Open-access Corpos em trânsito e crises sanitárias: reconfigurações do trabalho sexual de homens brasileiros em Portugal frente à COVID-19 e Mpox

Bodies in transit and sanitary crises: reconfiguring Brazilian male sex work in Portugal amidst COVID-19 and Mpox

RESUMO

Este artigo investiga as reconfigurações do trabalho sexual transnacional de homens, focando em homens brasileiros que atuam como escorts em Portugal, sob o impacto da pandemia de COVID-19 e do surto de Mpox em 2022. Baseado em uma pesquisa etnográfica multissituada realizada entre 2020 e 2023, o estudo analisa como essas duas crises sanitárias se entrelaçaram, exacerbando vulnerabilidades econômicas, sociais e de saúde preexistentes. A análise da COVID-19 revela a desestabilização do mercado de trabalho sexual devido às medidas de contenção e o pesado custo psicossocial para os escorts. A chegada do surto de Mpox adicionou uma camada de complexidade, reforçando estigmas e a necessidade de reavaliar práticas de cuidado. O artigo demonstra como as crises globais se materializam em experiências individuais e coletivas, sublinhando a agência desses homens na negociação de saúde e trabalho em um cenário de dupla emergência de saúde pública.

Palavras-chave:
trabalho sexual de homens; COVID-19; Mpox; Portugal; crise sanitária

ABSTRACT

This article investigates the reconfigurations of transnational male sex work, focusing on Brazilian men working as escorts in Portugal, under the impact of the COVID-19 pandemic and the 2022 Mpox outbreak. Based on a multi-sited ethnographic research conducted between 2020 and 2023, the study analyzes how these two health crises intertwined, exacerbating pre-existing economic, social, and health vulnerabilities. The analysis of COVID-19 reveals the destabilization of the sex work market due to containment measures and the heavy psychosocial cost for escorts. The arrival of the Mpox outbreak added a layer of complexity, reinforcing stigmas and the need to re-evaluate care practices. The article demonstrates how global crises materialize in individual and collective experiences, highlighting the agency of these men in negotiating health and work in a scenario of a dual public health emergency.

Keywords:
male sex work; COVID-19; Mpox; Portugal; sanitary crisis

INTRODUÇÃO

O trabalho sexual realizado por homens, especialmente no contexto de fluxos migratórios transnacionais, constitui um nicho complexo e dinâmico das economias sexuais. A mobilidade de homens brasileiros que atuam como escorts na Europa, com um foco particular em Lisboa, revela uma intrincada rede de performances, relações e busca por mercados mais vantajosos. A pesquisa etnográfica que deu origem a este artigo foi realizada entre 2020 e 2023 em onze países europeus e em cinco estados do Brasil. Ela mapeou as trajetórias, a constituição de um escort competitivo, as lógicas de deslocamento e as dinâmicas de interação com clientes. Esse cenário, por si só, já era marcado por desafios e estratégias de agência para navegar em uma economia moral específica1.

A natureza transnacional do estudo exigiu uma abordagem metodológica que transcendesse as limitações geográficas tradicionais. Nesse sentido, e na esteira do trabalho de George Marcus (1995), concebi minha pesquisa como uma etnografia multissituada. Como se sabe, a etnografia multissituada emerge como uma resposta metodológica à crescente complexidade e interconexão do mundo globalizado, desafiando a premissa clássica de um único e estático local de estudo. Em vez de me fixar em uma comunidade, essa abordagem me permitiu “seguir o campo” em seus múltiplos desdobramentos. Meus interlocutores não estavam ancorados em um único lugar; suas vidas, práticas e identidades eram tecidas através de uma rede de deslocamentos. Portanto, para compreender a fundo suas experiências, foi imperativo circular por esses diversos contextos e geografias, acompanhando os fluxos de pessoas, ideias e capitais culturais.

Adotar a etnografia multissituada foi mais do que uma escolha logística; foi uma decisão analítica fundamental. Essa metodologia me permitiu mapear com maior precisão as experimentações sociais e culturais dos sujeitos que se manifestavam de formas distintas em cada localidade. Ao conectar os pontos entre diferentes cenários - das metrópoles europeias a cidades brasileiras -, pude obter uma compreensão mais profunda de como processos transnacionais, como migração, identidade e economia afetiva, são vividos, negociados e ressignificados em contextos específicos.

A produção de dados foi multifacetada, envolvendo observação participante em diversas situações, inúmeras conversas informais e a realização de entrevistas semiestruturadas em diferentes cenários etnográficos. O universo de interlocutores foi composto por trinta escorts brasileiros, quatro frequentadores da cena noturna gay de Lisboa e quatro clientes de escorts brasileiros. Para acessar um grupo tão diverso e disperso, utilizei distintas estratégias de inserção no campo, adaptando minha abordagem a cada novo contexto e construindo relações de confiança que foram essenciais para a pesquisa. Portanto, as redes de interlocutores, embora não sejam exatamente redes no sentido stricto do termo, se formaram - basicamente - a partir de cinco frentes: os sites de anúncios de escorts; um interlocutor-base de uma pesquisa anterior realizada no Brasil; uma ONG portuguesa que trabalhava com prevenção ao HIV e a outras infecções sexualmente transmissíveis; a minha circulação pela noite gay de Lisboa e a minha rede de relações pessoais2.

É preciso pontuar que o período da pesquisa coincidiu com a pandemia de COVID-19. A partir de março de 2020, as medidas de isolamento social, o fechamento de fronteiras e a proibição de encontros presenciais impactaram drasticamente o trabalho sexual. Trabalhadores do sexo, uma população já em situação de precariedade pela falta de regulamentação, viram-se subitamente sem renda e sem acesso a redes de proteção social. Para os escorts migrantes, como alguns dos brasileiros em Portugal, a pandemia exacerbou vulnerabilidades econômicas e sanitárias, limitando não apenas o trabalho, mas também o acesso a serviços de saúde.

É inexorável aqui refletir a partir de Judith Butler (2004, 2009). Ela distingue entre precariedade (precariousness) e precarização (precarity). A precariedade refere-se à condição ontológica da vida humana: somos todos, por natureza, vulneráveis, interdependentes e suscetíveis à perda e à morte. Essa vulnerabilidade inerente é uma característica universal da existência corporal. A seu turno, a precarização é a distribuição social e política desigual dessa precariedade. Não se trata de uma condição natural, mas de um regime político que expõe diferencialmente certos grupos à violência, à fome, à doença e à morte, enquanto outros são protegidos. A precarização é o resultado de políticas e estruturas sociais que tornam algumas vidas mais suscetíveis à eliminação e menos dignas de luto público. Butler argumenta que a questão central não é se a vida é precária, mas sim quais vidas importam e quais são desimportantes. Vidas descartáveis, desimportantes, “não enlutáveis” são aquelas que, quando perdidas, não geram uma resposta pública de indignação, permanecendo fora do campo de reconhecimento e valor social.

O trabalho sexual, em muitos contextos, incluindo Portugal, opera em uma zona de ambiguidade legal ou de desregulamentação, o que já confere às pessoas que fazem trabalho sexual uma condição de precarização estrutural. Antes mesmo da pandemia, os escorts brasileiros em Portugal enfrentavam uma série de vulnerabilidades. A ausência de reconhecimento formal do trabalho sexual impede o acesso a direitos trabalhistas básicos, como seguro-desemprego, licença médica ou aposentadoria. Isso os coloca em uma posição de dependência quase total da renda diária e os expõe a potenciais situações de abusos.

