Open-access Interprofissionalidade na educação permanente em saúde: perspectiva de egressos, coordenadores e facilitadores

Interprofesionalidad en las prácticas de educación permanente en salud en el contexto brasileño: una perspectiva desde graduados, facilitadores y coordinadores

Resumo

Este artigo teve por objetivo compreender, na ótica de egressos, facilitadores e coordenadores de ações de educação permanente em saúde, os desafios e as barreiras à incorporação da interprofissionalidade em ações educativas desenvolvidas no contexto brasileiro. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, realizada em cinco estados de diferentes regiões do Brasil, em 2022, na qual os dados foram produzidos mediante entrevistas semiestruturadas com coordenadores e facilitadores e um formulário que continha perguntas abertas para os egressos de ações de educação permanente em saúde. Todo o material foi organizado com base na análise temática do conteúdo e interpretado à luz dos referenciais da interprofissionalidade e da educação permanente em saúde. Os resultados apontam desafios para a inserção da interprofissionalidade nas ações educativas em diferentes dimensões: relacionais, processuais, organizacionais e contextuais. Como conclusão, superar esses desafios exige políticas públicas integradas, qualificação crítica dos educadores, valorização do trabalho em equipe e fortalecimento institucional, reconhecendo que a interprofissionalidade não é um ideal técnico, mas um projeto político para a transformação do cuidado e da formação no Sistema Único de Saúde.

Palavras-chave
capacitação de recursos humanos em saúde; educação interprofissional, educação permanente em saúde

Abstract

This article aims to understand, from the perspective of graduates, facilitators, and coordinators of continuing health education programs, the challenges and barriers to incorporating interprofessionalism in these programs within the Brazilian context. This is a qualitative study, carried out in five states across different regions of Brazil, in 2022, in which the data were collected through semi-structured interviews with coordinators and facilitators, and a questionnaire containing open-ended questions for those who had participated in continuing health education initiatives. All material was organized using thematic content analysis and interpreted in light of the frameworks of interprofessionalism and continuing health education. Our results point to obstacles to the integration of interprofessionalism in continuing health education programs across different dimensions: relational, procedural, organizational, and contextual. In conclusion, overcoming these challenges requires integrated public policies, critical training for educators, valuing teamwork, and institutional strengthening, recognizing that interprofessionalism is not a technical ideal, but a political project for the transformation of care and training in health within the Brazilian Unified Health System.

Keywords
human resources training in health; interprofessional education; continuing education in health

Resumen

Este artículo busca comprender, desde la perspectiva de egresados, facilitadores y coordinadores de acciones de educación permanente en salud, los retos y barreras para la incorporación de la interprofesionalidad en dichos programas en el contexto brasileño. Se trata de una investigación cualitativa, realizada en cinco estados de diferentes regiones de Brasil, em 2022, en la que los datos se obtuvieron a partir de entrevistas semiestructuradas con coordinadores y facilitadores, y de un cuestionario que incluía preguntas abiertas para los exparticipantes de las acciones de educación permanente en salud. El material se organizó mediante análisis de contenido temático y se interpretó a la luz de los marcos teóricos de la interprofesionalidad y la educación permanente en salud. Nuestros resultados señalan obstáculos para la integración de la interprofesionalidad en los programas de educación permanente en salud en diferentes dimensiones: relacional, procedimental, organizacional y contextual. En conclusión, superar estos desafíos requiere políticas públicas integradas, capacitación crítica para educadores, valoración del trabajo en equipo y fortalecimiento institucional, reconociendo que la interprofesionalidad no es un ideal técnico, sino un proyecto político para la transformación de la atención y la formación en salud dentro del Sistema Único de Salud brasileño.

Palabras clave
capacitación de recursos humanos en salud; educación interprofesional, educación permanente en salud

Introdução

A formação e o trabalho dos profissionais da saúde historicamente se constituem como um campo de disputa condicionado pelo modelo de atenção em saúde, podendo ser por um lado médico hegemônico, com tecnologias de cuidado epidemiologicamente ineficientes, saberes uniprofissionais, pouco dialógicos e socialmente injustas; ou por outro pautado pela vigilância à saúde segundo as necessidades socioepidemiológicas dos territórios e sua determinação social (Méllo, Albuquerque e Santos, 2022).

