Open-access O núcleo profissional da Terapia Ocupacional em saúde mental: práticas e potências na Rede de Atenção Psicossocial

The professional core of Occupational Therapy in mental health: practices and strengths in the Psychosocial Care Network

El núcleo profesional de Terapia Ocupacional en salud mental: prácticas y potencias en la Red de Atención Psicosocial

Resumo

A Terapia Ocupacional tem se expandido na saúde mental, evidenciando a importância de compreender como suas práticas compõem um núcleo profissional próprio. O campo é entendido como um espaço dinâmico e colaborativo; e o núcleo, como os saberes que definem a identidade da profissão. Este estudo investigou essa perspectiva com 53 terapeutas ocupacionais da Rede de Atenção Psicossocial, por meio de um questionário on-line. A análise via IRaMuTeQ resultou em cinco categorias centrais, das quais duas são apresentadas neste artigo. As práticas são fundamentadas na clínica comum e na saúde coletiva, com foco em um cuidado dialógico e voltado às necessidades dos sujeitos e seus cotidianos. O cotidiano, nesse contexto, estrutura a prática profissional, e princípios como autonomia, autoestima, cidadania e participação social orientam as ações, reafirmando a singularidade da Terapia Ocupacional e sua contribuição no cuidado em saúde mental.

Palavras-chave
Terapia Ocupacional; Saúde mental; Competência professional


Abstract

Occupational therapy has expanded in the field of mental health, highlighting the importance of understanding how its practices constitute a distinct professional core. The field is understood as a dynamic and collaborative space, while the professional core is understood as the body of knowledge that defines the profession’s identity. This study investigated this perspective among 53 occupational therapists working in the psychosocial care network using an online questionnaire. The data were analyzed using IRaMuTeQ, resulting in five central categories, two of which are presented in this article. These practices are grounded in routine clinical care and public health, with a focus on dialogic care tailored to the needs of individuals and their daily lives. The everyday in this context shapes professional practice and principles such as autonomy, self-esteem, citizenship and public participation guide actions, reaffirming the uniqueness of occupational therapy and its contribution to mental health care.

Keywords
Occupational therapy; Mental health; Professional competence


Resumen

La Terapia Ocupacional se ha expandido en la salud mental, poniendo en evidencia la importancia de comprender cómo sus prácticas componen un núcleo profesional propio. El campo se entiende como un espacio dinámico y colaborativo, y el núcleo como los saberes que definen la identidad de la profesión. Este estudio investigó esa perspectiva con 53 terapeutas ocupacionales de la Red de Atención Psicosocial, por medio de un cuestionario online. El análisis vía IRaMuTeQ resultó en cinco categorías centrales, de las cuales dos se presentan en este artículo. Las prácticas tienen como fundamento la clínica común y la salud colectiva, con enfoque en un cuidado dialógico, enfocado en las necesidades de los sujetos y sus cotidianos. El cotidiano, en ese contexto, estructura la práctica profesional y principios tales como autonomía, autoestima, ciudadanía y participación social orientan las acciones, reafirmando la singularidad de la Terapia Ocupacional y su contribución en el cuidado en salud mental.

Palabras clave
Terapia ocupacional; Salud mental; Competencia profesional


Introdução

A consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) como política pública no Brasil trouxe consigo o imperativo da integralidade e da corresponsabilização no cuidado, estabelecendo como horizonte o reconhecimento da singularidade dos sujeitos em todas as fases do planejamento, implementação e avaliação das ações em saúde1. Esse princípio ético e político convoca um redimensionamento dos modos de fazer dos trabalhadores da saúde, ancorado em uma lógica de compartilhamento de saberes e práticas que rompe com a fragmentação disciplinar e afirma a importância de um campo comum de atuação2.

Capozzolo et al.3 encontram na noção de clínica comum uma ferramenta analítica e operativa para pensar os encontros entre diferentes áreas profissionais. Essa clínica comum exige um redimensionamento na formação e no exercício profissional, convocando os trabalhadores a se implicarem na produção de um cuidado que considere as necessidades singulares dos sujeitos e esteja aberto à produção de sentidos nos lugares ainda não colonizados pelos núcleos duros de cada profissão.

Aporta-se também reflexões apresentadas nos referenciais da saúde coletiva que construíram modos operantes de sustentar uma prática de cuidado livre de quaisquer aprisionamentos disciplinares, formando também uma prática ética e política voltada para o cuidado enquanto produção da vida e aberta à coprodução entre usuários, trabalhadores e gestores4-6. Ao situar esta investigação no campo de saberes e práticas da saúde, busca-se compreender os processos ético-estético-políticos que atravessam os modos de cuidar, com ênfase na saúde mental brasileira e, mais especificamente, na inserção da Terapia Ocupacional neste campo.

