Open-access Banco de enxertos arteriais subcutâneos, um estudo piloto promissor: Modelo experimental em ratos

Resumo

Objetivo  Avaliar a permeabilidade e as alterações histológicas de enxertos arteriais subcutâneos fechados e abertos para subsequente anastomose.

Materiais e Métodos  Um total de 20 ratos Wistar machos foram separados em 2 grupos (fechado e aberto), submetidos à inserção de um enxerto autólogo de artéria carótida sob a pele inguinal por 7 dias e anastomosado à artéria femoral após esse período. No grupo fechado, as extremidades dos enxertos foram fechadas com fio de nylon 10-00 durante os 7 dias de armazenamento e, no grupo aberto, as extremidades foram deixadas abertas. A permeabilidade anastomótica foi avaliada imediatamente depois da anastomose e 24 horas após o último procedimento. Após a eutanásia, os enxertos foram submetidos à análise histológica.

Resultados  O grupo fechado apresentou 80% de permeabilidade imediata e nenhuma tardia, enquanto o grupo aberto apresentou 90% de permeabilidade imediata e 10% tardia. Em todos os enxertos, as células da íntima e média estavam deterioradas, sem infiltração inflamatória na região média do enxerto. Casos de infecção, hemorragia ou perda funcional do enxerto não foram observados.

Conclusão  As alterações histológicas notadas em todos os enxertos foram semelhantes àquelas observadas em outras técnicas de preservação de enxertos vasculares. Este estudo piloto descreve um método novo, promissor e de baixo custo para preservar enxertos arteriais sem desenvolvimento de infecção.

Palavras-chave
artérias; microcirurgia; modelos animais; ratos Wistar; sobrevida do enxerto

Abstract

Objective  To evaluate the patency and histological alterations of closed and open arterial grafts stored under the skin for subsequent anastomosis.

Materials and Methods  There were 20 male Wistar rats separated into 2 groups (closed and open), and an autologous carotid arterial graft was inserted under the inguinal skin for 7 days and anastomosed to the femoral artery after this period. In the closed group, the grafts extremities were closed with a 10-00 nylon thread stitch during the 7 days storage, while in the open group, the extremities were left open. The anastomotic patency was evaluated immediately after the anastomosis and after 24hours of the final procedure. After euthanasia, the grafts were subjected to histological analysis.

Results  The closed group presented 80% immediate and no late patency, whereas the open group presented 90% immediate and 10% late patency. All grafts presented with deteriorated media and intimal cells, without inflammatory infiltration at the mid-graft. There were no cases of infection, hemorrhage, or functional graft loss.

Conclusion  The histological alterations observed in all grafts were similar to those observed in other techniques for preserving vascular grafts. The present pilot study describes a new, promising, and low-cost method to preserve arterial grafts that did

Keywords
arteries; graft survival; microsurgery; models; animal; rats; Wistar rats

Introdução

O advento de técnicas microcirúrgicas, em especial da microanastomose vascular, possibilitou a ampla utilização de enxertos arteriais e o extenso desenvolvimento de práticas cirúrgicas em diversas especialidades.1

Cirurgiões plásticos usam retalhos livres microcirúrgicos para melhorar o fechamento de feridas complexas relaciona-dasatraumas, infecções, cirurgias oncológicas e deformidades congênitas. As técnicas clássicas ganharam notoriedade devido à sua versatilidade e bons resultados. De modo geral, o retalho anterolateral da coxa (ALT, do inglês anterolateral thigh)2 é coletado do ramo descendente da artéria femoral circunflexa lateral, possibilitando a obtenção de um retalho fasciocutâneo ou miocutâneo do músculo vasto lateral.

Outra técnica clássica e versátil é o retalho ósseo do rádio, obtido do antebraço. Sua versatilidade inclui cirurgias de reconstrução peniana3 e craniofacial.4

Além disso, o retalho livre musculocutâneo transverso do reto abdominal (TRAM, do inglês transverse rectus abdominis musculocutaneous) e o retalho perfurante da artéria epigás-trica inferior profunda (DIEP, do inglês deep inferior epigastric artery perforator) são usados para reconstrução mamária,5 sendo o último padrão-ouro para a reconstrução mamária com tecido autólogo.

