Open-access Mortes e produção de dados: perspectivas a partir de assassinatos políticos de ativistas na América Latina no século XXI

Deaths and Data Production: Perspectives from Political Assassinations of Activists in 21st-Century Latin America

Resumo:

Este artigo parte de uma discussão sobre como definir e medir um fenômeno, no caso, o das mortes e da produção de dados sobre as mortes de ativistas na América Latina no século XXI. Com base em uma metodologia mista, o texto discute a produção de pesquisas sobre assassinatos de ativistas na região. Além de uma revisão bibliográfica, o texto ilustra seu ponto com dados provenientes de pesquisas quantitativas prévias, com bases de dados originais e secundárias, sobre o assassinato de ativistas feministas, socioambientais e de movimentos mais atingidos na América Latina. Seu objetivo é discutir como são categorizadas, repertoriadas e contabilizadas as mortes de homens e mulheres engajados em lutas sociais na região. As conclusões versam sobre uma diversidade definicional dos ativistas, que aponta para três vieses na quantificação dos assassinados: viés necropolítico; viés ocidentocêntrico; e, por fim, um viés ciscêntrico.

Palavras-chave
assassinatos políticos; ativistas; América Latina; movimentos sociais; medição

Abstract:

This article starts with a discussion on how to define and measure a phenomenon, in this case, the deaths and production of data on the deaths of activists in Latin America in the 21st century. The article draws from a mixed-method methodology, addressing reflections on the production of research on activist murders in the region. In addition to a bibliographical review, the text uses data from previous quantitative research with original and secondary databases on the murder of feminist, socioenvironmental activists and targeted movements in Latin America. It aims to discuss how the deaths of men and women engaged in social struggles in the region are categorized, repertorized, and counted. Conclusions address a definitional diversity among activists, which points to three biases in the quantification of those murdered: necropolitical bias; Western-centered bias; and, finally, ciscentric bias.

Keywords
political assassinations; activists; Latin America; social movements; measurement

I. Introdução1

Criança Indígena Yanomami e Orlando Jorge Mera possuem nomes, sobrenomes, ocupações e trajetórias de vida completamente distintas. De início, Orlando tem nome e sobrenome, mas a indígena Yanomami não. Ainda assim, podem ser encontrados na mesma planilha sobre ativistas socioambientais assassinados entre 2011 e 2021, elaborada pela Organização Não Governamental (ONG) inglesa Global Witness (doravante, GW). Ambos se enquadrariam, então, na categoria “ativistas” da ONG, mesmo que não saibamos nada sobre a história de vida da primeira, caso a busquemos na internet, salvo o fato de que foi assassinada em 14 de abril de 2013, durante o mandato da então presidenta do Brasil, Dilma Rousseff.2 Já o segundo era o Ministro do Ambiente e de Recursos Naturais da República Dominicana, assassinado em junho de 2022, em seu escritório, por um pistoleiro, durante o mandato do ex-presidente do país, Luis Abinader. Sobre ele, há vasta informação disponível online.

Além da assimetria de atenção midiático-política entre a indígena Yanomami e o ex-ministro dominicano, sublinhamos como duas pessoas com posições distintas e assimétricas podem ser enquadradas na mesma categoria analítica: a de ativistas. Partindo da sociologia da quantificação, o artigo analisa a diversidade definicional e a medição dos assassinatos de ativistas na América Latina. Afinal, a onipresente quantificação em esferas estatais, científicas, públicas e privadas tem instado os cientistas sociais a refletir sobre como os dados são produzidos, comunicados e politizados (Camargo, Kopper e Motta, 2026). Para tanto, abordamos a circunscrição da identidade de ativista na região e analisamos como seus assassinatos são categorizados e repertoriados por ONGs, as principais criadoras de dados utilizados em políticas públicas e em trabalhos acadêmicos (Lynch, Stretesky e Long, 2018; Bebbington, Fash e Rogan, 2019; Albarracín, Karolczak e Wolff, 2025). Analisamos como a identidade ativista é acionada de forma casuística. A discussão considera os vieses das abordagens quantitativas para problematizar, de forma interseccional, as coletas de dados, os parâmetros (probabilisticamente brancos e masculinos) e a escolha do que será coletado.

A metodologia do presente artigo é mista, com foco qualitativo, centrada em uma discussão teórica sobre como definir e medir a produção de dados sobre as mortes de ativistas na América Latina. Contudo, o texto aborda discussões quantitativas ancoradas em bases de dados sobre o assassinato de ativistas feministas e socioambientais, além de uma base de dados dos movimentos sociais com maior número de assassinados na América Latina desde os anos 2000. Triangulamos as informações provenientes desses três bancos de dados distintos, construídos e coletados entre 2022 e 2024. Uma revisão bibliográfica orienta essas discussões, bem como as abordagens primárias e secundárias à produção de dados sobre a contagem de assassinatos políticos na região.

Em um primeiro momento, o artigo apresenta uma revisão da literatura sobre a sociologia da quantificação, que guia as seções seguintes. Em seguida, apontamos para a diversidade definicional da categoria de ativista na América Latina, majoritariamente informada pelos relatórios de direitos humanos produzidos no Norte Global. Discutimos a medição de suas mortes: como seus assassinatos são politizados e conceituados instrumentalmente, além de mobilizarmos a ideia de estatativismo no caso em questão, na América Latina. Finalmente, analisamos as implicações sociopolíticas de definir e medir o fenômeno com base em investigações anteriores e em bases de dados originais e secundárias sobre o assassinato de ativistas na região.

2. Aportes da sociologia da quantificação

Desde o surgimento da estatística no século XVII, a produção de dados quantitativos vincula-se tanto aos seus efeitos macropolíticos, quanto à construção de uma autoridade epistêmica. O interesse das ciências humanas pelo tema decorre da premissa de que a consolidação dos Estados modernos dependeu do conhecimento das populações. Foi por meio da identificação de regularidades, correlações e relações causais que os indivíduos passaram a ser moldados e governados (Desrosières, 1998; Camargo e Daniel, 2021; Ruppert e Scheel, 2021). Sob essa ótica, investigar a quantificação exige escrutinar a gênese das estimativas, os atores que as produzem, as funções legitimadoras que desempenham e as implicações políticas de se eleger determinado conjunto métrico em detrimento de outro (Andreas e Greenhill, 2011).

