Open-access “Mulheres (indígenas) que Amam Futebol”: Jogo, sociabilidade e participação política em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas

RESUMO:

Se já existe uma tradição consolidada de estudos sobre o futebol de mulheres, sua prática em contextos indígenas ainda carece de maior investimento antropológico. A primeira equipe de futebol de mulheres em São Gabriel da Cachoeira (AM) foi criada em 1991 e, desde então, os times vêm aumentando, com conquista gradual de espaços de treino, participação nos campeonatos e em funções de liderança. Esta pesquisa retraçou a história do futebol jogado por mulheres naquela região. A metodologia consistiu em identificar e entrevistar as mulheres que estiveram na iniciativa da criação dos primeiros times de futebol feminino. Os resultados mostram que a aprendizagem da prática se deu na rua, jogando com meninos e enfrentando restrições familiares e dos meninos jogadores. A experiência competitiva com o esporte as fortaleceu como grupo, promovendo vínculos e criando sentimento de pertencimento. Na vida adulta, identificamos um esforço notório de institucionalização da prática, uma busca por ocupar espaços públicos e a participação na política do futebol regional. A pesquisa mostra que a história do futebol jogado por mulheres no Rio Negro revela também aspectos das transformações políticas na região, onde se veem mulheres buscando ocupar espaços de poder e de destaque público, a despeito de reações majoritariamente adversas das pessoas de seu entorno.

Palavras-chave:
Futebol indígena; Mulheres; Aprendizagem; Política; Alto Rio Negro

ABSTRACT:

While there is a well-established body of studies on women’s football, its practice in Indigenous contexts still lacks sustained anthropological attention. The first women’s football team in the city of São Gabriel da Cachoeira (Upper Rio Negro region, Brazilian Amazon - known as the most indigenous Brazilian city) was created in 1991, and since then, the number of teams has grown alongside a gradual conquest of spaces for training, participation in championships, and women in leadership roles. The study traces the history of women’s football in the Upper Rio Negro region. The methodology consisted of identifying and interviewing the women who created the first female football teams. The results show that they learned football in the streets, alongside boys, and in the face of restrictions from families and male players. Competitive experience in the sport strengthened the women as a group, fostering bonds and generating a sense of belonging. In adulthood, a notable effort toward institutionalizing the practice can be observed, along with the pursuit of occupying public spaces and engaging in the regional football politics. Thus, the history of women’s football in the Rio Negro region also reveals dimensions of broader political transformations in the region, where women strive to occupy positions of power and public visibility, despite predominantly adverse reactions from their social environment.

Keywords:
Indigenous football; Women; Learning processes; Politics; Upper Rio Negro

INTRODUÇÃO

20 de maio de 2022, 19h. O estádio poliesportivo Arnaldo Coimbra, em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, estava cheio. Começava a IV Taça São Gabriel de Futsal. Segundo a Secretaria Municipal de Desporto e Lazer, a estimativa era de que mais de mil pessoas estavam ali reunidas para prestigiar a abertura do campeonato. Todos aguardavam, ao som alto de música techno, o desfile de entrada dos 77 times de futsal, dentre os quais, 16 times femininos. Os nomes das equipes combinavam referências locais, como São Gabriel Esporte Clube, Dabarú Esporte Clube e Esporte Clube Amigos do Joelson ou, em inglês, Black River Futebol Clube, e homenagens a clubes internacionais, como Real Madrid, Paris Saint-Germain - PSG e Liverpool. Havia ainda os que faziam explicitamente referência à composição feminina, como As Patroas, ou MAF - Mulheres que Amam Futebol.

Às 19h45, a orquestra composta de membros do 5º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército Nacional, sediado nessa que é conhecida por ser a cidade mais indígena do Brasil, deu um tom solene à entrada de cada time no ginásio. Os times desfilavam precedidos por sua miss - presente tanto em times masculinos, como nos femininos e infantis -, que segurava e apresentava à plateia a bandeira da equipe. Todos os jogadores e jogadoras vestiam uniformes personalizados para cada time. (Figura 1 & Figura 2)

Figura 1
Times de Futsal dispostos no Ginásio Municipal em São Gabriel da Cachoeira, 20 de maio de 2022. Autoria da fotografia: Chantal Medaets

Figura 2
Equipe feminina São Gabriel Esporte Clube, 20 de maio de 2022. Autoria da fotografia: Chantal Medaets

A primeira equipe de futebol de mulheres em São Gabriel da Cachoeira foi criada em 1991, quando um grupo de jogadoras fundou o Dabaru Esporte Clube - DEC. Desde então, os times vêm aumentando, e as mulheres vêm conquistando gradualmente espaços para treino e nos campeonatos, além de assumir funções de liderança. Desde 2007, a categoria “feminino” foi incluída no campeonato municipal de futsal, reunindo anualmente de 15 a 20 times de mulheres, e, desde 2014, a categoria foi inserida também no campeonato de futebol de campo, reunindo de 10 a 15 times1. Em 2015, surgiram as primeiras técnicas de times e, em 2022, uma mulher assumiu a presidência da Liga Esportiva Municipal, sendo a primeira mulher no estado do Amazonas a ocupar um cargo deste tipo.

Essas mudanças ocorreram pela mobilização de mulheres jogadoras, que fizeram face, durante todo o processo, a uma disputa por espaço e reconhecimento diante dos homens. Nossa pesquisa buscou entender como foi possível chegar a esse cenário, bem como os processos e desafios enfrentados por essas mulheres para atingir tal nível de institucionalização do futebol praticado por mulheres naquela região.

Se já existe uma tradição consolidada de estudos sobre o futebol de mulheres (Altmann, Reis 2013; Goellner 2005; Moraes 2012; Rial 2013, entre outros), a prática deste jogo em contextos indígenas ainda carece, na avaliação de pesquisadores que realizaram balanços da produção, de maior investimento antropológico (Erikson 2013; Costa, Toledo 2009; Flamini 2025; Toledo, Costa 2023). Há, por certo, estudos importantes que tiveram como tema central o futebol jogado por homens indígenas. No Brasil, podemos citar a pesquisa pioneira de José Ronaldo Fassheber (2006, 2016) entre os Kaingang; a de Fernando Vianna (2008), entre os Xavante; a de Rodrigo Chiquetto (2014) sobre o “peladão de Manaus”; a de Ángel Delgado (2010), junto aos Yanomami; ou a de Carlos Eduardo Costa (2013, 2021), no contexto interétnico do Alto Xingu. Todos têm como foco o jogo de homens.

