Resumo
A finalidade deste artigo é examinar a explicação do subdesenvolvimento em Florestan Fernandes e Celso Furtado a partir da aclimatação da historicidade vinculada à experiência colonial brasileira. Procuramos demonstrar, por meio de suas respectivas práticas sociológicas, como ambos incorporaram progressivamente a dimensão histórica da colonização em seus horizontes reflexivos, indicando que a modernização nacional foi forjada pela articulação entre o arcaico e o moderno. Nossa hipótese é de que ambos integraram a dimensão histórica em suas sistematizações teóricas sobre o subdesenvolvimento, convergindo ao evidenciar uma temporalidade moderna na qual passado e presente se interpenetravam.
Palavras-chave
Florestan Fernandes; Celso Furtado; Subdesenvolvimento; Historicidade; Colonização
Abstract
The purpose of this article is to examine the explanation of underdevelopment in Florestan Fernandes and Celso Furtado based on the acclimatization of historicity linked to the Brazilian colonial experience. We seek to demonstrate, through their respective sociological practices, how both progressively incorporated the historical dimension of colonization into their reflective horizons, indicating that national modernization was forged through the articulation between the archaic and the modern. Our hypothesis is that both integrated the historical dimension into their theoretical systematizations of underdevelopment, converging by highlighting a modern temporality in which past and present interpenetrated.
Keywords
Florestan Fernandes; Celso Furtado; Underdevelopment; Historicity; Colonization
Introdução1
Gildo Marçal Brandão (2010, p. 232) caracterizou o campo de estudos do pensamento social e político brasileiro como marcado pela “superposição” de múltiplas abordagens, que faz da “reflexão de seus clássicos” o “instrumento para interpelar inusitadamente a sociedade e a história que os produz”. Em termos sintéticos, pode-se afirmar que este campo de estudos se dedica a investigar o modo como se constrói e se expressa a compreensão sobre o que somos, configurando-se, simultaneamente, como objeto e tema da reflexão de diversos intelectuais2. Dentro desse espaço reflexivo, as contribuições sociológicas de Florestan Fernandes e Celso Furtado emergiram como leituras que dialogaram com a semântica da modernização brasileira, oferecendo diagnósticos para compreender os impasses responsáveis por produzir contradições estruturais ao longo da complexificação societária na passagem do século XIX para o século XX. A hipótese que perpassa este artigo é a de que, embora tenham trilhado caminhos analíticos distintos, as meditações desses pensadores convergiram ao explicar a modernidade por meio de um enquadramento temporal no qual o arcaico e o moderno se amalgamavam.
A explicação do capitalismo periférico de Fernandes e Furtado recorreu a uma semântica do tempo que, no lugar de um espectro dessubstancializado, aclimatou a historicidade brasileira como força analítica e enquadramento teórico. Desse ponto de vista, a contribuição que aqui propomos não consiste apenas em recuperar as explicações de ambos sobre o subdesenvolvimento, mas em percorrê-las na intenção de identificar como a temporalidade moderna decorreu do amálgama entre passado e presente. Dito de outro modo, trata-se de investigar como, para Fernandes e Furtado, a explicação sociológica do subdesenvolvimento derivou-se da aclimatação de elementos vinculados à dimensão histórico-nacional inaugurada com a colonização portuguesa. Nossa contribuição não se concentra no diagnóstico do subdesenvolvimento em si, mas na chave de leitura que propomos em diálogo com as recentes discussões acerca das configurações temporais da modernidade. Por isso, recorremos às recentes contribuições de Tavolaro (2025), Silva (2022), Brasil Jr. (2011) e Maia (2025) para refletirmos sobre a temporalidade moderna e a aclimatação da historicidade como ferramenta analítica para a formulação sociológica de Fernandes e Furtado.
Em termos de organização, o artigo encontra-se estruturado em duas seções principais, seguidas de uma breve conclusão. Na primeira parte, intitulada Florestan Fernandes: o espectro temporal da modernidade, examinamos o argumento sociológico do autor acerca da transição da ordem social estamental para a ordem social competitiva, considerando, sobretudo, o núcleo argumentativo de suas obras produzidas entre o final da década de 1960 e meados da década de 1970. O objetivo principal foi identificar os aspectos heurísticos que, ao incorporar a dimensão histórica, proporcionaram uma leitura da modernização brasileira a partir do entrelaçamento entre o moderno e o arcaico. Na segunda seção, intitulada A Formação Econômica Brasileira: Celso Furtado e o subdesenvolvimento, analisamos a explicação furtadiana sobre o subdesenvolvimento, demonstrando como, em lugar da oposição temporal entre passado e presente, a modernidade brasileira foi construída pelo entrelaçamento de elementos temporalmente distantes, reorganizados ao longo das transformações capitalistas. Por fim, nas considerações finais, recuperamos nossas ponderações sintetizando os principais resultados alcançados. Ressaltamos que a aproximação entre Florestan Fernandes e Celso Furtado neste artigo decorre não apenas do fato de ambos estarem inseridos em um mesmo cenário intelectual, mas também do diálogo travado diretamente entre eles por meio de correspondência epistolar. Tal aproximação torna-se evidente nas cartas reunidas por Aguiar (2021).
