Open-access Percepção-em-ação no enjambement

Perception-in-action in enjambment

Resumo

A leitura do enjambement, usualmente descrito como um "desencontro" entre unidade sintática e padrão métrico fixado pela linha que limita o verso, envolve complexos processos cognitivos — percepção, reconhecimento de padrão, processamento de sentenças, antecipação, categorização. Para explicar esse fenômeno, os modelos se revezam entre versões mais ou menos internalistas — leitores de poesia versificada são processadores desincorporados, "sanduíches cognitivos" (cognitive sandwiches) do tipo input → processamento → output, livres de hábitos (culturais, físicos, sensório-motores), livres de artefatos sociotécnicos e de contextos. Interessa-nos aqui compreender como certas teses fundamentais do "externalismo cognitivo ativo", especialmente aquelas relacionadas à "percepção como ação", e à "cognição como predição", podem ajudar-nos a situar o enjambement no paradigma da cognição 4E (embodied, embedded, enacted, extended cognition)? Exploramos as implicações de certas premissas (4E) no domínio mais recente de discussão sobre a cognição estendida do verso e da quebra do verso.

Palavras-chave
Enjambement; Modelos; Percepção como ação; Externalismo ativo

Abstract

The reading of enjambment, usually described as a "mismatch" between syntactic units and the metrical pattern established by the line delimiting the verse, involves complex cognitive processes — perception, pattern recognition, sentence processing, anticipation, and categorization. Explanatory models of this phenomenon tend to alternate between more or less internalist versions in which readers of verse are conceived as disembodied processors, "cognitive sandwiches" structured as input → processing → output, detached from habits (cultural, physical, sensorimotor), sociotechnical artifacts, and contextual environments. Our aim here is to investigate how certain fundamental theses of active cognitive externalism — especially those related to "perception as action" and "cognition as prediction" — may help situate enjambment within the framework of 4E cognition (embodied, embedded, enacted, and extended cognition). We explore the implications of these 4E premises for recent discussions concerning the extended cognition of verse and line-breaks.

Keywords
Enjambement; Models; Perception as action; Active externalism

[(...)
intervalo:
no escuro
fosso dos
tempos
sub-
reptício
o
jogo
rasteja
a
sua
escusa
assinatura
(...)]
(André Vallias, Oratório)

Poetry is the sound of language organized in lines.

(James Longenbach, The Art of the Poetic Line).

What is missing is action, and action changes everything.

(Andy Clark, Surfing Uncertainty)

1. ENJAMBEMENT — DEFINIÇÃO E MODELOS

O enjambement (do francês enjamber, "transpor ou invadir") consiste na dissociação entre o limite do verso e o término de uma unidade sintática, cuja continuidade se projeta no verso subsequente (Yeung, 2022). Além de sua importância formal como organização do verso, o enjambement modula a atenção do leitor, intensifica ambiguidades locais e reorganiza temporalmente a interpretação durante o processamento incremental da leitura (Brandt, 2022; Freeman, 2020; Moses, 2018; Tsur, 2017). Em nossa abordagem, o enjambement é um "artefato cognitivo" (Hutchins, 1999) que modula expectativa, atenção e reorientação sensório-motora durante a leitura. O enjambement não perturba apenas a sintaxe; ele reorganiza temporariamente o sistema perceptivo-preditivo do leitor. Ele pode ser descrito como um ponto de atraso, no qual o limite do verso induz uma expectativa estrutural que precisa ser revista quando o verso seguinte fornece uma continuação sintática inesperada.

A leitura do enjambement, ou "cavalgamento" como prefere Said Ali (2006 [1999], p. 44), envolve complexos processos cognitivos — percepção categorial, reconhecimento de padrão, processamento de sintaxe, solução de problemas, generalização, categorização. Dinah Livingstone (1993, p. 55), em seu influente Poetry Handbook for Readers and Writers, afirma — "[p]oemas são escritos em versos, que podem ter um certo ritmo ou métrica. Se uma pausa natural de sentido ocorre no final do verso, chamamos isso de end-stopped (verso com pausa final). [...] Se o verso termina no meio de uma frase e a pausa de sentido ocorre no verso seguinte, chamamos isso de run-on line ou usamos o termo francês enjambement". No Dicionário Houaiss (2009), o enjambement é definido como a "partição de uma frase no final de um verso ou uma estrofe, sem respeitar as fronteiras dos sintagmas, colocando um termo do sintagma no verso anterior e o restante no verso seguinte". Said Ali sugere que um "verso cavalga por cima de outro, quando o sentido da frase se interrompe no primeiro e se completa no segundo" (Ali 2006 [1999], p. 45); "[e]m francês dá-se o nome de rejet à palavra ou frase completadora do sentido que ficou suspenso no verso anterior. Em português podemos dizer parte excedente, ou só excedente" (Ali 2006 [1999], p. 46; ênfase do autor).