Não encontramos, na literatura científica, pesquisas cujo tema central tenha sido a prática de futebol quando jogado por mulheres indígenas no Brasil. O jogo de meninas e mulheres é citado nas pesquisas listadas acima, ou ainda em monografias que abordam o conjunto de atividades de um determinado povo. Em que pese o interesse das informações apresentadas nesses trabalhos, ressaltamos a lacuna de estudos tendo como objeto central o futebol jogado por mulheres indígenas. No entanto, em conversas com diversos colegas antropólogos(as) durante a preparação deste texto, praticamente todos reportaram terem observado campeonatos e jogos frequentes e animados de mulheres indígenas nos territórios onde realizam sua pesquisa. Analisar antropologicamente essa prática é uma tarefa que está por ser feita.

Nosso trabalho envolveu uma estudante universitária indígena do povo Wanano, e oriunda da região pesquisada, também jogadora de futebol (a primeira autora), além de duas docentes universitárias (demais autoras). Para esta primeira aproximação com o tema optamos por retraçar a história do futebol jogado por mulheres na cidade de São Gabriel da Cachoeira a partir de entrevistas com as fundadoras dos primeiros times de mulheres. Essa escolha decorre do fato de que, desde o início da pesquisa, constatamos que as mulheres envolvidas com o futebol na região não se contentaram em jogar - ou “brincar” -, como dizem muitas vezes. A prática poderia ter ficado na informalidade; contudo, elas se mobilizaram rapidamente para criar os times, conseguir espaços de treino, participar de campeonatos e instituir a categoria “feminino” nos campeonatos existentes. Há, assim, um esforço notório de institucionalização da prática, bem como uma busca por ocupar espaços públicos e pela participação no que podemos pensar como a política do futebol regional. Por isso, nos focalizamos nas dinâmicas de formação dos times e na sua forma de atuar.

A metodologia consistiu em identificar e entrevistar as mulheres que estiveram na iniciativa da criação dos primeiros times de futebol feminino na região, descrevendo suas trajetórias e aprendizagens na prática do futebol e seus esforços por sua institucionalização. Foram identificadas oito mulheres, todas indígenas, de diferentes povos da região (Arapaço, Baré, Tariano e Tukano), dentre as quais pudemos entrevistar seis. Buscamos entender o que as motivou, as maneiras com que se relacionaram e se relacionam com o futebol, assim como a reação das pessoas com quem conviviam ao seu engajamento esportivo. Buscamos captar o que se pode depreender, por meio do futebol feminino, de dinâmicas sociais e políticas mais amplas na região.

As entrevistas foram realizadas entre janeiro e fevereiro de 2023 pela primeira autora, no âmbito de uma iniciação científica do programa PIBIC/CNPq, desenvolvida sob orientação da segunda e da terceira autoras na Universidade Estadual de Campinas. Este trabalho nasceu, assim, de um encontro tornado possível pelas políticas de ação afirmativa para indígenas que vêm sendo cada mais desenvolvidas por universidades públicas brasileiras2. À época cursando Ciência do Esporte, a primeira autora, que ingressou naquela universidade por meio de um vestibular indígena criado em 2018, frequentou o grupo de pesquisa e buscou a parceria das demais autoras, cujas pesquisas versam, respectivamente, sobre gênero e esporte e sobre aprendizagem em contextos indígenas (Altmann et al. 2018; Medaets 2020). A cena descrita na introdução do artigo foi registrada pela segunda autora, durante suas pesquisas de campo na região, que abordam práticas juvenis e perspectivas educacionais pós-ensino médio.

O artigo está organizado em uma seção inicial de contextualização, na qual rapidamente localizamos o estudo no conjunto de trabalhos sobre futebol de mulheres e apresentamos aos leitores as características da região estudada, o Alto Rio Negro, no estado do Amazonas. Em seguida, os dados produzidos são analisados em quatro tópicos: um primeiro, em que descrevemos como se deu o processo de aprendizagem do futebol pelas mulheres entrevistadas; um segundo, que trata da formação dos times femininos e mostra como a competição aparece como um vetor de sociabilidade, aspecto também ressaltado nos estudos sobre futebol jogado por homens indígenas; o terceiro explora a percepção da prática do esporte como um direito, e a decorrente mobilização política para garanti-lo, buscando melhorar as condições de treino e a participação em campeonatos; por fim, no quarto e último tópico, retratamos a atuação cada vez maior das mulheres na política do futebol regional, assim como sua atuação em outras esferas da política regional.

A história do futebol jogado por mulheres no Rio Negro é, portanto, também a história da participação política das mulheres na região, que se revela nos movimentos feitos por elas para ocupar espaços de poder e de destaque público, bem como nas reações a esses movimentos por parte das pessoas em seu entorno.

CONTEXTUALIZANDO O ESTUDO

FUTEBOL DE MULHERES

Durante muito tempo, o futebol foi tido como um esporte viril, a ser praticado por homens. No Brasil, sua prática chegou a ser proibida às mulheres (Brasil 1941, Conselho Nacional de Desporto 1965), argumentando ser o futebol incompatível com sua natureza. Tidas como frágeis, considerava-se que o futebol poderia prejudicar sua capacidade reprodutora e responsabilidades com o futuro da nação. A despeito dessas interdições e dos impactos negativos na institucionalização da modalidade, pesquisas mostram que mulheres já jogavam futebol antes da década de 1980 (Goellner 2005, Moraes 2012) e foram aos poucos desconstruindo um imaginário social que restringia suas possibilidades esportivas, desprezava mulheres que a praticavam, como a partir da sua associação à masculinidade e homossexualidade, entre outros (Altmann, Reis 2013; Rial, Almeida 2024).

