Open-access TIEMPO DE PANTALLA, PERCEPCIÓN DE LA CALIDAD DEL SUEÑO Y EPISODIOS DE PARASOMNIA EN ADOLESCENTES

rbme Revista Brasileira de Medicina do Esporte Rev Bras Med Esporte 1517-8692 1806-9940 Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte RESUMEN Introducción: El sueño es un componente importante en el proceso de desarrollo biológico y mental de los niños y adolescentes y se considera una fuente de revitalización de las funciones orgánicas. Objetivo: Analizar la asociación entre el tipo y tiempo de exposición a la pantalla, la percepción de la calidad del sueño y los episodios de parasomnia en adolescentes. Métodos: Estudio transversal que incorpora una pesquisa epidemiológica de base escolar con muestra representativa (n = 481) de estudiantes (14 a 19 años) de la enseñanza media de la red pública estatal del municipio de Caruaru, PE. Para el análisis del sueño y del estilo de vida, se utilizó la versión traducida y adaptada del Global School-based Student Health Survey (GSHS). Se recurrió a la regresión logística binaria para analizar la asociación entre las variables, considerando como resultado la percepción negativa de la calidad del sueño. Resultados: La prevalencia de la percepción negativa de la calidad del sueño fue del 58% (IC 95%, 53,5-62,3). Entre los comportamientos analizados, se encontró que dormir ocho horas o menos al día y ver más de dos horas de TV al día aumentan, respectivamente, 2,69 (IC 95%, 1,61-4,71) y 1,71 (IC 95%, 1,08-2,73) las posibilidades de relatar la percepción negativa del sueño. El tiempo excesivo de pantalla, sobre todo ante la TV, se asoció con un mayor número de episodios de parasomnia. Conclusión: La calidad del sueño está relacionada tanto con la cantidad de horas de sueño, como con el tiempo de exposición a la TV. Además, una cantidad mayor de episodios de parasomnia ocurrió entre los adolescentes que asisten más de tres horas de televisión al día. INTRODUÇÃO O sono é um importante componente no processo de crescimento físico, desenvolvimento biológico e mental dos adolescentes1-3, considerado fonte de revitalização das funções orgânicas1 e associado a indicadores de saúde3. No Brasil, não se dispõe de dados nacionais para este subgrupo populacional, contudo em estudo realizado nas regiões Sul e Nordeste foi observado que 45,7% dos adolescentes relataram percepção negativa da qualidade de sono4. As alterações do padrão de sono na adolescência têm sido relatadas ao longo das últimas décadas5 e que podem ser explicadas, ao menos em parte, por alterações fisiológicas3 e por mudanças sociais e comportamentais ocorridas neste período1,2,6. Relativamente, às mudanças comportamentais, estudos tem demostrado associação entre tempo e tipo de exposição à tela e percepção negativa da qualidade de sono6-12. Neste contexto, recentemente, uma revisão sistemática, reuniu 67 estudos com delineamentos transversais e longitudinais6. Foi observado em 90% dos estudos a existência de associação significativa entre exposição ao tempo de tela e sono. O mecanismo subjacente que parece explicar estas associações aponta para a possibilidade da luz brilhante da tela suprimir a produção de melatonina, alterar aspectos do ciclo circadiano, aumentar a excitação mental e fisiológica13. Em adição evidências indicam que a exposição excessiva à tela causa menor tempo de duração7-10 e maior distúrbio de sono14, e que consequentemente uma percepção negativa da qualidade do sono4,11. No entanto, os diferentes estudos investigaram unicamente a associação com a percepção da qualidade de sono, não sendo investigada a associação com as parassonias, conhecidas pela presença de manifestações motoras, autonômicas e psíquicas, que podem ocorrer no período de sono e são classificadas como distúrbios15. Neste contexto, até o momento, para o nosso conhecimento, é localizado