Nesse sentido, compreender os modos de inserção da profissão na saúde mental implica reconhecer que o cuidado não se limita à abordagem da doença, concretizando-se nas redes de suporte, nas políticas públicas, nos territórios e na vida cotidiana das pessoas7,8.

Para sustentar uma concepção ampliada de cuidado em saúde mental, é essencial considerar os arranjos coletivos e interdisciplinares que caracterizam esse campo. Nesse contexto, a noção de campo, conforme proposto por Campos9, torna-se central, sendo entendida como um espaço de limites imprecisos, no qual diferentes saberes se apoiam mutuamente para enfrentar desafios teóricos e práticos. Essa perspectiva desestabiliza fronteiras rígidas entre as disciplinas e favorece composições coletivas e transdisciplinares.

O campo da saúde mental, nessa perspectiva, emerge como espaço privilegiado de experimentações e conflitos, constituído por disputas de saberes e práticas; e atravessado pelas dimensões ética, estética e política que tensionam a produção do cuidado. A Reforma Psiquiátrica Brasileira, ao propor uma crítica radical à lógica manicomial e afirmar os princípios da atenção psicossocial, instaurou novos paradigmas para a compreensão da loucura e das intervenções em saúde. A transição do modelo asilar para o modelo psicossocial não se deu apenas como reorganização institucional, mas também como deslocamento epistemológico, ético e político: trata-se de reconhecer a loucura como parte da vida – e não como sua negação, e de produzir cuidado a partir dos vínculos – dos territórios e das potências de cada sujeito10-12.

Com base na atual Política Nacional de Saúde Mental, que orienta a estruturação das redes de atenção psicossocial, observa-se a emergência de uma nova abordagem clínica, diretamente impactada por essa reorganização dos cuidados em saúde mental, que leva em conta diversos aspectos, incluindo questões sociais, sanitárias, de justiça, normas e legislação, além da compreensão da loucura em si. Não mais a vida do sujeito seria fragmentada frente à produção do raciocínio clínico, mas haveria ali possibilidades de trabalhos conjuntos em um mesmo campo teórico, aportado nas tecnologias de saber do modo psicossocial, “superando o precipitado da psiquiatria e das especialidades”10.

A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) se consolidou como a principal estratégia integrante da Política Nacional de Saúde Mental (PNSM) brasileira ao propor integração do cuidado a partir da articulação de serviços de base territorial, distribuídos entre os diversos níveis e pontos de atenção do SUS, com ênfase na responsabilização compartilhada e interdisciplinar dos casos12. Nessa direção, a RAPS deve ser compreendida como uma estratégia de ampliação das ofertas de cuidados em saúde mental, com foco nas premissas fundantes da atenção psicossocial para a população. Tais premissas se ancoram na defesa dos direitos humanos, assegurando a autonomia e a liberdade dos sujeitos; no enfrentamento ao estigma; na garantia do acesso universal e da qualidade dos serviços, por meio do cuidado integral e da atuação multiprofissional sob lógica interdisciplinar; na centralidade das necessidades das pessoas; na oferta de cuidado humanizado, entre outras diretrizes que compõem este modelo de atenção13.

É nesse contexto de transformações no cuidado em saúde mental que a Terapia Ocupacional assume um papel central e protagonista na construção das práticas e dos serviços orientados pela Reforma Psiquiátrica. Esse reconhecimento tem respaldo normativo: a Portaria n. 336/2002, que regulamenta o funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial, prevê o terapeuta ocupacional como profissional integrante da equipe mínima dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), conferindo à profissão uma presença estruturante nesses serviços desde sua regulamentação.

Ao longo das últimas décadas, a profissão vem construindo um campo de saber e práticas no interior da saúde mental, marcado por contribuições específicas e intensas trocas com outros núcleos profissionais. Seu envolvimento na criação e consolidação dos CAPSs; nas práticas territoriais; e na construção de dispositivos de cuidado em rede evidencia uma trajetória de engajamento político e epistemológico com os princípios da atenção psicossocial14,15. Esse envolvimento também exigiu da profissão uma revisão crítica de seus próprios fundamentos, deslocando a ênfase das técnicas reabilitadoras para uma clínica ampliada e comprometida com a autonomia dos sujeitos, com a justiça social e com a afirmação de modos de vida singulares16.