Muitos outros retalhos foram descritos, cada um com suas especificidades e indicações. Há espaço para seu maior desenvolvimento, trazendo mais benefícios aos pacientes. No entanto, a trombose da anastomose ainda é a complicação mais grave. Devido à sua natureza multifatorial, o monitora-mento contínuo e cuidadoso desses retalhos pelas equipes médicas é essencial, pois as consequências podem ser devas-tadoras,com influência significativa sobreamorbidade.6,7 Nos casos em que a trombose de um retalho livre se torna irreversível, pode ser necessário explorar sítios doadores alternativos, o que pode levar a comprometimentos funcionais locais.

Um dos procedimentos cardíacos mais comuns é a cirurgia de revascularização do miocárdio, realizada por cirurgiões cardíacos. Atualmente, mais de 90% dos enxertos utilizados para revascularização do miocárdio são obtidos das artérias mamárias internas esquerdas. No entanto, outros pedículos vasculares também são usados, como a veia safena, além das artérias radial e mamária interna direita.8 A literatura acerca desse procedimento relata aumento da taxa de reoperação ao longo dos anos devido à degeneração inevitável do tecido enxertado.9 A taxa de reabordagem é de 5,11% em 6 anos10 e de 17,3% em 12 anos.9 Logo, é importante que a cirurgia comprometa o menor número possível de sítios doadores.

Cirurgiões vasculares realizam procedimentos para o tratamento de doenças vasculares periféricas para restabelecimento da circulação comprometida. A veia safena é comumenteusada para desvio dofluxo sanguíneo de artérias obstruídas nos membros inferiores.11 Os fatoresde riscopara o desenvolvimento dessas doenças estão associados ao estilo de vida e ao envelhecimento, aumentando o número de pacientes acometidos e, por conseguinte, a frequência de realização de cirurgias corretivas.12 Com o tempo, os enxertos vasculares têm sido utilizados em outras áreas cirúrgicas, como a neurocirurgia.13

Com o aprimoramento técnico nas últimas décadas, o desenvolvimento de múltiplos retalhos livres permitiu o acessoa regiões anatômicas com pedículos longos.14,15 Muitas vezes, algumas partes dos pedículos não são necessárias e são descartadas.

A microanostomose pode levar à trombose pós-operató-ria, exigindo um novo procedimento cirúrgico. Acreditamos que o excesso de pedículos descartados, especialmente os arteriais, pode ser colocado no tecido subcutâneo e, se necessário, utilizado como enxerto.

Ademais, a remoção de enxertos vasculares pode provocar complicações, como cicatrização da ferida, infecção, comprometimento da irrigação e drenagem dos tecidos, hematoma, dor e lesões nervosas.

A literatura relata a preservação subcutânea bem-sucedida de tecido autólogo, especialmente enxertos ósseos. A técnica demonstrou ser viável, com baixo custo, baixa taxadeinfecção ecominfiltradomononucleardeaproximadamente6%emum estudo com 50 pacientes,16 sendo mais satisfatória na preservação de tecido ósseo autólogo do que a criopreservação.17 O sucesso dacriopreservaçãodeenxertos vasculares também foi relatado,18,19 mas o alto custo dessa técnica limita seu uso, principalmente em países em desenvolvimento. Outra técnica de preservação é o armazenamento a frio,20 que pode ser realizado com glicerol21 e outras soluções, e vem sendo estudada por Alexis Carrel22 e outros desde 1910.

Acreditamos que é possível preservar o tecido vascular ao inseri-lo sob o tecido subcutâneo com boa taxa de sucesso, poucas complicações e baixo custo. Além disso, gostaríamos de avaliar se, em um banco de armazenamento, há diferença em termos de trombogenicidade ou degeneração tecidual entre enxertos arteriais com extremidades fechadas, devido a um ambiente intraluminal mais protegido, comparado a extremidades abertas.

Não encontramos informações sobre a criação de bancos de enxertos arteriais subcutâneos. Também não há estudos sobre a ocorrência de trombose, degeneração ou alterações inflamatórias relacionadas à inserção subcutânea desses enxertos, nem sobre a influência do armazenamento do vaso com extremidades abertas ou fechadas. Assim, este estudo teve como objetivo avaliar a viabilidade da criação de um banco de enxertos arteriais subcutâneos autólogos para utilização posterior, assim como analisar a possível degeneração durante o período de acomodação.