Diversos autores preferem definir o enjambement como um "desajuste", ou "desencontro", entre a sintaxe1 e o padrão métrico de versificação fixado pela linha que limita o verso, e que prescreve sua performance acústica (Bradford, 1993). Para Balbín (1975 [1962], p. 202), trata-se de um "desajuste entre a pausa rítmica e a pausa sintática, ao constituírem-se os grupos melódicos que se juntam na estrofe". Segundo Quilis (1975, p. 74), é um "desencontro que se produz na estrofe quando uma pausa no verso não coincide com uma pausa morfossintática". Para Ramazani & Brogan (et al. 2012, p. 2383), o enjambement é definido como "a continuação de uma unidade sintática de um verso para o próximo sem uma pausa ou junção significativa; o oposto de um verso end-stopped (com pausa final)." Segundo T.v.F.B. & C.S. (2012, p. 359-360), trata-se de um "não-alinhamento da (final da) estrutura métrica com o período sintático no final do verso — o transbordamento para o verso seguinte de uma frase sintática (com seu contorno entonacional) iniciada no verso anterior, sem uma pausa ou junção significativa. O oposto de end-stopped (q.v.)."

Os autores, para reduzir a variedade empírica encontrada, propõem diversas categorias. Balbín (1975 [1962], p. 217), um dos teóricos que mais se dedicou ao fenômeno nas últimas décadas, opõe "abrupto", quando o enjambement se prolonga até a quinta sílaba do verso encavalgado (duração de um braquistíquio), a "suave", quando ele se prolonga para além da quinta sílaba do verso encavalgado; sobre a densidade, ou extensão, das pausas nos versos, "interno", quando a quebra acontece na cesura entre dois hemistíquios do mesmo verso, e "versal", quando a quebra acontece entre dois versos subsequentes; sobre o desencontro entre morfossintaxe e regiões da pausa, durante a leitura, "sirremático", quando a quebra acontece na sequência substantivo-adjetivo, e "lexical", quando uma palavra é quebrada entre dois versos; "encadeado", quando acontece uma repetição sucessiva de encavalgamentos na mesma estrofe. Quilis (1964), a partir de Balbín (1975 [1962]), elabora novas categorias, como o "sirremático", ao detalhar as classes gramaticais envolvidas, o "oracional", quando a quebra separa o substantivo e a oração subordinada relacionada, o "versal", e o "medial", que corresponde ao interno. Spang (1983) define um enjambement "estrófico", quando a quebra acontece entre estrofes, e "dilatado", quando a quebra é separada por um ou mais versos. Golomb (1979), a partir da noção de "tensão entoacional", que ele relaciona à expectativa de um limite prosódico, propõe duas classes — "prospectivo", ou antecipatório, quando a quebra satisfaz uma predição sintática de alta probabilidade, e "retrospectivo", quando não satisfaz. Golomb (1979) também sugere uma classe ainda mais rara, entre diversas categorias descritas por Fowler (1966), que é o enjambement intramorfêmico, quando o morfema é quebrado em duas partes. Hollander (1975) é outro autor atento às terminações dos versos que, como ele sugere, não são fronteiras, mas segmentações sintáticas possíveis. Yeung (2022, p. 46), distingue três classes de efeitos. A primeira é o "transbordo" (over-running), em que a continuidade sintática avança para o verso subsequente como se uma única linha fosse insuficiente para conter o enunciado, produzindo efeitos de abundância, expansão sensorial ou conexão entre constituintes sintáticos. A segunda é o "alcance excessivo" (over-reaching), que ela chama de suspensão momentânea do sentido, gerando expectativa, hesitação ou ambivalência, como ocorre quando um verso termina em verbo cujo complemento só aparece no verso seguinte. A terceira é a "ruptura" (disrupting), em que a quebra de linha opõe-se à progressão sintática prevista, produzindo efeitos de descontinuidade, esforço interpretativo ou desaceleração da leitura.

Brandt (2013) analisa o fenômeno como uma "iconicidade de quebra de linha" (linebreak iconicity), ou descontinuidade icônica, em que a "sintaxe do enjambement" atua como iconicidade performativa (direta ou indireta), forçando o leitor a experimentar fisicamente as quebras de sentido e ambiguidades gramaticais. Para Brandt (2013), a iconicidade de quebra de linha representa uma relação em que a forma material do verso e os movimentos exigidos pela leitura reproduzem iconicamente certos aspectos semânticos. Derivada do que ela chama de "sintaxe do enjambement", essa propriedade interrompe o fluxo para gerar efeitos de descontinuidade. Tal iconicidade manifesta-se, de um lado, como descontinuidade visual, quando a ruptura gráfica da linha espelha semanticamente uma ruptura; de outro, como iconicidade cinestésica e dinâmica, quando o deslocamento ocular entre versos, ou a extensão anômala da linha, mimetiza movimento, aceleração ou liberação de força. O gesto físico de passar de uma linha a outra e a percepção do espaço em branco da página tornam-se recursos performáticos do poema.

