Open-access Mulheres indígenas e negras na internacionalização de pesquisas na América Latina

Mujeres indígenas y negras en la internacionalización de estudios en América Latina

Resumo

Este artigo é resultado do projeto de pesquisa1 em ciência indígena Brasil-Bolívia, no âmbito do Programa Abdias Nascimento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)2. No centro da análise, a contribuição de mulheres indígenas e negras na ciência; o perfil étnico-racial e acadêmico das mulheres em missão de estudos no exterior, problematizando a realidade da sub-representação no sistema de ciência. A análise aponta que a participação dessas mulheres na internacionalização diversifica o cânone das ciências, qualifica os seus estudos e impacta os conhecimentos vinculados aos seus territórios e às redes de cooperação Sul-Sul.

Palavras-chave
mulheres indígenas; mulheres negras; internacionalização; pesquisas; américa latina

Abstract

This article stems from the Brazil–Bolivia Indigenous science research project,1 developed under the Abdias Nascimento Program of the Coordination for the Improvement of Higher Education Personnel (CAPES).2 The analysis focuses on the contributions of Indigenous and Black women to science, their ethnic-racial and academic profiles when in study missions abroad, problematizing their underrepresentation within the scientific system. The findings indicate that the participation of these women in the internationalization of research diversifies scientific canons, strengthens their scholarly work, and impacts the knowledge connected to their territories and to South–South cooperation networks.

Keywords
Indigenous women; Black women; internationalization; research; Latin America

Resumen

Este artículo es fruto del proyecto de investigación sobre ciencia indígena Brasil-Bolivia que se desarrolló en el marco del Programa Abdias Nascimento de la Coordinación para la Mejora del Personal de la Educación Superior (CAPES). El análisis se centra en las contribuciones de las mujeres indígenas y negras a la ciencia, así como en sus perfiles étnico-raciales y académicos durante sus estancias de estudio en el extranjero al cuestionar su subrepresentación en el ámbito científico. Los resultados indican que la participación de estas mujeres en la internacionalización de estudios diversifica los cánones científicos, fortalece su labor académica e impacta el conocimiento en torno a sus territorios y a las redes de cooperación Sur-Sur.

Palabras clave
Mujeres indígenas; mujeres negras; internacionalización; investigación; América Latina

Mulheres indígenas e negras produzem ciências? Questões iniciais

Quando mulheres indígenas e negras integram espaços da ciência, inscrevem seus corpos como territórios epistemológicos no ambiente acadêmico. Suas semânticas evidenciam que pessoas indígenas e negras estão historicamente excluídas de programas de pós-graduação. Mesmo em face da política de cotas, essas mulheres estão à margem das dinâmicas institucionais de pesquisa, e suas obras autorais estão excluídas das listas obrigatórias de referenciais teóricos, mesmo que tenham produção intelectual alinhada às exigências instituídas, dada a sub-representação nos quadros de docentes das Instituições de Ensino Superior (IES), em que prepondera o imaginário majoritariamente orientado pelo machismo e pelo eurocentrismo.

Argumentamos que a invisibilidade de mulheres indígenas e negras é produto do machismo e do racismo estrutural e institucional, justificados no modo hegemônico de produção de conhecimento e de ciência. Diante dessa premissa, afirmamos que mulheres indígenas e negras produzem ciência e que esta se realiza como produção intelectual e como luta contra o racismo e o machismo institucional, pela democratização do ensino superior, inscrevendo a denúncia e a possibilidade de construção de outro espaço público para a ciência e a produção de conhecimento.

O acesso de pessoas indígenas e negras à universidade brasileira e ao campo científico é um desafio evidente. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) do governo brasileiro mencionou, em matéria de 2023, publicada em meio oficial de divulgação, o fenômeno que denominou de racismo científico, responsável pelo estabelecimento do pensamento ocidental no período em que floresceu o iluminismo, quando a escravidão era um dos pilares da economia, da política e da vida social, orientados pela crença na superioridade intelectual, moral e cultural da raça branca em relação à raça negra. (MCTI, 2023).

O Movimento Parent in Science divulgou um levantamento no ano de 2023 demonstrando que, de 16.108 bolsas de produtividade (PQ) que estavam vigentes no Brasil em meados daquele ano, 64,4% foram destinadas a homens, e apenas 35,6%, a mulheres (0.1% a mulheres indígenas e 0,8% a mulheres negras). Somente 27,2% das bolsas de nível 1A, que são direcionadas a pesquisadores com no mínimo oito anos de doutorado, foram destinadas a mulheres; nenhuma delas autodeclaradas negra ou indígena (Dias, 2023). Em nível global, a realidade não é diferente; de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Nos treze países integrantes do G20, as bolsas científicas destinadas a mulheres no ano de 2022 representam apenas 37% (UNESCO, 2024). Esse cenário, que se define a partir da exclusão estruturalmente construída no racismo e no machismo, também tem suporte nos elevados custos financeiros e sociais impostos ao processo de internacionalização da pesquisa, dadas as barreiras colonialistas impedidoras de fluxos e de redes colaborativas, diante das quais as mulheres indígenas e negras de países como o Brasil se encontram em maior desvantagem, dependendo quase exclusivamente do financiamento público.

A superação da invisibilidade de mulheres indígenas e negras na ciência e na produção de conhecimento deve ser tomada como uma questão além das fronteiras geográficas, políticas e culturais, pois, essa dimensão encontra-se atualmente incorporada aos indicadores de avaliação da formação e da qualificação dos programas de pós-graduação. A inclusão de mulheres indígenas e negras na ciência passa a integrar estrategicamente a pauta da superação do racismo e do machismo científico, promovendo visibilidade epistêmica de suas pesquisas e dos impactos na preservação dos territórios e na proteção do planeta. Esses trânsitos também podem potencializar práticas inovadoras no campo das ciências colaborativas em áreas como educação, meio ambiente e gestão territorial, diretamente vinculadas às condições de vida de mulheres indígenas e negras.

Compreendemos que o pensamento latino-americano, como matriz emergente de ciência, com a potência de produzir bases epistemológicas contra-hegemônicas à ciência ocidental, também pode integrar esforços de superação do racismo e do machismo científico, dando visibilidade às epistemologias historicamente sufocadas por racismo, sexismo, preconceitos, inferiorização e desigualdades.