Objetivo

Este estudo teve como objetivo avaliar a viabilidade de enxertos arteriais subcutâneos fechados e abertos para pos-terioranastomose. Tambémavaliamos odesenvolvimentode processos degenerativos e inflamatórios após a anastomose término-terminal do enxerto e comparamos as diferenças entre os resultados obtidos com enxertos subcutâneos com extremidades fechadas ou abertas.

Materiais e Métodos

O Comitê de Ética no Uso de Animais aprovou este estudo sob número 1327/2019.

Os procedimentos foram realizados pelo mesmo pesquisador, devidamente treinado, em 20 ratos Wistar com peso entre 180 e 220 gramas, entre 90 e 120 dias de idade.

Primeiro Procedimento Cirúrgico

Os animais foram submetidos à anestesia inalatória com isoflurano (1mL/mL), utilizado tanto para indução quanto para manutenção da anestesia. Para a indução, os animais foram colocados em uma caixa específica e receberam um fluxo constante de oxigênio a 2 L/min e isoflurano (1mL/mL) a 80mL/min (equivalente a 4% do gás). Para manutenção da anestesia, o fluxo de oxigênio foi alterado para 700mL/min e o fluxo de isoflurano (1mL/mL) para 14mL/min (equivalente a uma taxa de gás de 2%).

Tramadol (5mg/kg), enrofloxacina (10 mg/kg) e cetopro-feno (5mg/kg) foram administrados por via intramuscular. A enrofloxacina e o cetoprofeno foram administrados uma vez ao dia durante3 dias, com a 1a aplicação realizada no período intraoperatório.

Utilizando um microscópio cirúrgico com aumento de 10x, a dissecção começou na região cervical, isolando a artéria carótida externa (►Fig. 1). Posteriormente, obteve-se um enxerto de 9mm desse vaso. Os ratos foram divididos aleatoriamente em 2 grupos: no 1o (grupo F, com 10 animais), o enxerto arterial foi fechado em suas extremidades distal e proximal com nylon 10-0 (►Fig. 2) e introduzido sob a pele da região inguinal. No segundo (grupo A, 10 animais, ►Fig. 3), o enxerto arterial foi introduzido sob a pele (►Fig. 4) sem oclusão das extremidades. Para introdução do enxerto, uma incisão de cerca de 15mm foi feita na região inguinal, dissecando o tecido subcutâneo local e alocando o enxerto esticado sem tensão para posterior sutura cutânea. Não houve troca de enxerto entre os ratos.

Fig. 1
Dissecção do enxerto da artéria carótida.

Fig. 2
Enxerto carotídeo fechado.

Fig. 3
Enxerto carotídeo aberto.

Fig. 4
Enxerto posicionado sob a pele.

Após a cirurgia, os ratos receberam água e comida ad libitum e permaneceram em repouso por sete dias com os enxertos alojados sob o tecido subcutâneo inguinal.

Segundo Procedimento Cirúrgico

Os animais foram submetidos à anestesia inalatória e ao tratamento analgésico, seguindo o mesmo procedimento.

O enxerto de 9mm da artéria carótida externa foi removido cirurgicamente do tecido subcutâneo (►Fig. 5). Em seguida, suas extremidades foram submetidas à ressecção e interpostaspor meio deuma anastomose término-terminal entre os cotos da artéria femoral (►Fig. 6). Para tanto, a artéria femoral foi dissecada e a adventícia removida no ponto escolhido para aanastomose, realizada a 10mm de sua origem sob o ligamento inguinal. O fluxo sanguíneo foi obstruído com o auxílio de uma pinça microvascular e a artéria foi seccionada.

Fig. 5
Enxerto removido do tecido subcutâneo após 1 semana.

Fig. 6
Enxerto carotídeo preparado para a anastomose na artéria femoral. Note a diferença de diâmetro entre o enxerto carotídeo e a artéria femoral.

Cada anastomose, distal e proximal, foi realizada com 12 pontos simples separados, utilizando nylon 10-0 e agulha cilíndrica. Durante o procedimento, foi utilizado um microscópio (DF Vasconcelos) com aumento óptico de 25 a 40x.

