RESUMO
Este trabalho apresenta reflexões sobre as relações de crianças e adolescentes geraizeiras com os territórios de suas comunidades, a partir de práticas teatrais e outras formas expressivas. É resultado de pesquisa realizada entre 2019 e 2023, nas comunidades Água Boa 2, Baixa Grande e Moreira do município de Rio Pardo de Minas (norte do estado de Minas Gerais). Estas comunidades vivenciam conflitos socioambientais há mais de duas décadas, uma vez que tiveram seus espaços de uso comum invadidos pelo monocultivo de eucalipto a partir da década de 1970. Aliando etnografia e teatro, com um trabalho de campo em que a participação observante se somou às oficinas de iniciação teatral em cada comunidade, a pesquisa buscou entender como os pequenos habitantes expressam suas relações com seus lugares de morada, em meio a um contexto de luta por direitos territoriais. As análises constatam que são diversas as formas e meios de expressão das territorialidades geraizeirinhas e que experiências propositivas, como oficinas teatrais, podem contribuir para aflorar as percepções dos pequenos sobre espaços de vivência, gerando possibilidades de fortalecimento de seus vínculos com os processos organizativos de suas comunidades.
Palavras chave:
Comunidades Geraizeiras; Crianças e adolescentes; Performances culturais; Teatro
ABSTRACT
This work presents reflections on the relationships of Geraizeiras children and adolescents with the territories of their communities, based on theatrical practices and other expressive forms. This is the result of research conducted between 2019 and 2023 in the communities of Água Boa 2, Baixa Grande, and Moreira in the municipality of Rio Pardo de Minas (northern Minas Gerais state). These communities have been experiencing socio-environmental conflicts for over two decades, since their common-use spaces were invaded by eucalyptus monoculture starting in the 1970s. Combining ethnography and theater, with fieldwork in which participant observation was added to theater initiation workshops in each community, the research sought to understand how the young inhabitants express their relationships with their places of residence, in the midst of a struggle for territorial rights. The analyses show that there are diverse forms and means of expression of the “geraizeirinhas” territorialities and that proactive experiences, such as theater workshops, can contribute to bringing out the children’s perceptions of living spaces, generating possibilities for strengthening their ties with the organizational processes of their communities.
Keywords:
Geraizeiras Communities; Children and teenagers; Cultural performances; Theater
INTRODUÇÃO
Este artigo apresenta reflexões sobre as relações entre crianças e adolescentes de comunidades geraizeiras com seus territórios, a partir de análises de processos de criação teatral e outras formas expressivas como causos, relatos, brincadeiras e caminhadas. O texto sintetiza estudos contidos na tese do autor (Souza 2024), fruto de pesquisa de doutorado em Performances Culturais, ocorrida entre 2019 e 20232 no município de Rio Pardo de Minas (norte do estado de Minas Gerais), nas comunidades Água Boa 2, Baixa Grande e Moreira, cujos estudos foram inspirados na experiência realizada no ano de 2016 na comunidade de Sobrado3.
Essas comunidades vivenciam conflitos socioambientais originados pelos monocultivos desordenados de eucalipto, implantados sobre suas áreas de uso comum desde a década de 1970. A escassez hídrica e a interrupção do acesso àquelas áreas são alguns dos impactos causados por esses empreendimentos, que levaram as comunidades a profundas rupturas com seus modos de vida tradicionais (Nogueira 2017, Souza 2017). A pesquisa se situa num contexto em que os geraizeiros acumulam décadas de luta pela retomada territorial, restauração ambiental e reconhecimento identitário enquanto comunidades tradicionais4. A partir de meados da década de 2000, elas passam a protagonizar enfrentamentos diversos através de protestos, paradas de máquinas, processos de autorreconhecimento e autodemarcação territorial, dentre outros, em defesa de direitos que viessem a reverter o histórico estado de invisibilidade social ao qual foram sujeitadas (Souza e Sauer 2020). Como geraizeiro, pude participar de várias destas ações, o que favoreceu a aproximação com as comunidades para a realização desta pesquisa através do contato com lideranças.
O que se percebe é que as crianças e adolescentes dessas comunidades - aqui chamadas de geraizeirinhos/as5 - além das vivências comunitárias em situações cotidianas e tradicionais, como festividades, reuniões de associações e eventos religiosos - no caso, de base católica - participam desses processos de enfrentamentos, o que lhes proporciona uma maior diversificação das possibilidades de interação com o território. Tais experiências, a meu ver, promovem uma espécie de aprendizado territorial, capaz de alimentar um repertório, enquanto memória incorporada (Taylor 2013), de saberes e percepções do lugar, que podem reverberar em performances diversas, como as que busquei investigar: teatrais, contação de causos, caminhadas, brincadeiras, dentre outras.
O sentido de performance aqui desenvolvido vai ao encontro de perspectivas que percebem os atos performáticos enquanto processos capazes de gerar transformações, sejam individuais ou sociais, transitórias ou permanentes, tanto em quem os executa como em quem os assiste (Turner 2008, Schechner 2011). Alinhadas ao sentido de experiência abordado por Ingold (2010), para quem os mecanismos de aprendizagem e geração de significados envolvem interrelações entre corpo, mente e ambiente, as análises constatam que os processos criativos vivenciados e as performances executadas, além de expressarem territorialidades próprias dos pequenos, demonstram capacidade de proporcionar a eles um aprofundamento dos vínculos com as lutas de suas comunidades.6
Já a noção de território aqui é entendida enquanto resultado de processos de territorialização (Almeida 2008), ou seja, como “produto histórico de processos sociais e políticos” (Little 2003, 253). Nessa perspectiva, a construção do território passa pela ação histórica de um grupo humano em seus modos específicos de ocupar, usar, controlar e se identificar com determinado espaço geográfico, estabelecendo com ele relações não só de ordem material, econômica e jurídica, mas também sensoriais, sentimentais, afetivas, simbólicas e cosmológicas (Little 2003, Almeida 2008). Interligado a essa construção territorial comunitária, desenvolvo a discussão da produção e expressão das territorialidades geraizeirinhas a partir da constatação das relações afetivas que as crianças estabelecem com o espaço, compreendendo-o como lugar, no sentido proposto por Tuan (1980).
No percurso teórico-metodológico, lancei mão de diversas perspectivas que aqui culminam no que estamos chamando de etnografia performativa (Souza, Hartmann e Nogueira 2021; Hartmann, Sousa e Castro 2020). Esta é uma proposta que surge a partir do diálogo com propostas metodológicas como a do etnoteatro (Salgado 2011, 2013), da etnografia propositiva (Hartmann 2017) e da pesquisa performativa (Haseman 2015)7.
