Alto e magro, com cabelo louro que, imperceptivelmente, foi se tornando branco, Klaas Axel Anton Wessel Woortmann deixa um grande vazio. Com sua estatura, sua modéstia e seu especial senso de humor, marcou forte presença no que se tornaria o DAN (Departamento de Antropologia), ao se filiar, em 1973, ao então Departamento de Ciências Sociais para a criação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, o exitoso PPGAS da Universidade de Brasília. Era no tempo que habitávamos o Instituto Central de Ciências, o quase quilométrico Minhocão.
Antes disso, entre 1952 e 1956, fez bacharelado e licenciatura em Geografia e História na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1958-1959, seguiu um dos afamados cursos de Darcy Ribeiro no INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos) também no Rio de Janeiro. Concluiu o mestrado em 1969 na Universidade Federal da Bahia. Em 1975, dois anos depois de ingressar na UnB, obteve o doutorado na Universidade de Harvard. Seguiu-se um pós-doutorado (1979-1980) na Universidade de Sussex, Inglaterra. Assim, Klaas Woortmann construiu a formação sólida conhecida por alunos e até invejada por colegas, como eu.
Antes de ressaltar a importância de sua obra escrita, vejamos os depoimentos de duas de suas alunas dos anos 1980 e 1990.
Ter sido orientada por Klaas Woortmann no mestrado foi uma dádiva. Klaas tinha a capacidade de ser rigoroso e generoso comigo, algo importante para uma jovem de 21 anos que se iniciava na vida acadêmica e na pesquisa etnográfica. Tornou-se posteriormente um amigo, e nos encontramos inúmeras vezes na Universidade Federal da Bahia e em congressos da ABA (Lídia Cardel, 8 de maio de 2026, comunicação pessoal).
Lídia defendeu sua dissertação de mestrado em 1992 com o título Os olhos que olham a água: Parentes e herdeiros no mundus camponês. Aos 21 anos, chamava-se Lídia Maria Pires Soares. Hoje, Lídia Cardel, aposentada e colaboradora da Universidade Federal da Bahia, acrescenta: “Klaas deixou uma marca indelével nos seus orientandos”. Isso fica patente no depoimento a seguir.
Tenho doado meus livros. Mas não os que me foram dados pelo Klaas, pois não vivo sem Os Queijos e os Vermes, sem Mulheres no Tempo das Catedrais, sem O Melhor Cavaleiro do Mundo, sem Massacre de Gatos, sem Cátaros e Católicos Numa Aldeia Francesa, sem O Beijo de Lamourette, sem Amor e Outros Ensaios, e sem outros, e outros. Com Klaas quase me tornei uma camponesa medieval; o fascínio de suas aulas me levou a um lugar imaginário, quase onírico, denso de complexas realidades. Foi esse fio ancestral que puxei até as montanhas azuis do Espírito Santo para estudar celibatários pomeranos e italianos. Fui convertida pelo Klaas ... não ao celibato, mas ao pensamento antropológico mais sofisticado, estimulante, respeitoso e acolhedor com os sujeitos de nossas pesquisas etnográficas, fui convertida ao pensamento woortmannariano. Saudades daquelas aulas na sala de reuniões do DAN, que primavam por um espaço horizontal de diálogo, trocas e novas sinapses, nos anos 1980 e 1990. Éramos felizes no século passado (Lélia Lofego, 11 de maio de 2026, comunicação pessoal).
Lélia Lofego defendeu sua dissertação de mestrado em 1991, intitulada O avesso do casamento: uma leitura antropológica do celibato entre camponeses ítalo e teuto-capixabas. Marcante em seu relato é a agilidade estilística com que indica as leituras com as quais Klaas alimentava a imaginação dos estudantes.
Incluo-me no rol de admiradores de Klaas Woortmann, para mim uma das mentes mais brilhantes do DAN e da antropologia nacional. Quiçá o último encontro que tive com ele foi numa aula da disciplina sobre a conquista do outro, que eu ministrei com Luis Cayón em 2016, já no anódino prédio de Ciências Sociais. Do programa constava o seu livro O Selvagem e o Novo Mundo: ameríndios, humanismo e escatologia, publicado pela editora da UnB em 2004. Para discutir essa leitura, chamei o próprio autor. Depois de uma longa ausência do DAN, Klaas compareceu satisfeito, leve, generoso. A nova geração de estudantes, que não o conhecia, teve a oportunidade de saborear a sua profundidade de pensamento e singeleza de apresentação. Momento raro, que tenho o orgulho de ter proporcionado, ao convencê-lo a quebrar a sua solitude de aposentado e encarar, mais uma vez, uma sala de aula. Foi, previsivelmente, um sucesso e um prazer.