O núcleo profissional da Terapia Ocupacional, no campo da saúde mental, não pode ser apreendido a partir da simples descrição de ações ou procedimentos, constituindo-se por meio de uma trama complexa de saberes, técnicas, valores e objetivos que orientam a prática clínica. Como indica Campos9, os núcleos funcionam como círculos concêntricos: em seu centro estão os saberes mais específicos da profissão, mas esses se irradiam e se articulam com saberes de outros núcleos, em um movimento contínuo de aproximação e contaminação. É nessa perspectiva que se entende o desafio de delimitar e, ao mesmo tempo, manter porosos os contornos do núcleo profissional da Terapia Ocupacional na saúde mental. Isso implica reconhecer a especificidade da profissão, afirmando sua contribuição singular no cuidado em saúde mental, sem recorrer a identidades rígidas ou corporativistas.

Assim, o presente artigo tem como objetivo analisar a prática específica da Terapia Ocupacional no campo da saúde mental a partir da perspectiva de terapeutas ocupacionais que atuam em serviços integrados à RAPS. Interessa-nos compreender de que modo os saberes e práticas da Terapia Ocupacional têm contribuído para a construção de uma clínica ampliada, situada nos territórios e comprometida com a autonomia e com os direitos dos sujeitos. Ao explorar o núcleo profissional da Terapia Ocupacional nesse contexto, buscamos problematizar as formas de produção de cuidado, os modos de inserção da profissão nas equipes, os desafios da interdisciplinaridade e os efeitos dessa prática na vida dos sujeitos em sofrimento psíquico.

Método

Estes achados fazem parte da tese de doutorado intitulada “Entre o campo e o núcleo: saberes da prática da Terapia Ocupacional em saúde mental”. O projeto desta pesquisa foi submetido à avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos, seguindo como base as diretrizes e normas regulamentadoras da Resolução n. 510, de 7 de abril de 2016, do Conselho Nacional de Saúde. Somente após a aprovação o projeto deu-se início ao desenvolvimento da pesquisa – CAAE: 68275023.0.0000.5504.

Trata-se de um estudo não experimental, transversal, exploratório-descritivo, com amostra de conveniência, segundo a participação voluntária de 53 terapeutas ocupacionais trabalhadores da RAPS brasileira. Ressalta-se que, para esta pesquisa, a compreensão da RAPS se deu a partir da Portaria n. 3.088, de 23 de dezembro de 201111.

Como instrumento de coleta de dados, utilizou-se um questionário composto por questões abertas e fechadas. As questões fechadas, estruturadas em formato de múltipla escolha, abrangeram dados sociodemográficos, tempo de formação, formações complementares, local de atuação na RAPS e experiência profissional na área da saúde mental. As questões abertas buscaram explorar reflexões das participantes sobre o campo e o núcleo da Terapia Ocupacional na saúde mental, bem como descrever práticas profissionais.

O questionário foi aplicado por meio do Google Forms entre maio e novembro de 2023, sendo amplamente divulgado em redes sociais, como grupos de WhatsApp, além de comunicados da Rede de Ensino da Terapia Ocupacional (RENETO). Os dados coletados foram organizados em uma planilha do Excel®, no qual realizou-se uma análise descritiva das questões fechadas. As respostas abertas, por sua vez, passaram por uma análise de conteúdo temática, utilizando procedimentos lexicométricos com o software Interface de R pour les Analyses Multidimensionnelles de Textes et de Questionnaires (IRaMuTeQ), um programa gratuito que oferece diversas opções de análises estatísticas para textos17. Com a ajuda da Classificação Hierárquica Descendente (CHD), o corpus foi dividido em segmentos de texto, que foram agrupados em classes lexicais com base em suas semelhanças estatísticas. As classes resultantes foram interpretadas à luz dos referenciais teóricos da Terapia Ocupacional, da saúde coletiva e da atenção psicossocial, conectando os padrões lexicais identificados ao material coletado e à experiência dos pesquisadores no campo da saúde mental.

Foram geradas cinco categorias; contudo, neste artigo, destacam-se duas, por concentrarem maior densidade lexical relativa às questões centrais deste estudo: “Articulação da Terapia Ocupacional com o campo da saúde mental” e “Delineamento do núcleo profissional da Terapia Ocupacional”. Os participantes foram identificados numericamente para garantir o anonimato destes.

Resultados e discussões

A maioria do(a)s participantes do estudo se autodeclarou do gênero feminino (92,5%). Em relação à raça/cor, predominou a autodeclaração de pessoas brancas (58,5%), seguida por pessoas pardas (20,8%), pretas (15,1%) e amarelas (5,7%). Quanto à faixa etária, observou-se maior concentração de participantes entre 26 e 30 anos (22,6%), seguida pelas faixas de 31 a 35 anos (20,8%) e de 36 a 40 anos (17%). As características profissionais do(a)s participantes são apresentadas no quadro 1.

