Open-access “Não defender o indefensável”: elementos para uma abordagem cosmopolítica e antirracista da saúde pública no fim do mundo

Resumo

No marco de crescentes discussões sobre descolonização no campo da saúde, este ensaio tem como objetivo apresentar um repertório conceitual mobilizado pela relação entre proposição cosmopolítica, disputas pelo cuidado, poética negra feminista e debates sobre o fim-do-mundo. Argumenta-se que há um forte constrangimento dos limites imaginativos do campo e isso não é um problema técnico, de financiamento nem ideológico. Para possibilitar reorganizações mais contundentes de luta democrática hoje, parece preciso um processo de desmontagem e experimentação de possibilidades de reorganização epistêmico-política e administrativa. Tomando como base um processo maior de pesquisa antropológica com pessoas, redes e territórios que, de formas diversas, experimentam a saúde pública (o Estado, os direitos, a ciência e a modernidade) a uma certa distância e com desconfiança, este ensaio oferece recursos férteis para ajudar nas necessárias reformulações da saúde pública/coletiva e repensar processos formativos, de produção de conhecimento e, potencialmente, de reorganização político administrativa. A possibilidade especulativa que se abre é a de aventurar-se a ver e recriar com e desde múltiplas diversas perspectivas, adotando de início a multiplicidade ontológica de sujeitos/mundos/relações à/da saúde, a multiplicidade epistêmica e a multiplicidade de práxis e especulações políticas.

Palavras-chave:
Saúde Coletiva; Capitaloceno; Cuidado; Poética Negra Feminista; Antropologia.

Abstract

In the context of growing discussions about decolonization in the field of health, this essay aims to present a conceptual framework mobilized by the relationship between cosmopolitical propositions, disputes over care, black feminist poetics, and debates about the end of the world. It argues that there is a strong constraint on the imaginative limits of the field and that this is not a technical, funding, or ideological problem. To enable more forceful reorganizations of democratic struggle today, it seems necessary to dismantle and experiment with possibilities for epistemic-political and administrative reorganization. Based on a larger process of anthropological research with people, networks and territories that, in different ways, experience public health (the state, rights, science and modernity) from a certain distance and with suspicion, this essay offers fertile resources to help in the necessary reformulations of public/collective health and to rethink training processes, knowledge production and, potentially, political-administrative estrategies. The speculative possibility that opens up is to venture to see and recreate with and from multiple diverse perspectives, initially adopting the ontological multiplicity of subjects/worlds/relations to/from health, the epistemic multiplicity, and the multiplicity of praxis and political speculations.

Keywords:
Collective Health; Capitalocene; Care; Black Feminist Poetics; Anthropology.

I must begin.

Begin what?

The Only thing in the world that`s worth beginning:

The End of the World, no less

(Césaire, 1969, p. 39).

Introdução

No marco de crescentes discussões sobre descolonização, diversidade e inclusão no campo da saúde, particularmente no âmbito acadêmico da saúde coletiva, este ensaio tem como objetivo apresentar, e refletir sobre um repertório conceitual mobilizado pela relação entre proposição cosmopolítica (Stengers, 2018), disputas pelo cuidado (Puig Dela Bellacasa, 2017), poética negra feminista (Ferreira da Silva, 2019) e debates sobre o fim-do-mundo. Argumenta-se que este, um repertório possível e inicial, oferece recursos férteis para ajudar nas necessárias reformulações da saúde pública/coletiva e repensar processos formativos, de produção de conhecimento e, potencialmente, de reorganização político administrativa1.

A reflexão proposta neste ensaio é de natureza teórica e especulativa e está dirigida a agentes engajados na formação, na produção de conhecimento e na formulação de políticas públicas. Faz parte de um processo maior de pesquisa antropológica com pessoas, redes e territórios que, de formas diversas, experimentam a saúde pública (o Estado, os direitos, a ciência e a modernidade) a uma certa distância e com desconfiança; ora como alteridade, como ameaça, como traição, como necessidade não satisfeita; ora como instância surda de reconhecimento e vetor de sofrimento etc.

Tal processo constitui parte da minha trajetória há mais de 20 anos e se reelabora atualmente na orientação de monografias de graduação e pós-graduação, na participação em projetos coletivos de pesquisa, bem como em processos formativos e de extensão universitária com: mulheres indígenas (Olivar et al., 2021; Costa et al., 2022); mulheres cis trabalhadoras sexuais (Calabria et al., 2024); mulheres trans e travestis nos mercados do sexo e praticantes de religiões afro-brasileiras (Santos, MOF., 2022; Olivar, 2023); sobreviventes e familiares do sistema prisional (Santos, BO., 2023; Silva, MNO, 2025); agricultoras em periferias urbanas (Tomimura, 2025), entre outras, todas elas, situadas em São Gabriel da Cachoeira, Manaus e Tabatinga (AM) e também na cidade de São Paulo2.

Dessa experiência, e em função do seu potencial explicativo, será destacado um exercício analítico sobre a resposta de mulheres indígenas à pandemia de covid-19.

