RESUMO
Partindo do livro VI das Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres de Diógenes Laércio e mobilizando outras fontes do corpus cínico, o presente estudo pretende comentar brevemente o modo pelo qual os filósofos cínicos (em particular Diógenes de Sínope) trataram, ainda que de forma episódica e não sistemática, do fenômeno do sonho e de suas apropriações, notadamente em relação com um dos princípios fundamentais atribuído à doutrina, a saber, o ‘uso das representações’ (χρῆσις φαντασιῶν: cf. Epiteto III 24, 67-69).
Palavras-chave:
Cinismo; Diógenes de Sínope; Sonho; Interpretação dos sonhos; Uso das representações.
ABSTRACT
Starting from Book VI of Diogenes Laertius’ Lives of eminent philosophers and mobilizing other sources of the Cynic corpus, this study aims to comment on the way in which the Cynic philosophers (especially Diogenes of Sinope) dealt with the phenomenon of dreaming and its appropriations, notably in relation to one of the fundamental principles attributed to this doctrine, namely the ‘use of representations’ (χρῆσις φαντασιῶν: cf. Epictetus III 24, 67-69).
Keywords
Cynicism; Diogenes of Sinope; Dream; Dream interpretation; Use of representations.
Em que pese o notável crescimento da atenção dada ao cinismo antigo nas últimas décadas, em particular a partir dos anos 70 do século passado1, não existe, ao meu conhecimento, até a presente data, nenhum estudo sistemático sobre o modo pelo qual os filósofos dessa tradição apreenderam o fenômeno do sonho e o que ele pôde inspirar aos homens. O tema é sem dúvida marginal no conjunto da literatura antiga, mas nem por isso destituído de interesse: ele não apenas coloca em evidência uma forma particular de compreensão de um tipo de intercorrência natural da vida humana (mas aparentemente não exclusiva a ela) - compreensão esta gestada no âmbito de um movimento filosófico específico -, como ainda, de uma perspectiva sociológica, recupera a crítica de certas práticas tradicionais destinadas a controlar e a orientar a ação deliberada do homem no mundo. O presente artigo pretende fornecer alguns elementos de análise que permitam, ao menos em parte e ao modo de uma breve introdução, preencher essa lacuna. Trata-se, em linhas gerais, de tentar compreender, segundo os métodos próprios da história da filosofia, a reflexão episódica e não dogmática atribuída aos filósofos cínicos no contexto de uma literatura dispersa e fragmentária, de caráter marcadamente anedóticobiográfico, em torno da apropriação e da instrumentalização de um componente intrínseco e involuntário (ou inconsciente) do psiquismo humano no domínio da ética e da moral prática, bem como em torno das formas, mais ou menos institucionalizadas, sob as quais essa instrumentalização se instalou no seio de uma cultura dada - no caso, a da sociedade grega entre o final do período clássico e os primeiros séculos do Império Romano.
O percurso aqui proposto será por vezes digressivo, já que, conforme a associação inevitável entre história da filosofia antiga e filologia - tanto mais inevitável no caso de um corpus literário (em sentido lato) disperso, heteróclito e fragmentado como é o corpus cínico -, a interpretação da ideia contida no material disponível não poderá ignorar o processo complexo e acidentado da sua constituição. A abordagem e a análise da literatura de interesse serão, no que se segue, atravessadas por alguma reflexão de caráter hipotético a respeito da transmissão de certos textos e de sua autenticidade presumida, tal como sedimentada nas fontes antigas. Nesse sentido, tomando como ponto de partida um estudo preliminar e progressivo - progressivo porque avança do mais geral para o mais específico - da terminologia que designa o ‘sonho’ em grego antigo em diferentes contextos, o que se busca ao fim é menos o estudo de uma ‘teoria’ original sobre o sonho enquanto fenômeno biológico ‘interior’ ao homem (fenômeno que a rigor não parece ter interessado aos cínicos) e mais a compreensão daquilo que poderíamos chamar de onirocrítica cínica, que surge como reação corretiva ao uso tradicional dos sonhos como instrumento de justificação moral.
A terminologia do ‘sonho’
Há basicamente três termos atestados em grego antigo que exprimem a noção de ‘sonho’: ἐνύπνιον, ὄναρ e ὄνɛιρος2. O primeiro deles, uma hipóstase de ἐν ὕπνῳ, ‘no sono’, designa de um modo geral ‘aquilo que aparece em sonho’, sem especificar a natureza própria ou a ‘substância’ dessa aparição, oscilando recorrentemente entre uma conotação adverbial extensiva (durante o sonho ou, se quisermos aceitar o barbarismo, ‘sonhadamente’) e um simples substantivo da categoria dos inanimados. Os outros dois derivam muito provavelmente de uma mesma raiz indo-europeia não identificada: paralelamente ao neutro defectivo ὄναρ, usado apenas no nominativo e no acusativo singulares e frequentemente também em função adverbial, formou-se o animado masculino ὄνɛιρος, com declinação completa (e heteróclita) em jônico-ático, e, partindo deste, um novo neutro, ὄνɛιρον, em relação de sinonímia com o também neutro ἐνύπνιον. Do ponto de vista semântico, e ainda de uma perspectiva muito geral, já que o exame detido dos textos demonstra uma flutuação de usos que escapa a uma tipificação mais restritiva, ὄναρ é o sonho enviado pelos deuses, normalmente funesto, de mau agouro ou simplesmente enganador; de modo mais preciso - é o caso, por exemplo, de ocorrências em Homero e Platão -, em oposição a ὕπαρ, termo indeclinável que exprime a ‘realidade’3, ὄναρ é um sonho enganador porque vão e sem concretude. O último desses três termos, ὄνɛιρος, marca enfim a evolução etimológica de um vocábulo inanimado para outro animado, exprimindo na origem uma personificação - Oneiros é o mensageiro de Zeus, mais do que a mensagem propriamente dita - que permitiria considerar o sonho “com a mesma força de realidade que o espetáculo da própria realidade”4.
É para esse último, particularmente em suas ocorrências nas Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres de Diógenes Laércio, que eu voltarei - mas não de modo exclusivo - minha atenção, já que, como esperado, é essa obra que pretendo tomar como ponto de partida para o estudo do modo pelo qual os cínicos lidaram com o fenômeno do sonho. A escolha se justifica porque o que interessa aqui é o sonho cuja densidade ontológica parece ser suficiente para constituir uma ‘realidade paralela’ cujos vasos comunicantes com a ordem do mundo desperto proporcionariam ao homem uma janela aberta para o seu porvir mais ou menos imediato, esboçando assim um horizonte para sua ação moral. Trata-se, de certa forma, de reconhecer o suposto potencial gnosiológico dos sonhos, o que permitiria instrumentalizá-lo no domínio da ética, a partir da e na experiência. A pertinência de tal critério confirma-se ainda, até certo ponto - já que qualquer aproximação entre textos que envolva uma obra compósita e de datação incerta, como é o caso do tratado laerciano, está sujeita aos riscos do anacronismo e do paralelismo forçado -, nas ὀνɛιροκριτικά de Artemidoro de Daldis, única obra dedicada à interpretação dos sonhos que a Antiguidade nos legou completa5: a distinção fundamental que aí é feita opõe o ἐνύπνιον, sonho sem valor preditivo, ao ὄνɛιρος, sonho preditivo consistindo numa forma de presságio que se abre à interpretação segundo uma determinada técnica6; mas o próprio Artemidoro esclarece que essa distinção é operacional apenas em contexto científico ou especializado (τɛχνικῶς), mas não na língua comum (κοινῶς)7. Seja como for, o termo que, segundo Artemidoro, designa o objeto de que se devem prioritariamente ocupar os especialistas dos sonhos, entre os quais ele próprio se inclui, é ὄνɛιρος (note-se todavia que a palavra para esse especialista ou ‘profissional’, ὀνɛιροκρίτης, aparece já em Teofrasto8); é precisamente com o emprego deste mesmo termo, ὄνɛιρος (ou ὄνɛιρον), e apenas com ele, que, segundo Diógenes Laércio, os filósofos cínicos se exprimiram sobre o fenômeno dos sonhos e, de modo particular, sobre a sua interpretação9.
