Open-access Reorientação educacional, interprofissionalidade e transformações: análise documental dos projetos Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde em 15 anos

Resumo

Este estudo objetiva analisar os projetos do Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde/Universidade Federal da Paraíba considerando Integração Ensino-Serviço-Comunidade como orientação no desenvolvimento de competências interprofissionais e Práticas Colaborativas Interprofissionais (PCI) em saúde. É um estudo documental, qualitativo, com recorte temporal (2008-2023). Utilizou-se a Matriz de Análise única para todos os projetos por meio do objetivo do estudo e do aporte teórico. Utilizou-se a Análise de Conteúdo. Observaram-se características que têm potencial indutor para a interprofissionalidade na formação e nas PCI, descritas de maneira explícita nos Projetos GraduaSUS, Interprofissionalidade e Gestão&Assistência. Os resultados indicam a necessidade de os projetos incorporarem, em suas proposições, a participação ativa de usuários/famílias/comunidades e fomentarem a colaboração por meio de tecnologias digitais no planejamento, na execução e na avaliação das atividades interprofissionais, tendo a aprendizagem interprofissional como horizonte formativo brasileiro.

Palavras-chave
Educação interprofissional; Sistema Único de Saúde; Formação de recursos humanos


Abstract

This study aims to analyze the projects of the Education through Work for Health Program/Federal University of Paraíba, considering Teaching-Service-Community Integration as a guideline in the development of interprofessional competencies and Interprofessional Collaborative Practices (ICP) in health. It is a qualitative, documentary study with a temporal scope (2008-2023). A single Analysis Matrix was used for all projects, based on the study’s objective and theoretical framework. Content Analysis was employed. Characteristics with inductive potential for interprofessionalism in training and ICP were observed, explicitly described in the GraduaSUS, Interprofessionality, and Management & Assistance Projects. The results indicate the need for the projects to incorporate, in their proposals, the active participation of users/families/communities and to foster collaboration through digital technologies in the planning, execution, and evaluation of interprofessional activities, considering interprofessional learning as a Brazilian formative horizon.

Keywords
Interprofessional education; Brazilian National Health System; Human resources training


Introdução

Um contexto desafiador de mudanças epidemiológicas e demográficas, em circunstâncias de vulnerabilidades sociais e econômicas, reflete nas demandas de oferta de serviços de saúde1. Para esse enfrentamento são necessárias também mudanças na formação em Saúde voltadas para um cuidado que alcance as necessidades de saúde da população2,3.

Diante dessa situação, para a reorientação da formação e da reorganização dos sistemas de saúde, há o estímulo para adoção da Educação Interprofissional (EIP), definida como a situação em que estudantes de duas ou mais profissões de saúde aprendam sobre os outros, com os outros e entre si, possibilitando a colaboração e os resultados satisfatórios na produção de cuidado4. Reeves et al.5 complementaram que na EIP os membros de mais de uma profissão de saúde devem estar juntos, aprendendo de maneira interativa, na intencionalidade de melhorar a saúde dos pacientes.

O aprendizado colaborativo ocorre quando há aquisição de competências na interação com outras pessoas6. Em um ambiente de EIP, de maneira informal ou em situações práticas, ocorre a aprendizagem interprofissional7. É preciso utilizar métodos de aprendizagem que promovam a interação, a reflexão, que seja centrado na pessoa e possibilite a construção de relações efetivas entre as diferentes profissões para o desenvolvimento de competências interprofissionais8 e das Práticas Colaborativas Interprofissionais (PCI)4.

Enfatiza-se, no conceito de competência9, a autonomia do sujeito, assumindo responsabilidade diante de problemas em ocasiões profissionais. Dessa forma, para a implementação da EIP é necessário o desenvolvimento de competências específicas ou complementares (que distinguem as profissões), as comuns (inerentes a todas as profissões) e as colaborativas (necessárias para a colaboração entre profissionais, usuários, família e comunidade)10, apoiando a educação e o trabalho interprofissional11,12. Dentre as competências colaborativas, destacam-se: cuidado centrado nas relações/serviços, comunicação em equipe, evidência dos papéis e negociação, funcionamento da equipe, diferenças/desentendimento das equipes e liderança colaborativa13.