A permeabilidade do enxerto foi constantemente monitorada nos primeiros 20 minutos após anastomose. Para isso, foram realizados pulsação e o “teste do leite” (milk test), que consiste em constrição do vaso com duas pinças de micro-cirurgia e sua separação, de forma que um segmento dovaso, distal ao enxerto anastomosado, fique sem sangue. Em seguida, a pinça proximal é liberada e o fluxo sanguíneo é restabelecido. Nos casos em que o enxerto não apresentou pulsação e não houve retorno sanguíneo após o “teste do leite”, o resultado foi considerado negativo, com ausência de permeabilidade, sugestiva de trombose.

Após a anastomose do enxerto, os ratos foram mantidos em gaiolas separadas, com temperatura e luminosidade controladas. Os animais receberam dipirona sódica (100 mg/kg) por via subcutânea a cada 6 horas durante as 24 horas seguintes, além de água e ração ad libitum.

Teste de Permeabilidade e Eutanásia

Após 24 horas da anastomose do enxerto, os ratos foram novamente submetidosàanestesia inalatória, comojádescrito, e a permeabilidade da artéria enxertada foi avaliada quanto à coloração, pulsação e “teste do leite”. Nos casos em que o enxerto não apresentou coloração vermelho-claro, pulsação e ausência de retorno sanguíneo ao “teste do leite”, a permeabilidade foi considerada ausente, sugerindo trombose (►Fig. 7). Nos casos com coloração vermelho-claro, pulsação e “teste do leite” positivo, o enxerto foi considerado pérvio (►Fig. 8).

Fig. 7
Enxerto trombosado após 24 horas.

Fig. 8
Enxerto pérvio após 24 horas.

A eutanásia foi realizada com uma superdosagem de 120 mg/kg de tiopental intravenoso imediatamente após o teste de permeabilidade.

Análise Histológica

Os enxertos e anastomoses foram seccionados em formato retangular (►Fig. 9), fixados em solução de formol a 10% por 24 horas e embebidos em parafina. Em seguida, cortes longitudinais de 5µm foram obtidos e corados com solução de hematoxilina e eosina (HE) para avaliação histopatológica com cegamento dos pesquisadores. As lâminas foram analisadas e os espécimes avaliados quanto a alterações histológicas (integridade da camada muscular média e infiltrado inflamatório), de acordo com a International Harmonization of Nomenclature and Diagnostic Criteria for Lesions in Rats and Mice.23 Os achados dos grupos experimentais foram comparados a lâminas de artéria femoral retiradas dos membros não operados dos ratos 19 e 20 após a eutanásia. A incidência das alterações identificadas (em %) foi calculada para cada intervenção.

Fig. 9
Amostra de enxerto seccionado para análise histológica.

Análise Estatística

O teste de Fisher foi realizado para comparação da permeabilidade imediata e tardia entre os grupos, com intervalo de confiança (IC) de 95% e margem de erro de 5%.

Resultados

Os ratos foram numerados e aleatoriamente designados por sorteio cego entre os grupos “aberto” (A) e “fechado” (F), que tiveram a seguinte composição:

  • A: 1, 3, 5, 6, 8, 11, 12, 13, 18 e 20.

  • F: 2, 4, 7, 9, 10, 14, 15, 16, 17 e 19.

A ►Tabela 1 traz informações sobre a permeabilidade do enxerto em cada rato imediatamente, nos primeiros 20 minutos, e 24 horas após a conclusão da anastomose.

Tabela 1
Informações de ratos individuais

Estatísticas

A permeabilidade imediata (primeiros 20 minutos) no grupo A foi de 9/10 (90%) e no F de 8/10 (80%). Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos (p¼ 0,99).

A permeabilidade tardia (após 24 horas) no grupo A foi de 1/10 (10%), sem casos no grupo F (0%). Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos (p¼0,99).

Não houve nenhum caso de infecção na área inguinal de colocação do enxerto arterial em nenhum grupo.

Análise Histológica

A análise histopatológica demonstrou que todas as amostras de enxerto dosgrupos aberto efechado (100%) apresentaram degeneração da íntima e média, representada por: perda de detalhes nucleares e fragmentação de células endoteliais e musculares lisas (►Figs. 10, 11, 12).

Fig. 10
Enxerto pérvio do grupo aberto após 24 horas.

Fig. 11
Enxerto trombosado do grupo aberto após 24 horas.

Fig. 12
Enxerto trombosado do grupo fechado após 24 horas.