Florestan Fernandes: o espectro temporal da modernidade
Como asseverou Florestan Fernandes, a transição da ordem colonial – fundamentada na exploração da mão de obra escrava – para uma ordem social de caráter competitivo – sustentada na livre disposição da força de trabalho – foi marcada, no caso brasileiro, pela persistência de um conjunto de heteronomias que atravessaram nossa dinâmica social. Assentado na força de trabalho escrava, no latifúndio monocultor e na produção primária orientada para o exterior metropolitano, o período colonial originou um tipo de sociabilidade assimétrica e hierárquica, cujo polo privilegiado estava na aristocracia detentora das terras. A mercantilização da produção agrária ocorria em razão do controle externo exercido pelos agentes econômicos sobre as articulações da economia colonial, de modo a satisfazer às exigências do mercado europeu por gêneros tropicais. Essa organização produtiva tinha como finalidade primordial assegurar a apropriação das riquezas pelos centros metropolitanos, de modo que nossa existência mercantil
flutuava em função de determinações externas incontroláveis, mas tendia a manter-se em níveis relativamente altos dentro da economia da Colônia porque exprimia a forma pela qual o senhor de engenho participava da apropriação colonial (através da expropriação de terras e do trabalho coletivo dos escravos). No conjunto, nada justificaria assimilar o senhor de engenho ao burguês, e é um contrassenso pretender que a história da burguesia emerge com a colonização (Fernandes, 2005, p. 33).
A realidade originada pelo domínio europeu configurou-se pela vitalidade de traços estamentais em nossa configuração social, organizando a esfera produtiva para “drenar as riquezas de dentro para fora” sem prever “condições institucionais apropriadas para a organização interna do fluxo de renda” (Fernandes, 2005, p. 40). Essa “inelutável canalização da renda de dentro para fora”, como observou Fernandes (2005, p. 41), originada da exclusividade comercial imposta por Portugal no decorrer da conquista ultramarina, impediu a tessitura colonial de se apropriar do excedente produtivo. A renda gerada na atividade agrícola deixava uma parte ínfima da apropriação econômica para os agentes econômicos internos, pois a arrecadação não ocorria “à luz dos padrões do capitalismo comercial” (Fernandes, 2005, p. 41). A aristocracia agrária não era composta por negociadores com um espírito puramente comercial, mas, sim, comportava-se como um elo conquistador, “nobre ou militar”, a serviço da Coroa e do expansionismo católico (Fernandes, 2005, p. 41). Nossa constituição histórica, portanto, estava atrelada à acumulação primitiva de capital por parte dos países europeus que, pelo domínio além-mar, extraíram as riquezas naturais necessárias para seu desenvolvimento interno. A esse respeito, Silva (2025, p. 11) foi preciso ao afirmar que “Florestan se filia a uma gramática do desenvolvimento desigual e combinado para pensar a história e a estruturação global do capitalismo e da modernidade”.
A anatomia social do período colonial revelava o sentido existencial voltado para a externalidade. Ao reconhecer nosso papel produtivo na acumulação primitiva do capital, Fernandes articulou o nível global — representado pela transição estrutural da economia escravista mercantil para a economia capitalista — com o papel “histórico-particular das colônias”, revelando o contexto interno de exploração e as “dinâmicas restritivas da capitalização” (Fernandes, 1976, p. 15). A transformação do cenário nacional na transição do século XIX para o século XX constituiu-se em um processo que articulou os interesses coloniais externos aos interesses aristocráticos internos, em que os segmentos agrários buscaram preservar seus privilégios estamentais enquanto se beneficiavam da exploração promovida pelos centros metropolitanos. A legitimidade do sistema colonial continuava vivificada pela modernização e respaldada em um duplo fundamento legal e político:
a colônia existia, em toda a parte, para a prosperidade da metrópole. Os colonizadores eram vassalos, submetendo-se como tais à vontade da Coroa, à qual deviam obediência e lealdade. A identificação de interesses entre a Coroa e os vassalos enfrentara várias contradições e conflitos (Fernandes, 1976, p. 15).
