Resumo
Objetivo Analisar como o envelhecimento é representado nas políticas de saúde brasileiras à luz da abordagem <italic>What’s the Problem Represented to be</italic>? (WPR).
Método Estudo documental e exploratório, fundamentado na abordagem WPR. A coleta de dados ocorreu em repositórios oficiais do Ministério da Saúde do Brasil, selecionando-se seis documentos normativos e orientadores (2006 a 2023) direcionados à saúde da pessoa idosa no Sistema Único de Saúde. A análise foi conduzida a partir de seis questões norteadoras com o intuito de identificar representações, narrativas e silêncios nos textos.
Resultados A análise revelou três categorias principais: "Problemas representados", que associam o envelhecimento predominantemente a doenças crônicas, fragilidade e dependência, reforçando um modelo curativo e medicalizante; "Narrativa dominante", que retrata a pessoa idosa como frágil e destituída de protagonismo, impondo paradoxalmente um ideal de envelhecimento livre de dependências; e "Silêncios subjacentes", que evidenciam a omissão de recortes de gênero, sexualidade e disparidades raciais e socioterritoriais no planejamento do cuidado.
Conclusão As políticas de saúde analisadas tendem a governar o envelhecimento sob uma perspectiva assistencialista e tutelar, focada na patologia e no declínio funcional. Torna-se urgente uma reconfiguração dessas estratégias para superar abordagens padronizadas, reconhecendo as iniquidades sociais e a heterogeneidade do envelhecer. Promover a autonomia exige que a pessoa idosa seja reconhecida como sujeito de direitos e protagonista ativa do seu processo de cuidado.
Palavras-chave
Envelhecimento; Política de Saúde; Saúde do Idoso; Sistema Único de Saúde; Formulação de Políticas.
Abstract
Objective To analyze how aging is represented in Brazilian health policies in light of the What’s the Problem Represented to be? (WPR) approach.
Method A documentary and exploratory study based on the WPR approach. Data collection took place in official repositories of the Brazilian Ministry of Health, selecting six normative and guiding documents (2006 to 2023) directed at the health of older adults in the Unified Health System (SUS). The analysis was conducted based on six guiding questions to identify representations, narratives, and silences within the texts.
Results The analysis revealed three main categories: "Represented problems," which predominantly associate aging with chronic diseases, frailty, and dependence, reinforcing a curative and medicalizing model; "Dominant narrative," which portrays older adults as frail and lacking agency, paradoxically imposing an ideal of aging free from dependence; and "Underlying silences," which highlight the omission of gender, sexuality, and racial and socio-territorial disparities in care planning.
Conclusion The analyzed health policies tend to govern aging from a paternalistic and welfarist perspective, focusing on pathology and functional decline. A reconfiguration of these strategies is urgently needed to overcome standardized approaches, recognizing social inequities and the heterogeneity of aging. Promoting autonomy requires older adults to be recognized as subjects of rights and active protagonists in their care process.
Keywords
Aging; Health Policy; Health of the Elderly; Unified Health System; Policy Making.
INTRODUÇÃO
O Brasil vivencia acelerada transição demográfica e epidemiológica, com redução das taxas de natalidade e mortalidade, aumento da expectativa de vida e envelhecimento populacional. Esse fenômeno é multifatorial e decorre da ampliação do acesso aos serviços de saúde, dos avanços científicos e tecnológicos, da melhoria das condições sanitárias e ambientais, da elevação da escolaridade e da renda e das transformações no padrão de vida populacional¹.
O envelhecimento produz impactos nas dimensões sociais e econômicas, e o mercado de trabalho passa a demandar adaptações para inclusão e permanência da pessoa idosa, valorizando suas experiências e conhecimentos2. A expectativa de vida no país alcançou 76,4 anos de idade em 2023, sendo 73,1 anos para homens e 79,7 anos para mulheres, superando os índices pré-pandêmicos e evidenciando avanço importante na longevidade3.
Nesse contexto, o aumento da expectativa de vida desafia o sistema de saúde, sobretudo diante da maior prevalência de condições crônicas, das vulnerabilidades sociais persistentes e da necessidade de cuidado contínuo4,5.
Inscrito nesse cenário, o Brasil tem promulgado políticas que contemplem a abrangência e a multidimensionalidade do envelhecimento da população brasileira. Desponta como pioneira a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (PNSPI), aprovada em 2006, com o propósito de orientar ações de promoção, prevenção e acompanhamento contínuo, fortalecendo a Atenção Primária à Saúde (APS) como porta de entrada prioritária do Sistema Único de Saúde (SUS)6.