Para Salgado (2011), ao propor a unificação entre etnografia e teatro, o etnoteatro seria um meio de pesquisa que possibilitaria traduzir e dramatizar investigações sobre a vida social e cultural de um determinado grupo, sendo executado por seus próprios membros. Em sintonia com essa perspectiva, Hartmann (2017) aponta o caráter propositivo que uma etnografia pode assumir, visto que, para além da observação, é capaz de gerar situações criativas a partir do desenvolvimento de uma escuta verdadeira e sensível, que corresponderia mais concretamente ao protagonismo infantil. Quanto aos processos investigativos referenciados pela pesquisa performativa, Haseman (2015) sugere a possibilidade do desenvolvimento de reflexões a partir de atividades práticas, tendo estas como ponto de partida para o processo de pesquisa. Isto abre possibilidades para outras formas de apresentação dos resultados para além do texto escrito ou em conjunto com ele - como no caso aqui, uma apresentação teatral.
As atividades de campo foram compostas por oficinas de iniciação teatral e mostras de resultados cênicos, aliadas a caminhadas e à “participação observante” (Souza 2020) com encontros com moradores e vivências em eventos organizativos, religiosos e festividades. Contribuíram com as reflexões breves memórias de minha infância e juventude pelos territórios dos Gerais, notadamente na comunidade Sobrado, de onde se originou minha família, o que baseia minha autoidentificação enquanto geraizeiro.
A realização das oficinas, que contaram com uma carga horária de aproximadamente 40 horas cada, tinha o intuito de ampliar e aprofundar a experiência ocorrida em Sobrado, onde ministrei uma oficina de iniciação teatral com crianças do lugar anteriormente. Esta deu origem ao esquete “Salve, salve nossa terra!”, que conta a história de luta da própria comunidade pela retomada territorial e proteção ambiental do lugar. É importante notar que grande parte dos trabalhos ocorreu durante a pandemia do COVID-19, o que levou à necessidade de adequações das atividades tendo em vista os protocolos de segurança. Nas próximas partes deste texto, faço breves relatos e análises das experiências ocorridas em cada uma das comunidades estudadas.
EM BAIXA GRANDE, GERAIZEIRINHOS BEM OCUPADINHOS ACHAM TEMPO PARA ENCENAR A COMUNIDADE
Baixa Grande dista 25 quilômetros da sede urbana do município de Rio Pardo de Minas e, dentre as comunidades aqui referidas, era a que eu menos tinha contato. Foi em meados do ano de 2017, quando apresentávamos o esquete “Salve, Salve nossa Terra” em algum evento no STTRRPM8 que, ao final, uma liderança da comunidade me perguntou se seria possível realizar uma oficina com as crianças de lá. “Estamos criando um grupo cultural lá”, justificou ela o pedido, argumentando que o trabalho poderia fortalecer a organização da comunidade. A oportunidade para tal veio a surgir alguns anos depois, durante o doutoramento, entre fevereiro e agosto de 2021.
Eu não tinha em mente uma forma alternativa definida de como realizar uma oficina teatral em meio a uma pandemia. A ideia de um trabalho por via remota foi logo descartada, já que muitas das crianças interessadas não tinham acesso a aparelho de celular ou à internet, como disseram as mães durante uma reunião sobre a proposta. Foi por sugestão delas mesmas que chegamos à conclusão de realizar os encontros de quinze em quinze dias, com no máximo uma hora e meia de duração e de modo que meu papel, a cada dia, seria basicamente o de repassar atividades individuais para serem apreciadas e discutidas no encontro seguinte. Frequentaram cerca de quinze crianças e adolescentes, com idades entre sete e quinze anos.
Logo depois do segundo encontro, tivemos que interromper os trabalhos por 54 dias devido à instituição da “Onda roxa” no município, a fase mais restritiva de prevenção ao coronavírus até aquele momento. Com a retomada dos encontros quinzenais, realizamos mais cinco encontros até início de julho daquele ano, quando os participantes começaram a alegar dificuldades de agenda, ora devido a atividades domésticas, ora devido a compromissos comunitários. Com tantas pausas, o ritmo e o fluxo das atividades ficaram comprometidos. Os repasses de atividades, por exemplo, para funcionar, dependiam de certo grau de autonomia dos participantes, o que não tivemos condições de desenvolver. As dinâmicas, realizadas de modo adaptado para evitar contato físico entre os participantes, geravam pouco efeito na integração e no envolvimento do grupo.
Após a finalização de um desses encontros, três participantes permaneceram no salão por mais um tempo e resolveram desabafar comigo algumas questões relacionadas ao andamento dos trabalhos. Dois deles, Pêu e Kêu9, falaram da falta de compromisso de muitos. Tata, demonstrando timidez, introduziu outra questão: “Olha, eu não ia falar, mas eu quero falar uma coisa...”. “Fala criatura”, encorajei-a diante de suas pausas e ela continuou: “Eu não entendo nada de teatro, quem sou eu? Mas eu acho que você devia pular umas partes. Tem gente desanimando com os exercícios”. Ela se referia aos constantes alongamentos, dinâmicas e jogos de aquecimento que eu sempre propunha no início dos encontros.
De fato, a metodologia adotada parecia não ser adequada para contornar as dificuldades de fluxo das atividades, ainda que tenhamos conseguido desenvolver momentos criativos com cantorias, contação de histórias, jogos teatrais e dinâmicas corporais. A partir da observação de Tata, avaliei então se deveria ir mais direto à criação de cenas, ao invés de ficar contando que eles tragam algo de casa. A escuta de crianças e adolescentes participantes desses processos, pretensamente “verdadeira” e “sensível” (Hartmann 2017), se faz importante tanto para compreendê-las melhor, quanto para repensar a metodologia, o que contribui para fortalecer uma atitude protagonista das mesmas no seio da pesquisa.
Em dado momento, durante a interrupção do mês de julho, uma liderança religiosa da comunidade me indagou se não seria possível montarmos uma apresentação para a noite cultural da “Semana da Família”, um evento religioso organizado pela Pastoral Familiar, a ser realizado em meados de agosto. Entendendo que poderia ser uma oportunidade para reanimar o grupo, resolvi conversar com eles sobre a proposta, o que veio a ocorrer durante um evento de pesagem da Pastoral da Criança, para o qual alguns deles estavam colaborando. Eles manifestaram interesse pela peça, mas questionei sobre a dificuldade que estavam tendo com agendamentos, ainda mais com o curto espaço de tempo que teríamos para a organização. Nesse ponto, disse Pêu que “você tem que impor a data e pronto, se não o povo vai ficar enrolando”, referindo-se à minha constante prática de em quase tudo ficar perguntando o que achavam, incluindo as datas para encontros. Na sua visão, eu poderia ser mais impositivo em algumas situações. Surgiu também outra questão que me faziam desde o início dos trabalhos: “O quê mesmo iremos apresentar?”. Em resposta, eu procurei manter viva a ideia de construção coletiva. Tata retrucou, dizendo que certa vez fizeram “uma peça em três dias, só que ele (o organizador do trabalho) chegou com a peça pronta.” Pêu reforçou: “não damos conta de montar sozinhos”.