Além da experiência de pesquisa acima mencionada, as possibilidades e os limites deste ensaio estão em relação com a minha participação como antropólogo no cotidiano do âmbito acadêmico-científico da saúde coletiva, em atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão universitária. Dessa forma, e para além da “crítica”, fazer parte ativa deste cotidiano implica uma encruzilhada: praticar uma relação contrastiva não apenas dentro do âmbito disciplinar, mas, como é próprio da antropologia, com saberes e experiências não acadêmicas e não institucionais. Dessa posição, particularmente marcada pelo atravessamento da pandemia de covid-19 desde a encruzilhada, e levando em consideração a contundência da emergência sanitária para o próprio campo, destaco falas públicas de atores importantes, comentários particulares e controvérsias sobre a participação da Saúde Coletiva/Pública na pandemia.

Outro certo esgotamento

Russo e Carrara (2015) entendem a Saúde Coletiva como um locus específico do campo científico, multifacetado e multidisciplinar que constitui um conjunto híbrido de saberes e praticas, dentre as quais se inclui a prática acadêmico-científica. Essa definição segue uma compreensão clássica deste locus enquanto uma corrente de pensamento, um movimento social e uma prática teórica, (Nunes, 1994, p. 16) que surge entre o final dos anos 1970 e o início de 1980, perante um certo esgotamento dos paradigmas da Medicina Social e da Saúde Pública (Nunes, 94, p. 5). A Saúde Coletiva avança na constituição de um paradigma complexo e transdisciplinar (Luz, 2009) que é sintetizado em três eixos: Epidemiologia, Políticas Públicas e Gestão de Serviços e Ciências Sociais e Humanas.

De base marxista e identificada com valores modernos, democráticos e progressistas, para a Saúde Coletiva é importante a participação social e popular, estar atenta às desigualdades e iniquidades sociais - particularmente às econômicas - como determinantes de agravos em saúde, bem como ser parte da luta brasileira pela democracia e pelos direitos humanos. Passados mais de 40 anos da Reforma Sanitária e da fundação da ABRASCO, este locus serve de base para boa parte da gestão política, do pensamento, da produção científica e da formação sanitarista em graduação e pós-graduação no Brasil. Esse período tem sido marcado por importantes crises e transformações sociais, políticas, econômicas, científicas e planetárias que também têm afetado à saúde pública. Em múltiplos sentidos, o mundo de hoje não é o mesmo de 40 ou 50 anos atrás. Parece justo, então, nos perguntarmos pelos arranjos, as exigências e as imaginações possíveis para a práxis e o pensamento sanitarista neste(s) novo(s) mundo(s). “Ainda vivendo as repercussões de uma pandemia, é importante que o campo se abra para novas abordagens, pois alguns desses temas são incontornáveis nos dias de hoje” (Martin; Pereira, 2023, p. 10).

Nesse sentido, este locus vem sendo objeto de revisões e da necessidade de reorganizações que levem em melhor consideração os novos contextos (Cohn, 2022) e as contribuições históricas e contemporâneas das ciências sociais (Nunes, 1994; Russo; Carrara, 2015; Martin; Pereira, 2023). Além da importante crítica e participação feminista de longa data (visível na história do PAISM e nas muitas interpelações feministas nas políticas e na produção de conhecimento), vêm sendo elaboradas argumentações em favor de abordagens decoloniais para a saúde e o cuidado (Nunes; Louvison, 2020). Por outro lado, iniciativas antirracistas em todos os âmbitos, níveis e planos estão sendo cobradas e desenhadas (Borret et al., 2020; Brasil, 2023), bem como formas mais radicais de atenção a perspectivas indígenas na “atenção diferenciada” (Vieira, 2019) e análises que prestem maior atenção à reprodução de valores da colonialidade e do antropocentrismo (Baquero et al., 2021; Adams et al., 2019; Fortes, 2023).

Este pensamento crítico está longe de estar consolidado e, mais ainda, longe de desenhar acordos e linhas de consenso. Se, de um lado, em políticas públicas, textos e espaços acadêmico-científicos são comuns e altissonantes declarações contra a discriminação, a favor da diversidade e de ações afirmativas para promover a “inclusão”; de outro lado, é evidente a dificuldade para lidar com implicações maiores da “diferença” e da alteridade ali presentes. Como vemos a seguir, esta relativa falta de consistência gera intensos conflitos que são visíveis no cotidiano de espaços formativos e profissionais, no campo editorial e nos encontros da saúde coletiva, e tem gerado localizadas, mas contundentes afirmações de “indefensabilidade” da saúde pública/coletiva como a conhecemos.

É nessa instância turbulenta do locus perante seu próprio esgotamento que o objetivo deste ensaio - sua potencial contribuição neste debate -, se localiza. Especificamente, argumenta-se que há um forte constrangimento dos limites imaginativos do campo e isso não é um problema técnico, de financiamento e nem ideológico. Argumenta-se também que para perceber atuais esgotamentos e para possibilitar reformulações e reorganizações mais contundentes de luta democrática hoje, é preciso avançar num processo mais radical de desmontagem enquanto experimenta possibilidades de reorganização epistêmico-política e administrativa que deem à saúde coletiva maior defensabilidade pública.