Nesse contexto, a educação permanente em saúde (EPS) consolida-se como uma estratégia fundamental de aprendizagem que ocorre no e para o trabalho em saúde, orientada pelas complexidades e pelos desafios cotidianos dos serviços. Seu propósito é promover a construção coletiva de práticas de cuidado significativas para trabalhadores, usuários e gestores do Sistema Único de Saúde (SUS) (Jesus e Rodriguez, 2022; Ferraz et al., 2025). Esses princípios passam a integrar a agenda prioritária do SUS com a criação e a institucionalização da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS), em 2004, momento em que a formação e o trabalho em saúde assumem papel estratégico nas políticas públicas brasileiras (Jesus e Rodriguez, 2022).

No entanto, passados 21 anos, o que se observa ainda são desafios para a implementação de ações de EPS que tenham como eixo orientador uma ruptura com as formas tradicionais de ensino (Freire Filho et al., 2019; Ogata et al., 2021), de forma a integrar as equipes profissionais no que conhecemos como trabalho interprofissional colaborativo, ou seja, “quando dois ou mais trabalhadores de núcleos profissionais diferentes de forma intencional interagem entre si, colaborando, dialogando e construindo um processo de trabalho em saúde visando a integralidade e resolutividade” (Barbosa et al., 2022, p. 68).

A literatura internacional tem avançado na delimitação de competências colaborativas, no desenvolvimento de marcos normativos e na descrição de experiências interprofissionais, com destaque para revisões sistemáticas que apontam mudanças positivas em atitudes e comportamentos dos profissionais, embora ainda com evidências limitadas sobre impactos diretos em desfechos clínicos (WHO, 2010; Reeves et al., 2016; Saragih et al., 2024; PAHO, 2025). Entretanto, revisões mais recentes têm fortalecido esse corpo de evidências ao demonstrar que o trabalho interprofissional está associado à melhoria de desfechos clínicos e organizacionais, incluindo melhor controle de doenças crônicas, redução de erros clínicos e do tempo de internação, maior satisfação de usuários e profissionais, além de menores níveis de estresse e burnout entre os trabalhadores da saúde (Pascucci et al., 2021; Carron et al., 2021). Esses resultados reforçam a interprofissionalidade como uma estratégia capaz de qualificar simultaneamente o cuidado, os processos de trabalho e a sustentabilidade dos sistemas de saúde.

No Brasil, estudos vêm analisando em sua grande maioria a incorporação da interprofissionalidade em currículos de graduação e em experiências como o Programa de Educação pelo Trabalho na Saúde (PET-Saúde), tendo em vista sua institucionalização e sustentabilidade (Marques e Costa, 2023; Mazzi et al., 2023; Moraes e Medeiros, 2023). No entanto, pouco se sabe sobre como a interprofissionalidade tem se expressado (ou não) nas ações de EPS, bem como os desafios enfrentados na sua operacionalização, o que pode implicar prejuízos múltiplos: na fragmentação das práticas de cuidado, que permanecem centradas em núcleos profissionais e não nas necessidades dos usuários; na limitação do potencial formativo da EPS, que tende a reproduzir modelos disciplinares e verticais de ensino; e na fragilização dos processos de trabalho em equipe, dificultando a construção de práticas colaborativas e a integralidade da atenção em saúde. Tais lacunas evidenciam a necessidade de se aprofundar a compreensão sobre as condições políticas, institucionais e pedagógicas que podem restringir a incorporação da interprofissionalidade nas ações de EPS.

Assim, este artigo teve por objetivo compreender, na ótica de egressos, facilitadores e coordenadores de ações de educação permanente em saúde, os desafios e as barreiras à incorporação da interprofissionalidade nessas ações em contexto brasileiro.

Metodologia

Trata-se de um estudo qualitativo acerca de ações de educação permanente, que fizeram parte do projeto intitulado “Avaliação da implementação da Política de Educação Permanente nos estados”, que tinha como objetivo elaborar uma proposta teórico-metodológica para o monitoramento e a avaliação da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS) no Brasil (Brasil, 2018). Para isso, selecionaram-se ações educativas indicadas pelas secretarias estaduais de saúde (SES) das diferentes regiões do país, considerando a diversidade no formato das ações, público-alvo, finalidade e temáticas.