A prática de atividades físicas e esportivas no Brasil é menor entre meninas e mulheres quando comparada aos homens, sendo a baixa adesão à prática também marcada por raça, renda e escolaridade (IBGE 2021, PNUD 2017). No que se refere ao futebol, a adesão de mulheres à modalidade é crescente. Em pesquisa realizada junto a escolas públicas da região metropolitana de Campinas, esta já era a segunda modalidade esportiva mais praticada por meninas dos últimos anos do ensino fundamental (Altmann et al. 2018). Outrossim, uma análise produzida a partir de dados da PNAD encontrou uma prevalência de mulheres negras, pobres, jovens, de menor escolaridade e distantes dos grandes centros populacionais e econômicos do país na prática do futebol, ressaltando a necessidade de “pesquisas futuras que investiguem as razões e as causas que contribuem para que a modalidade tenha uma adesão maior por pessoas que acumulam desvantagens advindas do cruzamento dessas identidades” (Martins et al. 2024, 8). A população indígena, por sua vez, nem chega a ser contabilizada nessas análises.

A REGIÃO DO ALTO RIO NEGRO

O Noroeste amazônico faz fronteira com a Colômbia e com a Venezuela, numa região conhecida como Cabeça do Cachorro, pelo formato geográfico (mapa abaixo). Em uma área de 189 mil km², território maior que o tamanho de Portugal, cerca de 95% da população se autodeclara indígena. Ali existem cinco terras indígenas (TIs) demarcadas, habitadas por 23 etnias e 19 línguas indígenas faladas, configurando, assim, uma região multiétnica e multilinguística. Localizada a aproximadamente 850 km de Manaus, São Gabriel da Cachoeira é o maior centro urbano da região e recebe famílias indígenas de diferentes etnias vindas de comunidades nas calhas dos rios em busca de trabalho, tratamentos de saúde ou mais oportunidades de educação3. Esse também foi o caso da maioria de nossas entrevistadas, que nasceram ou chegaram ainda crianças à cidade de São Gabriel.

Os moradores da região organizam-se politicamente em uma densa rede de associações indígenas de base étnica. Essas associações podem reunir pessoas de um mesmo povo, assim como articular diversos povos em organizações multiétnicas, como é o caso da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e da Associação das Comunidades Indígenas do Médio Rio Negro (ACIMRN) (Andrello 2009; Iubel e Leirner 2019). A partir de meados dos anos 2000, muitas dessas organizações passaram a contar com departamentos de mulheres e de jovens. A entrada destes dois segmentos - jovens e mulheres - no cenário político rio-negrino, com representações próprias, é, portanto, um fenômeno relativamente recente. Em 2002, foi criado o Departamento de Mulheres na Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN). Em 2007, ocorreu a I Conferência de Adolescentes e Jovens Indígenas, organizada em conjunto pela FOIRN, pela ACIMRN e pela Pastoral da Juventude da Igreja Católica (PJ). Das mobilizações decorrentes dessa conferência nasceram, ainda em 2007, os Departamentos de Adolescentes e Jovens Indígenas da FOIRN e da ACIMRN, e também a Secretaria Municipal de Juventude Esporte e Lazer de São Gabriel da Cachoeira (SEMJEL).

Cabe aqui mencionar que o tema das políticas públicas para a juventude foi eleito como tema central de discussão da Pastoral da Juventude de 2001 a 2006, em âmbito nacional. Havia, portanto, como mostra Claudina Maximiano (2021), um estímulo claro dessa organização católica, destacada pelos próprios jovens da região do Rio Negro como um “lócus de formação política” (Maximiano 2021, 88), para que organizassem suas demandas e as levassem a instâncias de gestão pública. A influência da Pastoral não deixou também de afetar a organização das mulheres. Veremos que uma das jovens mais envolvidas com o futebol, e com os esforços para sua institucionalização, mobiliza um repertório de ação e um vocabulário adquiridos em sua participação na Pastoral da Juventude.

O FUTEBOL JOGADO POR MULHERES EM SÃO GABRIEL DA CACHOEIRA

JOGAR BOLA: UMA APRENDIZAGEM DA RUA

Por meio de conversas com integrantes de times atuais da cidade, da observação de jogos, além das memórias da primeira autora, foi possível identificar as mulheres que criaram e jogaram nos primeiros times femininos da cidade, nos anos 1990, tendo um papel ativo para que a prática ganhasse espaço e visibilidade. Além de oito mulheres, identificamos também dois homens indígenas, maridos de duas dessas jogadoras, que foram os primeiros treinadores e incentivadores do jogo entre mulheres.

As seis jogadoras entrevistadas tinham, no momento da entrevista, entre 29 e 48 anos. Com exceção de uma entrevistada que passou a infância em comunidade e se mudou para São Gabriel na adolescência (Clarissa, 29 anos, povo Tukano4), as demais nasceram ou cresceram já na cidade. Elas relatam ter começado a jogar quando criança e, na adolescência e juventude, entre 13 e 20 anos, participaram da criação dos times. Todas continuavam jogando futebol no momento das entrevistas, com dedicação variada. Duas delas, com idade de 42 e 48 anos, montaram, inclusive, um novo time, “As centenárias”, que, com humor típico da região, brinca com seu distanciamento do grupo que chamam de “novinhas”.

Em todas as entrevistas, o roteiro incluiu perguntas sobre como as mulheres começaram a jogar, onde aprenderam, e, para a maioria, a rua foi a escola mais importante.

Eu tinha 12 anos [em 1991]. A gente jogava com os meninos num campinho de terra, aí foram juntando algumas meninas para jogar entre nós. E a gente precisava chegar cedo na quadra, antes dos meninos, pra eles deixarem a gente brincar (Maria Sandra, povo Tukano, 45 anos).

O tema da disputa dos espaços de jogo com meninos, e mais tarde com homens jogadores, é uma constante nos relatos das jogadoras.

Mana, primeiro, a gente não podia jogar, não. Eram só os meninos. Mas mesmo assim, a gente formava o nosso time e jogava. Mas era bom. Eu sempre joguei no meio dos meninos, sempre gostei de futebol. Sempre estava no meio, igual curumim, era uma curuminha (risos) (Gicélia, povo Baré, 48 anos).

Os espaços não formais geram uma “pedagogia de rua” (Scaglia 2021), possuindo um papel formador nesses encontros com brincadeiras sem a mediação de adultos ou de educadores(as) que guiem, para fins educativos, as atividades.