Já o interesse pela politização dos números remonta à década de 1980. A estatística (literalmente, do Estado), enquanto tecnologia de governo, é um objeto privilegiado para entendermos os contornos da percepção de um fenômeno social — no caso, os assassinatos políticos — e sua construção como problema público. Essa combinação de autoridades da ciência e do Estado funcionaria como prova numérica e, portanto, como descrição da realidade. Seu caráter estatal serve à ação sobre essa mesma realidade e constitui alvo de denúncia e de desconstrução das equivalências que sustentam a distinção social (Camargo e Daniel, 2021). Contudo, essa aparente neutralidade opera como um campo de disputas morais e políticas — dinâmicas acentuadas pelas desigualdades estruturais da América Latina —, delimitando assimetricamente quem possui a prerrogativa de medir, o que deve ser mensurado e como os resultados serão interpretados (Camargo e Kopper, 2026).

A sociologia da quantificação problematiza a pretensa objetividade dos dados. O paradoxo fundamental da linguagem estatística reside em seu caráter simultaneamente realista e relativista, isto é, embora alinhem categorias teoricamente dispersas e confiram consistência institucional a objetos complexos, os dados são sustentados por um sistema de convenções (Desrosières, 1998; 2014). O campo evidencia os diferentes atores e organismos envolvidos na produção, circulação e tradução dos números, assim como as limitações e escolhas subjacentes aos procedimentos estatísticos (Camargo, Lima e Hirata, 2021). Há, portanto, uma performatividade intrínseca aos números na vida pública, pois, ao mesmo tempo em que funcionam como ferramentas de coordenação social e de distribuição de recursos, as métricas exercem reatividade sobre os sujeitos, transformando a maneira como as pessoas pensam e agem sobre si mesmas (Almeida, 2021). Essa dimensão material e visual institui cartografias de poder, definindo o que pode ou não ser visto pelo Estado por meio da criação de grupos de risco e de outras categorias de governabilidade (Camargo, 2022).

Todavia, o esforço para enquadrar uma realidade intrinsecamente indócil torna a produção estatística um terreno propício a contestações. O debate contemporâneo sobre o feminicídio é paradigmático, visto que a instabilidade do conceito, as divergências conceituais nos movimentos feministas e as tipologias legais colocam os registros ativistas em constante fricção com os dados oficiais do Estado (Suarez Val, 2019). A conversão de qualidades em quantidades não é monopólio estatal, ela instrumentaliza a própria sociedade civil, que passa a recorrer aos dados para desafiar a inação governamental e reparar comunidades afetadas (Camargo, Lima e Hirata, 2021).

Além da sociologia da quantificação, os governmentality studies analisam o como medir: a produção de números, enquanto representações visuais de dados, exercendo efeitos de poder. Esse campo busca explicitar as racionalidades subjacentes a diferentes regimes de governo e a forma como somos governados no presente (Camargo e Daniel, 2021). Se o termo “ativista” nem sempre é bem definido, isso não impede que, quando assassinado, seu corpo seja contabilizado. Foge ao escopo deste artigo adentrar a discussão da governamentalidade, mas ressaltamos o quanto a contagem dos corpos dos ativistas pode ser pensada à luz da biopolítica, conceituada por Foucault: somos governados por nossa quantificação e pela capacidade de lamentar os mortos (Nelson, 2015; Foucault, 2009; Mbembe, 2018).

Para Butler (2021), o biopoder interroga a habitabilidade da vida, privilegiando alguns tipos de vida em detrimento de outros, como no controle de taxas de mortalidade/natalidade ou na priorização do tecido embrionário sobre as mulheres adultas.3 Nesse quadro, estatísticas oficiais (ex.: feminicídio) são incompletas, desatualizadas e subnotificadas devido ao estigma, à culpabilização das vítimas ou a interpretações jurídicas. Há uma vulnerabilidade e uma exposição diferenciadas dos corpos ao abandono, à doença e à morte (Butler, 2021). Ademais, o governo do sofrimento dessas vidas corporifica violências institucionais que estabelecem a precariedade de certas comunidades, se não sua dispensabilidade. Se e quando uma coletividade é tratada como passível de luto, ela pode ser reconhecida como uma população viva cujas mortes seriam lamentadas se suas vidas fossem perdidas. São as mortes excedentes de Hill Collins (2024), comparativamente mais encobertas e menos investigadas, implicando um “encorajamento institucional” à violência.

Esse encorajamento pode ser lido como uma prática necropolítica (Mbembe, 2018). Mbembe inflexiona o aforismo de Foucault (2009) sobre fazer viver, deixar morrer ao pensar em como a soberania do Estado justifica a incidência sobre corpos — específicos — para visar à morte. é a ideia de fazer morrer, deixar viver. Já não se trata da ausência de cuidado do Estado soberano, mas de suas políticas que promovem a morte de populações inteiras, pois são consideradas matáveis. O racismo e a colonização são essenciais para pensar tais formas de “morte-em-vida”, dada a reinvenção sistemática do seu fazer morrer.

As noções de biopolítica e necropolítica, portanto, revelam um tensionamento eminentemente político que reverbera na mensuração da violência letal (Tate, 2007). Assim como os métodos estatísticos auxiliam na delimitação de populações governáveis (Ruppert e Scheel, 2021), a identificação e o repertório de ativistas assassinados ocorrem de forma seletiva. Compreender os vieses subjacentes a essa contagem exige, fundamentalmente, analisar a etapa que precede a quantificação dos sujeitos: a definição analítica e nativa das categorias de enquadramento. Nosso foco está em saber como ativistas são nomeados quando identificados. Mesmo estando estável, o assassinato político de ativistas é categorizado e repertoriado de forma seletiva. E é nesse sentido que a interrogação sobre como medir considera vieses que descrevemos adiante. Consideramos a medição a partir de sua interface com a produção de dados, traduzida majoritariamente por estatísticas, mas, antes, analisamos a definição como etapa da quantificação dos sujeitos.