Onze ações educativas fizeram parte do projeto supracitado. No entanto, para fins deste estudo, apenas cinco dessas ações foram selecionadas, número considerado suficiente para alcançar a saturação teórica, entendida como o momento em que a inclusão de novos casos deixa de produzir novos elementos analíticos para a compreensão do fenômeno estudado (Rahimi e Khatooni, 2024). A decisão baseou-se na repetição de padrões, convergência entre os achados e densidade suficiente para sustentar as categorias analíticas. Contemplaram-se ações educativas de Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo e Santa Catarina, realizadas entre 2017 e 2020 (Quadro 1).

Quadro 1
– Ações educativas analisadas, público-alvo e objetivos.

Este estudo contou com 69 participantes, sendo nove coordenadores, 13 docentes ou facilitadores e 47 egressos das ações educativas. O acesso aos participantes se deu mediante as informações fornecidas pelo setor responsável pelas ações de EPS nas SES. Os contatos foram feitos via e-mail e WhatsApp, considerando-se o contexto de distanciamento social no desenvolvimento do estudo.

Para a produção dos dados referentes às percepções dos coordenadores e facilitadores, foram realizadas entrevistas semiestruturadas (Minayo, 2014), orientadas pelas questões disparadoras: “Como essa ação foi planejada e desenvolvida desde a sua concepção até sua execução e quais os desafios sentidos ao longo desse processo?” Outras questões decorreram destas, em uma abordagem que buscou aprofundar aspectos relativos à organização das ações educativas e aos entraves enfrentados no seu desenvolvimento. Tal flexibilidade permitiu captar não apenas a linearidade dos processos, mas também suas contradições, tensões e sentidos atribuídos pelos sujeitos à experiência vivida. As entrevistas foram feitas de janeiro a junho de 2022, no contexto da pandemia de covid-19, motivo pelo qual ocorreram de forma virtual pela plataforma Zoom. Gravadas e transcritas na íntegra, tiveram duração média de 57 minutos.

Para apreender as informações dos egressos, utilizou-se o instrumento da dimensão de efeitos, elaborado no projeto citado. O instrumento propunha-se a avaliar os resultados obtidos no cotidiano do trabalho com base nas ações educativas, contendo cinco blocos acerca de percepção da ação educativa, avaliação da aprendizagem, suporte institucional, modificações no processo de trabalho e incorporação de inovações nos serviços. Para fins deste estudo, analisaram-se as respostas das questões abertas do bloco 4 (modificações no processo de trabalho), que continha questões sobre os desafios enfrentados.

O material transcrito das entrevistas, assim como as respostas abertas do instrumento aplicado nos egressos, foi submetido à análise de conteúdo temática (Minayo, 2014). Essa abordagem permitiu apreender sentidos e significados presentes nas falas dos participantes, por meio de um processo sistemático que envolveu leitura flutuante, codificação, categorização e interpretação crítica. Para apoiar e qualificar esse processo analítico, usou-se o software NVivo, que possibilitou a organização, a codificação e a visualização das unidades de registro, assim como favoreceu o cruzamento entre categorias e a identificação de padrões emergentes, já amplamente estabelecido na literatura (Tonin et al., 2023).

A interpretação dos dados se deu à luz dos referenciais teórico-conceituais e metodológicos da interprofissionalidade (WHO, 2010; Reeves et al., 2016; Saragih et al., 2024; PAHO, 2025), bem como da EPS (Brasil, 2018). Para melhor compreensão dos desafios concretos que emergiram da análise das entrevistas, tomou-se como base a tipologia proposta por Reeves e colaboradores (2010), que identifica quatro dimensões interdependentes (relacional, processual, organizacional e contextual) como estruturantes do trabalho interprofissional. Embora originalmente concebida para descrever fatores (e não desafios) que influenciam a colaboração no contexto das práticas assistenciais em saúde, e não especificamente voltada ao campo da educação, essa tipologia foi aqui mobilizada como lente analítica para interpretar os desafios enfrentados na incorporação da interprofissionalidade nas ações de EPS que surgiram no material empírico objeto do estudo. As quatro dimensões descritas no Quadro 2, ainda que distintas, se articulam entre si, exigindo uma abordagem analítica integrada e sensível às múltiplas camadas que atravessam o trabalho e a formação em saúde (Reeves et al., 2010).

Quadro 2
– Desafios à incorporação da interprofissionalidade na educação permanente em saúde.

No estudo aqui apresentado, identificaram-se os participantes pelas siglas ‘Coord’, ‘Fac’ ou ‘Egr’, seguidas da numeração.