Não defender o indefensável

No Brasil, a atuação do Executivo Federal durante a pandemia foi nefasta e contrária a qualquer princípio da saúde pública democrática (Ventura; Reis, 2021). A negligência explícita ao cuidado como ação política de governo foi uma consistente performance pública presidencial. Associada a ideias comuns sobre “neofascismo” e “genocídio” a noção de necropolítica (Mbembe, 2018) ganhou relevância em contextos acadêmicos e da luta social para explicar o modelo de governo em vigor. Esta noção, em termos gerais, indica um modelo de governamentalidade que, de forma diferente à biopolítica (Foucault, 2008), não estaria baseada na estimulação à vida, à produtividade, à saúde e bem-estar (incluindo o cuidado) como recursos de governo das populações, mas na distribuição pública e estratégica do direito de matar e de deixar morrer.

Nesse cenário, agentes da saúde pública levantamos as bandeiras da democracia e da confiança na Ciência, associadas a ideias sobre racionalidade, práticas e políticas de cuidado, domesticidade, laicidade, evitabilidade da morte, entre outras. Nos dias nefastos de 2020 o SUS foi alçado socialmente a uma especial posição de estar “em defesa da vida”, de “nossos” direitos e da “Ciência” (Cohn, 2022), razão pela qual deveria ser objeto indiscutível de defesa política e social massiva. De alguma forma, perante a contundência da ameaça necropolítica do descuido, o que veio à tona com mais força foi confiar na disciplina, na ciência, na técnica, na vigilância, na organização sistemática e minuciosa das pessoas, dos processos, dos territórios, das movimentações e populações em defesa da vida e da sociedade, do “cuidado” como retórica de governo. Este caminho habilitava o desejo por intervenções estatais baseadas no conhecimento científico-técnico que fossem “agressivas, mas democráticas” (como dizia um colega) com o objetivo de “evitar mortes preveníveis”, “cuidar” das vidas e “achatar a curva” urgentemente3.

Contudo, recompor o quadro desde a biopolítica (Foucault, 2008) não pareceu suficiente ou adequado, nem sequer “tecnicamente”.

No final de 2020, em plena crise pandêmica, foi realizada de forma online a “oficina preparatória para o 4º Congresso Brasileiro de Política, Planejamento e Gestão da Saúde”4. Nela, o prof. Ricardo Teixeira da Faculdade de Medicina da USP, analisando a resposta da saúde pública para a crise, afirmou que: “As insuficiências da nossa resposta têm uma estrita relação com a distância que ainda mantemos desse outro modelo de cuidado”. Para ele, foi evidente “a exacerbação de tendências inscritas na lógica de funcionamento ordinário do Sistema”, em específico, segundo ele: hospitalocentrismo, centralidade biomédica e baixa orientação para medidas de carácter preventivo e coletivo.

Resposta insuficiente do campo, já descrita em 2020, relacionada não apenas com desfinanciamento e com a catástrofe bolsonarista, mas com “modelos de cuidado” distantes, com “tendências inscritas na lógica” do ordinário do campo e do sistema. Como entender essas “tendências” e sua persistência?

Em outubro de 2022 aconteceu o 13º Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, ABRASCO, em Salvador. Foi o primeiro grande evento da área a ser realizado presencialmente após o fim da pior fase da crise sanitária de covid-19 e a eleição, então recente, do Presidente Lula. No clima festivo foram uníssonos posicionamentos contra a desigualdade, em favor do fortalecimento do SUS e das instituições públicas, dos direitos humanos, da democracia, dos investimentos na “Ciência”, da maior “inclusão” e “diversidade”.

Contudo, a festa não foi, justamente, Universal. No Congresso foi apresentado, com destaque, o filme Quando falta o ar (2021), que apresenta o trabalho do Sistema Único de Saúde (SUS) “na ponta” contra a covid-19. Na ocasião, a ativista antirracista, feminista, médica e diretora da Anistia Internacional - Brasil, Jurema Werneck, após elogiar o filme, afirmou que não podemos simplesmente “defender o indefensável”: o SUS tal e como o conhecemos, o campo de arranjos políticos da Saúde Coletiva nas suas formas hegemônicas. Eu nunca tinha ouvido nenhuma grande figura do campo dizer algo assim. Jurema continuou numa fala forte e emocionada no marco de quem sabia de primeira mão dos arranjos e concessões políticas que estavam se perfilando no novo governo com a saúde pública. Foi ovacionada em pé, num auditório lotado no qual se destacava a quantidade de pessoas negras, principalmente mulheres e pessoas LGBTQIA+.

Um par de dias depois, na mesa de clausura do Congresso, ela disse:

Nas urnas, demos uma mensagem que se propaga: nada sobre nós sem nós. Esse nós é amplo: um nós feito de indígenas, negros, mulheres, pessoas LBGTQIA+ e moradores das regiões Norte e Nordeste, das favelas e periferias do Sul e Sudeste, do campo, dos quilombos, das florestas e das águas, e não apenas feito de homens brancos à esquerda, ou pior, à direita deste país. […] O tempo da minoria branca está acabando5.

O que esse conflito político, que não é apenas partidário e nem ideológico, tem a nos dizer sobre as possibilidades futuras da saúde pública? Como pensar essa indefensabilidade de arranjos políticos persistentes e estruturantes no marco do melhor sistema de saúde que conhecemos?