Uma noção bastante recorrente, mas raramente tratada com alguma tecnicalidade,2 e que orienta boa parte das abordagens, é a de predição, ou de antecipação cognitiva — "expectativas" ao fim do verso encavalgante, são "revisadas" (refutadas ou confirmadas) no verso encavalgado (rejet), mais ou menos como Golomb (1979) define o enjambement (prospectivo e retrospectivo). Os autores se revezam entre distintas explicações do que é conhecido como "processamento de sentenças". Para explicar o enjambement, são concebidos diversos modelos. Eles abrangem tanto compreensão quanto produção linguísticas e se concentram nos mecanismos pelos quais um parser ("processador mental") atribui uma estrutura sintática ao input oral ou visual (Pickering & Garrod, 2013; Levy, 2008).

As abordagens pretendem elucidar como as relações sintáticas são construídas à medida que a sentença é processada em tempo real. Em geral, esses modelos baseiam-se no princípio do processamento incremental, segundo o qual o parser constrói progressivamente a estrutura sintática enquanto recebe novos inputs, atribuindo representação estrutural a cada informação disponibilizada (Pickering & Garrod, 2013). Esse princípio assegura que, mesmo se uma sentença for interrompida antes de sua finalização (em uma "quebra de linha", por exemplo), suas partes ainda assim serão processadas. Há também modelos de processamento não-incremental, nos quais a atribuição de uma estrutura ao input ocorre apenas quando a sentença é totalmente exibida. Entretanto, evidências sugerem que é possível interpretar sentenças incompletas, e até prever como elas provavelmente serão concluídas.3

2. ENJAMBEMENT NO "SANDUÍCHE COGNITIVO"

É muito claro que a posição (empírica e teórica) identificada até aqui é a Teoria Computacional da Mente (CTM, em inglês), ou internalismo cognitivo (ou ainda: cognitivismo clássico ou ortodoxo, intelectualismo, ou G.O.F.A.I: good old fashion AI), caracterizados por um tipo de reducionismo (funcional e computacional) bastante difundido, até hoje (Rescorla, 2024; Sprevak & Colombo, 2019). Essa abordagem, que é também intracraniana e neurocêntrica — a mente opera como um sistema computacional, por meio de atividades neurais —, baseia-se em um modelo do tipo cognitive sandwich (cf. Susan Hurley, 2008), percepção → cognição → ação, descrita, em geral, como input → processamento → output. O que é chamado de "processamento" é tecnicamente descrito como o uso de máquinas de Turing — manipulação de símbolos seguindo regras e estados discretos internos. O modelo sugere que diferentes tecnologias (chips de silício ou redes neurais biológicas) podem realizar as mesmas tarefas computacionais. Ele também sugere que estados mentais funcionam como representações — o processamento de informações requer entradas na forma de símbolos. Haugeland (1997, p. 25) resume assim o paradigma: "[internalistas: G.O.F.A.I. e conexionistas] aceitam uma entrada de algum lugar, trabalham nela por um tempo e entregam uma saída. Toda a 'ação' ocorre dentro do sistema, em vez de ser parte integrante de uma interação mais ampla com um corpo ativo e um ambiente ativo." O desafio passa a ser como explicar que sistemas ontologicamente diferentes (agente e ambiente) interagem. O cognitivismo baseia-se na ideia subsidiária representacional de que processos mentais são manipulações de entidades simbólicas pré-existentes de acordo com regras sintáticas. Essa perspectiva, que teve seu auge nos trabalhos de David Marr (visão), Jerry Fodor (linguagem) e Ray Jackendoff (percepção e linguagem), é amplamente dominante até o final dos anos 1980, e permanece influente como paradigma científico-filosófico até hoje (Sprevak & Colombo, 2019). Como Nöe (2010, p.57) sugere, "[c]ientistas na tradição intelectualista de Platão e Descartes tratam o pensamento como uma forma de computação. E eles consideram a computação como um processo de cálculo deliberado e meticuloso. Na medida em que somos 'pensadores', somos todos, de acordo com essa tradição, computadores biologicamente evoluídos." É quase um consenso que a CTM simplifica demasiadamente a natureza dinâmica (tempo-dependente) (Thelen & Smith, 1994; Port & Van Gelder, 1995), sensível ao contexto (in the wild, cf. Hutchins, 1995) e incorporada da cognição (Chemero, 2009). A partir dos anos 90, as Ciências Cognitivas são abaladas pela teoria dos sistemas dinâmicos (DST, em inglês) — a cognição é descrita como um processo auto-organizado e emergente, sensível ao tempo, formada por interações contínuas e recíprocas entre o cérebro, o corpo e o ambiente (físico e cultural) (Perone & Simmering, 2017; Beer, 2000). Estruturas pré-definidas (representações simbólicas) são abandonadas em favor de padrões dinâmicos de atividades adaptativas auto-organizadas (Kelso, 1995; Port, 2009; Favela, 2024; Kuś & Wójtowicz, 2025).

