Resumo
O artigo trata do processo de crescimento da cidade de Buenos Aires entre as décadas
de 1920 e 1930, detendo-se na relação entre a expansão suburbana e as maneiras de
descrever e imaginar as ameaças à ordem e à segurança da cidade. Apoiando-se em
fontes jornalísticas e policiais, o trabalho argumenta que nesse período emerge a
noção de uma ordem portenha contraposta a uma difusa desordem, situada fora dos
limites da cidade-capital. Finalmente, analisa este fenômeno em zonas específicas,
como o conjunto da zona norte, e a localidade fabril de Avellaneda, situada ao sul da
cidade.
delito; espaço urbano; polícia; circulação
Abstract
This paper analyzes the urban development of Buenos Aires during the 1920s and 1930s.
It focuses on the consequences of suburban expansion in the ways the threats to urban
order are described. Using journalistic and police sources, it argues that during
this period a new notion of a portenho order is born, opposing the regulated city to
a diffuse sense of disorder located outside its limits. Finally, the article studies
this process as it reflects on representations of specific areas of the suburbs, such
as the northern towns, as well as the industrial southern city of Avellaneda.
crime; urban space; police; circulation
1
CAIMARI, Lila. En guerra contra el hampa. Políciay modernización tecnológica en el
Buenos Aires de los años trinta. In: BOHOSLAVSKY, E., CAIMARI, L. e SCHETTINI, C.
(eds.). La polícia en perspectiva historica. Argentina y Brasil (desde el
siglo XIX a la actualidad. Disponível em:
<http://www.crimenysociedad.com.ar/files>
2
No original, "peringundines". Nota do Editor.
3
Para a distribuição dos cafés portenhos do final do século XIX, ver GAYOL, Sandra.
Sociabilidad en Buenos Aires. Buenos Aires: Ediciones del Signo,
2000, p. 36 e 42. Para a localização dos prostíbulos, ver GUY, Donna. El sexo
peligroso. La prostitución legal en Buenos Aires, 1875-1955. Buenos
Aires: Sudamericana, 1994, cap. 3; CARIDE, Horacio. Una aproximación a la historia
prostibularia de Buenos Aires en tiempos de la "legalidad". Trabalho apresentado em
"Fuera de la ley. Jornadas de discusión sobre delito, polícia e justicia en
perspectiva historica (siglos XIX e XX)", Buenos Aires, Universidad de San Andrés, 17
e 18 de junho de 2010. Sobre a distribuição da vigilância policial em finais do
século XIX, ver GALEANO, Diego. La policía en la ciudad de Buenos Aires,
1867-1880. Dissertação de Mestrado em Investigação Histórica, Universidad
de San Andrés, 2010, p. 132-137.
4
Conta o bandoneonista José Libertella que para divulgar seu show em Paris, em 1981,
Le Monde o descrevia como um espetáculo de "trinta e três
artistas do submundo de Buenos Aires". FONDEBRIDER, Jorge (comp.).
La París de los argentinos. Buenos Aires: Bajo la Luna, 2010, p.
426.
5
Lunfardo, de acordo com a definição do Dicionário Houaiss da Língua
Portuguesa, é a gíria argentina, originada da variação dialectológica dos
imigrantes italianos, que se fixa nas classes baixas (frequentemente usada em letras
de tangos).
6
LIERNUR, Jorge F. Arquitectura en la Argentina del siglo XX. La construcción
de la modernidad. Buenos Aires: Fondo Nacional de las Artes, 2001, p.
104.
7
ROMARIZ, José R. La Semana Trágica. Buenos Aires: Editorial
Hemisferio, 1952, p. 88.
8
Dominique Kalifa examina esta associação em "L'attaque nocturne, une frayeur". Ver
Crime et culture au XIX
e
siècle. Paris: Perrin, 2005, p. 249. Sobre a trama de associações
culturais que evoca a irupção da iluminação da rua, ver SCHIVELBUSCH, Wolfgang.
Disenchanted Night: The Industrialization of Light in the Nineteenth
Century. Berkeley, Califórnia: University of California Press, 1995.
Sobre a expansão da iluminação em Buenos Aires, ver "El torbellino de la
electrificación. Buenos Aires, 1880-1930", em LIERNUR, Juan F.; SILVESTRI, Graciela.
El umbral de la metrópolis. Transformaciones técnicas y cultura
en la modernización de Buenos Aires, 1870-1930. Buenos Aires: Sudamericana, 1993.
9
No original, "alcaloides". O Diccionario de la lengua española de la Real
Academia Española, define alcaloide como "cada uno de los compuestos
orgánicos nitrogenados de carácter básico producidos casi exclusivamente por
vegetales. En su mayoría producen acciones fisiológicas características, en que se
basa la acción de ciertas drogas, como la morfina, la cocaína y la nicotina. Muchos
se obtienen por síntesis química". Nota do Editor.
