Resumo
Pesquisas sobre os efeitos não visuais da luz demonstram que exigências tradicionais de iluminação, focadas exclusivamente no desempenho visual, são insuficientes para assegurar a saúde e o bem-estar. Objetivou-se comparar as métricas circadianas Equivalent Melanopic Lux (EML) e Circadian Stimulus (CS), calculadas a partir de dados experimentais obtidos em estudo de campo com participantes (n=16) em câmara climática localizada em Karlsruhe, Alemanha (49,0069° N; 8,4037° L), sob diferentes condições de exposição luminosa, considerando normas e certificações vigentes. Analisou-se a conformidade das situações de exposição luminosa quanto à satisfação dos usuários e às respostas fisiológicas durante o período de exposição. Os resultados indicaram que, embora exista convergência entre as duas métricas, ocorreram divergências quanto à invariabilidade do CS em relação ao tipo de exposição luminosa, bem como diferenças entre ambas quanto ao mínimo diário requerido para estímulo circadiano. Em relação aos dados de campo, os resultados evidenciaram divergências entre a satisfação com o ambiente luminoso, as respostas fisiológicas, representadas pela evolução da temperatura da pele durante as sessões experimentais, e as métricas analisadas. A principal contribuição do estudo foi verificar a consistência de métricas introduzidas recentemente pela Commission Internationale de l`Eclairage quanto a dados de campo e de satisfação do usuário.
Palavras-chave
Iluminação integrativa; Lux melanópico equivalente; Estímulo circadiano; Satisfação do usuário; Temperatura de pele
Abstract
Research on the non-visual effects of light demonstrates that traditional lighting requirements, which focus solely on visual performance, are inadequate for ensuring health and well-being. This study compared the circadian metrics Equivalent Melanopic Lux (EML) and Circadian Stimulus (CS), calculated from experimental data collected in a field study involving participants (n=16) in a climate chamber in Karlsruhe, Germany (49.0069° N; 8.4037° E), under various light exposure conditions and in accordance with current standards and certifications. The analysis assessed the consistency of light exposure conditions with user satisfaction and physiological responses during the exposure period. The findings indicated that, while the two metrics generally converged, there were notable divergences, particularly regarding the invariability of CS across different types of light exposure and differences in the minimum daily requirement for circadian stimulation. Analysis of the field data revealed inconsistencies between satisfaction with the lighting environment, physiological responses (as indicated by changes in skin temperature during the experimental sessions), and the evaluated metrics. The primary contribution of this study is the verification of the consistency of the metrics recently introduced by the Commission Internationale de l`Eclairage with field data and user satisfaction.
Keywords
Integrative lighting; Equivalent melanopic lux; Circadian stimulus; User satisfaction; Skin temperature
1 Introdução
A iluminação ambiental para fins visuais é amplamente estudada, com normas luminotécnicas que estabelecem métricas consolidadas, baseadas majoritariamente em índices de iluminância no plano de trabalho, na limitação ou prevenção de ofuscamento e no controle do índice de reprodução de cores. No entanto, com a descoberta por Berson, Dunn e Takao (2002) das ipRGCs1, responsáveis pela produção do fotopigmento melanopsina (Vetter et al., 2022), passou-se a incluir também os efeitos não visuais da luz em humanos. Estes estão diretamente ligados ao ciclo circadiano, um período de aproximadamente 24 horas cuja regulação depende da exposição aos ciclos de claro-escuro da luz natural (NIGMS, 2023). Este mecanismo está ligado à regularização de várias funções corporais, como os ciclos de sono-vigília, o metabolismo, as funções imunológicas, a saúde cardiovascular, a regulação da temperatura corporal e a secreção de hormônios, entre outros (Rahmati et al., 2025).
Rahmati et al. (2025) afirmam que a dessincronização circadiana provocada por demandas comportamentais, pela prática de turnos de trabalho ou por fatores ambientais tem sido associada a inúmeros distúrbios, dentre eles, a maior ocorrência de doenças autoimunes, neurodegenerativas, metabólicas e cardiovasculares nos músculos e ossos, disfunções do sono, esclerose múltipla, diabetes tipo 1 e 2 e asma (Neves et al., 2022). Outras patologias de ordem mental também estão associadas à disrupção circadiana como a depressão afetiva sazonal, a ansiedade, a desordem bipolar e a esquizofrenia (Walker et al., 2020).