Essas falas, ditas de forma muito firme, me fizeram refletir sobre o significado da autonomia e do protagonismo dos participantes. Como eu poderia então agir de modo a garantir o desenvolvimento da independência criativa deles, diante de uma postura tão resistente ao processo de criação coletiva? De todo modo, compreendia que essas resistências diziam muito sobre seu modo de ser. Elaborar cenas, criar textos, etc., de modo autônomo, não seria algo da vivência deles - um modo de ser reforçado por experiências anteriores, quiçá costumeiras, cujas metodologias geralmente não partiam da criação coletiva.
No encontro seguinte, em trabalho de mesa, estimulei-os a levantarem propostas de dramaturgia. Apesar da insistência de alguns com o texto pronto, vivenciamos momentos em que puderam propor temas e situações cênicas. Quanto à decisão deles de que a peça devia falar sobre questões familiares (as lideranças que propuseram a apresentação não indicaram obrigatoriedade de centralidade nesse tema), veio com a consciência de que tínhamos que começar o trabalho do zero, mesmo com tão pouco tempo para criação e ensaios. Aquela decisão, para mim, demonstra o zelo que eles tinham em relação aos eventos comunitários, principalmente religiosos.
Para suscitar ideias, ainda à mesa, sugeri que falassem sobre os problemas familiares que mais observavam na comunidade ou arredores. Pêu falou que “tem muita mentira” que há pessoas que “são intrometidas demais, tem muito fuxico, o povo é farrista demais”, referindo-se às constantes fofocas que testemunhava. “Tem muitas fakes”, reforçou outra. Depois falaram sobre questões como traições, alcoolismo, agressividade, desunião, briga sem reconciliação, falta de atenção com os familiares, falta de Deus, desobediência, teimosia, falta de respeito, etc.
Percebe-se, nessas indicações, tanto uma visão sobre valores, crenças e saberes da coletividade como um todo, quanto manifestações que parecem friccionar tabus, como falas francas e indignadas sobre a fofoca e supostas intromissões na vida uns dos outros. Como me explicaram, não é um tipo de denúncia que fariam em situações mais formais, nem é assunto em debate corriqueiro no seio da comunidade, pelo menos de modo aparente. Essas percepções e dados que expressaram sobre a vida comunitária, que tiveram mais dificuldades de surgir nas etapas anteriores da oficina, brotaram nesse momento de maneira mais espontânea e detalhada. É provável que a concretude da proposta de apresentação, ainda mais num contexto de evento comunitário, tenha estimulado tal desenvoltura.
Com aquele leque de possibilidades temáticas, eles se dividiram em três duplas de meninas e um trio de meninos para elaborarem situações cênicas a partir dos tópicos que escolhessem. A equipe dos meninos escolheu o tema do alcoolismo associado à agressividade. As meninas escolheram falta de atenção intrafamiliar, fofoca e desavenças entre irmãs. Após eu os ter auxiliado na construção de situações, partiram para a criação das cenas propriamente ditas através de improvisos e da elaboração prévia de diálogos. Mesmo diante do trabalho se desenrolando, lá veio Tata novamente insistindo no texto pronto, apresentando alguma ansiedade devido aos poucos dias que tínhamos até a apresentação. Pedi então que apresentassem para mim, ainda que de forma improvisada, o que tinham produzido. Depois de assisti-las, perguntei a elas o porquê de tanta resistência à criação das próprias cenas e do texto, já que, como enfatizei, a proposta apresentada era muito promissora. Eram excelentes atrizes e, a meu ver, a cena estava forte e convincente. Completei que o texto poderia ser praticamente o que saiu na improvisação, ao que pude perceber no rosto de Tata, como reação, um semblante de satisfação e alívio, assim como no de sua parceira, Ane.
A partir das propostas apresentadas, no próximo encontro trouxe o texto organizado em três cenas principais, que representam os blocos temáticos mais destacados pelos participantes. A primeira é a cena do bar, proposta pelos meninos, na qual mantivemos os aspectos do alcoolismo e da agressividade intrafamiliar, principalmente contra a mulher e as crianças. Na segunda cena, trabalhamos a dimensão da fofoca, que cumpre também a função narrativa e de ligações entre as cenas. A última é a das irmãs, que foca em divisões conflituosas de herança e na relação entre pais e filhos.
A apresentação ocorreu no dia 14 de agosto, durante a noite cultural. O evento teve início com o culto, seguido do jantar - que tinha farofa, arroz e frango cozido. Com o salão já preparado, reuni-me com os atores num canto do pátio para uma breve concentração. Fizemos a oração do Pai-Nosso e, depois do grito “um, dois, três, MEEERDAAAA!”, fomos para o salão, com algumas das meninas muito entusiasmadas, dizendo que a parte do “Merda” foi o melhor de tudo até ali.
Dentro do salão lotado, conforme combinamos, anunciei a peça como um ensaio aberto e que duraria em torno de dez minutos. Ela se inicia com a cena do bar, com duas meninas, uma representando a dona do estabelecimento e a outra uma cliente - que substituíram dois meninos desistentes - e os meninos Pêu e Som, ambos representando Tião e seu filho Tiago, respectivamente. O conflito se dá com a chegada de Tião que, após vários goles, se altera abruptamente com a chegada de Tiago, que o chamava a pedido da mãe. Aquele então, aos gritos, corre atrás do filho, ameaçando de espancamento, ele e sua mãe. Logo após entram as fofoqueiras, que narram violentos acontecimentos que se seguiram com a família de Tião, seguido por uma breve introdução da cena das irmãs.
A cena começa com Julia, representada por Ane, cortando verduras, quando entra sua irmã Juliana, representada por Tata, que acabara de chegar de viagem. Esta, com tom ameaçador, joga as malas ao chão e começa o diálogo, questionando Julia por se achar no direito de ficar com a melhor parte da herança:
- Quer dizer que você e seu noivinho estão querendo ficar com a parte da casa e a da terra de plantio?
- Noivinho não, viu, é noivo, e não mete ele nessa história. E a terra lá de baixo também é boa pra plantio… (Juliana ri). Por que você está rindo?
