RESUMO
Este artigo investiga crenças e ideologias linguísticas de ouvintes sobre a Libras, com o objetivo de verificar a permanência e a prevalência de “mitos” acerca das línguas de sinais e discutir suas implicações para a educação linguística e o reconhecimento da comunidade surda. Analisam-se os dados de um estudo realizado em 2025, do qual participaram 65 ouvintes, residentes no estado de São Paulo, e sem contato com a comunidade surda ou aprendizagem de Libras. A coleta foi realizada por meio de questionário estruturado no Google Forms, aplicado presencial ou remotamente por 11 documentadores treinados. Os participantes avaliaram como verdadeiras ou falsas cinco afirmações incorretas sobre as línguas de sinais. Os resultados evidenciaram alto número de respostas equivocadas: 41,5% consideraram as línguas de sinais universais; 36,9% afirmaram ser equivalente dizer “língua” ou “linguagem” de sinais; 53,8% associaram a Libras à mímica e a gestos; 64,6% consideraram-na uma língua artificial; e 49,2% acreditaram que os sinais são sempre icônicos. Conclui-se que crenças equivocadas sobre a Libras permanecem disseminadas entre ouvintes sem contato com a comunidade surda e não constituem apenas lacunas individuais de conhecimento, mas manifestações de ideologias linguísticas e ouvintistas que sustentam hierarquias entre línguas e grupos sociais. Os achados reforçam a necessidade de ações de educação linguística e de “educação do entorno”, envolvendo escolas, universidades, instituições públicas, meios de comunicação e espaços sociais, a fim de promover o reconhecimento da Libras como língua natural e a equidade linguística e cultural.
Palavras-chave
crenças linguísticas; mitos sobre línguas de sinais; ideologias linguísticas; crenças sobre línguas de sinais; línguas de sinais
ABSTRACT
This article investigates hearing people’s linguistic beliefs and ideologies about Libras (Brazilian Sign Language), aiming to verify the persistence and prevalence of “myths” about sign languages and to discuss their implications for linguistic education and the recognition of the Deaf community. The data analyzed come from a study conducted in 2025, involving 65 hearing participants residing in the state of São Paulo, and with no contact with the Deaf community or Libras learning. Data collection was carried out through a structured questionnaire on Google Forms, administered in person or remotely by 11 trained fieldworkers. Participants evaluated five incorrect statements about sign languages as true or false. The results revealed a high number of mistaken responses: 41.5% considered sign languages to be universal; 36.9% stated that saying “sign language” or “sign gesture” was equivalent; 53.8% associated Libras with mime and gestures; 64.6% considered it an artificial language; and 49.2% believed that signs are always iconic. It is concluded that mistaken beliefs about Libras remain widespread among hearing people with no contact with the Deaf community, and that these do not constitute merely individual gaps in knowledge, but manifestations of linguistic and audist ideologies that sustain hierarchies among languages and social groups. The findings reinforce the need for linguistic education initiatives and “education of the surrounding environment,” involving schools, universities, public institutions, media, and social spaces, in order to promote the recognition of Libras as a natural language and to foster linguistic and cultural equity.
Keywords
linguistic beliefs; myths about sign languages; linguistic ideologies; beliefs about sign languages; sign languages
INTRODUÇÃO
Durante a campanha eleitoral de 2018, surgiram na Internet diversas manifestações acerca da realização da Libras (Língua Brasileira de Sinais) pelos intérpretes que atuavam junto aos candidatos. Muitas dessas manifestações riam-se dos movimentos do corpo e das expressões faciais, rotulando-os como, por exemplo, “exagerados” ou “parecidas com caretas”. Krausneker (2015, p. 411) relata algo semelhante ao contar de um episódio em que estava em um evento acadêmico e uma das palestrantes declarou achar a Língua de Sinais Austríaca “feia” e suas expressões faciais “feias e exageradas”. As piadas e as reações negativas sobre o funcionamento das línguas sinalizadas demonstram o desconhecimento da comunidade ouvinte a seu respeito. É fato que “muitas pessoas, incluindo alguns professores e pesquisadores, acreditam que todas as línguas humanas sejam faladas” Wilcox e Wilcox (2005, p. 25).
As línguas de sinais são línguas naturais de modalidade visual-espacial. Elas não são apenas sistemas de comunicação, nem sistemas “menores” ou apenas “linguagem visual”, mas sim línguas de fato, realizadas pelos sinalizantes com seus corpos (mãos, tronco, cabeça, face) num determinado espaço e apreendidas pela visão. São as línguas das comunidades surdas.
No Brasil, a Libras foi reconhecida oficialmente em 2002, por meio da Lei n. 10.436:
Art. 1º. É reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais — Libras e outros recursos de expressão a ela associados.
Parágrafo único. Entende-se como Língua Brasileira de Sinais — Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil (Brasil, 2002).