A análise também mostrou que todas as amostras de enxerto dos grupos aberto e fechado (100%) apresentaram reação de corpo estranho,24 nesse caso infiltrado inflamatório mononuclear, apenas nas linhas anastomóticas.

Nenhuma das amostras de enxerto dos grupos aberto ou fechado (0%) apresentou hipertrofia endotelial, ou infiltração inflamatória íntima ou na camada média do enxerto (►Figs. 10, 11, 12).

Estes achados também foram observados no enxerto de número 5 (►Fig. 10), que era pérvio 24 horas após a anastomose.

A avaliação das lâminas controles (►Fig. 13) mostrou que a camada íntima não tinha evidências de degeneração endo-telial, perda de detalhesnucleares ehiperplasia. Além disso, a camada média não apresentava evidências de degeneração, sem fragmentação de células musculares lisas nem perda de detalhes nucleares.

Fig. 13
Artéria femoral controle.

Discussão

Estudos demonstraram que a capacidade de endotelização do enxertovascular está relacionada à trombose, consistindo no crescimento da neoíntima sobre a parede interna do enxerto,25,26 próximo à anastomose. Além disso, a repopu-lação da camada média com novas células musculares também foi documentada,27,28 aumentando a funcionalidade do enxerto nos primeiros meses após o procedimento. Nossos achados indicam que o mesmo processo pode ocorrer em enxertos autólogos subcutâneos, com a vantagem de serem menos imunogênicos do que os não autólogos.28,29 Mais estudos são necessários para avaliar essas possibilidades.

Estudos também mostraram que o método de preservação com glicerol faz com que as células da íntima e da média se tornem inviáveis.Noentanto,amatriz extracelularécomposta por colágeno III, elastina, proteoglicanos e glicoproteínas, sendo responsável por uma parte importante da estrutura arterial.24,30 Assim, não há comprometimento da integridade funcional do enxerto arterial. Nossa análise histológica mostrou que as células musculares da camada média apresentavam núcleos sombreados, indicando que eram inviáveis e que as células endoteliais apresentam menor coesão entre si e núcleosdesintegrados(►Figs.10, 11, 12).Apesardisso,nãohouve casos de ruptura do enxerto, sugerindo a manutenção da capacidade funcional da artéria.

Em nossa avaliação, o infiltrado inflamatório mononu-clear estava presente apenas na linha anastomótica,24 o que era esperado devido à reação de corpo estranho.

Infelizmente, após 24 horas, a permeabilidade foi de apenas 10% no grupo aberto e nula no grupo fechado. No entanto, o único caso de sucesso (►Fig. 8) reforçou a viabilidade do método. Acreditamos que, no caso de anomalias histológicas relacionadas ao método de armazenamento, todos os enxertos teriam falhado e não permitiriam os 90% de permeabilidade no grupo A e 80% no F nos primeiros 20 minutos após a anastomose. Atribuímos a baixa taxa de permeabilidade final a aspectos do modelo animal utilizado e à ausência de tratamento profilático trombótico pós-cirúr-gico. O diâmetro total do enxerto carotídeo foi significativamente maior em comparação ao da artéria femoral (►Fig. 6) e nenhum tratamento antiplaquetário ou anticoagulante31 foi administrado.

A literatura relata taxas variadas de permeabilidade em microanastomoses de artérias femorais em ratos Wistar.32

Além disso, a utilização de coelhos como modelo animal pode ser válida em estudos futuros.

A baixa taxa de permeabilidade não deve diminuir os achados histológicos, que sugeremaviabilidade de um banco de enxertos arteriais autólogos subcutâneo. Essa técnica tem execução simples, baixo custo e baixa taxa de infecção, podendo aumentar a eficácia dos enxertos arteriais e reduzir a necessidade de maior exploração vascular.

Estudos futuros com análises histológicas mais detalhadas, incluindo cortes transversais de enxertos arteriais, poderiam avaliarsimultaneamente as trêscamadasdetecido arterial. Técnicas de coloração específicas podem ser empregadas para análise da estrutura elástica dos enxertos. Além disso, um período de recuperação maior permitiria a avaliação da formaçãode neoíntima, da possibilidade deestenose e do processo de repopulação.

O presente projeto é inovador e pioneiro. Nenhum estudo avaliou a possibilidade de criação de bancos de enxertos arteriais autólogos subcutâneos. Devido à sua novidade e grande dificuldade técnica, não se esperava um grande percentual de permeabilidade nos enxertos arteriais era esperada.