Sob esse ponto de vista, nossa historicidade modernizadora foi marcada por “estruturas econômicas, socioculturais e políticas internas que podem absorver as transformações do capitalismo, mas que inibem a integração nacional e o desenvolvimento autônomo” (Fernandes, 1983, p. 27). Nossa tessitura societária possuía entraves para superar a herança do sistema escravocrata e senhorial, não promovendo os ajustes necessários, seja qualitativa ou quantitativamente, às necessidades estruturais da universalização dos valores e da ética comportamental da modernidade. Pode-se inferir, portanto, que a sociedade apresentava forças sociais heterogêneas, responsáveis pela coexistência de aspectos socioculturais vinculados ao período colonial e, simultaneamente, de tendências urbano-industriais3.
A reorganização estrutural ao longo do processo de modernização deu-se mediante a preservação de determinados dinamismos valorativos herdados da temporalidade colonial, resultando em assimetrias na configuração da modernidade. Essa resistência à mudança em nossa dinâmica social foi exemplificada por Fernandes e Bastide, em seu texto intitulado “Do Escravo ao Cidadão”4, em que o sociólogo demonstrou como “a transição lenta para o regime de trabalho livre constituiu um fator de acomodação social inter-racial”, evidenciando o desenvolvimento diferencial entre o plano legal e as efetivas condições de assalariamento democrático. Como apontou Mazza (1997, p. 115) em sua tese de doutoramento, a “desagregação do regime escravista e do abolicionismo”, conforme analisou Florestan Fernandes, constituiu uma “revolução do branco para o branco”, desencadeando uma “superposição da estratificação racial à estratificação social”. Portanto, “as diferenças de posição social e de padrão de vida não perderam a função de servir como fundamento material ou como fonte de justificação ou de disfarce às manifestações do preconceito de cor” (Fernandes; Bastide, 1971, p. 82).
Vemos, logo de início, como a análise de Florestan percorre o contexto histórico-cultural brasileiro, apontando que nossa alegada especificidade não está em uma condição in natura, mas, sim, na articulação produtiva voltada para o abastecimento externo e estruturada ao longo do processo de colonização. Fernandes e Furtado dialogaram teoricamente com a constituição e a reprodução da totalidade desigual e combinada do sistema capitalista, incorporando fatores contextuais dos elementos estruturantes da dinâmica histórica brasileira. No caso de Fernandes, o livro A Revolução Burguesa no Brasil correspondeu ao momento em que se delinearam com maior clareza os contornos interpretativos por ele propostos, nos quais se observa que nossos impasses econômicos decorreram do nosso posicionamento no processo global de expansão capitalista. Assim, o fato de não existirem no modelo teórico pressupostos presentes nas várias descrições clássicas de ordem social competitiva não significa que tal ordem não tenha emergido socialmente e se constituído historicamente na América Latina, mas, sim, “que se precisa usar conceitos, categorias analíticas e interpretações clássicas tendo em vista uma situação histórica peculiar” (Fernandes, 1973, p. 34). Éramos uma nação moderna, cujo caminho para a modernização desenrolou-se por “um amplo processo de emancipação”, ao passo que “surgia um Estado independente com uma contraface colonizada indiscutível” (Fernandes, 2015, p. 146).
O enraizamento dessa configuração sistêmica espoliadora consolidou um sistema de poder em que se processava a modernização do arcaico e a arcaização do moderno, como apontou Sampaio Jr. (1997), em sua tese de doutorado, ao se referir a Florestan Fernandes. Isso ocorre porque nosso capitalismo se estruturou a partir da recomposição e da atualização dos métodos de dominação e exploração coloniais, garantindo a manutenção dos privilégios da aristocracia agrária. O capitalismo dependente não era uma expressão incompleta da modernização, mas, sim, uma instância polarizada e integral, cuja adaptação da sociabilidade colonial ocorre conjuntamente à dinâmica da reprodução do valor. Como argumenta Chagas (2011, p. 48), a articulação proposta por Fernandes reconheceu, no caso do capitalismo dependente, um tipo de “extração dual”, pois “alimenta as classes dominantes internas e externas”, estruturando uma forma societária orientada para “a manutenção da concentração de poder, prestígio e riqueza”, existente desde o período colonial. Em sentido próximo, Silva (2022, p. 94) sugere que, ao pensar nossa modernização “a partir das dinâmicas globais do capitalismo e das diferenças e assimetrias produzidas e mantidas em seu bojo”, Fernandes indicava como “a presença e persistência de atributos e relações ditos pré-modernos ou pré-capitalistas passam a ser vistas sob o prisma de seus papéis no interior da reprodução do próprio capitalismo dependente”. Para Florestan Fernandes, o subdesenvolvimento foi decorrente de uma modernização responsável por conjugar temporalidades distintas:
o arcaico e o moderno nem sempre entram em choque decisivo, que termine com a eliminação das estruturas repudiadas; estabelecem-se várias espécies de fusões e de composições, que traduzem os diferentes graus de identificação dos homens com a herança tradicional e com a modernização (Fernandes, 2008, p. 53).