Apesar dos mais de 20 anos decorridos desde então, ainda há muito desconhecimento sobre a Libras, o que enseja diferentes crenças a seu respeito, muitas delas errôneas, que a literatura sobre o tema vem chamando de “mitos” sobre as línguas de sinais — ver, por exemplo, Gesser (2009). Em forma de perguntas, a autora (Gesser, 2009, p. 11-44) apresenta alguns desses mitos:
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A língua de sinais é universal?
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A língua de sinais é artificial?
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A língua de sinais tem gramática?
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A língua dos surdos é mímica?
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É possível expressar conceitos abstratos em línguas de sinais?
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As línguas de sinais são exclusivamente icônicas?
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A língua de sinais é um código secreto dos surdos?
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A língua de sinais é o alfabeto manual?
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A língua de sinais é uma versão sinalizada da língua oral?
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A língua de sinais tem suas origens históricas na língua oral?
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A Libras ‘falada’ no Brasil apresenta uma unidade?
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A língua de sinais é ágrafa?
Wilcox e Wilcox (2005, p. 22-31) apresentam questões semelhantes, mas especificamente citando a ASL (American Sign Language — Língua de Sinais Americana). Uma questão interessante que os autores colocam é:
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13.
A ASL é uma linguagem ou uma língua?
Krausneker (2015) também menciona essa ideia que algumas pessoas têm de que as línguas de sinais não são línguas “de verdade” ou “completas”.
O trabalho que aqui se apresenta é resultado de uma pesquisa maior realizada por Celestino de Almeida (2025) que se propôs a depreender percepções e crenças de ouvintes acerca da Libras em duas frentes: sobre sinais específicos e sobre alguns dos mitos mencionados acima. Aqui, o foco recai sobre a segunda frente. Os participantes foram convidados a refletir sobre as questões 1, 2, 4, 6, e 13 acima (isso será melhor descrito quando tratarmos da metodologia).
As noções errôneas com relação à natureza linguística das línguas de sinais estão enraizadas na ideia de que elas nem mesmo são línguas. Embora pessoas leigas não saibam muito bem a distinção entre linguagem e língua, há, como já mencionado, um forte imaginário de que línguas são realizáveis apenas de forma oral. Dirimir essa ideia é o primeiro passo para dirimir os demais preconceitos (mitos) em torno das línguas de sinais, o que por sua vez se faz importante, pois, como aponta Gesser (2009, p. 9-10), “Tornar visível a língua desvia a concepção da surdez como deficiência — vinculada às lacunas na cognição e no pensamento — para uma concepção da surdez como diferença linguística e cultural”.
A pesquisa que originou este capítulo retoma essa discussão sobre os mitos, com o intuito de verificar se eles realmente permanecem, e acrescentando a ela uma dimensão quantitativa. O objetivo era saber a medida em que respostas erradas sobre certas afirmações sobre a Libras eram dadas pelos participantes, já que embora, como dito antes, haja a menção a esses mitos na literatura, não há, até onde se pôde verificar, uma medida quantitativa desse desconhecimento.
Crenças como a de que a Libras seria mímica, uma língua artificial ou uma língua universal não são opiniões isoladas e aleatórias: são manifestações de uma mesma matriz ideológica que nega às línguas de sinais o estatuto de sistemas linguísticos legítimos e, por extensão, nega às comunidades surdas o reconhecimento como minorias linguísticas e culturais. Investigar a prevalência dessas crenças entre ouvintes é, portanto, investigar como a ideologia ouvintista se sedimenta no cotidiano de sujeitos que nunca foram diretamente confrontados com elas, o que confere ao presente estudo relevância que ultrapassa o diagnóstico e aponta para a necessidade de intervenção educativa.1
2PERCURSO METODOLÓGICO
Na pesquisa conduzida por Celestino de Almeida (2025), foram apresentadas aos participantes (65, descritos mais adiante), as cinco afirmações abaixo, para as quais eles deveriam atribuir “verdadeiro” ou “falso”. Todas as afirmações são incorretas:
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“Apesar de dizermos ‘língua’ de sinais, a Libras não é uma língua de fato, mas sim um sistema de comunicação visual não verbal, baseado em mímicas e gestos”.
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“Falar ‘língua’ de sinais ou ‘linguagem’ de sinais é a mesma coisa: ambas as formas estão corretas” (esta afirmação e a anterior querem verificar se o participante considera as línguas de sinais enquanto línguas ou apenas linguagens visuais, isto é, está em jogo aqui a oposição “Língua x Linguagem”).
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“Quando falamos em língua de sinais, estamos falando de uma língua universal” (acreditar que uma língua de sinais é universal vai ao encontro de não saber o que é língua ou de não considerar as línguas de sinais como línguas).
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“A Libras não é uma língua natural, mas sim artificial (ou seja, foi artificialmente criada, inventada para os surdos se comunicarem)”.