Resultados e discussão

A análise dos discursos dos facilitadores e coordenadores revela as contradições entre o prescrito e o vivido, entre o desejo de mudança e as estruturas que resistem ao trabalho colaborativo. Tais achados convergem para os resultados obtidos na análise das respostas dos egressos que indicam a presença de barreiras relacionadas ao apoio da gestão, à organização do trabalho e à disponibilidade de condições para aplicação das aprendizagens no cotidiano dos serviços.

No que tange aos desafios relacionais identificados, os discursos revelam disputas de lugar e dificuldade de reconhecimento mútuo entre profissionais, especialmente dos coordenadores e facilitadores, pois

Geralmente, a gente tenta defender aquilo que acredita dentro da profissão da gente e, às vezes, a gente não tem uma escuta qualificada. Isso foi um dos elementos que eu percebi: a falta de olhar integral, de trabalho em equipe, conceber que todas as profissões são necessárias num ato só. Eu, como enfermeira, tenho determinado momento daquele cuidado que não dou conta de resolver, que eu preciso da ajuda do outro colega (Fac13).

Quando você pensa por que as redes têm dificuldade de fazer articulação, é porque existe a dificuldade das pessoas se comunicarem e se relacionarem, de fazer essas conexões (Coord4).

Tais aspectos não se limitam a falhas de comunicação ou a ruídos pontuais, mas também expressam a inscrição histórica de modelos de formação e de trabalho orientados pela lógica uniprofissional, que naturaliza fronteiras disciplinares e hierarquias entre saberes. Essa lógica fortalece o que Frenk e colaboradores (2010) chamaram de ‘tribalismo das profissões’, ou seja, a tendência de as profissões atuarem de forma isolada ou mesmo em competição entre si – e que se expressa em estruturas simbólicas e institucionais que as mantêm confinadas em territórios de saber estanques, dificultando a articulação de práticas colaborativas (Frenk et al., 2010; Peduzzi et al., 2013).

Promover o aprendizado sobre os papéis e as contribuições dos diferentes profissionais com socialização interprofissional amplia a compreensão do trabalho em equipe como prática compartilhada e colaborativa. Ademais, experiências bem conduzidas de socialização interprofissional resultam em melhorias na comunicação, na coesão entre os membros das equipes e, de forma concreta, nos desfechos do cuidado (Dolan e Nowell, 2025; Khowaja et al., 2024).

Convém ressaltar que a comunicação interprofissional se destaca no âmbito dos desafios relacionais. Reconhecida como uma competência colaborativa, não é apenas um mecanismo de troca de informações, mas um processo ético-político que sustenta a construção de práticas compartilhadas, uma vez que permite a negociação de sentidos e responsabilidades no interior das equipes (Gleeson et al., 2023). No entanto, segundo os dados triangulados, há uma opacidade do seu entendimento, como representado nos discursos a seguir:

O desafio da gente reconhecer o trabalho que era desenvolvido em cada setor, em cada área. Compreender qual era o escopo do trabalho de cada diretoria, as suas competências, porque em alguns momentos, elas se atravessam, se cruzam, a fronteira é tênue (Fac6).

Então, era um momento de tensão, porque, em alguns momentos, como nos estudos de caso clínico, algumas pessoas relacionadas às diretorias diferentes ou equipamentos diferentes achavam que era atribuição de um ou de outro. Então acho que a gente deve se reconhecer e falar sobre os nossos lugares, as nossas competências, nossas funções, e a gente reconhecer, principalmente, as fragilidades (Fac11).

A comunicação interprofissional não deve se restringir às interações entre categorias profissionais; estende-se às relações entre áreas técnicas, setores administrativos, diferentes níveis de atenção à saúde, profissionais técnicos de ensino básico, gestores e, sobretudo, aos usuários. Em todos esses espaços, a comunicação é estruturante, pois possibilita o fluxo de informações clínicas e gerenciais, o alinhamento de condutas, e favorece a coordenação do cuidado, especialmente em contextos marcados por necessidades de saúde complexas (Hamid et al., 2016; Prado et al., 2023). Quando atravessada por hierarquias rígidas, ausência de escuta ou falhas nos canais institucionais, a comunicação torna-se um obstáculo à colaboração, comprometendo a integralidade do cuidado (Gleeson et al., 2023).

