aproximamos dos contos ficcionais - também chamados de fantabiológicos - de Primo Levi.

Especificamente em relação ao conto objeto do presente texto, no contexto nacional, a partir de uma busca pelos termos “versificador” e “versificatore” na plataforma Scielo, encontramos apenas dois artigos. De acordo com Menezes (2019), as metáforas literárias da obra Histórias Naturais apresentam “[...] linguagens e técnicas como alegoria bem construídas a favor do poder, da dominação e da destruição do outro” (p. 2). Pereira e Paula (2022), por sua vez, fizeram uma análise minuciosa do conto “O versificador”, destacando “[...] as problemáticas relativas à autoria, ao sentido e à função da poesia quando se aventa a hipótese ficcional de um autômato versificador substituir a atividade criadora de poetas humanos” (p. 12). Segundo estes autores,

Diferentemente do hibridismo formal das obras testemunhais, o seu gênero [de Levi] é relativamente simples de definir: são narrativas curtas de ficção científica que exploram o fantástico, o nonsense e o insólito, expondo a desorientação do homem moderno num mundo cada vez mais dominado pela técnica e a burocracia. (Pereira & Paula, 2022).

Podemos dizer que na vida de Primo Levi está presente o permanente esforço do pensamento em enfrentar a complexidade da matéria que há nas coisas e nos seres, em ousar pensar (Sapere Aude, o elemento mais essencial da razão humana, empírica, experimental, lógica, histórica e crítica para Immanuel Kant), em decompor a matéria para observar e pensar os seus elementos imanentes, experimentar e poder nominar o que existia como coisa indeterminada e incompreendida. O trabalho humano que há na vida e na obra de Primo Levi pode ser compreendido como o trabalho virtuoso que Galileu Galilei expôs em O ensaiador: o trabalho que pode ser realizado por todo ser humano (como afirmou Heráclito de Éfeso, “O pensar é a todos comum”), que nasce da vontade humana em querer compreender o universo, que possibilita que o ser humano possa compreender a si mesmo e que cresce com a força da razão humana em interrogar as formas e os movimentos dos astros, em revelar as forças que os impulsionam. É possível existir e viver sem tais motivações, contudo, sem a razão, o ser humano vaga desorientado dentro de um “obscuro labirinto” (Galilei, 1999).

Feitas essas considerações, o presente trabalho se apresenta como uma tentativa de explorar uma outra “zona cinzenta” que há nos escritos de Levi e nos seus contos de fantascienza (ficção científica), especialmente no conto “O versificador”. Nesse conto ele expõe diversos problemas relacionados ao valor da ciência na modernidade: por um lado, a racionalidade instrumental e a “ciência invertida”, que despotencializam o ser humano e transferem valor e virtuosidade para a tecnologia e as máquinas e, por outro, o ser humano que cria a ciência que enfrenta a matéria para compreendê-la e para criar novas formas mais conscientes, racionais e sensatas de estar no mundo.

ASPECTOS METODOLÓGICOS

Esta é uma pesquisa qualitativa que visa compreender a complexidade dos fenômenos estudados em contextos selecionados (Santana et al, 2023), identificando o conto de Primo Levi como material de partida e organizando a análise a partir dos referenciais teóricos adotados no trabalho. A pesquisa qualitativa lida com variáveis dinâmicas, socialmente construídas, e que interferem de diferentes maneiras no desenvolvimento da investigação:

Não se trata de montar um quebra-cabeças cuja forma final conhecemos de antemão. Está-se a construir um quadro que vai ganhando forma à medida que se recolhem e examinam as partes. O processo de análise dos dados é como um funil: as coisas estão abertas de início (ou no topo) e vão-se tornando mais fechadas e específicas no extremo. O investigador qualitativo planeia utilizar parte do estudo para perceber quais são as questões mais importantes. Não presume que se sabe o suficiente para reconhecer as questões importantes antes de efetuar a investigação. (Bogdan & Biklen, 1994, p. 50).

A busca pelo sentido e o significado da razão, da ciência, da técnica e da tecnologia na obra de Primo Levi está profundamente vinculada aos processos de desumanização e às tragédias criadas pelo fascismo e pelo nazismo. Assim, por um lado, procuramos efetuar uma pesquisa preocupada com a compreensão da história dos fenômenos, seus condicionantes e desdobramentos sociais e, por outro, buscamos expor a atualidade da leitura e a compreensão das observações e análises realizadas por Levi no intervalo de 1945 a 1987, marcado por reflexão contínua e permanente sobre as diversas tragédias humanas que o fascismo e nazismo realizaram contra o ser humano, o indivíduo, os grupos sociais e os povos.

Apesar de todos os contos do livro Histórias Naturais se caracterizarem como criações ficcionais cujo mote gira em torno de dilemas éticos relacionados ao avanço da tecnologia na sociedade, escolhemos analisar o conto “O Versificador” por conta de sua forte conexão com as controvérsias relacionadas ao avanço da inteligência artificial nas criações humanas, especialmente na esfera do trabalho intelectual.

