RESUMO
Este artigo realiza uma revisão sistemática da literatura sobre a demografia da educação no Brasil (2000-2024), com base no protocolo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA). As buscas foram realizadas nas bases Scopus e Web of Science com o descritor demograph* AND brazil* AND (educa* OR school* OR scholariz*), resultando em 26 estudos. A análise, conduzida no IRaMuTeQ por meio da classificação hierárquica descendente e interpretada via Análise Temática, identificou três eixos: (1) Eficiência da gestão e alocação de recursos educacionais; (2) Dinâmicas da escolarização e expansão educacional; e (3) Desigualdades educacionais e estrutura demográfica. Os resultados indicam consolidação do campo, predominância de abordagens quantitativas e persistência de lacunas analíticas em envelhecimento, deficiência e exclusão digital.
Palavras-chave
Demografia da educação; Revisão sistemática; PRISMA
ABSTRACT
This article conducts a systematic literature review on the demography of education in Brazil (2000–2024), based on the PRISMA protocol. Searches were carried out in the Scopus and Web of Science databases using the descriptor demograph* AND brazil* AND (educa* OR school* OR scholariz*), resulting in 26 studies. The analysis, performed with IRaMuTeQ through Descending Hierarchical Classification and interpreted using Thematic Analysis, identified three axes: (1) Efficiency of management and allocation of educational resources; (2) Dynamics of schooling and educational expansion; and (3) Educational inequalities and demographic structure. The results indicate the consolidation of the field, a predominance of quantitative approaches, and persistent analytical gaps in topics such as population aging, disability, and digital exclusion.
Keywords
Demography of education; Systematic review; PRISMA
RESUMEN
Este artículo realiza una revisión sistemática de la literatura sobre la demografía de la educación en Brasil (2000–2024), basada en el protocolo PRISMA. Las búsquedas se llevaron a cabo en las bases Scopus y Web of Science, utilizando el descriptor demograph AND brazil AND (educa OR school OR scholariz)*, lo que resultó en 26 estudios. El análisis, realizado con IRaMuTeQ mediante la Clasificación Jerárquica Descendente e interpretado a partir del Análisis Temático, identificó tres ejes: (1) Eficiencia de la gestión y asignación de recursos educativos; (2) Dinámicas de la escolarización y expansión educativa; y (3) Desigualdades educativas y estructura demográfica. Los resultados indican la consolidación del campo, predominio de enfoques cuantitativos y persistencia de brechas analíticas en temas como envejecimiento poblacional, discapacidad y exclusión digital.
Palabras clave
Demografía de la educación; Revisión sistemática; PRISMA
Introdução1
A s inter-relações entre transformações populacionais e dinâmicas educacionais têm se consolidado como um campo estratégico para a compreensão dos processos de escolarização e para o planejamento de políticas públicas em contextos marcados por desigualdades estruturais (Barakat; Blossfeld, 2010). Conforme expresso por Rios-Neto e Riani (2004), essas relações ganham contornos ainda mais complexos diante das profundas mudanças demográficas ocorridas nas últimas décadas, como o declínio da fecundidade, o envelhecimento populacional, a intensificação dos fluxos migratórios e a crescente urbanização. Paralelamente, o país vivenciou a ampliação do acesso à educação básica e superior, bem como a consolidação de políticas educacionais voltadas à equidade, ainda que acompanhadas por permanentes assimetrias regionais, raciais, de gênero e de classe social.
Nesse contexto, a demografia da educação configura-se como um campo interdisciplinar voltado ao estudo das relações entre população e educação (Rios-Neto; Riani, 2004; Barakat; Blossfeld, 2010). Embora estudos educacionais recorram frequentemente a informações como idade, sexo, raça, composição familiar ou localização geográfica, a utilização dessas características não é suficiente, por si só, para caracterizar uma investigação como pertencente à demografia da educação. Nesse campo, os processos demográficos não aparecem apenas como características da população ou variáveis explicativas, mas constituem parte central do problema de pesquisa, permitindo compreender como as transformações da população influenciam os processos educacionais, ou como a educação repercute sobre a dinâmica demográfica.
Do ponto de vista prático e analítico, a demografia da educação permite compreender fenômenos como a pressão por vagas escolares, a projeção de matrículas, os impactos da migração interna e internacional na diversidade das salas de aula, a escassez de professores em áreas remotas e as implicações do envelhecimento populacional na formação e alocação de docentes. Além disso, evidencia como a escolarização se conecta a processos mais amplos, como o desenvolvimento sustentável, a produtividade econômica e o chamado bônus demográfico2, que resulta da reconfiguração da estrutura etária da população (Baerlocher; Parente; Rios-Neto, 2019).
Apesar da relevância teórica e aplicada da demografia da educação, observa-se uma escassez de estudos de síntese que consolidem criticamente as contribuições desse campo no contexto brasileiro. Em particular, são raros os trabalhos que mapeiam sistematicamente como essa interface tem sido tematizada na literatura científica, quais abordagens teóricas e metodológicas predominam, e que tipos de diagnósticos e propostas têm sido formulados. Essa lacuna torna-se especialmente relevante em um momento em que se aguarda a disponibilização completa dos microdados do Censo Demográfico 20223, os quais deverão oferecer novas possibilidades para reexaminar os contornos da escolarização no Brasil e suas interseções com marcadores sociais e territoriais.
É nesse sentido que este artigo realiza uma revisão sistemática da literatura sobre a demografia da educação no Brasil, mapeando os principais enfoques analíticos, contribuições teóricas e abordagens metodológicas mobilizadas por estudos publicados entre 2000 e 2024. O objetivo é identificar padrões e lacunas na produção acadêmica, bem como sistematizar os caminhos pelos quais a relação entre processos demográficos e processos educacionais tem sido investigada no país.
Metodologia
Este é um estudo de abordagem qualitativa e natureza exploratória, fundamentado na realização de uma revisão sistemática da literatura científica publicada em periódicos. O delineamento metodológico foi conduzido com base nas diretrizes do modelo Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), modelo amplamente adotado em revisões sistemáticas pela sua capacidade de estruturar os procedimentos de forma transparente, criteriosa e reprodutível. Desenvolvido por Moher et al. (2009), o modelo PRISMA organiza o processo de revisão em quatro etapas fundamentais: identificação, triagem, elegibilidade e inclusão, orientando a construção do corpus e a avaliação crítica dos estudos selecionados.