- (ainda rindo) Nada, vamos ao que interessa. A terra que você fala, a de lá de baixo, é bem mais longe da estrada, né, maninha?
- Mas dá pra dividir de acordo, é só compensar pelo tamanho (Souza 2023, 217).
O diálogo se desenrola com desacordos sobre a divisão da terra, menções sobre a falta de atenção com os pais por parte da filha que emigrara e insinuações desta sobre o jogo de interesses do noivo da outra. A cena finaliza com Juliana pegando as malas e saindo à procura de seu quarto, enquanto Julia permanece em cena desolada e receosa de que as coisas possam não ocorrer como planejava. Não foram propostos desfechos para nenhuma das cenas, até porque nos contentamos, dentro do que demos conta, em apenas apresentar e desenvolver os conflitos familiares sugeridos pelos participantes.
Dentre os comentários da plateia, durante o bate-papo após a apresentação, uma liderança se entusiasmou com o que ocorrera com Som, um menino que, de tão calado, muita gente até pensava que era mudo como me disseram depois, mas que deu seu texto normalmente durante a peça. Num momento posterior, quando os presentes já davam continuidade às festividades com bingo, fogueira e beiju feito na hora, fui abordado por sua mãe que, emocionada, me agradecia pelo ocorrido. Em outras comunidades onde realizei o trabalho, percebi que para os moradores é muito importante que crianças e adolescentes vençam dificuldades em se expressar, destacando que o teatro teria ajudado em casos de desinibição. Mais de uma vez ouvi lideranças de Sobrado enfatizarem que certo participante da oficina era muito tímido, e agora “tá pra frente, fazendo até leitura na hora do culto”.
Acredito que o processo da oficina como um todo se desenrolou atrelado ao jeito de ser dos participantes em suas relações com a comunidade. Durante o processo, foi possível perceber que são muito atarefados, principalmente com afazeres domésticos e na colaboração com a organização da catequese, cultos, rezas, missas, Pastoral da Criança e festividades. “São elas que fazem as festas”, me disse certa vez uma liderança, quando lhe perguntei como se dava a participação das crianças nesses eventos. Ser ativo e participativo na comunidade é frequentar e protagonizar eventos e espaços organizativos promovidos pelos moradores, incluindo os religiosos. Como diz Cruz (2017, 32), “o ajudar é entendido pelas crianças como uma forma de participar das atividades que ocorrem na comunidade. Ajudando, as crianças aprendem as responsabilidades e valores da família e do território”. Isso reforça os laços de pertencimento ao lugar, à comunidade, seus movimentos e à identidade coletiva.
Os valores e saberes locais, apreendidos a partir desse vínculo comunitário, são formadores de um repertório cultural incorporado (Taylor 2013) e podem ecoar em situações abertas à expressão dessas percepções sobre a comunidade, como foi o caso em momentos chave de construção do esquete. Isso denota uma aproximação com o etnoteatro enquanto um “espelho cultural” do grupo investigado que, ao realizar uma “autobiografia coletiva”, recria e redefine a identidade enquanto performances, sendo capaz de renovar o sentido de si, como diz Salgado (2013). Para este autor, o etnoteatro viabiliza um “fórum democrático” que se abre a discussões e reflexões sobre áreas confusas da realidade sociocultural do grupo investigado, sendo capaz de fazer vir à tona elementos da cultura que possam estar sendo suprimidos - quem sabe não seria este o caso das fofocas, ou o do menino Som?...
DOS COLOS DAS MAMÃES GUERREIRAS AO PALCO: EM ÁGUA BOA 2 A MENINADA QUER O CERRADO EM PÉ
Meu envolvimento com a comunidade de Água Boa 2 se iniciou em eventos como a Romaria do Areião10 e contatos com moradores e lideranças em outros espaços organizativos. Na localidade, que fica a 18 quilômetros da sede municipal, a apresentação da proposta de oficina aos moradores foi realizada em fevereiro de 2020, em uma reunião da COOPAAB11. Durante o encontro surgiram reflexões sobre a importância das crianças para a vida comunitária. Enquanto algumas brincavam pelo salão, uma moradora comentou: “nossas reuniões são sempre assim, participativas e com a presença de crianças”, atestando a importância delas nesses momentos organizativos.
Refletindo sobre o papel delas na defesa do lugar e de sua memória, um morador disse que: “se deixar as crianças como estão, daqui a pouco não vão saber de nada da comunidade, vão ficar só no vídeo”. Para ele, as crianças de um modo geral estavam condenadas a aprender sobre a comunidade apenas aquilo que estiver registrado nos meios eletrônicos, sem o contato físico e sem a tradição da oralidade. Outra moradora defendeu a ideia de realizar projetos que façam sobressair a visão das crianças sobre as coisas. Uma liderança completou que “as crianças perderam o lugar de fala, foram podadas de falar disso (dos conflitos socioambientais da comunidade) na escola”, referindo-se ao fato de que elas chegaram a propor uma discussão na escola sobre esse tema, o que foi rejeitado pela direção escolar (Souza 2023).
Em março de 2020, a pandemia do COVID-19 se instaurou no Brasil, impedindo meu retorno à comunidade naquele momento. Somente em meados de 2021, quando finalizava a oficina em Baixa Grande, é que fui recomeçar os trabalhos. Nesta época, os moradores já discutiam a possibilidade de realização de alguns eventos, como a Romaria do Areião, que seria a nona naquele ano e ocorreria no dia 3 de outubro. Na ocasião, ao me convidar para participar da Romaria, uma liderança me indagou sobre a possibilidade de montarmos uma peça teatral com as crianças do lugar, para ser apresentada durante o evento, o que vi como oportunidade de realizar a oficina.
Os trabalhos ocorreram entre agosto e outubro daquele ano, tendo participado oito meninas, com idades entre cinco e catorze anos, e seis meninos, entre oito e catorze anos de idade. Os encontros foram realizados com uso de máscaras, mas tiveram maior tempo de duração e sem maiores interrupções, diferentemente do que ocorrera em Baixa Grande. Já depois de alguns encontros, durante uma conversa sobre possibilidades de montagem para apresentação, as meninas mais novas sugeriram temas como Chapeuzinho Vermelho, histórias de princesas, de unicórnios, ou algo da Marvel. Eu disse que poderíamos sim aproveitar qualquer uma daquelas opções, mas não havia unanimidade quanto a nenhuma delas entre o grupo. Sugeri então que trouxessem outras possibilidades no próximo encontro e que não deixassem de considerar fatos ou causos da própria comunidade.