Retomando: como filha e bandeira do projeto Moderno, a lógica de sustentação e reprodutibilidade da saúde pública é essencialmente antropocêntrica (Baquero et al., 2021), androcêntrica (Diniz et al., 2016), e está baseada na ignorância estratégica da racialidade (portanto, baseada no racismo), como explica Denise Ferreira da Silva (2022, 2024). Então, esse que está acabando, “o tempo da minoria branca, constitui um Mundo (o da Modernidade) e um “nós” (um sujeito coletivo de enunciação, de reconhecimento e de confiança) que organizam ainda o campo da saúde.

Na pandemia, por exemplo, se o “lockdown” esteve mais ou menos em discussão crítica, com as referências a modelos coreano, chinês, europeus etc., não se pode dizer o mesmo da recomendação de “ficar em casa”, apesar de tudo que foi dito sobre empobrecimento e insegurança alimentar de populações racializadas, de pessoas sem casa ou cuja socialidade implica outros arranjos além do individualismo e da domesticidade; apesar de tudo que foi evidenciado sobre violência doméstica e sobre ausência de possibilidades econômicas em casa etc. A “confiança na Ciência” pareceu ser uma certa fé capaz de negar o conhecimento sobre o próprio fazer científico6.

Mas o buraco é ainda mais embaixo. Nas suas melhores versões conhecidas, o campo da Saúde Coletiva assume seu lugar histórico como dispositivo biopolítico (Foucault, 2008). Nas suas piores, ou, mais ainda, deslocando o ponto de vista para territórios, sujeitos e processos à margem, o cenário é muito mais grave.

Ainda no Congresso de 2022, Jurema Wernek lembrou que Brasil foi um dos países no qual mais trabalhadores sanitários morreram e foram pesadamente atingidos pelo coronavírus (Teixeira et al., 2020), um dos países com maiores taxas de morte por intubação hospitalar e com índices extremamente desiguais do impacto da pandemia em populações pobres urbanas, negras e indígenas (Baqui et al., 2020; Castro et al., 2021; Coiab, 2021). Há no Brasil evidência suficiente sobre a reprodução do racismo institucional no campo da saúde, desde a sua história científica nacional (Mota, 2005) até a organização institucional, os âmbitos de pesquisa e a atenção primária (Kalckmann et al., 2007; Carneiro, 2017; Castro, 2022; Gonçalves, 2023) inclusive no cálculo racial na pandemia (Ferreira da Silva, 2024); sobre a irredutível assimetria de gênero que organiza o campo levando a práticas sistemáticas de misoginia (Diniz et al., 2016, 2018), homo e transfobia ( Pelúcio; Miskolci, 2009; Santos, MOF, 2022); sobre a sobre-estigmatização de populações vulnerabilizadas como as trabalhadoras sexuais (Correa et al., 2011); sobre a pactuação com a segurança pública para punição de pessoas encarceradas e suas famílias (Santos et al., 2024; Silva, MNO, 2025); sobre a perpetuação da colonialidade nas políticas e na atenção em saúde para populações indígenas (Vieira, 2019), entre outras.

Nesse contexto, a quem serve a biopolítica? Qual é o custo da persistência biopolítica para corpos e existências à margem? É realmente insuficiente, defeituosa, mas a melhor alternativa de que dispomos? Ou a única que fomos ensinados a imaginar? Que Mundo é esse que nos autoriza tal imaginação?

Fim-do-mundo como perspectiva para a saúde pública

O tempo histórico da reforma sanitária, os últimos 40-50 anos, não apenas é o tempo da redemocratização do Brasil e das lutas pela igualdade social baseada no repertório dos direitos humanos, da vulnerabilidade e do desenvolvimento. Como pode ser visto nas obras Latour (1994) e Kopenawa & Albert (2015), entre outros, esse é também o tempo de múltiplos fins de um M/mundo(s), do Antro/Capitaloceno (Haraway, 2016) e suas formas brasileiras (Danowsky et al., 2022). Reflexões recentes nesse marco colocam em relação processos planetários de destruição, exploração e precarização (Stengers, 2015; Krenak, 2019; Danowski et al. 2022) com crises e transformações do campo científico e do projeto moderno (Latour, 1994; Stengers, 2002). Nestes anos, fomos refeitos pela aceleração dos sonhos, celebrações e ressacas da tecnologia e da “globalização”, pela persistência republicana e tecno-científica das piores formas de colonização e racismo, pela celebração das políticas de morte e sofrimento vinculadas à desmontagem democrática em curso; temos que presenciar e participar das atuais formas pandêmicas, das dinâmicas agonísticas do capitalismo na sua corrida pelos últimos recursos humano-naturais, e da radical precarização planetária evidenciando o colapso do sistema Terra (Costa, 2022).

Por outro lado, nestes anos as práticas, formas e sentidos do político e do público em todos os âmbitos (incluindo a saúde e a universidade) também mudaram e se abriram para enfoques diferenciais e perspectivas multiculturalistas (Chaves, 2011); às desigualdades socioeconômicas foram articuladas reivindicações antirracistas, decoloniais, plurifeministas, anticapacitistas, ente outras, o que foi produzindo novas torções e reconfigurações dos movimentos sociais (Zibechi, 2015), das universidades (Venturini; Feres, 2020), dos chamados a imaginar e experimentar outros/estes mundos possíveis. Aprendemos a melhor entender a vitalidade e persistência de ontologias múltiplas e das suas formas políticas de luta (Kopenawa; Albert, 2015; Haraway, 2016).