As buscas bibliográficas foram realizadas nas bases de dados Scopus e Web of Science (WoS), reconhecidas pela curadoria rigorosa de periódicos revisados por pares e pela cobertura de áreas estratégicas para a presente investigação, como educação, demografia, ciências sociais e políticas públicas. A escolha dessas bases visou garantir a qualidade e a relevância científica dos estudos identificados, com foco na produção acumulada entre os anos de 2000 e 2024, período marcado pela consolidação do campo da demografia da educação no contexto brasileiro.
Para a recuperação dos documentos, utilizaram-se descritores em inglês, combinados por operadores booleanos e complementados pelo uso do operador wildcard (*), que permite captar diferentes variações linguísticas de uma mesma raiz lexical. A expressão utilizada foi: demograph* AND brazil* AND (educa* OR school* OR scholariz*). O termo demograph*, por exemplo, inclui formas como demographic, demographics e demographically; educa* abrange termos como education, educational, educate e educators; e brazil* abrange Brazil, Brazilian, Brazilians, entre outras.
Foram considerados elegíveis apenas artigos científicos revisados por pares, publicados entre 2000 e 2024, disponíveis em acesso aberto e que analisassem, de forma substantiva, as relações entre processos demográficos e processos educacionais no Brasil. Incluíram-se estudos em que os processos demográficos constituíssem o elemento central do problema investigado, contribuindo para a compreensão de fenômenos educacionais; ou, inversamente, em que a educação fosse analisada em sua relação com a dinâmica demográfica. Foram excluídos documentos duplicados, estudos indisponíveis na íntegra e trabalhos que utilizavam características demográficas apenas como informações descritivas ou variáveis de controle, sem que essas características constituíssem o objeto analítico da investigação.
A triagem dos estudos seguiu um procedimento sequencial. Inicialmente, procedeu-se à leitura dos títulos, resumos e palavras-chave para verificação da pertinência temática dos documentos recuperados. Em seguida, os artigos selecionados foram submetidos à leitura integral, com avaliação colegiada realizada por cinco pesquisadores doutores, assegurando a aplicação consistente dos critérios de elegibilidade e a legitimidade teórico-metodológica da seleção final.
Após essa seleção, a análise textual do corpus final foi realizada com o apoio do software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ), ferramenta que permite o tratamento estatístico de dados textuais por meio de técnicas lexicométricas (Camargo; Justo, 2013). Para essa etapa, utilizou-se a técnica de Classificação Hierárquica Descendente (CHD), que segmenta os textos em classes léxicas com base na frequência e na associação estatística dos termos, calculada por meio do teste de qui-quadrado (χ²). Essa técnica possibilitou identificar agrupamentos lexicalmente homogêneos e semanticamente distintos, permitindo a construção de categorias temáticas consistentes (Camargo; Justo, 2013). A geração de nuvens de palavras também contribuiu para a visualização dos vocábulos mais representativos de cada classe.
Essas categorias foram, então, interpretadas com base na Análise Temática, conforme delineada por Braun e Clarke (2006), que pressupõe a organização sistemática dos dados expressando padrões recorrentes de sentido (temas), a partir de um processo iterativo de leitura, codificação e interpretação. Desse modo, a articulação entre a análise lexical e a interpretação temática permitiu não apenas estruturar o corpus em categorias, mas também extrair contribuições analíticas robustas sobre os focos e abordagens da literatura revisada.
Resultados
A partir das estratégias de busca delineadas, foram inicialmente identificados 772 artigos nas bases de dados selecionadas. Após a aplicação dos critérios de exclusão previamente definidos, envolvendo duplicidade, inacessibilidade, ausência de foco na temática educacional ou inexistência de articulação substantiva entre processos demográficos e processos educacionais, os textos potencialmente elegíveis foram submetidos à leitura integral. Ao final do processo, 26 artigos compuseram o corpus desta revisão.
O percurso completo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos está representado no fluxograma PRISMA (Fig. 1), assegurando a transparência e a rastreabilidade metodológica deste estudo.
Com base na análise de similitude lexical dos artigos mapeados, realizada por meio do software IRaMuTeQ, foram identificadas três categorias textuais centrais. Essa categorização resultou da aplicação da técnica de CHD, a qual permite segmentar o corpus em unidades de contexto elementar, agrupadas em categorias lexicalmente homogêneas e semanticamente distintas. A estrutura hierárquica dessas categorias, bem como a distribuição dos artigos em cada uma delas, está representada na Fig. 2, que também exibe as respectivas nuvens de palavras geradas a partir da frequência de ocorrência dos termos em cada grupo.
A estrutura hierárquica obtida evidencia que as categorias 2 e 3 compartilham maior proximidade lexical e semântica, estando agrupadas no mesmo ramo do dendrograma gerado pelo IRaMuTeQ. Isso sugere uma afinidade temática entre os estudos que tratam das dinâmicas da escolarização e das desigualdades educacionais, revelando interseções frequentes entre os campos semânticos que abordam a expansão educacional e os marcadores sociais de desigualdade. Em contrapartida, a categoria 1 apresenta-se mais distante, tanto lexical quanto conceitualmente, por concentrar-se em um vocabulário mais técnico e operacional vinculado à eficiência da gestão pública e à alocação de recursos educacionais, o que justifica sua posição isolada no dendrograma.
Assumindo como referencial teórico implícito a Análise Temática proposta por Braun e Clarke (2006), e fundamentado na leitura na íntegra dos artigos, foi possível interpretar os focos analíticos e os campos semânticos predominantes de cada categoria, conferindo-lhes denominações que refletem seus núcleos de sentido e contribuições teóricas.
A categoria 1 foi denominada “Eficiência da gestão e alocação de recursos educacionais”, sendo marcada por vocábulos como eficiência, gastos, educação pública, municípios e recursos. Essa categoria reúne estudos que utilizam abordagens quantitativas, como Análise Envoltória de Dados (DEA) e modelos de regressão, para mensurar o desempenho da gestão municipal e sua capacidade de alocar recursos de forma racional e equitativa. O foco analítico recai sobre a relação entre fatores institucionais, processos demográficos e os resultados obtidos na provisão da educação pública, evidenciando como características da população e da dinâmica territorial condicionam a eficiência da gestão educacional.