Dada a importância do assunto, em 2020, o termo “integrative lighting” (iluminação integrativa) foi incluído no vocabulário internacional de iluminação pela Commission Internationale de l’Éclairage (CIE). Reforçando a relevância do tema, desde 2019 a mesma entidade tem indicado a iluminação integrativa como tópico cuja exploração deve ser prioritária em pesquisas de iluminação ambiental (CIE, 2019).
Nesse contexto, ainda persistem lacunas em seu entendimento. Métricas Circadianas (MCs) vêm sendo desenvolvidas, porém ainda não há consenso quanto a configurações, horários e tempo de exposição, bem como quanto à avaliação do grau de alinhamento destas recomendações às normas luminotécnicas vigentes, voltadas unicamente ao conforto visual. A adoção dessas metodologias por órgãos certificadores de edificações sustentáveis pode indicar um viés mercadológico, promovendo greenwashing e healthwashing de empreendimentos (Baum; Labonte, 2014; Houser; Esposito, 2021; Houser et al., 2021).
Devido à natureza interdisciplinar do tema, é necessário que haja uma abordagem multidimensional, que integre não apenas as condições luminosas, mas também marcadores biológicos. Dentre esses, citam-se a variabilidade da frequência cardíaca (Boudreau et al., 2012), a pressão arterial (Smolensky et al., 2007) e a temperatura corporal (Buhr; Yoo; Takahashi, 2010), a qual possui uma flutuação diária variando tipicamente de 0,8 a 1,0 °C (Moore-Ede; Sulzman; Fuller, 1982; Cagnacci et al., 1996).
A temperatura corporal oscila conforme os padrões de sono e vigília (Harding; Franks; Wisden, 2019). Nesse processo, os ciclos claro-escuro atuam como o principal sincronizador do relógio circadiano (Czeisler; Buxton, 2010). Nesse contexto, a temperatura da pele acompanha o ritmo da temperatura corporal (Cuesta et al., 2017). Comparada a outros métodos para avaliar marcadores biológicos como coletas de amostras hormonais, medições de temperatura retal ou timpânica e ingestão de cápsulas telemétricas, a medição da temperatura de pele apresenta-se como uma solução não invasiva.
Desta forma, este trabalho compartilha as preocupações relatadas por Münch et al. (2020) para trabalhos em iluminação integrativa, quais sejam:
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determinação sobre a quantidade e qualidade da exposição à luz natural para otimização de funções fisiológicas e psicológicas;
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falta de consenso sobre métodos de pesquisa; e
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inexistência de especificações precisas para monitoramento de índices de exposição à iluminação diurna, além de escassa integração entre as disciplinas relacionadas ao assunto.
Nesse contexto, este estudo teve como objetivo comparar as métricas circadianas Equivalent Melanopic Lux (EML) e Circadian Stimulus (CS), calculadas a partir de dados experimentais obtidos em estudo de campo com participantes em câmara climática sob diferentes condições de exposição luminosa. Determinou-se a conformidade dessas métricas com as normas e certificações vigentes de iluminação, comparando-se dados objetivos e subjetivos relacionados à percepção visual, bem como respostas fisiológicas dos participantes da pesquisa.
2 Metodologia
Nesta seção, são apresentados os critérios de seleção das MCs, seus respectivos métodos de cálculo, a definição dos valores de referência, bem como as normas e certificações de iluminação que balizaram a pesquisa. Também é apresentada a metodologia da pesquisa de campo, com a descrição do ambiente experimental, da amostra avaliada, dos equipamentos utilizados na coleta de dados ambientais, do instrumento utilizado para a coleta de dados subjetivos de satisfação do usuário e do procedimento adotado na coleta de dados fisiológicos.