Nosso objetivo neste artigo é ressaltar desafios que se articulam no processo histórico de exclusão das mulheres indígenas e negras na ciência, ressaltando uma experiência sediada no Brasil, voltada ao fortalecimento da internacionalização de pesquisas no contexto da América Latina, de modo particular na Bolívia, envolvendo docentes e discentes indígenas e negras vinculadas a programas de pós-graduação nos dois países.

Realizamos a discussão a partir de um olhar dialético com incursões nos temas do colonialismo e do patriarcado, considerando desdobramentos na produção e hierarquização de territórios e grupos sociais, a partir da lógica eurocêntrica, destacando consequências e resistências no contexto social e, de modo específico, no campo das epistemologias, da universidade e da ciência. A concepção dialética que orienta a discussão e a análise inscreve dimensões da historicidade do fenômeno, em seu pertencimento a uma realidade que se movimenta em sede de permanentes tensões e contradições, de modo que, para dar-se a conhecer, requer apropriação teórica sobre os seus principais elementos constituintes, conformando totalizações sujeitas a modificações (Gadotti, 2001). Realizamos levantamento bibliográfico e documental junto às bases de dados do Projeto “Políticas de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas e Quilombolas no Brasil e Bolívia” para a apresentação dos dados sistematizados.

Partimos da realidade da pós-graduação e das condições de acesso aos espaços de produção científica no Brasil, problematizando-os a partir de parâmetros do projeto ocidental colonizador e dos desafios de participação de indígenas, negros e mulheres. Na sequência, destacamos os protagonismos de mulheres envolvidas no Projeto de internacionalização, estabelecendo pontos de sintonia com princípios da Educação Popular para, finalmente, detalhar propósitos, ações e integrantes do Projeto Brasil-Bolívia, retomando a reflexão sobre os resultados e os desafios inicialmente apresentados.

Mulheres indígenas e negras no campo das ciências Sul-Sul

É fundamental construir um pensamento que se contraponha à ciência eurocêntrica e ao seu projeto de colonialidade do poder, não apenas como superioridade científica, mas também como padrão de dominação global na geopolítica e na invenção do “Outro” colonizado. Essa narrativa foi detalhadamente analisada por Enrique Dussel (1993), em sua publicação 1492 – O encobrimento do outro: mito da modernidade, ao demonstrar como o filósofo Hegel analisa o termo “desenvolvimento” para definir os territórios e os povos colonizados: “. . . temos informações a respeito de seu desenvolvimento, mas como uma cultura inteiramente particular, que expira no momento em que o Espírito se aproxima dela, a inferioridade desses indivíduos é, em tudo, inteiramente evidente.” (Hegel citado por Dussel, 1993, p. 17). O que o colonialismo, na lógica do paradigma eurocêntrico de ciência, descreve como conquista ou descobrimento, narrativa lida e relida como uma verdade absoluta, torna-se justificativa para a dominação e subalternização dos povos latino-americanos.

No contexto dessa lógica constituem-se os conceitos de raça, revelando que a neutralidade científica foi, antes de tudo, uma racionalidade a serviço dos processos de colonização, em que a verdade, como conhecimento exato, não foi apenas dispensada, mas serviu para justificar plenamente o sistema de dominação dos povos originários. Fals Borda (1981) critica a ciência ocidental pelo seu caráter monopolizador, determinando o que é e o que não é científico; afirma que a neutralidade científica não existe e que essa ciência não pode ser “de ficção”. Essa análise contra-hegemônica apresenta outra versão sobre a falácia da “neutralidade científica”, cujo propósito é manter o processo de assimilação e dominação justificado pela ciência eurocêntrica.

A necessária ruptura com esse paradigma exige processos de fortalecimento e visibilidade do conhecimento das pessoas e grupos subalternizados, por meio da participação ativa na formulação e execução de pesquisas comprometidas com a integração acadêmica e científica. Nesse sentido, o contexto acadêmico latino-americano é um lugar de encontros necessários, podendo gerar reconhecimentos mútuos a partir de realidades compartilhadas e, ao mesmo tempo, distanciadas pelas fronteiras definidas no projeto colonial.

Esse tipo de encontro pode permitir o desenvolvimento de projetos estratégicos baseados em uma racionalidade singularizada nas experiências do continente, a exemplo da afirmação de um pensamento próprio, capaz de desocultar a face do colonialismo e suas consequências para os territórios colonizados, como foi representada por um dos principais intelectuais indígenas da Bolívia, Fausto Reinaga (2014, p. 78), em seu livro La Revolución India, no qual analisa os efeitos da invasão ocidental aos territórios indígenas, afirmando que “O Ocidente, ao conquistar e dominar outros continentes e outros povos, saqueou a riqueza física, artística e espiritual, e a levou de volta para a sua metrópole como espólio de conquista”5. As ideias ocidentais na América Latina continuam a querer decidir nossos rumos políticos e administrativos, com ameaças constantes de invasão, como ocorre na Venezuela (Campos, 2026).

No projeto colonizador, o Ocidente inventou o indigenismo – que foi e tem sido a legalização do colonialismo e da colonialidade do poder pelo Estado para assegurar a continuidade do processo de assimilação dos povos indígenas pela cultura ocidental do colonizador. No mundo da ciência, esse processo se revela por meio de brancos falando entre si e sobre os indígenas, sem permitir que as vozes destes sejam proferidas e plenamente escutadas.

O indigenismo usa categorias para descaracterizar a identidade indianista, fazendo prevalecer o modelo ocidental como conformador de uma identidade única, o que remete ao abandono do rigor científico que determina a busca pela verdade, pela compreensão de que “A ciência é o conhecimento da realidade, um conjunto de princípios e leis que expressam uma verdade. Ciência é certeza. Consequentemente, dizer “classe camponesa” ou “camponês” para o indígena não é ciência; é uma alucinação anticientífica”6 (Reinaga, 2014, p. 112). Assim, a categoria indigenismo, como construção da imaginação do colonizador, foi legalizada pelo Estado colonialista na instituição de formas legalizadas de dominação e invenção de identidades subalternizadas e inferiores. Trata-se, portanto, do sequestro de um cabedal de riquezas que precisam ser libertadas no encontro entre as vítimas desse sistema.