A Política Nacional de Promoção da Saúde (PNPS) amplia o olhar sobre o envelhecimento e incorpora dimensões que afirmam o envelhecer com saúde, elegendo como eixos prioritários alimentação saudável, prática regular de atividade física, prevenção de doenças e agravos, enfrentamento da violência e articulação intersetorial7.
As Diretrizes para o Cuidado das Pessoas Idosas no SUS e as Orientações Técnicas para a Implementação da Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa concretizam o compromisso com a integralidade e a coordenação do cuidado, propondo a estratificação de risco e a padronização dos fluxos assistenciais8,9.
Após a pandemia de covid-19, novas estratégias foram adotadas, como a elaboração do Guia de Cuidados para a Pessoa Idosa, com foco no fortalecimento do autocuidado, da autonomia e do apoio familiar e social10. Esses esforços refletem o desafio de reorganizar a rede de atenção para responder a uma população que envelhece de forma rápida e heterogênea, demandando políticas sustentáveis, equitativas e sensíveis à funcionalidade11-13.
Diante desse panorama, a análise dessas políticas sob a abordagem “What’s the Problem Represented to be?” (WPR), proposta por Carol Bacchi, permite identificar como o envelhecimento é representado nos documentos, os pressupostos que sustentam tais representações, seus silêncios e suas implicações14,15. Essa perspectiva contribui para compreender os modos pelos quais determinadas concepções sobre envelhecer moldam respostas institucionais e distribuem responsabilidades entre Estado, família e indivíduo16.
Revisitar políticas brasileiras sobre o envelhecimento mostra-se urgente, pois evidenciar representações implícitas e efeitos práticos decorrentes de silenciamentos pode reorientar estratégias de cuidado no âmbito do SUS e fortalecer a transição para um envelhecimento digno, ativo e equânime16,17. Nessa lógica, este estudo tem o objetivo de analisar o envelhecimento à luz da abordagem “What’s the Problem Represented to be?”.
MÉTODO
Trata-se de pesquisa documental e exploratória, fundamentada na abordagem “What’s the Problem Represented to be?” (WPR). Por meio de seis perguntas norteadoras, a WPR possibilita análise crítica de políticas públicas e reflexão sobre representações sociais, pressupostos, silêncios e efeitos produzidos nos documentos analisados14,15.
A abordagem permite relacionar necessidades coletivas no processo de envelhecimento e ações construídas no âmbito das políticas públicas, aproximando-se do ciclo de elaboração de políticas e considerando análises epidemiológicas, demandas sociais e processos institucionais de formulação, implementação e avaliação18,19.
A análise foi orientada pelas seis perguntas norteadoras que estruturam a reflexão analítica sobre como o “problema” do envelhecimento é construído e legitimado nas políticas de saúde analisadas. Para a aplicação dessas questões, utilizou-se a tradução e adaptação metodológica proposta por Rodrigues et al20. As questões estão apresentadas no Quadro 1.
O estudo foi desenvolvido entre fevereiro e novembro de 2025, por meio de análise documental de políticas públicas, manuais e diretrizes relacionadas ao envelhecimento e à saúde da pessoa idosa no Brasil. A busca abrangeu repositórios oficiais do Ministério da Saúde, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e o portal do Governo Federal (https://www.gov.br/saude), fontes que concentram documentos normativos e orientadores para a organização das políticas públicas do SUS.
Adotou-se o recorte temporal de vinte anos (2005–2025), com o objetivo de contemplar documentos produzidos no período e contexto de consolidação das políticas voltadas à população idosa no país.
A estratégia de busca utilizou as palavras-chave “envelhecimento”, “saúde da pessoa idosa”, “atenção primária à saúde” e “políticas públicas de saúde”, empregadas de forma isolada e em diferentes combinações (Quadro 2).
Além da busca na BVS, realizou-se levantamento complementar no portal oficial do Governo Federal (https://www.gov.br/saude), seguindo o percurso Ministério da Saúde → Centrais de Conteúdo → Publicações → Guias e Manuais, para identificar documentos institucionais não indexados em bases bibliográficas, como manuais técnicos, diretrizes e guias de implementação de políticas públicas.
Após conferência e leitura de títulos, selecionou-se os que contemplavam o objeto de estudo. Na etapa seguinte, incluíram-se documentos oficiais publicados pelo MS com abordagens sobre envelhecimento populacional, organização da atenção à saúde da pessoa idosa e estratégias de cuidado no SUS, especialmente na APS. Excluíram-se documentos duplicados, materiais sem caráter normativo ou técnico e os que não abordavam outras temáticas (Quadro 3). Esse fluxo orientou-se pelas especificidades da abordagem WPR.