A categoria 2 recebeu o título “Dinâmicas da escolarização e expansão educacional”, tendo como termos mais representativos anos de estudo, alfabetização, acesso, expansão e trajetórias. Esta categoria abrange estudos que descrevem e interpretam o avanço da escolarização da população brasileira ao longo das últimas décadas, evidenciando os processos de universalização do ensino fundamental, a ampliação do ensino médio e a massificação do acesso ao ensino superior. O interesse analítico está voltado para a compreensão dos efeitos da transição demográfica e das políticas públicas sobre as taxas de matrícula, conclusão e progressão escolar.
Por fim, a categoria 3 foi nomeada “Desigualdades educacionais e estrutura demográfica”, sendo caracterizada por termos como renda, cor/raça, gênero, condições sociais e desigualdade. Os artigos reunidos nesta categoria examinam a interseção entre características demográficas e marcadores sociais, como raça/cor, sexo, local de moradia e nível socioeconômico, e seus efeitos sobre o acesso, a permanência e o sucesso escolar. O foco está na reprodução das desigualdades e na estratificação das oportunidades educacionais no Brasil.
Uma descrição dos artigos que compõem cada uma dessas categorias é apresentada na seção Discussão. O Quadro 1, a seguir, sistematiza as principais informações bibliográficas dos 26 artigos incluídos nesta revisão, por ano de publicação; indica, ainda, os autores, os títulos, os periódicos em que foram publicados e a respectiva categoria temática atribuída a cada estudo, conforme a classificação resultante da análise lexical e da leitura analítica do corpus.
No conjunto de estudos analisados, observa-se que alguns autores possuem mais de uma contribuição para o desenvolvimento do campo da demografia da educação no Brasil, com destaque para a pesquisadora Letícia Marteleto, professora do Departamento de Sociologia da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, com três publicações mapeadas. Suas pesquisas abordam as relações entre estrutura familiar, fertilidade, raça e desigualdades educacionais, evidenciando como fatores demográficos influenciam os trajetos escolares no Brasil. Outros autores com duas contribuições cada são Alceu Ravanello Ferraro, Marco Túlio Aniceto França, Maria Eugénia Ferrão e Eduardo Luiz Gonçalves Rios-Neto, cujas pesquisas também exploram, de diferentes formas, a interface entre dados populacionais e processos educacionais.
Em relação aos veículos de divulgação científica, nota-se que os artigos estão distribuídos em diversos periódicos nacionais e internacionais, com destaque para Educação e Pesquisa e Estudos Econômicos, que concentram três publicações cada, seguidos por Cadernos de Pesquisa, Educação & Sociedade e Demography, com duas publicações cada.
Ademais, cabe destacar que, entre os 26 artigos analisados, 11 foram publicados entre os anos de 2020 e 2024, o que representa mais de 40% do corpus. Esse dado sinaliza um crescimento recente e expressivo do interesse acadêmico pelo campo da demografia da educação no Brasil, refletindo a atualização das agendas de pesquisa diante de novos desafios educacionais, transformações nas dinâmicas populacionais e maior disponibilidade de dados estatísticos em larga escala.
Na próxima seção, aprofunda-se a discussão dos achados por meio da análise das três categorias temáticas identificadas, explorando os enfoques, os aportes teórico-metodológicos e as contribuições dos estudos que compõem cada categoria.
Discussão
Com base na análise dos artigos mapeados, foi possível delinear características gerais do corpus, que revelam padrões nos planos metodológico, empírico e temático da produção científica sobre a demografia da educação no Brasil. Embora os estudos reunidos abordem diferentes objetos, escalas de análise e estratégias metodológicas, todos compartilham uma característica comum: tomam as relações entre processos demográficos e processos educacionais como objeto central de investigação.
Em alguns estudos, investigam-se os efeitos dos processos demográficos sobre a escolarização; em outros, analisa-se como a educação se relaciona com a dinâmica populacional. Esse entendimento também explica a composição do corpus desta revisão, uma vez que apenas estudos nos quais as relações entre processos demográficos e processos educacionais constituíam o objeto central da investigação foram considerados elegíveis.
Entre esses padrões, destaca-se o uso frequente de dados dos Censos Demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – particularmente os de 1980, 1991, 2000 e 2010 – como principal fonte empírica mobilizada pelas investigações (Alves; Ortigão; Franco, 2007; Rios-Neto; Guimarães, 2010; Ferraro, 2010, 2011; Mont’Alvão Neto, 2014; Amaral; Gonçalves, 2015; Brito, 2017; Komatsu et al., 2019; Golgher, 2022; Santos; Freitas; Flach, 2020; Lopes; Gonzalez; Prieto, 2021; Artes; Unbehaum, 2021; Batyra; Leone; Myrskylä, 2023; Walter; Kang, 2024; Vasconcelos; Griebeler, 2024).
Cabe destacar que os Censos Demográficos oferecem dados abrangentes e desagregados sobre escolarização, analfabetismo, acesso, progressão e permanência escolar, permitindo análises por marcadores sociodemográficos como idade, sexo, cor/raça, localização territorial, composição familiar e nível de escolaridade da população (IBGE, 2024).
Além do Censo Demográfico, os estudos frequentemente recorrem a outras bases estatísticas públicas de forma complementar, como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e a PNAD Contínua (Marteleto, 2010; Rios-Neto; Guimarães, 2010; Ferraro, 2010, 2011; Marteleto; Souza, 2012; Mont’Alvão Neto, 2014; Marteleto; Dondero, 2016; Longo; Di Pierro, 2024; Walter; Kang, 2024), o Censo Escolar (Gonçalves; França, 2013; França; Frio; Caruso, 2019; Komatsu et al., 2019), os microdados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) (Travitzki; Ferrão; Couto, 2016) e da Prova Brasil (Gonçalves; França, 2013; França; Frio; Caruso, 2019), bases fiscais como a Finanças do Brasil (Finbra) (Gonçalves; França, 2013; França; Frio; Caruso, 2019) e informações do Atlas do Desenvolvimento Humano (França; Frio; Caruso, 2019).
Do ponto de vista metodológico, prevalecem abordagens quantitativas e estatísticas, com destaque para o uso de modelos de regressão linear (Marteleto; Souza, 2012; Vasconcelos; Griebeler, 2024; Marteleto; Dondero, 2016), Tobit (Gonçalves; França, 2013; França; Frio; Caruso, 2019; Santos; Freitas; Flach, 2020), logística (Alves; Ortigão; Franco, 2007; Mont’Alvão Neto, 2014; Triaca et al., 2019; Golgher, 2022), multinível (Travitzki; Ferrão; Couto, 2016; Ferrão; Alves, 2023) e análise de fronteira estocástica e DEA (Gonçalves; França, 2013; França; Frio; Caruso, 2019; Santos; Freitas; Flach, 2020). Alguns estudos mapeados se apoiam, ainda, em modelos de progressão escolar e de coorte, como o método de probabilidade de progressão por série (Grade Progression Probability) (Rios-Neto; Guimarães, 2010; Brito, 2017), que permite análises longitudinais baseadas em dados transversais, viabilizando inferências sobre trajetórias educacionais.