O indianismo é o pensamento indígena sobre si mesmo e a consciência política de seus ancestrais. Apesar da hegemonia da ciência eurocêntrica, para os povos originários, o indianismo é a persistência da identidade indígena que sobreviveu às tentativas de assimilação: “O indígena, mesmo que pinte a pele, mesmo que use o título de “doutor”, é indígena “para sempre”. Portanto, pense, sinta e faça, como parte natural de sua sociedade, a sociedade indiana”7 (Reinaga, 2014, p. 67). A ideia de raça, como sinônimo da superioridade branca e civilizada, como identificador dos europeus e como inferioridade para definir os indígenas, mestiços e negros, serve para justificar a dominação, a escravidão e a subalternização de seus corpos, bem como a negação de sua matriz ancestral de conhecimento e cultura.

Inventou-se também o conceito de patriarcado, baseado em uma ideia de superioridade e dominação dos homens sobre as mulheres, promovendo sustentação às desigualdades sociais, econômicas e culturais entre homens e mulheres. A participação de mulheres no ambiente acadêmico e científico é expressão notória dessa subalternização, enquanto o indianismo é um pensamento originário dos povos indígenas, em suas lutas contracoloniais, diante de tudo o que foi apagado, silenciado e exterminado das nações indígenas pelo colonialismo e a tudo que tem sido a colonialidade do poder como sistema de dominação e subalternização dos povos que não orbitam a lógica de ciência do Norte global. A raça também é uma construção colonial para dominação da população negra e indígena.

Lélia Gonzalez (2020, p. 31) discute a história da escravização de pessoas negras no Brasil, destacando as “astúcias da razão ocidental”. A autora afirma que os corpos, os territórios e as culturas foram submetidos ao aparato legal e institucional de Portugal, legitimando a servidão e a exploração do trabalho e dos corpos, diante da exigência legalizada de uma submissão passiva. No Brasil independente tentou-se estabelecer o mito da democracia racial, com o propósito de esconder a opressão social, racial e socioeconômica. Lélia (2020) ressalta que a mulher negra foi central para o empreendimento colonial e para os processos de lutas e resistências do povo negro. Em Por um feminismo afro-latino-americano, ela afirma que qualquer processo de libertação exige a discussão e busca de superação da discriminação racial e desalienação da identidade capturada por um sistema de práticas e de pensamentos, um racionalismo universalizado e abstrato em que negros, indígenas e mulheres foram inferiorizados.

Mulheres indígenas e negras desafiando a meritocracia científica e seus sistemas de exclusão

A pesquisa de Cida Bento (2022) abre uma janela para mulheres indígenas e negras na universidade, pois coloca em causa a falácia do ego cogito da branquitude. Seus estudos revelam a ideia de que existe um pacto da branquitude e que esse acordo narcisista assegurou o privilégio aos brancos e a exclusão e subalternização do “outro não europeu”. Esse padrão sustenta um longo processo de exclusão de mulheres indígenas e negras no acesso ao sistema de produção de conhecimento, que foi plenamente justificado por um tipo de ciência, norte-eurocêntrica. “À medida que a Europa foi se expandindo pelo mundo e os europeus foram acessando e se apropriando dos recursos materiais e simbólicos dos “outros”, a narrativa da branquitude foi sendo construída” (Bento, 2022, p. 18). A hegemonia do sistema de ciência e seus marcadores de exclusão podem ser verificados, entre outros artifícios, pela predominância de línguas na produção científica: inglês, francês e espanhol.

Entre os desafios de mulheres indígenas e negras que ocupam os bancos das universidades brasileiras está a construção de estratégias e redes de cooperação no sentido de garantir maior inclusão de povos historicamente excluídos e superar a meritocracia acadêmica celebrada pela branquitude. Isso “diz respeito a se posicionar e fortalecer publicamente a retomada dos direitos constitucionais e das redes de proteção conquistadas pelas populações femininas, negras, quilombolas e indígenas” (Bento, 2022, p. 82), como o direito de acesso ao conhecimento científico, por meio de ações de reparação e políticas afirmativas na universidade; da mesma forma o acesso aos investimentos de agências nacionais de fomento à ciência e à tecnologia.

As lutas históricas do movimento negro no Brasil produziram, no período recente, entre outras conquistas, a Lei de Cotas (12.711/2012), a Lei 10.639/2003, mais tarde alterada pela Lei 11.645/2008, para assegurar a inclusão, no currículo oficial da rede de ensino, da história afro-brasileira e indígena. Do mesmo modo, as lutas dos povos indígenas perpassam toda a história do Brasil e, nos últimos anos, foram intensificadas em diferentes levantes, protestos e manifestações, a exemplo do Acampamento Terra Livre, evidenciando a defesa dos territórios, contra as mudanças climáticas; esse processo promoveu a criação da Universidade Federal Indígena, cuja Lei 15.418/2026 foi sancionada no dia 29 de abril de 2026.

São avanços no campo das políticas e das ações afirmativas que vêm contribuindo para a inclusão no sistema de ensino de populações violentadas pelos processos de racialização, não obstante, enquanto espaço marcado por relações de poder (Gomes, 2009), se mantém a prevalência do pensamento hegemônico que domina sua institucionalidade pela branquitude. O acesso ao ensino superior ainda é um desafio, diante da negligência e da falta de atenção aos conhecimentos próprios, à valorização das epistemologias organizadas em outras lógicas, racionalidades e causalidades distintas das hegemônicas. Esse cenário também comunica enfaticamente sobre as razões da sub-representação das mulheres indígenas e negras no sistema de pós-graduação.

A matriz de um conhecimento próprio e de uma ciência emergente no eixo das epistemologias Sul-Sul situa as autoras deste artigo: ambas compartilham o pertencimento étnico como mulheres negras, pela identidade autoafirmada, que ultrapassa características fenotípicas e tem ancoragem em seus compromissos ético-políticos. Nessa condição, integram o quadro docente de programas de pós-graduação stricto sensu em universidades públicas no estado do Piauí, a Universidade Federal do Piauí UFPI) e a Universidade Estadual do Piauí (UESPI), produzindo investigações sobre temáticas da educação no campo das políticas públicas. Priorizam também atividades voltadas para a qualificação de docentes, pesquisadores, recém-graduados e profissionais, para incidir com competência teórica, política e técnica no campo da docência, das políticas públicas e da produção de conhecimento, considerando suas pesquisas como centrais na afirmação de conhecimentos historicamente situados aos seus territórios e em processos inovadores de matriz ancestral.