A organização da análise contou com tabela estruturada com as seis questões analíticas do referencial “What’s the Problem Representes to be?” (WPR)14,15. Para cada documento selecionado, lido e analisado, identificou-se e registrou-se elementos discursivos presentes. Após a organização das respostas, demarcaram-se questões e problemas que convergem para as representações nos documentos sobre o envelhecimento. As respostas às seis questões orientadoras permitiram identificar as formas de representação do problema nas políticas públicas, bem como os pressupostos, efeitos e silêncios presentes nos documentos analisados.
Essa sistematização possibilitou a interpretação-analítica compreensiva das categorias: Problemas representados (PR), Narrativa Dominante (ND) e Silêncios Subjacentes ao Problema (SSP). Os PR correspondem às formas como os documentos definem e enquadram as questões relacionadas ao envelhecimento e à saúde da pessoa idosa; a ND, refere-se aos discursos e enfoques predominantes nas políticas analisadas; e os SSP, dizem respeito aos aspectos pouco abordados ou ausentes nas formulações das políticas públicas, lacunas e limitações na RP relacionados ao envelhecimento no Brasil.
As pesquisadoras se posicionam como parte integrante da problematização e reconhecem que a análise crítica de narrativas não visa medir eficácia ou eficiência, mas interpretar concepções presentes nas políticas sobre o envelhecimento. Os documentos consultados são de acesso público e domínio comum, isentando o estudo de apreciação por Comitê de Ética em Pesquisa, em conformidade com a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde21.
Uso de Inteligência Artificial
Declara-se o uso da ferramenta de Inteligência Artificial NotebookLM (fabricante Google, versão acessível em notebooklm.google.com), com a finalidade de organização de artigos científicos e resumos de conteúdos, na etapa de revisão da redação da introdução e revisão da redação.
DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no Figshare e pode ser acessado em DOI: 10.6084/m9.figshare.32978306.
RESULTADOS
Fizeram parte da análise seis documentos publicados entre 2006 e 2023 (Quadro 3). A avaliação crítica do conteúdo, orientada pela metodologia WPR, resultou em três categorias: (a) problemas representados (PR); (b) narrativa dominante (ND); e (c) silêncios subjacentes ao problema (SSP).
Quanto aos problemas representados nos textos documentais, pode-se afirmar que abordam o crescimento acelerado de pessoas idosas no mundo e no Brasil e ressaltam a relevância do tema para a saúde. Reconhecem que a estrutura plural que ancora as ações e os serviços de saúde brasileiros ainda se encontra em construção6-10,22.
A Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa e as Diretrizes para o Cuidado das Pessoas Idosas no SUS enfatizam a relação direta do envelhecimento com o aumento de doenças e/ou condições crônicas, demandando cuidado multidimensional6,8.
A concepção de envelhecimento alinha-se ao preconizado pela Organização Mundial da Saúde, que estabelece a relevância e a urgência do tema para a agenda da saúde. Os documentos reforçam a associação do envelhecimento às doenças crônicas, à dependência, à fragilidade e à medicalização, com ênfase no modelo curativo e centrado na doença13.
Observa-se que os textos explicitam diretrizes baseadas em evidências demográficas e epidemiológicas, porém, omitem diferenças regionais brasileiras. Destacam a necessidade de adequação dos serviços do SUS e de Educação Permanente dos profissionais para o atendimento da pessoa idosa diante das necessidades complexas de saúde dessa fase6-10,22.
Entre os instrumentos descritos para avaliação e acompanhamento, destacam-se a Avaliação Multidimensional da Pessoa Idosa e a Caderneta de Saúde da Pessoa Idosa, apontadas como bases para a linha de cuidado à pessoa idosa9,10.
Os procedimentos e orientações para avaliação da pessoa idosa no Brasil são, em parte, adaptados de modelos internacionais e nem sempre consideram perfis sociorregionais, características individuais e necessidades específicas da pessoa idosa. O Caderno de Atenção Básica nº 19 situa esse grupo como receptor de cuidados e refere-se à dependência como problema a ser enfrentado na macro e na micropolítica22.