No plano teórico, há um predomínio de referências oriundas da demografia social e da sociologia da educação, com ampla utilização de categorias como transição demográfica, estratificação educacional, capital humano, reprodução social, desigualdade de oportunidades e mobilidade intergeracional. Autores como Pierre Bourdieu (Alves; Ortigão; Franco, 2007; Gonçalves; França, 2013; Mont’Alvão Neto, 2014; Amaral; Gonçalves, 2015; Travitzki; Ferrão; Couto, 2016), Hans-Peter Blossfeld (Marteleto, 2010; Rios-Neto; Guimarães, 2010; Mont’Alvão Neto, 2014; Travitzki; Ferrão; Couto, 2016; Brito, 2017) e Ricardo Paes de Barros (Alves; Ortigão; Franco, 2007; Marteleto, 2010; Marteleto; Souza, 2012; Amaral; Gonçalves, 2015; Travitzki; Ferrão; Couto, 2016; Marteleto; Dondero, 2016; Komatsu et al., 2019; Melo; Rios-Neto, 2020; Artes; Unbehaum, 2021; Walter; Kang, 2024) figuram entre os mais citados.
Essas características evidenciam a diversidade temática e metodológica da produção científica sobre a demografia da educação no Brasil, ao mesmo tempo que revelam um núcleo comum de investigações voltadas à compreensão das relações entre processos demográficos e processos educacionais. A partir desse panorama, discutem-se, nas subseções seguintes, as três categorias temáticas identificadas por meio da análise lexical e da leitura analítica do corpus, buscando compreender suas especificidades, convergências e contribuições para o desenvolvimento do campo.
Eficiência da Gestão e Alocação de Recursos Educacionais
A primeira categoria temática reúne três estudos que investigam a eficiência na gestão dos recursos públicos aplicados na educação básica, com ênfase na análise em nível municipal. Esses trabalhos adotam uma abordagem quantitativa, recorrendo a técnicas como a DEA e modelos de regressão, em segundo estágio, com o objetivo de compreender como características demográficas, socioeconômicas e institucionais influenciam o desempenho dos municípios na provisão educacional.
O estudo de Santos, Freitas e Flach (2020) analisou os municípios de Santa Catarina utilizando um procedimento que combinou a DEA com a aplicação de um modelo de regressão Tobit. Os autores identificaram que a qualidade de vida e a densidade demográfica estão positivamente associadas à eficiência na aplicação dos recursos, enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) per capita apresentou relação negativa. Esse achado sugere que municípios com maior poder econômico não são necessariamente mais eficientes, ressaltando a importância da gestão qualificada e do contexto demográfico.
Já os estudos de Gonçalves e França (2013) e França, Frio e Caruso (2019) empregaram um procedimento mais robusto, em três estágios, que incluiu a utilização de modelos de mistura finita (finite mixture models) para captar a heterogeneidade entre os municípios quanto aos níveis de eficiência da gestão educacional. Enquanto o primeiro abrangeu todos os municípios brasileiros, o segundo se concentrou no contexto do Rio Grande do Sul.
Os autores concluíram que a descentralização da gestão e da provisão do ensino fundamental – especialmente nas séries iniciais –, do nível estadual para o municipal, processo intensificado no Brasil a partir da segunda metade da década de 1990 com a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef), não assegura, por si só, melhorias uniformes na eficiência da gestão educacional. Os efeitos positivos dessa transferência de responsabilidades tendem a ocorrer em contextos institucionais mais democráticos e quando acompanhados de complementação financeira intergovernamental capaz de sustentar investimentos e a manutenção da infraestrutura escolar. Ademais, os resultados por eles encontrados evidenciam que fatores demográficos (escala populacional), políticos (grau de competição e alternância) e fiscais (volume de recursos transferidos) interagem de forma não linear, resultando em trajetórias distintas de eficiência entre os municípios.
Por sua vez, França, Frio e Caruso (2019) identificam que apenas uma minoria dos municípios gaúchos apresenta eficiência na provisão de educação, sendo essa eficiência influenciada por fatores demográficos e sociais. Municípios mais urbanizados, com maior proporção de mulheres e menor desigualdade (índice de Gini)
mostraram maiores chances de eficiência, enquanto a maior presença de população negra e parda esteve associada a escores inferiores. No plano institucional, os autores destacaram efeitos positivos da presença de conselhos municipais de educação e da qualificação dos gestores, especialmente em contextos de baixa eficiência. Os autores também alertam para a ocorrência de retornos decrescentes de escala, ao observarem que maiores gastos per capita nem sempre resultam em melhor desempenho.
Esses estudos convergem ao demonstrar que a eficiência da gestão educacional está fortemente condicionada por fatores contextuais e demográficos, e não apenas pela magnitude dos investimentos.
Ao articular dados educacionais, fiscais e populacionais, essas análises revelam desigualdades na capacidade de gestão entre os municípios brasileiros e oferecem subsídios para o aprimoramento das políticas públicas, especialmente no que se refere à alocação equitativa de recursos e à valorização da gestão qualificada em contextos de maior vulnerabilidade.
Dinâmicas da Escolarização e Expansão Educacional
A segunda categoria temática reúne estudos que investigam a evolução da escolarização no Brasil, articulando-a com transformações demográficas, econômicas e sociais. Esses trabalhos se concentram em aspectos estruturantes da trajetória educacional da população brasileira ao longo do século 20 e início do 21, abordando desde os efeitos da transição demográfica até padrões de progressão escolar por coortes, composição familiar e persistência das desigualdades segundo raça, classe e gênero. Em comum, mobilizam dados censitários e pesquisas domiciliares para reconstruir padrões de acesso, permanência, progressão e conclusão escolar, combinando evidências quantitativas com interpretações sobre os processos de reprodução e mudança social.