O estigma associado ao trabalho sexual e à migração contribui para a marginalização e a invisibilidade social. Isso dificulta o acesso a serviços públicos e a redes de apoio formais. A situação migratória, muitas vezes irregular, adiciona camadas de vulnerabilidade. O medo da deportação, a barreira da língua (mesmo sendo português, há diferenças culturais e burocráticas) e a distância das redes familiares e sociais de origem intensificam a dependência e a exposição a riscos. Essas condições pré-existentes já configuravam um cenário em que a vida desses sujeitos era socialmente precarizada, tornando-os mais suscetíveis a choques externos e menos “enlutáveis” aos olhos da sociedade envolvente (Costa, 2022).

Aprofundando o olhar sobre essas vulnerabilidades, torna-se necessário convocar o conceito de violência estrutural, de Paul Farmer (2004, 2020). Para Farmer, a violência estrutural refere-se a processos históricos e sociais - como o racismo, a xenofobia e as desigualdades econômicas abissais - que se “incorporam” nos sujeitos, determinando quem terá saúde e quem adoecerá. No caso dos escorts brasileiros em Portugal, a violência estrutural não se manifesta apenas na ausência de direitos, mas na forma como o mercado sexual transnacional e as políticas migratórias empurram alguns corpos para a linha de frente do risco sanitário. Durante a pandemia de COVID-19 e o surto de Mpox, a exposição não foi um evento aleatório, mas o resultado de uma estrutura que obriga o trabalhador a escolher entre o risco biológico e a privação material. Como Farmer (2020) observou em outros contextos de epidemias, o vírus segue as trilhas abertas pela desigualdade, transformando a precariedade social em vulnerabilidade biológica direta.

Enquanto a sociedade ainda se adaptava às consequências da COVID-19, uma nova emergência de saúde pública surgiu. Em maio de 2022, Portugal tornou-se um dos primeiros países fora da África a reportar casos de Mpox (anteriormente conhecida como varíola dos macacos), um vírus cuja transmissão ocorre majoritariamente por contato próximo de pele com pele. O surto de 2022-2023 afetou desproporcionalmente homens que fazem sexo com homens (HSH) e Portugal figurou entre os países europeus com maior número de casos. Por sua natureza, o trabalho sexual tornou-se uma atividade de alto risco para a infecção. Esta nova crise sanitária sobrepôs-se à vulnerabilidade econômica e social já intensificada pela pandemia, e isso singularizou a experiência de campo e a vida dos homens brasileiros que atuam como escorts em Portugal.

Este artigo analisa como essa população negociou sua saúde, seu trabalho e sua agência em meio a um duplo cenário de emergência de saúde pública. Primeiramente, analisarei os impactos da pandemia de COVID-19 no cotidiano, nas práticas e nas estratégias de sobrevivência dos homens brasileiros que atuam como escorts em Portugal, destacando as reconfigurações do mercado, as vulnerabilidades e as respostas a essa crise. Em um segundo momento, voltarei a atenção para o surto de Mpox em 2022, investigando como essa nova emergência sanitária se sobrepôs aos desafios já impostos pela COVID-19, reconfigurando ainda mais as práticas, os riscos e as estratégias de cuidado e agência dessa população, culminando em uma análise das negociações de saúde e trabalho em um cenário de dupla emergência de saúde pública.

COVID-19 E TRABALHO SEXUAL: IMPACTOS, DESAFIOS E ESTRATÉGIAS

Não é possível perder de vista que a pandemia produziu novas configurações de usos dos espaços domésticos, como lembra Heitor Frúgoli Júnior (2020). Além disso, há efeitos imediatos da pandemia na vida urbana, acentuando crises e desigualdades, fazendo com que cada saída à rua já se transformasse em uma aventura, como conta o antropólogo. O confinamento doméstico e o isolamento do espaço público foram marcas da COVID-19. Aliás, houve um processo compulsório de familiarização com termos como quarentena, distanciamento social, isolamento social e lockdown.

A partir desse contexto, notei três cenários mais recorrentes nas conversas com os interlocutores. Aqueles escorts que costumavam viajar em temporadas internacionais, trabalhando de praça em praça, parecem ter sido os mais abalados, pois não havia condições de viajar e eles precisaram permanecer em Lisboa. Os escorts que tinham clientes fixos e casados, ou clientes flutuantes que eram turistas, foram igualmente abalados, pois esses clientes praticamente desapareceram. Os turistas não podiam viajar. Os clientes casados, na maior parte dos casos, tiveram seu regime de trabalho alterado para o home office, e não havia a justificativa de reuniões ou horas-extras para chegar mais tarde em casa e, assim, encontrar com os escorts. Por fim, os clientes solteiros, os clientes de sex party e chemsex (uso de drogas concomitante à prática sexual) não desapareceram e garantiram a manutenção do mercado em funcionamento. Há quem diga, em campo, que essa modalidade de prestação de serviço aumentou vertiginosamente.

O primeiro grupo de escorts impactado pela pandemia foi aquele que costumava viajar e passar longas temporadas trabalhando fora de Portugal. Aliás, não apenas as viagens a trabalho foram impactadas, mas também as viagens de lazer, as férias e as idas ao Brasil, tudo isso ficou cancelado por não serem consideradas essenciais. André, que penso poder localizar nesse grupo, me disse que “antes o trabalho era uma coisa e depois começou a ser outra. Havia muito mais procura antes da pandemia. Durante a pandemia foi complicado”.

André tinha 30 anos no começo da pesquisa, mais de um 1,8 m em um corpo magro, definido por ele como moreno escuro. André circulava pela Europa antes da pandemia. A dimensão complicada trazida pela pandemia, segundo ele, tinha a ver com a escassez de clientes, com o aumento de pessoas trabalhando como escorts, e os poucos clientes que havia, conforme conta André, “queriam desconto. Eles falavam que tudo estava muito mal, que a pandemia fez eles sofrerem impacto no bolso”. Sobre a permanência em Lisboa, o interlocutor relatou que, embora tenha reconhecido a impossibilidade de viajar, continuou na cidade, fazendo poucos programas e ganhando muito menos, o que o levou a consumir suas reservas financeiras. Ainda assim, isso não significou que André não tenha circulado pela cidade. Segundo ele, o primeiro confinamento, iniciado em março de 2020, teria sido “um momento terrível. Eu estava sozinho em casa. Fechado, entre aspas. Mas com pouco trabalho. Pouco cliente”.

O confinamento, como um momento difícil, também foi percebido por Marcos Torres, que tinha 32 anos no começo da pesquisa, considerava-se branco, com 1,78 m, 75kg e corpo definido como normal. Segundo ele, o tempo da pandemia “emocionalmente foi péssimo. Tive que procurar ajuda. Consegui fazer consultas com psiquiatra. Tive que tomar remédio. A minha cabeça não aguentou. Só uma terapia com psicólogo não dava. Tive que tomar remédio”.