na literatura um único estudo envolvendo crianças que abordou a associação entre distúrbios de sono e tempo de tela, especificamente televisão (TV)14. Deste modo, há uma lacuna de estudos que investigam o quanto da exposição elevada ao tempo de tela utilizando diferentes pontos de corte e diferentes tipos de exposição, estão associadas a esses distúrbios em adolescentes. Assim, o objetivo do estudo foi analisar a associação entre tempo e tipo de exposição de tela e a percepção da qualidade de sono e episódios de parassonias em adolescentes. MATERIAIS E MÉTODOS Estudo transversal de base escolar com abrangência municipal. A população alvo foi composta por adolescentes de ambos os gêneros, com idade entre 14 e 19 anos e regularmente matriculados no ensino médio da rede pública estadual de Caruaru/PE. Em 2013 um total de 8.833 estudantes, estavam matriculados e distribuídos em 15 escolas do município, segundo a Secretaria da Educação e Cultura do Estado (SEDUC). Seguiram-se as determinações do Conselho Nacional de Saúde, sendo o projeto aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da faculdade ASCES (CAAE-22210913.8.0000.5203/CEP-ASCES: 072403/2013). A participação dos sujeitos foi voluntária e anônima, adotando-se a utilização de termo negativo de consentimento (parental passive consent form) para obter autorização dos pais de adolescentes com idade inferior a 18 anos, e termo de consentimento livre e esclarecido para obter anuência de participação daqueles estudantes com 18 e 19 anos de idade. Para cálculo do tamanho amostral os seguintes parâmetros foram adotados: intervalo de confiança de 95%; erro máximo tolerável de dois pontos percentuais; efeito do desenho amostral (deff) = 2; e, por se tratar de um estudo abrangendo a análise de múltiplos comportamentos de risco e com diferentes frequências de ocorrência, utilizou-se prevalência de 50%. A amostra inicial foi de 413 e adicionalmente, visando atenuar perdas e/ou preenchimento inadequado dos questionários, decidiu-se multiplicar o tamanho da amostra por 1,2 totalizando 491 estudantes. Para seleção dos participantes do estudo, recorreu-se a uma amostragem por conglomerados em dois estágios, sendo que no primeiro estágio a escola foi a unidade amostral e no segundo estágio a turma. Todas as escolas foram consideradas elegíveis e o critério de seleção foi o porte (pequena ≤ 200 estudantes matriculados; média > 200 - 499 e grande ≥ 500). Foram selecionadas nove escolas de forma proporcional ao porte, garantindo que pelo menos 50% das escolas de cada tamanho fossem selecionadas (2 escolas de grande porte, 4 de médio porte e 3 pequeno porte). Este procedimento foi adotado a fim de garantir que a amostra mantivesse a distribuição das escolas de acordo com as microrregiões do município. No segundo estágio, considerou-se a quantidade de estudantes matriculados por turma nas escolas sorteadas como critério de seleção. Segundo dados da SEDUC cada turma tinha, em média, 39 alunos matriculados. Foram selecionadas proporcionalmente e aleatoriamente turmas em cada uma das nove escolas. Por fim, todos os estudantes das 20 turmas sorteadas foram convidados a participar, independentemente da idade. Todos os sorteios foram realizados pelo programa randomizer. O instrumento utilizado foi o Global School-based Student Health Survey (GSHS), que foi validado e utilizado em outros estudos correlatos e no mesmo contexto do presente estudo.16,17 Foram utilizadas as sessões: Informações pessoais e da escola, atividade física, hábito alimentar e qualidade do sono, sendo acrescidas questões sobre a ocorrência de parassonias. As informações sociodemográficas consideradas foram: gênero, idade (em anos), local de domicílio (rural ou urbano), renda familiar mensal, posse de aparelhos eletrônicos em casa (TV, Computador) e acesso a internet. Os fatores