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“Os sinais sempre lembram, nem que seja só um pouco, a ‘coisa’ ou a ideia a que se referem” (esta afirmação quer saber se o participante considera que os sinais das línguas sinalizadas são sempre icônicos).
Os participantes incluídos se enquadravam no seguinte perfil:
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eram ouvintes, sem contato prévio com a comunidade surda e sem conhecimentos sobre a comunidade ou sobre línguas de sinais;
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não eram/nunca tinham sido aprendizes de Libras;
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estavam na faixa etária de mais de 18 anos;
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tinham como escolaridade mínima o ensino superior incompleto;
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eram residentes do estado de São Paulo.
Adentraram a amostra, como já dito, 65 participantes. O cálculo de tamanho de amostra realizado indicava necessidade de 62 para se ter uma amostra significativa. Tal cálculo considerou:
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a população do estado de São Paulo como população;
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um erro amostral de 10%;
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uma confiabilidade (nível de confiança) de 95%;
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uma população homogênea.2
Sobre a coleta de dados, os documentadores foram 11, incluindo uma docente, estudantes de pós-graduação e estudantes de graduação.3 O treinamento desses documentadores se deu por meio de reuniões online e também foi instituído um grupo no whatsapp para tirar dúvidas quando fossem realizar a coleta de dados. Além disso, foi gravado pela docente um vídeo com instruções sobre o formulário com o questionário de coleta.
Os documentadores foram instruídos a entrar em contato com sua rede de conhecidos em busca de participantes que se enquadrassem no perfil acima descrito. Logo na primeira abordagem, os possíveis participantes eram indagados se aceitariam participar da pesquisa ou não, e era esclarecido a eles que se tratava de um estudo de cunho acadêmico-científico sobre linguagem e surdez; no entanto, mais detalhes acerca dos objetivos da pesquisa foram retidos neste momento, de modo que se minimizassem os efeitos do viés.
A coleta, via questionário formulado no “Google Forms”,4 foi realizada ora de modo presencial com o participante, ora de modo remoto, mas sempre com interação entre participante e documentador e sempre via este formulário.5 Como já mencionado, os participantes deveriam assinalar “verdadeiro” ou “falso” para as afirmações errôneas supracitadas sobre as línguas de sinais. Além disso, eles assistiram a vídeos de 20 sinais, tanto icônicos quanto arbitrários, com tradução para o português e, ao final de cada sinal, deveriam responder sim ou não para “O sinal ‘X’ lembra a coisa ou ideia a que se refere?” e, de forma opcional responder “Quando você vê o sinal ‘X’, que outras palavras e expressões vêm à sua cabeça?”. Também deveriam, para cada sinal, escolher alguns adjetivos que em sua opinião se relacionavam ao sinal, de uma lista pré determinada. Estas duas últimas partes não serão analisadas neste capítulo, por não ser o foco nesta ocasião. Vale ressaltar que os documentadores esclareciam, durante a coleta, dúvidas dos participantes e até mesmo explicavam alguns conceitos, por exemplo, “o que significa ser uma língua universal”, “o que são línguas naturais”, etc.
Em síntese, a metodologia adotada buscou assegurar a padronização dos procedimentos de coleta, bem como a adequação da amostra aos critérios previamente estabelecidos, de modo a garantir a consistência dos dados obtidos. A estratégia de recrutamento por rede de contatos, aliada ao treinamento dos documentadores e ao uso de instrumento estruturado em ambiente digital, permitiu viabilizar a aplicação do questionário em diferentes condições de interação, sem comprometer sua uniformidade. Nesse contexto, os dados gerados são analisados a partir de uma perspectiva voltada às ideologias e crenças linguísticas mobilizadas pelos participantes. As seções seguintes apresentam essa discussão.
3IDEOLOGIAS LINGUÍSTICAS
A persistência de crenças equivocadas sobre as línguas de sinais não pode ser explicada apenas por desconhecimento individual: ela se insere em um sistema mais amplo de ideologias linguísticas, entendidas por Woolard (1998) como representações explícitas ou implícitas sobre a relação entre língua e seres humanos no mundo social. Segundo a autora, situando-se entre as estruturas sociais e as práticas de fala, essas ideologias extrapolam o domínio estritamente linguístico ao conectar a língua a dimensões como identidade, poder, estética, moralidade e epistemologia, sustentando, assim, não apenas formas e usos linguísticos, mas também instituições sociais e concepções de pessoa e comunidade.
