Open-access “A Jurema é um pau sagrado onde Jesus orou”: Fotografias das intersecções entre cristianismo e religiões afro-indígenas

“Jurema is a sacred tree where Jesus prayed”: Photographs of the intersections between Christianity and afro-indigenous

Resumo

O ensaio visual apresentado é um desdobramento fotoetonográfico da experiência tecida entre o pesquisador e o Terreiro T’Aziry Ladè, a partir da religiosidade da Jurema Sagrada. Por intermédio do registro fotográfico, são elencados aspectos sensíveis que reverberam a incidência de elementos que reiteram os atravessamentos entre o cristianismo e as religiões afro-indígenas, desde a tradicional Festa dos Pretos e Pretas Velhas. A borrar as fronteiras entre sagrados de origens distintas, a Jurema se posiciona na ambiguidade, tal qual uma religião fronteiriça aos binômios modernos/coloniais que estipulam cisões entre o que pode ser considerado cristão ou profano. Nesse contexto, figuram no centro do Terreiro características tangíveis da materialidade do sagrado ancestral, desde a gestualidade até a estética que atravessam os ritos dessa celebração da ancestralidade.

Palavras-chave:
Jurema Sagrada; Sincretismo; Hibridismo; Fotografia

Abstract

The visual essay presented is a photo-ethnographic unfolding of the experience woven between the researcher and the Terreiro T’Aziry Ladè, based on the religiosity of the Sacred Jurema. Through photographic records, sensitive aspects are listed that reverberate the incidence of elements that reiterate the intersections between Christianity and afro-indigenous religions, particularly in the traditional Festa dos Pretos e Pretas Velhas (Festival of Old Black Men and Women). Blurring the boundaries between sacred elements of different origins, Jurema positions itself in ambiguity, like a religion that borders on modern/colonial binomials that stipulate divisions between what can be considered Christian or profane. In this context, tangible characteristics of the materiality of ancestral sacredness feature at the center of the Terreiro, from the gestures to the aesthetics that permeate the rites of this celebration of ancestry.

Keywords:
Sacred Jurema; Syncretism; Hybridism; Photography

Apresentação

O presente ensaio visual investiga as representações estético-rituais que reiteram intersecções entre o sagrado cristão e afro-indígena no cerne da religiosidade da Jurema Sagrada. Por via deste ensaio, visa-se contribuir para os debates acerca da presença de ícones e ritos de origens cristãs nas religiões afro-indígenas, assim como compreender as interações desses em um polo partilhado.

Compreendemos o sincretismo como um movimento inerente à sobrevivência das religiões afro-brasileiras durante o período colonial, a comportar fenômenos espontâneos ou estratégicos (Sodré 2017). Contudo, ressaltamos outras formas de coexistência, mediadas pelas potências da Jurema Sagrada.

A Jurema Sagrada é um complexo religioso afro-indígena presente, sobretudo, no Nordeste, que articula práticas rituais, cosmologias espirituais e o uso simbólico e sacramental da planta jurema em suas ritualísticas (Pires 2012). Trata-se de um sistema que reúne elementos indígenas, africanos e, em certa medida, do catolicismo popular, constituindo uma tradição dotada de hibridismo.

Interessa-nos observar de quais modos essa tradição se apropria de elementos cristãos sem que estes operem como instrumentos de dominação ou diluição das crenças afro-indígenas. Ao assimilar imagens e rezas provenientes do catolicismo ao contexto juremeiro, estes se constituem como recursos de potência que ampliam as encruzilhadas de comunicação com o sagrado e traçam intersecções com outras religiosidades, a ressaltar a subversão às dicotomias coloniais (Quijano 2005).

O ensaio fotoetnográfico (Achutti 1997) apresentado é situado no Terreiro T’Aziry Ladè, no Agreste pernambucano, na cidade de Caruaru. Fundado pela matriarca Mãe Lourdes de Oxum, esse templo cultua o sagrado de matriz africana por meio do Candomblé Jeje-Mahi e da Jurema Sagrada. Embora falecida, Mãe Lourdes deixou um legado de resistência e respeito às tradições que é, atualmente, perpetuado por Pai Rogério de Iemanjá.

Em homenagem à matriarca fundadora, a tradicional Festa dos Pretos Velhos e Pretas Velhas é celebrada anualmente no dia 13 de junho, data de seu aniversário. Durante a totalidade do festejo, faz-se presente a incidência de aspectos sensíveis, estéticos, gestuais e rituais que reiteram a poética da convivência entre cosmologias espirituais plurais.

Nesse ínterim, o registro fotográfico cristaliza aspectos sensíveis que se estendem para além da potência descritiva da etnografia escrita. As imagens possibilitam o retrato de discursos não lineares, como gestos, expressões e elementos estéticos (Sontag 2004), que integram as dimensões da Jurema Sagrada.

As fotografias apresentadas objetivam, ainda, desmistificar o olhar destinado a essa tradição e suas formas de culto ao sagrado. Partimos de uma visão engajada no cerne do Terreiro T’Aziry Ladè, oriunda da condição de filho-de-santo desse espaço, para a constituição de modos de olhar que escapem às visualidades hegemônicas (Mirzoeff 2016) e seus padrões reducionistas de representação.