comportamentais foram: atividade física (quantidade de dias da semana que é fisicamente ativo por um total de pelo menos 60 minutos), fumo (sim ou não), álcool (sim ou não), consumo de frutas e de verduras (dias de consumo de frutas e verduras durante a semana). A percepção da qualidade de sono foi mensurada pela questão: “Com que frequência você considera que dorme bem?, com opções de resposta: sempre, a maioria das vezes, às vezes, quase nunca e nunca. A quantidade de horas dormidas foi mensurada a partir da questão: “Quantas horas você dorme, em média, durante a noite?”, com opções de resposta em horas. Cinco episódios relacionados as parassonias foram levantados através das questões: “Alguém já falou que você costuma ranger os dentes durante o sono?”,”Você costuma caminhar durante a noite enquanto dorme?”, “Alguém já falou que você costuma falar enquanto dorme?”, “Você costuma ter pesadelos uma ou mais vezes por semana?”, “Você costuma gritar durante o sono e acordar apavorado(a) e amedrontado(a)? ” com opções de resposta “Sim” e “Não”. Tipo e tempo de exposição de tela foi mensurado a partir de duas questões, uma relacionada à TV: “Durante uma semana típica ou normal, quantas horas por dia você assiste TV?” e outra relacionada ao computador e/ou videogame: “Durante uma semana típica ou normal, quantas horas por dia você usa computador e/ou joga videogame?”. Para ambas as questões a opção de resposta foi em horas. A coleta dos dados ocorreu entre Junho e Novembro de 2014 e foi realizada por uma equipe de pesquisadores previamente capacitada. A aplicação dos questionários foi efetuada em sala de aula, na forma de entrevista coletiva, sem a presença dos professores e os estudantes tiveram oportunidade de esclarecer as dúvidas durante o preenchimento dos questionários (duração média: 30 e 40 minutos). Os dados foram tabulados no programa EpiData versão 3.1 (Epidata Association, Odense, Dinamarca) e foram realizados os procedimentos de controle de entrada de dados por meio da função check (controles). A fim de detectar possíveis erros, a entrada de dados foi repetida e por meio da função de comparação de arquivos duplicados. Os erros de digitação foram detectados e corrigidos. A análise dos dados foi realizada no programa SPSS 17.0. Inicialmente foi realizada análise descritiva de todas as variáveis. Na análise inferencial, algumas variáveis foram dicotomizadas: atividade física (≥ 300 minutos/ semana; < 300 minutos/ semana), fumo (Sim; Não), álcool (Sim; Não), consumo de frutas (≥ 5 dias por semana; < 5 dias por semana) e de verduras (≥ 5 dias por semana; < 5 dias por semana), renda familiar (até R$ 1.000; maior que R$ 1.000,00), trabalho (Sim; Não) e local de residência (Urbano; Rural). A percepção da qualidade de sono foi dicotomizada em positiva (sempre e na maioria das vezes) e negativa (às vezes, quase nunca e nunca)6. Quantidade de horas de sono durante a noite foi dicotomizada em exposto (< 8 horas/noite) e não exposto (≥ 8 horas/noite)6,8. As questões sobre parassonias foram agrupadas a partir do somatório das respostas positivas (presença): nenhum episódio, um episódio, dois episódios, três ou mais episódios. Para exposição ao tempo de tela foi utilizado o ponto de corte < 2 horas/dia (não expostos) e ≥ 2 horas/dia (expostos)6,8. Adicionalmente, ponto de corte > 3 horas/dia de exposição à tela, TV e computador foi utilizado para analisar associação aos episódios de parassonias. Na análise de regressão logística binária foram feitas análises bruta e posteriormente ajustada para todas as variáveis, considerando a percepção negativa da qualidade de sono como variável desfecho. RESULTADOS Um total 569 estudantes (20 turmas) das nove escolas estavam presentes no dia da visita e foram entrevistados. Destes, 57 se recusaram a participar do estudo (10,1%), totalizando 512 estudantes. A