As ideologias linguísticas não são meras opiniões individuais, mas sim constituem estruturas de sentido historicamente produzidas que naturalizam hierarquias entre línguas e seus falantes, legitimando a dominância de certas formas linguísticas em detrimento de outras e tornando essa dominância invisível como tal, apresentando-a, ao contrário, como reflexo da ordem natural das coisas. Nesse sentido, crenças sobre o que “é” ou “não é” uma língua raramente são neutras: expressam relações de poder entre grupos sociais com acesso desigual ao prestígio, à educação e às instituições. Woolard e Schieffelin (1994) lembram que, historicamente, crenças sobre o que constitui uma “língua real” influenciaram decisões sobre a civilidade ou até mesmo a humanidade de sujeitos sob dominação. Essa perspectiva é diretamente aplicável ao conjunto de crenças que circulam entre ouvintes sobre a Libras: os mitos investigados no presente estudo não são meros equívocos cognitivos isolados, mas expressões de uma ideologia linguística que define o que conta e o que não conta como língua legítima.
Krausneker (2015) analisa como diferentes ideologias sociais moldam atitudes em relação às línguas de sinais e às pessoas surdas; essas atitudes frequentemente se misturam a visões sobre deficiência, inclusão, identidade e políticas públicas. A autora coloca ainda que atitudes sobre línguas não podem ser separadas das atitudes sobre seus usuários. Assim, a forma como surdos são nomeados e descritos influencia diretamente a forma como as línguas de sinais são vistas. Muitas vezes, preconceitos contra os surdos são refletidos como desvalorização das línguas que eles usam, e vice-versa. A autora também analisou como as línguas de sinais europeias são sistematicamente desvalorizadas em contextos institucionais dominados por línguas orais majoritárias, mesmo após seu reconhecimento legal, evidenciando que o reconhecimento formal não é suficiente para superar as ideologias que sustentam a desigualdade.
No caso de convívios entre línguas majoritárias e minoritárias, há diversas concepções errôneas acerca das últimas que emergem porque os falantes das línguas majoritárias não precisam se ocupar delas, ou seja, há um desinteresse que muitas vezes leva a ou reproduz esses imaginários equivocados. Em se tratando de línguas sinalizadas, talvez pelo fato de as línguas nesta modalidade serem minoria no mundo, ficam bastante evidentes o desinteresse e a desinformação; some-se a isso o fato de que a surdez é mais frequentemente vista como uma deficiência do que como uma diferença cultural. Essa incapacidade do ouvinte de olhar para fora de si e de sua língua e o fato de muitos ouvintes nem sequer se darem ao trabalho de tentar compreender certas questões sobre os surdos e as línguas de sinais é por si só ouvintista, ou ainda, está enraizada no ouvintismo que estrutura nossa sociedade. Para Bauman (2004), o ouvintismo pode ser definido resumidamente, como a discriminação de indivíduos com base na sua inabilidade de ouvir. Para Skliar (1998, p. 15), trata-se de “um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e narrar-se como se fosse ouvinte”. O ouvintismo contribui para a invisibilização das línguas sinalizadas. Segundo Krausneker (2015, p. 418, tradução nossa), “A ideologia que vê a audição como essencial e as formas de compreender o mundo baseadas na audição como superiores opõe-se a tudo o que desafia essa visão, como as línguas de sinais”6. Consideramos que esse “opor-se” pode se revelar também em mitos sobre a língua (sendo um deles aquele que nem mesmo considera as línguas de sinais como línguas naturais).
O ouvintismo, enquanto ideologia, opera na naturalização da língua oral como a única forma legítima de comunicação humana, relegando as línguas de sinais ao papel de substituto precário ou de recurso terapêutico auxiliar. Essa visão está intimamente ligada ao chamado modelo clínico-terapêutico da surdez, que a toma como patologia a ser corrigida, em oposição ao modelo sócio-antropológico, que reconhece nos surdos uma comunidade com língua, cultura e história próprias, conforme Skliar (1998). Nessa mesma linha, Krausneker (2015) aponta que quando surdez é vista apenas como deficiência, as línguas de sinais são tratadas como ferramentas de acessibilidade, e não como línguas minoritárias com valor cultural. Isso leva a confusões, colocando Libras, Braille e aparelhos auditivos no mesmo patamar, sem reconhecer a diferença fundamental entre uma língua e um recurso técnico.
No contexto brasileiro, mesmo com o reconhecimento legal da Libras, as crenças equivocadas sobre ela persistem, como mostraremos nos dados abaixo. Essas crenças têm implicações importantes, sobre as quais também discorreremos na próxima seção.
4DESCRIÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS
a.Língua universal?
(Afirmação no questionário: “Quando falamos em língua de sinais, estamos falando de uma língua universal”)
As línguas de sinais não são universais, no entanto 41,5% dos participantes acreditam que elas sejam. Trata-se de um alto percentual, que revela o desconhecimento de uma parcela significativa dos participantes acerca da diversidade linguística das comunidades surdas. Wilcox e Wilcox (2005, p. 28) apontam que talvez essa crença exista “porque muitas pessoas pensam erroneamente que as línguas de sinais são baseadas em expressões universais de emoção ou em linguagem corporal”.