No encontro seguinte, Dan, filha de uma das lideranças locais, me entregou uma folha de papel de caderno contendo um texto à caneta, escrito por sua mãe, intitulado “História da comunidade de Água Boa 2”. O texto resume a história local, desde suas primeiras ações na organização religiosa até os enfrentamentos mais recentes contra a destruição ambiental e a conquista da área de reserva12. Depois da leitura em voz alta feita pela própria Dan, sugeri que formassem grupos para construírem propostas cênicas. Os dois grupos formados manifestaram o desejo de contar algo sobre a comunidade, contudo não sabiam exatamente o quê nem como o fariam. Diante do impasse, apontei várias possibilidades, dentre elas a parada de máquinas realizadas pelas mulheres da comunidade no alto do Areião, ideia a qual as crianças acolheram de pronto, tornando-se a célula principal do enredo.
Com o tempo já bastante curto até a apresentação, no encontro seguinte levei uma prévia do texto impresso, construído com base nos improvisos das crianças, e começamos os ensaios. O esquete, que dura em torno de oito minutos, recebeu o nome de “O Cerrado é nosso lar” e sua estreia ocorreu no momento de finalização da Romaria, após peregrinação de ida e volta ao Areião, missa, reflexões e cantorias, em uma manhã ensolarada de domingo. Logo após o almoço, já no salão, chamei os atores para uma concentração em um quartinho ao fundo, entre o salão e a igreja, onde fizemos a oração do Pai-Nosso e gritamos um sonoro “MERDA”, e demos início à apresentação.
Ela começa com os atores caminhando, individualmente, do fundo da cena até a frente, onde dão forma com o corpo a um “pé de árvore”13 típico do Cerrado e diz o nome da planta representada, tendo cada um escolhido a sua durante os ensaios. Quem entra primeiro é a “cagaita”, seguida pela “mangaba”, “rufão”, “Araticum”, “Veludo”, “Araçá”, “Murici” - esta sempre arranca risos da plateia, por ser a mais nova e menorzinha de todas, o que se associa com o tamanho também pequeno do fruto representado. Depois entram a “Morcegueira”, “Conde” e “Pequi” e, por último, os tratoristas e todos passam a declamar um poema que fala sobre os conflitos da comunidade14. Em seguida, os tratoristas dão início ao desmatamento, com cada um de um lado da cena arrastando uma corda com os pés, conectada entre eles, que simboliza os correntões afixados nas traseiras dos maquinários utilizados para esse tipo de trabalho. A derrubada da mata é representada pelas “crianças árvores” deitando-se ao chão com a passagem da corda por debaixo de seus pés. Em seguida, algumas das árvores caídas se transformam em um grupo de cinco mulheres que, sentadas ao chão, conversam sobre um assunto qualquer, até que chega outra apavorada, iniciando o diálogo:
- Gente, cês tão sabendo do que tá acontecendo lá na chapada?
- Não, o que é, cumade?
- Estão desmatando tudo.
- Mas quem é que está fazendo isso?
- Aquele mesmo empresário da cidade.
- Mas na chapada não pode desmatar não, senão vai acabar de vez com nossa água.
- Precisamos fazer alguma coisa.
- Vamos ter que subir lá e falar pra parar.
- E se não parar, a gente entra na frente das máquinas.
- Minha Nossa Senhora! Isso é muito perigoso. Os homens deviam estar aqui.
- Não dá pra esperar eles chegarem, estão todos na panha de café.
- Então somos só nós mesmas, vamos?
TODAS - Vamos, vamos... (Souza 2023 p. 162)
A cena continua com as “mulheres” iniciando a marcha da subida pelas encostas da serra até o local do desmate, o que é representado pelas meninas rodeando as outras árvores, ainda caídas, cantando “Irá chegar, um novo dia, um novo céu, uma nova terra, um novo mar... e nesse dia, os oprimidos, numa só voz a liberdade irão cantar...”15. No local do destino, elas travam uma discussão com funcionários da firma, os tratoristas que, vendo a disposição das mulheres em não desistirem, encerram as atividades de corte quando tentavam derrubar o pequizeiro16, também representado por uma das atrizes. A peça acaba com os atores rodeando e abraçando coletivamente esta última árvore e cantando a música “Andorinhas”17.
Ao final da encenação, moradores e lideranças destacaram a importância das crianças contarem a história da comunidade. Mães orgulhosas, uma chegou a dizer: “a gente fica toda toda com essas coisas” e destacou a capacidade de sensibilização das crianças. Para o Padre, trabalhos como esse possibilitam que elas deem continuidade à luta da comunidade. Uma das moradoras, em outra apresentação da peça18, lembrou que algumas daquelas crianças estavam nos colos de suas mães quando estas subiram as encostas da chapada do Areião para frearem os desmates e agora estão contando uma história que elas também participaram. Isso demonstra que a performance encenada se trata de (re)vivências adultas e também (re)vivências dos infantes.
Em Água Boa 2, surtiu bom efeito a estratégia de começar com antecedência a criação de cenas, como me alertara Tata em Baixa Grande. Suspeito que um tempo prolongado com preliminares (exercícios, treinamentos, alongamentos, dinâmicas, etc.) possa, de fato, comprometer o interesse de parte do grupo. Reflexões como estas, que surgem durante experiências concretas, demonstram como a escuta das crianças contribui para viabilizar seu protagonismo (Hartmann 2017) e como a prática em si proporciona mudanças nos rumos do próprio trabalho, reorientando metodologias, significados e ações (Hasemann 2015).
Essas cenas remetem às relações espaciais, conforme apontadas pelas geografias das infâncias (Janer 2008), e condensam diversos aspectos das relações tradicionais territoriais locais, como as de parentesco, do senso de coletividade, do cuidado, da prontidão e coragem diante dos desafios socioambientais locais. Como delineado pela perspectiva do etnoteatro (Salgado 2013), essa seria uma forma de ação dramática construída a partir de dados etnográficos e conflitos reais vivenciados pelas comunidades, seguindo uma ótica de valorização dos laços, dos interesses e dos modos de viver comunitários.
O uso que as crianças faziam do espaço em redor do salão, por onde circulavam em momentos de descanso das atividades da oficina, parece ter contribuído para a fluidez e leveza durante os encontros. Na parte dos fundos da casa de sementes - um dos locais que usamos para os encontros -, havia um pequizeiro com um galho que sempre servia de gangorra, principalmente para as meninas. Estas variações de utilização do espaço, seja espontaneamente, seja para executarem atividades propostas, contribuem para o dinamismo nos trabalhos. Não deixa de ser também um contato mais frequente e diversificado com espaços centrais na luta pelo território. Nesse sentido, relacionar-se com os espaços é se relacionar com a luta. Para Lopes (2008), essa relação da criança com o espaço aprofunda sentidos de pertencimento e de protagonismo na construção cultural, ressignificando sentidos de si próprio e do lugar onde se habita - relação esta estabelecida pelo afeto, proporcionado pelo brincar.