Todos os procedimentos foram realizados pelo mesmo pesquisador treinado usando a mesma técnica.

Uma porcentagemmaiorde anastomoses pode apresentar permeabilidade com a implementação de adaptações metodológicas. A permeabilidade do enxerto do rato número 5 nos incentiva a manter nossa linha de pesquisa e investir mais tempo e estudos nessa nova técnica, que pode beneficiar pacientes se aprimorada.

O modelo animal e a terapia antiplaquetária ou anticoagulante pós-operatória podem ser aprimorados e ter papel importante nos resultados de permeabilidade do enxerto. A análise histológica pode ter como alvo a matriz extracelular, responsável por manter a funcionalidade do enxerto arterial. Os achados de modelos animais devem ser interpretados com cautela quando extrapolados para uso clínico.

Conclusão

Depois do experimento, todas as amostras de enxerto dos grupos A e F apresentaram perda dos núcleos de células musculares lisas e redução da coesão entre as células endo-teliais. Não houve diferença estatística entre os grupos em termos de permeabilidade imediata e tardia.

As alterações histológicas presentes parecem ser semelhantes às observadas em outras técnicas utilizadas para preservação de enxertos arteriais. O presente estudo piloto descreveu um método novo, promissor e de baixo custo, sem casos de infecção.

Suporte Financeiro

Este projeto recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo número 2021/04429-8, sob responsabilidade do Professor Fausto Viterbo.

Comitê de Ética no Uso de Animais

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética no Uso de Animais sob número 1327/2019.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados serão disponibilizados mediante solicitação razoável ao autor correspondente (mat.scuracchio@g-mail.com).