Essa crença não constitui apenas uma imprecisão factual sem consequência, mas pode influenciar a maneira como as línguas de sinais e seus usuários são percebidos socialmente. Ao pressupor a existência de uma língua de sinais universal, tende-se a invisibilizar a diversidade linguística e cultural das comunidades surdas, bem como os processos históricos por meio dos quais diferentes línguas de sinais se desenvolveram em distintos contextos sociais. Além disso, essa concepção pode contribuir para a falsa ideia de que as línguas de sinais são sistemas simplificados e homogêneos, em vez de línguas naturais completas, dotadas de variação, mudança e especificidades estruturais próprias.
Outro ponto apontado por Wilcox e Wilcox (2005, p. 28) é que:
Quando as pessoas ficam sabendo que a ASL não é universal, elas geralmente comentam: “não seria legal se as pessoas surdas ao redor do mundo pudessem se comunicar uns com os outros?”. Talvez fosse. Mas também seria legal se as pessoas ouvintes por todo o mundo pudessem quebrar suas barreiras de língua. O fato é que em cada lugar do mundo, as pessoas utilizam diferentes línguas e os surdos não são exceção.
A suposição de que todos os surdos do mundo compartilhariam uma única língua de sinais projeta sobre as línguas sinalizadas uma homogeneidade que não se atribui às línguas orais. Essa assimetria revela uma ideologia que trata as línguas de sinais como fenômeno genérico e indiferenciado, destituído, como já dito, da complexidade histórica, cultural e dialetal que caracteriza qualquer língua natural.
b.Língua ou linguagem?
(Afirmação no questionário: “Falar ‘língua’ de sinais ou ‘linguagem’ de sinais é a mesma coisa: ambas as formas estão corretas”)
A distinção entre “língua” e “linguagem” constitui um dos alicerces epistemológicos da linguística moderna e, por conseguinte, é indispensável para a compreensão do estatuto das línguas de sinais. Como já mencionamos, talvez por não saber essa distinção, é frequente que o senso comum responda essa questão equivocadamente. Saussure (1916) estabeleceu que a linguagem compreende a faculdade humana universal de comunicação simbólica, uma capacidade biológica e cognitiva compartilhada por toda a espécie, ao passo que a língua designa o sistema convencional, social e historicamente situado que uma comunidade de falantes compartilha como código. Outra acepção do termo “linguagem” é aquela que o aproxima da semiótica, sendo uma linguagem qualquer sistema de signos estruturado que uma dada comunidade utiliza para produzir e interpretar sentidos, independentemente do meio de expressão. É nesse sentido que se fala em “linguagem da dança”, “linguagem cinematográfica” ou “linguagem musical”. O risco, no entanto, é que essa acepção seja indevidamente aplicada às línguas de sinais. Ao classificar a Libras como “linguagem gestual” ou “linguagem corporal”, recorre-se à categoria semiótica genérica para descrever o que é, na realidade, uma língua natural plena, o que contribui para diminuir seu reconhecimento enquanto sistema linguístico legítimo.
Passando aos nossos dados, temos que dos 65 participantes, 36,9% responderam que tanto faz utilizar os termos “língua” ou “linguagem”. Esse dado é relevante uma vez que a distinção entre ambos os conceitos está, como dito acima, diretamente relacionada ao reconhecimento das línguas de sinais como línguas naturais completas, e não apenas como formas genéricas de linguagem ou comunicação. Apesar de se tratar da minoria dos participantes, ainda assim é um percentual expressivo.
A confusão entre esses conceitos pode ter implicações importantes, uma vez que ela tende a obscurecer o caráter linguístico das línguas sinalizadas. Quando uma língua de sinais é compreendida apenas como uma forma de linguagem ou de comunicação, corre-se o risco de não reconhecer sua complexidade estrutural, sua gramática própria e seu papel na constituição das identidades e práticas sociais das comunidades surdas. Essa confusão conceitual pode contribuir para a manutenção de discursos que tratam as línguas de sinais como recursos comunicativos auxiliares, e não como línguas legítimas, o que tem impactos diretos na forma como elas são valorizadas em contextos educacionais, institucionais e sociais.
Interessante notar que também outras línguas minoritárias são frequentemente rebaixadas a um status menor. Sobre isso, Maher (2007, p. 256), por exemplo, destaca que “as línguas indígenas, do ponto de vista sistêmico e discursivo, são línguas tão ricas e complexas como as demais, não são ‘gírias’”, justamente porque ronda(va) essa crença em alguns contextos de circulação de línguas indígenas frente ao português. Isso nos leva a concluir que a desvalorização ou o rebaixamento de status de uma língua não está relacionado apenas a ela intrinsecamente, mas sim à posição que o grupo que a fala ocupa na sociedade.
c.Libras é mímica?