3. Como definir: definições analíticas, reflexividades nativas e politização da categoria ativista

A definição de ativista4 é polissêmica. Na literatura clássica dos movimentos sociais (Tilly, 1978; Fillieule e Neveu, 2019), o termo designa indivíduos que agem coletivamente com certo grau de organização e continuidade, operando, total ou parcialmente, fora dos canais institucionais para desafiar sistemas de autoridade (Snow e Soule, 2010; Saunders, 2013). Trata-se de uma atuação voltada a tensionar arranjos sociais que privilegiam as elites em detrimento de grupos marginalizados (Richie, 2012). Concomitantemente, o estatuto de ativista aplica-se a atores inseridos em protestos conjunturais (Almeida, 2019), materializados na figura do “Manifestante” — eleito Pessoa do Ano pela revista Time em 2011 após a onda de dissidência da Primavera árabe. Por ser uma categoria aberta ao engajamento tanto individual quanto coletivo, a figura do ativista prescinde de vinculação orgânica a um movimento formal. Contudo, exige uma práxis (manifesto, denúncia ou protesto verbal/não-verbal) orientada por um compromisso causal.5

A multiplicidade definicional da categoria ativista opera com diferentes inserções e definições de pessoas mobilizadas em ações coletivas. Para além da autodefinição ou da classificação por terceiros, há diferentes interpretações nos relatórios de direitos humanos. Além de ativistas, que incluem atores da sociedade civil que buscam proteger os direitos humanos, há, principalmente, “defensores dos direitos humanos” e “defensores da terra e do meio ambiente”. As muitas definições implicam sobreposições heurísticas. Enquanto Albarracín e Wolff (2024) delimitam que os ativistas atuam especificamente em movimentos sociais —em uma chave analítica acadêmica —, o léxico institucional se expandiu. O termo “defensores dos direitos humanos”, chancelado pela Organização das Nações Unidas (s.d.), ganhou força no debate público e passou a incluir atores institucionais, como advogados, juízes e políticos.

A operacionalização analítica da categoria ativista esbarra na quantificação dos sujeitos. Frequentemente, as produções acadêmicas dependem de dados sistematizados por ONGs do Norte Global, como as britânicas Business & Human Rights Resource Centre (BHRRC), Frontline Defenders e GW. Esta última adota o termo “defensores da terra e do meio ambiente” para designar pessoas que atuam em ações pacíficas contra a exploração prejudicial dos recursos naturais (Global Witness, 2022). Essa inovação terminológica atende a duas lógicas de sobrevivência institucional da sociedade civil: primeiro, assume um caráter genérico para abarcar casos de difícil conceituação de assassinatos no campo; segundo, o termo “defensores” possui melhor trânsito político-liberal, facilitando a captação de recursos junto a financiadores que evitam a associação com táticas radicalizadas.

Muitas ONGs partilham dessa elasticidade conceitual. A BHRRC, fundada por um ex-diretor da Anistia Internacional, adota ora termos como "guardiões" ou “heróis escondidos” (hidden heroes), ora a definição estrita do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos: “pessoas que, individual ou coletivamente, agem para promover ou proteger os direitos humanos” (Business & Human Rights Resource Centre, s.d.).6 Já a Oxfam (2023) amplia substancialmente o escopo de ativistas ao classificar como defensores quaisquer habitantes de áreas rurais ou periféricas latino-americanas (indígenas, quilombolas, camponeses) preocupados com o meio ambiente:

Habitantes de áreas principalmente rurais, embora também se localizem nas periferias das grandes cidades das diferentes regiões geográficas da América Latina. Nesta categoria, incluem-se mulheres, homens, meninas, meninos e adolescentes de povos indígenas ou originários, afrodescendentes rurais (garífunas, quilombolas, negros, afrocolombianos, raizales e palenqueros), pessoas camponesas (algumas delas falantes de línguas originárias, como o quíchua e o aimará em países como o Peru e a Bolívia) e pessoas mestiças preocupadas com o meio ambiente, seja a título individual ou reunidas em grupos, ONGs ecologistas locais, provinciais, departamentais, estaduais ou nacionais, e algumas delas vinculadas a ONGs internacionais de conservação e proteção ambiental (Oxfam, 2023, p. 7, grifo da autora).

Sublinhamos, nessa definição, o fato de a identidade e/ou o local de moradia, por si só, serem prerrogativas para que os sujeitos sejam “defensores da terra e do meio ambiente” e, a partir daí, seja construída uma narrativa e dados estatísticos sobre as violações cometidas contra eles. A prescindibilidade do engajamento em uma organização também constitui uma mutação relevante na literatura sobre movimentos sociais, o que leva ao alargamento, tanto nativo quanto analítico, da ideia de ativista. Paralelamente, é uma criança Yanomami (sem idade, entre outras informações ausentes) que aparece em um registro de assassinatos estrangeiros, mas não as 570 outras crianças deste povo que morreram de doenças preveníveis entre 2019 e 2023 (Pinto, 2025).

Assim, a construção social dos registros estatísticos sobre ativistas assassinados exige uma análise da posicionalidade das ONGs do Norte Global na mensuração do fenômeno. No Brasil, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), é o principal órgão responsável pela contabilização desses dados. Essa ONG de base registra as violências no campo desde 1985 em seus “Cadernos do Campo”,7 com foco nos conflitos e na qualificação das vítimas como “trabalhadores e trabalhadoras da terra” (Comissão Pastoral da Terra, 2025, p. 14). Estes englobariam “categorias camponesas, entre estas, comunidades tradicionais, assalariados rurais, indígenas e pescadores/pescadoras artesanais que vivem em espaços rurais e têm no uso da terra e da água seu sistema de sobrevivência e dignidade humana” (CPT, 2024, p. 14). Ao transpor analiticamente esses trabalhadores à chave de ativistas, opera-se uma extrapolação conceitual semelhante à do Norte Global. Contudo, o desencontro de critérios metodológicos e a escassez de dados institucionais fragilizam a análise transnacional: entre 2021 e 2023, a ausência de informações detalhadas levou a CPT a classificar a morte de diversos indígenas e sem-terra sob a rubrica "sem informação", o que limita as comparações espaciais.8