O que mais importa em nossa abordagem é que a linguagem ocupa uma posição central no paradigma internalista-computacional (CTM) e que muitos modelos formulados para explicar o enjambement derivam de pressupostos tipicamente cognitivistas. Para Alva Noë (2010, p.58), "a visão padrão na linguística contemporânea ["intelectualista"] defende que a competência linguística envolve o conhecimento ["tácito" ou "declarativo"] de regras para formar frases gramaticalmente corretas e, como ouvintes, interpretar o significado com base nos significados das palavras e nas regras sintáticas." A CTM baseia-se em modelos de processamento regulados por regras, e a linguagem verbal é um de seus casos mais paradigmáticos (Colombo & Piccinini, 2023). Embora reformulada por modelos estatísticos e conexionistas, a concepção de linguagem como computação permanece influente, sobretudo a tese de que compreender e produzir linguagem envolve processamento estruturado de sequências simbólicas ou probabilísticas (Futrell & Hahn, 2026; Ferrone & Zanzotto, 2020).

3. O EXTERNALISMO COGNITIVO ATIVO

Contra o internalismo, segundo o qual estados e conteúdos mentais se encontram no interior da mente (Lau & Deutsch, 2019), estados mentais intencionais (estados "sobre") estão, para o externalismo ativo, parcialmente localizados no ambiente. Questiona-se o próprio crânio como critério para demarcação de fronteiras entre a mente e o ambiente (Menary, 2010; Wheeler, 2005; Clark, 1998; Robbins & Aydede, 2008). No externalismo ativo, são enfatizados os papéis desempenhados na cognição pelos sistemas motor e perceptivo, pela propriocepção, por artefatos não-biológicos e pelo ambiente sociotécnico envolvendo agentes e instituições (Atã & Queiroz, 2025). Para Carter (et al. 2014, p. 12), há diversos tipos de externalismo — "externalismo epistêmico", "cognição incorporada", "externalismo de conteúdo", "externalismo ativo" e outros. Mesmo nesses domínios, há variações; por exemplo, no "externalismo ativo", há a "tese da mente estendida" (Clark & Chalmers, 1998) e a "hipótese da cognição distribuída" (Hutchins, 2014; Carter et al., 2014, p.12). Para meus propósitos, vou me deter em algumas das principais ideias de dois autores bastante conhecidos no cenário externalista, Andy Clark e Alva Noë.

Andy Clark, especialmente em Surfing Uncertainty (2015) e The Experience Machine (2023), desenvolve a tese de que o cérebro opera como um sistema preditivo, continuamente engajado em antecipar regularidades para orientar a percepção e a ação. A proposta de Clark pode ser sintetizada em algumas teses: (i) o cérebro gera modelos internos capazes de prever estados futuros do mundo e das entradas sensoriais; (ii) a cognição se organiza de modo hierárquico, de modo que níveis superiores formulam hipóteses mais abstratas, continuamente ajustadas por informações de níveis inferiores; (iii) a percepção e a ação dependem de processos de minimização do erro de predição, da discrepância entre expectativas geradas e informação recebida; (iv) a correção contínua permite atualizar modelos internos e melhorar o acoplamento adaptativo organismo-ambiente; (v) a mente emerge menos como recepção de estímulos do que como atividade inferencial persistente, sensível ao contexto e orientada à redução de incerteza (Clark, 2015, 2023, 2025). Para Clark (2023), a cognição é profundamente incorporada e estendida, e depende de interações com o ambiente físico e social. O cérebro não trabalha isoladamente — corpo e ambiente (físico e cultural) são extensões do processo cognitivo. A ação tem um papel crucial nestes processos. A ação controla a percepção (ação e percepção não podem ser separadas) e ajusta-se ao ambiente para reduzir erros de predição. Ao agir, o agente, "surfando incertezas", atua diretamente no ambiente para que ele corresponda às suas predições. Esta abordagem (cognição como máquina preditiva ativa) ajuda a entender uma grande variedade de fenômenos, da percepção à ação (e da percepção "como" ação), à solução de problemas e tomada de decisões.