Eis uma primeira dobra de reflexão que chama atenção sobre os efeitos políticos na saúde e no cuidado tomando como base o Antropo/Capitaloceno (Taddei, 2024). Faz-se necessário imaginar nossas profissões e cursos, as formas do coletivo e do público, desde um mundo mais-que-humano, sobre cujo futuro próximo não podemos ter certeza, e no qual acompanhamos cotidianamente e de forma simultânea o esfacelamento das “melhores” instituições e esperanças da modernidade e das condições gerais de habitabilidade.

Por outro lado, como Kopenawa alertou: já houve outros fins de mundos, outras quedas do céu, e o mundo da Modernidade já foi e ainda é um fim de mundo para outros mundos (Kopenawa; Albert, 2015). Nesse caminho de leituras e traduções, o fim-do-mundo ganha, então, outro plano de sentido.

Fanon (2008) ensinou que a experiência negra e colonizada habita e emerge numa zona de não-ser definida em relação com a zona de ser do projeto Moderno, colonial. Habitar, ter a zona do ser como perspectiva, é ter o corpo, o mundo e o tempo como garantia, saber-se Humano no centro do Humanismo, agente da Razão iluminista. Como operação colonial a zona do ser atravessa em planos materiais e psíquicos os processos de definição do mundo, seu tempo, seus representantes e as condições de representação. O campo da saúde, do qual Fanon era um praticante e conhecedor, é um agenciamento moderno; um agenciamento de e para a zona do ser. Como materialização do Universal, a zona do ser torna a zona do não ser, e a constituição a partir daí, num território impossível; que não deve ser habitado, um “fim de mundo”, como costuma se dizer sobre (corpos-)territórios periféricos e fronteiriços. O sucesso civilizatório e biopolítico implica o ingresso, a inclusão de corpos e almas do não ser na nova zona higienizada.

Denise Ferreira da Silva (2022) analisa como o mundo da Modernidade tem seus pilares de sustento na racialidade, na violência total e na extração total do valor de corpos e terras negras e indígenas. Esses pilares garantiram o processo colonial, o processo de escravização, os processos de acumulação contínua que servem de sustento legal, econômico, material, institucional e simbólico para nosso mundo hoje. Esses pilares e sua transmutação nas instituições e agentes da modernidade contemporânea, ajudam a explicar uma pergunta central para a autora - e que deveria ser para qualquer reformulação do projeto da saúde coletiva: porque e como é possível que tantas pessoas negras [e indígenas ou trans] sejam violentamente assassinadas (encarceradas, transformadas em dependentes químicos nas ruas, abandonas, mortas de fome, expropriadas) de forma persistente e conhecida sem que nenhuma grande crise ética ou revolta aconteça?

Assim, para a autora, seguindo uma longa tradição de pensamento negro, esse Mundo(como o conhecemos), no qual se inclui nossa história eugênica, bandeirante e colonialista (Mota, 2005), deve chegar ao fim (Ferreira da Silva, 2014). “O tempo da minoria branca acabou”. “Esta sociedade -gritava a liderança transfeminista e pute Idianarae Siqueira - deve ser destruída” (Siqueira apudLenz, 2021).

Enunciar conceitualmente o fim-do-mundo não implica a enunciação de um lugar específico (a Amazônia, as fronteiras, a periferia) nem se limita ao campo discursivo da “natureza” e do “clima”. O que se coloca em foco é um campo de conhecimento transdisciplinar e pluriespistêmico de reflexões ético-políticas e contundentemente marcado por perspectivas feministas e contra-coloniais das ciências, sobre as fronteiras indefensáveis do projeto moderno, sobre o tempo que vivemos, suas formas limítrofes de existência e a nossa participação nelas. O fim como memória, como ameaça massiva efetivada hoje, como operador de diferença e como possibilidade de futuro a partir de uma abertura à zona negra-feminista do não ser.

Cosmopolítica, cuidado e Poética Negra Feminista

Quando a pandemia de covid-19 começou, acompanhávamos em processos de pesquisa etnográfica a redes de mulheres rionegrinas que enfrentavam diversas formas de violências. Durante 2020, aprendemos como elas foram costurando uma resposta à pandemia. Para começar a localizar parte das implicações científico-políticas desse modo de atuação e de cuidado usamos a noção de cosmopolítica, da química e filósofa belga Isabelle Stengers (Olivar et al., 2021).

Em “The Cosmopolitical Question” (Stengers, 2010), a autora conecta seu empreendimento analítico sobre as Ciências Modernas (2002), com as possibilidades de reinvenção das práticas científico-políticas perante o esgotamento dos recursos da modernidade (ilustrada e democrática). Cientista e europeia branca, a autora escreve para um “nós” que define como os praticantes da Palavra da modernidade, da racionalidade, da democracia, do Universal. Por isso é tão importante para o campo da saúde pública/coletiva.