Sofrimento, ansiedade e incertezas, segundo Jean Segata (2020), foram sensações experimentadas pelas pessoas durante a pandemia de COVID-19. Segata et al. (2021) compreendem o período da pandemia como um cenário de exceção e de incertezas que produziu um evento múltiplo e desigual, o que os autores chamaram de “evento crítico” em alusão ao conceito trabalhado por Veena Das (1995) a partir de François Furet. Sobre a utilização do conceito de evento crítico para pensar a pandemia, os autores destacam “o caráter aberto dos ‘acontecimentos’ e a sua capacidade de se projetar para o futuro; as disputas e apropriações de seus significados por parte de instituições e atores sociais; e sua maneira mais ou menos visível e silenciosa de afetar o presente e moldar futuras expectativas [...]” (2021, p. 9).

Dialogando com Veena Das (2004), a pandemia de COVID-19 pode ser compreendida como um “evento crítico”, que, ao irromper na realidade desses sujeitos, desestrutura as normas vigentes e se infiltra nas relações mais íntimas. Para Das, o interessante da vida social reside na “descida ao ordinário”, processo pelo qual o evento traumático é domesticado e trabalhado no tempo. No contexto dos escorts, o cotidiano torna-se o lugar onde a precariedade dos corpos é negociada através de constantes refazimentos de si. É nesse espaço que emergem agenciamentos criativos que permitem a reconstrução subjetiva e a manutenção de mundos possíveis em meio à instabilidade sanitária e econômica.

Nesse cotidiano “bagunçado” pelo evento crítico, sentimentos como o medo e a incerteza deixam de ser meras reações psicológicas individuais para se tornarem objetos de uma micropolítica das emoções, conforme proposto por Claudia Rezende e Maria Claudia Coelho (2010). As narrativas dos escorts revelam que o medo não é distribuído de forma equânime: o temor de contrair o vírus por uma pessoa que faz trabalho sexual e sem garantias estatais difere radicalmente da experiência de isolamento de um cidadão português médio. Essa assimetria evidencia como as emoções são construídas discursivamente e atravessadas por contingências históricas e relações de poder.

Nesse cenário de escolhas constrangidas, a agência dos escorts manifesta-se não como uma liberdade plena, mas como um manejo tático de riscos dentro de um universo de possibilidades cada vez mais limitadas. Ter que interromper viagens para outros países europeus, restringindo a atuação apenas a Lisboa, ou a priorização de um menor número de clientes fixos, revela um agenciamento de resistência. Aqui, a agência é o que permite ao sujeito navegar em um mar de restrições impostas pela contingência estrutural. Redefinir o tipo de oferta de serviço e o nicho de mercado não são apenas adaptações comerciais, mas tecnologias de prevenção e cuidado de si. Os escorts coproduzem seus agenciamentos em meio à vulnerabilização, lançando mão de uma produção ativa de estratégias de sobrevivência que visam preservar a vida e a continuidade do trabalho em meio ao caos sanitário.

O chamado “novo normal”, que estaria em disputa, é fruto de um modo como a doença afetou as relações sociais e provocou uma nova forma de estabelecer relações, segundo Lis Furlani Blanco (2021).Jean Segata et al. (2021) nos lembram que o novo normal será escrito a partir de geografias desiguais. Além disso, Segata (2020) mostra como tais geografias expõem estruturas de sofrimento, injustiças e desigualdades que fazem sobressair as mazelas de grande parte da população do planeta. Nesse ínterim é que João Biehl (2021) compreende a necessidade de repensar o nosso legado disciplinar que produziu vulnerabilidades estruturais que permitiram a propagação desigual do vírus, aliás, conforme enfatiza o autor, que produziram uma “racialização do vírus”3.

É nesse sentido, entendendo a COVID-19 de forma mais ampla, que Andrade, escort que trabalhava no norte de Portugal, contou que se aproximou do trabalho sexual justamente porque perdeu seu emprego formal. Andrade tinha 35 anos no começo da pesquisa, considerava-se pardo, com 1,77 m, 70 kg e corpo definido como normal. Para o interlocutor, a pandemia afetou, de forma transversal, diferentes âmbitos da vida social, bem para além da saúde especificamente. Andrade teria visto no exercício do trabalho sexual uma possibilidade de fazer dinheiro rápido; porém, o aumento da concorrência e a desvalorização do preço pago pelo trabalho teriam afetado a sua qualidade de vida:

Desde que começou tudo isso aqui, esta questão do Covid, o meu trabalho ficou difícil, perdi meu salão, perdi meu contrato. E como estou sozinho, é como se tivesse achado o caminho mais rápido pra ganhar dinheiro. Esta questão do Covid atrapalhou. Antes havia mais procura. Mas com o Covid, os cuidados, diminuiu muito.

Desemprego e isolamento foram fatores lembrados com frequência pelos interlocutores e, algumas vezes, determinantes para o ingresso no trabalho sexual, pois, por mais impessoal que fossem os contatos, o trabalho sexual exigia algum contato em momentos de distanciamento social. Judith Butler (2020) constatou que o isolamento exigido pela pandemia mostrou como as pessoas são interdependentes. Segundo Butler, “el virus por sí solo no discrimina, pero los humanos seguramente lo hacemos, modelados como estamos por los poderes entrelazados del nacionalismo, el racismo, la xenofobia y el capitalismo” (2020, p. 62).

As desigualdades sociais e econômicas asseguraram que o vírus, tido como de potencial indiscriminado de infecção, acabasse por infectar e vulnerabilizar ainda mais os sujeitos mais vulnerabilizados. Valentim é um interlocutor que tinha 36 anos no começo da pesquisa, branco, com 1,70 m, 70 kg e corpo definido como normal. Para Valentim “a pandemia foi um grande impacto. Porque as pessoas tinham medo. E o trabalho desceu muito”. Ainda assim, quem vivia do trabalho sexual, ou tinha um emprego formal e o perdeu, precisava arriscar-se para seguir tendo algum tipo de ganho, mesmo que o trabalho fosse precário, com os preços pagos sendo abaixo do mercado e sob condições flagrantemente desfavoráveis.

Dagoberto tinha 34 anos no começo da pesquisa e 1,78 m, corpo magro/definido, branco. Dago, seu apelido, reportava o apavoramento das pessoas no começo da pandemia. Apavoramento de algumas, indiferença de outras. Segundo ele, “eu, por exemplo, não alarmei. Não fiquei com medo. Eu lembrei que eu tinha uma reserva em dinheiro, até boa, e falei: ‘se eu passar por alguma dificuldade, eu vou pegar o dinheiro dessa reserva’”. A tranquilidade inicial foi se alterando à medida que a pandemia não passava e começava a fase das “vacas magras”, que foram as quarentenas. Durante os momentos em que não se podia viajar, em que havia confinamento, e em que a reserva dele começou a diminuir, ele diz que se preocupou. Dago conta que sua sorte teria sido, “durante todo esse tempo, fidelizar clientes”.

Medo e redução dos ganhos também foram recorrentes para um segundo grupo de escorts, que era aquele composto pelos interlocutores que tinham clientes fixos, casados e turistas estrangeiros. Portanto, o problema da pandemia naquele contexto não dizia respeito tanto a seus efeitos práticos em termos de saúde na vida deles, mas aos efeitos secundários em termos econômicos.