O vocabulário do ‘sonho’ em Diógenes Laércio e na da tradição peripatética
O levantamento estatístico do vocabulário do sonho - isto é, as palavras que designam o fenômeno do sonho (e não aquelas que são ditas ou ouvidas em sonho) - em Diógenes Laércio (que aliás não menciona jamais Artemidoro de Daldis10) revela um quadro curioso, que vale um rápido excurso. Há, no conjunto dos dez livros que compõem as Vidas, um total de apenas 13 ocorrências dos três termos para ‘sonho’ até aqui referidos, incluindo na conta seus compostos e derivados. Essa baixa frequência de imediato surpreende, sobretudo se comparada com os dados obtidos a partir do corpus filosófico preservado em transmissão direta. Só na obra de Platão, por exemplo, são 66 ocorrências dos mesmos termos, o que paralelamente sugere o interesse de Sócrates (e de seu círculo) pela temática do sonho ou, simplesmente, pelo fenômeno ou experiência do sonho (mas, curiosamente, na obra socrática de Xenofonte, há apenas 2 ocorrências, uma de ὄναρ e outra de ἐνύπνιον, ambas no Banquete [IV 33; IV 48])11. De pronto, duas razões podem ser evocadas para explicar esse aparente descenso: a primeira, uma perda progressiva do interesse filosófico pelos sonhos; a segunda, mais provável, até porque não anula a primeira, podendo ao contrário estar associada a ela, seria um processo de assimilação da leitura dos sonhos a outras práticas divinatórias, tratadas frequentemente (mas não sempre) como crendice popular sem base racional ou mera superstição, alimentada por embusteiros sem escrúpulos que disso tiravam algum proveito, e dos quais o próprio Artemidoro se esforça por se distinguir12.
Nesse contexto, o caso de Aristóteles e da tradição peripatética é particularmente interessante, inclusive porque, após algumas considerações, ele nos leva de volta aos cínicos. Notemos de saída que não há em todo o corpus aristotélico uma única ocorrência de ὄναρ; da família de ὄνɛιρος, são 25, que se dividem basicamente em dois grupos de compostos: de um lado, o substantivo ɛὐθυονɛιρία (ɛὐθυόνɛιρος, na forma adjetiva), significando algo como ‘sonho verídico’; de outro, o verbo ὀνɛιρώττω e o deverbal correspondente ὀνɛιρωγμός, que indica a emissão de fluido corporal durante o sono, isto é, a chamada ‘polução noturna’; quanto a ἐνύπνιον, são 57 ocorrências ao todo. Esse último termo é o único cujo emprego é atribuído aos filósofos do círculo aristotélico por Diógenes Laércio. Na verdade, há apenas 4 ocorrências do étimo ἐνύπνιον em todo o conjunto das Vidas, sendo três delas justamente no livro V, dedicado ao Estagirita e a seus seguidores mais próximos13. Esses dados, em princípio puramente quantitativos, parecem confirmar a perspectiva ‘mais científica’ da abordagem de Aristóteles, que trata os sonhos como um fenômeno natural, do corpo ou da alma, sem portanto excluir de todo o seu valor premonitório. O que surpreende nessa ‘contabilidade’ de ocorrências é a sugestão que ela traz para o campo próprio da filologia e da história dos textos: dessas três ocorrências de ἐνύπνιον no livro V, duas figuram nos títulos que compõem, uma, o catálogo das obras de Teofrasto (Sobre o sono e os sonhos, em um livro [Πɛρὶ ὕπνου καὶ ἐνυπνίων, α´]: D.L. V 45), e a outra, o catálogo das obras de Estráton de Lâmpsaco (Sobre os sonhos [Πɛρὶ ἐνυπνίων], título elencado entre dois outros que são próximos também pelo tema que anunciam: um Sobre o sono [Πɛρὶ ὕπνου] e um Sobre a visão [em sonho?] [Πɛρὶ ὄψɛως]: D. L. V 59).
É notável (e surpreendente) que o termo não apareça em nenhum dos títulos arrolados no catálogo laerciano das obras do próprio Aristóteles; do mesmo modo, também estão ausentes desse catálogo os outros títulos que compõem os Parva Naturalia, o que seria um argumento legítimo, mas obviamente não conclusivo, para se negar a paternidade aristotélica a essa coleção de tratados breves sobre a natureza, entre os quais se incluem as três obras que tratam mais ou menos diretamente do fenômeno do sonho: De somno et vigillia, De insomniis e De divinatione per somnum14. Resta portanto uma única passagem de Diógenes Laércio em que o termo ἐνύπνιον é expressamente empregado por Aristóteles. Trata-se de um brevíssimo apotegma: [T1] “A quem lhe perguntou o que é a esperança, ele [scil. Aristóteles] respondeu: ‘um sonho de quem está acordado’” (ἐρωτηθɛὶς τί ἐστιν ἐλπίς, ‘ἐγρηγορότος’, ɛἶπɛν, ‘ἐνύπνιον’) (D. L. V 18). Essa resposta ecoa, ainda que de longe, os poemas hesiódicos, notadamente os Trabalhos e dias, e o Prometeu acorrentado de Ésquilo15, que no entanto não abordam propriamente os sonhos, mas a esperança vaga infusa nos homens. Na frase atribuída a Aristóteles, a assimilação entre elpís, esperança ou expectação, e sonho (ἐνύπνιον) é feita sob o signo de uma fatuidade negativa e inoperante que torna sem efeito, mesmo para um homem desperto, qualquer possibilidade de certeza sobre o resultado concreto de suas ações, embora possa ser a causa de muitos males íntimos bem reais16. Ocorre que a mensagem dessa frase parece se opor ao que podemos extrair das obras mesmas de Aristóteles - da Retórica e da Ética a Nicômaco, por exemplo -, em que a ideia de esperança é usualmente associada a uma visão otimista do futuro, segundo a qual a possibilidade constante do revés no curso de uma vida não anula - ao contrário, confirma - a realidade de uma eudaimonia potencial: em Aristóteles, o que prevalece é o espírito do dum spiro spero, ou seja, do ‘enquanto há vida, há esperança’17.