Na América Latina, Brasil, Colômbia e México concentram a maioria dos casos de assassinato de ativistas. Em contextos de regimes sob forte contestação ocidental, como os de Nicarágua e Venezuela, as definições e os dados sofrem forte tensionamento político, sendo frequentemente encampados sem a devida checagem empírica (Andreas e Greenhill, 2011). Por exemplo, o cenário pós-eleitoral venezuelano de 2024 registrou uma prolongada crise política desde a morte do ex-presidente Hugo Chávez e os escândalos de violações de direitos humanos.9 A disputa sobre o caráter desse governo explicita a politização da categorização de ativista. Em 2024, a ONG Human Rights Watch contabilizou o assassinato de 25 ativistas, entre outras violações de direitos humanos. Esta organização obteve informações de grupos independentes, incluindo organizações venezuelanas,10 e “descobertos nas mídias sociais” (Human Rights Watch, 2025, p. 21). Em que pese o importante trabalho de documentação das organizações no campo, há um uso indiscriminado das categorias de oposição ao regime na qualificação de sujeitos atuando por direitos humanos. Este revela uma preocupação pouco circunscrita analiticamente.

Foge ao nosso objetivo discutir o mérito político dessas crises, mas assinalamos que a politização casuísta da categoria ativista serve a um fim politicamente orientado, pois sua escolha revela críticas ao regime — invariavelmente da América Latina — que se quer criticar. Desde 2016, essa instrumentalização conceitual ocorre na Nicarágua, país cuja sucessão eleitoral tem sido realizada de forma suspeita, resultando na reeleição, por três mandatos consecutivos, do atual presidente Daniel Ortega, da FSLN. No Quadro 1, sintetizamos a amplitude definicional do conceito de ativista.

Quadro 1
Tipologias, escopos e implicações da categoria "ativista"

A amplitude definicional constitui um obstáculo heurístico, pois, ao inflacionar o conceito para abarcar indiscriminadamente qualquer opositor político sob a insígnia de ativista, a categoria perde sua capacidade explicativa. A elasticidade gera uma distorção de causa e efeito. Por exemplo, se um camponês é vitimado em uma disputa local de terras, comum, mas é contabilizado como "defensor dos direitos humanos", a estatística sugere uma perseguição deliberada ao ativismo, mascarando a ausência de regularização fundiária por parte do Estado. Além disso, a amplitude pode ser confundida com críticas ao sistema político e com discussões culturalistas baseadas em perspectivas do Norte Global, essencializando a corrupção como um atributo latino-americano.

Chama a atenção, por exemplo, um gráfico no sítio da GW (Figura 1) que associa maior corrupção — notadamente em países da América Latina — à alta probabilidade de assassinato de ativistas. O gráfico busca evidenciar que a maioria dos casos apresenta valores do índice de corrupção acima da média global. No eixo horizontal, consta o índice de corrupção do país; no vertical, o número de mortes de ativistas. A conclusão da leitura é que, quanto maior a corrupção, maior o risco de assassinato político. Contudo, essa interpretação se fundamenta em uma divisão arbitrária do gráfico, segundo a qual a maior parte dos países latino-americanos estaria em um nível de alta corrupção. Quem observa o gráfico ignorando a divisão proposta pela GW, pode chegar a uma conclusão inversa. Com exceção do outlier, que praticamente não apresenta assassinatos e se situa na região de menor corrupção, a relação parece negativa, ou seja, mais corrupção, menos mortes (Figura 1). Colômbia e Nicarágua ilustrariam essa relação negativa. A Colômbia tem corrupção média e mais assassinatos; a Nicarágua, maior corrupção e menos assassinatos. A conclusão, ambígua e provavelmente equivocada, não impede o gráfico de sugerir que a corrupção é um atributo latino-americano, o que implicaria maiores chances de assassinatos de ativistas.

Figura 1
Gráfico de Dispersão de países mais corruptos e quantidade de assassinatos da ONG GW

é salutar fortalecer as iniciativas de produção de dados sobre ativistas assassinados na América Latina, mas é preciso analisar sua qualificação enquanto sujeitos dessas estatísticas. A definição abrangente e amplamente utilizada de defensores dos direitos humanos pela ONU, como “qualquer pessoa ou grupo de pessoas trabalhando para promover direitos humanos” (UN OHCHR, 2004, p. 6), é parcial, especialmente quando instrumentalizada para abordar os assassinatos latino-americanos. Entre definições analíticas, autodefinição e reflexividade nativa, a politização da categoria ativista frequentemente serve de crítica, com diferentes vieses; portanto, a medição desses dados é analisada no próximo tópico deste artigo.

4. Como medir: seletividade na produção e estatativismo na América Latina

Nesta seção, discutimos a seletividade na produção de dados sobre assassinatos políticos de ativistas na América Latina, com base em registros de ONGs que contabilizam esses casos. Essa abordagem oferece um panorama transversal, mas homogeneíza lutas sociais distintas e apaga informações relevantes. Os ativistas, portanto, constituem uma categoria coletiva “dispensável”. Seu assassinato não só não é circunstancial, mas demonstra intersecções letais, dado que, se o perfil fosse o de “homens brancos, ricos e de meia-idade”, os resultados de seus confrontos seriam distintos. Há uma sinergia entre os múltiplos sistemas de poder que promoveram essas mortes. A rotinização dos assassinatos desses ativistas pode ser analisada sob lentes semelhantes às do assassinato de jovens negros pela polícia no contexto estadunidense. As institucionalidades envolvidas convergem, inclusive, em regras não escritas de raça e de gênero (Hill Collins, 2024).

Além das questões de biopoder envolvidas no como medir, há os dados ausentes (missing data). Estes revelam lacunas nas informações oficiais – "atos de omissão e comissão do Estado" (Menjívar e Walsh, 2017, p. 222) que reforçam a impunidade. Um exemplo é a produção estatal de dados sobre ativistas, ausente ou imprecisa, na Bolívia, Brasil, EUA, Espanha e Porto Rico. Obter informações por meio de pedidos de acesso exige o que María Salguero chama de "peregrinação burocrática": tempo, dinheiro e conhecimento jurídico indisponíveis para ativistas (Madrigal et al., 2019).