Foi a minha vizinha do bairro que me convidou. Ela começou a me levar pra brincar. Naquela época, as meninas eram mais receptivas para quem estava aprendendo, então a gente era pereba, mas elas deixavam a gente se entrosar para aprender. E aí eu fui tomando gosto pelo futebol e fui ficando, fui me destacando, também (Solange, povo Baré, 40 anos).

As aulas de educação física não despontam como um espaço de aprendizagem importante, pois o futebol era mais direcionado aos meninos. “Na escola, no feminino, eles incentivavam mais para o vôlei, handebol, essas outras modalidades. Acho que talvez por isso a gente não tenha tido um incentivo muito bom na escola” (Solange). Uma dentre as seis entrevistadas, no entanto, lembrou do incentivo de professoras:

Foi dentro da escola o primeiro time que a gente foi ter. Foi na escola, na educação física. Porque, na época, o futebol feminino não era muito realizado, nem um pouco, né? Era muito preconceituoso com quem participava do esporte. Então, na época de estudante, as professoras incentivavam pra gente brincar, né? (Clécia, povo Arapaço, 42 anos).

Pesquisas sobre educação física escolar têm apontado desigualdades de gênero nas aulas e em outros espaços de prática esportiva na escola. No entanto, elas têm sido desenvolvidas predominantemente em ambientes urbanos e sem pesquisas específicas entre a população indígena na escola ou em escolas indígenas, evidenciando, assim, outra lacuna na produção científica. A participação em aula está associada às experiências corporais e esportivas externas à escola, que favorecem e qualificam a participação de corpos mais habilidosos em aula, recreio e espaços extracurriculares (Jacó e Altmann 2016; Martins et al. 2023).

Em contextos indígenas, a aprendizagem entre pares, e “por participação” nas diferentes atividades é predominante (Medaets 2020; Silva e Gomes 2015). Especificamente estudando o futebol indígena, masculino, após uma transmissão inicial da prática por não indígenas, a aprendizagem informal também parece ser a mais frequente entre diferentes povos (Fassheber 2006; Fermino 2012; Nascimento 2015; Vianna 2008). Essa aprendizagem inicial ocorre ainda na infância, e majoritariamente fora da escola e das aulas de educação física ou de espaços mais formais.

Uma vez adultas, no entanto, foram observadas por nós, assim como por autores que estudaram o futebol entre homens indígenas, estratégias que os jogadores e jogadoras colocam em prática para aperfeiçoar-se, e que se afastam da informalidade ou, ao menos, da não intencionalidade pedagógica que marca esses momentos de jogo na infância. Para melhorar sua atuação em campeonatos regionais com não indígenas, indígenas Bororo, no Mato Grosso, assistiam e analisavam jogos na televisão (Almeida 2013). Diversos grupos organizam treinos, fazem vaquinhas e rifas para comprar uniformes e realizar campeonatos com regularidade (Fassheber 2006; Nascimento 2015; Vianna 2008).

No caso das mulheres jogadoras em São Gabriel da Cachoeira, após esse primeiro momento de aprendizagem do jogo na rua, brincando com outras crianças, aquelas que continuaram jogando na idade adulta se organizaram para treinar semanalmente, com exercícios de fortalecimento físico e aprimoramento técnico. Elas tinham como horizonte, de acordo com todas as entrevistadas, a participação competitiva em campeonatos da região, o que aparece, assim, como a principal motivação para a prática.

O COMPETIR COMO FORMA DE ORGANIZAÇÃO COLETIVA

No início dos anos 1990, surgiram os primeiros times de mulheres na cidade de São Gabriel, que treinavam com regularidade, sob a supervisão de um treinador. Os treinadores, de acordo com os relatos, eram somente homens naquele momento, maridos de algumas das jogadoras. Em 1991, foi fundado o primeiro time feminino: Dabaru Esporte Clube (DEC), sendo Dabaru o nome de um bairro e também de um time masculino.

Esses homens apoiadores, de acordo com o relato das entrevistadas, eram uma minoria, enquanto a maior parte das pessoas com quem elas conviviam, a começar por seus familiares, não as apoiavam. Clarissa (povo Tukano, 29 anos) assim se referiu ao apoio familiar, em uma época em que ainda vivia em uma comunidade, fora da cidade de São Gabriel: “Tinha meu pai que apoiava, quer dizer, deixava. Mas, quando a gente era criança, minha vó, por parte de pai, ela tinha esse negócio de preconceito, né, que as mulheres não podiam jogar…”. Clécia, que nasceu e cresceu em São Gabriel, também faz referência a essa resistência, o que sugere um comportamento comum em toda a região, e relata que tinha que sair escondida para jogar.

Pra ser bem realista, a família, praticamente, nunca me apoiou em práticas de esporte (...) eles nunca me apoiaram, porque na concepção deles, futebol é para homens. Então, o meu pai falava: “Como que uma mulher (pode) tá jogando bola, em vez de homens, em vez de tá brincando com os meus filhos?” Então, assim, eu tive preconceito dentro da família. Às vezes, eu saía fugida para jogar bola, porque meu pai não ia deixar. Já saía, já pegava as minhas coisas e ia embora, nem falava pra ele que eu tava indo jogar bola, mas tava lá. E assim, foi um confronto mesmo, meu contra a minha família… Fora a sociedade que me julgava. (Clécia)

Mesmo assim, elas continuavam, movidas pelo prazer de jogar, de “brincar”, e apoiadas por esses que foram os primeiros treinadores de times femininos. Eles organizavam treinos que, de acordo com os relatos, não eram só jogos amistosos. “A gente tinha aquele treino de segunda à quinta-feira, treino e resistência, treino para saber driblar, para saber tirar a bola, saber chutar pênalti”, explica Clécia, lamentando que atualmente alguns times, segundo ela, pecam por treinos que são somente “uma pelada”, mas não trabalham aspectos técnicos específicos. Claramente preocupada com o aperfeiçoamento dos times para poder participar de competições, “torneios”, ela ainda lembra que, naquela época, os nomes dos times não eram constantes, formando-se a cada novo torneio. Tinham, por vezes, um jogador masculino de renome nacional como referência.