Boa parte da proposição cosmopolítica de Stengers tem a ver com um chamado para que prestemos atenção às implicações políticas (coloniais, homogeneizantes, desempoderantes) das nossas intervenções. Trata-se de desconfiar da própria certeza para dar tempo e espaço a que outras existências, racionalidades, necessidades e implicações possam participar do debate, recolocar os problemas e compor soluções. Nesse sentido, Stengers (2010) pensa a ação cosmopolítica como uma ecologia política de práticas. Nessa ecologia, as pessoas que vão experimentar e ter que lidar com as consequências das decisões técnico-políticas:

[..] devem estar presentes de um modo que confira à decisão o seu grau máximo de dificuldade, que proíba qualquer atalho, qualquer simplificação, qualquer diferenciação a priori entre aquilo que conta e aquilo que não conta (Stengers, 2018, p. 463).

Tal ecologia não exclui a Ciência, mas a tira do centro e coloca no seu lugar a exigência de composições processuais e inacabadas entre heterogêneos presentes e ativos. Como mostra De la Cadena (2020) nas suas análises sobre cosmopolíticas indígenas em conflitos por terra no Peru, esta ecologia parte da multiplicidade e transita entre dissensos (Ràncier) e equivocações (Viveiros de Castro); isto é, entre desacordos de significação e desacordos de ontologia. Nos conflitos analisados por De la Cadena (2020), as relações e seus agentes excedem as previsões da política como de costume, inclusive da esquerda. Seres-terra e mais-que-humanos emergem como agentes políticos centrais por si mesmos, para além da representação (branca, binária, humana, iluminista, eleitoral, semântico-discursiva, etc): rios, montanhas, animais, plantas; que nos nossos casos são também “mães do corpo”, plantas-jiboia, espíritos, entidades, bem como outros sujeitos não cabíveis na política, nos direitos e nos cuidados como de costume: devires-puta, travestilidades pós-feministas, sobreviventes do sistema prisional etc.

Entender(-se em) outras políticas e imaginar(-se em) outras alianças passa por “levar a sério” outros mundos e seus sujeitos, suspender o julgamento (Stengers, 2010) como uma política de cuidado epistêmico. Contudo, não há cuidado e comum dado em relações de assimetria tão profunda e radical nas quais uma parte busca, essencialmente, a adequação normativa, educação, higienização e desenvolvimento da(s) outra(s) como condição da aliança. Emerge a exigência à crescente contenção da racionalidade moderna, a recusa à Razão como argumento último de coesão e a o Universal. Tal a referência ao cosmos, como:

A incógnita que constitui estes mundos múltiplos e divergentes, os vínculos que deveriam ser capazes de estabelecer, perante a tentação da paz que pretende ser definitiva e ecuménica [sanitária ou acadêmica] no sentido de uma transcendência que teria o poder de exigir aos divergentes que se reconheçam simplesmente como uma expressão particular daquilo para o qual todos convergem (Stengers, 2018, p. 447).

Nas primeiras análises para entender a resposta das mulheres rionegrinas à covid-19, nos interessava entender as formas de uma intervenção técnico-política urgente liderada e levada a cabo por elas, e colocar para o campo da saúde pública algumas das suas implicações. Começar a entender essa resposta demandou, por exemplo, entender que o sujeito de ação e de enunciação era radicalmente outro que não o sujeito da política moderna: “mulheres indígenas rionegrinas” na radicalidade da diferença ontológica7. Longe do negacionismo e da espera, longe da obediência à “autoridade sanitária” e do individualismo, e também sem ajustar-se ao lugar folclórico de “cultura”, de ignorância e de “crença” que lhes é predisposto na imaginação moderna, as mulheres rionegrinas colocaram em ação uma campanha (Rio Negro, nós cuidamos) que provou ter excelentes resultados em todos os âmbitos (Olivar et al., 2021; Costa et al., 2022).

Tratou-se de um complexo agenciamento de cuidado (Santos, MOF, 2022) que teve como ponto de partida uma experiência contracolonial feminina: “nós” mulheres indígenas, de um lado, e do outro “vocês” “brancos” (não-indígenas em relações coloniais) e os homens (“nossos” e “seus”). A eficácia da campanha esteve também relacionada com uma gigantesca diversidade biossocial e com a participação ativa de agentes humanos e não-humanos (animais, plantas, rios, espíritos, “o território”), indígenas e não-indígenas, “tradicionais”, “científicos” e do Estado, coordenados por elas com base na sua experiência de militância e de gestão política de redes, e na reativação dos seus cestos de conhecimentos e de uma certa interculturalidade mais beligerante que ecumênica (Costa, 2021; Costa et al., 2022). A experiência dos múltiplos finais já vividos, das múltiplas ameaças “brancas” (entre as quais as doenças e o campo médico), marcou a estratégia de “cuidado”.