A reorganização dos serviços de saúde pode viabilizar as PCI, conceituadas quando profissionais de diferentes áreas trabalham em conjunto com os usuários, as famílias e as comunidades, visando a um cuidado de qualidade4. Na conjuntura brasileira, há avanços no que diz respeito à constituição de espaços, na Atenção Primária à Saúde (APS), os quais possibilitem diálogos, resultando na integralidade do cuidado14.

Para a consolidação da Integração Ensino-Serviço-Comunidade (Iesc), é importante a presença ativa dos participantes15, em que, em ambiente de trabalho, equipes compostas por diferentes áreas compartilham suas experiências, contribuindo para o fortalecimento da formação e para qualificar os serviços de saúde16. As iniciativas de EIP, no contexto brasileiro, foram relacionadas, em sua maioria, a processos de Iesc articulados com a APS, sendo uma estratégia potente na formação e na qualificação dos serviços de saúde17-23. A Iesc depende fortemente de construção coletiva entre os seus participantes, em especial nos processos decisórios.

O Ministério da Saúde (MS) e o Ministério da Educação (MEC), por intermédio da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), estabeleceram o Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (PET-Saúde)24. Esse programa proporciona vivências e reflexões aos estudantes de diferentes cursos de graduação nas realidades dos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), com vistas à intersetorialidade, interdisciplinaridade e interprofissionalidade, visando a qualificar a Iesc25-27, sendo publicadas, desde o ano de 2008, 12 edições PET-Saúde28.

A Universidade Federal da Paraíba (UFPB) obteve a aprovação de todos os seus Projetos PET-Saúde. Embora haja avanços na literatura sobre a EIP, ainda são escassas as análises que examinam, de forma longitudinal, como as políticas públicas estruturam condições sistêmicas para a sua implementação17,18,21,29. A análise das iniciativas de reorientação da formação em Saúde ocorre em um contexto marcado pela crise estrutural do SUS, aprofundada por processos de subfinanciamento crônico e por disputas em torno do projeto da reforma sanitária brasileira. Este estudo se justifica ao analisar, no plano programático, como tais iniciativas incorporam os princípios da EIP e das PCI, evidenciando convergências, limites e desafios.

Diante desse contexto, surge a inquietação: As propostas apresentadas nos projetos PET-Saúde/UFPB, no decorrer do tempo e em suas diferentes edições, apresentavam elementos que pudessem promover a interprofissionalidade na formação e nas PCI?

Assim, destaca-se, neste estudo, a análise documental de dez Projetos PET-Saúde/UFPB, em suas diferentes edições, no recorte temporal de 2008-2023, considerando a Iesc no desenvolvimento de competências interprofissionais e das PCI em saúde.

Esta pesquisa é parte da tese de doutorado intitulada “O Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde e a indução de mudanças na formação e no trabalho em saúde por meio da interprofissionalidade: estudo de caso na UFPB”.

Metodologia

É uma pesquisa qualitativa30,31, de natureza documental, que analisou Projetos PET-Saúde, no recorte temporal de 2008 a 2023, desenvolvidos no âmbito de uma universidade federal pública, com 72 anos de fundação, contando com 12 cursos de Graduação da Saúde, distribuídos em três centros de ensino, localizada em um estado do Nordeste brasileiro. O recorte institucional foi definido pela participação contínua da instituição em todas as edições do programa, possibilitando análise longitudinal das transformações conceituais relacionadas à Iesc e à EIP.

Toma-se como referencial para leitura e interpretação dos documentos o fundamento epistemológico da Teoria do Construcionismo Social de Gergen6 e seus aportes teóricos, ao compreender esses projetos como produções discursivas situadas histórica e institucionalmente, permitindo analisar como entendimentos sobre formação, EIP4 e PCI4 foram construídos, negociados e estabilizados nos textos ao longo do tempo. A análise dos documentos foi sistematizada pela combinação da abordagem Read32 com a Análise Temática de Conteúdo33.