Quadro 1
Características profissionais dos participantes

Os dados revelam diversidade no tempo de formação em Terapia Ocupacional, com maioria (22,6%) formada entre cinco e dez anos, seguida por proporções iguais (18,9%) entre três e cinco anos; e dez e quinze anos. A maioria concluiu cursos de especialização (50%), excluindo Master of Business Administration (MBAs). Na RAPS, predominam profissionais com até dois anos de atuação (22,6%), seguidos por aqueles com cinco a dez anos (20,8%) e dez a quinze anos (18,9%). A maior parte atua em São Paulo (51%), com destaque também para Espírito Santo (9%) e Rio Grande do Sul (8%). Quanto aos cenários de prática, prevalecem os CAPS Infantojuvenil II (24,5%), seguidos pelos CAPS Adulto III (18,9%) e CAPS Adulto II (17%).

O perfil das participantes revela um campo em constante transformação. A expressiva participação feminina (92,5%) reafirma uma característica histórica da profissão, tradicionalmente associada a mulheres18. Em relação à raça/cor, a maioria é composta por pessoas brancas (58,5%), seguidas por pardas (20,8%) e pretas (15,1%). Essa distribuição reflete a sub-representação de profissionais negros nas profissões de saúde de nível superior no Brasil19. Esse achado chama a atenção para a necessidade de aprofundar a discussão sobre equidade racial no acesso à formação e ao exercício profissional. Além disso, há um investimento em qualificação, com 50% das participantes tendo concluído especialização, um resultado que se aproxima do que foi observado em outros estudos20. A presença de 22,6% de profissionais com até dois anos de atuação na RAPS, ao lado de colegas mais experientes, destaca a renovação constante das equipes. Observa-se ainda que 51% das participantes estão concentradas em São Paulo, o que faz sentido, dado que o Sudeste do país abriga a maior parte dos cursos de graduação em Terapia Ocupacional e dos serviços de saúde mental13,21.

Com base nos dados obtidos por meio das perguntas abertas do questionário e processadas pelo IRaMuTeQ, o presente estudo apresentará resultados e discussões concernentes às classes 1 e 3, conforme ilustrado no quadro 2.

Quadro 2
Dendrograma

A análise resultou em duas categorias principais: a Categoria 1, oriunda da Classe 1 – Campo, que reúne expressões como “atendimentos individuais”, “rede” e “acolhimento”, evidencia a atuação da Terapia Ocupacional na saúde mental por meio de uma prática comum e articulada com outros profissionais; e a Categoria 2, oriunda da Classe 3 – Delineamento do núcleo, representada por palavras como “formação”, “prática”, “olhar” e “atuação”, indica os elementos que definem o núcleo profissional da Terapia Ocupacional nesse campo.

Categoria 1 – Articulação da Terapia Ocupacional com o campo da saúde mental

Esta categoria aborda a relação da Terapia Ocupacional com o campo da saúde mental, evidenciando práticas inter e transdisciplinares próprias da clínica comum. Nessa perspectiva, o cuidado integra dimensões emocionais, sociais e culturais, cabendo ao terapeuta ocupacional articular e mediar essas diferentes necessidades na produção do cuidado.

Neste exercício, o cotidiano é um dos principais constructos pelos quais os terapeutas ocupacionais conseguem estabelecer conexões com o seu próprio fazer e com os demais membros das equipes. Salles e Matsukura22 apontam que esse cotidiano se manifesta nos pequenos acontecimentos e nas ações que compõem a história de vida dos indivíduos, articulando-se com o contexto social, as formas de produção, as diretrizes políticas e a organização social. Por sua recorrência nas análises e práticas da área, o cotidiano se consolida como o principal campo de ação e intervenção da Terapia Ocupacional:

Acho que principalmente as estratégias de incentivo à participação social dos usuários, mas também na organização dos processos de trabalho, dos PTSs [Projeto Terapêutico Singular], intervenções no território e comunidade, todos pelo mesmo motivo: temos um olhar único para o cotidiano dos serviços e dos usuários. É imprescindível a presença do terapeuta ocupacional em todas as ações em todos os equipamentos, pois tem uma visão da clínica ampliada e contribuições para a reflexão nas intervenções de cuidado nas situações cotidianas. As ações de resgate do cotidiano e inserção e apropriação de espaços de vida. (Terapeuta ocupacional 47)

Constantinidis et al.23 apontam que o cotidiano é compreendido como objeto central da Terapia Ocupacional em saúde mental, compondo o núcleo de competência da profissão. Articula-se ao campo da saúde mental de forma singular, pois, embora esteja presente no cuidado psicossocial, não é assumido como foco explícito por outros profissionais da área.