Nesse conto, o versificador é uma máquina de produzir versos a partir de algumas palavras-chave inseridas no seu programa - muito atual e visionário para um conto da década de 60. A trama se desenvolve em torno das implicações da máquina no trabalho intelectual de um poeta sobrecarregado. A máquina, que se inicia como ferramenta auxiliar, vai ganhando cada vez mais protagonismo na produção intelectual e o ser humano vai perdendo a capacidade de ser virtuoso, criativo, consciente de si mesmo, responsável por si mesmo e pelo destino da sociedade. Seja pelo sentido da vida reduzido à função e ao utilitarismo, seja pelos efeitos da vida entorpecida pelo consumismo e pelo hedonismo que já se manifestavam nos anos 1960 nos Estados Unidos, Levi compreendeu que o sentido da vida do poeta comercial era não pensar por si mesmo. Nos argumentos do Sr. Simpson, o mesmo personagem que Levi retratou como um “vendedor de ilusões” (Levi, 2016b, p. 637), podemos observar a força da razão técnica, instrumental, que serve para vencer, ganhar, obter, possuir, que visa adequar com perfeição os meios e os fins, que é capaz de calcular com precisão as relações entre os custos e os benefícios, mas que não é capaz de compreender as questões morais e éticas, o valor e a direção das ações sociais na realidade, e nem mesmo os impactos na natureza, na cultura e na sociedade.

Esta pesquisa se dedica à compreensão da história dos elementos presentes no conto, seus condicionantes e desdobramentos. Partimos de uma perspectiva dialética de mundo, um pensamento que abre mão de sua aparente superioridade categorial e procura compreender o fenômeno do ponto de vista de sua expressão particular dentro de um universo complexo, respeitando o que o objeto oferece (Adorno, 1998). Nesse sentido, a construção de dados a partir do estudo do material foi orientada pela identificação de contribuições da trama ficcional para uma reflexão sobre a sociedade atual, de forma que,

Embora alguns personagens, instituições e acontecimentos não pertençam ao cenário atual, isto não significa que estejam confinados ao esquecimento. Ao contrário, eles estão presentes de alguma forma em cada um de nós, em nossa atuação e em nossa produção de conhecimento, pois estamos envolvidos e partimos exatamente do que anteriormente foi elaborado. (Pimentel, 2001, p. 191-192).

A constituição das categorias de análise visou respeitar os significados do conto como um todo e também as particularidades que se expressam na relação entre a tecnociência e a sociedade. Assim, realizamos um processo de construção de dados que converge para as bases normalmente relacionadas aos processos de categorização na pesquisa qualitativa: a leitura do material na íntegra, visando identificar os seus principais componentes, considerando os personagens e a trama desenvolvida; a identificação de unidades de significados, destacando passagens do conto que expressem os temas e as tensões; e, por fim, a reorganização e interpretação dessas unidades de significados, que foram organizadas em quatro categorias de análise:

  1. Estrutura e liberdade poética do quimiscritor: nesta categoria fazemos a identificação dos personagens da trama, da sua estrutura e do seu tema principal, qual seja, um poeta que irá encontrar no versificador uma maneira de aliviar a sobrecarga do seu trabalho intelectual;

  2. Exigências contemporâneas do mundo do trabalho: abordamos alguns dilemas da categoria “trabalho” na sociedade contemporânea;

  3. A influência da tecnologia na organização e nos modos de vida da sociedade: destacamos a inversão de papéis entre uma ferramenta que ao longo da narrativa se humaniza, enquanto o trabalhador se desumaniza;

  4. Entre a ferramenta neutra e a rendição ao automatismo onipresente: refletimos sobre como a contínua inserção e apropriação (consciente e inconsciente) da tecnologia altera nossa percepção sobre a “normalidade” e demanda olhares críticos sobre sua apropriação na educação.

RESULTADOS E ANÁLISES

A natureza (das coisas) ama esconder-se.

(Heráclito)

No que diz respeito à i) estrutura e liberdade poética do quimiscritor, o conto contém uma primeira seção intitulada “Personagens”, na qual são apresentados os nomes dos cinco participantes da trama: o poeta, personagem principal do conto, vende seu trabalho intelectual na confecção de textos para terceiros com ajuda de sua secretária (a segunda personagem); o Sr. Simpson, um vendedor ambulante que também aparece em outros contos, vende ao poeta uma máquina capaz de produzir versos, o versificador; por fim, temos Giovanni, ajudante do Sr. Simpson, que apenas ajuda a carregar e a ligar a máquina e logo volta para o escritório.

Em geral, independentemente do gênero literário, reside nas obras de Levi a sensação de que “[...] a ofensa e a aniquilação do homem não conseguem ser plenamente expressas por meio da linguagem” (Moraes, 2013, p. 92), um esforço narrativo que dá continuidade a uma tradição filosófica de tentar dizer o que não pode ser dito, o que não se deixa dizer (Duarte, 2008). Nesse contexto, faz sentido o texto fantasioso, ficcional, de criação, que permite não só reelaborar o que já está posto no mundo, mas também extravasar para outras possibilidades de vida, de mundo e de existência.

Na segunda seção, chamada de “Prólogo”, o leitor tem o primeiro contato com o tema da peça: o poeta e a secretária estão conversando naturalmente sobre o versificador - que ainda não foi apresentado ao leitor. Na interação, a secretária diz que o poeta tem alguns textos para produzir, ao que a conversa continua:

POETA: Ninharia: antes da tarde terminamos tudo. Já ligou o versificador?

SECRETÁRIA: Sim, já está quente. (Leve zumbido.) Podemos começar imediatamente.

POETA: Se não fosse ele... E pensar que a senhora era contra! Lembra dois anos atrás, que esforço, que trabalho extenuante? (Levi, 2005, p. 37).