Era “As Ronaldinhas”, porque o Ronaldinho tava fazendo sucesso, né? Aí, chegava outro torneio, era “Pumba”, e, outro torneio, era “As Brasileiras”, outro torneio, era, já era outro (nome), e assim ia. Cada torneio, a gente colocava um nome, não tinha um nome oficial. (Clécia)

A formação de uma equipe e o envolvimento com o treinamento as fortaleceu na luta por espaços para o treino regular e oportunidades de competir: “Aí, foi quando a gente começou a brigar por esses espaços, por exemplo, fazia uma taça de futsal, o foco era mais homem, então a gente foi começando a brigar para poder incluir as meninas nessas competições” (Solange).

Os esforços aconteciam na esfera privada (vida familiar) e pública (vida social regional): se desdobravam para conseguir, individualmente, enfrentar a família, se necessário, para poder treinar, e, coletivamente, se mobilizavam para conquistar espaços de treino na cidade e garantir a participação nos torneios regionais. Os convites que recebiam para jogar, enquanto “time feminino”, em outros municípios, mostram que esse movimento do futebol jogado por mulheres acontece em toda a região. Essa frequência da participação das mulheres indígenas no futebol é corroborada pela literatura que investiga o jogo entre homens indígenas, sem que seja analisada em sua especificidade, como já mencionamos.

Mas, uma vez recebido o convite dos municípios vizinhos a São Gabriel da Cachoeira, as mulheres precisavam lutar por apoio para participar, como relata Clécia:

Aí, toda vez que vinham convites dos municípios, a gente ia participar, mas não era porque o prefeito queria levar a gente, era porque a gente se auto convidava e ia falar com o prefeito: “Prefeito, nós temos direito, por que só levam os homens?” Aí ele levava nós, por livre e espontânea pressão (risos). Ele levava nós para Santa Isabel, Barcelos e, assim, outros.

Cabe ressaltar que o futebol aparece entre outras formas de competição que organizam coletivos na cidade. Em particular, na maior festa da cidade, o Festribal, que ocorre desde 1996, três grupos competem entre si: a Associação Cultural Filhos do Rio Negro, a Agremiação Tribo Tukano e a Agremiação Tribo Baré (Souza 2019; Montardo e Schneider 2012), elaborando coreografias de danças numa dinâmica competitiva e festiva que se assemelha a outros festivais amazônicos, tais como o Boi de Parintins (Parintins, Amazonas) e o Sairé de Alter do Chão (Santarém, Pará).

Sobre a competição, as análises antropológicas sobre o futebol masculino trazem elementos pertinentes para apreender também nossos materiais. Na literatura sobre povos indígenas das terras baixas da América do Sul, muitos rituais que implicam competições corporais foram vistos como substitutos, de forma atenuada, de práticas guerreiras; eles permitiriam que rivalidades interétnicas fossem vividas e atualizadas em termos mais convenientes ao contexto pós-contato (Hugh Jones et al.. 2015). Haveria, assim, uma “pacificação das relações pela esportificação das práticas” (Costa 2021, 13). Na região do Alto Xingu, Costa considera que o futebol está inserido nessa lógica:

(...) as disputas corporais, as práticas esportivas nativas, deixariam de ser voltadas à eliminação do inimigo para a busca pela vitória contra o adversário, tanto pelas armas, como pelos combates corporais. É nesse cenário de pacificação regional que o futebol expande tal modelo de relações. (Costa 2021, 14)

Trabalhando junto aos Kakataibo do Peru, Magda Dziubinska (2013), observou que o nome dado ao capitão da equipe ain kushi (o forte), é muito similar ao termo utilizado para referir-se aos antigos chefes de guerra, uni kushi (homem forte). A associação entre futebol como espaço de atualização de um ethos guerreiro também é feita por Harry Walker (2013) para os Urarina, ainda na Amazônia peruana.

Para que possamos apreender os significados do futebol de mulheres, e do futebol de forma geral, na rede de relações interétnicas do Alto Rio Negro, seria necessário dar continuidade a essa primeira pesquisa, com uma etnografia dos jogos na região. O que nosso trabalho já indica, no entanto, é que a participação nos campeonatos é altamente valorizada; não encontramos menção a grupos que se reuniram para jogar sem a pretensão de competir em torneios. Uma etnografia dos jogos e do desenrolar de um campeonato poderia mostrar como a rivalidade se manifesta entre times e jogadoras mulheres. Por hora, as relações conflituosas e de disputa aparecem nos relatos de jogadoras que registramos referem-se mais explicitamente aos homens com quem convivem.

PRÁTICA DO ESPORTE COMO DIREITO

CONQUISTANDO ESPAÇOS

A percepção de que a prática do esporte seria “um direito” (Korsakas et al. 2021), foi sendo construída e reivindicada pelas mulheres rio-negrinas a partir do diálogo com outros movimentos sociais, em especial, a partir da participação na Pastoral da Juventude, da Igreja Católica. Uma das mulheres que esteve à frente da busca por espaços de treino e jogo para as mulheres, Clécia, estabelece claramente a ponte entre o que aprendeu na Pastoral e sua atuação no futebol, evidenciando a circulação de um repertório de ação centrado na noção de “direitos”:

Eu jogava futebol, participava do movimento da Pastoral da Juventude, e lá tinha as temáticas discutidas, que eram políticas públicas de juventude. O que é política pública de juventude? E lá, eu passei a perceber quais eram os nossos direitos, como mulher, como jovem, na época, quais eram os nossos direitos. Então, tirei de lá a importância de nós, mulheres, lutarmos pelos nossos espaços. No caso, as meninas que jogavam bola, elas tinham interesse em querer lutar pelo seu espaço, em querer brincar, treinar... (Clécia)

A Igreja Católica, após a mudança significativa de linha de atuação no Concílio Vaticano II (1962-65) teve, no Brasil, um papel importante de apoio à organização política indígena desde o final dos anos 1980, tornando-se um agente central do campo indigenista (Munduruku 2012; Rufino 2006). Ariana dos Santos e Tadeu Lopes Machado (2019), a partir de uma análise da organização das mulheres Karipuna do Amapá, povo ao qual pertence a primeira autora, mostram como o estímulo associativista das alas progressistas da Igreja apoiou também, em alguns casos, de modo mais específico, a organização política de mulheres indígenas. Na região do Rio Negro, onde internatos salesianos marcaram a história da geração dos avós e, às vezes, dos pais e mães das mulheres entrevistadas, com a proibição de uso das línguas e dos costumes indígenas, a nova face da igreja passou a incentivar a retomada de manifestações culturais e a organização política dos indígenas, apoiando-se justamente na noção de direitos.