A teoria externalista da percepção de Alva Noë, especialmente aquela formulada em Action in Perception (2004), pode ser sintetizada em uma tese central: a percepção não é um processo intracraniano, mas uma habilidade prática, ativa e situada. Ela depende da interação dinâmica com o ambiente. A visão não consiste na construção passiva de imagens internas nem no processamento de representações mentais, mas em formas de exploração sensório-motoras dependentes do corpo e do contexto (físico e cultural). Entre seus principais componentes teóricos, destacam-se: (i) a percepção como atividade enativa, isto é, algo que o agente faz e não apenas algo que lhe acontece (ao mover a cabeça ou os olhos, nós antecipamos como a cena visual deve mudar); (ii) o papel constitutivo das contingências sensório-motoras, ou seja, do conhecimento prático de como estímulos variam em função do movimento corporal (ela não ocorre "dentro da cabeça", mas na prática de exploração e interação direta com o ambiente); (iii) a rejeição do internalismo representacional, segundo o qual toda experiência perceptiva estaria encerrada no cérebro; (iv) a ideia de que o ambiente funciona como parte integrante do processo perceptivo, fornecendo estruturas exploráveis em tempo real; (v) a dependência da percepção em relação a hábitos, competências corporais e práticas socioculturais; e (vi) a compreensão da consciência perceptiva como forma de acesso ativo ao mundo, e não como exibição interna de conteúdos mentais (Noë, 2004, 2010).

A abordagem de Noë redefine a visão como um fenômeno incorporado, relacional e enfatiza o papel de atividades sensório-motoras e do ambiente na experiência perceptiva. Alguns dos principais mecanismos que baseiam sua teoria externalista e enativa também podem ser enumerados: (i) A percepção é uma forma de conhecimento prático (por exemplo, sabemos que um objeto parecerá menor à medida que nos afastamos dele) e é dependente de contingências sensório-motoras ou regularidades nas mudanças dos inputs sensoriais em função do movimento (por exemplo, o campo visual que se altera ao mover a cabeça). (ii) A percepção é uma habilidade ativa, que exige movimento intencional e interação com o ambiente, uma exploração do mundo visual para descobrir suas propriedades (por exemplo, sentimos o formato de um objeto movendo as mãos sobre ele). (iii) Os objetos são percebidos como inteiros (presença perceptual), mesmo que apenas algumas partes estejam perceptíveis, devido a um entendimento implícito de sua estrutura. Essa "presença" depende do conhecimento sensório-motor e da capacidade de acessar aspectos não visíveis por meio do movimento (por exemplo, percebemos a parte anterior de uma cadeira enquanto vemos apenas sua parte posterior). (iv) A percepção é um processo emergente (enação) que surge da interação direta entre o organismo e o ambiente (por exemplo, quando navegamos em um quarto escuro tocando objetos e usando pistas auditivas). (v) O mundo externo é um componente essencial da percepção, envolvendo tanto o observador quanto o ambiente. (vi) A percepção está ligada às capacidades físicas do corpo, habilidades motoras, postura e movimento (interação incorporada). O corpo não é apenas um receptor de estímulos, mas um participante ativo na formação das experiências perceptivas (por exemplo, mantemos o equilíbrio ao caminharmos, integrando inputs visuais, vestibulares e táteis de forma dinâmica). (vii) A percepção baseia-se em habilidades, dependendo do conhecimento adquirido sobre como os sistemas sensoriais respondem ao movimento. Habilidades perceptivas se desenvolvem por meio da experiência prática, como acontece com o aprendizado de habilidades físicas (por exemplo, quando uma pessoa cega que utiliza uma bengala aprende a interpretar pistas táteis para perceber a disposição de um espaço).

É muito claro que essa abordagem confronta diretamente o que é chamado de ciência visual ortodoxa ou standard. O problema central para esta ciência tem sido explicar como o cérebro consegue transformar o que é "fornecido" ao sistema visual (input) no que é experimentado pelo observador. Em outro trabalho, Noë & Thompson (2002) argumentam contra a abordagem ortodoxa da percepção, com predomínio nos últimos cinquenta anos, na qual a percepção é um processo em que o cérebro, ou um subsistema funcionalmente dedicado do cérebro, constrói representações das características relevantes do ambiente baseado em informações codificadas por receptores periféricos sensoriais. Para David Marr (1982, capítulo 11), "a visão é o processo de descoberta, a partir das imagens, do que está presente no mundo e onde está." Contra essa abordagem, "ver" não é reconstruir internamente o mundo, mas engajar-se ativamente com ele por meio de competências sensório-motoras incorporadas e situadas, nas quais organismo e ambiente participam conjuntamente da constituição da experiência perceptiva.