(Afirmação no questionário: “Apesar de dizermos ‘língua’ de sinais, a Libras não é uma língua de fato, mas sim um sistema de comunicação visual não verbal, baseado em mímicas e gestos”)
Por reconhecerem muita iconicidade nas línguas sinalizadas e por assumirem que a única modalidade possível de língua é a oral-auditiva, é frequente que as pessoas acreditem que a Libras e outras línguas sinalizadas sejam apenas sistemas de comunicação baseados em mímicas e gestos, e não línguas propriamente ditas. Nesta pesquisa, 53,8% dos participantes indicaram compartilhar essa visão, que pode influenciar atitudes em relação às pessoas surdas e à Libras, contribuindo para a deslegitimação dessa língua em contextos educacionais, institucionais e sociais. O dado sugere, portanto, a necessidade de ampliar a divulgação de conhecimentos linguísticos sobre as línguas sinalizadas para além dos espaços acadêmicos. A visão equivocada também pode repercutir em atitudes e práticas que restringem o reconhecimento e prestígio social da Libras. Em outras palavras, essa confusão ajuda a sustentar representações que colocam as línguas de sinais em uma posição de menor prestígio em relação às línguas orais, o que acaba por reforçar uma superioridade hierárquica das últimas.
d.Língua natural ou artificial?
(Afirmação no questionário: “A Libras não é uma língua natural, mas sim artificial — ou seja, foi artificialmente criada, inventada para os surdos se comunicarem”)
Mesmo com os documentadores explicando o que é uma língua natural, a maioria dos participantes respondeu erroneamente a esta questão: 64,6% acreditam que Libras é uma língua artificial. Trata-se do maior percentual de respostas equivocadas observado na pesquisa. Tal resultado sugere que a concepção de que as línguas de sinais são sistemas criados deliberadamente, e não línguas que emergem naturalmente em comunidades de usuários, encontra-se fortemente disseminada entre os participantes, sendo mais uma crença que pode comprometer o reconhecimento da Libras como uma língua plena, dotada de história, variação, mudança e complexidade estrutural. Além disso, ao associar a Libras à artificialidade, corre-se o risco, mais uma vez, de reforçar percepções que a colocam em posição de inferioridade em relação às línguas orais, contribuindo para a manutenção de hierarquias linguísticas e para a invisibilização dos conhecimentos e práticas linguísticas das comunidades surdas.
e.Iconicidade sempre?
(Afirmação no questionário: “Os sinais sempre lembram, nem que seja só um pouco, a ‘coisa’ ou a ideia a que se referem”)
A iconicidade, entendida como a relação motivada de semelhança entre a forma do signo e seu referente, está presente em todas as línguas do mundo, inclusive nas orais, mas é sabido que há maior iconicidade nas línguas de sinais, até mesmo por conta da sua modalidade visual.
A ideia de que todos os sinais de uma língua sinalizada seriam icônicos relaciona-se diretamente com aquela que vê tais línguas como mímica. Neste trabalho, à afirmação errônea “Os sinais sempre lembram, nem que seja só um pouco, a ‘coisa’ ou a ideia a que se referem”, 49,2% dos participantes responderam “verdadeiro”. Cabe destacar que essa etapa da coleta foi realizada antes da apresentação dos vídeos contendo os sinais, de modo que as respostas refletem percepções prévias dos participantes, e não impressões decorrentes do contato com dados linguísticos. O resultado sugere que está presente de modo considerável a ideia de uma relação necessariamente transparente entre forma e significado. Embora a iconicidade seja um fenômeno relevante nas línguas de sinais e ocorra com frequência muito maior do que em línguas orais, ela não está presente em todos os sinais nem elimina o caráter convencional dos sistemas linguísticos. A crença de que os sinais sempre remetem visualmente aos seus referentes pode, uma vez mais, levar a uma compreensão simplificada das línguas sinalizadas, como se sua interpretação dependesse apenas da observação ou da semelhança visual.
É importante ressaltar que essa percepção de que os sinais sempre remetem visualmente a seus referentes pode alimentar a crença de que a Libras (ou qualquer outra língua de sinais) é uma língua de fácil aprendizagem ou que seu uso e interpretação independem de formação específica. Como consequência, tende-se a subestimar a necessidade de formação de professores e intérpretes de Libras, bem como a necessidade de bons cursos de formação em Libras (para aquisição como língua adicional). Se as pessoas acham que os sinais são autoexplicativos, podem negligenciar a necessidade de formação mencionada, como se a simples observação atenta dos sinais fosse suficiente para sua compreensão. Não que não seja possível aprender uma língua apenas pelo contato, sabemos que sim, mas principalmente no caso de educadores é mister uma formação que também ofereça certa reflexão metalinguística sobre a língua aprendida, o que é mais comum de se conseguir via educação formal.
f.Síntese
Segue a síntese do percentual de respostas incorretas (Quadro 1):
5MITIGANDO OS EQUÍVOCOS: TAREFAS PARA A EDUCAÇÃO LINGUÍSTICA E A IDEIA DE EDUCAÇÃO DO ENTORNO
Aqui partimos da definição de “educação linguística” de Bagno e Rangel (2005, p. 63):
Entendemos por educação linguística o conjunto de fatores socioculturais que, durante toda a existência de um indivíduo, lhe possibilitam adquirir, desenvolver e ampliar o conhecimento de/sobre sua língua materna, de/sobre outras línguas, sobre a linguagem de um modo mais geral e sobre todos os demais sistemas semióticos. Desses saberes, evidentemente, também fazem parte as crenças, superstições, representações, mitos e preconceitos que circulam na sociedade em torno da língua/linguagem e que compõem o que se poderia chamar de imaginário linguístico ou, sob outra ótica, de ideologia linguística.