Pela proposição de uma das autoras, professora e pesquisadora da UFPI, foram aprovados e se encontram em execução dois projetos estruturantes da política de inclusão e ações afirmativas: o projeto de internacionalização da pesquisa de povos indígenas, pretos e quilombolas, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), com concessão de bolsas de mestrado e doutorado sanduíche (Brasil–Bolívia), como ampliação da parceria para além da concessão de bolsas de mestrado e doutorado sanduíche para estudantes do Brasil desenvolverem suas atividades de pesquisas na Bolívia, do lado brasileiro. Estamos recebendo estudantes de mestrado da Bolívia com orientação em pesquisa intitulada: “Violência Política de Gênero contra Mulheres Indígenas na Bolívia: desafios para aplicação da Lei 243/2012”; e no projeto de extensão em “Governança política e gestão indígena para equidade: capacitação técnico-científica em política educacional para educadores indígenas”, financiado pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (SECADI/MEC); ambos têm o objetivo de promover a formação de estudantes indígenas e suas lideranças para atuação qualificada nos espaços de participação social. Isso culminou recentemente em nossa proposição para criação do primeiro Programa de Desenvolvimento Acadêmico Indígena (PDAI), conforme Portaria CAPES nº 150, de 7 de abril de 2026, que visa ampliar o acesso e assegurar a permanência e o êxito de estudantes indígenas na pós-graduação stricto sensu. Inicialmente, serão concedidas 100 (cem) bolsas plenas para o doutorado e 200 (duzentas) bolsas para o mestrado acadêmico, por meio de seleção específica e diferenciada em todo o Brasil, iniciando em 2026 com o lançamento do edital.

Vale salientar que a categoria “preto”, ao lado de outras como negro e pardo, evidencia tensões relevantes relacionadas a concepções, porém essa questão não será enfrentada neste artigo. Isso não nos impede de ressaltar que, ao utilizarmos os termos negro e negra, sintetizamos uma identidade política posicionada contra o racismo estrutural e interseccionalmente situado.

Na UESPI, as pesquisas sob nossa supervisão e orientação ancoram trabalhos de conclusão de cursos na graduação e na pós-graduação (mestrado e doutorado), voltadas às questões de gênero, povos e comunidades tradicionais, relações étnico-raciais e educação do campo, com ênfase nas temáticas mobilizadas em trabalhos de mestrado e de graduação, como: “O povo Warao em Teresina: acesso à educação para comunidades indígenas em situação de migração e refúgio na cidade de Teresina, Piauí”; “Práticas socioespaciais e educacionais na comunidade quilombola Mandacaru dos Pretos em Matões (MA)”; “Políticas de cotas e permanência de pessoas LGBTQIAPN+”; “O curso de pedagogia e a formação para a educação escolar indígena, quilombola e do campo”; “Modalidades territorializadas (indígena, quilombola e do campo) na política educacional do Piauí”, entre outros. Na UFPI, há trabalhos de mestrado, doutorado e de graduação que evidenciam as seguintes temáticas: “Educação antirracista na formação de professores na educação superior na UFPI”; “Educação Popular como prática de pertencimento de mulheres negras Ayabás”; “Escolarização de indígenas da etnia Warao em Teresina (PI)”; “Políticas de demarcação de comunidades tradicionais quilombolas no contexto dos marcos regulatórios do Estado”; “Política de combate às violências contra mulheres indígenas na Bolívia”; “Política de educação escolar indígena com foco nas lutas do povo Gamela pela realização da pedagogia intercultural indígena no território Gamela”; “Políticas de formação de professores para professores indígenas”.

Os estudos e as pesquisas organizam-se, em sua maioria, pelo recorte étnico-racial, de gênero e de classe, e em suas interseccionalidades no contexto das classes populares, suas lutas e os desafios da produção de conhecimento no cenário político-científico brasileiro e latino-americano. Essas pesquisas atualizam nossa posição na construção de projetos insurgentes de universidade que questionam as ideias tradicionais de ciência proclamada como única e válida, baseada na falácia do “ego cogito” da branquitude, que captura o espaço acadêmico como lugar de privilégio, e não como política educacional concebida como direito social. Propomos, no campo da produção de ciência, um saber, um conhecer e um fazer situado no mundo da vida como prática de descolonização territorial, social e epistemológica. Acessamos os dispositivos institucionais e as legislações para acionar a implementação de políticas educacionais que ampliem a presença de indígenas, quilombolas e camponeses no ambiente universitário e científico, dando visibilidade às suas pesquisas e aos seus conhecimentos não disciplinares – vinculados à vida da comunidade e de seus processos educativos de lutas e de incidência política na esfera pública.

Nossos estudos, pesquisas e extensões são referenciados nos princípios da Educação Popular, fundamentados em bases metodológicas participativas do sul latino-americano, inspiradas nas ideias do Sul Global de “outras epistemes”. Compreendemos que é a afirmação de identidades e pertencimentos que, renegando a condição social de colonizadas e subalternizadas, mobiliza pessoas oprimidas para a construção de uma intelectualidade própria fundamentada na memória histórica coletiva, pela qual, mais do que fazer ciência, discute-se como nós vivemos a pesquisa que fazemos (Brandão, 2003), sem perder de vista a relevância social, política e cultural como posição contra-hegemônica, atuando a favor da desconstrução das práticas e pensamentos brancocêntricos (Carine, 2025), como sistemas únicos e válidos de produção de conhecimento.

Esse processo orienta-se principalmente pelo compromisso com o fortalecimento dos conhecimentos, dos fazeres e da incidência de mulheres indígenas e negras, situado nos princípios da Educação Popular, com os seus referenciais teórico-prático-metodológicos, e a estratégia de construção da (re)conexão entre comunidades latino-americanas e afro-brasileiras e com seus processos ancestrais de luta contra as violências do passado e do presente. Além de autores como Paulo Freire e Orlando Fals Borda, temos ancoragem no pensamento indianista dos Andes (Fausto Reinaga); pensadores da crítica colonial, a exemplo dos que compõem o grupo Modernidade/Colonialidade: Quijano, 1992; Mignolo, 2021; Walsh et al., 2018); o feminismo negro de Lélia Gonzalez; a perspectiva contracolonial vocalizada por Nego Bispo e a dos indígenas Aymaras produzida em suas lutas indianistas, entre outros.