Encontramos uma situação cotidiana em que o poeta e a secretária conversam com naturalidade sobre a agilidade no trabalho proporcionada pelo versificador. Essa conversa está acontecendo no tempo “presente” do leitor, enquanto o conto propriamente dito será uma rememoração daquilo que já aconteceu (dois anos antes) e que desembocará no diálogo apresentado. De início, isso pode quebrar certa expectativa crítica do leitor ou até mesmo gerar frustração, uma vez que já se estabelece de antemão o final da história: a incorporação e exaltação da tecnologia. O episódio demonstra também um estilo de escrita que remete a uma obra teatral, na qual há um narrador que contextualiza as interações, as falas são sempre anunciadas pelo nome do personagem que as declama, há a presença de parênteses empregando qualidades e intensidades na comunicação em cena. A terceira seção, intitulada ‘O versificador’, transpõe a ação para dois anos antes:

POETA (fala para si, entediado e apressado): Ufa! Isso nunca termina. Mas que trabalho! Nunca um momento de livre inspiração. (Levi, 2005, p. 37).

A passagem exprime uma linha de pensamento que permeará todo o conto e a trama a ser desenvolvida: as ii) exigências contemporâneas do mundo do trabalho, que também recaem sobre o trabalho intelectual. Embora no capitalismo ocidental o trabalho se imponha como a alienação total, que exige cada vez mais do corpo e da mente dos trabalhadores, o trabalho ainda resguarda um âmbito de constituição do próprio trabalhador que trabalha e também de efetivação da cultura humana na sua relação de transformação da e com a natureza. É na materialização do seu trabalho de poeta - e de si mesmo como ser humano - que o protagonista enfrenta dificuldades em equilibrar seu livre exercício de criar com uma profissão extenuante que dele demanda temas específicos e formatos delimitados. Uma criação que é autônoma, mas não é livre:

POETA: Chega! Jogue fora tudo. Já me enchi desse trabalho sujo: eu sou um poeta, um poeta premiado, não um borra-botas. Não sou um menestrel. Vá pro diabo o marquês, o epicédio, o epinício, o lamento, o Sigismundo. Não sou um versificador (Levi, 2005, p. 38).

Sentindo-se profundamente exaurido diante da bruta exigência laboral, o poeta lamenta o fato de ele próprio não ser um versificador, uma máquina programada e automatizada. Nota-se aqui uma inversão da relação entre ser humano e tecnologia: aquilo que poderia ser um diferencial humano diante da rigidez da máquina - criação, sentimentos, afetos, autoconsciência -, aparece como um pesar, uma lástima, uma sensação de falha humana diante da produtividade fria e constante que a tecnologia oferece.

Ele é questionado pela secretária sobre a vontade de comprar a máquina: “Não se pode ficar para trás, é perfeitamente compreensível. Precisamos acompanhar os tempos. Eu também não gosto, lhe garanto, mas a certa altura é necessário tomar uma decisão” (Levi, 2005, p. 39). A resposta do poeta explicita a prevalência da naturalidade do progresso científico e tecnológico, um avançar da ciência e da técnica ao qual não se pode questionar, que anda sempre para frente, para o futuro, para o melhor.

Notamos no conto um foco na relação imediata do ser humano com a tecnologia, deslocando os aparatos de uma macroestrutura de poder e entendendo a máquina como mais um instrumento a ser utilizado e manipulado visando determinado fim. Tal perspectiva se alinha à de Kopnin (1978):

[...] o correto não é questionar se a máquina pensa ou procurar o que distingue o pensamento da máquina do pensamento do homem, mas colocar o problema de como a máquina ajuda o homem a pensar, de como ela substitui o homem e suas ações no processo de pensamento. (p. 135);

[...] Sem as condições de uma civilização desenvolvida, de uma ciência e técnica madura, o pensamento é suprido de instrumentos que ajudam imediatamente o homem a pensar, refletir o objeto. (p. 137).

Kopnin (1978), mesmo quando elenca diferenças entre o machado de pedra do homem primitivo e o complexo computador eletrônico moderno, faz com que a exposição recaia nas afinidades entre eles, uma vez que “ambos são instrumentos de trabalho humano, em qualquer parte o homem usa as propriedades físicas e mecânicas dos objetos como instrumentos de sua atividade” (p. 137). A sociedade ocidental teria chegado a um limite em que tudo pode ser questionado sob o crivo da razão - ou das razões -, menos o rolo compressor do progresso, ao qual à humanidade resta se adaptar. Esse é um tema desenvolvido por Walter Benjamin e seus leitores, pois “[...] se a ideia de progresso é insustentável, é principalmente porque ele é inseparável da ideia de tempo cronológico como matriz de um processo portador de sentido” (Kracauer, 1995 apud Machado, 2010, p. 7).

De certa forma, o caráter profético da perspectiva materialista e dialética de Kopnin parece ser muito adequado a contextos de tecnologias não digitais, entretanto demanda atualizações profundas considerando a recente ascensão das IAs generativas, cujas complexidades e contradições aparecem no conto do versificador, mesmo que de maneira prototípica e analógica.

Além da discussão de uma relação mais intrínseca entre trabalho intelectual e trabalho material, percebemos no conto iii) a influência da tecnologia na organização e nos modos de vida da sociedade em cada tempo histórico. Dependendo da conjuntura, o progresso tecnológico, que poderia ser o porta-voz de uma relação mais emancipadora do ser humano com seu trabalho, acaba construindo uma relação de subordinação do homem à tecnociência, tanto objetiva quanto subjetivamente.