A partir desse ponto, a principal questão é: uma perspectiva externalista pode alterar nossa visão sobre "como" processamos, percebemos ou interpretamos, enjambements?

4. O ENJAMBEMENT E O EXTERNALISMO ATIVO

Pode-se afirmar que, seguramente, não há (até onde consultamos), neste domínio de discussão, qualquer tratamento sistemático de uma teoria da percepção do enjambement, como não há um tratamento do fenômeno de predição cognitiva, ou antecipação de seus efeitos. A percepção, mesmo quando superficialmente descrita pelos autores, equivale ao processamento de estruturas que "afetam" o campo da visão (e/ou da audição). Mas não há uma teoria robusta, ainda que ortodoxa, da percepção do enjambement. Se a percepção depende de alguma interação ativa com o poema ou com o verso, isso é quase totalmente negligenciado. O modelo padrão é uma representação interna mereológica de relação entre as partes da estrutura — prosódica, morfológica, sintática, espacial (gráfica) —, durante a leitura.

O externalismo, ao contrário, enfatiza o papel ativo do observador e a necessária interação com o contexto na formação de experiências perceptuais. A percepção do enjambement não resulta de modelos internos ou de processamento baseado em modelos internos, mas é uma atividade dinâmica, incorporada e baseada no contexto, físico e cultural. A leitura do poema depende de padrões estáveis de deslocamento através da arquitetura do poema. São estes padrões que permitem antecipar um cenário (acústico e visual) de interação, de encontros e desencontros sintáticos, semânticos, rítmicos e prosódicos. A antecipação resulta de padrões externos estáveis. O cenário exibe um tipo de exploração regular do poema — o poema é uma memória exterior ativa, offload inferencial ativo da atividade de leitura.4 Em oposição à metáfora do processador em tempo real (ex-machina do poema), o poema (layout, linhas e versos) é um nicho cognitivo de eventos construídos.

Em outras palavras, o leitor se move no poema, nas linhas e entre as linhas do poema, numa exploração ativa, baseado em regularidades contextuais históricas e locais (rítmica, prosódica, sintática), e baseado em regularidades sensório-motoras. Há, como na navegação em ambientes complexos (cf. Nöe sugere, 2010), um conhecimento implícito sobre como o movimento (ocular) muda a experiência perceptual. (Deve ser assim no verso, conforme o leitor se desloca no poema.) É claro que esse conhecimento é preditivo e antecipatório, para minimizar erros — "Boa parte do que me permite compreender o que você diz é que eu já sei o que você vai dizer antes mesmo de você dizer!" (Noë, 2010, p.59). Os versos são percebidos como inteiros, mesmo quando quebrados, mesmo que apenas parte deles (sintática, prosódica, semanticamente) esteja disponível na linha, gráfica ou acústica, devido a um entendimento implícito de sua estrutura prevista.

Há aqui uma diferença fundamental com relação ao internalismo — "Seres humanos são criaturas de hábito. Os hábitos são centrais à natureza humana", mas "de acordo com a concepção intelectualista, estamos livres de hábitos. Nossa natureza distintiva se revela precisamente no fato de que percebemos, avaliamos, decidimos, planejamos, agimos" (Noë, 2010, p.54). A percepção do enjambement depende de hábitos e de habilidades — "O hábito é a base da habilidade. Essa afirmação é evidente nos esportes e na música, onde o treinamento (repetição e prática) é o alicerce concreto sobre o qual se ergue a estrutura do desempenho. Mas isso não é menos verdade em empreendimentos intelectuais. […]" (Nöe, 2010, p.54). Para o filósofo C.S. Peirce, o hábito pode ser descrito como um "padrão de restrições", e tem a forma lógica de uma "proposição condicional", afirmando que algumas coisas aconteceriam sob certas condições (Peirce, 1998, v. 2: 388). Um hábito é uma "regra de ação" (Peirce, 1931, v. 5: 397. Peirce, 1931, v. 2: 643), uma disposição para agir de certos modos sob certas circunstâncias, especialmente quando o agente é estimulado ou orientado por certos motivos (Peirce, 1931, v. 5: 480). Muitos teóricos definem o enjambement como uma quebra na expectativa, portanto, ligado à surpresa. Para Peirce, a surpresa possui um duplo caráter, "ativo" e "passivo" (Peirce, 1931, v. 5: 52, 57). Uma surpresa ativa, ou o caráter ativo de uma surpresa, é resultado de um conflito com alguma expectativa, de resistência com algum fato conhecido e aceito. É uma experiência de conflito com um hábito, com um padrão estável de ação. Em qualquer caso, a surpresa é uma experiência diádica. Isto significa que se trata de uma experiência de resistência com relação a um hábito. Uma surpresa passiva é caracterizada mais simplesmente por "algo inesperado acontece!". Aqui, voltamos a falar de predição. O conflito com uma expectativa caracteriza uma predição criada pelo hábito, do qual não pode ser dissociada. A experiência reativa com um acontecimento inesperado, típico de uma surpresa passiva, também se baseia na estabilidade de certos padrões de ação.5