A campanha descrita coloca, para a saúde pública, uma torção especial à exigência do “estar presentes de um modo que confira à decisão o seu grau máximo de dificuldade” com relação às formas modernas/humanistas/brancas de produzir a ciência, a política e seus sujeitos (Stengers, 2010; De La Cadena, 2020) e à Racialidade (Ferreira da Silva, 2022). De forma análoga, através do massivo incremento dos processos de Ações Afirmativas no percurso do século XXI (Venturini et al. 2020), a modernidade do locus vem sendo obrigada a lidar com a presença de perspectivas “sobreviventes” da pandemia, da necropolítica e, também, da biopolítica. Através da relação com a linguagem da “saúde mental”, estas presenças resolutivas, beligerantes e altamente performativas situam ao campo da saúde e ao campo acadêmico como mais uma força produtora de violência e de sofrimentos (Rosa; Facchini, 2022).

Assim consta no “Manifesto do I Encontro de Coletivos Negros” lido coletivamente na sessão de clausura do Congresso da ABRASCO de 2022:

A chegada do corpo e da consciência negra à universidade é marcada tanto pela realização de um sonho, quanto pelo choque com instituições ainda estruturadas por um modus operandi burguês-classista-machista-patriarcal-racista, que garante que apenas uma pequena parcela da sociedade acesse a instituições de ensino superior e universidades públicas e gratuitas.

Essa realidade é responsável por sofrimentos, apagamentos, silenciamentos e tensões que tem se refletido principalmente em nossa saúde mental, trazendo impactos para nossa permanência, já ameaçada pela incipiência ou ausência de políticas internas que assegurem e estimulem a permanência dos alunos negres vindos da periferia da sociedade.8

Trata-se cada vez mais de presenças sem representação, sem a mediação ou tradução necessária de cientistas ou gestores, e que se localizam para além da posição de “usuários”, de vulnerabilizados ou necessitados em saúde. Estas presenças reivindicam mundos, lugares de fala e legitimação dos seus conhecimentos e ciências; reparação histórica e epistêmica, consistência anti/contracolonial e antirracista nos seus aliados, entre outras coisas. Essas presenças e suas expressões públicas, ancoradas numa torção contracolonial da racialidade, compõem o que Denise Ferreira da Silva (2014) nomeia como Poética Negra Feminista. A vinculação dessa ideia ao reportório cosmopolítico implica uma novidade importante, pois possibilita ao pensamento da política ontológica e do fim do mundo dar centralidade ao racismo e à racialidade generificada na movimentação conjunta da tratativa decolonial e pluriversal da política, dos conhecimentos e dos cuidados. Por outro lado, a Poética Negra Feminista permite descrever conectadamente formas de ação política a partir das práticas de corpos negros e indígenas, entre outros, que excedem as formas legais e discursivas de representação epistêmico-política Moderna.

Para finalizar essa sessão, aproximo brevemente a questão latente (e empiricamente presente) do “cuidado”/cuidado nesta perspectiva.

Cuidado é um conceito chave na autodefinição do campo da saúde e da saúde pública/coletiva, mobilizando investimentos importantes de reflexões teóricas e práticas (Cruz, 2009; Ayres, 2009; Mehry et al., 2014). Nessa produção rica e heterogênea o cuidado é fortemente associado a noções científico-técnicas do processo saúde-doença (incluindo em alguns casos suas “dimensões subjetivas e sociais”), ao trabalho profissional humanizado e ao repertório institucional, ainda quem em algumas elaborações ganhe força o protagonismo de redes familiares. Por outro lado, o cuidado é recorrentemente analisado por estudos feministas, em diversos contextos, sob categorias como trabalho, desigualdade e opressão (Hirata; Guimaraes, 2012). Análises como as propostas aqui, entre outras (Reis, 2020; Macedo, 2021; Olivar et al., 2021; Taddei, 2024), estimulam pensar sobre as exigências novas e possibilidades de o campo da saúde entrar em relação de coordenação e composição com esses “outros modelos de cuidado”.

Cuidado, radicalmente, “tem que ser do nosso jeito” (Vieira, 2019) e suas redes vivas (Mehry et al., 2014) precisam constituir uma ética relacional mais-que-científica e mais-que-humana (Mol, 2008). Engajar-se ativamente em redes de cuidado não pode ter como horizonte a inclusão nas zonas dadas do ser, não pode ter como centralidade a razão técnico-científica, a normalização, a institucionalização, a produtividade. Aprendemos a entender cuidado em perspectivas multiespecíficas (Baquero et al., 2021; Taddei, 2024) e para além do individualismo, como capacidade simpoética de criação de mundos (Haraway, 2016). Em relação com a precarização das condições de habitabilidade do planeta/Mundo, com as formas de resistir à catástrofe e de demorar o colapso, este repertório de práxis e teoria nos habilita a pensar o cuidado como a capacidade de prestar atenção às práticas ordinárias da Modernidade e seus efeitos, e, por outro lado, como suspensão do julgamento (Stengers, 2015, 2018). Trata-se de uma disputa cheia de contradições que ultrapassa os limites de qualquer campo científico e instituição e que não pode ser definido apenas na gramática do bem-estar, do trabalho e da opressão (Puig De La Bellacasa, 2017).

Por fim, desde perspectivas poéticas negras/indígenas plurifeministas, o cuidado pode abrir para formas da autodefesa (Dorlin, 2020) e da solvência, isto é: um cuidado “que faça a mediação das coisas que deterioram (..) e faça assentar em lava o mundo de sentidos, fórmulas, figuras e sobras do poder que toda transição, assim como toda descolonização, demanda que queime (Mombaça, 2021, p. 60).