Ainda assim, o como medir pode ser feito pela sociedade civil. Não raro, atores não estatais recorrem ao estatativismo (statactivisme, no original em francês) de Bruno, Didier e Prévieux (2014): práticas de quantificação com fins críticos e emancipatórios. A prática abrange desde a denúncia de falhas nas estatísticas públicas até a elaboração de indicadores alternativos. O estatativismo pode estar dentro ou fora das instituições, e sua crítica depende da precisão dos instrumentos e da solidez das redes que sustentam os números (Desrosières, 2014). Tais formas de ação compõem um campo de resistência (Camargo, Lima e Hirata, 2021). O uso militante da estatística como crítica (Camargo e Kopper, 2026) é frequente em coletivos produtores de “contradados” que denunciam desigualdades e invisibilidades. Essas experiências constatam falhas ou lacunas nas estatísticas, elaboram indicadores alternativos e denunciam grupos invisibilizados ou ocultados pelas estatísticas oficiais (Bruno, Didier e Vitale, 2014; Camargo e Kopper, 2026). Quando há contradições internas em um sistema estatístico ou preconceitos em que ele se baseia, o estatativismo evidencia a ausência de neutralidade ou de imparcialidade. Tal elaboração alternativa de indicadores pode servir de base para intervenções políticas.

A denúncia, por parte de grupos de defesa de direitos humanos e ONGs, dos sujeitos ou grupos ocultados pelas estatísticas oficiais pode ser acompanhada pelo uso dessas estatísticas para criar ou consolidar tais grupos como categorias. As experiências estatativistas possibilitam a defesa ou a reivindicação de direitos por meio da mobilização da opinião pública, do enquadramento e da categorização de um problema público. Contudo, Camargo e Daniel (2021) sublinham que essas práticas variam do reformismo ao conservadorismo — incluindo a manipulação de regras avaliativas em benefício próprio.

Na América Latina, há diversas iniciativas de estatativismo. Aqui há uma ambiguidade: os dados produzidos pelas ONGs seriam fruto de iniciativas cidadãs ou seriam terceirizados pelo Estado? O que sabemos é que onde os registros oficiais falham, ativistas e organizações da sociedade civil frequentemente preenchem lacunas. Entre outras iniciativas, o monitoramento cidadão de feminicídios tem, nas últimas décadas, passado de um registro manual de casos de feminicídio à produção de dados em formatos digitais (D'Ignazio et al., 2022). Nesse contexto, o movimento #NiUnaMenos é um exemplo de ativismo de dados do Sul (Chenou e Cepeda-Másmela, 2019). Outro exemplo é o mapeamento realizado pelas autoras do projeto Data + Feminism, que reúne mais de 150 iniciativas globais que contabilizam feminicídios.

As ativistas envolvidas na contraprodução de dados são responsáveis pela pesquisa e sistematização de novos casos e pela obtenção de mais informações sobre os já identificados. O seu modo de medir é eminentemente manual, com alertas online, notificações automatizadas e contatos com ativistas. Os desafios nessa sistematização incluem resultados duplicados, falta de informações sobre veículos locais e de contexto sobre vítimas e agressores. Ademais, há uma assimetria na cobertura jornalística que recai sobre capitais e grandes cidades, ignorando as áreas rurais. Isto é compensado por veículos locais e alternativos, o que torna o trabalho mais complexo em países grandes como a Argentina e o Brasil.

Considerando as etapas do processo estatístico descritas por Desrosières (1998), lançamos luz, em especial, sobre a classificação e a interpretação dos dados relativos a ativistas assassinados. O que criticamos, neste trabalho, são os vieses ao classificar os sujeitos como ativistas e ao interpretar suas ações ex post, a partir do local de moradia, por exemplo, que os tornariam “defensores da terra e do meio ambiente”. No caso brasileiro, as estatísticas da CPT sobre ativistas assassinados são habitualmente utilizadas por outras bases de dados. O como medir da organização baseia-se na terra. A fineza do dado cria uma dependência de trajetória, colocando a medição cidadã em encruzilhadas nativas e analíticas — tema que abordamos empiricamente no próximo tópico.

5. Como definir e como medir: vieses na contagem de ativistas assassinados

Metodologicamente, buscamos mapear e analisar padrões nos assassinatos de ativistas na América Latina. As duas bases primárias do artigo foram construídas pela pesquisadora a partir de pesquisa hemerográfica em jornais de circulação nacional e regional e de relatórios de direitos humanos produzidos por ONGs que documentam assassinatos de ativistas. A primeira base de dados focou nos assassinatos de ativistas feministas (2015-2022) e a segunda mapeou os movimentos sociais com o maior número de ativistas assassinados em um período mais amplo (2000-2024). A terceira base, de natureza secundária, contém dados da GW sobre assassinatos de ativistas socioambientais (2012-2023).

Nas duas bases originais, a pesquisadora aplicou critérios de classificação próprios, alinhados às categorias mobilizadas pela GW, buscando compatibilizar a coleta e garantir a comparabilidade mínima dos dados. Os dados incluem casos de ativistas menos conhecidos, o que permite inferências analíticas sobre padrões recorrentes de vitimização. A partir de uma busca em jornais locais, complementada por uma revisão da literatura especializada, construímos um conjunto de dados que incluiu figuras populares que defendiam mudanças na região e casos paradigmáticos de ativistas latino-americanos com visibilidade internacional e forte conexão com movimentos socioambientais. Há a possibilidade de que algumas mortes de ativistas menos proeminentes tenham sido ignoradas. Nem todos os países da região documentaram casos de ativistas assassinados ou de movimentos sociais particularmente vitimados.