No âmbito dos desafios organizacionais, os dados revelam falhas na estrutura de apoio à EPS e uma visão reducionista da formação em serviço como política pública. Além disso, expressam a insuficiência de qualificação pedagógica e política dos educadores, o que afeta tanto os processos formativos quanto a capacidade de sustentar propostas alinhadas aos princípios da interprofissionalidade, da autonomia dos sujeitos e da transformação das práticas no cotidiano do SUS.

Essa coisa da liberação do gestor é difícil. Nem todos enxergam a importância. Eles acham que estão jogando dinheiro fora. Ainda chegaram a dizer que tem muitos cursos sábado e domingo, então eles preferem pagar para esse profissional fazer sem ter que sair do serviço (Fac5).

O desafio é a falta de aceitação da maioria dos colegas de trabalho quando diante de uma nova estratégia de trabalho. Mudanças geram desconfortos, e esses desconfortos geram insatisfação e morosidade para melhorias no processo de trabalho. Nem todos têm se dedicado a estudar as evoluções do processo de trabalho do SUS, como a educação permanente (Egr17).

A compreensão restrita de que os trabalhadores são ‘liberados’ para formação e isso seria uma ‘perda de tempo’ ou ‘despesa desnecessária’ revela, além de uma incompreensão conceitual da EPS, uma concepção estreita de gestão em saúde, ainda marcada por lógicas produtivistas e tecnocráticas. Isso aparece expresso nas respostas abertas ao instrumento que foi aplicado aos egressos das ações educativas, quando destacaram a baixa valorização da EPS por parte dos gestores, associada à falta de envolvimento e comprometimento. Tal percepção ignora que a EPS não é um apêndice das atividades assistenciais, mas uma tecnologia de gestão que opera por meio da análise crítica e, portanto, também é trabalho (Feuerwerker, 2005; Brasil, 2018).

Observo falta de apoio do gestor imediato, e diante das pressões sofridas, a construção individual em detrimento da construção coletiva atende a essa demanda do gestor, visto que a construção [individual] é mais rápida, apesar de menos completa e, às vezes, equivocada (Egr25).

Na lógica da EPS, a gestão e os trabalhadores não ocupam lugares hierarquicamente opostos, mas se constituem em uma dinâmica relacional de dupla via: tanto a gestão pode pautar questões estratégicas quanto as equipes devem ter legitimidade para colocar em análise os desafios do cotidiano. No entanto, o processo não é isento de tensões. A abertura para a problematização pode ser incômoda para gestores que resistem à democratização das decisões ou não têm estrutura para enfrentar os problemas que emergem; da mesma forma, pode causar desconforto entre trabalhadores que, ao se depararem com o novo e o instável, tendem a reproduzir práticas conservadoras. Mesmo assim, é justamente nesse campo de tensões que reside a potência da EPS como estratégia de gestão (Feuerwerker, 2005).

Ainda no âmbito dos desafios organizacionais, emergiu a fragilidade na formação dos próprios docentes e facilitadores envolvidos nas ações de EPS. Os facilitadores e coordenadores relatam terem sido formados para o campo assistencial e não para a prática docente, sentindo-se inseguros quanto à condução de processos pedagógicos emancipatórios e à incorporação dos referenciais teóricos conceituais e metodológicos da interprofissionalidade. Esses achados se assemelham aos resultados de outros estudos que apontam desafio relacionado à formação docente (Ahmady, Mirmoghtadaie e Rasouli, 2020; Schlicker, Nitsche e Ehlers, 2023). Embora esse desafio tenha estado presente no discurso dos facilitadores e coordenadores das ações, não emergiu na percepção dos egressos.

O papel do docente ou facilitador é reconhecido como central, não apenas por sua função de mediação didática, mas também por sua capacidade de sustentar ambientes pedagógicos que promovam o diálogo, o respeito entre os diferentes saberes e a negociação de sentidos no interior das equipes. Para tanto, o educador precisa reunir competências que articulem domínio teórico, sensibilidade ética e experiência prática. Além disso, conhecimento sobre as profissões da saúde, compreensão das tensões interprofissionais, familiaridade com metodologias participativas e experiência concreta em contextos de colaboração são atributos considerados essenciais para o exercício dessa função (Reeves, Goldman e Oandasan, 2007; Hall e Zierler, 2015; Ratka, Zorek e Meyer, 2017).