A lentidão na substituição dos hábitos da ordem social senhorial por práticas políticas modernas evidenciava que os desajustamentos à ordem legal democrática decorriam de condições econômicas produzidas pela interpenetração das temporalidades arcaica e moderna, gerando contradições sociais que se perpetuavam sob novas roupagens. Por isso, “as expectativas de comportamento antigas e recém-formadas coexistem, inevitavelmente, durante algum tempo, criando fricções nos ajustamentos dos indivíduos às situações sociais que são por elas reguladas socialmente” (Fernandes, 1979, p. 101). Tendo em vista esse cenário, interessa-nos o fato de que a reflexão sociológica de Florestan Fernandes introduziu uma série de contingências históricas que explicariam o porquê da associação crônica entre sociedade de classes e subdesenvolvimento. O dilema social brasileiro consiste, portanto, numa resistência residual à mudança social, produtora de tendências contraditórias no desenvolvimento da ordem social competitiva:
Isso significa, em outras palavras, que o chamado elemento tradicionalista continua vivo, operante e com grande vitalidade. Como as influências arcaizantes e inovadoras se combinam inextricavelmente, aquelas não só atuam por dentro das situações histórico-sociais novas; fazem-no irruptivamente, sem os controles que limitavam sua potência na ordem social tradicionalista. Desse ângulo, parece que a principal desvantagem da ordem social competitiva, nos países em que ela se instaura em condições desfavoráveis, consiste em que ela agrava, nas fases iniciais de desenvolvimento, pelo menos, a concentração social da renda e do poder. Nessas fases, ela mais aumenta que modifica as categorias dos entes sociais “privilegiados”. Parte desse fenômeno vem a ser a persistência (velada ou aberta) e o agravamento das formas autocráticas de controle (Fernandes, 1975, p. 106, grifos do autor).
Isso se explica porque o eixo dinamizador da modernização e o eixo reprodutor das relações de dependência foram entrelaçados pela dinâmica primário-exportadora. “O passado é moderno e o moderno é arcaico”5, pois esses espectros temporais se articulam e se alimentam reciprocamente. Sob esse prisma, a incorporação da dimensão histórico-colonial permitiu a Fernandes distanciar-se de uma perspectiva dualista tão recorrente no discurso hegemônico da modernização, que, como suscita Tavolaro (2014, p. 646), reivindicava a “universalidade para suas categorias, conceitos, noções e retratos da experiência moderna”, eliminando as vicissitudes das historicidades de cada formação sociocultural.
Contrariando esse caminho analítico, Fernandes absorveu os desdobramentos temporais próprios do tecido social brasileiro em nosso processo formativo – de forma próxima à de Furtado e sua concepção de subdesenvolvimento –, analisando as especificidades modernas fora de seu eixo originário. Ao tratar da interpenetração histórico-temporal, o autor de A Revolução Burguesa no Brasil evidencia os hibridismos entre a universalidade do marco formal da nação e o profundo particularismo dos interesses das classes dominantes, direcionando o sentido do “agente humano” na situação heteronômica e dependente, que busca sobretudo “resguardar”, “manter” e “fortalecer os vínculos de dependência” (Fernandes, 2008, p. 41). Assim, a originalidade da aclimatação de Fernandes está na inclusão do componente político contido na persistência dos elementos tradicionais no seio da nova ordem social em formação.
Para Brasil Jr. (2011, p. 210), a introdução do fator político permitiu que Fernandes “conferisse um maior peso explicativo às contingências históricas”, pois “o sentido das mudanças estaria particularmente em etapas mais avançadas da diferenciação social – caso da sociedade brasileira –, cronicamente associado às disputas de poder entre os diferentes grupos sociais”. Para Costa (2009, p. 275), o elemento político destacava que “os nexos coloniais e neocoloniais do passado, a dominação estamental, o racismo, o preconceito étnico contra o indígena, bem como várias outras heranças do escravismo e do colonialismo, estavam se amoldando à moderna sociedade de classes” e, assim, “transformando-se em realidades estruturais da formação capitalista no Brasil”. Portanto, a configuração do subdesenvolvimento era um problema político porquanto dependeria “de mecanismos de ação grupal que traduzem posições relativas dos grupos na estrutura de poder da sociedade nacional” (Fernandes, 1975, p. 101)6. É justamente a presença das forças políticas sobre o capitalismo dependente que, em nossa perspectiva, o aproxima do estudo do subdesenvolvimento de Celso Furtado. Podemos, portanto, passar à próxima seção.