No campo das análises históricas de longo prazo, Walter e Kang (2024) apresentam um novo conjunto de dados sobre a média de anos de estudo no Brasil, de 1925 a 2015, com desagregação por sexo, raça/cor e unidades federativas. Os autores mostram que, no período, a escolaridade média passou de 1,1 para 9 anos –
patamar equivalente, em média, a pouco mais que o ensino fundamental completo para a população em idade ativa. No recorte por sexo, os homens evoluíram de 1,3 ano em 1925 para 8,7 anos em 2015, enquanto as mulheres passaram de 0,9 para 9,3 anos, ultrapassando-os em 1983. Em termos raciais, a população amarela superou a branca em 1939 e manteve-se à frente desde então, ao passo que pretos e pardos permaneceram em desvantagem, embora com leve convergência recente. Regionalmente, entre 1950 e 2015, o Sul/Sudeste avançou de 2 para 9,6 anos; o Norte/Nordeste, de 1 para 8,1 anos; e o Centro-Oeste, de 1,1 para 8,9 anos, evidenciando desigualdades persistentes. Os autores ainda apontam limitações de séries internacionais, como a de Barro-Lee (Barro; Lee, 20--), defendendo estimativas adaptadas ao contexto de cada país.
Complementando essa abordagem histórica, Komatsu et al. (2019) reconstroem a trajetória do nível e da desigualdade educacional no Brasil entre 1900 e 2000, utilizando fontes como relatórios ministeriais, anuários estatísticos e Censos Demográficos, além do cálculo de índices de Gini educacional para o país e regiões. Os resultados indicam que, nas primeiras décadas do século 20, o acesso era extremamente restrito: entre 1900 e 1930, apenas cerca de 5% da população concluía o ensino primário, menos de 1% o secundário e menos de 0,3% o superior, resultando em um Gini de 0,78 em 1900. A redução mais expressiva da desigualdade ocorreu a partir de 1950, acompanhando a expansão das matrículas no primário e, posteriormente, no secundário e no superior. Para os nascidos na década de 1980, o índice já se aproximava de 0,3. Apesar de níveis semelhantes no início do século (Gini entre 0,73 e 0,81), em 2000 a disparidade regional aumentou: o Nordeste registrava Gini de 0,59 e o Sudeste, de 0,43.
As projeções de Melo e Rios-Neto (2020) introduzem uma dimensão prospectiva ao debate ao analisar o dividendo demográfico brasileiro por meio da decomposição da razão de suporte econômico (Economic Support Ratio – ESR)4, incorporando a composição educacional à dinâmica tradicional baseada na estrutura etária. No âmbito das Contas Nacionais de Transferência, o indicador é construído com base na relação entre perfis etários de renda do trabalho e consumo, permitindo captar o equilíbrio entre produção e consumo ao longo do ciclo de vida. A estratégia analítica proposta pelos autores consiste em decompor a variação do ESR em efeitos associados à idade e à educação, evidenciando como mudanças na composição da população em termos de escolaridade alteram a capacidade de geração de excedente econômico. Empiricamente, o estudo combina perfis de renda e consumo derivados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009 e das Contas Nacionais com projeções populacionais por idade e nível educacional do Wittgenstein Centre, abrangendo o período de 1970 a 2100.
Os resultados obtidos indicam que os efeitos associados à mudança na estrutura etária tendem a se esgotar nas próximas décadas, em função do envelhecimento populacional, enquanto a expansão educacional assume papel central na sustentação da razão de suporte econômico. Em cenários de aumento da escolaridade, especialmente com a ampliação do ensino pós-secundário, o componente educacional não apenas compensa a redução do efeito etário, mas mantém o crescimento do indicador mesmo após o término do dividendo demográfico “puro”. Esse padrão sugere que a dinâmica econômica associada à transição demográfica não pode ser compreendida apenas pela composição etária da população, uma vez que sua continuidade depende da qualificação da força de trabalho. Ao explicitar a contribuição diferenciada dos componentes etário e educacional, o estudo reorienta a interpretação do dividendo demográfico no caso brasileiro, indicando que seus efeitos estão condicionados à trajetória de formação de capital humano (Melo; Rios-Neto, 2020).
No âmbito das análises sobre progressão escolar, Brito (2017) utiliza modelos específicos para investigar a relação entre origem social e conclusão de etapas escolares entre 1960 e 2010, identificando redução das desigualdades no ensino fundamental, estabilidade no ensino médio e ampliação no acesso ao ensino superior. Resultados convergentes aparecem no estudo de Rios-Neto e Guimarães (2010), que identificam convergência relativa das probabilidades de progressão nos anos iniciais entre diferentes estratos socioeconômicos, mas crescimento paralelo nas etapas finais, mantendo a estratificação. Ao testarem as hipóteses de Mare (1979, 1980), não confirmaram a primeira – sobre a menor influência da escolaridade dos pais nas etapas iniciais –, mas confirmaram a segunda, segundo a qual a redução dessa influência nas etapas iniciais é compensada pelo aumento da seletividade nas finais.
Ainda sobre determinantes familiares, Marteleto (2012) analisa o impacto do número de irmãos na escolarização de adolescentes antes e depois da transição demográfica. Apesar da redução do tamanho das famílias, o efeito negativo de pertencer a famílias numerosas mostrou-se mais acentuado nas coortes pós-transição, revelando mudanças nos mecanismos de alocação de recursos intrafamiliares e reforçando a importância de considerar interações entre fecundidade e escolarização ao longo do tempo.
Embora tratem de desigualdades, os estudos de Ferraro (2010, 2011) foram incluídos nesta categoria por situarem tais desigualdades no contexto mais amplo das dinâmicas históricas de escolarização. O trabalho de 2010 reconstrói a trajetória da escolarização no Brasil desde o final do século 19, destacando a expansão do acesso, a redução do analfabetismo e a persistência das desigualdades regionais e sociais. Já o estudo de 2011 examina a evolução das taxas de alfabetização entre 1990 e 2007, de acordo com a PNAD, revelando crescimento contínuo, embora com ritmos distintos. As maiores variações proporcionais ocorreram entre as idades mais precoces: aos 5 anos, a taxa passou de 3,6% para 18,1%; aos 6 anos, de 15,3% para 45,3%.
Os avanços foram mais expressivos na década de 1990, sobretudo entre 1990 e 1995, e desaceleraram nos anos 2000, especialmente entre 2003 e 2007.
Desigualdades Educacionais e Estrutura Demográfica
A terceira categoria temática é a mais presente no levantamento e reúne estudos que examinam as desigualdades educacionais em sua interface com a estrutura demográfica brasileira, evidenciando de que maneira marcadores sociais e populacionais, como cor/raça, classe social, gênero, deficiência, estrutura familiar, geração e território, operam na configuração de trajetórias escolares desiguais.