Valorizamos a dimensão pedagógica da construção coletiva do conhecimento, um dos princípios fundacionais da Educação Popular, como prática educativa que se baseia em saberes nascidos nas ruas, nas epistemologias de territórios indígenas, quilombolas e nas comunidades tradicionais; a prática educativa que nasce nas lutas do feminismo comunitário e do feminismo negro, nos processos de afirmação das identidades populares enquanto lutam por condições dignas de se viver. Orientamo-nos pelo propósito de contribuir para dar perspectiva de novos horizontes epistêmicos, como uma questão central para as instituições científicas e a construção de um diálogo democrático do conhecimento, que implica saber/conhecer “. . . como diminuir a distância entre o contexto acadêmico e a realidade de que vêm os alunos, realidade que devo conhecer cada vez melhor, na medida em que estou, de certa forma, comprometido com o processo para mudá-la” (Freire, 2014, p. 244). Reafirmamos que é preciso superar a lacuna epistêmica criada pela matriz eurocêntrica, que se constitui na exclusão de outros lugares e sujeitos na produção de conhecimento.

Articulamos diálogos intra e intergrupos e territórios, como estratégias fundamentais, reafirmando práticas sintonizadas com as lutas pela libertação das mentalidades eurocentradas, produzindo capacidades de enfrentamento à geopolítica do poder, imposta pela voracidade do capitalismo que produz dominantes e dominados, nacionais e estrangeiros, afasta parentes e suplanta utopias marcadas por guerras coloniais. Observamos que esse processo já produz resultados efetivos, a exemplo das discussões promovidas nos marcos do encontro internacional intitulado “Ciência Indígena e Justiça Climática”8, que caminha para a sua segunda versão, ao lado de outros diálogos dos povos no Sul Global. (Funai, 2024)

Esse processo sugere que uma educação libertadora consegue ler e compreender a astúcia da razão orientadora dessa lógica que pretende definir não apenas os rumos de nossas vidas, mas também a nossa morte, e, a partir de movimentos de superação da consciência ingênua, promover o inédito viável, a consciência de si na relação com os seus. É esse o nosso dever como intelectuais vinculadas às classes populares.

Esse processo exige confluência de matrizes de conhecimentos e de ciências e a ultrapassagem de fronteiras impedidoras de conexões ancestralizadas. Exige a afirmação da plurinacionalidade como paradigma estatal contra-hegemônico à ideia de nacionalidade como projeto ocidentalizado. A ciência indígena e afro-brasileira também reside na matriz da memória histórica coletiva das lutas pela libertação colonial, não apenas administrativa e política, mas também epistêmica.

Esse processo necessariamente exige a ocupação dos espaços designados culturalmente para a produção de conhecimento científico. Por isso nos ocupamos também com a agenda de projetos e pautas para a inclusão das classes populares na universidade e no sistema de ciência. Somente a participação efetiva desses setores na produção de alternativas epistêmicas e sociais sobre seu próprio fazer, sua existência e sua ressignificação na cena política do Estado pode produzir alternativas de justiça social reparatórias e promotoras de acesso à justiça epistêmica. Esse propósito leva à elaboração e submissão de projetos que se concentram no campo das políticas e das ações afirmativas, a exemplo do que favoreceu a participação no Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação (PDPG) Políticas Afirmativas e Diversidade e do Programa de Desenvolvimento Acadêmico Abdias Nascimento da Capes, a partir do qual foram mobilizadas ideias e financiamento efetivo para a concretização das propostas mencionadas, exercitando a prática da pesquisa-ação em processo permanente na atualidade das exigências das populações historicamente excluídas. Nossa atuação como mulheres negras nas ciências, na pesquisa e na docência está implicada com nossa própria trajetória educacional e científica, mas também está decisivamente vinculada à inclusão desde a perspectiva de outras mulheres indígenas e negras de acessar a universidade e a internacionalização de suas pesquisas de mestrado e doutorado nos marcos da ciência Sul-Sul.

Entre os projetos aprovados e em execução com financiamento, destacamos em nossa análise o projeto de pesquisa “Políticas de gestão territorial e ambiental em terras indígenas e quilombolas no Brasil e Bolívia”, com financiamento de bolsas de estágio sanduíche em mestrado e doutorado para estudantes indígenas, quilombolas e negros, com vistas ao fortalecimento da internacionalização de suas pesquisas no contexto da América Latina, especificamente na Bolívia. A posição de descolonização na universidade não é apenas um projeto de ciência e de sociedade, mas de um projeto de humanidade, pois, para povos racializados na lógica colonial:

. . . a descolonização de saberes, para além de uma perspectiva epistemológica, é uma forma de reprodução existencial pautada na subversão das normativas impostas pelo Norte Global, que representa mais que uma localização geográfica e epistêmica; trata-se de uma disputa de narrativas históricas e, portanto, uma disputa de humanidade

(Carine, 2025, p. 77).

A descolonização é também uma posição ontológica de combate ao racismo estrutural e institucional que captura os espaços de poder celebrado pelo pensamento da branquitude. Por isso, torna-se necessário articular projetos e pesquisadoras em rede de cooperação, bem como na produção intelectual em crescente articulação de forças contra-hegemônicas referenciadas na compreensão de que a universidade precisa cumprir com sua responsabilidade social e garantir políticas de inclusão dos povos de conhecimentos historicamente inferiorizados e negados pela ciência hegemônica.

O Projeto Brasil e Bolívia: pesquisadoras indígenas e negras desafiando a internacionalização eurocentrada

Considerando a emergência do debate das mulheres nas ciências e a abertura editalícia para a temática indígena, negra e quilombola no campo da internacionalização da pesquisa pela CAPES, optamos por apresentar uma proposta de investigação situada no sul latino-americano. Procuramos com isso garantir maior participação de mulheres na ciência, cujos estudos estão vinculados ao projeto global que discute as epistemologias latino-americanas em Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indígenas e Quilombolas no Brasil e Bolívia. No escopo do projeto, o problema central versa sobre

As mudanças climáticas e a formação para justiça socioambiental situam os conhecimentos indígenas e quilombolas como epistemologias emergentes de práticas inovadoras em gestão territorial e ambiental de proteção e preservação das terras tradicionais no Brasil e na Bolívia. A matriz descolonial e plurinacional dos povos indígenas e quilombolas fundamentam as ideias de uma ciência própria, baseada no reconhecimento da sustentabilidade socioambiental e nos direitos da natureza na América Latina

(Projeto de Pesquisa Política de Gestão Territorial e Ambiental em Terras Indgígenas e Quilombolas no Brasil e Bolívia, 2024).