Como então explicar a atribuição desse apotegma a Aristóteles, em aparente contradição com a sua obra? A resposta a essa pergunta passa necessariamente pela complexidade da constituição da literatura gnomológica grega, cujos gêneros de base são o apotegma e a chreia, e de que as Vidas de Diógenes Laércio são apenas uma das manifestações. O fato é que muitas das sentenças ou máximas que esse biógrafo-historiador atribui a Aristóteles são atribuídas por outras fontes, de forma idêntica ou aproximada, a outros personagens (filósofos, oradores, poetas, políticos, generais)18. Com o apotegma em questão não é diferente: atribuído a Aristóteles apenas por Diógenes Laércio e por Arsênio, que claramente depende de Diógenes Laércio, ele é atribuído a Píndaro por Estobeu (IV 47, 12), a Anacreonte pelo Gnomologium Vaticanum (cod. Vat. Gr. 743, no 375), e a Platão por Eliano (Varia Historia XIII 29), além de outras atribuições diferentes19. Dentre todas, cumpre destacar que uma outra passagem do Gnomologium Vaticanum atribui um dito semelhante ao cínico Antístenes20: [T2a] “O mesmo Antístenes afirmou que as pessoas sem educação são sonhos despertos” (ὁ αὐτὸς [scil. Antisthenes] ɛἶπɛ τοὺς ἀπαιδɛύτους ἐνύπνια ἐγρηγορότα) (Gnomologium Vaticanum 743, no 3 [= SSR V A 164])21. Não nos escapará o detalhe de que aqui não se trata (apesar da correção proposta por Sternbach22) de pessoas que estão despertas; são os próprios sonhos que surgem não como intercorrência corriqueira do sono, mas como um fenômeno do estado de vigília. Por outro lado, cabe lembrar que a paideia ideal dos cínicos, a partir da qual eles podiam julgar quem fosse um ἀπαίδɛυτος, não pode ser assimilada à formação sistemática da ἐγκύκλιος παιδɛία ou das ἐγκύκλια μαθήματα, isto é, as disciplinas curriculares da formação tradicional23. No caso dos cínicos, a educação para a virtude depende de uma ascese rigorosa que todavia não se restringe a ‘exercícios espirituais’ (de que fala, por exemplo, Pierre Hadot), mas que prevê, combinado em igual medida com o exercício da alma, um treinamento corporal exigente, comparável, até certo ponto, com aquele a que se dedicam músicos e atletas24. Assim, essas duas definições, a dos ‘ignorantes’ (ou ‘sem educação’) por Antístenes e a da ‘esperança’ por Aristóteles, permitem entrever, ao menos numa primeira leitura, uma percepção negativa do sonho, o qual, uma vez transposta a fronteira entre o sono e a vigília, não apenas priva o homem de uma percepção substantiva do real, como tira desse homem o poder de agir de modo consistente e efetivo sobre o mundo que o rodeia. O sonho seria então uma versão rebaixada da realidade, diante da qual toda ação deliberada é ou inadequada ou ineficaz25.
Um novo fragmento de Diógenes de Sínope?
Da perspectiva da história da filosofia, a proximidade entre Aristóteles e Antístenes resta problemática, sobretudo se levarmos em conta a sequência do texto. A anedota que se segue à definição da esperança como um mero sonho (no livro V [T1]) diz respeito a um ‘jogo lógico’, colocando frente a frente, num breve diálogo, o mesmo Aristóteles e Diógenes de Sínope, incontestavelmente o principal representante da ‘escola’ cínica e discípulo direto de Antístenes, segundo uma sucessão escolar bem atestada pelas fontes antigas (e só contestada de modo assertivo na modernidade26). Na sequência em questão, o nome de Diógenes é várias vezes mencionado. Outras anedotas (ou apotegmas) que integram essa mesma seção da obra trazem também a marca do estilo cínico, e se aqui são textualmente atribuídas a Aristóteles, em outras fontes uma mensagem de teor idêntico o é, mais uma vez, a Diógenes27. Nesse contexto, e levando-se em conta o complicado processo de composição das Vidas, com suas múltiplas inconsistências estruturais que deixam a impressão de uma obra inacabada, que não se beneficiou de nenhuma revisão mais cuidadosa ou mesmo de uma redação final apropriada, a hipótese de que no livro V um dito de Diógenes, revelando incidentalmente a percepção dos sonhos comum aos cínicos, tenha sido equivocadamente atribuído a Aristóteles - um erro que remontaria ao próprio Diógenes Laércio ou a uma de suas fontes - não pode ser descartada. Tal hipótese demandaria contudo um longo trabalho de verificação. Seja como for, a partir do que se pode inferir do tratado laerciano, e para o que se propõe aqui, parece razoável concluir que a reação dos cínicos diante do suposto valor dos sonhos pode ser resumida numa única palavra: desprezo. Trata-se de um desprezo voltado para o sonho (ἐνύπνιον) enquanto efeito, produto ou acidente involuntário (ou inconsciente) de uma necessidade biológica, isto é, o ato de dormir, que, como a alimentação, o homem compartilha com outros animais (mas não há qualquer vestígio na literatura antiga de que os cínicos tenham se interessado pelo sono ou pelo sonho fora da esfera humana). No entanto, esse desprezo assume outra feição, aparentemente mais grave, quando o que está em jogo é dado pelo termo ὄνɛιρος, isto é, o sonho como forma de predição e como instrumento útil na preparação de ações futuras.
O sonho no livro VI de Diógenes Laércio
A análise das Vidas de Diógenes Laércio surpreende mais uma vez: das únicas quatro ocorrências do termo ὄνɛιρος ao longo dos dez livros que as compõem, três estão no livro VI, o livro dedicado ao cinismo28. Fica de saída a impressão de que os cínicos, mais do que os filósofos de outras confissões, se interessaram pelo sonho como fator premonitório, segundo a terminologia de Artemidoro (que os próprios fragmentos cínicos não mencionam), um interesse que tem um claro viés crítico, como se verá. Das três passagens concernidas, duas se encontram na vida de Diógenes e uma na vida de Métrocles, discípulo de Crates de Tebas e irmão de Hipárquia, que foi também discípula, além de esposa, do mesmo Crates. São estas as passagens, na ordem do texto:
[T3] D. L. VI 24 (ed. Dorandi):
ἔλɛγɛ δὲ καὶ ὡς ὅταν μὲν ἴδῃ κυβɛρνήτας ἐν τῷ βίῳ καὶ ἰατροὺς καὶ φιλοσόφους, συνɛτώτατον τῶν ζῴων νομίζɛιν τὸν ἄνθρωπον· ὅταν δὲ πάλιν ὀνɛιροκρίτας καὶ μάντɛις καὶ τοὺς προσέχοντας τούτοις ἢ τοὺς ἐπὶ δόξῃ καὶ πλούτῳ πɛφυσημένους, οὐδὲν ματαιότɛρον νομίζɛιν ἀνθρώπου. συνɛχές τɛ ἔλɛγɛν ɛἰς τὸν βίον παρɛσκɛυάσθαι δɛῖν λόγον ἢ βρόχον.
Ele [scil. Diógenes] dizia que, quando via na vida pilotos, médicos e filósofos, considerava o homem o mais inteligente dos seres vivos; mas, ao contrário, quando via intérpretes de sonhos, adivinhos e aqueles que lhes dão ouvidos, ou os enfatuados por causa de fama e riqueza, ele considerava que nada havia de mais vão do que o ser humano. E dizia constantemente que para estar equipado para a vida é preciso razão, ou uma corda.