As interações entre origem social e cor/raça sobre o risco de repetência foram analisadas por Alves, Ortigão e Franco (2007) em um estudo com alunos da 8ª série do ensino fundamental de escolas públicas em capitais brasileiras. Conforme os autores, apesar da melhoria do fluxo escolar nos anos 1990, a taxa de não aprovação (reprovação e abandono) manteve-se elevada e constante a partir de 1998, em torno de 26%, sendo que estudantes com capital econômico acima da média apresentaram menor risco de repetência, configurando um fator de proteção. No entanto, esse efeito não foi homogêneo entre grupos raciais.
O estudo também indicou que entre brancos e pardos o alto capital econômico reduziu significativamente a probabilidade de repetência; porém, entre alunos pretos, paradoxalmente, associou-se a um aumento do risco. Variáveis como presença de livros em casa, nível de escolaridade dos pais e posse de bens duráveis também mostraram forte correlação com menores taxas de repetência.
Aprofundando a análise, o estudo de Marteleto e Dondero (2016) examina as desigualdades raciais na educação por meio de um desenho intrafamiliar, com base em pares de gêmeos classificados racialmente de forma distinta. Conforme indicado pelas autoras, esse procedimento permite controlar características compartilhadas no interior da família, como condições socioeconômicas, ambiente doméstico e parte dos fatores contextuais não observáveis, frequentemente apontados como determinantes das trajetórias educacionais. Ao restringir a comparação a indivíduos que compartilham o mesmo contexto familiar e de vizinhança, o estudo desloca o foco analítico das diferenças entre famílias para as variações que ocorrem no interior delas, permitindo observar de forma mais direta os efeitos associados à classificação racial.
Os resultados indicam que a desvantagem educacional associada à classificação não branca persiste mesmo sob esse controle, ainda que com redução de magnitude em relação aos modelos entre famílias. Esse padrão sugere que parte das desigualdades educacionais está relacionada a fatores estruturais compartilhados, mas que uma parcela permanece associada à forma como os indivíduos são classificados e percebidos racialmente. A persistência dessas diferenças no interior da mesma família aponta para a atuação de processos sociais que incidem sobre as trajetórias escolares em contextos institucionais e relacionais, como a escola e o ambiente familiar, produzindo diferenciações mesmo quando as condições de origem são semelhantes. Além disso, os resultados evidenciam variações por gênero, indicando que essas desigualdades se manifestam de forma mais acentuada entre os indivíduos do sexo masculino (Marteleto; Dondero, 2016).
Complementando essa perspectiva, Artes e Unbehaum (2021) mostram que jovens pretos e pardos apresentam taxas de frequência escolar mais baixas e maior probabilidade de defasagem idade-série, associada tanto a reprovações quanto à entrada tardia no sistema educacional. Essas desigualdades persistem mesmo quando controlados fatores socioeconômicos, indicando que a cor/raça permanece como marcador relevante na configuração das oportunidades educacionais.
As autoras observaram que tais efeitos se acumulam no ensino médio e repercutem no ingresso e permanência no ensino superior, ainda que políticas afirmativas tenham ampliado a presença de negros nas universidades. Em 2010, apenas 13,2% dos jovens de 18 a 24 anos estavam na graduação, sendo
negros 32,1% desse total, embora representassem mais da metade da população. Mulheres brancas tinham as maiores taxas de frequência (35,3%), enquanto homens negros apresentavam as menores (14,6%). Contudo, destacam que, entre 2000 e 2010, a participação de negros no ensino superior cresceu 290,7%, em comparação com os 73,7% de brancos.
Além da raça e da origem social, a configuração familiar também emerge como fator central. Marteleto e Souza (2012), com dados da PNAD (1977-2007), aplicaram modelos de regressão e a estratégia de gêmeos como variável instrumental para estimar o efeito causal do tamanho da família na escolaridade de adolescentes. As estimativas iniciais indicaram correlação negativa e significativa: para primogênitos em famílias com dois ou mais filhos, um irmão adicional reduziu em 0,248 ano a escolaridade; em famílias com três ou mais filhos, a redução foi de 0,240 ano. No entanto, ao controlar a endogeneidade, o efeito negativo desapareceu e, em alguns casos, tornou-se positivo: para primogênitos e segundos filhos em famílias com três ou mais crianças, o nascimento de gêmeos no terceiro parto associou-se a um ganho médio de 0,131 ano de escolaridade.
Temporalmente, o efeito foi positivo e significativo entre 1977 e 1990, desaparecendo gradualmente a partir de meados da década de 1990 e deixando de ser estatisticamente relevante após 1996. Regionalmente, persistiu por mais tempo e com maior magnitude no Norte/Nordeste, enquanto no Sul/Sudeste desapareceu antes e tornou-se negativo após 1996. Até 1997, as autoras concluíram que qualquer vantagem associada ao tamanho da família havia desaparecido em todo o país.
No campo de gênero, Vasconcelos e Griebeler (2024), com dados do Censo 2010, analisaram meninas de 12 a 18 anos, identificando que, embora apenas 5,7% estivessem casadas, esse grupo apresentou piores resultados educacionais: 71,6% tinham distorção idade-série, e apenas 51,8% frequentavam a escola – contra 27,1% e 96%, respectivamente, entre as solteiras.
As análises realizadas pelos autores indicaram que o casamento precoce aumentou em 22,07% a probabilidade de atraso escolar e reduziu em 32,31% a chance de frequência, com efeitos mais intensos entre meninas de 16 a 18 anos e entre mães. O impacto negativo sobre a frequência escolar foi maior entre brancas (-34,19%) do que entre pretas ou pardas (-29,37%), possivelmente porque, no caso das não brancas, já existem barreiras estruturais adicionais. Além disso, os autores verificaram um efeito de pares: quanto maior a prevalência de casamentos infantis no município, maior a probabilidade individual de a menina também se casar.
Esses padrões de desigualdade também se manifestam em outros grupos vulnerabilizados. Lopes, Gonzalez e Prieto (2021) analisaram o perfil da população com Deficiência Intelectual (DI) no Brasil e constataram que, comparada a outras categorias de deficiência, a DI apresenta as maiores desvantagens nos indicadores de acesso a trabalho, renda e alfabetização. Pessoas com DI ocupam posições mais precárias no mercado de trabalho, concentram-se nas faixas de menor rendimento e dependem fortemente de benefícios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC). No campo educacional, apenas 52,9% dessa população é alfabetizada, sem diferenças expressivas entre homens e mulheres. A predominância de homens negros nesse grupo reforça a necessidade de dados mais detalhados e desagregados para análises interseccionais.