As Orientações Técnicas para a Implementação da Linha de Cuidado para Atenção Integral à Saúde da Pessoa Idosa no SUS reconhecem a invisibilidade de condições biopsicossociais e espirituais do envelhecimento, porém direcionam a atenção à saúde da pessoa idosa a instrumentos avaliativos centrados, sobretudo, na dependência9. Com relação às narrativas dominantes, os documentos deixam evidente a complexidade de envelhecer relacionada aos problemas e perdas atrelados aos declínios funcionais, performando como um ser difícil de ser cuidado, pela pluralidade que envolve o cuidado nessa fase. Paradoxalmente, infere-se que o envelhecimento deve ser livre de dependência funcional.
A pessoa idosa retratada nos documentos analisados é frágil e dependente, não considerando possibilidades de protagonizar o próprio cuidado. Esse retrato é fortalecido pelo perfil epidemiológico, marcado pela tripla carga de doenças, com predomínio das condições crônicas.
Dentro desse contexto, a Política Nacional de Promoção da Saúde reforça a ideia de que Promoção da Saúde é uma responsabilidade coletiva, e não apenas individual, porém sem invisibilizar demandas por acesso a cuidados curativos e reabilitadores, ainda insuficientes para essa população. Nesse sentido, a política explicita que envelhecer com qualidade exige ações intersetoriais, ambientes saudáveis e práticas de vida ativas.
Com relação ao acompanhamento desse segmento populacional, a narrativa dos documentos explicita o modelo avaliativo a ser utilizado na linha de cuidado no SUS; porém, não considera o quantitativo de profissionais de saúde, a sobrecarga do processo de trabalho nesses serviços, para operacionalizar um modelo que contém vários testes de rastreamento e a condução de um plano de cuidado.
Esse cenário se exacerba na Atenção Primária, que se mantém como coordenadora e ordenadora do cuidado, ao considerar a heterogeneidade do envelhecimento. Enfatizar abordagens que avaliem a funcionalidade, não apenas na idade cronológica, dialoga com a promoção da saúde.
Demarcaram-se nesses documentos omissões de temas relativos às questões de gênero, à sexualidade no envelhecimento, às singularidades do contexto de cuidado e ao perfil do cuidador. Apesar de existirem políticas especificas sobre a saúde da mulher, nos documentos normativos, inexistem posicionamentos sobre a saúde da mulher idosa.
A discussão e as especificidades relacionadas às desigualdades raciais e territoriais no envelhecimento também não foram mencionadas. Os textos não expressam características que orientem uma prática assistencial de cuidado direcionada aos diferentes territórios e suas especificidades socioculturais.
Nesse contexto, a partir do não dito, demonstram que essas desigualdades sociais, de acesso ao SUS e de território, impactam no cuidado e sua continuidade. Além disso, não consideram as desigualdades sociais na formulação de políticas da pessoa idosa, o que minimiza e/ou anula o protagonismo, a participação ativa e decisão do próprio cuidado.
DISCUSSÃO
Os resultados evidenciam que prevalece a representação da tríade envelhecimento, doenças crônicas e dependência, reforçando o modelo curativo e medicalizante e minimizando singularidades do envelhecer, embora os documentos normativos analisados reconheçam a relevância do envelhecimento populacional e apresentem diretrizes para organização do cuidado6-10,22.
A situação do Brasil, frente ao processo acelerado de envelhecimento e à necessidade de remodelação da atenção à saúde da pessoa idosa, exige um modelo contemporâneo, centrado nas necessidades de um público heterogêneo e complexo12. Esse cenário reflete a persistência de concepções anacrônicas enraizadas na sociedade sobre esse processo humano.
Minayo, em Antropologia, Saúde e Envelhecimento, discutiu conceitos que circundam o envelhecimento, como carência, estigmas e discriminação da população idosa23. Após duas décadas, esses construtos permanecem e desafiam a resolubilidade de serviços intersetoriais. Além disso, a autora aborda a heterogeneidade do modo de envelhecer, com destaque para as diversas características da população.
Inscrita nessa argumentação, reforça-se que o envelhecimento não é apenas um feito biológico, mas produzido, também, nos discursos e não discursos manifestos pelas políticas. Então, que tipo de pessoas idosas as políticas públicas estão produzindo?
Na perspectiva das ciências sociais e antropológicas, a velhice é compreendida como construção social, marcada por diferentes representações e expectativas culturais. Estudos clássicos apontam que a categoria “terceira idade” associa-se a um ideal de envelhecimento ativo, autônomo e produtivo, frequentemente vinculado a estereótipos de bem-estar, participação e consumo24,25.