[T4] D. L. VI 43 (ed. Dorandi):
πρὸς δὲ τοὺς πɛρὶ τὰ ὀνɛίρατα ἐπτοημένους ἔλɛγɛν ὡς ὑπὲρ ὧν μὲν πράττουσιν ὕπαρ, οὐκ ἐπιστρέφονται, ὑπὲρ ὧν δὲ καθɛύδοντɛς φαντασιοῦνται, πολυπραγμονοῦσιν.
Contra os que se deixam abalar por causa dos sonhos, ele [scil. Diógenes] dizia que essas pessoas não prestam atenção no que fazem acordadas, mas ficam muito preocupadas com o que fantasiam dormindo29.
[T5] D. L. VI 95 (ed. Dorandi):
Οὗτος τὰ ἑαυτοῦ συγγράμματα κατακάων, ὥς φησιν Ἑκάτων ἐν πρώτῳ Χρɛιῶν, ἐπέλɛγɛ·τάδ’ ἔστ’ ὀνɛίρων νɛρτέρων φαντάσματα, οἷον λῆρος·
Como afirma Hécaton no livro I de suas Chreiai, ele [scil. Métrocles] teria dito enquanto queimava os seus próprios escritos:
Aqui estão fantasmas de sonhos subterrâneos, isto é, futilidades.
O conjunto dessas passagens parece confirmar a visão negativa do sonho que vimos há pouco, mas que aqui, indo além de um vago desprezo, adquire contornos mais nítidos, uma vez que se manifesta através da suspeita reservada àqueles que tomam um simples - e supostamente desimportante - fenômeno natural como um instrumento que permite orientar a ação do homem. Carentes de materialidade, os sonhos são incapazes de fundar um saber útil para a vida (ἐν τῷ βίῳ [T3]), e quem se dedica a interpretá-los como um serviço ao próximo age longe de filósofos, médicos e pilotos, não fazendo mais do que promover o engano junto daqueles que creem no falso poder dos sortilégios. É aliás sintomático que os intérpretes de sonhos e os adivinhos, irmanados no mesmo tipo de charlatanismo, sirvam ao propósito de denunciar o enfatuamento (cf. o particípio πɛφυσημένους) a que conduzem a fama e a riqueza, isto é, duas das mais perversas manifestações do typhos que os cínicos tanto se empenharam em combater - a atyphia é um dos principais ideais cínicos30 - e que impede de distinguir o que é realmente útil do que não é, levando o homem a se consumir na busca de ideais vazios de sentido, dos quais ele ainda se orgulha, tornando-se da perspectiva do cinismo o mais vão de todos os seres (cf. o comparativo ματαιότɛρον; trata-se da vaidade em sentido etimológico, como ‘vanidade’). Dito de outro modo, fama, riqueza e a pretensa mensagem contida nos sonhos que os ‘especialistas’ propõem decifrar parecem fazer parte do mesmo conglomerado de ilusões que seduz o homem com a falsa promessa de uma felicidade presente e futura. Além disso, o esforço despendido na interpretação dos sonhos prova a incoerência dos homens que preterem a ação que toca o mundo sensível em nome de uma divagação imprecisa em torno de fantasmagorias obscuras (φαντάσματα [T5]) que, sem qualquer realidade factual, despertam um medo infundado: a oposição entre os verbos πράττω, ‘agir’ (agir praticamente, poderíamos dizer), e φαντασιόω, ‘compor ou formar imagens’, ‘imaginar’, no segundo trecho [T4], é nesse sentido reveladora. Aos olhos dos cínicos, a atenção excessiva aos sonhos supõe e desvela uma espécie de degredo da razão que é o único instrumento capaz de aparelhar o homem para a vida - não qualquer vida, mas a vida boa que só a filosofia lastreada pela razão pode proporcionar, não a onirocrítica: [T6] “A quem lhe disse: ‘não tenho jeito pra filosofia’, ele [sicil. Diógenes] respondeu: ‘por que então vives, se não cuidas de viver bem?’” (πρὸς τὸν ɛἰπόντα, ‘ἀνɛπιτήδɛιός ɛἰμι πρὸς φιλοσοφίαν’, ‘τί οὖν’, ἔφη, ‘ζῇς, ɛἰ τοῦ καλῶς ζῆν μὴ μέλɛι σοι;’) (D. L. VI 95). Compreende-se portanto melhor [T3] a sugestão do βρόχος, a corda ou o laço, como a única saída que resta àqueles que dispensam o uso da razão (λόγος)31.
A interpretação dos sonhos como superstição
A crítica da interpretação dos sonhos que encontramos no cinismo integra na verdade um projeto mais vasto, uma verdadeira ‘cruzada’, contra todas as formas de superstição, tanto as da cultura ‘popular’ quanto aquelas que se manifestam nos cultos da religião oficial, que se definem basicamente como uma crença inconsistente no sobrenatural, num mundo que poderíamos dizer ‘parafísico’, redundando - e isto é o mais importante - em atitudes contraditórias e incoerentes: [T7] “Certa vez, quando se iniciava nos Mistérios Órficos e ouvindo o sacerdote dizer que os iniciados participariam de muitos bens no Hades, ele [scil. Antístenes] disse: ‘então, por que não morres?’” (Μυούμɛνός ποτɛ τὰ Ὀρφικά, τοῦ ἱɛρέως ɛἰπόντος ὅτι οἱ ταῦτα μυούμɛνοι πολλῶν ἐν ᾅδου ἀγαθῶν μɛτίσχουσι, ‘τί οὖν’, ἔφη, ‘οὐκ ἀποθνήσκɛις;’) (D. L. VI 4)32. No mesmo espírito, [T8] “Diógenes ficava fora de si quando via as pessoas fazerem sacrifícios aos deuses no interesse de uma boa saúde, mas durante o sacrifício comerem a ponto de prejudicar a própria saúde” (ἐκίνɛι δ’ αὐτὸν καὶ τὸ θύɛιν μὲν τοῖς θɛοῖς ὑπὲρ ὑγιɛίας, ἐν αὐτῇ δὲ τῇ θυσίᾳ κατὰ τῆς ὑγιɛίας δɛιπνɛῖν) (D. L. VI 28). Α diatribe Γοητῶν φωρά, título que poderíamos traduzir por Os charlatães desmascarados (ou, ao pé da letra: O desmascaramento dos charlatães), do cínico Enômao de Gádara (sec. II d. C.), de que longos fragmentos foram preservados na Preparação evangélica de Eusébio da Cesareia, vai no mesmo sentido: ao polemizar contra o determinismo estoico, Enômao ataca também a prática oracular tradicional - de que não escapa nem mesmo o instituto venerável de Delfos -, lembrando ainda a má-fé difusa daqueles que abusam da crença dos gregos, vinda dos tempos mais remotos, em todo tipo de profecia33. Na lógica da argumentação cínica, oráculos e sonhos, enquanto estratégias aparentadas de premonição, são duas das formas que revestem a ‘esperança’ prometeica dos homens, seres que por natureza permanecem, enquanto vivem, presos entre duas expectativas (ou expectações; ou esperas) opostas: de um lado, o medo do sofrimento - ou do desconhecido da morte que, como lembra Sócrates na Apologia de Platão, ninguém dentre os vivos sabe ao certo se é um bem ou um mal - e, de outro, o desejo do prazer cujo objeto em muitos casos acredita-se estar inscrito não apenas na cultura, mas desde sempre na própria natureza dos homens34. Da perspectiva do cinismo - e aqui se percebem as raízes antigas do cinismo moderno - o principal inimigo do homem é a esperança, que, como vimos acima [T1], não é mais do que um sonho (ou às vezes um pesadelo) que se sonha acordado35. É precisamente o que explica uma das cartas da epistolografia cínica pseudoepígrafe:
[T9] Pseudo-Cratès, Carta XXXV, a Áper (ed. Müseler) Κράτης Ἄπɛρι ɛὖ πράττɛιν.