A Formação Econômica Brasileira: Celso Furtado e o subdesenvolvimento
Assim como em Florestan Fernandes, a interpretação de Celso Furtado sobre o subdesenvolvimento estruturou-se teoricamente a partir do enquadramento contextual socio-histórico brasileiro. O delineamento da historicidade nacional foi despertado, à primeira vista, por sua passagem pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), fundada em 1948 sob os auspícios da Organização das Nações Unidas. Ocupando o cargo de diretor da Divisão de Desenvolvimento da CEPAL, a convite de Raúl Prebisch, Furtado encontrou a oportunidade de sistematizar um conjunto de investigações acerca das contradições econômicas que atravessavam as economias latino-americanas, aprofundando sua análise sobre a origem do subdesenvolvimento. É claro que, do ponto de vista teórico, sua pesquisa de doutoramento — intitulada L’Économie Coloniale Brésilienne, defendida em 1948 na Universidade de Paris, sob orientação de Maurice Byé — já sinalizava sua preocupação em investigar as particularidades históricas da formação socioeconômica brasileira7.
O raciocínio desenvolvido em sua pesquisa doutoral na França e sua posterior atuação na CEPAL foram fundamentais para aquilatar a preparação para a redação de seu livro intitulado Formação Econômica do Brasil8. Nas páginas do texto publicado pioneiramente em 19599, a morfologia do subdesenvolvimento foi examinada minuciosamente, com uma reflexão sobre o sentido e o impacto da colonização portuguesa no Brasil a partir do século XVI, em contraste com a colonização anglo-francesa nas Antilhas. Durante o período colonial, sob o domínio lusitano, predominou o latifúndio e a economia de escala, voltada essencialmente para o mercado externo e dependente, tanto do ponto de vista político quanto administrativo. Em uma perspectiva comparada, Furtado afirmou:
Essas colônias de pequenos proprietários [da América do Norte], em grande parte, autossuficientes, constituem comunidades com características totalmente distintas das que predominavam nas prósperas colônias agrícolas de exportação. Nelas era muito menor a concentração da renda, e as mesmas estavam muito menos sujeitas a bruscas contrações econômicas. Ademais, a parte dessa renda que revertia em benefício de capitais forâneos era insignificante. Em consequência, o padrão médio de consumo era elevado, relativamente ao nível da produção per capita. Ao contrário do que ocorria nas colônias de grandes plantações [como o Brasil], em que parte substancial dos gastos de consumo estava concentrada numa reduzida classe de proprietários e se satisfazia com importações, nas colônias do Norte dos EUA os gastos de consumo se distribuíam pelo conjunto da população, sendo relativamente grande o mercado dos objetos de uso comum (Furtado, 2007, p. 61, grifos do autor).
Durante o período compreendido entre o ciclo açucareiro e a atividade mineradora – do século XVI ao XVIII –, a colonização não possuiu autopropulsões capazes de promover mudanças qualitativas em nossa tessitura social. Esse cenário provocou uma assimetria produtiva entre a colônia e a metrópole, pois os países europeus, pioneiros na expansão ultramarina, monopolizaram a apropriação do excedente “pela agricultura tropical” que, no alvorecer do Renascimento Urbano e Comercial, “transformava-se num êxito comercial” (Furtado, 2007, p. 43). Sobretudo com a produção açucareira, os portugueses foram bem-sucedidos em organizar
a primeira grande empresa colonial agrícola europeia, já iniciada há algumas dezenas de anos a produção, em escala relativamente grande, nas ilhas do Atlântico, de uma das especiarias mais apreciadas no mercado europeu: o açúcar. Essa experiência resultou ser de enorme importância, pois, demais de permitir a solução dos problemas técnicos relacionados com a produção do açúcar, fomentou o desenvolvimento em Portugal da indústria de equipamentos para os engenhos açucareiros (Furtado, 2007, p. 25).
Como asseverou Furtado (2007, p. 74), a estrutura colonial foi produto de uma política que estava a serviço dos interesses metropolitanos, delineando uma economia “totalmente voltada para o mercado externo”, que absorvia “quantidades crescentes de açúcar num nível adequado de preços” com a utilização da mão de obra escrava. Assim, a “natureza contábil do fluxo de renda, no setor açucareiro”, compôs uma “estrutura econômica” isolada, engendrando o “atrofiamento” e o “isolamento” da produtividade endógena (Furtado, 2007, p. 74). O triunfo dessa grande empresa agrícola do século XVI foi
único na época — constituiu, portanto, a razão de ser da continuidade da presença dos portugueses em uma grande extensão das terras americanas. No século seguinte, quando se modifica a relação de forças na Europa com o predomínio das nações excluídas da América pelo tratado de Tordesilhas, Portugal já havia avançado enormemente na ocupação efetiva da parte que lhe coubera (Furtado, 2007, p. 29).