O que acho mais importante salientar, aqui, é que o verso é um hábito, uma disposição consistente de atividades, sob condições específicas. Ele assemelha-se à antecipação de respostas regulares, incorporando tanto elementos rítmicos quanto sintáticos, prosódicos, gráficos, e semânticos. A experiência do enjambement consiste na experiência de um hábito e de sua quebra. Ela baseia-se em certas habilidades, que dependem de regularidades sensório-motoras. Se a linha do poema pode ser definida como um hábito, um padrão consistente de atividade cognitiva ou uma disposição estável para agir de uma certa maneira sob certas condições, a quebra do verso corresponde à quebra de um hábito — "Poemas são escritos em versos, que podem ter um certo ritmo ou métrica. Se uma pausa natural de significado ocorre no final do verso, chamamos isso de 'end-stopped'" (Livingstone, 1993, p. 55). Podemos considerá-los eventos transformacionais (ETs), que são "mudanças de hábito", ou rupturas de padrões regulares e consistentes de atividade. ETs produzem efeitos inesperados, rompem padrões estáveis de ação, muitas vezes gerando novos ciclos causais. Esta é a função da surpresa. A ideia de "mente antecipatória" parece adequar-se precisamente aqui — "cérebros humanos são máquinas de previsão. Eles são órgãos evoluídos que constroem e reconstroem experiências a partir de misturas mutantes de expectativas e evidências sensoriais reais" (Clark, 2023, p.9). O verso é a "memória externa" de um hábito. Não é um fator de perturbação de um sistema, no vácuo. Ele é um processo estável, possui uma trajetória histórica, e atua em diversas escalas temporais.

CONCLUSÃO

O principal problema abordado aqui pode ser comprimido numa questão: como pressupostos fundamentais do externalismo cognitivo ativo podem alterar nossa visão sobre o enjambement? De uma perspectiva externalista, tanto a linha do poema, quanto sua quebra, o enjambement, são artefatos cognitivos que sustentam (scaffolding) e modulam a predição, a expectativa, a temporalidade da leitura do verso. Minha abordagem baseia-se, principalmente, nos trabalhos de dois importantes externalistas: Andy Clark ("a mente é uma máquina preditiva", 2023) e Alva Nöe ("a percepção é uma atividade exploratória", 2010). Para Clark (2023), o cérebro está todo o tempo antecipando (e tentando adivinhar) os acontecimentos no mundo (e em nosso próprio corpo) — "Tudo o que vejo, ouço, toco e sinto reflete profundos reservatórios de predição." As teorias de Clark e Nöe acontecem no escopo do paradigma da cognição situada, incorporada e distribuída (Menary, 2010), que são posições que defendem que processos cognitivos, como ocorrem "na natureza" (in the wild; Hutchins, 1995), não equivalem ao processamento de informação no cérebro.

Mas há algo ainda mais fundamental em minha abordagem, que deve ser salientado — qualquer explicação sobre o enjambement deve considerar seriamente uma teoria da percepção e da cognição; deve envolver modelos sobre percepção e predição de eventos. O enjambement requer modelos de percepção ativa, de antecipação e hábitos. Para o externalismo, mesmo uma compreensão linguística básica emerge do engajamento exploratório e ativo com o ambiente e emerge de interações sociais. Essa visão está alinhada a uma abordagem enativista. Ela defende que a cognição e a percepção não são processos restritos ao cérebro, mas acontecem por meio de ações incorporadas em contextos (físicos, culturais, sociotécnicos) específicos, dos quais não podem ser separadas. Cientistas e filósofos têm defendido essa posição de diferentes perspectivas. Nöe, que tem examinado a fenomenologia da experiência visual, tem confrontado o paradigma segundo o qual a visão é um processo passivo de reconstrução de representações a partir de informações exibidas à retina. Para Nöe, a visão é um processo ativo, dependente da interação entre observador e ambiente, e se assemelha ao tato, que requer movimentação e habilidade exploratória — a percepção é um tipo de habilidade sensório-motora de exploração do ambiente. A visão incorpora sondagem e movimento de maneira pouco óbvia e semelhante ao tato. As ideias de Nöe estão fortemente inspiradas na psicologia ecológica de James Gibson, em Wittgenstein e na fenomenologia. Ele defende uma forma radical de externalismo sobre o veículo (não sobre o conteúdo) dos elementos físicos, como as sentenças, por exemplo. Essa classe de externalismo parece especialmente adequada à abordagem desenvolvida aqui.