2.1 Seleção de MCs, métodos de cálculo e valores de referência
Segundo revisão de artigos que citam métricas de iluminação integrativa realizada por Moraes e Martau (2024), as duas MCs mais adotadas em publicações indexadas nas bases Scopus e Science Direct foram o Equivalent Melanopic Lux ou Lux Melanópico Equivalente (EML, em lux) e o Circadian Stimulus ou Estímulo Circadiano (CS, adimensional) citados respectivamente em 75% e 13% dos estudos relacionados ao tema. Tamura e Krüger (2025), por sua vez, conduziram uma revisão da literatura em bases nacionais sobre o mesmo tema, identificando que 53,6% dos trabalhos avaliados utilizaram o EML como métrica circadiana, 21,4% utilizaram o CS, e 14,3% utilizaram ambos. Desta forma, selecionaram-se o EML e o CS para esta análise.
2.1.1 Lux Melanópico Equivalente (Equivalent Melanopic Lux - EML)
O EML quantifica os efeitos biológicos da luz decorrentes das ipRGCs. Foi inicialmente proposto por Lucas et al. (2014) para converter a iluminância fotópica (medida em lux fotópico) em valores que consideram a sensibilidade espectral da melanopsina, possibilitando estimar seu potencial de supressão e de estimulação circadiana da luz. O EML é obtido pela razão M/P (melanopic/photopic ratio ou razão entre lux melanópico/lux fotópico), considerando a fonte de luz e sua distribuição espectral (Lucas et al., 2014).
O EML possui uma relação direta e proporcional à Melanopic Equivalent Daylight Illuminance ou Iluminância da Luz do Dia Melanópica Equivalente (mEDI, em lux), métrica adotada posteriormente pela CIE como padrão (CIE, 2018). Diferentemente da EML, que não considera a fonte luminosa, mas se fundamenta apenas na distribuição de potência espectral, a mEDI assume a luz natural como valor de referência, dado seu potencial melanópico ideal. A proporcionalidade entre a mEDI e da EML é expressa pela relação mEDI = 0,9058 × EML (Lucas et al., 2014).
Para determinação dos valores de M/P utilizados na métrica EML, Lucas et al. (2014) atribuíram valores para cada um dos cinco fotorreceptores do olho humano (três cones, bastonetes e as ipRGCs), para um espectro de fonte de luz com distribuição uniforme de energia, designado CIE Standard Illuminant, com iluminâncias equivalentes à iluminância fotópica. Nessa situação, tem-se que M/P=1,0, ou seja, os valores de estímulo visual e não visual se igualam. Assim, para qualquer fonte de luz com espectro específico, o valor do EML estará relacionado ao lux fotópico por uma razão constante (IWBI, 2022).
2.1.2 Estímulo circadiano (Circadian Stimulus - CS)
O CS foi desenvolvido por Rea e Figueiro (2016), até então pesquisadores do Lighting Research Center (LRC)2. Esta métrica considera como variáveis de cálculo a distribuição espectral da irradiância e a incidência na córnea, ou seja, a iluminância vertical (Ev), com a incidência perpendicular ao olho. Seus valores variam de 0,1 (mínimo) a 0,7 (saturação). Valores maiores de 0,3 são considerados suficientes para supressão da melatonina e estimulação circadiana, quando há pelo menos uma hora de exposição.
A maior diferença entre as métricas selecionadas para a pesquisa é que, enquanto a EML baseia-se na sensibilidade espectral das ipRGCs (Chinchero et al., 2024), o CS considera que os cones e bastonetes também estão relacionados à resposta humana à iluminação não visual e ao estímulo circadiano. O índice CS consiste em uma métrica que contempla os fotorreceptores da retina, os mecanismos neurais de suporte, a anatomia e a fisiologia conhecidas da retina e do cérebro e as interações neurais (Rea; Figueiro, 2016).
2.2 Revisão de normas e certificações relevantes para as métricas utilizadas
No Brasil, apenas uma norma de iluminação menciona parâmetros melanópicos, a NBR 15215-4 – Iluminação natural: Verificação experimental das condições de iluminação interna (ABNT, 2023). Esta cita o conceito de luz para fins não visuais, bem como os índices EML e CS. Quanto ao CS, delimita o intervalo útil de 0 a 0,7 e sugere ferramentas de cálculo. Ressalta-se que, ainda que a Temperatura de Cor Correlata (TCC) exerça influência sobre o estímulo circadiano, a maior eficácia decorre da distribuição espectral da fonte de luz. Conforme apresentado no Appendix C – Tables do WELL Building Standard v2, diversas fontes de luz podem apresentar valores equivalentes de TCC, porém promover valores circadianos de intensidades distintas (IWBI, 2022).