A exploração comercial predatória do latifúndio como “fase preliminar da economia brasileira” permite “identificar os elementos que, posteriormente desenvolvidos, marcarão o sentido da economia do país nos séculos seguintes” (Furtado, 2001, p. 73). Essa conjuntura inicialmente descrita evidencia a aclimatação — aqui entendida no sentido proposto por Antônio Brasil Jr. (2011), isto é, como o deslocamento de conceitos para a realidade histórica latino-americana — da conjuntura temporal brasileira na análise de Furtado, que assimila o passado colonial como referência interpretativa para explicar o subdesenvolvimento. A caracterização da economia brasileira como dependente encontra seu fundamento explicativo na predominância da cultura tradicional herdada do passado colonial, encerrando, no programa modernizador, as possibilidades de modificação do tecido institucional brasileiro nos séculos de formação do capitalismo industrial. Considerando que a monocultura foi “certamente a característica principal do sistema econômico dito colonial”, as transformações vivenciadas na passagem do século XIX para o século XX não romperam com a dependência “de um comércio que se opera fora de suas fronteiras” (Furtado, 2001, p. 121). O subdesenvolvimento originou-se historicamente de nossa estrutura colonial que, em produtividade interna, existiu para abastecer com riquezas tropicais as potências europeias. Com o auxílio dos acordos de exclusividade comercial, os lusitanos impediram “o surgimento na colônia de qualquer atividade que concorresse com a economia metropolitana”, restringindo a diferenciação das atividades comerciais e limitando a “existência de outras atividades econômicas” para além do latifúndio monocultor (Furtado, 2007, p. 80).
O subdesenvolvimento foi definido por Furtado (2007, p. 230) como uma arquitetura econômica caracterizada pelo “rápido crescimento das importações, em razão da baixa elasticidade da oferta interna”, dependente do estímulo externo para sustentar o aumento da produtividade e da geração de riquezas. Mesmo com o avanço do trabalho assalariado no século XIX, o incremento da produtividade não se refletiu em aumento salarial; ao contrário, contribuiu para a intensificação da concentração extrema de renda, por efeito da elevação dos lucros, reduzindo a eficácia do mecanismo de interação entre a diversificação da estrutura de demanda e a composição da estrutura de produção. A dependência econômica comprometia a diferenciação dos mecanismos de crescimento da economia industrial latino-americana, evidenciando que, ao longo de seus respectivos processos históricos, esses países permaneceram desvinculados do movimento endógeno associado ao imperativo do progresso tecnológico. O arcabouço colonial preservou alguns de seus elementos constitutivos no processo de transformação capitalista, o que gerou relações sociais contraditórias que distanciaram o crescimento salarial da produtividade do trabalho. Em sintonia com o movimento epistemológico de Florestan Fernandes, Celso Furtado sinalizou a persistência da temporalidade colonial ao longo do processo de modernização brasileira, persistência que funcionava como força restritiva sobre a diversificação capitalista. “Nessas circunstâncias”, argumentou Furtado (1967, p. 203), “o crescimento do setor industrial ligado ao mercado interno e mesmo o aumento de sua participação no produto, bem como a elevação da renda per capita do conjunto da população, não são suficientes para acarretar modificações significativas da estrutura ocupacional do país”. O subdesenvolvimento limitava a difusão tecnológica e provocava nos países periféricos a
simples assimilação de técnicas já conhecidas (e pela correspondente acumulação de capital); também o é que a transplantação dessas técnicas traz implícita, quase sempre, um subemprego estrutural de fatores. Essa dificuldade não poderá ser contornada senão através de um esforço de adaptação da tecnologia, o qual é tanto mais difícil quanto os países subdesenvolvidos carecem, via de regra, de indústria própria de equipamentos (Furtado, 2007, p. 86).
A heteronomia da modernização resultante da articulação temporal entre o moderno e o arcaico instituiu um comportamento econômico no qual os mecanismos tecnológicos eram assimilados de fora para dentro, comprometendo a “forma de utilização do excedente de produção e a posição social” na dinâmica criadora (Furtado, 2007, p. 114). Portanto, tínhamos
uma interdependência existente entre a evolução da tecnologia nos países industrializados e as condições históricas do seu desenvolvimento econômico. Essa tecnologia, na forma em que se apresenta hoje, incorporada aos equipamentos industriais, resulta, portanto, de um lento processo de decantação. Nesse processo influíram, de maneira fundamental, condições específicas de algumas nações, sobretudo da Inglaterra e dos Estados Unidos, países que, sob vários pontos de vista, constituíram um só sistema econômico durante a primeira metade do século XIX (Furtado, 2007, p. 159).