10
VAPÑARSKY, César. La Aglomeración Gran Buenos Aires. Expansión
espacial y crescimento demográfico entre 1869 y 1991. Buenos Aires: EUDEBA, 2000,
cap. 8.
11
Sobre o desenvolvimento da noção do conjunto urbano bonaerense, ver CARIDE, Horacio.
La idea del conurbano bonaerense, 1925-1947. Documento de Trabajo
Nº 14, San Miguel: Instituto del Conurbano, UNGS, 1999; NOVICK, Alicia; CARIDE,
Horacio. La construction de la banlieue à Buenos Aires. In: RIVIERE D'ARC, H. (dir.).
Nommer les nouveaux territoires urbains. Paris: UNESCO/ Editions
de la Maison des Sciences de l'Homme, 2001, p. 105-130.
12
ARLT, Roberto. Pueblos de los alrededores. El Mundo, 31 de marzo de
1929; Idem. Los siete locos. In: ARLT, Roberto.
Novelas. Buenos Aires: Losada, 1997 [1929]
13
TUAN, Yi-Fu. Topophilia. A Study of Environmental Perception, Attitudes, and
Values. Nova York: Columbia University Press, 1990 [1974] cap. 14.
14
FOUCAULT, Michel. Aula de 18 de janeiro de 1978. In: FOUCAULT, Michel.
Seguranza, territorio, población. Curso no Collège de France
(1977-1978). Buenos Aires: FCE, 2006, p. 45.
15
Ocupei-me dessa "onda de assaltos" em CAIMARI, Lila. Modernidades delictivas. Buenos
Aires en la era del "pistolerismo". Desenvolvimento Económico.
Revista de Ciencias Sociales, n. 195, out-dez. 2009, p. 389-419.
16
Polícia de la Capital. Memoria de Iinvestigaciones, 1935, p.
230.
1
Caras y Caretas. 16 de março de 1929, s/p.
18
"Desbordes de incultura". El Mundo, 3 de dezembro de 1933.
19
"Candidatos a milionários". El Mundo, 21 de dezembro de 1929.
20
Jogo que consiste em apostar na última ou nas últimas cifras dos prêmios maiores da
loteria. Nota do Tradutor.
21
ARLT, Roberto. La mujer que juega a la quiniela. In: Idem.
Obras. Tomo II. Buenos Aires: Losada, 1998, p. 192.
22
BÉJAR, María Dolores. El régimen fraudulento. La política en la
provincia de Buenos Aires, 1930-1943. Buenos Aires: Siglo Veintiuno, 2005, p. 161.
Para uma análise das sucessivas propostas reguladoras, ver PEDETTA, Marcelo. Cara y
cruz. Estado, juego oficial y juego clandestino antes de 1936. Comunicação
apresentada em Jornadas de discusión sobre delito, polícia y justicia en
perspectiva historica (siglos XIX y XX), Buenos Aires, Universidad de San
Andrés, junho de 2010. O Partido Conservador é o principal ator político da Província
de Buenos Aires no período aqui considerado.
1
"A repressão do jogo". La Prensa, 15 de fevereiro de 1931;
reproduzido em La Libertad, 16 de fevereiro de 1931, p. 3.
24
Entrevista do ex-empregado do cassino de Mar del Plata, Ricardo N. Lombardi,
realizada em maio de 2008 por Marcelo Pedetta. Archivo de Historia Oral, Departamento
de Historia, Facultad de Humanidades, UNMdP. Agradeço a Marcelo Pedetta o acesso a
essa fonte.
25
Editorial "O desenvolvimento do jogo". La Libertad, 8 de julho de
1933, p. 3. Grifo meu.
26
La Prensa, 2 de março de 1933.
27
"Servicios policiales en Avellaneda". La Nación, 14 de outubro de
1929.
28
La Prensa, 2 de março de 1933. "Com a cumplicidade da polícia
sujeitos apanhados pelo oficialismo violam descaradamente determinada lei. Só falta
um hipódromo", La Libertad, terça-feira, 13 de setembro de 1932, p.
1. La Prensa, 3 de abril de 1933, reproduzido em La
Libertad, 4 de abril de 1933, p. 3. "Funcionam clandestinos no coração de
Avellaneda. Em locais não muito distantes da chefatura de polícia, muitas mulheres
exercem a prostituição", La Libertad, 9 de agosto de 1933, p. 5.
29
PIGNATELLI, Adrián. Ruggierito. Política y negocios sucios en la Avellaneda
violenta de 1920 y 1930. Buenos Aires: Nueva Mayoría, 2005. p. 47.
30
Sobre a reforma de Fresco, ver BARRENECHE, Osvaldo. La reorganización de las policías
en las provincias de Buenos Aires y Córdoba, 1936-1940. In: MOREYRA, B. y MALLO,
Silvia. Procesos amplios, experiencia y construcción de las identidades
sociales. Córdoba y Buenos Aires, siglos XVIII-XX. Córdoba: Centro de
Estudios "Prof. C. Segreti"/UNC, 2007.