A formação intelectual do poeta não o impede de ver grandes potenciais na aquisição do versificador como forma de tornar mais ágil seu processo produtivo, para as tarefas mais mecânicas. “É um instrumento de trabalho como outro qualquer, como o telefone, o mimeógrafo. No nosso trabalho o fator humano é e sempre será indispensável, mas temos concorrentes, e por isso devemos confiar às máquinas os trabalhos mais ingratos, cansativos” (Levi, 2005, p. 39). Aqui o leitor encontra uma perspectiva equivocada de tecnologia neutra, sem contornos políticos ou ideológicos, cuja recepção positiva ou negativa decorreria da utilização de quem conduz aquele processo (Santos & Carvalho, 2020). No caso, é na perspectiva da secretária - geralmente reconhecida pelo trabalho técnico, organizativo, administrativo - que surgem ressalvas quanto à não neutralidade da máquina e, por consequência, fortes críticas a essa aquisição:

SECRETÁRIA (hesitante, cada vez mais comovida): Mestre... eu... eu trabalho com o senhor há quinze anos... me perdoe por dizer, mas... em seu lugar eu não faria isso. Não digo por mim, sabe: mas um poeta, um artista como o senhor... como pode resignar-se a pôr em casa uma máquina... moderna, concordo, mas que será sempre uma máquina... como poderá ter o seu gosto, a sua sensibilidade... [...]

SECRETÁRIA (muito comovida): [...] Eu conheço o meu ofício. Vamos ver se aquele outro, aquele coisa, saberá fazer o mesmo! (Levi, 2005, p. 39-40).

“Aquele coisa” é uma expressão muito emblemática nesse contexto. Em geral, é comum se referir a um maquinário como “aquilo” ou “aquela coisa”, atribuindo-lhe um status coisal, de objeto, diferente do sujeito. Porém, quando a tecnologia avançada abandona seu lugar de passividade, de mera reprodutora que executa ordens por comandos bem delimitados, e passa a ocupar um lugar de produção de significados, de invenção, de fabulação, há uma virada tênue, mas importante: de objeto inerte, a tecnologia passa a se enquadrar em outra categoria, a do objeto que produz. A expressão “aquele coisa” carrega consigo o reconhecimento de uma alteração epistemológica por parte da secretária, na qual a tecnologia passa a ser reconhecida como um agente no mundo. O termo “aquele” refletiria o reconhecimento dessa agência ativa, entretanto o termo “coisa” expressa uma característica negativa, que reconhece o movimento da realidade tecnológica, mas ainda mantém a forte suspeita contrária a esse reconhecimento - o que confere um tom de humor e ironia à passagem. Nesse contexto, podemos interpretar que, se para Marx a alienação se dava na relação do trabalhador com seu produto, no sentido de que “[…] quanto maior é o produto, mais ele [trabalhador] fica diminuído” (Horkheimer, 2002, p. 112), no que diz respeito à tecnologia, na medida em que seu uso é mais acentuado no setor produtivo, parece que “[…] a máquina expeliu o maquinista, está correndo cegamente no espaço” (p. 133).

Toda a obra de Primo Levi trata de questões como a compreensão; a capacidade humana de pensar e dotar a matéria de significado e sentido; a dignidade humana e a ausência de dignidade; a violência e a injustiça; o sentido e o significado do fascismo e do nazismo; o campo de concentração e extermínio. Em 1955, Primo Levi escreveu o importante artigo intitulado Deportati. Anniversario, no qual refletia sobre: 1) a tristeza que sentia em constatar que após dez anos da libertação de Auschwitz prevalecia o silêncio e o risco elevado do esquecimento dos campos de extermínio; 2) a necessidade imperativa da reflexão do que seria o mundo se o nazismo fosse vitorioso na Segunda Guerra Mundial, isto é, a generalização em “inteiros continentes” do poder total de dominação e exploração dos povos reduzidos à condição de escravos e extermínio dos trabalhadores improdutivos e das “raças inferiores”; e 3) a técnica e a “ciência invertida”, problema mais importante levantado pelo artigo:

Somos filhos daquela Europa onde está Auschwitz: vivemos naquele século no qual a ciência foi invertida, e deu à luz os códigos raciais e as câmaras de gás. Quem pode dizer que está imune à infecção? (Levi, 1997 apud Belpoliti, 2015, p. 211, tradução nossa).

A “ciência invertida” não educa o ser humano para ser capaz de conhecer e compreender a si mesmo, a humanizar-se e a estabelecer relações sociais racionais e sensatas: é uma manifestação da vontade de potência que visa compreender para poder dominar, explorar, subjugar, controlar, determinar o que é ou não produtivo, eficaz, eficiente e rentável. Para Levi, a “ciência invertida” é incapaz de compreender a fundamental questão do sentido no curso da ação humana no mundo: qual é o valor que está impulsionando o agir humano e para qual finalidade, se o agir humano é racional e sensato (justo, correto, moral), e se somos capazes de compreender quem somos (e, portanto, de onde viemos) e para onde estamos caminhando, se estamos contribuindo para construir uma comunidade humana emancipada dos medos e das necessidades. A “ciência invertida” pode gerar potência manifestada em diversas técnicas e múltiplas tecnologias capazes de elevar as capacidades do agir humano no mundo (e fora dele, no espaço do universo que está ao nosso alcance tecnológico), mas não é capaz de pensar e contribuir na resolução da questão do sentido, da moral e da emancipação humana.