Para os critérios de inclusão, optou-se pelos Projetos PET-Saúde/UFPB, cujas edições, no momento da coleta de dados, estavam com suas atividades finalizadas. Os referidos projetos foram solicitados, por meio de e-mails, aos coordenadores e/ou tutores de cada edição.

Os documentos analisados não apresentavam uniformidade em sua escrita, sendo necessária a utilização de uma Matriz de Análise, que teve sua construção por meio do objetivo do estudo e do aporte teórico, possibilitando uma organização sistemática e uniforme dos dados coletados, permitindo, assim, uma análise robusta e confiável das informações.

Na organização inicial dos documentos foi utilizada a abordagem Read32. Os documentos foram inicialmente organizados e lidos de forma exaustiva (preparação), seguidos da extração de informações relevantes segundo a matriz analítica, da codificação temática e da síntese interpretativa dos achados.

Para cada Projeto PET-Saúde/UFPB preencheu-se a Matriz de Análise com informações relacionadas à edição temática, ao ano de execução, a instituições e cursos de graduação participantes, ao modelo de Atenção à Saúde vigente no serviço, ao modelo de educação vigente na IES e às categorias de análise: I- Objetivos educacionais, II- Iesc, III- Elementos de interprofissionalidade e IV- Atividades relacionadas à prática nos serviços.

Adotou-se a análise temática de conteúdo33, em que se identificaram as ideias iniciais na pré-análise; na exploração do material foram realizadas releituras do texto coletado, buscando maior aprofundamento nos dados, agregando-os em unidades de registro e contexto, seguida da codificação, categorização e da etapa de tratamento dos resultados, proporcionando a elaboração de quadros-síntese com informações significativas.

A análise foi realizada por um pesquisador e, posteriormente, discutida com outros dois, resultando em categorias construídas por consenso à luz do referencial teórico da EIP4,5 das competências interprofissionais10,13 e das PCI4 no contexto de Iesc15, assegurando coerência interna e aderência teórica. As divergências na codificação e na interpretação dos dados foram discutidas em reuniões entre os pesquisadores até a construção de consenso analítico, garantindo a coerência interna das categorias e sua aderência ao referencial teórico adotado.

Esta pesquisa seguiu as diretrizes da Lei de Acesso à Informação de n. 12.527 de 201134 e foi analisada após aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da UFPB, por meio do parecer de n. 6.330.150.

A coleta e a análise dos dados foram realizadas no período de setembro a dezembro de 2024.

Resultados

Foram analisados dez Projetos PET-Saúde/UFPB, no recorte temporal de 2008-2023, estando apresentadas, neste estudo, quatro categorias temáticas: (I) Características nos objetivos educacionais orientadas à aprendizagem interprofissional, (II) Elementos para o fortalecimento da Iesc, (III) Proposições para o desenvolvimento das competências colaborativas e (IV) Recursos que incentivam as PCI.

Características nos objetivos educacionais orientadas à aprendizagem interprofissional

Na figura 1, observam-se, nos objetivos educacionais dos projetos, características relacionadas à educação pelo trabalho mediante a inserção de estudantes dos diferentes cursos da saúde nos serviços do SUS, dispostos em grupos de aprendizagem tutorial, interdisciplinar, integração entre os cursos e construção conjunta entre estudantes, docentes, profissionais, gestores e as diferentes políticas indutoras. O incentivo à participação dos usuários/cuidadores/família/comunidade foi descrito nos Projetos Saúde Mental, Gestão&Assistência, enquanto a interprofissionalidade estava expressa nos Projetos GraduaSUS, Interprofissionalidade e Gestão&Assistência.

Figura 1
Características nos objetivos educacionais dos Projetos PET-Saúde/UFPB.

Elementos para o fortalecimento da Iesc

A figura 2 apresenta contratualização existente entre a IES e os serviços de saúde, na Iesc, descrita por intermédio de um convênio formal entre as gestões das SMS, SES e a gestão da IES, denominado de Rede Escola/Sistema Saúde Escola ou Acordo de Cooperação, a depender do município onde o projeto estava articulado.