Há no currículo de Klaas Woortmann alguns itens icônicos que permanecem na mira dos estudiosos do campesinato e das populações urbanas desvalidas. Das cerca de três dezenas de artigos acadêmicos, destaca-se “Com parente não se neguceia: o campesinato como ordem moral”, originalmente publicado no Anuário Antropológico (Woortmann 1988), e agora na recente coletânea Pensamento migrante: Memória e conhecimento antropológico1. Texto notável pela originalidade, continua mobilizando o interesse dos estudiosos do campesinato. Outro texto notável é “Um único filho não é filho”, que aborda com grande sensibilidade a estratégia das mulheres das camadas pobres de Salvador de ter muitos filhos como meio de sobrevivência. Foi publicado na revista Humanidades, da UnB (id. 1986). Dos seus seis livros publicados, destaco três: o já citado O Selvagem e o Novo Mundo (Woortmann 2004), Religião e ciência no Renascimento (id. 1997), publicado pela Editora da UnB, e A família das mulheres (id. 1987), pela editora Tempo Brasileiro. Os dois primeiros fazem parte de um projeto comum de informar estudantes de graduação sobre a importância do passado para compreender o presente. O primeiro focaliza as transformações do pensamento europeu deflagradas pela descoberta das Américas e pelo encontro com um Outro diferente: as gentes ameríndias. Para isso recua ao Renascimento, quando começa o processo de separação da religião e da ciência, momento de profunda transformação na cosmologia do Ocidente. O segundo livro aborda a aplicação e as consequências dessa separação na conquista do Novo Mundo, através da figura do “selvagem”. Em ambos, Klaas mostra como a erudição é imprescindível para dar à antropologia profundidade e sofisticação. Esses livros são exemplos cabais da necessidade de ir ao passado para compreender o presente.
A família das mulheres baseia-se na sua tese de doutorado intitulada Marginal men and dominant women: Kinship and sex roles among the poor of Bahia. Original e sensível - qualidades já evidentes no artigo publicado na revista Humanidades -, sua análise enfatiza a força social e moral das mulheres no contexto da matrifocalidade vigente nos Alagados de Salvador. A contundência e o pioneirismo dessa interpretação levaram a também saudosa Mariza Corrêa a comentar, em paráfrase, que “A família das mulheres é um dos primeiros trabalhos sobre relações de gênero e Klaas Woortmann, o “criador do feminismo acadêmico!”.
Numa entrevista a Celso Castro, do CPDOC, Fundação Getúlio Vargas, em novembro de 2020, Klaas Woortmann, com seu fino humor, identificou-se como carioca, flamenguista e mangueirense. Exaltou seus mestres, entre eles, Florestan Fernandes e Thales de Azevedo, declarou-se habitante fiel do Brasil, apesar de sua ancestralidade europeia, exibiu uma memória invejável e louvou o momento em que foi convidado para trabalhar na UnB.
Klaas, querido, obrigada pela convivência de décadas pelos corredores e salas do DAN!
Referências
- Woortmann, Klaas. 1986. “Um único filho não é filho”. Humanidades 10: 51-59.
- Woortmann, Klaas. 1987. A família das mulheres Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.
- Woortmann, Klaas. 1988. “Com parente não se neguceia”: O campesinato como ordem moral. Anuário Antropológico 12(1): 11-73.
- Woortmann, Klaas. 1997. Religião e ciência no Renascimento Brasília: Editora UnB.
- Woortmann, Klaas. 2004. O selvagem e o novo mundo: Ameríndios, humanismo e escatologia Brasília: Editora UnB.
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1
Volume organizado por Christine de Alencar Chaves e Guilherme José da Silva e Sá, Editora Phi, 2025, reúne 15 textos dos primeiros números da Série Antropologia, pré-publicação do DAN, iniciada nos anos 1970 e amplamente divulgada no mundo acadêmico.
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Editor-chefe
Carlos Sautchuk (https://orcid.org/0000-0002-2427-2153)
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Editores Associados
Rosana Castro (https://orcid.org/0000-0002-1069-4785)Sara Morais (https://orcid.org/0000-0003-1490-1232)Jose Arenas Gómez (https://orcid.org/0000-0002-2159-0527)Alberto Fidalgo Castro (https://orcid.org/0000-0002-0538-5582)Elisabeth Defreyne (https://orcid.org/0009-0009-2559-0047)
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Aprovado pelo editor Carlos Sautchuk (https://orcid.org/0000-0002-2427-2153)
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