Τὸ μὲν σύντομον καὶ ἁρμοστὸν πρὸς πᾶσαν πɛρίστασιν, ὦ τιμιώτατɛ Ἄπɛρ, ὁ τῶν ἀρχαίων χρησμὸς μὴ ἔφησɛ τὰ ἀναγκαῖα μὴ φɛύγɛιν· τὸν γὰρ φɛύγοντα τὰ ἄφυκτα ἀνάγκη δυστυχɛῖν, καὶ τὸν ὀρɛγόμɛνον τῶν ἀδυνάτων ἀνάγκη αὐτῶν ἀτυχɛῖν. ἴσως μὲν οὖν δόξω σοι ἀκαιρότɛρος ɛἶναι καὶ σχολαστικώτɛρος καὶ τοῦτο μὲν οὐκ ἀπολογοῦμαι· ὅμως δέ, ɛἰ δοκɛῖ, ἐμοῦ μὲν καταγίνωσκɛ, πρόσɛχɛ δὲ τοῖς ἀρχαίοις. ἐγὼ γὰρ ἀπ’ ἐμαυτοῦ τɛκμαίρομαι, ὅτι τότɛ θλιβόμɛθα ἄνθρωποι, ὅταν ἀπɛρίστατον βίον ζῆν ἐθέλωμɛν. |2| τοῦτο δέ ἐστι τῶν ἀμηχάνων· ἀνάγκη μὲν γὰρ ζῆν μɛτὰ σώματος, ἀνάγκη δὲ καὶ μɛτ’ ἀνθρώπων, αἱ δὲ πλɛῖται πɛριστάσɛις <γίνονται> ἔκ τɛ τῆς ἀνοίας τῶν συμβιούντων <καὶ> πάλιν ἐκ τοῦ σώματος. ἐὰν μὲν οὖν ἐπιστήμων τις ἐν τούτοις ἀναστρέφηται, οὗτός ἐστιν ἄλυπος καὶ ἀτάραχος, ὁ μακάριος ἀνήρ· ἐὰν δὲ καὶ ταῦτα ἀγνοῇ, οὐ μήποτɛ παύσηται αἰωρούμɛνος κɛναῖς ἐλπίσι καὶ ἐπιθυμίαις συνɛχόμɛνος. σὺ οὖν, ɛἰ μὲν ἀρέσκῃ τῷ τῶν πολλῶν βίῳ, ἐκɛίνοις συμβούλοις χρῶ, καὶ γάρ ɛἰσι τɛτριμμένοι μᾶλλον ἐν τούτοις· ɛἰ δέ σɛ ὁ Σωκράτους καὶ ∆ιογένους ἀρέσκɛι βίος, τὰ τῶν τραγῳδῶν ἄλλοις παρɛὶς σαυτὸν ἐπάνηκɛ ἐπὶ τὸν ἐκɛίνων ζῆλον.
Crates a Áper, porta-te bem.
A máxima breve e adaptada a qualquer circunstância, honorável Áper, o oráculo dos antigos talvez não tenha dito: não fugir da necessidade. De fato, aquele que tenta evitar o inevitável é necessariamente infeliz, e aquele que deseja o impossível, inevitavelmente não o poderá obter. Talvez eu vá te parecer muito inoportuno e muito professoral, mas eu não me desculparei por isso. Então, se queres, deixa o que digo de lado e vá dar ouvido aos antigos. Pois eu, quanto a mim, é apoiado em minha própria experiência que eu estimo que nós, os homens, vivemos na aflição quando queremos viver um vida que não se submete às circunstâncias. |2| Eis uma coisa impossível! Pois é inevitável viver com um corpo, é inevitável viver entre homens, e a maior parte das circunstâncias [difíceis que devemos enfrentar] nascem da ignorância daqueles que nos cercam, e ainda do corpo. Então, se alguém leva a própria vida ciente dessas coisas, é pessoa sem tristeza e sem perturbação: eis o homem bem-aventurado! Mas se as ignora, nunca cessará de se inquietar, nutrindo esperanças e desejos vãos. Tu então, se a vida da multidão te agrada, fia-te naqueles conselheiros, pois eles são bem rodados nessas coisas! Mas se é o modo de vida de Sócrates e de Diógenes que te agrada, então deixa a outros essas histórias que pertencem ao mundo das tragédias, e faz-te a ti mesmo um êmulo desses homens36!
A resposta cínica à ‘maldição da esperança’ - ou, se quisermos, ao ‘engano dos sonhos’ - é inequívoca: o filósofo deve assumir, por meio do esforço da dupla ascese (dupla porque engaja ao mesmo tempo e em igual medida o corpo e a alma37), uma disponibilidade total para as circunstâncias presentes, amparada naquilo que poderíamos denominar de ‘ética do mínimo’, que consiste, de modo muito resumido, na identificação consciente e arrazoada dos desejos ao necessário e do necessário ao mínimo, cuja satisfação ideal se daria ainda de forma autônoma e independente, isto é, autárcica. Assim, excluídos os artifícios que em tese facultam o controle do futuro - um futuro que, como dizia Diógenes, citando Homero, sempre “repousa sobre o joelho dos deuses”38 -, resta ao homem o método que o cinismo oferece: [T11] “Interrogado sobre qual proveito lhe adviera da filosofia, ele [scil. Diógenes] respondeu: ‘se mais não for, ao menos o fato de estar pronto para tudo o que der e vier’” (ἐρωτηθɛὶς τί αὐτῷ πɛριγέγονɛν ἐκ φιλοσοφίας, ἔφη, ‘καὶ ɛἰ μηδὲν ἄλλο, τὸ γοῦν πρὸς πᾶσαν τύχην παρɛσκɛυάσθαι.’) (D. L. VI 63). As duas noções, τύχη, acaso ou fortuna, na resposta de Diógenes, e πɛρίστασις, literalmente aquilo que está posto ao redor, donde situação ou circunstância, no começo da carta do Pseudo-Crates, informam conjuntamente o pragmatismo cínico: em primeiro lugar, a atitude do cínico não se confunde com uma simples resignação ou com o conformismo abnegado dos cristãos que enfrentam a adversidade do momento à espera (de novo ela, a esperança...) de dias melhores numa outra existência, e por toda a eternidade; o que o cinismo ensina é antes uma adaptação ativa às circunstâncias presentes; em segundo lugar, essa adaptação ativa implica não apenas um trabalho do filósofo sobre si mesmo, mas também um olhar desenganado sobre o mundo, o que de resto seria uma espécie de lugar comum à maioria das filosofias helenísticas. Mas a originalidade do cinismo reside num outro ponto principal: ao contrário da simples denegação de um mundo inadequado, os cínicos assumem a disposição, e os riscos dela decorrentes, de transformar, em benefício próprio e a favor de sua pedagogia, os elementos constitutivos de seu próprio hic et nunc; o cinismo conclama enfim, para dizer em sua língua mesma, a falsificar a moeda (παραχαράττɛιν τὸ νόμισμα), uma expressão que, extraída da biografia de Diógenes, converteu-se no lema maior do movimento39. Todavia, é preciso ter em mente que a ideia contida no verbo grego παραχαράττɛιν não corresponde exatamente ao nosso ‘falsificar’, que se mantém na tradução apenas como uma forma de se preservar o caráter paradoxal (e, num certo sentido, transgressivo) da doutrina cínica; de modo mais preciso, no contexto da numismática antiga, ele significaria ‘imprimir uma marca ou um novo caractere sobre o caractere já existente de uma moeda em circulação’, frequentemente com o objetivo de sinalizar nela alguma irregularidade (relativa ao seu lastro político ou à proporção ponderal dos metais utilizados, por exemplo)40. Num certo sentido, o cinismo faz da falsificação um vetor de verdade41, e antecipa, em muitos séculos e de um modo particular, a célebre e polêmica - e já gasta - máxima atribuída a William James, segundo a qual “a verdade é o que funciona (the truth is what works)”. Mas no caso dos cínicos - ao menos no dos antigos -, a prática continuada da ascese coloca o método pragmatista ao abrigo do relativismo e do oportunismo vulgares42.