Figura 2
Integração Ensino-Serviço-Comunidade nos Projetos PET-Saúde/UFPB.

Nos Projetos GraduaSUS e Interprofissionalidade, sinalizou-se a proposta de contratualização via Contratos Organizativos de Ação Pública Ensino Saúde (Coapes)35, entretanto essa forma não foi descrita no Projeto Gestão&Assistência.

Destacam-se a intencionalidade de autonomia e o protagonismo dos estudantes no desenvolvimento das atividades propostas, a cooperação pedagógica intersetorial e as parcerias no ensino, o cuidado e a pesquisa em saúde, para além do núcleo de saber. O protagonismo estudantil foi proposto para ser construído por cenários de aprendizagem dos projetos PET, ou seja, com os serviços, não implicando uma sobrecarga para os profissionais de saúde. Não ficou evidente como se daria a participação da comunidade nos processos decisórios.

Proposições para o desenvolvimento das competências colaborativas

A figura 3 apresenta propostas de troca de saberes e parceria com os profissionais da saúde e docentes no ensino, pesquisa e Atenção à Saúde, assim como a articulação com gestores do SUS e a participação social.

Figura 3
Proposições nos Projetos PET-Saúde/UFPB que favorecem o desenvolvimento das competências colaborativas

Apresenta proposições voltadas para a comunicação, para os diálogos entre as redes, com problematização do processo de trabalho em equipe, com espaços compartilhados de construção coletiva e reflexão, bem como para as atividades conjuntas nos serviços de saúde e para as ações entre a APS e a Saúde Mental.

No Projeto GraduaSUS, havia menção à articulação entre os diferentes programas e políticas indutoras da Educação na Saúde, enquanto o Projeto Interprofissionalidade propunha a construção de competências para o trabalho colaborativo.

Por sua vez, o Projeto Gestão&Assistência apresentava uma proposta de valorização das profissões no trabalho, com ações participativas centradas no usuário-território-comunidade, processos colaborativos interprofissionais e resolutividade nos serviços de saúde, liderança compartilhada, definição das funções e papéis dos membros das equipes, e a proposta de colegiado gestor (gestão municipal em saúde, gestão da IES, coordenação do projeto, tutores, preceptores, estudantes e usuários) no planejamento, no desenvolvimento e no acompanhamento das ações.

Recursos que incentivam as PCI

A figura 4 apresenta dados referentes às PCI, com propostas de problematização dos casos em conjunto com as equipes de saúde, na perspectiva do cuidado ampliado, compartilhado em saúde, de maneira interdisciplinar, intersetorial e com equidade, por meio de uma atenção domiciliar, comunitária e nos serviços de saúde, na construção de projetos terapêuticos nas diferentes linhas de cuidado.

Figura 4
Proposições nos Projetos PET-Saúde/UFPB que favorecem as PCI.

O Projeto Saúde Mental apresentava propostas de reflexão do processo de trabalho na APS, com a análise dos determinantes sociais do território relacionados aos transtornos mentais e à temática das drogas, e com apoio aos grupos operativos temáticos na perspectiva de escuta qualificada, psicoeducação e teatro do oprimido. As PCI foram citadas nos Projetos GraduaSUS, Interprofissionalidade e Gestão&Assistência.

Discussão

Os objetivos educacionais dos projetos apresentavam características que propusessem educação pelo trabalho, com a inserção de estudantes dos diferentes cursos nos serviços do SUS mediante integração, fomentando propostas institucionais orientadas à aprendizagem interprofissional como horizonte formativo ao longo dos anos.

Estudos27,36 revelaram a importância do PET-Saúde em proporcionar mudanças nos processos formativos na direção das reais necessidades de saúde da população, oportunizando experiências e aprendizados aos estudantes dos diferentes cursos de graduação da Saúde no âmbito da APS.