Yuri tinha 27 anos no começo da pesquisa, moreno, com 1,83 m, 70 kg e corpo considerado como magro, definido. Yuri costumava viajar com frequência e também tinha alguns clientes fixos em Lisboa. Ele conta:

Eu fiquei com muito medo porque eu não sabia o que que ia acontecer. Eu acabei achando um advogado, professor de universidade. Ele é escritor de vários livros. Foi bom pra mim, porque ele conseguiu me ajudar. Mesmo ficando só com ele, eu já conseguia fechar muito bem o mês. Ele foi o que me salvou em 2020. Porque na pandemia baixou, baixou, baixou. De clientes novos, por exemplo. Eu vejo por isso. Tinha mês que eu só tive um cliente novo. Quem eu recebia aqui em casa eram poucos e habituais.

Yuri argumenta que seus ganhos teriam sido garantidos, ainda que em menor monta, pela manutenção de um cliente habitual, já que, em termos de novos clientes, o quantitativo foi nulo e as viagens teriam deixado de ocorrer. A restrição, em termos de novos clientes, também foi lembrada por Matheuzinho. Ele tinha 24 anos, pardo, com 1,81 m, 75 kg e corpo definido como magro. Matheuzinho contou-me que “os clientes ficaram muito restritos, eles tinham medo”.

No que tange a meus interlocutores de pesquisa, essa situação trazia um outro agravante. Além da falta de dinheiro, não ter um emprego formal complicava a situação consular, pois ter um contrato de trabalho era um pré-requisito para “dar entrada nos papéis”. Marcos Torres conta: “não encontrei forma nenhuma de me movimentar financeiramente pra conseguir pagar aluguel, pagar um quarto, alguma coisa que fosse, comida, nada. Não havia. E não tive apoio do governo. Nada, nada. Zero”.

Os tempos pandêmicos produziram deslocamentos em termos de garantia da continuidade de uma vida sexual ativa. Se as palavras de ordem para uma vida social sanitariamente segura eram as da necessidade de distanciamento e confinamento, as leis do desejo, do prazer e do tesão parecem ter sido as de produzir formas de resistência e adaptação para a sua continuidade. Desejo, prazer e tesão parecem não ter sido tão obedientes às imposições sanitárias. Foi preciso reinventar e reinventar-se, ainda que isso parecesse, em alguns formatos, um sexo muito estranho.

Vasco, um dos habitués da “noite gay” de Lisboa, é português e tinha 50 anos. Considerava-se bissexual, branco, alto e magro. Conheci Vasco no bar de um clube de cruising. Ele era cliente de escorts brasileiros. Por conta da pandemia, Vasco me disse que era tudo “bué triste4. Tens o Bairro Alto com zero malta”. Ele contou um pouco sobre os empreendimentos de lazer e entretenimento direcionados às pessoas LGBT e que estariam fechados:

Eu frequentava muito saunas. Agora estão fechadas devido ao Covid. As discotecas, os bares de cruising, de engate, os quartos escuros, tudo fechado. Trumps, que eu nunca fui; a Construction, com dois pisos. Com três pisos e último piso era um quarto escuro. Agora tudo fechado por causa do Covid. Tens o Finalmente, no Príncipe Real. Tá a funcionar. Eles alteraram. Meteram mesas. Com um número x de pessoas. É mais um convívio. Agora estão todas nas aplicações. É o Grindr. O Hornet. O Badoo. Gay Romeo.

Ele reflete sobre um ponto muito importante para as pessoas, que são os espaços e momentos de sociabilidade. Ainda que as sex parties não sejam uma instituição de homens gays, elas são muito significativas para parte dessa população. Ainda que o uso de álcool e outras drogas em momentos de sociabilidade não seja uma particularidade de pessoas LGBT, esses processos são significativos para uma parcela dessa população, pois foram essas substâncias em contextos de sociabilidade noturna que ajudaram a tornar vivíveis essas vidas minorizadas e subalternizadas.

Sendo assim, o encerramento temporário dos empreendimentos da noite implicou também a suspensão de parte significativa da produção de sentido para a vida dessas pessoas. André, com quem circulei por algumas festas clandestinas em momentos de emergência sanitária e proibição de encontros desse tipo, argumenta no seguinte sentido:

A gente se drogou mais. Porque estávamos fechados em casa e não havia nada pra fazer. Nada pra fazer. Acabou que usamos droga uns com os outros para, sei lá, pra se divertir, passar o tempo. As sex parties aumentaram. Porque já que não dava pra sair, porque tudo estava fechado, a gente fazia as festas em casa.

Corria-se risco, isso parecia evidente. Ainda que as testagens fossem constantes, corria-se risco justamente porque parecia faltar um elemento fundamental de produção de sentido na vida desses sujeitos - e nem estou falando do trabalho sexual, que estava muito prejudicado. Faltava a sociabilidade da noite. Faltavam os encontros. Faltavam as perambulações entre os diferentes lugares, pelas discotecas, pelos bares, pelas saunas, pelos clubes de sexo, pelas zonas de pegação.

Gonçalo é cliente de escorts brasileiros e organizava festas de chemsex. Ele é português e tinha 42 anos no começo da pesquisa. Considera-se gay e branco, de estatura mediana e magro. Conheci Gonçalo em uma sauna de Lisboa. Ele me disse que com a pandemia “não tens nada. Pra onde é que tu vais? Vais pra casa das outras pessoas. É assim, eu acho que há muita gente que não percebe a importância da noite”. A noite funcionaria para alguns de meus interlocutores como uma espécie de “local sagrado”, como uma instituição. Portanto, simplesmente deixar de ter isso, sem colocar nada no lugar, certamente causara um descompasso. É preciso encontrar uma substituição, “ou então as pessoas vão andarem doidas. Nós somos animais sociais”, repetia Gonçalo.

Dagoberto conta que durante a pandemia, “eu não tive covid. Você acredita? Eu galinhei e galinhei e os testes todos negativos. Tava fazendo praça em pleno Covid e quarentena também, você acredita”? Dagoberto aqui se refere ao verão de 2020, quando alguns países levantaram algumas restrições e houve a possibilidade de circular pelo continente, o que gerou uma rápida segunda onda, que foi bem mais letal que a primeira, tendo como piores desdobramentos a situação de janeiro de 2021 com os registros mais altos no número de casos confirmados e mortes registradas, conforme pontuei antes.

Um terceiro grupo de interlocutores impactado pela pandemia foi o dos escorts que atendiam pessoas em chemsex e clientes fixos e viviam em Lisboa. Eles tiveram uma outra percepção sobre a crise sanitária. Para eles, os efeitos não foram devastadores e alguns contam que, inclusive, a situação melhorou. Entre esses interlocutores, está Roy. Ele tinha 39 anos no começo da pesquisa, moreno, com 1,90 m, 87 kg e corpo definido como normal. Seu diferencial, segundo ele, não era a beleza, mas ter um pênis de 24 cm e grosso. É o meu trunfo. Ele assim contava:

Antes da pandemia minha meta, todos os dias, sempre foram mil euros. Depois, na primeira onda, eu pensei que ia cair, foi só a aumentar. A meta era mil antes da pandemia, depois da primeira onda da pandemia, subiu pra mil e duzentos diária.

O que chama a atenção é que houve uma elevação da meta, o que sugere que a procura pelo trabalho sexual aumentou, não apenas para ele, mas para o conjunto de pessoas que faz trabalho sexual e aluga os quartos dos imóveis dele.