A percepção do enjambement depende de habilidades sensório-motoras. Ela não acontece "dentro da cabeça" do leitor-parser (ou da audiência), mas emerge da interação ativa com o verso, da percepção de um desencontro métrico, prosódico e sintático que caracteriza o verso "não-natural". O verso é um artefato cognitivo "projetado para quebrar", como uma "surpresa ativa". A exploração do poema e de certas regularidades sensório-motoras depende de hábitos. A percepção do enjambement emerge da experiência do verso, de sua performance visual e acústica — "O processo perceptual, a própria maquinaria que nos mantém em contato com o mundo, é alimentado por um rico fluxo de predições e expectativas" (Clark, 2023). A ideia é que o poema fornece as estruturas indispensáveis à percepção, que não pode ser separada da experiência concreta da leitura. Tanto o "escaneamento visual do verso" quanto sua oralização/audição estão ligados às contingências sensório-motoras e regularidades nas mudanças dos inputs, cujos padrões dependem de hábitos e expectativas.

Há algo especialmente relevante na teoria de Nöe com muitas implicações aqui — a "presença perceptual". O verso é percebido como inteiro, mesmo quando quebrado. Essa "presença", e esta é uma distinção importante com relação ao internalismo, depende de conhecimento, de hábito sensório-motor, e da capacidade de prever aspectos indisponíveis, por meio da exploração física do ambiente (por exemplo, do poema). A interação é preditiva e incorporada. A percepção do enjambement deve estar ligada a capacidades físicas, e a habilidades sensório-motoras. O principal insight aqui é que o corpo não é apenas um receptor de estímulos, mas um participante ativo na formação das experiências. Essa perspectiva está alinhada com uma abordagem enativista — a cognição e a percepção não são processos restritos ao cérebro, mas acontecem por meio de ações incorporadas, que evidentemente incluem o cérebro, em contextos locais e específicos. Há, portanto, duas atividades trabalhando combinadamente — exploração e predição. Esta também é a tese de Clark (2023): "Todas as vezes que damos sentido aos nossos mundos por meio de encontros perceptuais, fazemos isso tanto pelos sinais sensoriais recebidos quanto por meio de um rico e invisível fluxo de previsões baseadas em conhecimento." O enjambement deixa, assim, de ser apenas uma irregularidade métrico-sintática para revelar-se como um dispositivo cognitivo incorporado, no qual corpo, previsão, movimento e ambiente cooperam ativamente.

AGRADECIMENTOS

Queiroz agradece ao CNPq pelo apoio concedido (PQ2 308355/2023-7 e Grupos emergentes, 404770/2023-1).

  • 1
    Se as propriedade mais importantes para contrução de uma teoria do enjambement estão relacionadas à prosódia, sintaxe, e à semântica, é a dimensão sintática, para Golomb (1979), e para muitos autores, que é mais crucial para a definição de sua estrutura e natureza.
  • 2
    Para uma introdução ao fenomeno de predição e da antecipação, recomendo: Poli (2017), Clark (2015, 2023).
  • 3
    Para uma revisão dos modelos, recomendo: Rodrigues(2024).
  • 4
    Devemos lembrar que, para o filósofo, lógico e matemático, C.S.Peirce, a inferência abdutiva confunde-se, em "casos extremos", com a percepção (Paavola, 2012).
  • 5
    Há, na semiótica cognitiva de Peirce, uma estreita correlação entre surpresa, inferência abdutiva e criatividade, sugerindo que formas ampliativas de raciocínio dependem de fenômenos surpreendentes (Queiroz & Atã, 2018). Mas vamos adiar a discussão desse tópico para outro trabalho.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados
    Declaro, para os devidos fins, que os dados que fundamentam este estudo estão integralmente disponíveis no próprio artigo, não havendo material suplementar ou conjunto de dados adicional a ser disponibilizado.
  • DECLARAÇÃO DE USO DE IA
    Declaro, para os devidos fins, que não foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial (IA) em nenhuma etapa da elaboração deste trabalho, incluindo a concepção, redação, análise ou revisão do manuscrito.

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  • Editora-chefe
    Simone Tiemi Hashiguti

Disponibilidade de dados

Declaro, para os devidos fins, que os dados que fundamentam este estudo estão integralmente disponíveis no próprio artigo, não havendo material suplementar ou conjunto de dados adicional a ser disponibilizado.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Mar 2026
  • Aceito
    09 Jun 2026
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