Nesse cenário, aposta-se que o desenvolvimento de ações no território seja fundamental para a ressignificação do cotidiano de pessoas, criando condições para o exercício da cidadania:

Acredito que buscar inserir esses usuários no território além do que já conhecem e estão acostumados. Emprestar o desejo de conhecer novos locais e sair do cômodo. Reconhecer junto do usuário suas potências e limites. Além disso, o terapeuta ocupacional tem uma visão do território e da importância da participação social e engajamento dos usuários, que são elementos extremamente importantes na atuação em saúde mental. (Terapeuta ocupacional 50)

Para Lima et al.24, por meio de abordagens referenciadas nas dinâmicas do cotidiano, é possível realizar um trabalho interdisciplinar. Tal trabalho deve ser mediado por uma dinâmica suficientemente móvel para acompanhar as possibilidades existentes nos territórios.

Além disso, compreende-se que as tecnologias desenvolvidas com base no modo psicossocial, mediadas por interações e convivências compartilhadas, têm um papel fundamental na formação e no fortalecimento dos vínculos, que é o fundamento para uma construção coletiva de PTSs, conforme destaca a terapeuta ocupacional 9:

Projeto Terapêutico Singular, o qual reconstruímos planos de vida, buscamos restaurar ou fortalecer vínculos familiares e de rede de apoio, pensamos em espaços de circulação no território, estratégias de autonomia e independência nas atividades cotidianas, para que, assim, esse usuário possa estar na vida, independente do seu uso de substância e sofrimento mental. (Terapeuta ocupacional 9)

De acordo com Ferigato e Silva25, a construção do PTS, quando alinhada à proposta de um plano de intervenção terapêutica ocupacional, tem o potencial de gerar movimentos de coprodução e cogestão no processo terapêutico de um indivíduo. As autoras ressaltam que a coprodução da autonomia, um dos objetivos históricos da Terapia Ocupacional e uma das principais propostas dos PTS, deve ser compreendida não apenas como um processo voltado à cura, mas também como um conjunto de conquistas para os sujeitos.

As respostas dos participantes evidenciam a articulação entre as práticas profissionais na RAPS, mostrando que os terapeutas ocupacionais exercem múltiplas funções, muitas delas compartilhadas com outros membros da equipe, conforme ilustrado no relato do terapeuta ocupacional 17:

Coordenação de grupo de expressão corporal; coordenação de grupo com repertório de criatividade e formas de expressão; atendimento de referência; atendimento à família e/ou rede de apoio; membro da comissão de núcleo de prevenção da violência; participação em reunião de matriciamento; de miniequipe e geral; e reuniões de rede entre os serviços; realização de acolhimento e cuidados na convivência do serviço; elaboração de Projeto Terapêutico Singular. (Terapeuta ocupacional 17)

Essa multiplicidade de tarefas reflete a natureza dinâmica e colaborativa do trabalho na RAPS, na qual as fronteiras entre os diferentes saberes e práticas se tornam flexíveis e permeáveis. Ellery, Pontes e Loiola26 destacam que o campo comum entre o trabalho da Terapia Ocupacional e a saúde mental, embora amplifique as possibilidades de troca e colaboração, também exerce uma influência sobre os espaços dos núcleos profissionais. O campo da saúde mental exige uma abordagem que reconheça e valorize a singularidade de cada profissional, mas também que promova a integração desses saberes em torno de um objetivo comum: o cuidado integral ao usuário.

Observamos ainda que alguns dos contornos vão se entrelaçando nos emaranhados da prática cotidiana no campo da saúde mental, conforme apresentado no relato da terapeuta ocupacional 24:

Também vejo que, nos grupos de referência técnica, transitamos muito bem com as parcerias, o que nos faz produzir espaços de cuidado e saberes amplos, e isso aumenta a visibilidade de nossa atuação transdisciplinar. [...] Ou parcerias com farmacêuticos, nutris, para falarem sobre medicações, efeitos e usos e os impactos sobre as rotinas de sono, estudo, lazer. Isso dentro do meu grupo de referência terapêutica, que sou TO [terapeuta ocupacional]. (Terapeuta ocupacional 24)

Aposta-se que, ao integrar essas contribuições, os profissionais se tornam mais preparados para lidar com os desafios que surgem na prática cotidiana. Dessa forma, é possível promover um cuidado mais eficaz e sensível às necessidades dos sujeitos.