O elemento dinâmico da economia subdesenvolvida originava-se do lado da demanda, diferentemente do desenvolvimento europeu, cujo dinamismo endógeno provinha das modificações na oferta. Nesse sentido, a caracterização conceitual do subdesenvolvimento, como aqui sugerimos, estava atrelada à presença de um cenário histórico-político de dominação que persevera no decorrer da dilatação da temporalidade, articulando a dinâmica colonial com a universalização produtiva do capitalismo. As contradições sociais presentes na configuração nacional alimentavam-se da contínua transferência dos centros decisórios e administrativos, vigente desde a colonização, para os conjuntos nacionais cêntricos, favorecendo uma formação industrial orientada àexternalização de capitais10. O deslocamento da historicidade feito pelo economista paraibano apontou para como “o ordenamento econômico do país e sua estrutura produtiva sempre estiveram enleados a dinâmicas, oscilações e imperativos externos”, pois a polarização capitalista era desarmônica no progresso tecnológico (Furtado, 2007, p. 19).
Mallorquín (2005, p. 265) foi rigoroso ao indicar como “nas economias subdesenvolvidas a forma imperante de acumulação se realiza fora do sistema produtivo, resultado, por sua vez, da concentração de renda”. Já Cepêda (2010, p. 145) afirma que a “interpretação do subdesenvolvimento de Furtado trabalha no campo do desvendamento da lógica de funcionamento da economia”, destacando uma “outra forma de existência do capitalismo e de uma outra dinâmica econômica”. Concordamos com ambos os autores, mas acrescentamos a observação de que, em sua teoria do subdesenvolvimento, Celso Furtado concebe a aclimatação da historicidade colonial como uma força ativa, responsável por articular o arcaico e o moderno, sustentando os alicerces de um capitalismo heteronômico. Em última instância, o subdesenvolvimento repousa na posição específica que o Brasil vai assumindo nas dinâmicas e fases do capitalismo global. Isso se deve ao fato de que o sentido de nossa formação conservou o passado como impulso tendencial e orientador de nossa posição produtiva no interior de um sistema global, gerando padrões diferenciados e hierarquizados de inter-relação entre setores econômicos nacionais e regionais. Se em Furtado encontramos passagens nas quais “é nítida a percepção de se tratar de uma sociedade constrangida pelo peso do passado”, como afirma Tavolaro (2021, p. 1065), percebe-se que esse passado não atuava como oposição ao moderno, mas como uma temporalidade relacional que configura o moderno no desdobramento sistêmico do capitalismo.
Considerações finais
O fator determinante da colonização brasileira residiu na articulação entre a posse da terra e a disponibilidade de capitais necessários para viabilizar uma produção lucrativa nos trópicos. Para Fernandes e Furtado, o empreendimento colonial distinguia-se do feudalismo europeu em razão da associação entre a propriedade fundiária e o acúmulo produtivo, indispensável à promoção, pelas grandes metrópoles, do acúmulo mercantil originário. Ambos obtiveram, como ganho analítico, a valorização das particularidades brasileiras em sua relação com as diversas fases do capitalismo mundial. Sob uma perspectiva de totalidade histórica, a compreensão de nossas vicissitudes foi apreendida à luz do próprio desdobramento sistêmico do capitalismo.
Considerando esse horizonte, ambos conceberam a produção e reprodução da relação entre passado e presente em termos de interpretação, articulação ou entrelaçamento para a composição do cronótopo moderno11. O arcaico e o moderno não se opunham em nossa formação socioeconômica, mas se retroalimentavam na estruturação de nosso tecido social. Por óbvio, as representações da cena nacional de Fernandes e Furtado apresentaram distinções consideráveis, mas convergiram, como aqui argumentamos, na aclimatação da historicidade colonial em suas elucidações sociológicas. Nos contornos epistemológicos da temporalidade, os trabalhos de ambos ratificaram a necessidade da diacronia para a formulação teórica dos impasses estruturais de nosso tecido social, sendo o arcaísmo não uma defasagem, mas um ponto de articulação atualizador da modernização brasileira. Nos termos delineados por Franco (1976), Fernandes e Furtado imaginaram nossa modernidade não como uma sequela inautêntica das invenções do centro, mas a partir de intercâmbios e vínculos complexos que enlearam entre si uma gama distinta de contextos nacionais assimetricamente posicionados.
A posição intelectual de Fernandes e Furtado era a de intelectuais situados na periferia institucional da produção do conhecimento. No entanto, os caminhos individuais que os conduziram às suas respectivas reflexões teóricas foram marcados por diferenças significativas. Embora ambos tenham desenvolvido reflexões sobre a dinâmica geral do capitalismo latino-americano e brasileiro, Fernandes estabeleceu seu pensamento em diálogo com a tradição sociológica de origem anglo-americana e francesa, que apresentava uma visão sistemática da modernização, posteriormente refutada por ele. Já Furtado, como assinalam Sampaio Jr. (1997) e Oliveira (1982), desenvolveu seu diálogo com o estruturalismo latino-americano de origem cepalina. Isso não significa, contudo, que seu pensamento se reduza à CEPAL; ao contrário, o estruturalismo latino-americano foi por ele sistematizado em uma perspectiva própria, na qual a historicidade se tornou o principal elemento de referência. Por fim, cabe destacar que, em suas respectivas trajetórias, Fernandes e Furtado optaram por direcionamentos políticos que progressivamente se distanciaram. Fernandes, após o exílio e nas últimas décadas de sua produção intelectual, fez do socialismo uma questão central e prioritária, comprometendo-se ideologicamente com a causa revolucionária. Furtado, por sua vez, como recorda Oliveira (1982), permaneceu vinculado à perspectiva de um nacional-reformismo, associado aos princípios gerais do desenvolvimentismo inaugurados em sua juventude.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Os dados estão no corpo do texto.