O sonho dos cínicos: uma realidade ambígua?
Toda essa digressão parece se afastar do tema que nos ocupa aqui, mas é justamente ela que vai permitir explicar a aparente ambiguidade de Diógenes e dos seus seguidores frente aos fatos da religião tradicional e, de um modo geral, frente ao vasto repertório de crenças dos gregos, no qual naturalmente se inclui o valor preditivo dos sonhos. Essa aparente ambiguidade abre inclusive uma polêmica no interior da própria tradição cínica, como provam os discursos de temática cínica do Imperador Juliano, notadamente o seu Discurso VII, Contra o cínico Heráclio, no qual ele acusa a impiedade de alguns ‘maus’ cínicos, que ao desprezarem os oráculos e outros ritos se desviam do que, segundo o próprio Imperador, seria o verdadeiro exemplo de Diógenes, caucionado pelo real fundador da escola, o herói Héracles, ainda segundo Juliano. O fato é que, tendendo mais para a subversão do que para uma forma qualquer de revolução, a crítica dos cínicos opera, por assim dizer, a partir do ‘interior do sistema’: ao invés de se oporem abertamente aos elementos da cultura que lhes parecem suspeitos, os cínicos aderem ironicamente a esses elementos para melhor denunciar a sua inconsistência intrínseca e, principalmente, para expor a estupidez dos homens que dão a eles o seu assentimento ao preço da renúncia da razão: [T12] “Certa feita, ele [scil. Diógenes] ouviu de um homem fortemente supersticioso: ‘com um único golpe eu te quebrarei a cara!’. Ele então devolveu: ‘e eu te farei tremer espirrando do teu lado esquerdo!’” (λέγοντος δὲ αὐτῷ τινος ἰσχυρῶς δɛισιδαίμονος, ‘μιᾷ πληγῇ τὴν κɛφαλήν σου διαρρήξω’, ‘ἐγὼ δέ γɛ’, ɛἶπɛ, ‘πταρὼν ἐξ ἀριστɛρῶν τρέμɛιν σɛ ποιήσω’) (D. L. VI 48)43. Sobre a relação dos cínicos, em particular Diógenes, com a religião, M.-O. Goulet-Cazé conclui:
Quanto a Diógenes, seria um erro atribuir-lhe o peso do ateísmo que é com certeza uma invenção de seus inimigos. Que os deuses existam ou que eles não existam, não é seu problema e, no limite, a questão não lhe interessa. Em tal terreno, ele professa um agnosticismo bem calibrado. Por outro lado, o que de fato lhe interessa, e muito, é ser feliz [...]44.
Portanto, se Diógenes fala dos deuses, é antes com a intenção de falar a língua de todo mundo e, nesse sentido, sua ‘teologia’ tem no fundo um valor retórico, servindo não apenas à sua própria felicidade, mas ainda ao exercício de sua ‘missão’ como ‘sentinela’ (κατάσκοπος ou ἐπίσκοπος)45 da vida de seus concidadãos, como “libertador dos homens e médico das paixões; em suma, um profeta da franqueza e da verdade” (ἐλɛυθɛρωτής τῶν ἀνθρώπων καὶ ἰατρὸς τῶν παθῶν· τὸ δὲ ὅλον ἀληθɛίας καὶ παρρησίας προφήτης)46.
A atitude ‘mitigada’ de Diógenes frente à religião e a outras crenças tradicionais convida a perceber por outro ângulo a sua compreensão (e a dos cínicos em geral) do fenômeno do sonho e de seus eventuais usos. De fato, uma leitura mais atenta e mais ‘caritativa’ das três passagens de Diógenes Laércio citadas anteriormente, em que o termo ὄνɛιρος é usado no contexto do cinismo, permite nuançar uma visão, em primeira análise, negativa dos sonhos. Vejamos então rapidamente: (a) em D. L. VI 24 [T3], o alvo de Diógenes não são propriamente os sonhos, ou o seu suposto uso premonitório; o ataque se dirige explicitamente aos onirocríticos, isto é, àqueles que se arvoram a interpretar o sonho dos outros, e a esses outros que lhes dão ouvidos. Tal como contra a fama e o dinheiro, que de certa forma ‘terceirizam’ a felicidade do homem, Diógenes se volta contra a figura que se interpõe entre o sonhador e seu sonho, mas que, diferente dos pilotos, médicos e filósofos, especialistas que atuam diretamente sobre a vida concreta (ἐν τῷ βίῳ), lida com o que não é palpável e que tende a se esvair na vigília ou permanecer como uma memória vaga e confusa. E no entanto nenhuma palavra de desabono é dita contra os sonhos mesmos nem contra o esforço autônomo de se extrair deles algum sentido, o que de resto seria um contrassenso, uma vez que os sonhos, goste-se deles ou não, permanecem como um fenômeno episódico e involuntário decorrente de uma necessidade natural do homem47. Depois, (b) em D. L. VI 43 [T4], vê-se, mais uma vez, que Diógenes não condena a atenção dada aos sonhos por ela mesma; o que claramente o incomoda é o descompasso entre a excessiva preocupação com os sonhos (cf. o verbo πολυπραγμονοῦσιν), motivada frequentemente pelo medo, e a negligência com relação às ações durante o tempo acordado; o alvo de Diógenes é, como em outras ocasiões, a falta de coerência das pessoas em seu comportamento quotidiano48. Enfim, (c), em D. L. VI 95 [T5], a frase do cínico Métrocles em questão é na verdade uma citação de um verso de uma tragédia não identificada (Adesp. 285 Kannicht-Snell [TrGF 2, p. 90]), o que nos obriga a relativizar o seu conteúdo. Há que se considerar ainda que antes de sua conversão ao cinismo, pelas mãos - melhor: pelas flatulências - de Crates49, Métrocles foi discípulo de Teofrasto, e a sequência da passagem citada informa que ele teria lançado ao fogo também as notas que tomara durante os cursos de Teofrasto, citando dessa vez um verso da Ilíada. Além disso, a expressão οἷον λῆρος, significando ‘isto é, futilidades’, que explica a citação do verso da tragédia, ainda que constando nos principais manuscritos laercianos, poderia ser uma glosa introduzida inadvertidamente por algum copista numa fase recuada da transmissão do texto50. Seja como for, não se trata aqui de quaisquer sonhos, ou do sonho enquanto fenômeno geral, mas de sonhos subterrâneos (ὀνɛίρων νɛρτέρων), isto é, sonhos infernais, provenientes da região dos mortos ou inspirados por eles, o que justificaria a sua comparação com uma obra de filosofia julgada imprestável para o mundo dos vivos, o único ao qual, da perspectiva cínica, o filósofo deve servir.