No caso da Libras, parece que tal educação falha sobremaneira, dados os resultados mostrados na seção anterior. Na ausência de formação linguística adequada, circulam livremente as crenças de que tratamos anteriormente, encontradas por Celestino de Almeida (2025) em proporções expressivas entre participantes sem contato prévio com a comunidade surda. Os resultados confirmam que se o imaginário linguístico sobre as línguas de sinais ainda é fortemente marcado por representações que a ciência linguística refutou há décadas, são necessárias intervenções deliberadas para dissipá-las.
Sob a perspectiva de Bagno e Rangel (2005), a educação linguística deve estar comprometida com o reconhecimento da heterogeneidade e da variabilidade constitutivas das línguas, bem como com a promoção dos direitos linguísticos. Aplicada ao contexto da surdez, essa concepção pressupõe a inclusão da Libras nos processos de formação da sociedade ouvinte, de modo que sejam difundidos conhecimentos acerca de sua estrutura, de sua história, de suas variedades e de sua relevância para a constituição da cultura surda. Trata-se de um conhecimento fundamental, e não complementar, para que profissionais das diversas áreas possam interagir com pessoas surdas de forma respeitosa e verdadeiramente inclusiva.
No âmbito deste trabalho, podemos dizer que é possível compreender como as ideologias linguísticas sustentam, fundamentam as crenças sobre as línguas de sinais, crenças essas que a educação linguística pode mitigar. É importante aqui ressaltar o papel da escola, que tem a tarefa de formar uma cultura de respeito à diferença e à pluralidade, tratando o multilinguismo como uma riqueza.
A educação de surdos no Brasil tem diferentes configurações, mas os dois modelos principais são o da educação inclusiva e o da educação bilíngue. No primeiro, a sala de aula regular, de maioria de estudantes ouvintes, tem alguns estudantes surdos (a maioria das vezes apenas um) e conta com a presença de intérpretes, sendo a aula em português (com interpretação para Libras); no segundo, escola ou sala são majoritariamente compostas por surdos e a instrução é diretamente em Libras com o português sendo ensinado como segunda língua, na modalidade escrita. O primeiro modelo é de longe o mais frequente no país. O decreto n. 5.626 de 2005 institui que os futuros professores devem ter aulas sobre Libras e cultura surda para que saibam lidar com seus estudantes surdos, mas nada é institucionalizado no sentido de fazer com que os estudantes ouvintes aprendam sobre a cultura surda, havendo, portanto, uma falha no que se pode chamar, nas palavras de Maher (2007), de “educação do entorno”. Essa ideia propõe que não basta educar apenas os grupos minoritários ou os falantes de línguas minorizadas; é preciso educar também a sociedade que os cerca, isto é, o “entorno”. Segundo a autora, “todo projeto educativo voltado para o empoderamento de grupos minoritários no país tem que também contemplar a educação do entorno para a convivência respeitosa com as especificidades linguísticas e culturais desses grupos”. O entorno precisa ser educado para a interculturalidade e o plurilinguismo, como diz a autora, se pensarmos que vivemos em uma sociedade pautada por uma ideologia monolíngue.
Tal educação do entorno começa na escola, mas não deve se restringir a ela. Considerando que crenças sobre a Libras e sobre a surdez são produzidas e circulam em diferentes esferas sociais, faz-se necessária a implementação de ações voltadas também para outros espaços de formação. Krausneker (2015) destaca que muitas pessoas formam opiniões sobre línguas de sinais sem contato real com usuários surdos. Essas visões reforçam estereótipos e criam barreiras para o reconhecimento das línguas de sinais como plenas.
