Open-access Passo a Passo na Avaliação da Pericardite Constritiva

Resumo

A Pericardite Constritiva (PC) é uma condição rara, mas potencialmente curável, que se manifesta por sintomas de insuficiência cardíaca direita e restrição ao enchimento ventricular. O diagnóstico pode ser desafiador e requer uma abordagem estruturada que integra diversas modalidades de imagem cardiovascular. Este artigo oferece um guia prático, baseado em evidências e na experiência clínica, para o reconhecimento passo a passo da Pericardite Constritiva, com destaque aos achados ecocardiográficos.

Palavras-chave
Pericardite; Ecocardiografia; Ecocardiografia Doppler

Abstract

Constrictive Pericarditis (CP) is an uncommon but potentially curable condition, typically presenting with right-sided heart failure and impaired ventricular filling. Diagnosis can be challenging and requires a structured approach that integrates various cardiovascular imaging modalities. This article offers a practical guide, based on evidence and clinical experience, for the step-by-step recognition of Constrictive Pericarditis, highlighting echocardiographic findings.

Keywords
Pericarditis; Echocardiography; Doppler Echocardiography

Introdução

A PC é uma afecção resultante da inflamação crônica do pericárdio, que culmina em fibrose, espessamento, calcificação e determina intensa restrição ao enchimento das câmaras cardíacas. Embora seja uma complicação da pericardite aguda, o processo constritivo leva meses ou até anos para ocorrer.

Dentre as causas de pericardite, incluem-se infecções sistêmicas, cirurgia cardíaca prévia, neoplasia, radioterapia (principalmente com irradiação mediastinal), doenças autoimunes e causas idiopáticas. Nos países endêmicos, a tuberculose representa uma causa relevante.1,2

A suspeita clínica ocorre em quadros de insuficiência cardíaca direita, com sinais e sintomas de congestão sistêmica (congestão hepática, anasarca, cirrose cardíaca) e sinais de baixo débito cardíaco (fadiga, caquexia cardíaca, fraqueza muscular), presença de knock pericárdico ao exame físico, eletrocardiograma com baixa voltagem e alterações inespecíficas de segmento ST e onda T; nesse contexto, a imagem cardiovascular é essencial para guiar o diagnóstico e o manejo (Figura Central).

O artigo visa apresentar um fluxograma prático e baseado em evidências para avaliação diagnóstica da PC, com ênfase no uso sequencial das modalidades de imagem.

Fisiopatologia da PC

A cascata inflamatória envolvida após um insulto ao pericárdio envolve os mecanismos da imunidade inata, com ativação do inflamassoma NLRP3 e produção de citocinas pró-inflamatórias, especialmente interleucinas da família IL-1. Esta ativação inflamatória leva a infiltração celular que resulta em amplificação da resposta inflamatória, com perpetuação do processo autoinflamatório. A persistência da inflamação leva à proliferação de fibroblastos, formação de tecido de granulação, neovascularização patológica e espessamento do pericárdio. O processo pode evoluir para fibrose e calcificação, culminando na Pericardite Constritiva.3,4

Em condições fisiológicas, o pericárdio possui elasticidade suficiente para acomodar alterações do volume cardíaco. Na PC, o espessamento do pericárdio determina limitação à expansão ventricular durante o período de diástole.

Do ponto de vista hemodinâmico, dois mecanismos se destacam:

  1. Dissociação entre as pressões intratorácica e intracardíaca, causada pelo pericárdio rígido que impede a transmissão normal das variações respiratórias;

  2. Interdependência ventricular acentuada, em que o aumento do retorno venoso para as câmaras direitas durante a inspiração, resulta em diminuição do enchimento das câmaras esquerdas, uma vez que há desvio do septo interventricular em direção ao Ventrículo Esquerdo (VE), devido à impossibilidade de expansão da parede livre do Ventrículo Direito (VD), dada à restrição imposta pelo pericárdio espessado.5

Deste modo, o enchimento ventricular na diástole é inicialmente rápido, mas logo interrompido pela limitação pericárdica, resultando no aumento das pressões de enchimento em câmaras direitas com redução da pré-carga em câmaras esquerdas e do débito cardíaco.

Por fim, as alterações inflamatórias e hemodinâmicas também contribuem para o aumento da retenção de sódio e água, devido a alterações hormonais relacionadas à ativação dos sistemas simpático e sistema renina-angiotensina-aldosterona, que perpetuam o quadro clínico e dificultam seu manejo.

O reconhecimento precoce da pericardite constritiva permite a indicação adequada da pericardiectomia, que pode ser curativa e restaurar a função diastólica normal em muitos pacientes.