A análise longitudinal evidencia uma inflexão pelos Projetos GraduaSUS e Interprofissionalidade, nos quais a EIP passa a ser explicitamente nomeada e mencionada, diferentemente dos projetos iniciais em que aparecia de forma difusa e associada sobretudo à Iesc.

Assim, à luz dos referenciais da EIP5,7,10, os projetos PET-Saúde/UFPB alinham-se predominantemente a uma concepção de interprofissionalidade orientada no nível do sistema de saúde ao estruturar arranjos institucionais, diretrizes curriculares e dispositivos de Iesc com o objetivo da formação interprofissional. Observaram-se convergências entre as propostas de Reeves et al.5 no reconhecimento da aprendizagem interprofissional como um horizonte formativo e na valorização do princípio educativo pelo trabalho.

Dessa forma, os projetos PET-Saúde/UFPB parecem contribuir para o fortalecimento de condições sistêmicas favoráveis à EIP. Há que se avançar em processos de avaliação e monitoramento desses projetos e suas repercussões em mudanças curriculares, fortalecimento da Iesc e mudanças no processo de trabalho das equipes de saúde.

Ideias construcionistas6 no processo ensino-aprendizagem defendem que, por intermédio do diálogo entre estudantes e docentes, há construção de conhecimento com uma probabilidade grande de todos compartilharem suas percepções pessoais, o que resultaria em aprendizado colaborativo6.

Uma intervenção educativa de EIP precisa ter o objetivo explícito de preparar para a colaboração5. Nessa perspectiva, a análise dos Projetos GraduaSUS, Interprofissionalidade e Gestão&Assistência apontava nessa direção ao propor práticas colaborativas entre os participantes, na perspectiva da interrelação, conforme aponta o Construcionismo Social6, com diferentes olhares, resolução de situações de maneira coletiva, efetiva e participativa em um processo de mútua aprendizagem.

A aprendizagem interprofissional é favorecida pelo encontro e pela interação de diferentes profissões, em que os sujeitos constroem aprendizados, motivados pelo diálogo e pela reflexão da realidade vivenciada mediante iniciativas de EIP na IES ou em cenários de aprendizagem nos serviços de saúde5,7.

Há necessidade de discussões em torno de metodologias participativas de ensino-aprendizagem37,38. Observa-se, nas propostas dos Projetos PET-Saúde/UFPB, o incentivo ao diálogo com a realidade dos profissionais e usuários problematizando as experiências, assim como troca de saberes entre estudantes, docentes e profissionais das equipes.

Os projetos não faziam referência a quais competências colaborativas10,13 pretendiam desenvolver, nem à maneira como se daria o desenvolvimento delas. Foi observado que o Projeto PET-Saúde Interprofissionalidade trazia a intenção da construção de iniciativas interprofissionais, integradas às Redes de Cuidado do SUS e ênfase na preceptoria de estudantes dos diferentes cursos, enquanto o Projeto PET-Saúde Gestão&Assistência propunha ações centradas no usuário-território-comunidade com definição das funções e dos papéis dos membros das equipes.

Foram observados, nos projetos, proposições que incentivam a comunicação entre os serviços de saúde da RAS, a discussão de protocolos, a necessidade de problematização das situações vivenciadas em conjunto com os profissionais de saúde das equipes, a busca pela integralidade do cuidado por meio das necessidades de saúde da comunidade/pessoas. Ter espaços de reflexão, comunicação compartilhada e momentos em comum facilita a colaboração interprofissional39.

No entanto, a discussão sobre EIP não pode se restringir aos projetos PET-Saúde. A EIP é mais que estratégia pedagógica, configura-se como um projeto político de formação, cuja efetividade depende da articulação entre políticas de saúde, como a de gestão do trabalho e de educação.

A incorporação da EIP nos currículos deve estar associada às transformações institucionais mais amplas, considerando os contextos locais e fortalecendo a Educação Permanente em Saúde (EPS), apresentada como estratégia potente de sustentabilidade para iniciativas interprofissionais40, possibilitando uma reflexão crítica sobre o trabalho em saúde, redes de atenção e os aspectos organizacionais, estruturais, culturais que permeiam a educação e o trabalho em saúde.