Na base dessa matriz, as mulheres indígenas, negras e quilombolas assumem papel estratégico dentro de seus territórios como produtoras de saberes e práticas de gestão e proteção de seus territórios, e essas aprendizagens comunitárias, culturais e ambientais são os temas centrais de seus projetos de pesquisa, nos programas de mestrado e doutorado no Brasil e, consequentemente, no processo da internacionalização em sanduíche. Vale destacar as exigências ao cumprimento de equidade de gênero e aos direitos das mulheres no acesso à ciência e tecnologia, e que as regras editalícias, que apresentavam a necessidade de 50% das cotas de bolsas de estudos, deveriam ser “14.151. Pelo menos 50% (cinquenta por cento) das missões de estudo deverão ser realizadas por mulheres ou autodeclaradas negras, pardas, indígenas ou pessoa com deficiência, transtorno global do desenvolvimento ou altas habilidades/superdotação.” (CAPES, 2023, p. 18). Na coordenação do projeto, essa presença de mulheres docentes e pesquisadoras foi 100% alcançada. A organização interinstitucional é outra exigência da CAPES. Nesse contexto, sob a liderança da UFPI, integram a rede as instituições associadas como Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Universidade de Brasília (UnB), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Federal da Bahia (UFBA), tendo o protagonismo feminino na articulação das áreas temáticas do projeto.

Para a coordenação do projeto, tanto na instituição principal (UFPI) como nas associadas, havia um propósito inicial de que mulheres indígenas, quilombolas e negras, durante a realização do processo de internacionalização de pesquisas no exterior, alcançassem os índices de participação superior a 60% nas missões de estudos. Da mesma forma, que as missões de trabalho tivessem participação direta de representantes dos estudantes indígenas, por meio da União Plurinacional dos Estudantes Indígenas (UPEI), o que demandou uma petição específica junto à CAPES para a reorganização do planejamento financeiro das missões de trabalho.

Consideramos a América Latina, especialmente a realidade científica boliviana como uma oportunidade epistêmica contra-hegemônica e descolonial da internacionalização norte-norte ou norte-sul, “a partir do entendimento de que a internacionalização entre países Norte-Sul é desigual[”, pois a oportunidade de intercâmbio não acontece para todos os alunos nem para todas as áreas do conhecimento. (Moreira & Ribeiro, 2022, p. 12-19). Por isso, o projeto priorizou a inclusão étnica, de gênero e a dimensão intercultural entre os povos indígenas e territórios tradicionais na América Latina e o eixo dos conhecimentos Sul-Sul.

A seguir, destacamos o perfil das mulheres indígenas e negras em mobilidade acadêmica de mestrado e doutorado, com relação a gênero, etnia, universidade, programas de pós-graduação e temáticas de estudos, cumprindo mais do que o percentual de 50% de mulheres em missões de estudos no exterior. Na primeira missão, em 2024, foram dez discentes, sendo sete mulheres e três homens, contemplando as regiões Norte, com oito discentes, e Nordeste, com duas vagas, critério que considerou a realidade das desigualdades regionais de acesso à internacionalização da pesquisa. A Tabela 1 dá mais visualidade para uma melhor compreensão do perfil das mulheres no projeto.

Tabela 1
Perfil de mulheres indígenas9 na 1ª missão de estudos (Brasil-Bolívia)

Como podemos analisar, 75% da primeira missão de estudo foi composta por mulheres indígenas, sendo a maioria do estado do Amazonas e do município de São Gabriel da Cachoeira-SGC. Vale destacar que essas mulheres são pertencentes a diferentes etnias e têm estudos em distintas áreas temáticas. Analisando os dados acima, podemos verificar que as áreas predominantes foram: educação, antropologia social e o conhecimento interdisciplinar com o Programa Sociedade e Cultura da Amazônia (PPGSCA) da UFAM; apesar de serem de universidades diferentes, a maioria das mulheres é do Amazonas. Na outra missão de estudos em doutorado sanduíche, todas as vagas foram preenchidas por mulheres indígenas do Norte e Nordeste do Brasil, com 100% de pesquisadores indígenas, sendo 75% de mulheres indígenas.

Como coordenação do projeto, mantemos a intencionalidade de fortalecer uma rede de apoio e empoderamento de outras mulheres indígenas e negras no acesso, permanência no sistema de pós-graduação e na internacionalização da pesquisa no Brasil e na América Latina, principalmente com a Bolívia – um país que se inspira em processos constitucionais de matriz plurinacional e indianista na proteção dos territórios e das epistemologias indígenas, principalmente nos conhecimentos produzidos pela universidade parceira, Universidad Publica de El Alto (UPEA). O projeto de internacionalização, ao tempo que propõe uma inclusão mais plural, reafirma que:

É necessário ampliar e aprimorar o foco dessas políticas de internacionalização para que os sistemas universitários brasileiro e latino-americano possam cumprir sua missão educacional e social na afirmação de pluralidades epistêmicas, pois, “A presença de Políticas Públicas claras no campo do intercâmbio acadêmico permite o acesso a programas internacionais de Mobilidade Estudantil Internacional (MEI), de combate ao racismo cultural e de promoção de acessibilidades”

(Andrade et al., 2024, p. 4).

Considerando esse pensamento, ainda há muito para avançar no Programa Abdias Nascimento, principalmente com relação aos critérios de elegibilidade dos docentes para concorrer ao edital de internacionalização, deixando-os em condições inviáveis para submissão de proposta. Os critérios de elegibilidade se articulam, na prática, com as condições impostas no âmbito das desigualdades regionais e étnicas, que promovem a concentração de oportunidades aos bens e processos próprios das instituições de ensino superior e, por consequência, dos insumos necessários à produção e disseminação da ciência e das tecnologias, o que provoca maiores dificuldades para públicos do Norte e do Nordeste, especialmente quando se trata de docentes indígenas, uma vez que os critérios editalícios se constituem para esses como barreiras impeditivas.

Um fator que impede maior presença indígena no preenchimento das bolsas de doutorado sanduíche é a realidade de baixa presença de mulheres indígenas nos cursos de doutorado no país, confirmando a realidade de exclusão já salientada; nos mestrados, essa realidade começa a ser modificada positivamente.

Na segunda missão de mestrado e doutorado, em 2025, houve a participação de discentes negros e indígenas, com destaque para discentes quilombolas; havia sete bolsas de mestrado e sete de doutorado. Participaram catorze discentes, sendo oito mulheres e seis homens. Com relação à condição racial dos discentes, oito são indígenas e seis são negros; o percentual de mulheres na missão de estudos correspondeu a 57% das vagas. Na ocupação das vagas no doutorado, das sete vagas, cinco foram ocupadas por mulheres indígenas e negras, representando um percentual de 70% de mulheres em formação no doutorado e internacionalizando suas pesquisas (Tabela 2).