amostra final foi composta por estudantes com idade entre 14 e 19 anos, totalizando 481. A maioria dos estudantes eram moças (54,1%), com até 16 anos (65,4%), residentes da zona urbana (84,6%) e não trabalhadores (83,4%). As características sociais, demográficas e econômicas, estratificado por gênero estão na Tabela 1. Tabela 1 Características socioeconômicas, demográficas de estudantes do Ensino Médio da Rede Pública Estadual de Caruaru, Pernambuco, Brasil, 2014. Variáveis Rapazes Moças Todos p N % N % N % Idade (anos) 0,10 14 17 7,9 37 14,2 54 11,2 15 56 25,3 74 28,5 130 27,0 16 53 24,0 59 22,7 112 23,3 17 58 26,2 49 18,8 107 22,2 18 25 11,3 31 11,9 56 11,6 19 12 5,4 10 3,8 22 4,6 Cor da pele 0,11 Branca 61 27,7 67 25,9 128 26,7 Preta 19 8,6 12 4,6 31 6,5 Parda 118 53,6 136 52,5 254 53,0 Amarela 14 6,4 30 11,6 44 9,2 Indígena 8 3,6 14 5,4 22 4,6 Local de residência 1,00 Urbano 187 84,6 220 84,6 407 84,6 Rural 34 15,4 40 15,4 74 15,4 Trabalho <0,001 Não 141 64,1 216 83,4 357 74,5 Até 20 horas semanais 43 19,5 27 10,4 70 14,6 Mais de 20 horas semanais 36 16,4 16 6,2 52 10,9 Escolaridade da mãe 0,70 Nunca estudou 11 5,0 17 6,6 28 5,8 Até 8 anos de estudo 110 50,0 132 51,0 242 50,5 Mais de 8 anos de estudo 99 45,0 110 42,4 209 43,6 Renda familiar mensal 0,09 Até R$ 1.000 115 53,0 157 60,6 272 57,1 Maior que R$ 1.000 102 47,0 102 39,4 204 42,9 Tem televisão em casa? 0,19 Sim 221 100 257 99,2 478 99,6 Não 0 0 2 0,8 2 0,4 Tem computador em casa? 0,71 Sim 164 74,5 190 73,1 354 73,8 Não 56 25,5 70 26,9 126 26,2 Tem internet em casa? 0,49 Sim 151 68,3 170 65,4 321 66,7 Não 70 31,7 90 34,6 160 33,3 As prevalências de percepção negativa da qualidade de sono e tempo insuficiente de sono foram 58% (IC95% 53,5 - 62,3) e 77,1% (IC95% 72,9 - 80,4), respectivamente. Na análise bruta a percepção negativa da qualidade de sono esteve significativamente associada ao tempo insuficiente de sono (RP= 2,69; IC95% 1,53 - 4,69), ao tempo excessivo de TV (RP= 1,49; IC95% 1,03 - 2,16) e ao consumo < 5 dias/semana de frutas (RP= 1,48; IC95% 1,63 - 2,13). Quando ajustada para as demais variáveis de confusão, o tempo de sono (RP= 2,75; IC95% 1,61 - 4,71) e o tempo excessivo de TV (RP= 1,71; IC95% 1,08 - 2,73) permaneceram significativos. Verificou-se que dormir < 8 horas/dia e assistir ≥ 2 horas/dia de TV aumenta, respectivamente, 2,69 (IC95%1,61 - 4,71) e 1,71 (IC95% 1,08 - 2,73) a chance de relatar percepção negativa de sono (Tabela 2). Tabela 2 Razão de prevalência bruta e ajustada da percepção negativa da qualidade de sono de estudantes do Ensino Médio da Rede Pública Estadual de Caruaru, Pernambuco, Brasil, 2014. Variáveis Prevalência Análise bruta Análise ajustada RP (IC)95% p RP (IC)95% p Gênero Masculino 134 (60,6) 1,00 0,57 - 1,18 0,28 1,00 0,49 - 1,10 0,13 Feminino 145 (55,8) 0,82 0,73 Faixa etária 14 - 16 177 (59,8) 1,00 0,57 - 1,20 0,31 1,00 0,57 - 1,27 0,42 17 - 19 102 (55,1) 0,83 0,86 Local de residência Urbano 231 (56,8) 1,00 0,84 - 2,36 0,20 1,00 0,81 - 2,17 0,17 Rural 48 (64,9) 1,40 1,34 Renda familiar Até R$ 1.000 158 (58,1) 1,00 0,66 - 1,37 1,00 0,65 - 1,41 0,71 Maior que R$ 1.000 116 (56,9) 0,95 0,78 0,96 Trabalho Não 206 (57,7) 1,00 0,67 - 1,54 0,92 1,00 0,65 - 1,69 0,86 Sim 71 (58,2) 1,02 1,04 TV < 2 horas/dia 94 (51,9) 1,00 1,03 - 2,16 0,03 1,00 1,08 - 2,73 0,02 ≥ 2 horas/dia 185 (61,7) 1,49 1,71 CPU < 2 horas/dia 137 (59,8) 1,00 0,60 - 1,25 0,44 1,00 0,54 - 1,51 0,71 ≥ 2 horas/dia 142 (56,3) 0,87 0,91 CPU com internet < 2 horas/dia 88 (27,4) 1,00 0,82 - 1,87 0,31 1,00 0,91 - 1,97 0,16 ≥ 2 horas/dia 51 (31,9) 1,24 1,34 Tempo de tela < 2 horas/dia 95 (58,6) 1,00 0,66 - 1,42 0,87 1,00 0,47 - 1,69 0,86 ≥ 2 horas/dia 183 (57,9) 0,97 0,85 Atividade física ≥ 300 min/semana 53 (65,4) 1,00 0,41 - 1,12 0,13 1,00 0,41 - 1,19 0,18 < 300 min/semana 223 (56,3) 0,68 0,70 Fumo Não 268 (58,6) 1,00 0,26 - 1,36 0,21 1,00 0,30 - 1,84 0,52 Sim 11 (45,8) 0,60 0,75 Consumo de álcool Não 227 (60,2) 1,00 0,53 - 1,05 0,07 1,00 0,40 - 1,07 0,09 Sim 52 (50,5) 0,67 0,65 Consumo de fruta ≥ 5 dias na semana 136 (53,5) 1,00 1,03 - 2,13 0,03 1,00 0,92 - 2,01 0,12 < 5 dias na semana 143 (63,0) 1,48 1,36 Consumo de verdura ≥ 5 dias na semana 185 (55,9) 1,00 0,90 - 1,97 0,16 1,00 0,85 - 2,02 0,22 < 5 dias na semana 94 (62,7) 1,32 1,30 Tempo de sono ≥ 8 horas 17 (15,5) 1,00 1,53 - 4,69 0,01 1,00 1,61 - 4,71 0,01 < 8 horas 32,9 (122) 2,69 2,75 Com relação aos episódios de parassonias, 88% (IC95% 84,9 - 90,7) dos adolescentes relataram ranger os dentes durante a noite, 10,8% (IC95% 8,5 - 14,1) caminhar enquanto dormem, 47,2% (IC95% 42,7 - 51,6) falar enquanto dormem, 34,1% (IC95% 30,0 - 38,4) ter pesadelos uma ou mais vezes por semana e 12,7% (IC95% 10,3 - 16,4) acordar amedrontado e/ou apavorado. A prevalência de adolescentes que não apresentaram nenhum episódio de parassonias foi de 32,9% (IC95% 28,8 - 37,1). Na Figura 1 está apresentada a associação entre os episódios de parassonias e a exposição ao tempo de tela com diferentes pontos de corte e considerando a exposição à TV e computador. Figura 1 Comparação dentre as categorias de episódios de parassonias e tempo de exposição ao tempo de tela total. A Figura 2 apresenta a associação encontrada entre os episódios de parassonias e a exposição ao tempo de TV com diferentes pontos de corte. Foi identificado que a maior exposição ao tempo de TV foi associado positivamente com a ocorrência de parassonias. Figura 2 Comparação dentre as categorias de episódios de parassonias e tempo de exposição ao tempo de TV. Não foi observada nenhuma associação significativa entre os episódios de parassonias e o tempo de tela do computador, conforme apresentado na Figura 3. Figura 3 Comparação dentre as categorias de episódios de parassonias e tempo de exposição a computador. DISCUSSÃO Os resultados encontrados no estudo demostraram a existência de associação significativa entre tempo insuficiente de sono, tempo excessivo de TV e percepção negativa da qualidade do sono, mesmo após ajustes para fatores de confusão. Além disto, as parassonias estão associadas ao tempo excessivo de TV. Os estudantes que relataram > 3 horas/dia de tela, principalmente TV, apresentaram maior quantidade de episódios de parassonias em comparação as demais categorias de análise. Estudos têm demonstrado que as mudanças nos fatores ambientais1,2, sociais18,19 e comportamentais2,6 parecem ser determinantes na alteração do padrão de sono, seja em quantidade como na qualidade. Estas evidências parecem plausíveis, contudo poucos estudos nacionais sobre a temática envolvendo adolescentes foram publicados e nenhum considerou cidade do interior. Tem sido descrito que uma alta prevalência de sono insuficiente e de má qualidade entre os jovens5,20 pode estar relacionado a determinados fatores biológicos e maturacionais, mudanças comportamentais e sociais, especificamente o aumento das obrigações escolares, atividades sociais2 e ao uso excessivo de equipamentos eletrônicos21. Neste contexto, os estudos de Hoefelmann et al.18 e Bernardo et al.19 indicaram que a renda familiar, local de residência e o trabalho aumentam significativamente a percepção negativa do sono. Por exemplo, entre 2001 e 2011, foi observado um aumento de 31,2% na prevalência da percepção negativa da qualidade do sono entre os adolescentes catarinenses18. Os autores sugerem que este aumento pode ser explicado pelas mudanças nos fatores sociodemográficos, que por sua vez foi influenciado pela evolução tecnológica observada durante esta década. Contudo, no presente estudo nenhuma variável sociodemográfica esteve associada significativamente com o desfecho analisado. Por outro lado, o tempo excessivo de TV (≥ 2 horas/dia) esteve associado