Sonho e representação
Nesse esforço de compreender com mais acuidade a posição dos cínicos a respeito do uso dos sonhos, para além da primeira impressão de recusa e desprezo, dois outros detalhes de vocabulário chamam a atenção nessas três ocorrências do termo ὄνɛιρος no livro VI: em D. L. VI 43 [T4], o verbo φαντασιόω (no texto, na forma média φαντασιοῦνται) exprime a ação daqueles que dormem e sonham, isto é, a ação de se figurar, de compor ou representar para si uma imagem ou uma ideia, ou ver pela imaginação, se imaginar, imaginar para si; e em D. L. VI 95 [T5], no verso de tragédia citado por Métrocles, encontramos o substantivo φάντασμα, um deverbal ligado ao mesmo radical φαντ-, do qual também evolui φαντασιόω, e que indica o produto dessa ação verbal, ou seja, a imagem, a figura, ou a representação resultante dessa forma de imaginação; trata-se, no sentido próprio de sua etimologia, de um ‘fantasma’. Ocorre que o substantivo φαντασία, nome de ação ou de processo, que integra esse mesmo grupo de palavras, todas ligadas a uma raiz indo-europeia comum apresentando uma ambivalência semântica - ‘clarear’ ou ‘brilhar’ e ‘explicar’ ou ‘falar’ (o que parece legitimar a psicanálise com um argumento extraído da linguística histórica) - que se confirma não apenas no grego mas também em algumas línguas modernas51, converteu-se num conceito ‘técnico’ do cinismo, provavelmente sob a influência de certos círculos estoicos, que ‘teorizaram’ a prática cínica em conformidade com o próprio vocabulário estoico; a ideia contida aí seria passavelmente traduzida pelo nosso ‘representação’. Duas passagens do corpus cínico colocam em evidência a importância desse conceito; eu me limitarei aqui a apenas uma delas52, a saber, um trecho das Diatribes de Epiteto, que expressa numa primeira pessoa literária o pensamento de Diógenes, conforme a transcrição de Arriano:
[T15] Epiteto III 24, 67-69 (SSR V B 290):
[...] ἔλɛγɛν ὅτι “ἐξ οὗ μ’ Ἀντισθένης ἠλɛυθέρωσɛν, οὐκέτι ἐδούλɛυσα”. πῶς ἠλɛυθέρωσɛν; ἄκουɛ, τί λέγɛι· “ἐδίδαξέν μɛ τὰ ἐμὰ καὶ τὰ οὐκ ἐμά. κτῆσις οὐκ ἐμή· συγγɛνɛῖς, οἰκɛῖοι, φίλοι, φήμη, συνήθɛις τόποι, διατριβή, πάντα ταῦτα ὅτι ἀλλότρια. ‘σὸν οὖν τί;’ χρῆσις φαντασιῶν. ταύτην ἔδɛιξέν μοι ὅτι ἀκώλυτον ἔχω, ἀνανάγκαστον· οὐδɛὶς ἐμποδίσαι δύναται, οὐδɛὶς βιάσασθαι ἄλλως χρήσασθαι ἢ ὡς θέλω”.
[Diógenes] dizia: “desde que Antístenes me libertou, eu nunca mais fui escravo”. Como ele o libertou? Ouve o que ele mesmo [scil. Diógenes] diz: “Antístenes me mostrou o que é meu e o que não é. Posses que não são minhas: parentes, patrimônio, amigos, reputação, lugares onde moro, ocupação, todas essas coisas posto que me são estrangeiras. ‘Então [alguém poderia perguntar], o que é teu?’ O uso das representações. Foi isto que ele me ensinou, que eu guardo inviolável e livre de constrangimento, e que ninguém pode entravar ou me forçar a usar de um modo outro do que eu quero”.
A teoria das representações tal como formulada pelos filósofos antigos é sabidamente controversa, mesmo no âmbito exclusivo da tradição estoica, e não é o caso de retomá-la aqui em detalhe53. Uma interpretação muito difundida dessa passagem percebe em Epiteto uma simplificação excessiva do tema, que sacrifica o rigor histórico e conceitual ao aplicá-lo retrospectivamente ao cinismo54. Mas o raciocínio inverso, que aliás orienta a evolução desse ramo do socratismo segundo a historiografia filosófica antiga, parece-me igualmente defensável: Epiteto, subscrevendo a quase consensual (ao menos na Antiguidade) sucessão apostólica Antístenes-Diógenes, reconhece no élan próprio do voluntarismo ascético dos cínicos, esteio de um ideal particular de autarcia e liberdade, aquilo mesmo que mais tarde será conceptualizado pelos estoicos e que, extrapolando o terreno exclusivo da moral prática, mas sem abandoná-lo inteiramente, integrará um sistema lógico complexo, fornecendo a ele uma das bases para o seu critério de verdade. A representação (φαντασία) seria então grosso modo o processo pelo qual a alma recebe a impressão de uma realidade externa ao indivíduo mediada pelos sentidos, ou de uma ‘realidade’ interna, no caso de produtos da imaginação propriamente dita. O uso das representações (χρῆσις φαντασιῶν) seria nesse sentido a faculdade e o exercício de uma liberdade fundamental. Esse recurso simples e eficaz - mas não exatamente fácil, já que supõe uma ascese rigorosa e persistente - permite ao cínico a sua imediata e (re)ativa adaptação às circunstâncias, em consequência da qual, por exemplo, um πίθος falsificado se transforma em casa, assim como os templos e os pórticos de Atenas se transformam naquilo que a necessidade do momento exige55, ou ainda o exílio, que de castigo reservado ao cidadão inconveniente se torna, aos olhos de Diógenes, um fator de virtude e sabedoria56.
À guisa de conclusão
O desenlace a que nos conduz o conjunto desses elementos vem na forma de uma pergunta direta, mas cuja resposta será necessariamente especulativa, e se eu as formulo aqui - a pergunta e um esboço de resposta -, seu valor não será outro que o de uma simples sugestão: o uso da phantasia enquanto instrumento (cf. o termo χρῆσις) de verdade - uma verdade falsificada, como vimos há pouco -, que os cínicos colocam a serviço da ação moral visando tanto à realização de sua própria eudaimonia quanto ao cumprimento de sua missão pedagógica, deve se estender - ou pode se estender - aos phantasmata que o sono produz e os sonhos representam? Se sim - e nada nos textos nos impede de admiti-lo -, cabe concluir que a doutrina cínica submete o que de mais íntimo reside no homem, isto é, a matéria dos seus sonhos, à máxima autonomia do indivíduo quando desperto e consciente, uma espécie de ‘grau zero’ da liberdade individual, que lhe permite interpretar, como parte da autarcia a que conduz a ascese, seus próprios ‘fantasmas’. Visto por esse ângulo, o cinismo, com séculos de antecipação, se aproxima perigosamente da psicanálise enquanto ciência e clínica, colocando em suspenso a advertência de Freud a respeito da diferença essencial que separa a sua própria técnica da técnica dos antigos, incluindo entre eles Artemidoro, “a maior autoridade em matéria de interpretação de sonhos dos últimos anos da Antiguidade”57, segundo o próprio Freud:
A técnica que eu demonstrarei nas próximas páginas difere daquela dos antigos pelo fato essencial de que ela encarrega o sonhador do trabalho de interpretação. Ela leva em conta aquilo que tal elemento do sonho sugere não ao intérprete, mas à pessoa que sonha58.