Nando tinha 33 anos no começo da pesquisa, moreno, com 1,83 m, 75 kg e corpo definido. Ele foi outro interlocutor que disse não poder reclamar do trabalho sexual durante a pandemia de COVID-19. Ele começou a trabalhar em fevereiro de 2020 e logo veio a pandemia, portanto, não teria como comparar com antes, pois antes não atuava como escort: “não me afetou em nada porque acho que o mínimo que eu consiga faturar já é um faturamento. Eu meio que comecei no olho do furacão. Viajei, trabalhei, não contraí Covid. Dois anos, mais de sete países”. Nando teria ficado em Lisboa, sem poder viajar, entre março de 2020 e junho do mesmo ano. As suas viagens teriam começado em julho ou agosto daquele ano. Elas teriam se intensificado em setembro de 2020. Primeiro, as viagens teriam sido para o interior de Portugal e, depois, para outros países.

É interessante lembrar o quanto foi recorrente, nas falas dos interlocutores, o fato de que enquanto não havia vacina, persistia o medo, mas também persistia a exposição, seja por conta do trabalho, seja por conta da diversão “para não pirar”. Foram muitas as referências a atendimentos realizados com máscaras, tentando reduzir os riscos. Alguns relatos também mencionavam que, quando se chegava à casa dos clientes, havia um teste rápido à porta à espera deles.

A restrição de deslocamento pela cidade foi outro problema. A circulação de pessoas, em alguns momentos da pandemia, era permitida apenas até a meia noite. O grosso dos atendimentos de uma parcela específica da clientela ocorreria quase sempre depois desse horário. Esses eventos, em que eles podiam ganhar mais dinheiro e compensar a defasagem de outros tipos de clientes, viu-se seriamente prejudicado durante a pandemia por conta das restrições para transitar pela cidade, mas continuou sendo aquele que garantia os lucros mais significativos.

A noção de cuidado ajuda a compreender as estratégias de sobrevivência dos escorts. Ela transcende a mera aplicação de protocolos e medidas técnicas preconizadas por órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Enquanto a racionalidade institucional foca na padronização de condutas - como o isolamento e a higienização -, torna-se fundamental compreender o cuidado como uma prática situada e contínua de “ajuste”. Conforme argumentam Annemarie Mol, Ingunn Moser e Jeannette Pols (2010), o cuidado não se encerra em regras fixas, mas se manifesta no fazer cotidiano, exigindo uma persistência adaptativa diante das incertezas. No caso dos escorts, esse “cuidado em prática” revela-se nas táticas criativas de negociação do contato físico e na gestão de riscos que a métrica técnica da OMS é incapaz de capturar, evidenciando que cuidar é, fundamentalmente, um engajamento prático com a vulnerabilidade dos corpos em contextos específicos.

Maria Puig de la Bellacasa (2017) alerta que o cuidado é uma obrigação ética e política atravessada por tensões e desigualdades. Em um cenário de emergência sanitária, o cuidado se distribui de forma assimétrica: para os escorts, a escolha entre o risco letal do vírus e a sobrevivência econômica não é apenas uma redefinição de práticas, mas um sintoma da precariedade estrutural. Ao operar nas “margens do cuidado”, Camila Fernandes (2017) em diálogo com a obra de Veena Das (2004), mostra como diferentes sujeitos agenciam a vida onde o Estado se faz presente apenas pela via da negligência ou do controle. Assim, o cuidado nas margens torna-se um campo de resistência e agência, onde a manutenção da vida exige subverter a lógica oficial para tecer redes de suporte que respondam às urgências de uma existência marcada pela exclusão e pela desigualdade na distribuição do direito de ser cuidado.

Enganaram-se alguns de meus interlocutores quando pensaram que a crise da COVID-19 seria a única que os confinaria em casa. Foram dois longos anos. Esses corpos - individuais, mas também sociais - esperaram mais de dois anos pelo levantamento total das restrições para que finalmente pudessem aproveitar aquele verão de 2022, que idealmente seria o “verão da redenção”.

MPOX E TRABALHO SEXUAL: O SURTO NO “VERÃO DA REDENÇÃO”

Quando meus interlocutores pareciam “livres” da COVID-19, já com três ou quatro doses de vacina, circulando sem máscaras, Lisboa recomeçando a receber turistas de diferentes lugares e 2022 prometendo ter o verão da “redenção”, eis que uma nova doença “dava as caras” e parecia os atingir como alvos preferenciais, bem como as pessoas com quem prioritariamente eles se relacionavam.

O vírus Mpox, causador da chamada varíola dos macacos, teve um surto no continente Europeu a partir de abril/maio de 2022, tudo indica que com epicentros na Espanha e na Inglaterra. Aliás, segundo Thomas Ward et al. (2022), o primeiro caso detectado desse surto fora identificado na Inglaterra em 06 de maio de 2022. Tratava-se de um homem com menos de 40 anos, branco, autodeclarado homossexual e que teria tido relações sexuais desprotegidas com diferentes parceiros casuais nos últimos 21 dias, além de um histórico de viagem para a Nigéria.

Naquele momento, os casos notificados davam conta de uma maciça infecção de homens que faziam sexo com outros homens na casa dos 30 anos e frequentadores de espaços de sociabilidade sexual como saunas, clubes de sexo, ou mesmo cenas privadas de chemsex. Esse perfil repetiu-se nos diferentes países, fora das regiões endêmicas, onde houve a identificação de muitos casos em 2022 (Martínez et al., 2022; Caria et al., 2022; Brasil et al, 2022; Gould, 2022; Ward et al. 2022; Duque et al. 2022; Kluge e Ammon, 2022; Amer et al, 2022; Mileto et al., 2022).

Segundo Davide Mileto et.al. (2022), a varíola dos macacos é uma zoonose cujo vírus MPX (monkeypox) pertence à família dos orthopoxvírus. Trata-se de uma doença endêmica nas florestas tropicais da África Central e África Ocidental. Esse vírus, segundo os autores, teria sido identificado pela primeira vez em 1958 na Dinamarca, em macacos que chegavam dessas regiões do continente africano. No entanto, é muito provável que os macacos sejam apenas hospedeiros intermediários do vírus e não os naturais, que, segundo apurado pelos autores, seriam roedores e pequenos mamíferos. Mileto et.al. ainda relatam que o primeiro caso humano foi identificado em uma criança da República Democrática do Congo em 1970. Desde então, há surtos esporádicos em diferentes regiões do planeta. Em 2003, houve um surto nos Estados Unidos a partir de roedores infectados que chegaram ao país direto de Gana. Até 2021, entre todos esses surtos esporádicos, foram identificados apenas 48 casos em pessoas fora da África (Mileto et.al., 2022).

Larissa Bigaran et al. (2022) relatam que os primeiros casos identificados no Reino Unido, em maio de 2022, e teriam inaugurado o mais recente surto da doença, carregavam algumas particularidades. Esses casos mais recentes pareciam não estar relacionados com viagens à África (com exceção do primeiro) e nem com o contato com os animais que seriam possíveis transmissores do vírus.