Triaca et al. (2019) acrescentam a dimensão dos comportamentos de risco analisando a coorte de nascimentos de 1993 em Pelotas, acompanhada dos 0 aos 18 anos. Os autores identificaram maiores riscos de atraso escolar associados a ser do sexo masculino, não branco, pertencer a famílias de baixa renda e grande tamanho, e ter pais com baixa escolaridade. De acordo com os resultados do estudo, mães com menos de 5 anos de estudo aumentaram em 3,55 vezes a chance de atraso escolar; pertencer ao quintil mais pobre elevou essa chance em mais de nove vezes. Entre os comportamentos, o início precoce do tabagismo (antes dos 13 anos) quadruplicou o risco de atraso, e trabalhar aos 15 anos aumentou essa probabilidade em 66%.
Ferrão e Alves (2023), analisando dados da Prova Brasil (2007-2017), identificaram que meninas têm maior probabilidade de promoção escolar, e que alunos brancos tendem a ter mais sucesso do que pretos, pardos, amarelos e indígenas, ainda que as diferenças raciais tenham diminuído. O peso do nível socioeconômico caiu, mas ainda se mostrou relevante. Notavelmente, alunos negros de alto desempenho se mostraram com menor probabilidade de sucesso em comparação a brancos de mesmo nível, sugerindo vieses escolares.
Essas desigualdades, identificadas tanto no desempenho individual quanto em marcadores sociodemográficos, também se refletem na estruturação dos sistemas educacionais locais. Golgher (2022) mapeou a evolução do ensino médio nos municípios brasileiros entre 1991 e 2010, com base em quatro indicadores: taxa de atendimento específico, taxa de escolarização bruta, taxa de escolarização líquida e distorção idade-série. O autor identificou cinco fases evolutivas: “menos desenvolvidos” (baixa matrícula e alta distorção), “em transição inicial” (expansão do acesso, mas ainda com dificuldades de progressão), “em transição avançada” (melhoria nos indicadores de fluxo), “desenvolvidos” (alta matrícula e baixa distorção) e “muito desenvolvidos” (próximos à universalização).
No período analisado, a maioria dos municípios avançou ao menos uma fase, com progresso mais acelerado no Norte e Nordeste, embora essas regiões ainda estivessem atrás do Sul e Sudeste em 2010. As diferenças no ritmo de avanço foram explicadas, sobretudo, por fatores como nível socioeconômico local, retorno do capital humano, estabilidade social e características demográficas, enquanto urbanização e participação no Bolsa Família não apresentaram efeitos estatisticamente significativos.
O vínculo entre escolaridade e outras dimensões da vida foi examinado por Campos et al. (2021) por meio da análise de 488 prontuários de usuários de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal. Os resultados revelam um perfil marcado por vulnerabilidades socioeconômicas e educacionais: maior escolaridade associa-se a melhores condições de trabalho e renda, além de menor número de filhos, enquanto usuários com escolaridade até o fundamental completo apresentam maior probabilidade de desemprego, inserção no setor informal ou dependência de benefícios como o BPC.
No campo das políticas sociais, Amaral e Gonçalves (2015) investigaram a relação entre participação no Programa Bolsa Família (PBF) e a frequência escolar de crianças de 7 a 14 anos, utilizando dados do Censo Demográfico de 2010. Em todos os recortes de renda familiar per capita (até R$ 70, R$ 140 e R$ 280), beneficiários apresentaram maior probabilidade de matrícula e frequência escolar do que não beneficiários, com diferenças estatisticamente significativas.
No grupo mais pobre (até R$ 70), a taxa de escolarização foi de 98,45% entre beneficiários e 95,78% entre não beneficiários (diferença de 2,67%); e receber o PBF aumentou em 112% a chance de frequência escolar, mesmo controlando por variáveis do domicílio, da mãe e da criança. Escolaridade materna mais elevada, presença de infraestrutura básica no domicílio e mães com carga moderada de trabalho semanal também exerceram impacto positivo, enquanto idade mais avançada da criança, sexo masculino, mães muito jovens ou idosas e tempo recente de residência no município foram fatores associados a menor frequência.
As desigualdades no acesso ao ensino superior são analisadas por Mont’Alvão (2014), que examinou o período de 1982 a 2010, marcado pela forte expansão das matrículas. A probabilidade de ingresso mostrou-se fortemente determinada por classe social, escolaridade dos pais, raça, gênero, estrutura familiar, inserção no mercado de trabalho e região. No estudo realizado, filhos de pais com ensino superior apresentaram até 16 vezes mais chances de ingressar na universidade do que aqueles cujos pais não tinham escolaridade formal; viver em família monoparental reduziu as chances em 35%, e cada irmão adicional diminuiu em 15%. As mulheres passaram a apresentar vantagem crescente desde os anos 1980, enquanto desigualdades raciais e associadas ao baixo nível educacional dos pais diminuíram na última década; já as diferenças por classe social e estrutura familiar permaneceram estáveis.
Travitzki, Ferrão e Couto (2016) também abordam desigualdades educacionais e socioeconômicas, analisando dados do Enem (2009-2012) para examinar a relação entre desempenho, nível socioeconômico e cor/raça. O índice de Gini para notas manteve-se abaixo de 0,1, evidenciando alta equidade na geração mais jovem, mas o nível socioeconômico e a cor/raça seguiram influenciando significativamente o desempenho, sobretudo em estados de maior renda per capita, como São Paulo e Rio Grande do Sul. A análise multinível realizada indicou que entre 17% e 38% da variabilidade nas notas pode ser explicada por diferenças entre escolas e municípios, reforçando a necessidade de políticas adaptadas aos contextos locais.
A relação entre educação e fecundidade é discutida por Batyra, Leone e Myrskylä (2023), que analisaram microdados censitários de 1980 a 2010 para estimar e projetar a fecundidade por coorte no Brasil, diferenciando por nível educacional. Embora a Taxa Total de Fecundidade por Período (PTFE, na sigla em inglês) tenha caído para 1,79 em 2010, a Fecundidade Total por Coorte (CTFR, na sigla em inglês) permanece mais elevada e menos sensível a distorções temporais, devendo manter-se próxima ao nível de reposição para mulheres nascidas nos anos 1980. Persistem, contudo, fortes disparidades educacionais na fecundidade, além de mudanças no calendário reprodutivo, como adiamento da maternidade e sinais de recuperação da fecundidade após os 30 anos entre as mais escolarizadas.