Os que não se enquadram nesse modelo tendem a ser percebidos como desviantes em relação ao padrão considerado ideal, o que pode contribuir para processos de exclusão social e invisibilização de singularidades do envelhecimento26,27. Essa invisibilidade se materializa, sobretudo, em pessoas idosas frágeis ou dependentes.
Nesse sentido, estamos diante de uma dualidade situacional: pessoas idosas autônomas e independentes, inseridas no mercado de trabalho, e pessoas idosas dependentes e com necessidades de saúde continuada. Essas necessidades de saúde decorrem, em sua maioria, do agravamento de condições crônicas e de demências. Esses eventos sobrecarregam serviços intersetoriais e comprometem a sustentabilidade, firmando-se como desafio complexo de âmbito mundial.
A implementação das políticas enfrenta desafios para atender às demandas dessa dualidade e seus públicos distintos, porém interdependentes. A organização de serviços de saúde proposta nas políticas do envelhecimento no Brasil direciona o cuidado centrado nas condições crônicas; e essas doenças podem acometer pessoas no decorrer de qualquer fase do ciclo vital.
Nesse sentido, as políticas cuidam ou definem o processo de envelhecimento? Diante dessa indagação, recorre-se a Foucault sobre os conceitos de biopoder e biopolítica, compreendidos como estratégias e mecanismos por meio dos quais o poder moderno incide sobre a vida das populações, regulando nascimento, mortalidade, saúde e longevidade28.
A partir dessa perspectiva, as políticas públicas de saúde podem ser compreendidas não apenas como direcionadores do cuidado, mas também como dispositivos que lançam aparências e normativas sobre envelhecer. Nesse contexto, emerge o ideal de envelhecimento “bem-sucedido”, associado à autonomia, produtividade, atividade física e manutenção da independência funcional.
Apesar desse “ideário” contribuir para a construção da promoção da saúde e da qualidade de vida, pode, também, “arquitetar” obrigação moral para que a sociedade envelheça de forma ativa e saudável.
Aqueles que não conseguem corresponder a esse modelo, pessoas idosas com fragilidades, dependências funcionais ou condições crônicas complexas, podem ser, implicitamente, caracterizadas e tratadas fora do padrão considerado ideal de envelhecimento. Estamos diante de um ideário excludente.
Essa inflexão aponta a dificuldade do sistema de saúde brasileiro em transitar de um paradigma assistencial voltado à doença para outro que privilegie a promoção da saúde, a autonomia e a participação social da pessoa idosa. Além disso, a análise dos textos revelou a presença de silêncios significativos, especialmente no que se refere às questões de gênero, sexualidade, desigualdades raciais e territoriais, aspectos fundamentais para a compreensão e aplicação de diretrizes e normativas para a condução das estratégias voltadas para o envelhecimento.
Ao silenciarem aspectos relacionados à raça, gênero, território, classe social e condições de vida, as políticas analisadas acabam por obscurecer desigualdades históricas que se intensificam na velhice, em contextos de maior vulnerabilidade social.
Referenciais dos Determinantes Sociais da Saúde corroboram que o processo saúde-doença é condicionado por fatores estruturais que extrapolam o âmbito individual e biomédico e que, quando desconsiderados, limitam a efetividade das intervenções propostas29. A omissão das especificidades territoriais nos documentos normativos não representa apenas questão geográfica, mas obstáculo à manutenção da capacidade funcional, eixo central da gerontologia contemporânea13.
Ao silenciarem infraestruturas incipientes - mobilidade, segurança - nos díspares contextos brasileiros, as políticas impõem metas de envelhecimento ativo inalcançáveis em território de vulnerabilidade social extrema.
Além disso, a ausência de uma abordagem interseccional fragiliza a compreensão de como diferentes marcadores de opressão se articulam, produzem e reproduzem desigualdades no envelhecimento de mulheres, pessoas negras e populações residentes em territórios periféricos, rurais ou indígenas30. No contexto brasileiro, essa invisibilidade dialoga com o racismo estrutural, entendido como elemento organizador das relações sociais e institucionais que incide diretamente sobre as condições de vida e o acesso aos serviços de saúde ao longo do curso de vida31.
Ao não incorporarem essas dimensões de forma explícita, as políticas analisadas tendem a reforçar estratégias padronizadas e pouco sensíveis às realidades socioterritoriais, distanciando-se das recomendações internacionais que reconhecem a equidade como princípio central para promover e usufruir um envelhecimento saudável17.