No caso do futebol, a luta de mulheres pelos espaços de treino e de jogo, entendidos como um direito, exigia o enfrentamento de homens. Estes, por sua vez, se percebiam como autoridades e donos das quadras, expressando indisposição em ceder espaço para elas treinarem: “E quando eles deixavam a gente jogar, era uma hora da tarde, naquele campo, no sol rachando, as meninas passando mal, desmaiando”. (Clécia). Jéssica (povo Tariano, 35 anos) tem uma memória similar.

A gente ouvia muita crítica, muita crítica. Mas coisas boas, que te botavam para cima, como dizer, “tu joga bem, e tal”, era só a gente entre a gente falando. Entre os homens, era muito difícil a gente jogar, pelo contrário, era, “pô, vocês não jogam nada!”. Quando a gente tava no campo, ou a gente tava na quadra querendo jogar, eles, “Vocês só estão roubando o nosso tempo aí dentro da quadra!” Então, tinha que dividir em relação à quadra, em relação ao campo, então eles falavam que a gente só estava roubando o tempo deles para eles estarem jogando (Jéssica).

Em 1995, Clécia conseguiu negociar na Liga Esportiva do município de São Gabriel um horário para treino de mulheres, das 7h às 9h da manhã, duas vezes por semana, no ginásio de futsal Arnaldo Coimbra, que na época não era coberto. Nesse local, os treinos passaram a ser regulares entre mulheres, criando um ambiente mais seguro e protegido para a prática, aspecto apontado como importante também em outras pesquisas (Martins et al. 2023).

Embora, de um modo geral, a produção científica sobre gênero e educação física tenha uma posição favorável às práticas coeducativas, quando meninos e meninas vivenciam juntos uma mesma prática, também encontramos relatos e pesquisas que destacam vantagens em ambientes de prática exclusiva entre mulheres. A partir de uma etnografia em uma escola de futebol para meninas, Martins, Souza Jr. e Reverdito relatam que “a decisão de estabelecer turmas exclusivas para meninas dentro da escolinha de futebol foi uma maneira eficaz de proporcionar esse ambiente seguro, porque lhes permitia o engajamento onde elas eram protagonistas” (Martins, Souza Jr., Reverdito 2023, 5).

Esse coletivo de mulheres que se reunia para jogar também se envolvia com outras atividades, de alguma forma decorrentes ou associadas ao futebol, como na construção de assentos de madeira para as mulheres e crianças assistirem aos jogos, ou na realização de “sopões” ou outras confraternizações ao final dos jogos. Durante a realização da pesquisa, certo dia, após o fim de um jogo, todas se reuniram no bar do marido de uma das integrantes do time. Clécia destacou a importância desses momentos pós-jogo, que criaram, segundo ela, espaços de fala e escuta, de “resenha”, fortalecendo o vínculo entre elas.

Em 2007, em decorrência da organização de jovens, apoiados pela Pastoral da Juventude e por organizações indígenas já existentes, como a FOIRN, foi criada a Secretaria Municipal de Juventude (SEMJEL). No mesmo ano, a categoria “feminino”, no campeonato de futsal municipal, se tornou fixa. O pagamento da taxa de inscrição por cada time e doações da prefeitura compunham os prêmios dados aos times melhor classificados ao final do evento. Em 2008, Clécia conseguiu, junto ao prefeito, um horário de uso do campo municipal (Quirinão), para treinarem futebol de campo, sem ficarem restritas a treinos em campos menores. Ela relata esse episódio, destacando a “luta muito forte” que implicou:

Já no ano de 2007, 2008, a luta da juventude foi muito forte. Eu participei como militante, como jovem. (...) Levamos o nosso abaixo-assinado, pedimos espaço pra não ter que ser expulsas por homens. Toda vez, a gente era expulsa e a gente não revidava, por acharmos que a gente não tinha direitos daquele espaço e aí, na época, o Juscelino (prefeito) cedeu pra gente brincar. (...). Aí, a gente passou a jogar futebol de campo, só que era no horário de meio-dia até duas horas, então não passava disso. (Clécia)

Participando cada vez mais da vida pública da cidade, Clécia filiou-se também, nessa época, ao Partido dos Trabalhadores. Apoiada pelas reflexões que era convidada a fazer na Pastoral da Juventude e em outros círculos militantes, em 2014, ela foi convidada a assumir o cargo de subsecretária da Secretaria Municipal de Juventude (SEMJEL). Clécia era funcionária concursada da prefeitura, tendo ocupado diferentes cargos em escolas, o que facilitou sua alocação na SEMJEL. Nesse, cargo, ela conseguiu que os times de mulheres passassem a fazer parte da Liga Esportiva Municipal, o que permitia que elas participassem do campeonato de futebol de campo. Naquele ano ocorreu, não sem resistência, o primeiro campeonato de campo de “futebol feminino” do município.

Foi uma briga para inserir as mulheres dentro da Liga Esportiva. Porque já tinha mais de 50 anos que a Liga existia, e nunca teve mulher. Então, eles não queriam dar espaço para as mulheres. O presidente da Liga, ele não queria aceitar, ele falou: “Elas até podem vir aqui, mas não vão ser inseridas dentro da Liga Esportiva”. (Clécia)

Clécia recorreu então às normas e noções de direito aprendidas com a Pastoral da Juventude e em outros espaços políticos que frequentava.

Eu levei o Estatuto do Servidor Público, levei tudo o que eu tinha que levar e levei os direitos da juventude, né? Na época, eram muitas mulheres jovens e a gente conseguiu incluir, e fazer o primeiro campeonato de futebol feminino. Foi um sucesso, vieram 11 times, não, 12. O primeiro campeonato já foi aderido com sucesso: 12 times já foram formados para vir para o campeonato em 2014.

E destaca em seguida todo o esforço para manter a oficialidade e o caráter institucionalizado da prática.