Neste campo comum, atrelado às articulações específicas do produzir Terapia Ocupacional, importa estabelecer alianças para que um processo de cuidado integral e longitudinal ganhe ressonância efetiva na vida das pessoas. Nesse sentido, temos a afirmação da terapeuta ocupacional 32:

Penso que, em situações de crise, em situações limite, casos de grande complexidade, visitas domiciliares, sobretudo, articulações de redes, intersetoriais ou ainda dentro da saúde, há uma grande aposta na resolutividade por meio da adaptação e construção de outras formas de pensar/produzir saúde. (Terapeuta ocupacional 32)

Henz et al.27 ressaltam um ponto central nesse processo ao afirmarem que muitas das possibilidades de entendimento surgem durante as práticas, ou seja, nas ações reais planejadas e executadas pelos profissionais da área. Para os autores, os problemas que se apresentam durante a execução dessas ações questionam os saberes centrais, pressionam ao máximo os limites e abrem espaço para a criação de soluções colaborativas. Nesse contexto, o objetivo é evitar a disputa pela verdade absoluta, mantendo o foco no “compromisso pelo efeito da intervenção”27, ou seja, priorizando os resultados e os efeitos práticos da ação terapêutica.

Categoria 2 – Elementos que contribuem para o delineamento do núcleo profissional da Terapia Ocupacional em saúde mental

A proposta de “núcleo profissional”, em sua abordagem mais abrangente, envolve a inter-relação e a articulação dos saberes, práticas e valores que compõem a profissão não apenas em um âmbito específico, mas também integrando diferentes áreas da Saúde28. No entanto, a terapeuta ocupacional 15 pontua:

Acredito que ainda se precise politizar mais os terapeutas ocupacionais e trazer para o campo abordagens mais da clínica da Terapia Ocupacional, pois percebo nos novos TOs uma abordagem ampla, não trazendo a especificidade da Terapia Ocupacional. (Terapeuta ocupacional 15)

O relato da terapeuta ocupacional 15 sugere que, apesar dos avanços na compreensão e no desenvolvimento da profissão, há necessidade de maior engajamento político e de uma revalorização das abordagens clínicas específicas dessa área. A elaboração apresentada pela profissional revela uma atuação no campo da saúde mental arriscada, pois, embora cada vez mais inserida em práticas interprofissionais, pode negligenciar a especificidade da Terapia Ocupacional. Ainda assim, as terapeutas ocupacionais participantes deste estudo reconhecem a importância do trabalho conjunto e interdisciplinar, conforme evidenciado na categoria anterior.

Apesar da atenção dedicada a este ponto, é importante, ainda, ressaltar a relação de terapeutas ocupacionais com outros profissionais da equipe interprofissional atuantes no campo da saúde mental. Nesse contexto, terapeutas ocupacionais frequentemente recorrem à comparação como uma forma de identificar elementos que possam contribuir para o delineamento do núcleo específico da Terapia Ocupacional. Essa prática comparativa surge, em grande parte, da necessidade de destacar as particularidades e competências exclusivas da profissão no cuidado ao paciente, conforme destacado pelo terapeuta ocupacional 14:

Nenhum outro profissional tem repertório para o cuidado prático no cotidiano de quem nós atendemos. A autonomia e independência dos pacientes. (Terapeuta ocupacional 14)

Além dessa questão, a terapeuta ocupacional 25 destaca que:

Mas se eu precisasse dizer algumas coisas que eu penso como específicas, ou se não, que com certeza fazemos bem e melhor que os outros núcleos profissionais, seria o olhar e análise das atividades humanas. (Terapeuta ocupacional 25)

Neste ponto, enfatiza-se que a habilidade de observar, compreender e analisar as atividades cotidianas e suas implicações no bem viver do usuário é uma competência da Terapia Ocupacional. Apesar de sua reconhecida importância na saúde mental, a análise de atividades ainda é pouco explorada na produção científica nacional. Há uma lacuna significativa de estudos e publicações que aprofundem suas potencialidades práticas e teóricas.