Apesar da riqueza da coleta, a metodologia reconhece os vieses e as implicações analíticas inerentes às bases de dados originais. A principal limitação comum às fontes é a ausência de informações hemerográficas detalhadas sobre os perpetradores dos assassinatos. Com seus próprios vieses na seleção dos casos, o artigo se engaja criticamente com o recorte dos dados, que privilegia ativistas feministas e socioambientais, questionando o que a omissão de outras categorias de ativistas revela sobre as bases e os resultados obtidos. A base de dados secundária sobre ativistas socioambientais registrava 1.355 casos de assassinato ao longo de 11 anos. Esta foi complementada pelas variáveis: "raça", "transfeminicídio", "autoria presumida", “liderança”, “número de vítimas” e dados contextuais sobre o governo e a violência contra mulheres.11 Isso exigiu um olhar atento às formas pelas quais ativistas são selecionados e contabilizados, transformando os vieses de produção e de classificação dos dados em eixo central da análise. Após a revisão da literatura e a coleta de registros hemerográficos em bases de dados online, elaboramos algumas tabelas cruzadas no Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). Uma equipe de três pessoas coletou os dados e a coordenadora do projeto os revisou.

Isso posto, na experiência de quantificação e análise dos assassinados, observamos três vieses principais. O viés necropolítico ignora o registro dos matáveis e torna difícil identificá-los; ou seja, os ativistas são desaparecidos por muitos anos ou mortos em ocasiões como protestos e marchas, e essa própria condição multitudinária dificulta sua identificação e a produção de conhecimento sobre esse sujeito. Já o viés ocidentocêntrico12 classifica não ativistas como ativistas e os posiciona contra regimes criticados pelo Ocidente, de modo que não é possível encontrar vinculação com causas sociais prévias dos referidos nas bases de dados das ONGs. Seu ativismo, portanto, parte de uma extrapolação analítica — e politicamente orientada — de classificadores externos. Finalmente, o viés ciscêntrico negligencia os dados de populações trans assassinadas, ora misgenerificando os sujeitos ao usar seu registro de identidade de nascimento, ora despolitizando seu ativismo, principalmente o de transativistas, de modo que a causa de sua morte é reduzida a uma cena de vingança por não pagamento por serviços sexuais, por exemplo. Os dois primeiros podem ser observados de forma superposta, isto é, é possível que uma morte seja qualificada sob um viés ocidentocêntrico por razões políticas dificilmente identificáveis e, logo, sob um viés necropolítico. Tais vieses são mais recorrentes na produção de estatísticas oficiais do que em iniciativas estatativistas, o que não significa que as bases de dados primárias que embasam a pesquisa não incorram nesses vieses.

Na base de dados sobre o assassinato de 177 feministas na América Latina, entre 2015 e 2023, incorremos em um viés ciscêntrico. Esse viés auxilia a pensar a contagem dessas mortes excedentes (Hill Collins, 2024), ou mortes sem sentido, para Butler (2021) — explicitado pela subestimação e pelo apagamento desses corpos e pela subsequente produção desses dados. Afinal, 40% das vítimas de assassinato político desta base de dados são mulheres trans, brutalizadas ou mortas por serem feminilizadas (Gomes, 2025). O choque momentâneo decorrente dessas mortes decorre de sua subordinação ao status de “matáveis”. A dimensão institucional dessa violência se observa em sua reprodução. A existência dessas populações depende de um status legal-institucional para solicitar ajuda, envolver estruturas legais e atrair atenção midiática. Mas sua nomeação frequentemente apaga ações, redes de apoio e formas de solidariedade (Butler, 2021).

O viés ciscêntrico da mídia raramente registra (ou registra incorretamente) raça, etnia ou a identidade tribal das vítimas e frequentemente misgenerifica pessoas trans assassinadas (D'Ignazio et al., 2022). A ausência de informações sobre os transfeminicídios, aliada à presença deliberada de informações, como o nome morto dessas ativistas, tem implicações. As iniciativas estatativistas que contam tais feminicídios buscam rememorar a vida dessas mulheres, sem enfocar seus ativismos, como no sítio Trans Lives Matter, surgido na esteira da comemoração do Dia da Memória Transgênero (Transgender Day of Remembrance).13 Esse exemplo busca contornar o viés ciscêntrico das estatísticas oficiais.

Nessa base de dados, observamos o viés necropolítico nos feminicídios de mulheres em posições de alta visibilidade, especialmente lideranças comunitárias que atuam em territórios ancestrais. Adicionalmente, há uma assimetria nas posições ocupadas por feministas de alta visibilidade — frequentemente envolvidas em outros ativismos —, como Berta Cáceres, assassinada em Honduras em 2016, e Marielle Franco, assassinada no Brasil em 2018, cujas presenças nas redes sociais são abundantes, e as demais. Essas possuem menor visibilidade e, consequentemente, menor presença de informações online; assim, apesar de se encaixarem no viés, aparecem com menos frequência. Esse é o caso de cerca de 70% das mulheres envolvidas em ativismos comunitários e cotidianos na base de dados, cujos assassinatos ocorreram em condições obscurecidas pelas próprias circunstâncias, sem a devida investigação e prossecução legal, e sem informações sobre seus perpetradores.

Já na base de dados sobre movimentos com o maior número de ativistas assassinados entre 2000 e 2024, observamos um viés ocidentocêntrico. Há uma ausência de comoção diante dos assassinatos de 271 ativistas das Juntas de Acción Comunal (JAC) e de 98 ativistas da União Patriótica (Unión Patriótica, UP),14 na Colômbia. No Brasil, 55 ativistas do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) foram assassinados no mesmo período. Os 680 homens e 126 mulheres assassinados, organizados em movimentos que aparecem como os mais visados, espelham uma tendência observada entre os ativistas assassinados em geral, tanto os inseridos em organizações colombianas de ativismo comunitário, quanto os de “luta pela terra”. Saber quem são essas mortes excedentes nos ajuda a entender como elas foram definidas e medidas. O viés ocidentocêntrico dessa base também se evidencia na sobrerrepresentação de lutas agrárias, campesinas e indígenas protagonizadas por organizações na Guatemala e na Colômbia. Com base nos levantamentos da GW e da Front Line Defenders, evidencia-se que uma parcela significativa da violência se dirige a ativistas envolvidos em questões fundiárias e ambientais (Albarracín e Wolff, 2024).