Foto 1
Autor: Leandro Tiago Ferreira

No altar da Jurema, convivem as estátuas de Jesus e de entidades, como pretos velhos e vovós, cercadas por flores e pelos chapéus utilizados por juremeiros(as) em transe. Entre cruzes, velas e folhas, é demarcada a intersecção entre os aspectos cristãos e de matriz afro-indígena dessa religiosidade, tal qual ecoa o refrão entoado por seus adeptos: a Jurema é minha madrinha, Jesus é meu protetor. (Foto 1)

Foto 2
Autor: Leandro Tiago Ferreira

Ao fundo de um cenário composto por folhas de palmeiras, uma estátua de preto velho é representada em seu tempo de cativeiro, a ressaltar que essas entidades são habitualmente associadas aos povos escravizados durante o processo de colonização do Brasil. Ao seu lado, figuram garrafas de bebidas, como vinho, e preparos específicos da erva que nomeia a religião, a Jurema. (Foto 2)

Foto 3
Autor: Leandro Tiago Ferreira

A festa dos pretos velhos apresenta seu início a partir de dois momentos que borram as fronteiras estabelecidas pelos binômios modernos/coloniais entre cristianismo e religiões afro-indígenas: finca-se uma vela para as entidades, em saudação aos encantados, assim como se rezam o Pai-Nosso e a Ave-Maria. Após isso, ouve-se o refrão que entoa: “A Jurema é um pau sagrado onde Jesus orou”. (Foto 3)

Foto 4
Autor: Leandro Tiago Ferreira

Após esse momento, são retiradas a vela e a quartinha que delineiam o início das cerimônias. Em um movimento circular, é tensionado um tempo anti-horário, em encontro às dimensões da ancestralidade. Esse gesto é permeado por cantigas que saúdam a força das entidades, aspecto contínuo ao longo dos ritos. (Foto 4)

Foto 5
Autor: Leandro Tiago Ferreira

Apoiada em sua bengala esculpida em madeira rústica, segurando seu cachimbo e defumando o local com ervas e fumo, Vovó chega ao terreiro por meio do corpo em transe de Pai Rogério, líder e responsável pela continuidade das tradições do Terreiro T’Aziry Ladè. (Foto 5)

Foto 6
Autor: Leandro Tiago Ferreira

Dentre os gestos realizados pelas entidades, destaca-se o acolhimento ao futuro da religião. As crianças permeiam parte da convivência em Terreiro, são amparadas pelos humanos e pelo sagrado, em um encontro de atravessamentos entre a ancestralidade e o porvir. (Foto 6)

Foto 7
Autor: Leandro Tiago Ferreira

Gradualmente, chegam ao salão mais entidades, a partir dos corpos de outros(as) adeptos(as) da religião. Pretos velhos e Vovós se encontram ao som dos cantos que saúdam seus axés. Em seus pescoços, é possível observar a presença de fios de conta associados à Jurema Sagrada, assim como terços adornados por cruzes, entrelaçados, indissociáveis. (Foto 7)

Foto 8
Autor: Leandro Tiago Ferreira

Nos braços do sagrado, os(as) filhos(as) da casa possuem a oportunidade de serem envolvidos(as) pelas forças que sustentam os cultos tradicionais da Jurema Sagrada. Espalha-se a potência vital por intermédio das trocas afetivas estabelecidas, em dimensões sensíveis de contato. (Foto 8)

Foto 9
Autor: Leandro Tiago Ferreira

Quando todas as entidades se reúnem no território humano, são oferecidas comidas e bebidas típicas a todas as pessoas no Terreiro, sejam estas adeptas ou visitantes. Cada convidado(a) pode servir-se livremente de tudo que está aos pés das entidades para nutrir seu corpo de um banquete atravessado por todo o axé da ancestralidade afro-brasileira. (Foto 9)

Referências

  • Achutti, Luiz Eduardo. 1997. Fotoetnografia: Um estudo de antropologia visual sobre cotidiano, lixo e trabalho Porto Alegre: Tomo Editorial.
  • Mirzoeff, Nicholas. 2016. “O direito a olhar”. ETD - Educação Temática Digital 18(4): 745-768. https://doi.org/10.20396/etd.v18i4.8646472
    » https://doi.org/10.20396/etd.v18i4.8646472
  • Pires, Pedro Stoeckli. 2012. “V Kipupa Malunguinho da Jurema Sagrada”. Cadernos de Campo 21(21): 191-196, https://revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/53923
    » https://revistas.usp.br/cadernosdecampo/article/view/53923
  • Quijano, Aníbal. 2005. “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina”. In A colonialidade do saber: Eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas, organizado por Edgardo Lander, 117-142. Buenos Aires: CLACSO.
  • Sodré, Muniz. 2017. Pensar Nagô Rio de Janeiro: Vozes.
  • Sontag, Susan. 2004. Sobre fotografia São Paulo: Companhia das Letras.
  • Declaração sobre a disponibilidade das informações
    Declaro, para os devidos fins, que os dados subjacentes ao ensaio visual estão em parte disponíveis em outras obras minhas de acesso livre. Outros dados estão em meu acervo pessoal, como resultado das pesquisas desenvolvidas sobre o tema ao longo dos anos.

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Disponibilidade de dados

Declaro, para os devidos fins, que os dados subjacentes ao ensaio visual estão em parte disponíveis em outras obras minhas de acesso livre. Outros dados estão em meu acervo pessoal, como resultado das pesquisas desenvolvidas sobre o tema ao longo dos anos.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 2025
  • Aceito
    29 Abr 2026
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