Outro aspecto relevante identificado neste processo diz respeito à formação do terapeuta ocupacional e suas contribuições para a atuação em saúde mental. Palm et al.21 destacam que a maioria dos conteúdos abordados nas disciplinas específicas de saúde mental, bem como a abordagem pedagógica adotada, estão em sintonia com as transformações impulsionadas pelas mudanças legislativas e pelos novos cenários assistenciais decorrentes do Movimento da Reforma Psiquiátrica. Dessa forma, esses conteúdos ampliam o repertório crítico dos profissionais e expandem sua capacidade teórico-prática, reforçando as questões levantadas pela participante 21, conforme o trecho a seguir:

[...] outro ponto que é um diferencial da formação dos terapeutas ocupacionais: a concepção do que é saúde e de como produzi-la. Ainda que esbarre no campo também, nossa formação tem a marca de uma concepção de saúde ampliada, que olha para o território, para sua dinâmica e dinâmica sócio, político, econômica. (Terapeuta ocupacional 21)

Acreditamos que, nesse contexto, a(o)s terapeutas ocupacionais são instigados a pensar no “fazer” e no “estar com” como práticas que ultrapassam o âmbito técnico, integrando presença, escuta e relação. Essas práticas são orientadas por uma lógica de clínica ampliada e acolhimento, promovendo um cuidado mais humanizado e relacional. Esse diferencial na formação em Terapia Ocupacional permite a construção de uma perspectiva singular e complexa, capacitando o profissional a enfrentar os desafios da prática com sensibilidade e profundidade, o que distingue essa área de outras profissões no campo da saúde, conforme descrito pela terapeuta ocupacional 35:

A escuta qualificada, formação do vínculo e vários outros atributos da clínica ampliada estão presentes na formação deste profissional. Além disso, a saúde mental faz parte dessa formação através do currículo que contempla essa área em um campo vasto, diferente de outros profissionais que não apresentam uma carga horária extensa nessa área. (Terapeuta ocupacional 35)

Em sequência a esse exercício, a forma de vinculação com o sujeito foi destacada como um diferencial da(o) terapeuta ocupacional, indicando outras pistas para este delineamento. Esse processo só se concretiza e pode ser compreendido a partir do fato de que todos esses encontros são mediados por terapeutas ocupacionais que, ao longo de sua trajetória formativa e prática, desenvolvem maneiras singulares e pessoais de operar o cuidado. Segundo Krutli29, esses profissionais são lembrados pela proximidade e disponibilidade genuína no encontro com os usuários, configurando intervenções marcadas pelo acolhimento horizontal e pelo compartilhamento de vivências. Trata-se da criação de espaços nos quais os sujeitos podem se reconhecer e se expressar, por meio de um cuidado próximo, atento e que se dá corpo a corpo.

No processo de delineamento do núcleo profissional da Terapia Ocupacional em saúde mental, destaca-se o chamado “olhar da Terapia Ocupacional”, entendido como uma perspectiva singular e distintiva da profissão.

Bagagem de repertório de atividades relacionadas às artes e olhar atento às múltiplas expressões de cada sujeito. (Terapeuta ocupacional 8)

A capacidade que só o terapeuta ocupacional tem de olhar com cuidado para o cotidiano de cada sujeito e poder pensar como esse sujeito está ou não em cada espaço que tem direito de estar. (Terapeuta ocupacional 18)

O olhar individualizado e ampliado para além da doença. (Terapeuta ocupacional 16)

Contudo, Constantinidis e Cunha30 alertam que esse olhar nem sempre está articulado aos fundamentos teóricos que sustentam o raciocínio profissional, sendo necessário qualificá-lo de modo consciente, considerando seus impactos na prática. Essa qualificação se dá, fundamentalmente, pela articulação entre teoria e prática, sendo o raciocínio profissional o elemento central dessa construção31. Gomes et al.32 complementam ao afirmarem que esse raciocínio integra saberes teóricos e experiências práticas, permitindo decisões clínicas éticas e contextualizadas, mesmo em meio à incerteza, e requer atenção às singularidades de cada caso. Trata-se, portanto, de um processo complexo, dinâmico, sustentado por um arcabouço teórico-metodológico robusto e atravessado por fatores políticos, sociais e culturais que permeiam o campo da saúde mental.

Assim, ao considerar esse olhar como produto de um raciocínio profissional, reconhece-se sua função de captar as complexidades do cotidiano e elaborar estratégias que ultrapassam soluções genéricas. Nomeá-lo como tal parece ser a forma encontrada por participantes deste estudo para legitimar e valorizar a especificidade da Terapia Ocupacional no campo da saúde mental, consolidando sua importância.