Agradecimentos
Agradecemos aos professores Sérgio Tavolaro e João Marcelo Maia pelos instigantes diálogos intelectuais que tornaram este texto possível. Agradecemos, também, aos pareceristas anônimos pelas valiosas sugestões, que permitiram aprimorar e refinar a argumentação aqui apresentada.
Referências
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O título deste artigo alude à obra de Johannes Fabian (2013).
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É importante destacar, em consonância com a reflexão de Christian Lynch (2016, p. 80), que a disputa não se restringe à delimitação do campo do pensamento social e político brasileiro, mas envolve igualmente a controvérsia semântica que permeia essa área temática.
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É importante reafirmar que o desenvolvimento do raciocínio de Fernandes passou por um processo de complexificação entre as décadas de 1950 e 1960, período em que as relações entre o arcaico e o moderno se tornaram cada vez mais intricadas. Assim, já na década de 1950, observa-se um afastamento gradativo da perspectiva de Florestan Fernandes em relação ao simples dualismo, à medida que a temporalidade passa a ser concebida em uma chave analítica cada vez mais complexa. Para mais detalhes sobre o pensamento de Fernandes na década de 1950, sugerem-se as pesquisas de Lucas Trindade da Silva (2022) e Rafael Gomes N. Pereira (2025).
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O texto em questão foi apresentado por Florestan Fernandes em sua obra escrita em conjunto com Roger Bastide, intitulada Brancos e Negros em São Paulo (Fernandes; Bastide, 1971, p. 21). O livro resultou da pesquisa realizada por ambos no contexto do chamado “Projeto Unesco”. Sobre o Projeto Unesco, Marcos Chor Maio (2014, p. 12) afirmou que: “A UNESCO foi criada no imediato pós-2ª Guerra Mundial. Em 1949 definiu uma agenda de combate ao racismo, ainda sob o impacto do genocídio nazista e da ampla e persistente visibilidade do racismo e do colonialismo. Naquele contexto, o Brasil foi visto como contraponto, em perspectiva comparada, às violentas experiências de racismo nos EUA e na África do Sul. Como consequência dessa premissa, uma rede transatlântica de cientistas sociais (Charles Wagley, Roger Bastide, Luiz de Aguiar Costa Pinto, Oracy Nogueira, Florestan Fernandes, Thales de Azevedo, René Ribeiro, Marvin Harris e outros), predominantemente de esquerda, desenvolveu pesquisas no Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco e Bahia, em áreas tradicionais e modernas, gerando um diversificado quadro interpretativo das relações raciais no Brasil.”
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Aqui acompanhamos o argumento de Lucas Trindade da Silva (2025, p. 8).
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Os principais elementos autobiográficos de Celso Furtado encontram-se reunidos em suas obras A Fantasia Organizada e Aventuras de um Economista Brasileiro (Furtado, 1985, 2013).
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É digno de nota, como ressalta Bruno Borja (2013, p. 83), que Formação Econômica do Brasil “é na realidade o ponto de chegada, a síntese de mais de dez anos de pesquisa e reflexão sobre a história econômica brasileira”, incorporando tanto os estudos de doutoramento de Celso Furtado quanto “quase uma década de serviços na Comissão Econômica para a América Latina”.
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A data mencionada refere-se ao ano de publicação da primeira edição de Formação Econômica do Brasil. A edição utilizada neste trabalho encontra-se nas referências bibliográficas.
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Como lembram Cardoso (2009) e Borja (2013), a relação entre o centro dinâmico da economia e o centro de decisão política constitui uma influência de Henri Pirenne, identificável desde a tese de doutoramento de Celso Furtado. Simultaneamente, também é possível reconhecer a presença da influência marxiana na análise das transformações da superestrutura política.
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No que se refere ao cronótopo moderno, alinhamos nossa análise ao argumento de Tavolaro (2025).
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Uso de inteligência artificial
Diagramação e revisão gramatical realizadas com a IA da Gutenback. O texto final, revisado por editoras, editores e pareceristas, foi aprovado pelas autoras e autores.
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Editoria:
Eduardo Dimitrov