Referências

  • 1 Mavrogenis AF, Markatos K, Saranteas T, et al. The history of microsurgery. Eur J Orthop Surg Traumatol 2019;29(02): 247–254. Doi: 10.1007/s00590-019-02378-7
    » https://doi.org/10.1007/s00590-019-02378-7
  • 2 Wong CH, Wei FC. Anterolateral thigh flap. Head Neck 2010;32 (04):529–540. Doi: 10.1002/hed.21204
    » https://doi.org/10.1002/hed.21204
  • 3 Gottlieb LJ. Radial Forearm. Clin Plast Surg 2018;45(03):391–398. Doi: 10.1016/j.cps.2018.03.009
    » https://doi.org/10.1016/j.cps.2018.03.009
  • 4 Haynes WI, de Boutray M, Kennel T, Boetto J. Osteocutaneous radial forearm free flap for anterior cranial base reconstruction: Technical note. Neurochirurgie 2021;67(06):606–610. Doi: 10.1016/j.neuchi.2021.03.009
    » https://doi.org/10.1016/j.neuchi.2021.03.009
  • 5 Jeong W, Lee S, Kim J. Meta-analysis of flap perfusion and donor site complications for breast reconstruction using pedicled versus free TRAM and DIEP flaps. Breast 2018;38:45–51. Doi: 10.1016/j.breast.2017.12.003
    » https://doi.org/10.1016/j.breast.2017.12.003
  • 6 van Gijn DR, D’Souza J, King W, Bater M. Free Flap Head and Neck Reconstruction with an Emphasis on Postoperative Care. Facial Plast Surg 2018;34(06):597–604. Doi: 10.1055/s-0038-1676076
    » https://doi.org/10.1055/s-0038-1676076
  • 7 Pohlenz P, Klatt J, Schön G, Blessmann M, Li L, Schmelzle R. Microvascular free flaps in head and neck surgery: complications and outcome of 1000 flaps. Int J Oral Maxillofac Implants 2012;41 (06):739–743. Doi: 10.1016/j.ijom.2012.02.012
    » https://doi.org/10.1016/j.ijom.2012.02.012
  • 8 Squiers JJ, Mack MJ. Coronary artery bypass grafting-fifty years of quality initiatives since Favaloro. Ann Cardiothorac Surg 2018;7 (04):516–520. Doi: 10.21037/acs.2018.05.13
    » https://doi.org/10.21037/acs.2018.05.13
  • 9 Maltais S, Widmer RJ, Bell MR, et al. Reoperation for Coronary Artery Bypass Grafting Surgery: Outcomes andConsiderations for Expanding Interventional Procedures. Ann Thorac Surg 2017;103 (06):1886–1892. Doi: 10.1016/j.athoracsur.2016.09.097
    » https://doi.org/10.1016/j.athoracsur.2016.09.097
  • 10 Gallo M, Trivedi JR, Monreal G, Ganzel BL, Slaughter MS. Risk Factors and Outcomes in Redo Coronary Artery Bypass Grafting. Heart Lung Circ 2020;29(03):384-389. Doi: 10.1016/j.hlc.2019.02.008
    » https://doi.org/10.1016/j.hlc.2019.02.008
  • 11 Moreira RWC, Costa PVA, Carrilho DDR. Tratamento da isquemia crítica de membros inferiores usando uma técnica híbrida. J Vasc Bras 2014;13(03):257-261. Doi: 10.1590/jvb.2014.043
    » https://doi.org/10.1590/jvb.2014.043
  • 12 Aboyans V, Ricco JB, Bartelink MEL, et al. Editor’s Choice - 2017 ESC Guidelines on the Diagnosis and Treatment of Peripheral Arterial Diseases, in collaboration with the European Society for Vascular Surgery (ESVS). Eur J Vasc Endovasc Surg 2018;55(03): 305-368. Doi: 10.1016/j.ejvs.2017.07.018
    » https://doi.org/10.1016/j.ejvs.2017.07.018
  • 13 Azadgoli B, Leland HA, Wolfswinkel EM, BakhsheshianJ, Russin JJ, Carey JN. Combined Direct and Indirect Cerebral Revascularization Using Local and Flow-Through Flaps [Revascularização cerebral direta e indireta combinada usando retalhos locais e de fluxo contínuo]. J Reconstr Microsurg 2018;34(02):103-107. Doi: 10.1055/s-0037-1606552
    » https://doi.org/10.1055/s-0037-1606552
  • 14 Godina M. Preferential use of end-to-side arterial anastomoses in free flap transfers. Plast Reconstr Surg 1979;64(05):673-682
  • 15 Deppe AC, Liakopoulos OJ, Choi YH, et al. Endoscopic vein harvesting for coronary artery bypass grafting: a systematic review with meta-analysis of 27,789 patients. J Surg Res 2013;180(01): 114-124. Doi: 10.1016/j.jss.2012.11.013
    » https://doi.org/10.1016/j.jss.2012.11.013
  • 16 Singla N, Singh SP, Gupta SK, Karthigeyan M, Radotra BD. Histo-pathology of subcutaneously preserved autologous bone flap after decompressive craniectomy: a prospective study. Acta Neu-rochir (Wien) 2014;156(07):1369-1373. Doi: 10.1007/s00701-014-2071-3
    » https://doi.org/10.1007/s00701-014-2071-3
  • 17 Baldo S, Tacconi L. Effectiveness and safety of subcutaneous abdominal preservation of autologous bone flap after decompressive craniectomy: a prospective pilot study. World Neurosurg 2010;73(05):552-556. Doi: 10.1016/j.wneu.2010.02.018
    » https://doi.org/10.1016/j.wneu.2010.02.018
  • 18 Kakodkar R, Nundy S, Soin AS. Use of banked cryopreserved veins from explanted recipient livers in living donor liver transplantation. Surgery 2008;144(01):93-95. Doi: 10.1016/j.surg.2007.10.008