CAMINHANDO COM BENTO E DUDA: GUIAS DE OUTRAS TERRITORIALIDADES GERAIZEIRINHAS19
A comunidade Moreira, que também se localiza a 18 quilômetros da sede urbana, eu já conhecia por trabalhos anteriores, como o da pesquisa de mestrado. Nas primeiras conversas com as lideranças sobre a oficina, informaram-me que participaria uma quantidade reduzida de crianças, pois eram poucas as que moravam no território. Para mim, isso não seria problema, desde que o pequeno grupo fosse comprometido. A apresentação da proposta aos demais moradores ocorreu em meados de novembro de 2021, numa manhã de domingo, após o culto da igreja católica. Na ocasião, ratificaram que participariam sete ou oito crianças, contudo, os primeiros quatro encontros, que ocorreram entre novembro e dezembro daquele ano, contaram apenas com dois a cinco participantes.
No primeiro encontro compareceu um total de cinco meninos, de idades entre cinco a dez anos. Ali conheci o Bento, de oito anos, que, em sua apresentação, não se contentou apenas em dizer o nome e o que gostava de fazer (no caso, jogar futebol e andar de bicicleta) e resolveu emendar com histórias de várias quedas e machucados sofridos em suas travessuras, terminando com um “já sofri nessa vida!”, provocando risos de todos. Era um garoto bastante ativo e, assim como outros dois, dado a competições. Em diversas vezes, assim que eu chegava ao salão e não via ninguém, alguns segundos depois surgiam os três pela estrada, correndo numa gritaria estridente, disputando quem chegava primeiro.
Os encontros seguintes continuaram a sofrer desfalques de participantes, incluindo os que vieram no primeiro. Isto comprometeu o fluxo do trabalho e me levou a interrompê-lo momentaneamente, para futuramente articular outra estratégia de mobilização. Por sugestão de um jovem catequista local, passamos a tentar realizar os encontros após as reuniões da catequese, que ocorriam nas tardes de sábado, o que facilitaria a participação das crianças que frequentavam a programação religiosa. Retomamos assim os encontros em maio de 2022 e conseguimos o envolvimento de outros participantes: um menino de 6 anos, duas meninas de 9 anos e outra de 10. Contudo, dos que participaram anteriormente, apenas um frequentou nesta etapa.
Prosseguimos com os trabalhos procurando desenvolver uma proposta da comunidade, que seria envolver as crianças do teatro num trabalho conjunto com o grupo de Folia de Reis local. Com esse formato, conseguimos realizar somente um encontro, que foi marcado por cantorias e uma boa conversa entre o grupo e as crianças. Mas as dificuldades de frequência dos participantes permaneceram, impossibilitando a continuidade da oficina na comunidade.
Todavia, no último encontro do ano de 2021, em dezembro, transcorreu uma situação significativa nos aspectos metodológicos da pesquisa. Na ocasião, compareceram apenas os meninos Bento e Duda, este de 10 anos. Depois de alguns minutos, quando vimos que não iria comparecer mais ninguém, ao invés de realizarmos o programado para a oficina, pedi a eles que me mostrassem lugares da comunidade de que mais gostavam. Bento, a princípio, disse que não tinha nenhum e Duda falou que gostava muito da barragem e se animaram então em me guiar até lá.
Bento, passando à frente de Duda como guia, explicou que para ir até a barragem, daria para cortar caminho por um terreno de um particular. Perguntei se o dono não se importaria, ao que Bento respondeu “pode ser que sim”. A naturalidade com que ele pronunciou tal resposta me espantou, já que, como ele mesmo havia relatado, alguns ladrões tinham invadido aquele terreno há pouco tempo. Tentando fazê-lo abandonar aquela ideia, eu disse que não haveria problemas em irmos pela estrada mesmo, já que nem era tão longe assim - a distância do salão até a barragem não chega a dois quilômetros. Duda não opinou e, devido à sua personalidade mais sossegada, parecia preferir ir pela estrada também.
Seguimos com Bento contando suas histórias e mostrando os lugares que costuma explorar, sozinho ou em grupo, como o local de encontro da equipe de pedalada, um espaço semiaberto no meio da mata, há alguns metros da estrada. Depois me mostraram uma cacimba onde o Bento contou a história de um tombo de bicicleta que levara ali. Seguimos para a barragem e, enquanto eu e Duda andávamos pela estrada normal, Bento procurava sempre fazer caminhos alternativos, adentrando-se por trilhas do outro lado das cercas de arame que separam as mangas da estrada. Acabou furando o pé com espinho em um desses caminhos. Nada grave, apesar do grito de dor no momento, que logo se abrandou, mas não tive como conter o riso ao lembrar que, em todas as histórias do Bento, sempre tinha o fato dele conseguir algum ferimento.
Assim que chegamos à barragem, sem demora Bento resolveu subir a encosta do morro do outro lado da estrada, por onde, como dissera, teria uma visão melhor - mania, como a minha desde a infância, de ficar escalando coisas, como rochas, paredes e árvores. À medida que andávamos, ele fazia-me lembrar de mim mesmo quando tinha idade próxima à sua, já que eu também era dado a estripulias. Comecei a desbravar esses recantos dos Gerais subindo e descendo o rio no fundo de casa, na cidade, depois alcancei lugares mais longínquos, como trilhas e cachoeiras de Sobrado, depois as de Serra Nova, um distrito local e outros mais. Quem sabe não foi por conta dessas aventuras a origem do apreço que tenho hoje pelo Cerrado da região?
Com essa breve caminhada, foi possível perceber outras dimensões das relações das crianças com o lugar, mesmo que em tão curto momento (não durou mais do que uma hora e meia). Para além de falar sobre os lugares de que gostavam de ir ou coisas para fazer, percorrer os espaços fez reviver memórias das crianças, suas aventuras, outros lugares que têm sentido para elas. Percebo que a liberdade que têm para circular pelo território é fundamental nessas relações, sendo capaz de gerar memórias e significados: um cantinho escondido na mata, como local de encontro do grupo de pedalada, a cacimba onde levou um tombo, o córrego onde gosta de tomar banho, os caminhos alternativos pelos quais desviam das previsibilidades dos adultos...