Nesse sentido, ações podem ser promovidas em diferentes frentes. Políticas públicas podem contemplar a capacitação de servidores públicos, especialmente profissionais da saúde e agentes do sistema de justiça. A divulgação científica e a extensão universitária também constituem frentes importantes, por meio da produção de cartilhas, vídeos, podcasts e conteúdo para redes sociais, bem como da oferta de cursos e da realização de eventos abertos à comunidade. No campo das intervenções culturais, podem ser realizadas exposições em museus, centros culturais e bibliotecas, mostras audiovisuais, festivais e rodas de conversa. Parcerias com veículos de comunicação para a produção de reportagens e conteúdos de ampla circulação também se mostram promissoras. Em comum, todas essas iniciativas contribuem para ampliar o conhecimento da sociedade sobre a Libras e a comunidade surda, favorecendo a revisão das crenças equivocadas que culminam nos impactos negativos de que tratamos na seção anterior.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados deste estudo evidenciam que crenças equivocadas sobre as línguas de sinais permanecem amplamente disseminadas entre ouvintes sem contato prévio com a comunidade surda. As proporções observadas para temas como a suposta artificialidade da Libras, sua associação à mímica, a crença em uma língua de sinais universal e a ideia de que todos os sinais são necessariamente icônicos demonstram que o conhecimento produzido pela Linguística e pelos Estudos Surdos ainda não alcançou de maneira significativa amplos setores da sociedade.
Essas crenças não podem ser compreendidas apenas como lacunas individuais de conhecimento. Como discutido ao longo deste capítulo, elas se inserem em um conjunto mais amplo de ideologias linguísticas que organizam as relações entre grupos sociais e suas línguas. As ideologias fazem com que a dominância de uma língua (como a oral sobre a de sinais) pareça a “ordem natural das coisas”. Dessa forma, representações equivocadas sobre a Libras contribuem para a manutenção de hierarquias linguísticas que invisibilizam a legitimidade das línguas de sinais e reforçam perspectivas ouvintistas sobre a surdez.
As crenças linguísticas, nesse sentido, não são apenas objetos de curiosidade acadêmica: têm consequências pragmáticas. Quando um professor de escola regular acredita que a Libras é uma mímica ou uma forma reduzida de comunicação, essa crença orienta suas práticas pedagógicas em sala de aula inclusiva, sua interação com o intérprete educacional e sua disposição para adaptar materiais didáticos. Quando um profissional de saúde desconhece que a Libras é uma língua natural com estrutura gramatical própria, tende a comunicar-se com pacientes surdos de forma inadequada, comprometendo diagnósticos e a qualidade do atendimento. A investigação empírica das crenças de ouvintes, como a que serve de base ao presente trabalho, permite mapear precisamente quais representações equivocadas circulam em determinados grupos sociais, fornecendo insumos para o planejamento de intervenções educativas.
Nesse contexto, a educação linguística assume papel central. A educação linguística voltada à sociedade ouvinte, nessa perspectiva, não se limita à transmissão de informações sobre a estrutura da Libras, mas sim implica a revisão de representações sociais arraigadas, o confronto com uma ideologia ouvintista e o reconhecimento da comunidade surda como grupo linguístico-cultural com direitos plenos. Investigar empiricamente quais crenças prevalecem entre ouvintes sem contato prévio com essa comunidade é, portanto, uma contribuição direta da Linguística Aplicada para o planejamento de ações que promovam equidade linguística e respeito à diversidade.
Tal tarefa articula-se diretamente à noção de educação do entorno, uma vez que a inclusão e o reconhecimento da comunidade surda não dependem apenas do fortalecimento dos próprios sujeitos surdos, mas também da formação daqueles que convivem com eles em diferentes espaços sociais. A mitigação dos mitos e crenças tratados por esta pesquisa exige ações contínuas de educação linguística em escolas, universidades, instituições públicas, meios de comunicação e demais ambientes de circulação social.
A Linguística Aplicada tem papel decisivo nesse cenário ao articular três frentes complementares: a produção de diagnósticos sobre o estado das crenças circulantes (o que foi feito pela pesquisa que baseou este capítulo e que pode ser ampliado em trabalhos futuros); a proposição de metodologias de intervenção pedagógica; e a interlocução com formuladores de políticas públicas para que os dados de pesquisa se traduzam em ações efetivas de planejamento linguístico. No Brasil, embora a legislação sobre a Libras tenha avançado, a distância entre o texto legal e a realidade vivida pela comunidade surda permanece expressiva, sendo que essa distância é, em grande medida, sustentada por representações sociais equivocadas que a pesquisa aplicada tem a responsabilidade de nomear, analisar e contribuir para transformar.
Em síntese, os dados aqui apresentados reforçam a necessidade de compreender as crenças sobre as línguas de sinais não como simples equívocos conceituais, mas como manifestações de ideologias linguísticas que produzem efeitos concretos sobre a vida das pessoas surdas. Ao identificar e analisar essas crenças, a Linguística Aplicada contribui não apenas para a compreensão da realidade social, mas também para sua transformação, favorecendo a construção de uma sociedade mais plural, linguística e culturalmente justa.
AGRADECIMENTOS
Este trabalho foi desenvolvido com apoio do Programa de Incentivo a Novos Docentes (PIND) do Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Faepex) da Unicamp, processo número 2427/23.
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Declaração de disponibilidade de dados da pesquisa
Declaração de uso de inteligência artificial
REFERÊNCIAS
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