Quando estive em trabalho de campo em Londres, no mês de maio de 2022, já se comentava sobre um surto de varíola dos macacos em Madri, mas, entre meus interlocutores, ignorava-se a informação de que os primeiros casos notificados, naquele mesmo maio, teriam ocorrido alguns dias antes ali mesmo em Londres. Yuri e Nando comentavam que uma das saunas mais famosas de Madrid havia sido fechada devido a um significativo número de casos de homens infectados terem relatado que lá estiveram. Mas nós não demos maior importância a isso. Eu mesmo frequentei o local algumas vezes com Diogo, meu interlocutor que vive em Madrid, de 31 anos, branco, com 1,70m, 70kg e corpo definido como malhado. Naquela altura em que frequentei a sauna com Diogo, mais de um ano antes, não se falava em Mpox.

Quando soube do surto em Madrid e do fechamento da sauna, entrei em contato com Diogo. O fechamento da sauna ocorrera em 20 de maio de 2020, depois de serem identificados dezenas de casos entre homens com menos de 40 anos, que tinham um histórico de sexo com outros homens e frequentado a sauna nos últimos 21 dias. Essa sauna era um empreendimento grande e frequentado por pessoas de várias idades, com predominância de jovens e turistas de diferentes países do mundo. Na altura do surto de Mpox, Diogo estava em viagem de trabalho a Grécia e disse que havia certa apreensão lá, sobretudo por parte de alguns escorts brasileiros que estiveram na festa das Canárias. Em uma das mensagens que trocamos, ele me disse:

Meus amigos de Madrid estão muito nervosos. Eles foram nas Canárias naquela festa de Maspalomas. Coisa grande mesmo. Deve ter sido lá que pegaram. Sabe como é uma festa cheia de gays, todo mundo se pegando e se esfregando. Aqui na Grécia se sabe pouca coisa. Um cliente que comentou, mas não é uma preocupação.

Segundo Jesús Iñigo Martínez et al. (2022), os primeiros casos de Mpox registrados em Madrid ocorreram dia 17 de maio de 2022, alguns dias depois do encerramento da Gay Pride Maspalomas (realizado de 5 a 15 de maio de 2022), uma mega festa majoritariamente frequentada por homens gays, que teve lugar na Ilha Gran Canária. Em comum, esses primeiros diagnosticados na Espanha, conforme Fatma Amer et al. (2022), tinham participado da festa, não tinham ido à África, nem mantido contato com animais. Todos eles tinham menos de 40 anos e se identificavam como gays.

Ainda que fosse “velha conhecida” dos profissionais da saúde, pouco se sabia sobre a varíola dos macacos em meu campo. Dagoberto ficou muito nervoso ao perceber-se infectado pelo vírus. Eu mesmo a desconhecia completamente. Meus interlocutores e eu precisamos aprender sobre, porque nos dava a impressão de que o processo de contágio era iminente e parecia não precisar fazer sexo para tanto e, mais que isso, não adiantava usar preservativo. Isso acabamos entendendo melhor passado algum tempo.

A varíola dos macacos não figurava como uma infecção sexualmente transmissível, o que gerava mais controvérsia ainda, pois o vírus estava sendo transmitido quase em sua totalidade entre homens que faziam sexo com outros homens. Nas regiões endêmicas da África, essa é uma doença conhecida há décadas e cuja transmissão não se relaciona a contatos sexuais. Além disso, ela parecia estar controlada e praticamente erradicada em países fora da África. Inclusive, é conhecida a eficácia da vacina contra a varíola nos casos de varíola dos macacos.

Em algum momento, no começo do surto de 2022, houve a circulação de boatos de que seria uma nova epidemia a ser desencadeada por homens homossexuais, ou por homens que fazem sexo com homens, justamente por ser essa a população mais atingida pelo atual surto, o que nunca houvera ocorrido em surtos anteriores. Em meu campo, isso apareceu instantaneamente. Quando falei com Yuri a esse respeito, ele estava muito incomodado:

É outra aids. Todo mundo só fala nisso. Muito azar. Meus amigos estão todos se infectando. Eu vou ser o próximo? Ficam com muitas feridas. Tudo bem feio. Não dá pra sair. Ninguém tá trabalhando. Muita febre. Muito calafrio. O pior é a ferida. Aquilo é horrível. O meu amigo de Londres disse que depois passa e nem fica cicatriz. Mas o amigo do Nando ficou com cicatriz no pau. O durante é que é péssimo. Sério, é uma porcaria isso tudo. Outra vez vão dizer que é coisa dos gays. Mas pode ser de qualquer um.

Yuri mostrava-se preocupado com os efeitos da doença. Efeitos físicos, como as possíveis marcas deixadas no corpo, mas também preocupado com os efeitos morais que associariam outra vez uma doença aos homens homossexuais. Como profilaxia à doença, outra vez o isolamento social era recomendado. Os efeitos, até àquele momento, ainda eram pouco claros aos doentes. Diante desse cenário - que parecia começar a apontar homens gays, homens bissexuais e homens que fazem sexo com outros homens como vetores da Mpox, por conta de suas práticas sexuais - Kluge e Ammon (2022), Martínez et.al. (2022) esforçam-se para deixar claro que a transmissão de Mpox não tem qualquer relação com orientação sexual ou identidade de gênero e que, portanto, não se trata de uma doença de pessoas LGBT ou transmitida por pessoas LGBT, sobretudo homens gays, bissexuais ou homens que fazem sexo com homens.

O que Amer et.al. (2022) e Thomas Ward et.al. (2022) percebem nos contextos da Espanha e do Reino Unido, respectivamente, é que aglomerações em grandes eventos, como a Gay Pride nas Canárias, cenas de chemsex, ou uma sauna podem se transformar em ambientes propícios para a transmissão, uma vez da quase inevitabilidade dos contatos próximos. Além disso, basta uma pessoa infectada para transmitir a outras tantas.

Até o declínio dos casos, as informações foram muito desconexas. Conforme Mileto et al. (2022), a transmissão ocorreria majoritariamente através de gotículas de saliva, ou contato direto com as lesões cutâneas ou com fômites, isto é, superfícies por onde o vírus circulou e ficou. A transmissão sexual do Mpox nunca foi demonstrada em pesquisas. No surto de 2022, entretanto, em vista do alto número de relatos em diferentes países, de lesões da região perianal e genital, em homens gays, bissexuais ou que fazem sexo com outros homens, supôs-se que a atividade sexual tenha contribuído para a transmissão do vírus.

É importante frisar, à luz das contribuições de Amer et al. (2022) e Brasil et al. (2022) que parece não ser por meio dos fluídos sexuais, mas do contato prolongado e próximo com as secreções eliminadas pelas lesões, nos movimentos das peles em fricção facilitados pelos atos sexuais, que ocorreria a transmissão. Para Kluge e Ammon (2022), a identificação de mais casos de homens com esse perfil também se deve ao fato de que essa população já está mais habituada a rapidamente procurar os serviços de saúde, pois costuma frequentar esses espaços em função de cuidados com sua saúde sexual. Dagoberto conta:

[...] isso é muito doido. Porque saca só. Eu fui no Masmorra5 lá em Londres. Eu fiz horrores. Você conhece lá, né? Tá ligado naquele corredor que tem as entradas para a prisão? Aquilo tava cheio de homem. Peguei muita gente. Aquela salinha no final tava lotada. Todo mundo transava com todo mundo. Nada de camisinha. No pelo mesmo. Loucura? Loucura. Corri risco? Corri risco. Eu procurei? Procurei e me ferrei. Mas e o Nando que tava em casa, que não foi, não fez nada e só transou com um fixo, que é hetero, casado e eles só transam com camisinha? Eu passei pro Nando, certo. Mas nós não transamos. O cliente dele se infectou também. E a mulher do cliente. Isso está acabando com tudo. Tipo, não é pior que a Covid, porque não mata. Mas é feio e parece que é só a gente. É muito doido. Não é preciso transar pra passar e não adianta meter camisinha. Passa igual. Até cair as cascas das feridas é a treva.