Tabela 2
Perfil das mulheres indígenas e negras - 2ª missão de estudos (Brasil-Bolívia)

O encontro entre mulheres indígenas e mulheres negras confluem para fortalecimento das relações entre mulheres nas ciências, aprimorando suas pesquisas, vivências e experiências no contexto Brasil-Bolívia. Objetivamente há barreiras a serem superadas pelas mulheres afro-indígenas, compreendendo estas não somente pela condição étnica que confere especificidades às indígenas e às afro-brasileiras, mas como mulheres que carregam consigo e compartilham a dupla herança ancestral, sedimentada nas lutas contra a colonialidade, o patriarcado e suas formas de subalternidades.

As mulheres indígenas e negras encontram-se em diferentes lugares de atuação na universidade, como docentes, pesquisadoras ou discentes nos PPGs em cursos de mestrado e doutorado, desenvolvendo pesquisas em torno de temáticas que envolvem as próprias mulheres, relacionadas com questões e tensões sociais que enfrentam, dentre as quais podemos citar: línguas como lugar de afirmação étnica; a educação e a escola indígena como prática educativa que sustenta o projeto de pertencimento; as matrizes de religiões afrodescendentes e o xamanismo como cultura ancestral vinculada à memória histórica do passado; as mulheres indígenas e suas vinculações com a mãe terra como território que se relaciona com o sagrado; e a desnaturalização da racialização dos corpos de mulheres indígenas e negras.

Observamos que as mulheres pesquisadoras indígenas constroem em seus trabalhos trânsitos metodológicos relacionados aos contextos e saberes, produzindo novidades, ancoradas em uma “criatividade própria”, abrindo horizontes para novas epistemologias e para a superação das narrativas negativas que atribuem caráter endógeno aos conhecimentos produzidos no Sul Global, como se a ciência eurocêntrica não fosse, em sua essência, endógena. Assim, a internacionalização desde a presença indígena e negra em nossa perspectiva colabora para

Promover a participação de representantes de povos indígenas e afrodescendente na transformação das instituições de ensino superior, assegurando a incorporação das cosmovisões, valores, conhecimentos, saberes tradicionais, sistemas linguísticos, métodos de aprendizagem e modos de produção de conhecimento desses povos e grupos sociais.

(Cres+5, s.d., p. 14)10.

Portanto, consideramos que o projeto de pesquisa em internacionalização contribui para “alcançar a inclusão, diversidade e o papel da mulher na Educação Superior” (Cres+5, 2024) bem como para garantir os objetivos do Comitê Permanente de Ações Estratégicas e Políticas para Equidade de Gênero com suas interseccionalidades, conforme Portaria CAPES n° 215, de 10 de julho de 2024. Consideramos que o encontro das mulheres do Sul-Sul vem contribuindo para superar a realidade da solidão da mulher negra e indígena na universidade, solidão esta construída socialmente no contexto da matriz que impõe subalternização, exclusão e inferiorização promovida como sistema de racialização no ambiente acadêmico: Carine (2025, p. 145) depõe a esse respeito: “quando estava no mestrado, eu era uma das pouquíssimas estudantes negras da minha turma. Não tive nem professores negros ou negras. Era uma solidão racial tremenda e isso gerou um senso de não pertencimento, uma relação de estranhamento com aquele espaço”. Esse é o mundo real de mulheres indígenas e negras.

É no encontro que se torna possível o aprimoramento de nosso saber, ser e fazer em lógicas de redes de cooperação para além da ciência do colonizador, desnaturalizando-o como o único conhecimento válido, sendo preciso superar “a europeização cultural se converteu em uma aspiração” (Quijano, 1992, p. 1). Para isso, é fundamental o estabelecimento de relações de solidariedade epistêmica entre mulheres indígenas e negras como territórios estratégicos descoloniais do ambiente acadêmico e científico, desde a mirada Sul-Sul, cuja aspiração seja a superação do eurocentrismo no sistema de produção de conhecimento científico.

Notas conclusivas

Entre os resultados em conclusão, podemos considerar que a presença de mulheres negras como docentes e pesquisadoras nas instituições de ensino superior, no Brasil, abre portas para outras mulheres negras e, especialmente para mulheres indígenas na internacionalização de suas pesquisas e de suas culturas. Outro apontamento conclusivo constata que as trajetórias dessas docentes estão vinculadas às epistemologias que fundamentam a construção de uma ciência própria situada no paradigma emergente de produção de conhecimento Sul-Sul, em alternativa ao paradigma eurocêntrico. Ao mesmo tempo, as pesquisadoras em seu trabalho docente consideram a afirmação da América Latina como território educador, que, rejeitando a condição histórica de objeto do conhecimento nos marcos da racionalidade científica norte-eurocêntrica, assume uma posição de centralidade global no campo da ciência e da tecnologia.

É fundamental destacar que apesar dos marcos regulatórios de indução da internacionalização regional no eixo Sul-Sul, ainda predomina o imaginário eurocêntrico de nossas instituições brasileiras de que o êxito da internacionalização em seu elevado status social e acadêmico ocorre somente quando as missões de estudos são realizadas no norte global. Romper com esse imaginário social, que inferioriza as universidades latino-americanas, e incluir nos circuitos da internacionalização as instituições sob gestão indígena é uma obrigação ético-política de nosso tempo, uma ação na direção da reparação e da (re)conexão histórica.

Realizar esse intento a partir da matriz de gênero e etnia no Sul global agrega outra dimensão fundamental, diante da invisibilização de mulheres indígenas no contexto da ciência e da produção na universidade. O projeto de pesquisa financiado pelo Programa Abdias Nascimento estabelece que a interculturalidade entre os povos latino-americanos é fundamental para fortalecer uma rede de pesquisadores e os resultados, que ora demonstramos, indicam passos relevantes no desenvolvimento de estudos e pesquisas vinculados à realidade local da América Latina, e com foco na equidade científica de gênero e etnia e uma evidente contribuição ao alcance dos propósitos do projeto.