Por fim, Longo e Di Pierro (2024) examinam desigualdades no uso da internet para fins de aprendizagem entre jovens e adultos. Como resultados, os autores constataram que, apesar da ampliação do acesso no país, estudantes de famílias de maior renda, brancos e residentes em áreas urbanas registram taxas de acesso e frequência de uso muito superiores às de estudantes pobres, negros e moradores de áreas rurais. O uso da internet para atividades escolares também se mostrou desigual: jovens de maior renda utilizam a rede para estudo em proporção significativamente maior, enquanto aqueles de menor renda e residentes em áreas rurais tendem a utilizá-la menos, o que reforça disparidades no desempenho escolar.
Considerações Finais
Este artigo teve como objetivo realizar uma revisão sistemática da literatura sobre a demografia da educação no Brasil, com foco em estudos publicados entre 2000 e 2024 que investigam, de forma substantiva, as relações entre processos demográficos e processos educacionais.
Por meio de estratégias de busca orientadas pelo protocolo PRISMA e de procedimentos analíticos baseados na CHD, com o apoio do software IRaMuTeQ, foi possível mapear um conjunto representativo de 26 artigos. A leitura analítica e a interpretação dos dados foram conduzidas segundo os princípios da Análise Temática proposta por Braun e Clarke (2006), resultando na sistematização dos estudos em três grandes categorias: (1) Eficiência da gestão e alocação de recursos educacionais; (2) Dinâmicas da escolarização e expansão educacional; e (3) Desigualdades educacionais e estrutura demográfica.
A análise revelou que a produção acadêmica sobre o tema tem se concentrado em abordagens quantitativas, sustentadas por microdados de censos e pesquisas domiciliares, com forte presença de métodos estatísticos como regressão, análise envoltória de dados, modelos de coorte e progressão escolar. Os estudos reunidos contribuem para o entendimento das relações entre processos demográficos e processos educacionais, evidenciando, por exemplo, de que maneira fatores como cor/raça, gênero, estrutura familiar, nível socioeconômico e território moldam trajetórias educacionais desiguais desde os primeiros anos de escolarização.
No primeiro eixo temático, os estudos analisam a eficiência na alocação de recursos e provisão educacional, sobretudo em nível municipal. Embora revelem a importância dos fatores demográficos e institucionais na gestão pública da educação, tendem a adotar uma abordagem tecnicista, pouco sensível às dimensões sociais e culturais da desigualdade. Já os estudos do segundo eixo oferecem interpretações mais amplas da evolução da escolarização brasileira, resgatando a historicidade das mudanças nos indicadores educacionais, especialmente após a transição demográfica. Destacam-se aqui investigações sobre o avanço da escolarização média, as desigualdades por coorte e as interações entre políticas públicas e mudanças estruturais no perfil populacional.
A terceira e mais expressiva categoria concentra investigações sobre os mecanismos sociais e demográficos que produzem e reproduzem desigualdades educacionais. Nela, sobressaem análises interseccionais, que exploram com maior densidade as articulações entre cor/raça, gênero, classe e território. Estudos sobre discriminação intrafamiliar, efeitos de políticas de transferência de renda, exclusão digital, fecundidade e acesso à educação de pessoas com deficiência revelam uma produção crítica e engajada, alinhada a uma perspectiva de justiça social e de direito à educação.
Contudo, apesar dos avanços observados, a revisão também identificou lacunas importantes. Entre elas, destaca-se a escassez de estudos qualitativos ou com desenho misto, capazes de captar experiências subjetivas e dinâmicas territoriais da escolarização. Também são raras as investigações voltadas a grupos socialmente minorizados, como indígenas, quilombolas, migrantes internacionais e pessoas trans, bem como os efeitos de novas configurações familiares, do envelhecimento populacional e das mudanças tecnológicas na educação básica. Ademais, nota-se a limitada articulação entre os achados empíricos e teorias críticas da educação, da demografia ou da sociologia da desigualdade.
O crescimento recente da produção, com mais de 40% dos artigos mapeados tendo sido publicados entre 2020 e 2024, indica um momento de expansão do campo, impulsionado tanto pela ampliação das bases de dados em larga escala quanto pela intensificação das desigualdades educacionais no contexto pós-pandêmico. Tal cenário reforça a necessidade de consolidar a demografia da educação como um campo interdisciplinar voltado à compreensão das relações entre população e educação, articulando diferentes abordagens teóricas e metodológicas para interpretar os desafios contemporâneos da escolarização brasileira.
Os resultados também evidenciam que a demografia da educação não se restringe ao emprego de informações demográficas em estudos educacionais. Embora abordem diferentes objetos, escalas de análise e estratégias metodológicas, os trabalhos analisados compartilham o fato de tomar as relações entre população e educação como elemento central da investigação, ainda que sob diferentes perspectivas analíticas. Essa característica confere unidade ao campo e permite compreender a diversidade temática observada na literatura brasileira.
Ao sistematizar a produção científica nacional, esta revisão contribui para explicitar os principais objetos, abordagens e lacunas da demografia da educação no Brasil, oferecendo um panorama analítico que poderá subsidiar novas investigações e fortalecer o diálogo entre os estudos demográficos e a pesquisa educacional. À luz da divulgação dos microdados do Censo Demográfico de 2022, esse esforço torna-se particularmente oportuno, ao fornecer referências para a formulação de agendas de pesquisa e de políticas públicas comprometidas com a redução das desigualdades educacionais.
Agradecimentos
Os autores agradecem ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED) e à Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ence/IBGE) pelo apoio institucional à pesquisa, desenvolvida no âmbito do projeto “Os múltiplos e dinâmicos processos socioeconômicos e ambientais no Brasil a partir do Censo Demográfico 2022”, bem como a Ana Célia Castro, Cesar Augusto Marques da Silva e Paulo Jannuzi pela coordenação do projeto.
Notas
1
2
3
4
Declaração de Uso de Ferramentas de Inteligência Artificial
Financiamento
Disponibilidade de Dados de Pesquisa
Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.
Referências
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Fonte: Elaborada pelos autores (2025).
Fonte: Elaborada pelos autores (2025).