Em todas as oficinas realizadas (Baixa Grande, Água Boa 2, Moreira e Sobrado), percebia que, de um modo geral, havia certa limitação ou vagueza quando os participantes, a meu pedido, tentavam relatar fatos, causos, histórias ou situações, ainda que banais, que pudessem desvendar melhor suas relações com os territórios. Passei a crer que não devia ser do mundo daquelas crianças ficarem verbalizando facilmente essas coisas, pelo menos daquele modo em que foram estimuladas - seja por uma solicitação direta minha ou durante dinâmicas.
Justino (2021) demonstra como pôde descobrir diversas facetas do bairro onde pesquisava, em Cabo Verde, sobre as relações de parentesco e redes de sociabilidade, por exemplo, a partir de caminhadas guiadas por uma criança moradora do local. Para o autor, as crianças seguem lógicas próprias de circulação, diferentemente dos adultos. Estes teriam um “senso mais prático”, tendendo a seguir por caminhos mais objetivos e seguros em suas trajetórias. Diz Justino (2021, 81) que, ao observar o cotidiano das crianças cabo-verdianas, torna-se possível entender “a infância como uma experiência que acontece ‘em movimento’, ou seja, a criança se faz circulando nos espaços, seja brincando, seja realizando mandados - e, nesta circulação, forjando relações sociais” (grifos do autor).
Nas oficinas, por mais que alguns exercícios que eu utilizava buscassem explorar outras possibilidades expressivas, para além da verbalização - como técnicas para ativar sentidos (visão, olfato, tato, audição) e sensações, sentimentos, memórias -, eles esbarravam em alguns limites. As práticas pareciam demandar uma saída dos salões e/ou dos exercícios orientados, caso eu quisesse perceber outras nuances nesse aspecto. As crianças davam sinais de outras possibilidades de relação territorial sempre que gozavam dessa liberdade de circular e explorar cantos, dentro e, principalmente, além das paredes dos salões, ainda mais quando estavam fora do alcance do olhar dos adultos. Isso parece ter base na necessidade que a criança tem de se movimentar.
Emilene Sousa (2014), ao propor uma etnografia dos sentidos, defende que as crianças aprendem e manifestam sobre o mundo através da experiência e não da oralidade. Diz a autora que essa captura do mundo através da experiência gera uma narrativa dessa mesma experiência através das práticas. As crianças Capuxu “aprendem a se tornar crianças camponesas pelos sentidos, isto é, através do corpo. Pela experiência vivenciada pelos campos, com o ambiente e os animais, com a terra e as plantações” (Sousa 2014, 50).
Durante as oficinas, pinceladas dessas vivências surgiam em momentos de pausa ou em situações antes ou após os encontros. Relembro aqui as meninas de Baixa Grande que circulavam de motocicleta pelo território e chegavam à oficina numa algazarra danada, uma gritaria que só no pátio, fazendo abertura de pernas e outras coisas do tipo, e também das crianças em Água Boa 2 que brincavam de gangorra num galho de pequizeiro. São momentos de vivência espontânea no território, que vão gerando situações de afetividade com os lugares. E uma breve caminhada com os meninos de Moreira, guiada por eles próprios, impulsionou, de forma mais viva e detalhada, narrativas de suas memórias no território. Narrativas estas contadas com o corpo em movimento, através da presença física em cada lugar. É o contar uma história (re)vivenciando a experiência.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essas vivências e (re)vivências das crianças através das narrativas demonstram a percepção que têm e produzem dos territórios, o que fortalece a rede de significados e sentidos sobre o lugar em que vivem. Trazendo à tona as posições de Tim Ingold a respeito da aprendizagem infantil, Cruz (2017) aponta que o aprendizado intergeracional não se dá apenas por mecanismos mentais. Há um processo chamado por Ingold (2010) de educação da atenção, na qual ocorre a interdependência entre corpo, mente e ambiente, promovida através da experiência. Como diz a própria autora, “as crianças quilombolas dão sentido ao que fazem em relação com os significados que produzem sobre o ambiente e isso implica diretamente na constituição de uma noção de pertencimento em relação ao território no qual vivem” (Cruz 2017, 35).
Contrapondo toda uma linha de pensamento, que coloca a cognição no centro da capacidade humana de aprendizado, Ingold (2010, 7) assevera “que todo ser humano é um centro de percepções e agência em um campo de prática”. Nesse ponto, penso que seja possível relacionar o sentido de experiência em Ingold (2010) com o de vivência, de Vigotski, trazido por Fernandes e Lopes (2018). Experiências e vivências estas capazes de produção e reprodução cultural, surgidas a partir do próprio enraizamento cultural. Isso forneceria as bases para a (re)interpretação ou (re)elaboração cultural, demonstrando o potencial criativo da pessoa, por meio do qual “fica evidente a forte vinculação entre território e cultura na configuração da localidade considerando um universo simbólico, ancorado nos campos de sentido e significado que os seres humanos constroem na e pela relação com seu espaço” (Fernandes e Lopes 2018, 142). Se, para Lopes (2008), o espaço é central para a configuração das culturas e territorialidades infantis, vemos no caso dos geraizeirinhos, na relação com o ambiente - que se dá a partir do afeto -, os elementos concretos para a definição dos sentidos e significados que vão estabelecendo com o lugar, criando, portanto, territorialidades próprias, capazes de gerar o que Tuan (2008) chamaria de uma Topofilia.
Os processos de construção teatral permitiram às crianças e adolescentes o desenvolvimento de uma expressividade própria sobre suas territorialidades. Isso se deu a partir do momento em que foi dada vazão para que prevalecesse a visão dos mesmos sobre a comunidade ou servisse de base para a elaboração das cenas. Além do mais, por meio dos processos criativos e das performances teatrais realizadas, foi possível perceber a predisposição das crianças e adolescentes para uma atitude artística comprometida politicamente, com contornos estéticos que podem oferecer perspectivas libertadoras. As narrativas escolhidas para virarem cenas demonstram interesse dos participantes pelos valores, saberes e pela realidade das lutas nos seus territórios.
Em Água Boa 2, assim como em Sobrado, os corpos e vozes dos pequenos se prestaram à narrativa dos conflitos vivenciados pelas pessoas do lugar onde moram. As crianças e adolescentes executaram performances de memórias locais que já guardavam em si o peso da dramaticidade, com base numa narrativa real que, por si só, já configura as formas em que se dá o desenvolvimento da territorialidade dos moradores com seu local de morada e de vivência. Os adultos atestam a importância da narrativa sendo contada pelas crianças do lugar, gerando outros significados para a luta. Para eles, o fato de as crianças conhecerem e contarem a história de luta da comunidade contribui para fortalecer e perpetuar o processo organizativo, visto que os pequenos, ao se envolverem diretamente com esses processos, poderão crescer com a consciência da realidade opressora ao seu redor.