E aí fizemos a comissão organizadora, fizemos tudo bonitinho, e assim fomos… Foi a primeira bandeira erguida, aí, do campeonato feminino. Como nós estávamos na Secretaria, nós apoiávamos elas com bolas, premiações, porque a Liga mesmo não dava não, por causa dessa situação que ele falava, que não queriam as mulheres, né?

Nessa época, muitos times já tinham adquirido nomes estáveis e surgiram algumas técnicas de times que eram elas mesmas mulheres; elas atuavam em parceria com homens. Em 2015, Clécia criou o time Boa Esperança, sendo a primeira mulher a presidir um time.

Em 2022, uma outra mulher, amiga de Clécia, Solange, assumiu a presidência da Liga Esportiva. Ela era vice-presidente na chapa de um homem e assumiu o cargo quando, pouco meses após a eleição, esse presidente renunciou à função. Solange, que atuava profissionalmente como guarda na polícia municipal, foi a primeira mulher no estado do Amazonas a assumir essa função, na qual permaneceu até início de 2024. Solange afirmou nunca ter chegado a se filiar a qualquer partido político. Abaixo, apresentamos uma linha do tempo com os principais marcos temporais da história do futebol jogado por mulheres na região (Figura 3).

Figura 3
Linha do tempo: eventos marcantes na institucionalização do futebol de mulheres em São Gabriel da Cachoeira. Fonte: elaboração própria.

JOGADORAS, ÁRBITRAS E GESTORAS: MULHERES NA POLÍTICA DO FUTEBOL

As entrevistadas revelam que, com essa expansão da prática do futebol jogado por mulheres, times masculinos mais tradicionais também passaram a criar equipes femininas.

Com o tempo, o futebol feminino foi ganhando uma visibilidade muito grande de campo, aqui, e também foi ganhando, assim, atenção dos homens. [Eles] já não veem mais com aqueles mesmos olhos de antigamente, eles gostam de assistir. E alguns presidentes de clubes, por iniciativa própria, começaram a montar o time feminino. (Solange)

As jogadoras entrevistadas ressaltam que o apoio institucional não é uma constante, e que elas se desdobram para adquirir itens como uniforme e chuteiras. A prefeitura não teria ainda apoiado, de forma regular, os times - nem masculinos, nem femininos - com a compra de materiais. O apoio se dá mediante doações para prêmios dos torneios e da construção dos espaços, assim como da organização dos campeonatos. As mulheres se organizam, então, fazendo rifas e pedindo apoio aos comerciantes da cidade para obter os itens desejados.

Mas foi assim, sempre contando com apoio que a gente ia atrás na cidade. Porque nem todas as meninas têm condições de tirar do bolso e comprar seu próprio uniforme, né? Então, a gente sempre saía pedindo, fazia rifa, saía pedindo brinde, coisas assim, para poder estar nos torneios. A gente fazia também torneios para adquirir os nossos materiais, comprar uma bola, um uniformezinho melhor. (Solange)

Aos poucos, as mulheres passaram a reivindicar posições de liderança no esporte, tais como cargos técnicos, de arbitragem e administrativos. Como apontado por outras pesquisas, posições de liderança no esporte têm sido majoritariamente ocupadas por homens - brancos e heterossexuais - não só no Brasil, mas em muitos lugares do mundo (Barreira 2021). Na pesquisa aqui apresentada, o fato de duas mulheres indígenas terem se tornado gestoras - uma na Secretaria de Juventude, Desporto e Lazer e, posteriormente, outra na Liga Esportiva do município - abriu novas portas para a atuação de outras.

Durante sua gestão na Liga Esportiva, Solange inseriu as primeiras árbitras de futebol na região, encontrando novamente resistência dos homens.

Foi uma rejeição deles também pela inclusão delas. Porque é mulher, não sabe apitar, não sabe bandeirar… Aí eu falei: “não é que elas não saibam, nunca ninguém deu oportunidade para elas aprenderem. Então, a prática elas sabem, então elas vão adquirir a experiência pela prática. Se a gente não der oportunidade, como elas vão aprender?” Daí, surge, né? O homem pode errar, mas a menina, se erra, então é porque ela é mulher… E fica assim. (Solange)

Clécia, comentando as dificuldades passadas pela colega, reflete sobre as razões dessa resistência.

Eu acho que, quando você comanda assim, eles se sentem rebaixados. Eu não sei, é uma sensação de como uma mulher está ali, eu vou ter que ficar obedecendo, vou ter que ficar seguindo as orientações dela, seguindo o que ela tá comandando. (Clécia)

Os trabalhos que tratam do futebol entre homens indígenas mostram que essa prática tem um caráter político, no sentido de que é um importante vetor de sociabilidade e de manutenção ou criação de alianças, tanto internamente para cada povo, como nas relações interétnicas entre diferentes povos indígenas, ou ainda naquelas com pessoas não indígenas. Trata-se de um “jogo estratégico nas relações interétnicas”, nas palavras de Ronaldo Nascimento (2015), referindo-se aos Munduruku. Ou, como apresenta Antonella Tassinari em sua monografia sobre os Karipuna:

A formação de equipes e a atividade de capitão de um time, além de fornecer status e desembaraço, geralmente acompanha o início da participação política das lideranças mais jovens. Em certas ocasiões, o futebol se torna um importante momento de encontro e intercâmbio entre as aldeias e entre os povos vizinhos, durante os torneios, campeonatos e jogos amistosos, quando há torcidas, troféus e bailes comemorativos (Tassinari 1998, 316).

A participação das mulheres na vida político-partidária da região do Alto Rio Negro ainda é pequena, sendo o campo majoritariamente masculino (Iubel 2018). Mas, como também mostra Francineia Fontes (2020), mais conhecida como Francy Baniwa, mulher Baniwa e rio-negrina, as mulheres da região sempre tiveram um papel político, no sentido amplo e não somente partidário, sendo um elo diplomático entre povos, numa região onde os casamentos interétnicos são predominantes.

A história do futebol feminino na cidade de São Gabriel da Cachoeira é reveladora de um movimento atual das mulheres indígenas de diferentes povos daquela região multiétnica em busca por ocupar a arena pública, “lutar por nossos espaços”, como diz Clécia. Mais do que apenas jogar futebol e brincar entre si, elas se desdobram para treinar e se preparar para poder competir em torneios. Se organizam para que a categoria “feminino” ocupe espaço e se perenize nas competições. Buscam ocupar, e criar oportunidades para que outras mulheres ocupem funções remuneradas ligadas ao futebol, como a de árbitra, ou cargos de gestão.