Encontramos na obra leviana diferentes passagens que fazem menção ao status da tecnologia na sua relação com o ser humano e o mundo. O autor é conhecido por sua posição não dicotômica sobre o tema, compreendendo os saltos potencializadores da tecnologia na trajetória humana, mas nunca fazendo uma apologia utilitarista a-crítica e a-problemática. No livro La Ricerca delle Radici, ao fazer uma análise do livro de Roger Vercel, L’avventura tecnológica, Levi constata que

Trata-se de um tema atual, mas estranhamente pouco explorado: a aventura humana no mundo da tecnologia. Talvez o homem de hoje considere supérflua a aventura, o “medir-se” de Conradian? Se assim for, seria um sinal ameaçador. Ora, este livro mostra que a aventura ainda está aí, e não os antípodas; que o homem pode mostrar-se valente e engenhoso mesmo em empreendimentos pacíficos; que a relação homem-máquina não é necessariamente alienante e, na verdade, pode enriquecer ou integrar a antiga relação homem-natureza (Levi, 2018a, 111, tradução nossa).

Por outro lado, Levi tampouco tem uma visão de uma negação veemente da tecnologia, como deixa transparecer no ensaio Trinta horas no Castoro Sei, do livro O ofício alheio: “a história da tecnologia demonstra como, diante de novos problemas, a cultura científica e a precisão são necessárias, mas insuficientes” (Levi, 2016a, p. 92).

Deriva dessa reflexão a última categoria de análise, considerando a sutil - mas profunda - transição que se tece iv) entre a ferramenta neutra e a rendição ao automatismo onipresente. Trata-se de identificar no conto possibilidades de reflexão sobre como a contínua inserção e apropriação (consciente e inconsciente) da tecnologia altera nossa percepção sobre a “normalidade”, o que pode deixar rastros incontornáveis na nossa realização como ser humano.

Em um primeiro momento, ao aparecer com a máquina, o Sr. Simpson adverte que o versificador “não é um poeta”, pois ele “dispõe de menos liberdade: tem menos fantasia, digamos. Mas é suficiente para trabalhos de rotina” (Levi, 2005, p. 33-34). Já o funcionamento da máquina seria bem intuitivo, e o Sr. Simpson tranquiliza o poeta dizendo que “todas as máquinas novas dão essa impressão. [...] Veja, basta inserir aqui as ‘instruções’: são só quatro linhas. A primeira para o assunto, a segunda para os registros, a terceira para a forma métrica, a quarta (que é facultativa) para a determinação temporal. O resto é feito por ele: é maravilhoso!” (Levi, 2005, p. 43).

POETA: E se eu o danificar?

SIMPSON: Não tenha medo. É muito resistente, foolproof, diz o folheto americano: “à prova de tolos”... (embaraçado: se deu conta da gafe) sem ofensas, o senhor me entende. Há inclusive um mecanismo de bloqueio nos casos de mau uso. (Levi, 2005, p. 42).

É no riso diante de uma situação angustiante que a humanidade reflete sobre o medo da sua insignificância. No caso, o ato falho do Sr. Simpson expressou aquilo que todas as tecnologias parecem querer dizer ao ser humano: que a inversão entre sujeito e objeto já se concretizou e atualmente as máquinas já são “à prova de tolos”. No entanto, a realidade é mais complexa. As diferentes tentativas de utilização do versificador ganharam a confiança do poeta: “Não está mal, acredite em mim: conheço vários colegas que não se sairiam melhor. [...] Genial, não, mas comerciável. Mais que suficiente para os objetivos práticos” (Levi, 2005, p. 44). Nesse momento, para além de um objeto inerte, a tecnologia se colocava como produtora de coisas, demonstrando capacidade de ponderar sobre os versos criados. “Percebeu como ele se recuperou no dístico final, quando se viu livre das armadilhas? Humano, sem tirar nem pôr”, exclamou o poeta (Levi, 2005, p. 46). Afirmação forte, mas logo confirmada pelo Sr. Simpson, ao explicar que todos os aparelhos eram pré-programados para conhecer o nome de todos os seus componentes, “[...] assim, em caso de defeito, poderão solicitar diretamente a substituição da peça defeituosa” (Levi, 2005, p. 49). Enfim, um aparelho no qual se confundem a programação e o raciocínio, algoritmo e autoconsciência. Uma máquina humanizada.

Para Levi, a influência da tecnologia não se restringe à sua utilização técnica e imediata, como instrumento que contribui na resolução de problemas, mas afeta profundamente a esfera cultural humana, rompendo o muro que separa as duas culturas - científica e literária -, como aponta no ensaio Le parole esportate:

A irrupção do italiano na nossa linguagem tecnológica é um fenômeno estritamente semelhante: não é em si uma doença, é apenas um sintoma, mas é o sintoma de um mal grave: a tecnologia de hoje nasce e cresce noutro lugar, a falta de criatividade na nossa língua assinala o baixo nível criativo da nossa tecnologia. Isso ressalta que, neste campo, a Itália está sendo “aculturada”, e não apenas linguisticamente (Levi, 2016b, p. 1410, tradução nossa).

No final do conto, o poeta faz uma última criação com a máquina:

VERSIFICADOR (voz calorosa e inspirada; em seguida, cada vez mais agitada e ansiosa):
Adoro refazer estes antigos
Passeios frescos, de lajedos tortos
Prenhes no outono do aroma dos figos
E do musgo entranhado nesses hortos.
Sigo os caminhos cegos dos lagartos,
Sigo o secreto trânsito dos gatos,
Piso vestígios de distantes fatos,
De gestos foscos e atos insensatos,
De monges, devotos, intimoratos
E me vêm à memória, caricatos,
Recordos de brevíssimos contatos
Com hereges e eruditos cordatos
Dois ligamentos foram apagatos
Estamos parados na rima em “atos”
E nos transformamos em mentecatos
Senhor Simpsão, apressa-te aos combatos
Maneja os instrumentos adequatos
Altera os ligamentos indicatos
Oito mil seiscentos e dezessatos
Fazer reparação. Muito obrigatos.
(Levi, 2005, p. 50-51).