No que diz respeito aos desafios processuais, os discursos de facilitadores e coordenadores revelaram a ausência de tempo protegido para que as equipes se reúnam e reflitam coletivamente sobre seu processo de trabalho.

O nosso gestor não entendia que não era só atender a população, que a equipe tinha que ter um tempo para que ela se reunisse para ser uma equipe (Fac1).

Se a gente queria fazer a diferença na atenção básica e nos demais níveis, a gente precisaria dar um tempo para que essa equipe se comportasse como equipe, com tempo para conversar, avaliar a semana que passou e planejar a seguinte (Coord3).

Os relatos evidenciam a noção de que o trabalho em equipe exige mais do que a execução simultânea de tarefas, demandando, sobretudo, espaços de diálogo, planejamento e avaliação compartilhada. A consolidação da interprofissionalidade pressupõe a existência de tempos instituídos para o encontro, nos quais os profissionais possam negociar condutas, construir consensos e revisar continuamente suas práticas (HPAC, 2019; McLaney et al., 2022).

Entretanto, esse entendimento também encontra resistência nos modelos de gestão centrados na produtividade e na resposta imediata às demandas assistenciais, nos quais o tempo é tratado como recurso escasso, rigidamente controlado, e não como uma dimensão estratégica da organização do cuidado. Um dos egressos relatou no campo de respostas abertas:

Os desafios passam pela urgência do ‘fazer’, que muitas vezes dificulta o aprimoramento das práticas de forma organizada e elaborada, interferindo no ‘pensar’ (Egr23).

Nessas circunstâncias, momentos de escuta e análise coletiva são percebidos como desvios do fluxo assistencial em vez de componentes da qualidade do cuidado. A falta de oportunidades diárias para comunicação em equipe e a priorização de metas produtivistas se destacam como barreiras recorrentes ao funcionamento colaborativo (Oandasan et al., 2009; Grant et al., 2024).

Entre os desafios contextuais identificados, os gargalos estruturais do sistema de saúde e a rotatividade de gestores e profissionais convergem para macrodesafios tanto contextuais quanto organizacionais que precisam ser superados.

A nossa grande dificuldade é que quando você discute e abre esse canal de comunicação, você começa a ter uma discussão de questões que são gargalos e ultrapassam a nossa capacidade de resolver no âmbito da atividade formativa. Não é só uma questão de melhorar a comunicação ou de organizar melhor o trabalho; tem a precariedade dos serviços, a falta de profissionais, contratos instáveis, mudanças constantes de gestão (Coord2).

Há uma rotatividade grande de gestores no SUS e há influência política nas indicações de cargos de pessoas que vão para a área de gestão, e muitas vezes essas pessoas não são formadas para essas finalidades. Isso acaba gerando barreiras importantes para que esse movimento da educação permanente, esse movimento da interprofissionalidade, aconteça (Fac2).

De acordo com os egressos, as trocas de gestão e, consequentemente, de gestores técnicos e profissionais em saúde interferem na efetividade e na continuidade das ações. Os dados explicitam as tensões vividas tanto pelos profissionais egressos quanto pelos educadores, que, ao promoverem espaços de escuta e problematização, deparam-se com impasses sistêmicos que transcendem a governabilidade imediata das equipes e das próprias ações educativas. Questões como a precariedade dos serviços, a fragmentação das redes de atenção, a rotatividade de profissionais, a instabilidade das políticas públicas e a escassez de recursos humanos e materiais emergem como entraves à efetivação da interprofissionalidade no contexto macropolítico (Lawlis, Anson e Greenfield, 2014; Souza et al., 2023).

Salienta-se que, no contexto brasileiro, os desafios contextuais e organizacionais se entrelaçam aos processos históricos de desfinanciamento do SUS, precarização das condições de trabalho e descontinuidade das políticas públicas. Nesse sentido, a adoção de agendas neoliberais e de austeridade fiscal nos últimos anos agravou essas fragilidades, tensionando ainda mais a capacidade do sistema de garantir condições mínimas para práticas colaborativas sustentáveis (Castro et al., 2019; Méllo, Albuquerque e Santos, 2022).

Dentre os desafios mais destacados, tanto pelos entrevistados quanto pelos egressos, estiveram o acompanhamento dos desdobramentos do processo formativo e o suporte para mudanças nos processos de trabalho. Ambos foram apontados como elementos críticos e limitadores para a consolidação dos efeitos das ações educativas.