    » https://doi.org/10.1016/j.surg.2007.10.008
  • 19 Špaček M, Mërička P, Janoušek L, et al. Current vascular allograft procurement, cryopreservation and transplantation techniques in the Czech Republic. Adv Clin Exp Med 2019;28(04):529-534. Doi: 10.17219/acem/90037
    » https://doi.org/10.17219/acem/90037
  • 20 Garbe S, Zatschler B, Müller B, et al. Preservation of human artery function following prolonged cold storage with a new solution. J Vasc Surg 2011;53(04):1063-1070. Doi: 10.1016/j.jvs.2010.10.093
    » https://doi.org/10.1016/j.jvs.2010.10.093
  • 21 Fahner PJ, Legemate DA, van der Wal AC, et al. Comparison of preserved vascular allografts using glycerol and University of Wisconsin solution in a goat carotid artery transplantation model. Eur Surg Res 2012;48(02):64-72. Doi: 10.1159/000334170
    » https://doi.org/10.1159/000334170
  • 22 Carrel A. LATENT LIFE OF ARTERIES. J Exp Med 1910;12(04): 460-486. Doi: 10.1084/jem.12.4.460
    » https://doi.org/10.1084/jem.12.4.460
  • 23 Berridge BR, Mowat V, Nagai H, et al. Non-proliferative and Proliferative Lesions of the Cardiovascular System of the Rat and Mouse. J Toxicol Pathol 2016;29(03):1S-47S. Doi: 10.1293/tox.29.3s-1
    » https://doi.org/10.1293/tox.29.3s-1
  • 24 Fahner PJ, Idu MM, van Gulik TM, van Wijk B, van der Wal AC, Legemate DA. Glycerol-preserved arterial allografts evaluated in the infrarenal rat aorta. Eur Surg Res 2009;42(02):78-86. Doi: 10.1159/000180114
    » https://doi.org/10.1159/000180114
  • 25 Pashova A, Work LM, Nicklin SA. The role of extracellular vesicles in neointima formation post vascular injury. Cell Signal 2020; 76:109783. Doi: 10.1016/j.cellsig.2020.109783
    » https://doi.org/10.1016/j.cellsig.2020.109783
  • 26 Wang Y, Xu Y, Yan S, et al. Adenosine kinase is critical for neointima formation after vascular injury by inducing aberrant DNA hypermethylation. Cardiovasc Res 2021;117(02):561-575. Doi: 10.1093/cvr/cvaa040
    » https://doi.org/10.1093/cvr/cvaa040
  • 27 Amensag S, Goldberg L, O’Malley KA, Rush DS, Berceli SA, McFe-tridge PS. Pilot assessment of a human extracellular matrix-based vascular graft in a rabbit model. J Vasc Surg 2017;65(03): 839-847.e1. Doi: 10.1016/j.jvs.2016.02.046
    » https://doi.org/10.1016/j.jvs.2016.02.046
  • 28 Massaro MS, Kochová P, Pálek R, et al. Decellularization of Porcine Carotid Arteries: From the Vessel to the High-Quality Scaffold in Five Hours. Front Bioeng Biotechnol 2022;10:833244. Doi: 10.3389/fbioe.2022.833244
    » https://doi.org/10.3389/fbioe.2022.833244
  • 29 Mangold S, Schrammel S, Huber G, et al. Evaluation of decellula-rized human umbilical vein (HUV) for vascular tissue engineering - comparison with endothelium-denuded HUV. J Tissue Eng Regen Med 2015;9(01):13–23. Doi: 10.1002/term.1603
    » https://doi.org/10.1002/term.1603
  • 30 Fahner PJ, Idu MM, Legemate DA, et al. Morphological and functional alterations in glycerol preserved rat aortic allografts. Int J Artif Organs 2004;27(11):979–989. Doi: 10.1177/039139880 402701111
    » https://doi.org/10.1177/039139880402701111
  • 31 DelMauro MA, Chen K, Keller A. Reducing Length of Stay after Microsurgical Breast Reconstruction with a Standardized Postoperative Protocol. J Reconstr Microsurg 2019;35(08):557–567. Doi: 10.1055/s-0039-1687916
    » https://doi.org/10.1055/s-0039-1687916
  • 32 Menezes Neto BF, Oliveira Neto FV, Secanho MS, Carvalho LB, Moragas WR, Fernandes MS. Submerged vascular anastomosis. A technique for vascular suturing in experimental microsurgery. Acta Cir Bras 2021;36(08):e360807. Doi: 10.1590/ACB360807
    » https://doi.org/10.1590/ACB360807

Endereço para correspondência

Matheus Scuracchio Fernandes, MD, Universidade Estadual Paulista (Unesp), Faculdade de Medicina, Departamento de Cirurgia, Av. Professor Montenegro, s/n, Botucatu, SP, 18618-687, Brasil (e-mail: mat.scuracchio@gmail.com).

Conflito de Interesses

Os autores não têm conflito de interesses a declarar.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    25 Abr 2025
  • Aceito
    01 Jul 2025
location_on
Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica Rua Funchal, 129 - 2º Andar / cep: 04551-060, São Paulo - SP / Brasil, Tel: +55 (11) 3044-0000 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: rbcp@cirurgiaplastica.org.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error