Nesse caso, em meio a dificuldades técnicas, a máquina alterou o rumo do poema e deu orientações ao seu dono sobre como poderia ser consertada, recorrendo a construções verbais e gramaticais criativas e inesperadas. “Uma ligação... poética!”, exclamou o poeta. “Se isso não for poesia, o que é?” (Levi, 2005, p. 51), complementou o Sr. Simpson. Tal fato causou tamanha surpresa que, independentemente dos problemas técnicos ocorridos, tirou qualquer dúvida do poeta sobre sua aquisição. Eis que a profecia tecnológica se cumpria: a máquina não só criava, como pensava, ponderava e fazia poesia.

Por fim, contada a história da aquisição do aparelho, o último parágrafo do conto nos conduz novamente ao tempo presente:

POETA (ao público): Possuo o versificador há mais de dois anos. Não posso dizer que já amortizei o investimento, mas ele se tornou indispensável. Mostrou-se muito versátil: além de incumbir-se de boa parte do meu trabalho de poeta, faz a contabilidade e os pagamentos, me informa sobre os vencimentos e mantém em dia a correspondência. Eu o ensinei a compor em prosa, e agora ele se sai muito bem nisso. O texto que vocês ouviram, por exemplo, é obra dele. (Levi, 2005, p. 53).

Esse final se revela surpreendente e remonta à primeira categoria de análise, a respeito do formato do conto: o próprio versificador foi o escritor de toda a trama. Esse movimento fecha dois ciclos que merecem atenção: o primeiro, um ciclo temporal, no qual os leitores tomam ciência do fechamento da história que passou e voltam suas atenções ao tempo presente; o segundo, relacionado às controvérsias relacionadas ao “pensamento automático” do versificador, que desloca o narrador do centro do conto e se coloca como o protagonista de toda a história. A máquina, que a princípio auxiliaria em trabalhos ingratos e repetitivos, termina por dominar a totalidade da profissão do poeta - tecendo inclusive autoelogios. Isso fecha um ciclo de reflexões sobre as diferentes camadas de crítica desenvolvidas até aqui: será que na nossa sociedade a máquina é mesmo só mais um instrumento de trabalho como outro qualquer?; o que tem sobrado para o trabalho humano quando pensamos nas tecnologias digitais, no predomínio das plataformas e algoritmos e das Inteligências Artificiais?; podemos confiar que a memória humana seja comandada pela tecnologia, tendo em vista o pouco conhecimento e controle que temos da sua capacidade de produção?

Essas e outras reflexões se mostram cada vez mais pertinentes e necessárias na medida em que as tecnologias digitais e generativas invadem todas as esferas das relações sociais, incluindo a área da educação. Reconhecendo e legitimando certa inevitabilidade da presença dessas ferramentas, muitos manuais governamentais têm regulamentado a incorporação da IA em processos formativos na educação básica e no ensino superior. Para além do reconhecimento das possíveis contribuições advindas dessa assimilação, é notório que não reside aí o mote principal da existência desses equipamentos. Por meio dos paradoxos e das contradições, o conto de Levi nos permite enfatizar que a suposta naturalidade da incorporação dos elementos tecnológicos em nome dos novos tempos e da inovação tecnológica é apenas um reflexo do capitalismo neoliberal, que nos oferece como escolha aquilo que nos impõe como forma de vida hegemônica. Assim, aparecendo como uma forma de resistir às pressões de um mundo dinâmico e com fluxos de informação, as Inteligências Artificiais se colocam como uma válvula de escape quase totalmente necessária, sob o custo de tornar o exercício do pensamento autônomo quase totalmente desnecessário.

A área da Educação em Ciências já conta com importantes editoriais evidenciando os desafios e limites da IA, que nos reduz a um algoritmo ou pode nos fazer reconhecer nossa humanidade (Erduran, 2026), e também enfatizando os riscos relacionados ao uso da IAGen, indicando posicionamento crítico com relação ao seu uso para produção acadêmica, “reconhecendo sua natureza complexa, intrincada e carente de produções na área de educação em ciências” (Azevedo e Santos, 2025, p. 1).

E, com isso, no presente artigo sustentamos que o discurso atualmente preponderante de identificar os “prós e os contras” da IA no campo educacional, e na sociedade como um todo, apesar de sensato, representa uma maneira pouco problematizadora de enquadrar a questão. Esse discurso estabelece uma falsa equivalência entre a tecnologia como uso individual (no varejo) e a tecnologia como elemento central de produção e reprodução do sistema socioeconômico (atacado). Para além e apesar de toda perspectiva dialética que se impõe sobre as relações materiais e simbólicas do ser humano com a natureza e as coisas, muitos dos significados concretos dessas relações são adquiridos a partir do exterior - que podemos entender como o contexto sociocultural, as relações institucionalizadas, as relações sociais altamente mediatizadas pelo caráter econômico da sociedade - em contraposição à autorrealização rumo a uma vida mais digna, justa e igualitária. Essa complexidade social de determinações múltiplas, porém desiguais, nos impõe a necessidade de compreender que,

O mundo se torna um mundo para a realização do mercado e o sujeito se torna o próprio capital; um sujeito automático, tautológico, que regula toda alteridade com base na sua autorreferência. A inversão de relação entre coisas que se humanizam e humanos que se coisificam caracteriza a própria realidade social organizada a partir da necessidade de realização do valor. [...] O trabalho intelectual, que se dissocia do trabalho braçal, é apenas uma das contradições que dirige o processo no qual as sutilezas metafísicas da mercadoria governam o inconsciente geral. (Barros, 2023).