Porque quando você vai instruir o trabalhador a fazer uma intervenção, ele precisa de apoio para continuar essa intervenção. Ele precisa de alguém que escute, como é que foi, se ele conseguiu, se ele não conseguiu, que caminho ele vai tomar. Então, só ir lá e instigar a pessoa para que tenha mudanças e depois não dá apoio, não adianta (Coord7).

Assumimos múltiplas atividades que caberiam melhor planejamento, dimensionamento do tempo, recursos humanos e financeiros para entregas. Isto implica em desgaste do profissional e da gestão no que tange à incompatibilidade entre as demandas de trabalho e os insumos disponíveis para execução das tarefas e entregas (Egr38).

O suporte institucional tem sido reconhecido como fator decisivo para a efetividade da interprofissionalidade nos processos formativos. O comprometimento da gestão, a alocação de recursos e a atuação de docentes e facilitadores engajados são condições estruturantes. No entanto, a dependência de indivíduos ‘entusiastas’ revela a fragilidade institucional que muitas vezes circunscreve essas iniciativas à esfera do voluntarismo, comprometendo sua continuidade e institucionalização. Nesse sentido, garantir a sustentabilidade dessas iniciativas exige mais do que adesão pontual: implica integrá-las às políticas institucionais, com financiamento, planejamento e reconhecimento estruturado no interior das organizações formadoras e dos serviços de saúde (Reeves, Goldman e Oandasan, 2007; HPAC, 2019).

No plano processual, os desafios analisados partem da compreensão de que a formação em saúde não se encerra na realização pontual de uma atividade educativa; trata-se de um processo contínuo e inacabado, que demanda acompanhamento e sustentação para além do espaço-tempo da atividade formal. Os saberes e experiências mobilizados nos processos formativos precisam ser apropriados, tensionados e recontextualizados na dinâmica cotidiana do trabalho, exigindo momentos de retorno, escuta, apoio e reavaliação. Isso fortalece a articulação entre formação e trabalho, permite a ressignificação das experiências vividas e sustenta mudanças efetivas nas práticas de cuidado (Ceccim, 2005; Mann, Gordon e MacLeod, 2009).

Muitas vezes você tem qualidades homéricas, competências brilhantes, mas se você não estiver dentro de um sistema bem estruturado de gestão, você acaba não conseguindo realizar todo o potencial que você tem. E eu acho que isso é um grande desafio também, porque às vezes não depende nem do docente, nem só do profissional. Então é um contexto, um cenário em que existem diversos atores, e todos eles têm um papel fundamental para dar certo. Uma andorinha só não faz verão (Coord3).

No plano organizacional, evidencia-se a fragilidade de estruturas institucionais que assegurem a continuidade e a consolidação desses processos formativos. A inexistência de dispositivos para monitoramento e avaliação das ações, além de devolutivas qualificadas e escuta sistemática dos trabalhadores, compromete não apenas a efetividade da EPS, mas também a incorporação da interprofissionalidade como valor e prática institucional. A ausência de um acompanhamento que considere os contextos locais, os arranjos das equipes e os atravessamentos históricos da gestão do trabalho impede que os aprendizados adquiridos se transformem em cultura organizacional. Como prática que demanda negociação constante, corresponsabilidade e reconhecimento de papéis, a interprofissionalidade não se sustenta em ações isoladas, mas exige ambientes institucionais que fomentem sua permanência e atualização. Sem esse suporte, a colaboração tende a se diluir e a retornar à lógica segmentada que historicamente tem marcado os serviços de saúde (HPAC, 2019; Khowaja et al., 2024).

Por se tratar de um estudo qualitativo, nesta pesquisa não se teve a pretensão de generalizar resultados, mas sim de abrir caminhos para novos estudos que aprofundem as múltiplas dimensões envolvidas nos desafios para incorporação da interprofissionalidade na EPS. O cenário do estudo esteve circunscrito às ações educativas em apenas cinco estados brasileiros; tal recorte impõe limites à abrangência dos achados e sugere a necessidade de investigações futuras em realidades institucionais e regionais diversas, capazes de captar as múltiplas expressões do trabalho e da formação interprofissional no país.