Apresentação clínica e diagnóstico

A perda da elasticidade do pericárdio impede o adequado enchimento diastólico dos ventrículos, resultando em quadro clínico predominantemente de insuficiência cardíaca direita, frequentemente confundido com doenças hepáticas ou renais, especialmente em sua forma avançada.6

Entre os sintomas mais comuns, destaca-se a dispneia aos esforços, muitas vezes insidiosa, associada à elevação da pressão venosa pulmonar e à redução do débito cardíaco. A fadiga é outra queixa frequente e está diretamente relacionada à diminuição da perfusão periférica. Pacientes também costumam apresentar edema periférico, bilateral e ascendente, como sinal de congestão sistêmica. A ascite, por sua vez, ocorre em cerca de metade dos casos e pode ser desproporcional ao grau de edema, sugerindo, equivocadamente, uma hepatopatia primária.7

Outros achados incluem plenitude abdominal, anorexia e saciedade precoce, frequentemente relacionadas à congestão hepatoesplênica. Em casos avançados, pode haver caquexia.

No exame físico é fundamental estar atento a sinais sugestivos, como o sinal de Kussmaul (ingurgitamento jugular paradoxal na inspiração), pulso paradoxal (queda da pressão sistólica durante a inspiração > 10 mmHg) e o característico knock pericárdico: som diastólico precoce auscultado no foco mitral ou tricúspide, indicativo de parada abrupta do enchimento ventricular.

Os achados descritos, quando presentes em conjunto, devem levantar forte suspeita de PC e motivar uma investigação detalhada com métodos de imagem complementares (Figura 1).

Figura 1
Apresentação clínica da Pericardite Constritiva

A PC apresenta subtipos com relevância diagnóstica e terapêutica:

  • Pericardite Constritiva Transitória (PCT): está associada à presença de inflamação ativa e espessamento pericárdico reversível, caracteriza-se por resolução espontânea ou após terapia anti-inflamatória (AINEs, colchicina ou corticosteroides), sendo importante a identificação precoce para evitar pericardiectomia desnecessariamente.6,7

  • Pericardite Efusivo-Constritiva (PEC): definida pela persistência da fisiologia constritiva após a drenagem de derrame pericárdico significativo (PEff). O achado hemodinâmico clássico é a manutenção da pressão elevada no átrio direito após pericardiocentese. Hoje, a PEC pode ser identificada por ecocardiografia com sinais constritivos pós-drenagem.6,7

O principal diagnóstico diferencial da PC é com a miocardiopatia restritiva, como amiloidose e sarcoidose. A distinção é clínica, hemodinâmica e exame de imagem.

Dentre os exames de diagnóstico por imagem, podemos destacar:

  • Ecocardiograma Transtorácico (ETT): exame inicial para avaliação anatômica e hemodinâmica da PC. Ecocardiograma transesofágico e sob estresse geralmente não são necessários para diagnosticar pericardite. Limitações: incapacidade de identificar inflamação ativa ou fibrose.

  • Tomografia Computadorizada (TC): padrão ouro para identificação de calcificações pericárdicas e para planejamento cirúrgico, permitindo a visualização detalhada da relação com estruturas adjacentes.

  • Ressonância Nuclear Magnética (RNM): modalidade complementar que avalia espessamento pericárdico (> 3 mm), edema (T2-STIR), inflamação (LGE) e resposta terapêutica. É útil também no planejamento cirúrgico e no seguimento de formas reversíveis.

  • Cateterismo Cardíaco (CC): utilizado quando exames não invasivos são inconclusivos. Demonstra equalização das pressões diastólicas, sinal da raiz quadrada e discordância respiratória entre as pressões sistólicas do VD e VE. Embora invasivo, continua sendo um padrão de referência para confirmação em casos duvidosos.

A Tabela 1 resume as principais indicações de cada método diagnóstico.

Tabela 1
Indicações para Modalidades de Imagem na Pericardite Constritiva

Avaliação ecocardiográfica: passo a passo

Durante a avaliação ecocardiográfica é mandatório a utilização de métodos como o Modo-M e o Doppler. Para uma avaliação ecocardiográfica ideal o respirômetro sempre deve ser usado, especialmente para avaliação de parâmetros como a movimentação septal, variação dos fluxos atrioventriculares, Doppler da veia hepática e veia cava superior.

Os principais critérios ecocardiográficos incluem:

  1. Espessamento pericárdico: apesar de nem sempre presente, a identificação de pericárdio espessado ou calcificado é sugestiva, além da avaliação do derrame pericárdico.