Esses dados levantam o desafio central de qualificar as heteronomias envolvidas nesses assassinatos: o ativismo deve ser definido pela inserção pontual em alguma luta ou pela participação continuada em uma ou mais lutas na região? Os desafios são próprios da contagem desses corpos. Além do viés ocidentocêntrico, contar as mortes com base em seus movimentos de origem incorre em vieses na classificação analítica de ativistas pelas organizações e da pesquisadora. Há também o risco de subdimensionamento da problemática, tendo em vista o caráter eminentemente rural de suas lutas, em contagens realizadas em grandes cidades, no Norte e no Sul Global.

Por sua vez, o viés necropolítico pode ser observado nos frequentes massacres15 contra ativistas socioambientais. Da mesma maneira que a criança indígena Yanomami, assassinada em 2013, vários desses assassinatos ocorreram no âmbito de massacres, cujos alvos são ativistas, mas também familiares e companheiros de ativismo. Consideramos massacres o assassinato de mais de duas pessoas em uma mesma situação, entre homens e mulheres, com quase 89% das vítimas sendo homens. Tais eventos, 24% dos eventos letais registrados na base, incluem de 2 a 17 mortos na mesma ocasião. Francisco (2004) define massacres como assassinatos de dissidentes perpetrados pelas forças do Estado em países não democráticos. Não nos restringimos às forças estatais nessa base de dados. Na Tabela 1, sintetizamos os principais vieses dessas bases.

Tabela 1
Bases de dados e principais vieses identificados

6. Considerações finais

Na definição e produção dos sujeitos contabilizados, sublinhamos a escolha de alguns indígenas (nomeados e “sem nome”) que compõem a amostra das ONGs e a negligência de outros tantos assassinados na região. Qual o critério para a inclusão de certos indígenas, se não uma escolha política para sublinhar o tratamento dado ao ativismo por certos governos? O ano de 2018 exemplifica o viés ocidentocêntrico. O assassinato, em março, da indígena González López Yaneth, da tribo Triqui, em Oaxaca, no México, consta no relatório da GW. Contudo, o assassinato, ocorrido em novembro, do líder indígena Reinaldo Silva Pataxó, na aldeia Catarina Caramuru Paraguassú, na Bahia, Brasil, não. Dentre as razões para a ausência de informações sobre seus casos, destacam-se as limitações na contabilização desses corpos, que envolvem diversos fatores, entre os quais a limitação de informações das ONGs. A contabilização das mortes excedentes é feita de forma artesanal e seu caráter estatativista implica insuficiências estruturais e logísticas. Já a chancela estatal dessas mortes e o reconhecimento de sua existência envolvem estruturas legais e atenção midiática subsequente, bem como ações, redes de apoio e formas de solidariedade, como sublinha Butler (2021).

Afinal, saber “quantos eram” e “quantos são” marca a relação dos indígenas com o Estado brasileiro, e as respostas a essas perguntas foram essenciais às lutas dos movimentos sociais indígenas. Os dados quantitativos dizem respeito não apenas à experiência demográfica das populações indígenas, mas também à construção de sua identidade (Guimarães, Simoni e Santos, 2026). E, portanto, quer exógena, quer endógena, a nomeação e a contabilização de uma criança indígena Yanomami, em posição de simetria com sujeitos em cargos políticos, constituem uma extrapolação analítica com implicações nos vieses analisados neste artigo.

Aqui, a pluralidade definicional do conceito de ativista é contraposta à ampla ideia de defensores dos direitos humanos, reconhecida pela ONU. O uso de “guerreiras” no coletivo Guerreras por la Amazonia16 e os distintos usos da BHRRC — por exemplo, "guardiões” e “heróis” — e da OXFAM, que inclui "habitantes de áreas rurais" por identidade/local de moradia, reforçam a tese do alargamento nativo e analítico, que, de certa forma, esvazia o rigor da categoria. O objetivo do artigo não é desqualificar as iniciativas estatativistas que alçam crianças à categoria de ativistas,17 por exemplo, mas sim circunscrever o fio que conecta esses sujeitos à ação coletiva organizada em movimentos de mudança social.

A amplitude do termo não tem impacto exclusivamente analítico. No limite, a governamentalidade da existência desses sujeitos, considerados ativistas ou não, passa pela ausência de provas que venham à tona. Wright (2017) sublinha a governança dos desaparecidos no México; por exemplo, é preciso, em primeiro lugar, provar que o desaparecido existiu. As implicações práticas incluem documentos como certidões de nascimento, registros educacionais e médicos, identificação do governo digitalizada e licenças de casamento, invariavelmente falhando em comprovar a existência desses sujeitos. Se não há injustiça sem crime, não há nada a exigir. A ausência de dados empíricos (uma falta gerada pelo governo que, direta ou indiretamente, autoriza o desaparecimento) é uma ignorância epistemológica (não há nada, nem maneira de saber).

Argumentamos que a pluralidade definicional acadêmica, do terceiro setor e do Estado sobre os ativistas, aliada aos desafios inerentes às condições de vida e aos assassinatos desses, amplia a margem de discricionariedade no esforço de contagem desses corpos. Contudo, essa margem, tematizada pela sociologia da quantificação, busca maior consciência dos vieses na construção das bases de dados utilizadas no estudo da morte de ativistas. Os três vieses trabalhados no artigo – necropolítico, ocidentocêntrico e ciscêntrico – revelam as discricionariedades na contagem de corpos de determinados sujeitos e, portanto, o subdimensionamento do problema público envolvido. O exemplo da correlação entre corrupção e assassinato político mobilizado pelo gráfico da GW é emblemático do viés ocidentocêntrico, que instrumentaliza as mortes de ativistas para criticar o sistema político de determinados países.