Apesar dessas limitações, os resultados oferecem contribuições ao evidenciarem as múltiplas barreiras que atravessam a incorporação da interprofissionalidade nas ações de EPS, com destaque para a fragilidade do apoio institucional e o papel dos gestores, docentes e facilitadores nesse processo. Ao explicitar e discutir tais desafios, a pesquisa amplia a compreensão sobre os condicionantes estruturais, organizacionais e pedagógicos que influenciam a efetividade das práticas educativas interprofissionais. Desse modo, busca-se contribuir para o fortalecimento do sistema público de saúde, ao apontar caminhos para o aprimoramento das estratégias formativas com base em princípios éticos, políticos e pedagógicos coerentes com o projeto emancipatório da EPS e com os valores do SUS.

Considerações finais

Os resultados deste estudo evidenciam que a incorporação da interprofissionalidade em ações de EPS extrapola mudanças individuais na forma de pensar ou atuar dos profissionais. Embora essas transformações sejam necessárias, sua sustentabilidade depende de condições institucionais e organizacionais que favoreçam transformações no cotidiano do trabalho. Aspectos como inexistência de tempo protegido, fragmentação dos processos de trabalho, insuficiência de recursos, descontinuidade de ações educativas e fragilidade do apoio por parte da gestão configuram barreiras estruturais que limitam a consolidação de práticas colaborativas. A rotatividade de gestores emerge como um desafio particularmente relevante, ao comprometer a continuidade das ações e evidenciar a influência das conjunturas políticas e de carreiras estáveis no serviço público sobre a implementação da PNEPS e da interprofissionalidade.

Do ponto de vista pedagógico, a pesquisa aponta para uma lacuna persistente na qualificação pedagógica de docentes e facilitadores. A formação, para ser interprofissional, exige não apenas conteúdos novos, mas também deslocamentos epistemológicos e ético-políticos que reorientem os modos de produzir saber e cuidado em direção à interdependência, à escuta e à corresponsabilidade. Como estratégia pedagógica, a EPS só se realiza plenamente quando articulada de forma indissociável com a gestão do trabalho e com os territórios existenciais em que os sujeitos atuam, e não como uma política acessória ou episódicaA análise dos desafios mostra ainda que, em contextos marcados por subfinanciamento, descontinuidade institucional e desvalorização da dimensão educativa do trabalho em saúde, mesmo as iniciativas formativas mais bem desenhadas enfrentam limites estruturais para sua consolidação. Essa constatação impõe uma mudança no foco da análise: é preciso deslocar o olhar da ‘resistência dos trabalhadores’ para as ausências estruturantes do sistema, reconhecendo que os entraves à interprofissionalidade podem ser menos resultado de falhas individuais e mais expressão de um padrão institucional que naturaliza a fragmentação e penaliza a construção compartilhada.

Nesse sentido, uma agenda de pesquisa futura deve aprofundar a compreensão sobre como as condições organizacionais, políticas e pedagógicas influenciam a sustentabilidade das ações de EPS que incorporem a interprofissionalidade. Estudos futuros poderiam investigar, por exemplo, os efeitos de diferentes modelos de gestão e financiamento sobre a continuidade das práticas colaborativas e as estratégias de mediação adotadas por facilitadores e gestores para articular ensino, serviço e comunidade. Além disso, ressalta-se a necessidade de se explorar como as desigualdades regionais e institucionais impactam a implementação da PNEPS e a incorporação efetiva da interprofissionalidade no cotidiano dos serviços.

Referências

  • Aspectos éticos:
    Estudo aprovado no Comitê de Ética do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia em 13 de abril de 2022 e registrado na Plataforma Brasil sob o n. CAAE: 55853922.6.0000.5030.
  • Apresentação prévia:
    Este artigo é resultante da tese de doutorado de Cláudia Fell Amado, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, defendida em 05 de agosto de 2025.
  • Preprint e versão final:
    O artigo não foi disponibilizado em repositório de preprint.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
  • Processo de avaliação:
    Revisão por pares duplo-cega (double blind peer review).
  • Avaliadores:
    Dois pareceristas ad hoc avaliaram este artigo e não autorizaram a divulgação dos seus nomes.
  • Financiamento:
    A primeira autora recebeu bolsa de doutorado concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), processo n. 142552/2019-4, durante o desenvolvimento da pesquisa. Não houve financiamento específico para a execução do projeto de pesquisa.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Set 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    05 Set 2025
  • Recebido
    29 Jun 2026
  • Aceito
    15 Jul 2026
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