com a percepção negativa da qualidade do sono. Esta relação tem sido observada tanto em estudos transversais12, quanto em estudos longitudinais8. Esperava-se que o tempo excessivo no uso do computador também estivesse associado, conforme a literatura tem reportado10,11. No entanto, acredita-se que este resultado pode estar relacionado ao acesso mais recente ao computador com internet em relação à TV, o que influencia os padrões de uso e a interatividade com os aparelhos22. Entre os estudantes de Caruaru, apenas dois (0,4%) relataram não possuir TV, enquanto que um em cada três estudantes não tem computador e um em cada quatro não tem acesso à internet em casa. Relatório do IBGE22 (2013) indica que para algumas tecnologias, como a TV, o acesso já é quase total e não difere das cidades de grande porte, porém o computador com acesso a internet ainda é caro e, portanto, com menor acesso para parte da população. Acreditamos que o acesso consolidado, principalmente nas duas últimas décadas, estabeleceu hábitos regulares de utilização em relação à TV, o que ainda não acontece com o computador e podem explicar parcialmente os resultados. O tempo insuficiente de sono (< oito horas) também esteve associado ao desfecho analisado. A diminuição do tempo de sono tem se tornado um problema na sociedade moderna, com o consequente aumento da sonolência diurna19, problemas de saúde mental12 e menor qualidade do sono23. As recomendações sobre a quantidade de horas de sono por noite para adolescentes foram modificadas ao longo da história. Uma revisão sistemática com dados seculares (1897 - 2009) indicou que o tempo de sono passou de nove e meio a dez horas de sono por noite, em 1910, para oito a nove horas em 20095. Um recente relatório da National Sleep Foundation indica que 60% dos adolescentes americanos dormem menos de oito horas por noite24. No Brasil, não se dispõe de dados nacionais, contudo estudo realizado em uma capital da região Sul e uma capital da região Nordeste indicou que 76,7% dos adolescentes dormem menos que oito horas por noite4, proporção semelhante aos resultados encontrados no presente estudo. Parte da diminuição no tempo de sono suficiente pode está relacionada às mudanças nos padrões de sono na adolescência2, ao aumento das obrigações escolares e das atividades sociais, além da exposição elevada ao tempo de tela6. Este novo padrão pode colaborar para que os ado lescentes deitem mais tarde e acordem mais cedo, aumentando a sonolência diurna19 além dos possíveis episódios de parassonias15, contribuindo para uma menor qualidade do sono. Além disto, têm sido relatadas alterações no ciclo circadiano, particularmente as desordens na fase tardia do sono (DFTS)25, descrito como um problema comum entre os adolescentes após o início da puberdade. Estimativas sugerem que entre 5% e 10% dos adolescentes podem apresentar DFTS, que pode ocorrer como resultado de fatores biológicos subjacentes, bem como as demandas ambientais e o estilo de vida26. Uma vez que a percepção de qualidade do sono sofre influência da percepção subjetiva da pessoa, as parassonias podem ser afetadas por esta percepção, pois são episódios pontuais que interferem na qualidade do sono15. No presente estudo os adolescentes expostos há um tempo elevado de tela (> 3 horas/dia) apresentaram uma maior quantidade de episódios de parassonias. Quando analisado essa exposição excessiva por tipo de aparelho observou-se que apenas a exposição à TV esteve associada a um maior número de episódios de parassonias. Este resultado se assemelha ao encontrado no estudo realizado por Owens et al.14, que há duas décadas indica esta relação. Apesar da elevada prevalência de episódios de parassonias, nenhum outro estudo foi encontrado, sobre a temática em estudo na população de adolescentes, o que limita, ao menos em parte, as ilações que