Em 20 de janeiro de 1974, no ensaio Tecnografi e tecnocrati, um verbete de uma página publicado no jornal Corriere della Sera, Levi fez menção à (já naquela época) crise energética, que “coloca em evidência alguns erros absurdos e grosseiros da sociedade tecnológica” (Levi, 2016b, 1368, tradução nossa). Para ele, o cenário do avanço tecnológico trouxe consigo um grau de calamidade que entra em tal convergência com os contos de ficção científica a ponto de afirmar que “nós erramos ao inventar catástrofes titânicas e tragicamente gloriosas”. Entretanto, continua o autor,

Hoje ainda não chegamos ao fim, mas vemos a possibilidade, e é um fim estreito, sórdido e prosaico como um fracasso comercial. Tudo o que resta para nós, profetas tecnográficos, é fazer as pazes; os nossos professores, os tecnocratas de todos os países, permanecem com a tarefa urgente de abrandar a sua corrida louca em direção ao lucro imediato e de utilizar a colossal riqueza de conhecimento que se acumulou nas últimas décadas para dar à humanidade um destino menos precário e menos doloroso (Levi, 2016b, 1368, tradução nossa).

Nos marcos do capitalismo atual, em que a ciência e a tecnologia são incorporadas como parte integrante do sistema de produção, cada vez menos a relação com os instrumentos tecnológicos está voltada a um uso ponderado que visa a emancipação humana. Dessa forma, todas as dimensões da vida urbana atual são mediadas por plataformas digitais oriundas dos interesses de grandes empresas privadas de atuação transnacional, que cada vez mais investem suas lógicas para o campo educacional - vide o movimento intenso de plataformização da educação básica em alguns estados, a exemplo de São Paulo. Há um projeto político e econômico hegemônico que deve ser combatido para que possamos liberar os potenciais humanos das tecnologias que atuam em grande parte para o aprofundamento da precarização do trabalho humano:

As máquinas “pensantes” invadirão os mais diversos campos da atividade intelectual do homem, mas continuarão sendo apenas meio material dessa atividade teórica. O homem transferirá para a máquina um número cada vez maior de funções por ele exercidas no processo de pensamento, reservando-se uma única função: o próprio pensamento como meio de representação da realidade mediante abstrações. Ele desenvolverá esta última função valendo-se de todos os meios, inclusive das chamadas máquinas pensantes. (Kopnin, 1978, p. 140)

Apesar do imanente potencial emancipatório da tecnologia, o mundo no qual vivemos nos tem levado rapidamente para o lado oposto dessa afirmação: o da capitulação do pensamento em detrimento da vida prática - vida esta totalmente condicionada à apropriação acrítica de tecnologias postas como soluções eficientes para aumentar a produtividade do trabalho sem que sejam alteradas as condições qualitativas da vida do trabalhador. Como afirmam Adorno e Horkheimer (1985), “[…] quanto mais o processo da autoconservação é assegurado pela divisão burguesa do trabalho, tanto mais ele força a autoalienação dos indivíduos, que têm de se formar no corpo e na alma segundo a aparelhagem técnica” (p. 36).

É importante que a reflexão sobre a ciência e o ensino da ciência seja realizada no curso das grandes transformações ocorridas na sociedade capitalista a partir das últimas duas décadas do século XX, as quais geraram desregulamentações na economia e na sociedade e estão produzindo gravíssimas e complexas crises. A complexidade das crises sociais, econômicas, políticas, ambientais e, mais recentemente, da sanitária, gera a necessidade da existência de fortes vínculos entre a razão técnica e a razão moral, entre a racionalidade instrumental e a racionalidade valorativa. Defendemos a ideia de que há na vida e na obra de Primo Levi a presença de elementos emotivos e cognitivos que podem contribuir na tarefa urgente de refletir o sentido da razão e da ciência na vida do ser humano, nas relações entre o ser humano e a natureza e nas relações entre o ser humano e a cultura, a história e a sociedade.

Considerações

Apesar de as Histórias Naturais, de Primo Levi, terem sido publicadas em livro pela primeira vez em 1966, sugerimos que a obra - em especial o conto “O versificador” - pode contribuir para uma educação científica preocupada com os aspectos científicos, tecnológicos, sociais, humanos e ambientais da sociedade.

Uma primeira leitura do conto pode levar a uma reflexão bem-humorada em relação à perspicácia do versificador, ao mesmo tempo que abre caminhos para refletirmos sobre o papel da tecnociência na nossa sociedade tecnológica. Assim, embora o artigo não explicite como o conto pode ser efetivamente incorporado aos processos formativos, há espaço para reflexão sobre a necessidade de construir ambientes razoáveis de ponderação sobre o lugar das tecnologias na sociedade contemporânea e as formas possíveis de mobilizar as convergências desses elementos com a formação científica e a formação de professores de ciências.