O Mpox atravessou alguns interlocutores de meu campo. Tive interlocutores infectados e os impactos foram imediatos. Penso que os efeitos psicológicos foram mais graves que os efeitos físicos. A doença não vitimou nenhum deles, embora casos isolados de mortes tenham sido divulgados pela mídia. A conversa que tive com Dagoberto, o primeiro interlocutor que me contou que estava infectado pelo Mpox, foi marcada pela incompreensão frente ao surto, pois ele parecia inexplicável. Ao mesmo tempo que atingia majoritariamente homens gays, jovens, com parceiros eventuais e relações sexuais sequenciais e desprotegidas, também atingia pessoas que não tiveram esse tipo de prática, mas apenas contatos próximos (não sexuais) com pessoas que depois descobriram-se doentes. Desconhecer a temporalidade de manifestação da doença, bem como seus efeitos mais primários, fazia com que a exposição à infecção e a transmissão fossem absolutamente involuntárias.

Sobre a temporalidade e os efeitos do vírus, em 1984, conforme apurado por Mileto et al. (2022), a Organização Mundial da Saúde afirmava que em humanos haveria um intervalo que poderia variar de 7 a 23 dias para o começo dos sintomas a partir do contato com o vírus. Em termos de tratamento, era recomendado o isolamento domiciliar a partir da confirmação da infecção e o tratamento dos sintomas. Pomadas para as feridas, remédios para controlar febre e outros sintomas eram prescritos pelos médicos.

No período de 3 a 4 semanas a maior parte das pessoas estava totalmente recuperada e praticamente sem qualquer sequela Brasil et.al. (2022). Em meu campo houve algo nesse sentido. Algumas cicatrizes foram relatadas por alguns interlocutores, sobretudo na região genital. Eram cicatrizes como as de catapora, ou sífilis, conforme me contaram Nando, Dagoberto e Yuri, todos infectados.

Do ponto de vista dos sinais clínicos, tal como apresentados pela literatura (Idris e Adesola, 2023), meus interlocutores reclamaram de febre, cefaleia, calafrios, suor excessivo, mal-estar e erupções cutâneas. Alguns deles também identificaram linfadenopatia inguinal. Eles identificaram que os sintomas começaram pela febre intensa e calafrios com suor noturno excessivo. A elas associara-se cefaleia e linfadenopatia. A seguir perceberam dores musculares e extremo cansaço. A seguir a isso vieram as erupções cutâneas. No entanto, não há uma sequência de sintomas e nem todos os sintomas são identificados nos diferentes casos. Também em meu campo, os interlocutores identificaram que esses sintomas apareceram, em média, 10 dias após contatos sexuais desprotegidos com parceiros eventuais.

O Mpox, ao provocar lesões cutâneas visíveis, inseriu-se em um campo já sensível para os escorts, cuja profissão está intrinsecamente ligada à imagem e à performance corporal. As feridas, conforme narrado pelos interlocutores, não eram apenas manifestações clínicas, mas se tornavam marcas que reforçavam um estigma preexistente, associando a infecção a práticas homoeróticas e, por extensão, a uma moralidade sexual específica. Essa associação não é fortuita; ela se inscreve em uma longa história de patologização de sexualidades não-normativas onde o corpo se torna o palco de disputas morais e sociais.

No contexto do Mpox, o estigma não opera apenas como uma marca de desonra individual, mas como um dispositivo que reativa o que Erving Goffman (1975) define como uma “identidade deteriorada”. Para os escorts, a visibilidade das feridas cutâneas atua como um “signo de reconhecimento” involuntário que desloca o sujeito do lugar de profissional desejável para o de vetor de risco biológico. Essa transição é marcada por uma dupla penalização: a moral, que associa a doença a uma suposta promiscuidade ou “falta de cuidado” inerente às práticas homoeróticas, e a econômica, que inviabiliza o exercício do trabalho sexual pela impossibilidade do contato físico.

Assim, o estigma do Mpox produz uma reconfiguração profunda nas interações. No âmbito social, o medo do contágio gera um isolamento que ultrapassa o período de quarentena clínica, estendendo-se para uma vigilância mútua entre pares e clientes. No âmbito profissional, a “marca” no corpo exige dos escorts novas táticas de ocultamento ou de negociação da verdade, em que a saúde passa a ser um capital a ser provado constantemente. Essa dinâmica revela que o estigma não é um atributo estático, mas um processo social ativo que redefine quem pode circular, quem pode ser tocado e quais corpos são considerados “seguros” ou “perigosos” nas economias sexuais contemporâneas.

Como parecia ser uma doença erradicada na Europa e outros países fora de África, havia pouco ou nenhum estoque da vacina. À medida que os casos foram aparecendo, preocupando as autoridades sanitárias, as vacinas foram compradas e pessoas dessa população que estava sendo mais infectada foram vacinadas. Em poucos meses, os casos arrefeceram e, em meu campo, a imunização foi rápida e geral. Mesmo entre os interlocutores que voltaram ao Brasil, houve a preocupação de voltar imunizado.

Identifiquei que a principal preocupação em relação ao Mpox era com as feridas e com as marcas que elas poderiam deixar. Aliás, eu tenho falado aqui sobre três interlocutores que foram infectados. Mas esses foram os três que me autorizaram a falar a respeito. Eu estive em contato com sete interlocutores que me confirmaram a doença, mas quatro deles não quiseram conversar a respeito. Quem sabe, justamente pelos efeitos sociais da doença naquele instante. Aqueles dois ou três meses em que o Mpox foi pauta em meu campo, foram meses de susto e medo. No entanto, como me disse Dago, de forma bem-humorada: “foi só um susto. Agora eu sou marcado, marcado como escolhido. É a marca da foda de qualidade”.

Para compreender a profundidade desse estigma e a experiência de se sentir “marcado” pelo Mpox, é instrutivo traçar um paralelo com a epidemia de hiv/aids. Na década de 1980 e 1990, o hiv/aids foi amplamente associado a grupos específicos, como homens gays e usuários de drogas injetáveis. O definhamento corporal provocado pela doença tornou-se um símbolo visível do estigma. As lesões e o emagrecimento extremo das pessoas vitimadas pela aids geraram uma onda de desumanização e isolamento social, onde o corpo doente era lido como um corpo moralmente falho.

Considerando as devidas proporções, as feridas do Mpox - na visão de alguns interlocutores infectados pelo vírus - embora temporárias e menos letais, evocariam um sentimento similar de ser “marcado” e de ser alvo de julgamento. As narrativas dos escorts, como a de Dagoberto, que expressa “fiquei marcado, mas podia ser pior. Podia ter ficado na cara. Lá no pinto é uma coisinha só”, ou a preocupação de Yuri com a percepção de que “é outra aids. Todo mundo só fala nisso”, revelam a ressonância histórica e a carga simbólica que essas marcas corporais carregam.