possam ser realizadas na discussão dos resultados encontrados no presente estudo. Entre os pontos fortes deste estudo, destaca-se: amostra representativa dos estudantes do ensino médio do município; realização de análises separadas do tipo de exposição a diferentes tipos de tela; utilização de indicadores de parassonias associados a diferentes tipos e pontos de corte da exposição à tela. As principais limitações foram: não foi diferenciado o tempo de exposição considerando dias de semana e finais de semana; horário em que o adolescente dorme e acorda. CONCLUSÕES Conclui-se que o tempo insuficiente de sono e a exposição excessiva ao tempo de tela principalmente a TV estão associados positivamente com a percepção negativa da qualidade do sono. Observou-se que a exposição excessiva a TV esteve associada positivamente com episódios de parassonias em adolescentes. REFERÊNCIAS 1 1 Brand S, Kirov R. Sleep and its importance in adolescence and in common adolescent somatic and psychiatric conditions. Int J Gen Med. 2011;4:425-42. Brand S Kirov R Sleep and its importance in adolescence and in common adolescent somatic and psychiatric conditions Int J Gen Med 2011 4 425 442 2 2 Carskadon MA, Acebo C, Jenni OG. Regulation of adolescent sleep: implications for behavior. Ann N Y Acad Sci. 2004;1021:276-91. 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Nightly use of computer by adolescents: its effect on quality of sleep. Arq Neuropsiquiatr. 2007;65(2B):428-32. Mesquita G Reimão R Nightly use of computer by adolescents its effect on quality of sleep Arq Neuropsiquiatr 2007 65 2B 428 432 12 12 Yim WM, Cynthia STW, Donna WSH, Sil PL, Hei YT, Wing YY, et al. Association between screen viewing duration and sleep duration, sleep quality, and excessive daytime sleepiness among adolescents in Hong Kong. Int J Environ Res Public Health. 2014;11(11):11201-9. Yim WM Cynthia STW Donna WSH Sil PL Hei YT Wing YY Association between screen viewing duration and sleep duration, sleep quality, and excessive daytime sleepiness among adolescents in Hong Kong Int J Environ Res Public Health 2014 11 11 11201 11209 13 13 Cajochen C, Frey S, Anders D, Späti J, Bues M, Pross A, et al. Evening exposure to a light-emitting diodes (LED)-backlit computer screen affects circadian physiology and cognitive performance. J Appl Physiol (1985). 2011;110(5):1432-8. Cajochen C Frey S Anders D Späti J Bues M Pross A Evening exposure to a light-emitting diodes (LED)-backlit computer screen affects circadian physiology and cognitive performance J Appl Physiol (1985) 2011 110 5 1432 1438 14 14 Owens J, Maxim R, McGuinn M, Nobile C, Msall M, Alario A. Television-viewing habits and sleep disturbance in school children. Pediatrics. 1999;104(3):e27. Owens J Maxim R McGuinn M Nobile C Msall M Alario A Television-viewing habits and sleep disturbance in school children Pediatrics 1999 104 3 e27 15 15 American Academy of Sleep Medicine. International classification of sleep disorders, revised: Diagnostic and coding manual. Chicago, Illinois: American Academy of Sleep Medicine; 2005. American Academy of Sleep Medicine International classification of sleep disorders, revised: Diagnostic and coding manual 2005 Chicago, Illinois American Academy of Sleep Medicine 16 16 Bezerra J, Lopes AS, Hardmam CM, Tassitano RM, Tenório MCM, Barros MVG. Consumo de bebidas alcoólicas e tabagismo: associação com inatividade física no lazer e comportamento sedentário. Rev Andal Med Deporte. 2015;8:1-6. Bezerra J Lopes AS Hardmam CM Tassitano RM Tenório MCM Barros MVG Consumo de bebidas alcoólicas e tabagismo associação com inatividade física no lazer e comportamento sedentário Rev Andal Med Deporte 2015 8 1 6 17 17 Tenório MCM, Barros MD, Tassitano RM, Bezerra J, Tenório JM, Hallal PC. Atividade física e comportamento sedentário em adolescentes estudantes do ensino médio. Rev Bras Epidemiol. 