A forma como as políticas públicas representam a pessoa idosa também evidencia limites importantes no que se refere ao seu reconhecimento enquanto sujeito de direitos e ator político no processo de cuidado. Ao privilegiarem abordagens centradas na organização dos serviços e na gestão das condições clínicas, os documentos analisados tendem a posicionar a pessoa idosa predominantemente como destinatária das ações, com reduzida valorização de sua autonomia, de sua capacidade decisória e de sua participação na construção das estratégias de cuidado.
À luz da teoria do reconhecimento, essa configuração expressa déficit de consideração social e política, na medida em que o protagonismo da pessoa idosa não se materializa de forma consistente nos dispositivos normativos32. No Brasil, Debert problematiza a persistência de representações da velhice que, embora ampliem direitos no plano formal, mantêm práticas tutelares e hierarquizadas24. Camarano, por sua vez, destaca que o envelhecimento populacional no Brasil demanda políticas que transcendam a lógica assistencialista, incorporando participação social e diversidade das trajetórias de vida16.
A superação do modelo tutelar e assistencialista exige ressignificação das estratégias de cuidado, da percepção da sociedade sobre a pessoa idosa, superando o paradigma de “objeto de intervenção” para reconhecê-la como sujeito de direitos. Promover a autonomia requer saberes e práticas de saúde que transcenda a clínica em si, e incorpore o diálogo intergeracional, respeito às trajetórias de vida e reconhecimento dos seus desejos no planejamento terapêutico.
A verdadeira integração da pessoa idosa no sistema de saúde ocorrerá na medida em que as políticas fomentarem o protagonismo social, permitirem que o envelhecer seja uma conquista civilizatória, cidadã, não reduzida ao declínio biológico e governado por protocolos estatais.
De modo convergente, Veras defende a necessidade de reorganização do modelo de atenção à saúde da pessoa idosa, com ênfase na funcionalidade, na autonomia e na centralidade do sujeito5,12. Assim, a ausência de mecanismos institucionais de escuta, deliberação e coprodução do cuidado limita o potencial emancipatório das políticas analisadas e contribui para a manutenção de práticas que pouco avançam na consolidação de um envelhecimento fundamentado na cidadania, na autonomia e no reconhecimento social.
Dessa forma, a discussão dos resultados permite compreender que, embora as políticas analisadas representem avanços no reconhecimento do envelhecimento como prioridade de saúde pública, persistem lacunas significativas no que se refere ao protagonismo da pessoa idosa, à adaptação dos serviços às diferentes realidades socioterritoriais e à incorporação de uma perspectiva efetivamente inclusiva e equitativa no planejamento do cuidado.
Apesar de sua relevância, este estudo apresenta limitações que devem ser consideradas. A análise concentrou-se em documentos normativos no contexto da saúde, o que pode não refletir integralmente a operacionalização dessas diretrizes em outras áreas. Ademais, a abordagem WPR privilegia a análise discursiva, não permitindo avaliar diretamente os impactos dessas políticas sobre a assistência à saúde da pessoa idosa. Dessa forma, os resultados devem ser compreendidos como uma problematização das representações presentes na formulação de Políticas, e não como medida de sua efetividade.
CONCLUSÃO
A análise das políticas públicas brasileiras, no âmbito do SUS, evidenciou que o envelhecimento tem sido predominantemente representado a partir da associação com doenças crônicas, fragilidade e dependência, reforçando um modelo assistencial centrado na doença e na medicalização do cuidado. Essa construção discursiva impacta diretamente a Saúde da pessoa idosa, ao posicioná-la como sujeito passivo no processo de cuidado, com reduzida valorização de sua autonomia e protagonismo. Embora as diretrizes analisadas incorporem elementos da formulação de políticas voltadas ao envelhecimento ativo, observa-se a persistência de abordagens padronizadas que não contemplam adequadamente a heterogeneidade do envelhecer, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais, territoriais e culturais.
A partir das discussões construídas, recomenda-se que pesquisas futuras ampliem a interface entre análise de políticas e estudos empíricos no campo do processo de envelhecimento, investigando a implementação das diretrizes no contexto do SUS e seus efeitos sobre o cuidado. Estudos que incorporem abordagens interseccionais são essenciais para qualificar a formulação de Políticas e enfrentar as iniquidades no envelhecimento. Além disso, destaca-se a necessidade de desenvolvimento e avaliação de tecnologias e estratégias inovadoras que fortaleçam a continuidade do cuidado, contribuindo para a promoção da autonomia, da integralidade e da equidade voltada à população idosa.
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Editado por
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Editor
Camila Alves dos Santos