Ao colocar em evidência os desafios para ampliação do protaganismo das mulheres indígenas e negras na pós-graduação stricto sensu na universidade e na ciência se tornou inviável o cumprimento de parte da meta do edital, fato que demonstra na prática a realidade da sub-representação das mulheres indígenas nos PPGs. Esse dado, se for considerado pelas agências de fomento e financiamento da pesquisa, pode contribuir para o rompimento da reprodução do espelho eurocêntrico, estimulando a construção de um paradigma de ciência própria para se viver.

Produzir conhecimentos que evidenciem e atualizem os saberes do cotidiano, ao mesmo tempo problematizando os desafios dos territórios, também implica reaprender sobre o poder dos corpos femininos que foram historicamente inferiorizados e interditados. Na experiência apresentada, as mulheres articulam suas pesquisas aos corpos em movimentos que, negando a cultura do colonizador, reafirmam suas contribuições ao pensamento dissidente da matriz eurocêntrica.

Assim, esse encontro epistemológico e cultural do sul latino-americano ganha novas possibilidades de escrita de si, apresenta articulações inovadoras entre o feminismo comunitário indígena e o feminismo negro como territórios organizativos das pesquisadoras e do desenvolvimento de novas abordagens teórico-metodológicas. A presença de mulheres brasileiras e indígenas fortalece as interações epistêmicas e territoriais na perspectiva da superação do imaginário do colonizador, que não apenas produziu invisibilidade e interiorização de seus corpos, mas também do sistema patriarcal que confinou mulheres apenas em atividades da vida doméstica e a maternidade, como únicos caminhos possíveis. A participação de mulheres indígenas e negras na internacionalização de suas pesquisas e seus estudos demonstra que podemos construir alternativas críveis de que somos um campo fértil para produção de conhecimento de outra lógica de ciência sob causalidade e racionalidade distante das métricas eurocentradas.

É um encontro de uma ciência própria fundamentada no legado da memória histórica do que tem sido um conhecimento situado nas realidades e nas expectativas de uma vida para o bem viver. A contribuição histórica de mulheres indígenas e negras na ciência coloca como desafio a ampliação de suas presenças no ambiente acadêmico-científico e no processo de internacionalização, rompendo com a falácia do ego cogito da branquitude eurocêntrica, que ainda hegemoniza a ciência e que, muitas vezes, vê a internacionalização mais como indicador de avaliação positiva de seus PPGs do que um investimento voltado ao desenvolvimento de redes e temáticas de pesquisas duradouras vinculadas a uma matriz epistêmica para o bem-viver e voltada ao desenvolvimento em cooperação regional. É preciso superar o extrativismo epistêmico que dominou os séculos de exploração e subalternização dos conhecimentos e experiências produzidas no Sul-Sul.

É fato que o resultado principal reside nas aprendizagens recíprocas de mulheres negras com as mulheres indígenas como campo que gera oportunidades de parceria entre si nas universidades do Brasil e da Bolívia, ao mesmo tempo em que compartilham conhecimentos e experiências de proteção e preservação de suas comunidades originárias, dando sentido social ao conhecimento científico. A trajetória educacional e acadêmica dessas pesquisadoras indígenas e negras coloca no centro da discussão as questões da sub-representação na pós-graduação. Apesar das cotas, muitos programas de pós-graduação ainda encontram limites para garantir a inclusão étnica e equidade de gênero, base social de formação da população brasileira.

Assim, continuamos apostando que relações de solidariedade entre mulheres indígenas e negras são fortes vetores para internacionalização intercultural e regional Sul-Sul. Suas epistemologias na atualidade do trabalho docente e de pesquisas vinculadas aos seus contextos e experiências são como estratégias de enfrentamento ao patriarcado e de afrontamento à colonialidade do poder que confunde direitos com privilégios, política de equidade com política assistencialista e acesso como lugar unicamente da população branca, que se sustenta em um discurso de racialização para ocupar os lugares e os ambientes de produção de conhecimento, da ciência e da tecnologia.

1

O projeto cumpre todas as exigências do comitê de ética da Universidade Federal do Piauí (UFPI) e encontra-se cadastrado na Pró-Reitoria de Pesquisa (PROPESQI) com número protocolo: 23111.023585/2024-61 Registro: CCE-159-2024.

2

Projeto financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) no âmbito do Programa Abdias Nascimento (2024-2027) com registro: 88887.918350/2023-00 no SCBA.

Apoio e financiamento:

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES): ABDIASNASC2639801P / 88887.918350/2023-00 88887.918350/2023-00

Uso de I.A.:

A autoria afirma que não utilizou recursos de Inteligência Artificial (IA) em nenhuma fase do processo de preparação ou elaboração do manuscrito de sua autoria, incluindo, entre outros, recursos de geração de texto, imagens, código, resumos, traduções ou análises.

Revisão textual:

Normalização bibliográfica (APA 7ª Ed.), preparação e revisão textual em português: Reinaldo Rodrigues Monção Junior revisao@tikinet.com.br
Versão em língua inglesa: Claudia Doppler traduçao@tikinet.com.br

5

Original: “El Occidente, al conquistar y dominar a otros continentes, a otros pueblos, ha saqueado toda la riqueza física, artística y espiritual, y se ha llevado a su metrópoli como ‘botín de conquista’”.

6

Original: “La ciencia es el conocimiento de la realidad, el conjunto de principios y leyes que expresan una verdad. La ciencia es certeza. En consecuencia, decir ‘clase campesina’ al indio, decir ‘campesino’ al indio, no es ciencia; es una alucinación anti-científica”.

7

Original: “El indio, aunque se tiña su piel, aunque luzca su título de ‘doctor’, es ‘para siempre’ indio. Por tanto, piensa, siente y hace como parte natural de su sociedad, la sociedad índia”.

9

A primeira missão foi composta somente por mulheres indígenas, não houve participação de mulheres negras e quilombolas.

10

Original: “Promover la participación de representantes de los pueblos indígenas y afrodescendientes en la transformación de las IES, asegurando la incorporación de las cosmovisiones, valores, conocimientos, saberes tradicionales, sistemas lingüísticos, formas de aprendizaje y modos de producción de conocimiento de dichos pueblos y grupos sociale”.

Disponibilidade de dados:

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Autor correspondente:

Arantes, Maria do Socorro da Silva - Campus Ministro Petrônio Portela, Bairro Ininga, Teresina, PI, Brasil, CEP 64049-550.

Editora responsável:

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    11 Abr 2026
  • Revisado
    11 Jun 2026
  • Aceito
    26 Jul 2026
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