É fundamental (re)situar os usuários e suas necessidades no centro do processo e, com isso, alcançar melhorias na qualidade dos cuidados e na capacidade de resposta dos serviços. As propostas apresentadas nos Projetos PET-Saúde/UFPB, ao longo do tempo, possibilitaram a construção de diretrizes e orientações sobre interprofissionalidade na formação e nas práticas colaborativas, considerando parceria, cooperação, coordenação, interação, integração, demonstrando o incentivo às mudanças curriculares e do processo de trabalho.

Experiências baseadas no princípio educativo do trabalho e na aprendizagem na comunidade fortalecem a articulação da Iesc41-43, com potencial de induzir transformações nas práticas de saúde4. Nesse sentido, a Iesc configura-se como um processo contínuo de construção coletiva marcado por negociações e tensões entre os atores envolvidos.

Projetos implicados com os contextos nos quais estão inseridos possibilitam, aos trabalhadores, reflexão sobre seu cotidiano a fim de oportunizar mudanças no processo de trabalho que reverberem um cuidado mais integral e resolutivo. O Projeto PET-Saúde Mental apresentava em sua proposta a importância de se ter um pensamento crítico e ético baseado nas situações vivenciadas no cotidiano. As discussões acerca da interprofissionalidade deverão adotar características críticas, políticas e reflexivas36.

As políticas indutoras vêm desempenhando um importante papel na ampliação da EIP, entretanto sua dependência de ciclos governamentais e de financiamento revela fragilidade na institucionalização das iniciativas no interior da formação e do trabalho em saúde. Percebe-se, assim, a possibilidade de descontinuidade e de captura burocrática em contextos de instabilidade política e restrição orçamentária.

Existem desafios no trabalho em saúde que precisam ser enfrentados, necessitando de estratégias de sustentabilidade como a implementação da EPS para as iniciativas interprofissionais, bem como garantir o desenvolvimento das competências que fortaleçam a colaboração nos serviços de saúde36,37,40-42.

Pela análise dos Projetos PET-Saúde/UFPB ao longo do tempo, em suas diversas edições, perceberam-se proposições para a (re)criação de novas parcerias e a constante (re)pactuação, tendo em vista as mudanças de gestões, de pessoas nos locais de poder e de decisão, acompanhando as mudanças apresentadas nos Modelos de Atenção à Saúde e de Educação vigentes no contexto brasileiro.

A construção compartilhada e coletiva dos projetos ao longo do tempo amadureceu os processos em direção ao fortalecimento da interprofissionalidade na Iesc. Na EIP, o permanecer juntos, de maneira interativa, tem a intencionalidade de melhorar a saúde dos usuários5.

Muito embora os Projetos PET-Saúde/UFPB apresentassem em suas propostas elementos que incentivavam a participação da comunidade nas atividades, esse direcionamento ainda se mostrou limitado nas edições analisadas. Isso revelou um limite estrutural na incorporação do controle social como dimensão importante na formação em saúde.

Para uma efetivação das PCI, é relevante considerar a centralidade do cuidado na pessoa7, bem como a abordagem integrada. Isso revela que a inserção ainda limitada da EIP nas ações de Iesc demanda um aprofundamento nas discussões e um estímulo maior à sua adoção. A EIP redefine o papel dos usuários, colocando-os no centro da produção do cuidado em saúde, o que fortalece os princípios de universalidade e equidade, os quais reverberam o acesso e a qualidade dos serviços41,44.

Nas propostas dos Projetos PET-Saúde/UFPB, havia a possibilidade de mobilização de docentes e estudantes em torno de reformas curriculares que contemplassem o SUS e a valorização do papel do trabalhador dos serviços como preceptor. Estudos identificaram a disponibilidade de docentes e preceptores como atores fundamentais em iniciativa educacional interprofissional45.