A experiência de ter o corpo alterado por uma doença associada a práticas sexuais específicas reativa memórias e medos de uma era em que a visibilidade da doença significava a invisibilidade social da pessoa. Penso que isso contextualiza o estigma do Mpox, mas também evidencia a persistência de padrões de discriminação e a vulnerabilidade contínua de certas corporalidades em face de crises sanitárias.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este artigo discutiu as reconfigurações do trabalho sexual transnacional realizado por homens brasileiros em Portugal e outros países da Europa, sob o prisma de duas crises sanitárias: a pandemia de COVID-19 e o subsequente surto de Mpox em 2022. Longe de serem eventos isolados, procurei demonstrar como essas emergências se entrelaçaram, forjando uma complexa teia que não apenas exacerbou vulnerabilidades preexistentes, mas também impôs novas dinâmicas de risco, adaptação e agência aos sujeitos da pesquisa.

A análise da COVID-19 revelou um cenário de profunda desestabilização. As medidas de contenção, embora necessárias, desmantelaram as redes de trabalho e as estratégias de mobilidade que sustentavam a economia dos escorts. A escassez de clientes e a desvalorização do serviço evidenciaram a precariedade inerente a essa ocupação. Mais do que perdas econômicas, os relatos de alguns interlocutores sublinham o pesado custo psicossocial da pandemia, manifestado em ansiedade e sofrimento. A resiliência, nesse contexto, não foi uma escolha fácil, mas uma negociação constante entre a necessidade de subsistência e a preservação da saúde física e mental. Há, no entanto, aqueles escorts que também lucraram mais na pandemia, na medida em que tiveram maior exposição.

As medidas de isolamento social, embora necessárias, privaram os escorts de sua principal fonte de renda. Sem acesso a auxílios governamentais (devido à falta de regulamentação e, muitas vezes, à situação migratória), muitos foram forçados a escolher a exposição ao vírus para sobreviver. Suas vidas foram colocadas em risco de maneira desproporcional, revelando a distribuição desigual da precariedade (Moraes, 2024).

A crise da COVID-19 trouxe à tona a questão de quais vidas importam e quais são dignas de proteção. A narrativa pública e as políticas de resposta à pandemia frequentemente ignoraram ou marginalizaram as necessidades dos homens que fazem trabalho sexual. A ausência de uma indignação generalizada pela perda de renda, saúde ou mesmo vida desses sujeitos durante a pandemia reforça a ideia de que suas vidas são consideradas “não enlutáveis” (Butler, 2009). Eles permanecem fora do “quadro” de reconhecimento que define quem é digno de preocupação social. No entanto, como Butler sugere, a própria exposição da vulnerabilidade pode ser um ponto de partida para a solidariedade e a reivindicação política, mesmo que em pequena escala, por meio de redes informais de apoio mútuo (Butler, 2004).

A chegada do surto de Mpox, em 2022, adicionou uma camada de complexidade a um terreno já fragilizado. Ao afetar desproporcionalmente homens que fazem sexo com homens, o Mpox não apenas reintroduziu o medo do contágio, mas também reforçou estigmas e a necessidade de reavaliar práticas de cuidado e segurança. A sobreposição dessas crises sanitárias não permitiu um retorno a um “novo normal” homogêneo, mas sim conduziu a uma realidade marcada por “geografias desiguais” de sofrimento e injustiça, em que as vulnerabilidades estruturais foram expostas e aprofundadas.

As trajetórias dos escorts brasileiros em Portugal e na Europa, atravessadas por essas emergências sanitárias, oferecem um microcosmo para compreender como crises globais se materializam em experiências individuais e coletivas. A agência desses homens, manifestada em suas estratégias de adaptação e resistência, emerge não como um poder ilimitado, mas como uma capacidade de negociação e reinvenção em face de adversidades multifacetadas. A agência, nesse cenário, transcende a noção de livre-arbítrio individual, manifestando-se como uma capacidade de agir e negociar dentro de estruturas de poder e restrições.

Saba Mahmood (2025) inspira a compreender a agência como a habilidade de “habitar” as normas e as precariedades impostas pelas crises. Para os escorts, isso se traduz na criação de microprotocolos de segurança e na renegociação dos termos de encontro, permitindo a continuidade de seu trabalho e a preservação de sua saúde em um ambiente de risco elevado. Essa agência é intrinsecamente tática, operando no espaço de manobra concedido pelas circunstâncias, como o uso de plataformas digitais para triagem de clientes durante o lockdown ou a adaptação de práticas de higiene e cuidado.

A resistência emerge não como um confronto direto, mas como uma estratégia de sobrevivência contínua e multifacetada. Em um contexto de “dupla emergência”, a resistência se manifesta na recusa em ser reduzido a um mero vetor de transmissão, afirmando a dignidade e a autonomia. Essa resistência é uma estética da existência, na qual o homem que faz trabalho sexual reinventa suas práticas de cuidado para proteger não apenas o corpo físico, mas também a viabilidade econômica e a integridade subjetiva frente ao estigma sanitário. A condição migratória dos brasileiros em Portugal adiciona camadas de vulnerabilidade, nas quais a resistência também se configura como um ato político de permanência e reivindicação de espaço em uma geografia de riscos sociais e sanitários.

Por fim, o processo de subjetivação é intensificado pela sobreposição das crises, forçando os escorts a se constituírem como sujeitos em meio a discursos médico-sanitários e biopolíticos. Eles se tornam gestores de riscos complexos, que se entrelaçam com a saúde financeira e a segurança pessoal. O cuidado de si deixa de ser uma imposição externa e se transforma em uma ferramenta de agência, permitindo que esses homens exerçam controle sobre o encontro erótico e reconfigurem as relações de trabalho. Essa subjetividade de crise, na qual o risco é uma constante, leva a uma agência tática que se manifesta na reinvenção cotidiana e na construção de redes de apoio mútuo, demonstrando a resiliência e a capacidade de adaptação dessas pessoas em face de desafios sem precedentes.

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  • 1
    Em uma reflexão anterior, problematizei as masculinidades brasileiras que são demandadas nos mercados transnacionais do sexo, sobretudo em Portugal e outros países da Europa (Passamani, 2025). Discuti, naquele momento, o lugar da racialização das “corporalidades escorts” no interior desses trânsitos sexuais. Mais que uma racialização latino-americana, percebi, sobretudo, masculinidades brasileiras que eu chamei de “sexotizadas” naquelas economias sexuais.
  • 2
    Sobre as questões éticas que envolveram a minha pesquisa, ver Passamani, 2025b.
  • 3
    Ver, em Taniele Rui et al. (2021), algumas iniciativas empreendidas pelas Ciências Sociais voltadas à reflexão sobre a COVID-19 e seus desdobramentos.
  • 4
    Expressão portuguesa que significa “muito triste”.
  • 5
    Nome fictício
  • Declaração sobre a disponibilidade das informações
    O texto integral da tese (da qual este artigo é parte) está no repositório do ISCTE-IUL - Instituto Universitário de Lisboa.

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O texto integral da tese (da qual este artigo é parte) está no repositório do ISCTE-IUL - Instituto Universitário de Lisboa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    23 Set 2025
  • Aceito
    20 Abr 2026
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