Em Baixa Grande, na busca por atender uma demanda comunitária, tivemos um protagonismo adolescente atento aos compromissos e valores coletivos e religiosos, o que é tido como de extrema importância para o modo de vida local e para a coesão coletiva e organização comunitária (Costa 2019). Seus corpos e vozes deram vazão à provocação de questões a partir do que veem como problemas na comunidade, no âmbito familiar.
Em todas essas experiências, percebo a possibilidade da prática teatral, analisada enquanto performance cultural, de ser veículo propulsor de transformações ou mesmo de contribuir para a intensificação de transformações em curso. Isso ocorre seja como espaço de fortalecimento do protagonismo das crianças e adolescentes no seio comunitário, seja como elemento alimentador dos processos de luta. Tais transformações ocorrem tanto em quem executa, quanto em quem assiste, a partir do acontecimento que se dá através da copresença física, como apontam autores como Schechner (2011), Turner (2008) e Langdon (2007) em suas concepções de performance.
Vale ressaltar que tais transformações ocorrem por meio das performances em intrínseca relação com a territorialidade comunitária, já que têm como bases para seu acontecimento os valores e modos de ser comunitários e sua identificação com os processos de defesa do lugar. Entendo que as crianças e adolescentes estão vivenciando o território ao mesmo tempo em que o ressignificam e o modificam a partir de suas capacidades expressivas por diversas dessas formas. Isso ocorre seja interagindo com demandas e costumes existentes na comunidade, como, por exemplo, na participação ativa em eventos religiosos e sociais, seja apontando questões que veem como pontos críticos desses próprios costumes. Enfatizo que essas transformações permeadas pelas práticas teatrais nas comunidades geraizeiras não se dão de forma isolada. Pelo contrário, são deslocamentos que contribuem para fortalecer transformações já em curso, ao mesmo tempo em que decorrem como consequência delas.
REFERÊNCIAS
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- Cruz, Luciana Soares da. 2017. “Eu disse!, aqui é bonito demais! - Ser criança quilombola na comunidade Olhos D’água dos Negros”. Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Piauí.
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Fernandes, Maria L. B., e Jader J. M. Lopes. 2018. “Território, cultura e educação: A configuração da infância em tempo/espaço outro”. Em Aberto 31, nº 101: 133-146. https://doi.org/10.24109/2176-6673.emaberto.31i101.3517
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1
Uma primeira versão deste artigo foi apresentado na 34a Reunião Brasileira de Antropologia, em julho de 2024, com o título “Performances teatrais nos gerais e outras expressões das territorialidades geraizeirinhas”.
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2
Programa de Pós-graduação em Performances Culturais (PPGPC), da Universidade Federal de Goiás.
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3
Oficina teatral ocorrida nesta comunidade durante pesquisa de Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais (MESPT/CDS/UnB). Relatos e reflexões sobre a mesma constam em Souza (2017) e em Souza, Hartmann e Nogueira (2021).
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4
Água Boa 2, Moreira e Sobrado tiveram sua tradicionalidade geraizeira formalmente reconhecida no ano de 2017 e Baixa Grande em 2024.
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5
O termo “geraizeirinhos” foi criado pelo autor para se referir ao público foco da pesquisa, não sendo expressão comumente usada pelos interlocutores.
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6
Este aspecto político das performances comunitárias foi analisado mais propriamente em Souza e Nogueira (2021) e em Souza, Hartmann e Nogueira (2021), sendo associadas à ideia de “Performances de Desencurralamento”.
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7
Para maior aprofundamento sobre Etnografia Performativa, ver Hartmann e Castro (2024) e Hartmann, Vieira e Souza (2025).
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8
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Pardo de Minas
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9
Todos os apelidos dos participantes no texto são fictícios.
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10
A Romaria do Areião é uma peregrinação de 10 quilômetros (ida e volta) realizada anualmente por geraizeiros de Água Boa 2 e arredores, que segue do salão comunitário até o alto da chapada do Areião, lugar símbolo da luta e resistência comunitária, onde ocorreram embates entre moradores e empresas monocultoras. Para aprofundamento, ver Dayrell (2012).
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11
Cooperativa dos Agricultores Familiares Agroextrativistas de Água Boa 2.
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12
Em 2014, foi decretada a criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável “Nascentes Geraizeiras”, que, além de Água Boa 2, engloba dezenas de outras comunidades de três municípios, Rio Pardo de Minas, Vargem Grande do Rio Pardo e Montezuma.
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13
Mantive a expressão “pé de árvore” por remeter ao linguajar local, ao se referirem as árvores em geral.
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14
Meu senhor, minha senhora / Peço licença pra contar / Um tiquim de nossa história / Da luta de nosso lugar / Somos comunidade geraizeira / O cerrado é nosso lar / Precisamos dele em pé / Pra água poder rolar / Dele depende o nosso sustento / Muita coisa tiramos daqui / A cagaita, mangaba e rufão, / lenha, planta medicinal e pequi / Mas aqui chegaram empresários / Que não respeitam a natureza / Pensam só no lucro / Destroem tudo com presteza / Mas sem mata não tem água / E sem água não dá pra viver / Por isso seguimos na luta / Pra nosso território proteger.
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15
Domínio público. Cantiga que faz parte do repertório utilizado pelos militantes durante momentos ritualísticos e que fazem menção às lutas das comunidades.
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16
A cena faz referência ao Pequizeirão, considerado o maior pé de pequi do mundo e é símbolo de resistência do Cerrado para os geraizeiros. Fica na comunidade de Roça do Mato, município de Montezuma/MG. Segundo relatos, durante uma tentativa de seu corte, não tiveram êxito nem com o correntão e nem com motosserra, o que assegurou tempo suficiente até a chegada de geraizeiros locais que impediram a continuação do corte.
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17
Letra e música do compositor Marcus Viana.
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18
“Festa do Trabalhador Rural”, ocorrida na sede urbana de Rio Pardo de Minas, em maio de 2022.
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19
Subtítulo inspirado no artigo “Caminhando com Miguel: Estratégias para a pesquisa com crianças em cabo verde” (Justino 2021).
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Declaração sobre a disponibilidade das informações
Os conteúdos subjacentes ao texto não estão disponíveis em repositórios de dados abertos, salvo alguns trechos que fazem referência a textos de minha própria autoria.
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Editores Associados
Rosana Castro (https://orcid.org/0000-0002-1069-4785).Sara Morais (https://orcid.org/0000-0003-1490-1232).Jose Arenas Gómez (https://orcid.org/0000-0002-2159-0527).Alberto Fidalgo Castro (https://orcid.org/0000-0002-0538-5582).Elisabeth Defreyne (https://orcid.org/0009-0009-2559-0047).
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