31
El Mundo. 6 de fevereiro de 1933, p. 12.
32
El Mundo, 22 de outubro de 1933, p. 12. Sobre as representações
jornalísticas de Ruggiero, ver Ceechi, Ana. Polifónicas imágenes delictivas: narrar a
Ruggierito. Espéculo. Revista de estudios literarios. Universidad
Complutense de Madrid. Disponível em
<http://www.ucm.é/info/especulo/numero45/polimag.html>
33
"Informações de Avellaneda. Um empreiteiro de obras foi assassinado ontem, a tiros,
por indivíduos que desapareceram em seguida". La Nación, 25 de
outubro de 1929; "Houve ontem um violento tiroteio em Valentín Alsina. Mais de 20
tiros foram trocados entre os dois bandos. O tipo conhecido por 'Gallego López' ficou
gravemente ferido". La Libertad, 11 de fevereiro de 1933, p. 5;
"Explodiu outra bomba em uma padaria". La Libertad, 24 de agosto de
1931, p. 1.
34
"Foi assassinado o major Rosasco". La Libertad, 12 de junho de 1931,
p. 1; "Crivado de balas, foi assassinado o major José W. Rosasco (...). La
Opinión, 12 de junho de 1931, p. 1. Designado interventor da polícia de
Avellaneda após o golpe de Estado, Rosasco levou muito a sério a tarefa de "limpeza"
encomendada pelo presidente José Félix Uriburu. Sua breve gestão no subúrbio
industrial incluiu o fuzilamento de dois presos vinculados à rede de negócios de
Ruggiero, executados na delegacia após a sentença sumária de um Conselho de Guerra,
improvisado ali mesmo. De seu posto suburbano, Rosasco liderou os ataques mais duros
contra o anarquismo "expropriador". No momento de sua morte, tinha acabado de prender
o ativista Gino Gatti, membro do bando de Di Giovanni (já fuzilado) e Roscigna
(encarcerado), e de prender mais de quarenta suspeitos em uma batida. Embora o crime
nunca tenha sido completamente esclarecido, tudo indica que o espetacular golpe foi
uma vingança das vítimas provenientes deste setor (e que os executores chegam a
Avellaneda a partir da Capital).
35
"Como os gangsters de Chicago, os pistoleiros criollos de Morón
utilizaram metralhadoras. Há muitos pontos de contato nos procedimentos usados por
esses bandos". Crítica, 20 de fevereiro de 1935, p. 12; "Em
Avellaneda, os mortos matam". Ahora, 1º de agosto de 1935, p.
28.
36
Suprema Corte de Justiça da Província de Buenos Aires. Justicia Criminal e
Delincuencia del sigo XX. La Plata: 1939. Cap. Depto. de Avellaneda.
37
Para este panorama consultei o matutino La Libertad, editado em
Avellaneda e que cobre a zona sul (Lanús, Villa Dominico, Sarandí, Valentín Alsina,
Wilde). A visibilidade atribuída a esses incidentes depende dos contextos políticos.
Tratandose de um matutino radical, exibe ruidosamente os problemas vinculados à
gestão conservadora de Barceló, que se renova em 1930. O segundo diário local
consultado, La Opinión, encarna o conservadorismo bonaerense.
38
La Libertad, 17 de outubro de 1929. A relação entre o endurecimento
policial portenho e o aumento do delito organizado em Avellaneda é narrada no diário
local La Opinión, no resumo que fez da obra policial do major
Rosasco, 13 de junho de 1931, p. 1.
39
A pujante comunidade avellanedense, afirma La Libertade em
editorial, vive abandonada à sua sorte: "(...) as pessoas ficam entregues ao acaso e
a vida e os bens dos moradores dependem da sorte". Sobre a situação da cidade ver o
editorial "A segurança pública", em La Libertad, 16 de junho de
1931; Editorial "Campanhas contra o jogo de azar em Avellaneda". La
Libertad, 8 de julho de 1931; Editorial "Avellaneda vive à mercê de sua
magestade (sic) o delinquente". La Libertad, 26 de setembro de 1932;
"Avellaneda encontra-se à mercê da delinquência". La Libertad, 8 de
novembro de 1932, p. 5; "A cumplicidade do silêncio policial. Valentín Alsina à mercê
da delinquência". La Libertad, 10 de setembro de 1932, p. 5; "É
alarmante a sucessão de assaltos e roubos em Lanús Oeste". La
Libertad, 15 de fevereiro de 1933, p. 5.
40
Comunicação apresentada na mesa-redonda "Às margens da cidade: violência urbana,
crime e pobreza", no âmbito do Simpósio Internacional História e Margem, promovido
pelo Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de
Janeiro (UFRJ), entre 18 e 20 de outubro de 2010.