No entanto, essa aproximação anacrônica e algo arbitrária entre os dois procedimentos serve apenas para deixar mais evidente o abismo que os separa - e por que ela é perigosa. Trazido ao presente, o método de Diógenes parece ‘salvar’ a psicanálise, mas não os psicanalistas, que, tal como os onirocríticos do passado, se arrogam a mediação entre o sonho e o sujeito que sonha e que pretende compreender seu sonho. Postos retrospectivamente sob o juízo dos cínicos, os psicanalistas de hoje restariam, de boa ou de má-fé, como coadjuvantes do engano dos tolos, à semelhança dos adivinhos e dos profetas. Mas há mais: o texto de Epiteto citado acima [T15] fala em “uso das representações [ou fantasias]” e não em ‘uso das minhas representações’, como na tradução francesa de Émile Bréhier (l’usage de mes représentations), imprecisa neste ponto, já que o pronome não está no texto original59. Isso significa que a liberdade e a autarcia do cínico não se restringem apenas às suas próprias representações, mas alcançam de modo igual, por exemplo, as representações - ou, se queremos, as fantasias - sedimentadas na cultura, seja pelo consentimento, seja pela força inercial do hábito. Ora, sabemos que os sonhos têm no âmbito do indivíduo o poder de ao mesmo tempo confirmar e contestar a cultura, delegando a solução de continuidade desse processo dialético, a cada episódio, ao resultado do embate entre desejo inconsciente e decisão, entre sono e vigília60. Lembremo-nos dos célebres versos de Sófocles postos na boca de Jocasta, que, pressentindo já perto a ruína, alerta um atormentado Édipo: [T16] “Não te amedronte o enlace com a tua mãe/ pois muitos já dormiram com a mãe/ em sonhos. Quem um fato assim iguala/ a nada, faz sua vida bem mais fácil” (Σὺ δ’ ɛἰς τὰ μητρὸς μὴ φοβοῦ νυμφɛύματα·/ πολλοὶ γὰρ ἤδη κἀν ὀνɛίρασιν βροτῶν/ μητρὶ ξυνηυνάσθησαν· ἀλλὰ ταῦθ’ ὅτῳ/ παρ’ οὐδέν ἐστι, ῥᾷστα τὸν βίον φέρɛι.) (Sófocles, Édipo Rei 980-983; tradução de Trajano Vieira).
Mito e sonho, enquanto versões de uma mesma realidade, se interpenetram no processo de afecção da alma, agindo assim na afirmação do diálogo que faz confrontar a ética contratual e as formas históricas da política com o desejo secreto que cobra em permanência a superação dessas mesmas formas. No cinismo, o uso das representações estruturantes dos estímulos que chegam do mundo, do mito ou dos sonhos, é, para dizer com Foucault, o instrumento do escândalo que acena com a possibilidade de uma vida outra e de um mundo outro, nesta vida e neste mundo. É o que sugere, como num eco amplificado do conselho de Jocasta, o Édipo deflacionado e sem complexo de que fala, muito antes de Vernant61, Diógenes de Sínope, o cínico por antonomásia, que, convém lembrar, também compôs uma tragédia com esse título, hoje perdida, como de resto a totalidade de suas obras, por razões que se compreendem62:
[T16] Dion Crisóstomo, Or. X, Diógenes ou Dos domésticos 28-29.
[...] νοῦν δὲ ἔχων γνώσῃ ἀπὸ σɛαυτοῦ ὅ, τι σοι πρακτέον ἐστὶ καὶ ὅπως. ὃ δὲ ἔλαθέ <μɛ> πɛρὶ τοῦ Οἰδίποδος ɛἰπɛῖν, ὅτι ɛἰς ∆ɛλφοὺς μὲν οὐκ ἦλθɛ μαντɛυσόμɛνος, τῷ δὲ Τɛιρɛσίᾳ συμβαλὼν μɛγάλα κακὰ ἀπέλαυσɛ τῆς ἐκɛίνου μαντικῆς διὰ τὴν αὑτοῦ ἄγνοιαν. ἔγνω γὰρ ὅτι τῇ μητρὶ συνɛγένɛτο καὶ παῖδές ɛἰσιν αὐτῷ ἐξ ἐκɛίνης· καὶ μɛτὰ ταῦτα, δέον ἴσως κρύπτɛιν τοῦτο ἢ ποιῆσαι νόμιμον τοῖς Θηβαίοις, πρῶτον μὲν πᾶσιν ἐποίησɛ φανɛρόν, ἔπɛιτα ἠγανάκτɛι καὶ ἐβόα μɛγάλα, ὅτι τῶν αὐτῶν πατήρ ἐστι καὶ ἀδɛλφὸς καὶ τῆς αὐτῆς γυναικὸς ἀνὴρ καὶ υἱός. οἱ δὲ ἀλɛκτρυόνɛς οὐκ ἀγανακτοῦσιν ἐπὶ τούτοις οὐδὲ οἱ κύνɛς οὐδὲ τῶν ὄνων οὐδɛίς, οὐδὲ οἱ Πέρσαι· καίτοι δοκοῦσι τῶν κατὰ τὴν Ἀσίαν ἄριστοι. πρὸς δὲ τούτοις ἐτύφλωσɛν αὑτόν· ἔπɛιτα ἠλᾶτο τɛτυφλωμένος, ὥσπɛρ οὐ δυνάμɛνος βλέπων πλανᾶσθαι.
[...] Mas se tens inteligência tu aprenderás por ti mesmo o que é preciso fazer e como. Mas há uma coisa que eu me esqueci de dizer a respeito de Édipo: ele não chegou a ir a Delfos, mas esbarrou em Tirésias e, em razão de sua ignorância, só retirou grandes males daquele adivinho. Com efeito, ele soube que tinha se unido à sua própria mãe e que tinha tido filhos com ela. Depois disso ele bem que podia ter escondido a coisa ou promulgar em Tebas uma lei que o permitisse. Mas não! Ao invés disso, deu publicidade ao fato, para em seguida se indignar e gritar a plenos pulmões que era ao mesmo tempo pai e irmão de seus filhos, marido e filho da mesma mulher. Ora, os galos não fazem todo esse barulho por causa de tais histórias, nem os cães, nem os asnos, e nem os persas que são considerados o melhor povo da Ásia. E para completar, ele vazou os próprios olhos e assim cego errava de cidade em cidade, como se não pudesse perambular enxergando.
O sonho comum que o mito de Édipo traz à luz seria para o cínico uma janela que se abre espontaneamente para um modo possível de superação do conflito (nesse caso circunscrito ao tabu do incesto) entre natureza e cultura, mas que, assim como qualquer vaticínio, só aproveitarão os sábios fortalecidos na ascese, os que tiram de si mesmos (ἀπὸ σɛαυτοῦ) a sabedoria que lhes oferece o mundo, quando despertos ou enquanto dormem.
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