(in)Concluindo

Por diversos caminhos a Saúde Coletiva no Brasil vem sendo interpelada enquanto à sua capacidade de reinvenção e reajuste às demandas sanitárias, políticas e sociais do (fim-de-)mundo que habitamos hoje, 40 anos depois da reforma sanitária. Esse conjunto crescente de interpelações não pode ser ignorado ou traduzido em políticas pragmáticas de tolerância, inclusão, diversidade ou ecologia ecumênica. Dizendo direito ao ponto: o buraco é muito mais embaixo; a dificuldade é maior.

Uma abordagem cosmopolítica para o cuidado e a saúde implica fazer presente, ressoar “o desconhecido que afeta nossas perguntas e que nossa tradição política corre o risco importante de desqualificar..” (Stengers, 2010, p. 355). Compreensões cosmopolíticas, lembra De la Cadena (2020, p. 303), podem “forçar a pluralização ontológica da política e a reconfiguração do político”, no sentido de uma política pluriversal. Então, “ali onde há política o desafio é abandonar explicitamente a referência fundadora de nossa política” (Stengers, 2010, p. 359).

É exatamente este o desafio para pensar e reestruturar politicamente a saúde através do atual esgotamento. Qualquer tentativa de descolonização, explica Ferreira da Silva (2019), implica processos ativos e cuidadosos de desmontagem do Mundo-como-o-conhecemos que possibilitem a devolução total das riquezas extraídas. Eis a recusa à defensa incondicional do campo, como fez Jurema Werneck na cena central deste texto.

Pensar com cuidado e desde o fim do mundo uma ecologia política implica a delicadeza e a criatividade de não simplesmente favorecer a destruição fascista e capitalocênica em curso. Uma coisa é uma coisa.. Na sua reflexão sobre cuidados solventes em transições e descolonizações, Mombaça (2021) se pergunta:

[..] como integrar [estes] processos no aparato dinâmico e intensivo de preservação dos germes das gentes ainda sem nome na carne, das gentes cujo nome foi negado; como fazer implicar, em cada transição que se anuncia, a ancestralidade das gentes cuja terra foi roubada, como pólen e semente das gentes cuja terra ainda há de ser feita?

Nesse sentido é que o fim-do-mundo pode constituir uma perspectiva fértil: ao mesmo tempo assumir a catástrofe planetária como ponto de partida, assumir que o nosso Mundo constantemente aniquila outros mundos, reconhecer que há multiplicidade de corpos e saberes para lidar de formas diversas com os diversos finais, e assumir a necessidade de O Mundo chegar ao fim para que múltiplos mundos negros, indígenas, divergentes, possam florescer com ou sem “nós”. Imaginar o fim-do-mundo como perspectiva constitui uma espécie de dispositivo de provocação ético-política-afetiva e intelectual, a partir da construção de um cenário multiplamente fronteiriço, “radical” e virtualmente derradeiro, desde o qual reorganizar o que entendemos por Política, Democracia, Ciência, Saúde etc.

Para finalizar, entendemos que as análises aqui apresentadas podem estimular a pensar a saúde pública/coletiva a partir de uma lógica de pluriversalidade onto-epistemológica e contracolonial. Isso é diferente de se deslocar, como efeito do trabalho acadêmico-intelectual de um autor ou grupo, de um ponto de vista mais à direita para um ponto mais à esquerda, ou de um autor mais tradicional para um mais alternativo, dentro da mesma linha/mundo, por exemplo. Trata-se de destituir de valor a ideia de um ponto de vista único e universalizante e a própria linha pela qual transitamos. A possibilidade especulativa que se abre é a de aventurar-se a ver e recriar com e desde múltiplas diversas perspectivas, adotando de início a multiplicidade ontológica de sujeitos/mundos/relações à/da saúde (negando a tentação humanista, individualista, moderno-civilizatória, racial), a multiplicidade epistêmica (negando a tentação à Ciência Moderna como razão de verdade) e a multiplicidade de práxis e especulações políticas (negando a tentação da Política como de costume, da centralidade do Estado). E acreditamos que isso deve ser feito numa lógica de presença sem representação (como princípio), plurilinguística e pluriepistêmica que outorgue o maior grau de dificuldade; o que implica ter como ponto inicial de reconstrução pessoas, redes, territórios e corpos que foram os outros da Modernidade e que não são redutíveis a categorias da Razão nem redutíveis entre si.

Esse repertório gera, a partir daí, infinitas perguntas e possibilidades sobre como estimular a produção e comunicação de conhecimento e pesquisa pluriepistêmica; de espaços, burocracias, currículos e sistemas avaliativos baseados em ecologias políticas do saber e dos cuidados; das imaginações administrativas pluricentradas e capazes de lidar com a multiplicidade ontológica. Esse é um ponto de partida na discussão com/para dentro do campo científico-acadêmico da saúde coletiva, ainda está em elaboração e sua fertilidade dependerá da mesma exigência aqui descrita.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

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  • Editores:
    Carinne Magnago

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    06 Nov 2024
  • Revisado
    11 Fev 2025
  • Aceito
    21 Mar 2025
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