2010;13(1):105-17. Tenório MCM Barros MD Tassitano RM Bezerra J Tenório JM Hallal PC Atividade física e comportamento sedentário em adolescentes estudantes do ensino médio Rev Bras Epidemiol 2010 13 1 105 117 18 18 Hoefelmann LP, Lopes Ada S, da Silva KS, Moritz P, Nahas MV. Sociodemographic factors associated with sleep quality and sleep duration in adolescents from Santa Catarina, Brazil: what changed between 2001 and 2011? Sleep Med. 2013;14(10):1017-23. Hoefelmann LP Lopes Ada S da Silva KS Moritz P Nahas MV Sociodemographic factors associated with sleep quality and sleep duration in adolescents from Santa Catarina, Brazil what changed between 2001 and 2011? Sleep Med 2013 14 10 1017 1023 19 19 Bernardo MPS, Pereira EF, Louzada FM, Almeida V. Duração do sono em adolescentes de diferentes níveis socioeconômicos. J Bras Psiquiatr. 2009;58(4):231-7. Bernardo MPS Pereira EF Louzada FM Almeida V Duração do sono em adolescentes de diferentes níveis socioeconômicos J Bras Psiquiatr 2009 58 4 231 237 20 20 Dewald JF, Meijer AM, Oort FJ, Kerkhof GA, Bögels SM. The influence of sleep quality, sleep duration and sleepiness on school performance in children and adolescents: a meta-analytic review. Sleep Med. 2010;14(3):179-89. Dewald JF Meijer AM Oort FJ Kerkhof GA Bögels SM The influence of sleep quality, sleep duration and sleepiness on school performance in children and adolescents a meta-analytic review Sleep Med 2010 14 3 179 189 21 21 Cain N, Gradisar M. Electronic media use and sleep in school-aged children and adolescents: a review. Sleep Med. 2010;11(8):735-42. Cain N Gradisar M Electronic media use and sleep in school-aged children and adolescents a review Sleep Med 2010 11 8 735 742 22 22 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Pesquisa nacional por amostra de domicílios. IBGE: Brasil; 2013 [acesso em 2015 nov 4]. Disponível em <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/pnad2013/> Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Pesquisa nacional por amostra de domicílios 2013 IBGE Brasil 23 23 Mesquita G, Reimão R. Quality of sleep among university students: effects of nighttime computer and television use. Arq Neuropsiquiatr. 2010;68(5):720-5. Mesquita G Reimão R Quality of sleep among university students effects of nighttime computer and television use Arq Neuropsiquiatr 2010 68 5 720 725 24 24 National Sleep Foundation. 2011 Sleep in America poll: communications technology in the bedroom. 2011 [acesso em 2014 mai 18]. Disponível em <http://sleepfoundation.org/sites/default/files/sleepinamericapoll/SIAP_2011_Summary_of_Findings.pdf> National Sleep Foundation 2011 Sleep in America poll: communications technology in the bedroom 2011 http://sleepfoundation.org/sites/default/files/sleepinamericapoll/SIAP_2011_Summary_of_Findings.pdf 25 25 Sack RL, Auckley D, Auger RR, Carskadon MA, Wright KP Jr, Vitiello MV, Zhdanova IV; American Academy of Sleep Medicine. Circadian rhythm sleep disorders: part II, advanced sleep phase disorder, delayed sleep phase disorder, free-running disorder, and irregular sleep-wake rhythm. An American Academy of Sleep Medicine review. Sleep. 2007;30(11):1484-501. Sack RL Auckley D Auger RR Carskadon MA Wright KP Jr Vitiello MV Zhdanova IV American Academy of Sleep Medicine Circadian rhythm sleep disorders part II, advanced sleep phase disorder, delayed sleep phase disorder, free-running disorder, and irregular sleep-wake rhythm. An American Academy of Sleep Medicine review Sleep 2007 30 11 1484 1501 26 26 Crowley SJ, Acebo C, Carskadon MA. Sleep, circadian rhythms, and delayed phase in adolescence. Sleep Med. 2007;8(6):602-12. Crowley SJ Acebo C Carskadon MA Sleep, circadian rhythms, and delayed phase in adolescence Sleep Med 2007 8 6 602 612
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