Esse movimento muito provavelmente se fortalece pelo crescimento da participação de mulheres indígenas na esfera político-partidária nacional, e nas associações indígenas, como também por incentivos do campo indigenista à participação política de mulheres indígenas. (Figura 4)

Figura 4
Treino uniformizado no campo, 20 de maio de 2023. Autoria da fotografia: Adilce Ferraz.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O futebol feminino indígena em São Gabriel da Cachoeira (AM) teve uma notável expansão e institucionalização, decorrente da organização coletiva de mulheres. A participação dessas mulheres no futebol se deu inicialmente como jogadoras. Começaram a jogar na rua, com meninos, e, aos poucos, foram criando espaços para jogar entre meninas. Muitas vezes enfrentaram restrições familiares, além da resistência de meninos e de homens que raramente aceitavam ceder espaços onde elas pudessem jogar. Apenas uma entrevistada cita as aulas de educação física como espaço de aprendizagem, dada a não associação dessa modalidade a mulheres, percepção que tem raízes históricas na sociedade brasileira.

Progressivamente, as mulheres se organizaram coletivamente, reivindicando espaços de treinos e participação em campeonatos, tendo inicialmente alguns homens apoiadores como técnicos e árbitros. A experiência competitiva com o esporte as fortaleceu como grupo, promovendo vínculos e criando sentimentos de pertencimento. A experiência de algumas delas em outras instâncias de organização coletiva, como a Pastoral da Juventude ou a militância partidária, foi então mobilizada, permitindo a compreensão do esporte como um direito.

Como consequência, a visibilidade e amplitude do futebol feminino cresceram, e mulheres começaram a atuar em funções de maior responsabilidade, e por vezes de liderança, nas instâncias que regulam o futebol institucionalizado na região, como foi o caso de Clécia assumindo o cargo de sub-secretária na Secretaria da Juventude (SEMJEL) e de Solange, na direção da Liga Esportiva Municipal. Apesar da resistência de boa parte dos homens, tiveram apoio de outros para que alcançassem esses postos.

Esse crescimento, como também a resistência masculina, não é desconectado de outras esferas da vida social da região, e vemos o quanto a participação na Pastoral da Juventude foi importante para que Clécia adquirisse um repertório discursivo centrado na noção de “direitos” e pudesse se impor face aos homens dirigentes nas instâncias decisórias do futebol na cidade, assim como para que ela se filiasse a um partido político, ampliando os espaços de atuação política. Além de jogar, as mulheres empreenderam um esforço significativo para institucionalizar a categoria “futebol feminino” de diversas maneiras.

A participação de mulheres no futebol, como jogadoras e, posteriormente, como árbitras, ou ocupando espaços de gestão do esporte na cidade de São Gabriel da Cachoeira, evidencia, portanto, importantes aspectos da dinâmica social e da vida social e política na região. O futebol jogado por mulheres se mostra, assim, um revelador das tensões e transformações contemporâneas presentes nas relações políticas e de gênero entre os povos indígenas do Alto Rio Negro.

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  • Toledo, Luiz Henrique, and Carlos Eduardo Costa. 2023. “Jogar, lutar, torcer: olhares etnográficos sobre futebol e rituais ameríndios”. Etnográfica 27(1): 27-50. https://doi.org/10.4000/etnografica.12856
    » https://doi.org/10.4000/etnografica.12856
  • Walker, Harry. 2013. “State of play: The political ontology of sport in Amazonian Peru”. American Ethnologist 40(2): 382-398.
  • Vianna, Fernando de Luiz Brito. 2008. Boleiros do cerrado: Índios xavantes e o futebol São Paulo: Annablume/Fapesp.
  • 1
    O termo “futebol de mulheres” foi originalmente proposto por Cláudia Kessler (2015), objetivando a desindexação da prática do pensamento normativo de gênero, refém do binômio “masculino/feminino”, sendo bastante utilizado no campo acadêmico (Goellner 2021). Neste texto, mantemos em alguns trechos o uso da expressão “futebol feminino”, visto que essa é forma com que se referem à prática na região, tanto com introdução da categoria “feminino” nos campeonatos, quanto na fala, no cotidiano.
  • 2
    Para um panorama nacional dessas políticas, ver Medaets, Longo e Arruti (2025). Para uma descrição da universidade em estudo, ver Medaets, Arruti e Fonseca (2024).
  • 3
    Há ensino fundamental ofertado em praticamente todas as comunidades da região e ensino médio na maioria delas, mas é comum ouvir, na região, que o ensino é de melhor qualidade na cidade. Também há, em São Gabriel, oferta de ensino técnico e alguns cursos de nível superior que atraem muitos moradores (Pellegrini et al. 2021).
  • 4
    Respeitando o protocolo aprovado no comitê de ética (processo n. 09474319.7.0000.8142) os nomes próprios citados neste trabalho foram alterados buscando manter o anonimato das pessoas envolvidas. Ao citar pela primeira vez os nomes, indicamos o povo e a idade da pessoa citada, informação que não repetimos nas demais vezes que cada nome é evocado, para evitar repetições que deixariam o texto pesado. As idades indicadas são aquelas do momento de realização das entrevistas, em 2023.
  • Reconhecimento/ Financiamento da pesquisa
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), processo 2028/25259-0, e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio da bolsa PIBIC.
  • Declaração sobre a disponibilidade das informações
    Declaramos, para os devidos fins, que os dados subjacentes ao artigo estão em parte disponíveis no trabalho de conclusão de curso da primeira autora, disponível da biblioteca da Universidade Estadual de Campinas

Editado por

  • Aprovado pelo editor Carlos Sautchuk (https://orcid.org/0000-0002-2427-2153)

Disponibilidade de dados

Declaramos, para os devidos fins, que os dados subjacentes ao artigo estão em parte disponíveis no trabalho de conclusão de curso da primeira autora, disponível da biblioteca da Universidade Estadual de Campinas

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    03 Nov 2025
  • Aceito
    03 Maio 2026
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