Corroboramos a perspectiva de Hill Collins (2024) de que, se a morte não é uma certeza, a violência é, sim, um dado para as pessoas envolvidas em lutas sociais na região. Especificamente no caso de feminicídios de ativistas, sublinhamos que o aumento da contraprodução dos dados não foi acompanhado por iniciativas que discutam as inserções políticas dessas mulheres. Apesar da reconhecida proeminência das mortes de lideranças masculinas e femininas em diferentes causas na América Latina, não há uma teorização robusta sobre quais eram os papéis desses sujeitos no campo e sobre como suas mortes eram contabilizadas. As “interseções letais” (Hill Collins, 2024) são uma certeza para grupos marginalizados pela violência estatal, como pessoas negras e pobres.

Finalmente, reforçamos que a presença do assassinato, em abril de 2013, de uma criança indígena Yanomami em uma base de dados de uma ONG inglesa não representa uma ruptura, mas sim mais uma continuidade das violências sofridas pelos indígenas. Em fevereiro de 2023, o site da BHRRC noticiou o assassinato de três indígenas Yanomami, em Roraima, no Brasil, por garimpeiros. Também, como continuidade, nenhum dos nomes desses sujeitos foi apresentado. Reforçamos que lacunas na contagem de mortes de ativistas se beneficiariam da mobilização da sociologia da quantificação para contornar os vieses que perpetuam a governabilidade da inexistência desses corpos e subdimensionam a violência que lhes é dirigida.

Declaração de uso de IA

Durante a preparação deste artigo, a autora utilizou o DeepSeek para revisão ortográfica e gramatical e para a formatação das referências. A autora assume a responsabilidade pelo conteúdo publicado.

Declaração de disponibilidade dos dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis mediante solicitação.

Financiamento

Este artigo é resultado de uma pesquisa financiada pelo CNPQ.

1

A autora gostaria de agradecer a parceria de Julia Hartviksen, Laurie Denyer Willis e Roxana Cavalcanti, bem como as importantes contribuições dos pareceristas anônimos da RBCS, de Rodrigo Cantu de Souza e de Guilherme Figueredo Benzaquen. Sou, contudo, responsável pelo resultado final deste artigo.

2

Chamo a atenção para o registro incompleto de outros três homens “índios Yanomami” que constam no referido banco de dados. Os únicos dados a seu respeito são o ano de seu assassinato, 2013, e o fato de que se deram durante o governo de Dilma Rousseff, no Brasil. No mais, não há mais nenhuma informação relevante sobre quem seriam e qual sua atuação.

3

Foge ao escopo deste artigo abordar as implicações das políticas antiaborto em vários países do mundo, inclusive no Brasil. Para uma análise mais aprofundada, ver Delajustine (2023).

4

Doravante, a categoria ativista em itálico designará a categorização analítica realizada pela universidade e/ou organismos multilaterais, enquanto a categoria ativista, sem itálico, dirá respeito às identificações nativas dos e das sujeitas no campo.

5

Há uma discussão sobre o uso do termo ativista, ou seu equivalente funcional, mais frequente em perspectivas nativas, que é a ideia de “militante”, também usado em inglês “militant”. Na América Latina, o segundo termo é mais frequente, em sua etimologia latina ("servir como soldado"), o que denota uma relação menos distante com a violência (Gomes, 2016). Na bibliografia anglo-saxã, observamos o uso de “militant” quando o ativismo está ligado à luta armada, ou às organizações que reivindicam o uso de ações diretas.

6

Tradução da autora.

7

Que podem ser lidos na íntegra em seu sítio eletrônico: https://cptnacional.org.br/acervo/conflitos-no-campo/.

8

A respeito da contagem realizada pela CPT, ver Rolemberg (2026).

9

A ascensão de Nicolás Maduro ao poder, contestada e caracterizada por crescentes restrições às liberdades civis e à autonomia do legislativo, solidificou uma trajetória de autocratização. A erosão das instituições democráticas, potencializada pela dependência exclusiva da renda petrolífera em declínio e pela repressão aos protestos, estabeleceu as bases para a crise humanitária e para o êxodo migratório subsequentes.

10

Como, por exemplo, o Foro Penal, Justicia Encuentro y Perdón, Monitor de Víctimas e o Programa Venezolano de Educación Acción en Derechos Humanos e Provea.

11

As categorias da base de dados original eram: data, ano, nome, gênero, idade, características pessoais, características da indústria responsável pela morte, tipo de perpetrador, continente, país, região e local.

12

Neste texto, cunhamos o termo ocidentocêntrico como uma tradução livre para a ideia de “Werstern-centered”, ou seja, cuja formulação intelectual esteja ligada às perspectivas e agenda política para o mundo dos EUA, Europa Ocidental e Japão.

13

Disponível em: https://tdor.translivesmatter.info/. Acesso em: 16 jul. 2026.

14

A UP foi criada durante as primeiras negociações de paz frustradas com as Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia (FARC), em 1985.

15

Tecnicamente chamadas de “homicídios múltiplos”, há uma controvérsia no que tange ao uso midiático e político da palavra massacre, que, no caso brasileiro, frequentemente é subutilizada em detrimento da chacina. Esta, segundo Silva, Santos e Ramos (2019) diz respeito ao massacre de pessoas após a morte de um policial, ou seja, trata-se de assassinatos em represália pela polícia em uma escala assustadora. Vedovello (2024) traz a chacina como categoria êmica acionada por ativistas para demonstrar o horror dessa violência letal.

16

Coletivo equatoriano de crianças, da região amazônica de Sucumbíos, que busca defender a população da contaminação por petróleo. Para mais informações, ver: https://www.instagram.com/guerrerasxamazonia/. Acesso em: 27 out. 2025.

17

Como, por exemplo, as iniciativas na Amazônia equatoriana relatadas no episódio 1, Los niños del agua y las niñas guerreras, do podcast El Hilo. Disponível em: https://elhilo.audio/podcast/amazonas-adentro-ecuador-1/. Acesso em: 27 out. 2025.

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Editor Responsável:

Editora Associada:

Conflito de interesses

A autora declara não haver conflito de interesses.

Contribuição de autoria (CRediT)

Simone da Silva Ribeiro Gomes: conceitualização; curadoria de dados; investigação; metodologia; redação – rascunho original; redação – revisão e edição.

Correspondência

E-mail: simone.gomes@ufpel.edu.br

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Dez 2025
  • Aceito
    29 Jun 2026
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