  2. Alterações hemodinâmicas características:

    • Desvio septal relacionado à respiração ("septal bounce"): movimento abrupto do septo interventricular durante a diástole, com deslocamento anterior na inspiração e posterior na expiração (Figura 2), refletindo a dependência ventricular exacerbada.

    • Variação respiratória das velocidades de enchimento mitral e tricúspide: variação inspiratória do fluxo mitral (onda E) acima de 25% e do fluxo tricúspide (onda E) acima de 40%.

    • Padrão restritivo de enchimento diastólico: relação E/A acima de 2 e tempo de desaceleração da onda E mitral menor que 140 ms.

    • Velocidade do fluxo reverso diastólico final expiratório na veia hepática: relação entre a velocidade de fluxo diastólico final reverso e anterógrado ≥ 0,8 é altamente específica.

  3. Achados do Doppler Tecidual:

    • Velocidade preservada ou aumentada da onda e’ medial do anel mitral: onda e’ medial ≥ 9 cm/s é altamente específico para PC.

    • "Annulus reversus": velocidade da onda e’ medial é maior que a onda e’ lateral, devido ao efeito da restrição pericárdica.

  4. Dilatação e ausência de colapso da veia cava inferior e veias hepáticas: sinal de pressão atrial direita elevada.

Figura 2
Variação respiratória no movimento do septo interventricular.

A combinação dos achados acima aumenta a acurácia diagnóstica, especialmente, a presença do desvio septal respiratório associado a onda e’ medial ≥ 9 cm/s ou reversão diastólica expiratória do fluxo hepático apresentam sensibilidade e especificidade elevadas para o diagnóstico de PC.7

Um tradicional estudo desenvolvido pela Mayo Clinic avaliou 130 pacientes com PC confirmada cirurgicamente, utilizando as cinco principais variáveis ecocardiográficas selecionadas com base em estudos prévios, com o objetivo de avaliar a sensibilidade e a especificidade dessas variáveis, isoladamente ou em combinação, sendo as seguintes: alterações na movimentação do septo interventricular, que incluem o respirophasic septal shift e o septal bounce, variação na velocidade da onda E do fluxo mitral, velocidade da onda e’ no anel septal mitral, relação da onda e’ no anel mitral septal e lateral, fluxo reverso diastólico expiratório na veia hepática.8

Além dessas variáveis, a utilização do strain global longitudinal e do ecocardiograma tridimensional podem oferecer informações adicionais.

O uso integrado de critérios anatômicos e funcionais é fundamental para diferenciar pericardite constritiva de miocardiopatia restritiva (Tabela 2) e outras causas de insuficiência cardíaca diastólica.

Tabela 2
Principais características clínicas, ecocardiográficas e laboratorial para o diagnóstico diferencial

A Figura 3 demonstra um fluxograma prático para a abordagem diagnóstica ecocardiográfica na suspeita clínica de PC.

Figura 3
Avaliação ecocardiográfica na Pericardite Constritiva.

Diagnóstico diferencial: Pericardite Constritiva vs Miocardiopatia Restritiva

Pericardite constritiva e miocardiopatia restritiva compartilham sintomas de disfunção diastólica, mas há diferenças marcantes, conforme resumido na Tabela 3.

Tabela 3
Parâmetros de imagem para o diagnóstico diferencial

Conclusão

A PC é uma condição complexa, mas potencialmente tratável, seu diagnóstico requer uma abordagem sistemática que combine sinais clínicos e ferramentas de imagem. A ecocardiografia é essencial na triagem inicial, mas a avaliação por imagem multimodal é importante para identificar inflamação, fibrose e orientar o tratamento. A adoção de um protocolo integrado permite diagnóstico precoce, evita intervenções desnecessárias e contribui para melhores desfechos.9-19

  • Fontes de Financiamento
    O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.
  • Vinculação Acadêmica
    Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.
  • Aprovação Ética e Consentimento Informado
    Este artigo não contém estudos com humanos ou animais realizados por nenhum dos autores.
  • Uso de Inteligência Artificial
    Durante a preparação deste trabalho, o(s) autor(es) usaram Canva para criação da Figura Central do manuscrito. Após o uso desta ferramenta/serviço, o(s) autor(es) revisaram e editaram o conteúdo conforme necessário e assumem total responsabilidade pelo conteúdo do artigo publicado.

Disponibilidade de Dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Editado por

  • Editor responsável pela revisão:
    Marcelo Tavares

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    25 Maio 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    19 Jan 2026
  • Revisado
    29 Jan 2026
  • Aceito
    29 Jan 2026
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