Para Levi, um elemento fundamental do projeto nazista era a construção de uma nova “raça”, formada pelos diversos povos conquistados e transformados em escravos. Na Nova Ordem criada pelo nazismo, a nova “raça” deveria ser formada por um ser humano “em cujo olhar não se possa ler o menor pensamento” (Levi, 1988, p. 91). O ser humano que está sempre mais delegando a capacidade de pensar e de agir para as máquinas, sempre mais sofisticadas e complexas; que está renunciando ao pensamento complexo em troca de sugestões induzidas; que não é capaz de se orientar por si mesmo e nem através do conhecimento histórico, cultural, científico e político; não estaria esse ser humano vivenciando um retorno ao “labirinto obscuro” da era pré-moderna, mesmo que seja um labirinto ultratecnológico? A frase de Goya, “o sono da razão produz monstros”, pode ser atualizada na forma sugerida pelo filósofo Paolo Ercolani (2019, p. 15) no diagnóstico de nosso tempo: “os monstros produzem o sono da razão”. Os monstros que existem na sociedade contemporânea são poderes sem limites, capazes de desinformar, manipular, mobilizar e colonizar a consciência e o inconsciente, as paixões e as pulsões humanas.

A partir dos referenciais mobilizados para interpretar a realidade e também o conto de Levi, refletimos a completa inviabilidade de se insistir na maior incidência das tecnologias nas experiências formativas dos sujeitos, pelo menos em termos hierárquicos, impostos burocraticamente, como tem se dado. Apesar dos discursos das possibilidades, são limitados os cenários de uma humanidade mais livre, justa e emancipada no campo educacional. Os escritos de Levi são fontes importantes de provocações e reflexões sobre essa complexidade, não se isentando de questionar as implicações anticivilizatórias decorrentes do avanço indiscriminado da ciência e da tecnologia. Seus textos nos dão a possibilidade de estabelecer novos horizontes de mundo nos quais a razão humana não sucumba ao automatismo hegemônico ao qual está massiva e permanentemente subordinada.

Na contramão de um ensino cada vez mais burocratizado e tecnicista, regido pela lógica empresarial das competências, habilidades e dos resultados de índices e descritores, anunciamos o potencial dos contos ficcionais para auxiliar a construção de uma posição crítica dos sujeitos perante a tecnologia, e não apenas a posição pragmática. Propomos, assim, uma educação científica centrada na reflexão ética e moral sobre a relação do ser humano com as máquinas, em vez do utilitarismo irrefletido diante do rolo compressor da ideologia do progresso. O versificador materializa e antecipa uma situação existencial da humanidade em tempos de IA generativa, nos quais cada inovação técnica promove uma forma de vida na qual o ser humano apenas funciona e desempenha funções, mas não é capaz de existir: age e pensa apenas avaliando através de critérios e princípios de produtividade, de funcionamento eficaz e eficiente, sempre mais desorientado e incapaz de conhecer a si mesmo, os outros, a cultura, a história, a sociedade, o mundo.

As reflexões aqui postas vão no sentido de indicar potenciais formativos que estimulem a leitura das narrativas e dos contos históricos, ficcionais e fantásticos como uma interface possível e necessária entre a arte, a literatura e o ensino de ciências. A educação científica, mais do que o ensino de conceitos, também forma cidadãos para compreenderem melhor o mundo em que vivem: não só o mundo natural, mas também toda a complexidade que a ciência e a tecnologia trazem para as sociedades do século XXI. Para isso, encontramos em Primo Levi elementos que permitem a discussão sobre o despertar da razão e do ser humano do estado de sono e apatia perante os rumos da democracia, e também sobre a irresponsabilidade e o hedonismo sem limites impulsionado pelas tecnologias; a existência humana reduzida ao trabalho puramente técnico; e a exclusão do ser humano das reflexões intelectuais e morais sobre a própria vida e a sociedade.

Trabalhos futuros poderão partir de Primo Levi para desdobrar elementos teórico-metodológicos que contribuam para refletir os sentidos formativos ainda possíveis - de denúncias e anúncios - em uma sociedade altamente permeada pela tecnologia.

A apropriação das tecnologias no campo educacional, o que nos parece inevitável, deve sempre estar acompanhada de uma autorreflexão que leve em conta sua criação e sua utilização em prol do lucro e da eficiência sistêmica, a proletarização docente, o esvaziamento do conhecimento científico e a redução da reflexão intelectual a elementos tecnicistas do mundo do trabalho.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Centro Internazionale di Studi Primo Levi (Turim, Itália), à Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e à Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara, bem como ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais desta última instituição.

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Houve uma recente incorporação temática no último Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (ENPEC), realizado em 2025. No caso, ficou estabelecida explicitamente a linha temática “Educação em ciências, cultura, arte e tecnologias” como referência de pesquisa na área. As linhas temáticas do ENPEC 2025 podem ser acessadas pelo link: https://eventos.idvn.com.br/enpec2025/linhas_tematicas.

Apoiado por

O CECIMIG agradece ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico) e à FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) pela verba para a editoração deste artigo.

Financiamento:

A pesquisa não recebeu financiamento.

Declaração sobre disponibilização de dados

Não foram utilizados dados de pesquisa.

Correspondência

E-mail: michelcarnio@ufscar.br

Correspondência

E-mail: joao.cs.zuin@unesp.br

Correspondência

Contato: Centro de Ensino de Ciências e Matemática de Minas Gerais - CECIMIG, Faculdade de Educação - Universidade Federal de Minas Gerais, revistaepec@gmail.com

Declaração de conflito de interesses

A autoria declara não existir conflito de interesse na publicação do manuscrito.

Editor Responsável

Guilherme Lima

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Jul 2025
  • Aceito
    12 Maio 2026
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