Os resultados reforçam que a reorientação da formação em Saúde não se esgota na formulação de diretrizes e programas indutores, exigindo enfrentamentos das desigualdades institucionais e fortalecimento do SUS como projeto civilizatório. Assim, a EIP e a Iesc devem ser compreendidas como processos históricos, permanentemente construídos e tensionados pelas disputas em torno do modelo de formação e de Atenção em Saúde no Brasil.

Considerações finais

A proposta de trabalho apresentada nos projetos PET-Saúde/UFPB, desde sua primeira edição, configurou-se como uma oportunidade para docentes, gestores, profissionais de saúde e estudantes ampliarem a compreensão sobre EIP e PCI, ancorados nos princípios do SUS, e a sua análise demonstra que a discussão sobre essas temáticas precisa avançar com o objetivo de qualificar a formação e promover uma atenção integral ampliada e resolutiva.

Percebeu-se que as ideias contidas nos projetos PET-Saúde/UFPB tinham a intencionalidade de contribuir para a ampliação do debate em torno de temas centrais à reforma sanitária brasileira, tanto na esfera da formação quanto da atenção e gestão dos serviços de saúde locais. Eles acompanharam os movimentos do contexto de saúde brasileiro, promovendo uma concepção ampliada do processo saúde-doença, cuidado e da reorientação de modelos de atenção que podem reverberar as práticas, os saberes e os fazeres.

Nas propostas do PET-Saúde/UFPB mais recentes, nota-se o fortalecimento de atividades de ensino-aprendizagem-avaliação orientadas pela interprofissionalidade e pela colaboração. A EPS surge, assim, como uma estratégia para construção de propostas inovadoras e colaborativas que respondam às demandas do território, das comunidades e dos serviços em que as equipes dos PET-Saúde atuam, o que pode reverberar a produção de cuidado em saúde.

Destaca-se, ainda, a importância de políticas indutoras que fomentem explicitamente mudanças na formação e no trabalho por meio da interprofissionalidade, pois, somente quando a temática entrou na pauta governamental e o PET-Saúde assumiu a EIP, os projetos passaram a adotar a interprofissionalidade de maneira mais substancial. Dessa forma, fortalecer a EIP e a Iesc implica reafirmar o compromisso com o SUS como política pública e projeto societário, especialmente em contextos de crise e subfinanciamento.

Como limitação desse estudo, há o fato de terem sido usadas, como fonte de informação, as propostas dos Projetos PET-Saúde/UFPB, e não necessariamente as práticas implementadas, além de o estudo ter sido feito em uma única IES, o que, por vezes, pode limitar a extrapolação dos resultados. Entretanto, os projetos mostram avanços e desafios na direção da EIP e fortalecimento da Iesc, além de ser um relevante resgate histórico de todos os Projetos PET-Saúde/UFPB no recorte temporal de 2008-2023.

Portanto, há necessidade de os projetos incorporarem, em suas proposições, a participação ativa de usuários/famílias/comunidades e incentivarem a colaboração por meio de tecnologias digitais. Como desdobramento desse estudo, há o fomento a pesquisas futuras com relação à implementação da EIP e das PCI e a sua interface com os sistemas de informação e a saúde digital no Brasil.

Agradecimentos

A todos os coordenadores do PET-Saúde/UFPB que disponibilizaram os projetos. À Fundação de Apoio a Pesquisa da Paraíba – FAPESQ-PB pela concessão de bolsa à primeira autora.

Financiamento

Fundação de Apoio a Pesquisa da Paraíba – FAPESQ-PB concedeu bolsa à primeira autora.

Braga CC, Regis CG, Melquiades CGS, Teixeira BRF, Forte FDS. Reorientação educacional, interprofissionalidade e transformações: análise documental dos projetos Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde em 15 anos. Interface (Botucatu). 2026; 30: e260097 https://doi.org/10.1590/interface.260097

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa só estão disponíveis mediante solicitação.

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Conflito de interesse

Os autores não têm conflito de interesse a declarar.

Editor

Editora associada

Marta Quintanilha Gomes https://orcid.org/0000-0001-9320-3277

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Jan 2026
  • Aceito
    03 Jul 2026
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