O fazer, a atividade e a ocupação, para a(o)s participantes, têm papel fundamental na construção deste núcleo e dá contorno a uma certa identidade profissional. Por meio desta relação direta com o fazer, a atividade e a ocupação, confere-se ao terapeuta ocupacional não apenas a habilidade técnica, mas também uma sensibilidade única para compreender e interagir com as diversas realidades, moldando, assim, essa identidade profissional dentro de um contexto de cuidado e transformação social. Constantinidis et al.23 apontam que:

Enquanto para outros profissionais, atuantes no campo da saúde mental, a atividade é um recurso – um suporte ou auxílio em suas intervenções –, para terapeutas ocupacionais ela se constitui como instrumento fundamental para o alcance de objetivos, que são inseparáveis do campo da atenção psicossocial23. (p. 10)

Um dos objetivos destacados é a promoção da participação social, que se configura como um tema central na prática terapêutica ocupacional. A inclusão social é reconhecida como um objetivo fundamental no cuidado em saúde mental, especialmente diante das diversas formas de violência e negligência que pessoas afetadas por sofrimento psíquico frequentemente vivenciam. Nesse cenário, a Terapia Ocupacional assume um papel crucial, tornando-se uma ferramenta indispensável para garantir que os indivíduos possam exercer sua participação ativa na sociedade.

Além disso, o terapeuta ocupacional tem uma visão do território e da importância da participação social e engajamento dos usuários, que são elementos extremamente importantes na atuação em saúde mental. (Terapeuta ocupacional 13)

Segundo Silva e Oliver33, a participação social é um eixo central da Terapia Ocupacional, atuando tanto como objetivo de intervenção quanto como força que atravessa toda a prática profissional. Ela amplia o campo de atuação para além do técnico-clínico, articulando-se ao compromisso ético, político e social da profissão; e convoca os terapeutas ocupacionais a atuarem como agentes de transformação e inclusão.

Considerações finais

Os resultados deste estudo evidenciam que a Terapia Ocupacional na saúde mental opera simultaneamente em dois planos indissociáveis: o do campo comum, no qual compartilha práticas e responsabilidades com outros profissionais em uma lógica inter e transdisciplinar; e o do núcleo profissional, no qual afirma elementos que lhe são singulares e que conferem a especificidade da sua atuação.

No campo comum, terapeutas ocupacionais participam ativamente de práticas compartilhadas sem perder sua identidade – ao contrário, é nessa atuação coletiva que sua relevância se fortalece.

No plano do núcleo profissional, os dados evidenciam elementos que definem a singularidade da Terapia Ocupacional na saúde mental: o cotidiano como foco de intervenção, o uso das atividades humanas como instrumento terapêutico, uma abordagem ampliada centrada na vida dos sujeitos e o compromisso ético-político com autonomia, participação social e cidadania. Esses elementos, articulados entre si, configuram um núcleo profissional que não é rígido, nem fechado, mas que possui contornos reconhecíveis e capazes de orientar a prática da Terapia Ocupacional na saúde mental.

Neste sentido, a Terapia Ocupacional, portanto, constitui-se como uma prática dinâmica e reflexiva, construída em um movimento contínuo entre diferentes referenciais, o que fortalece a profissão sem diluir suas especificidades no trabalho interdisciplinar.

É necessário reconhecer algumas limitações deste estudo. A amostra de 53 terapeutas ocupacionais é de conveniência, o que impede afirmar representatividade estatística em relação ao conjunto de profissionais no Brasil. Assim, os achados devem ser compreendidos como indicativos de tendências e práticas, e não como uma descrição definitiva ou generalizável. Estudos futuros com amostras mais amplas e metodologias diversas poderão aprofundar essa compreensão.

Por fim, reafirma-se a existência de um núcleo profissional da Terapia Ocupacional na saúde mental, entendido não como uma fronteira rígida, mas sim como um conjunto de saberes e compromissos que configuram uma contribuição singular ao cuidado psicossocial. Reconhecê-lo é também um ato político, ao afirmar o caráter estruturante e não periférico da Terapia Ocupacional na RAPS.

Melo CH, Constantinidis TC. O núcleo profissional da Terapia Ocupacional em saúde mental: práticas e potências na Rede de Atenção Psicossocial. Interface (Botucatu). 2026; 30: e260343 https://doi.org/10.1590/interface.260343

Disponibilidade de Dados

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no SciELO Data e pode ser acessado em https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.6XYEK9.

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Conflito de interesse

Os autores não têm conflito de interesse a declarar.

Editora

Rosana Teresa Onocko-Campos https://orcid.org/0000-0003-0469-5447

Editor associado

Alberto Rodolfo Velzi Diaz https://orcid.org/0000-0001-6304-2150

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    24 Abr 2026
  • Aceito
    11 Ago 2026
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