Open-access Ladainha, a expressividade da não forma

Letanía, la expresividad de la no-forma

Resumo:

O ensaio audiovisual explora as qualidades formais da ladainha, tal como encontrada no Santuário de Nossa Senhora das Candeias, na Bahia. A partir das gravações da prática de cura de Seu Capelinha, questiona, em imagens, sons e narração em voice-over, a forma, ou a não forma, da ladainha. Inspirado no filme-ensaio e no “falar próximo”, busca abrir um hiato entre o que é dito e mostrado, ativando e envolvendo o espectador.

Palavras-chave:
ladainha; milagre; antropologia visual

Abstract:

This audiovisual essay explores the formal qualities of the litany, as encountered at the Sanctuary of Our Lady of Candeias, in Bahia. Drawing on recordings of Seu Capelinha’s healing practice, it questions, through images, sounds, and voice-over narration, the form-or non-form-of the litany. Inspired by the essay film and the notion of “speaking nearby,” it seeks to open a gap between what is said and what is shown, activating and engaging the viewer.

Keywords:
litany; miracle; visual anthropology

Resumen:

Este ensayo audiovisual explora las cualidades formales de la letanía, tal como se encuentra en el Santuario de Nuestra Señora de Candeias, en Bahía. A partir de las grabaciones de la práctica de curación de Seu Capelinha, cuestiona, mediante imágenes, sonidos y narración en voice-over, la forma, o la no-forma, de la letanía. Inspirado en el cine-ensayo y en el “hablar cerca”, busca abrir un hiato entre lo que se dice y lo que se muestra, activando e involucrando al espectador

Palabras clave:
letanía; milagro; antropología visual

O Santuário de Nossa Senhora das Candeias, na Bahia, é famoso por sua Fonte dos Milagres, onde ocorreram diversas curas milagrosas. É também o local onde um benzedeiro chamado Seu Capelinha recebe os peregrinos na Sala dos Milagres, próxima à fonte sagrada.

Há anos venho assistindo às imagens que filmei da prática de cura de Seu Capelinha - um tipo particular de oração chamada ladainha. Continuava me perguntando o que fazer com a forma intrigante dessa ladainha: uma enumeração interminável dos males, aflições, problemas sociais e ambições para os quais Seu Capelinha busca a ajuda da Virgem Maria.

Como relacionar a adequação dessa forma às particularidades do santuário - suas águas que correm sem cessar, seus milagres, seus ex-votos, os sonhos e medos que por ali foram levados?

Como antropólogo, conversei, é claro, com Seu Capelinha - o que foi bastante interessante. Mas ele tinha pouco a dizer sobre a ladainha - ou talvez eu simplesmente estivesse fazendo as perguntas erradas. Quando, no verão passado, voltei a Candeias, esperando engajá-lo em uma conversa mais longa sobre sua prática e seu processo de aprendizagem, fui informado de que ele já não oferecia seus serviços na Sala dos Milagres. Ninguém sabia onde ele morava, nem como contatá-lo.

Fiquei, então, com as fascinantes gravações que acabaram encontrando seu lugar neste curta-metragem. Alguém me sugeriu que eu lesse A Vertigem das Listas (2010), de Umberto Eco. Que maravilha de livro! Eco mostrou que a ladainha é uma forma estética presente em todos os tempos e lugares. Além disso, mostrou que reunir coisas em uma lista não ocorre apenas em orações e outras práticas orais, mas também na literatura escrita, na cultura visual, nas enciclopédias, nos gabinetes de curiosidades e nas coleções de museus.

O estudo de Eco sugere que a compreensão do apelo, da adequação e da eficácia da ladainha exige uma análise de sua forma. É exatamente isso que pretendo fazer neste ensaio visual: questionar, em imagens, sons e narração em voice-over, a forma - ou, como busco argumentar, a não forma - da ladainha.

Por fim, gostaria de acrescentar algumas palavras sobre o ensaio audiovisual, que, apesar de seu grande potencial para a antropologia visual, ainda não é um gênero amplamente conhecido. Laura Rascaroli (2017) entende o filme-ensaio como um filme que convida o espectador a pensar junto com o autor, que apresenta suas reflexões sobre os sons, as imagens e as escolhas formais e estéticas feitas na montagem.

A lei formal mais íntima do ensaio, escreve Rascaroli, é a heresia: essayer - vou experimentar algo. De fato, ela compara o filme-ensaio a uma forma de pensar em voz alta, em que as coisas são verdadeiras apenas em relação à compreensão em transformação do autor sobre o que é verdadeiro.

Outra grande inspiração neste trabalho (e em grande parte do meu trabalho cinematográfico) é o preceito da antropóloga e cineasta vietnamita Trinh T. Minh-ha (1982), segundo o qual não se deve falar sobre os sujeitos de um filme, mas sim “falar próximo a eles” - um gesto que questiona a autoridade do autor de possuir aquilo que é mostrado.

O “falar próximo” em meu filme busca abrir um hiato entre o que afirmo na narração em voice-over e o que apresento ao espectador em imagens e sons. É um jogo com o dado de que o significado dos sons e das imagens nunca se esgota nas minhas intenções, tal como expressas no texto: esse excesso semântico oferece ao espectador uma abundância de contra-argumentos. O hiato no filme-ensaio - e as tensões que dele decorrem - procura, assim, ativar e envolver o espectador, que deve decidir como avaliar o que é dito e o que é mostrado.

Para assistir ao filme, clique neste link.

https://vimeo.com/1128594460?share=copy&fl=sv&fe=ci

Referências bibliográficas, Filme consultado

  • ECO, Umberto. (2010), A Vertigem das Listas Rio de Janeiro: Editora Record.
  • RASCAROLI, Laura. (2017), How the Essay Film Thinks Oxford: Oxford University Press.
  • TRINH, T. Minh-ha. (1982), Reassemblage New York: Women Make Movies.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Não aplicável.

Editado por

  • Editor-Chefe:
    Edilson Pereira
  • Editor Convidado:
    João Leal
  • Editor Assistente:
    Lucas Bártolo

Disponibilidade de dados

Não aplicável.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Out 2025
  • Aceito
    19 Jun 2026
location_on
Instituto de Estudos da Religião ISER - Av. Presidente Vargas, 502 / 16º andar, Centro , CEP 20071-000, Tel: (21) 2558-3764 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil
E-mail: religiaoesociedade@iser.org.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error