Há ainda outra norma brasileira de iluminação, a NBR ISO/CIE 8995-1 - Iluminação de ambientes de trabalho (ABNT, 2013), que apesar de não fazer menção a parâmetros melanópicos, é baseada na ISO/CIE 8995-1. Esta última, apenas em sua atualização mais recente, de 2025, incorporou referências a métricas melanópicas como a mEDI, ou Melanopic EDI, em lux) e a Melanopic Daylight Efficacy Ratio ou Razão de Eficácia da Luz Diurna Melanópica (mDER ou Melanopic DER, adimensional). Todas estas relacionadas à norma complementar CIE S026 (CIE, 2018).
Na ausência de normas brasileiras específicas, buscou-se mais referências internacionais, como o guia da Underwriters Laboratories (UL) e a Certificação WELL.
O Department of Energy (DOE) dos Estados Unidos (DOE, 2020) menciona os índices CS e EML, promovidos pela UL e pela WELL, respectivamente, sendo este último fundamentado na norma CIE S 026 (CIE, 2018).
O guia da UL, publicado em 2019, elaborado a partir das contribuições de Rea e Figueiro (2016), estabelece parâmetros específicos para a estimulação circadiana e a supressão da melatonina por meio da iluminação elétrica. De acordo com a UL Design Guideline 24480 (Underwriters Laboratories, 2019), o estímulo circadiano deve ser distribuído em três períodos distintos ao longo do dia, correspondendo o primeiro ao período diurno (das 7h às 16h), caracterizado pela necessidade de manter um valor de CS ≥ 0,3; o segundo, referente ao entardecer (entre 17h e 19h), com CS ≤ 0,2; e o último, correspondente ao período noturno (das 20h às 6h), com CS ≤ 0,1. Para assegurar efeitos circadianos, o guia sugere que o valor recomendado de CS seja mantido por um intervalo mínimo consecutivo de duas horas no período diurno.
Na versão mais recente da certificação WELL v2: Q2 2025 (IWBI, 2025) flexibilizaram-se os valores de referência para EML, sugerindo-se que os valores mínimos sejam atendidos por quatro horas consecutivas, iniciando, no máximo, ao meio-dia. Ressalta-se que o índice CS não é mencionado pela certificação. As exigências de iluminação circadiana diferem para duas categorias:
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unidades habitacionais e dormitórios/quartos; e
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demais espaços.
Para os fins deste estudo, apresentam-se no Quadro 1 os requisitos referentes à segunda categoria. Dentro dela, distinguem-se critérios para projetos padrão e para projetos com luz solar otimizada.
A certificação WELL estabelece duas opções de valores mínimos para seu atendimento, conforme menor ou maior grau de exigência que se deseja atingir. Para este estudo, adotaram-se como referência os valores mínimos mais elevados de EML. Portanto, para iluminação natural, foi estabelecido que valores de EML acima de 180 Lux estariam cumprindo a função de estímulo circadiano e para as situações com iluminação elétrica, com persianas fechadas, utilizou-se o limite mínimo de 275 Lux para EML.
No Quadro 2, apresentam-se as recomendações e pontuações obtidas conforme o nível de exigência, para condições observadas no interior e na fachada.
2.3 Trabalho de campo
Os dados experimentais utilizados como base para os cálculos e análises desta pesquisa foram coletados por Tamura e Krüger (2016) entre 2014 e 2015 em Karlsruhe, Alemanha (49°N; 8,4°E), em uma câmara climática denominada LOBSTER (Laboratory for Occupant's Behavior, Satisfaction, Thermal Comfort and Environmental Research do Karlsruher Institut für Technologie - KIT). Essa pesquisa teve como principal objetivo verificar a influência da incidência de luz ambiental, solar ou elétrica, na percepção dos indivíduos e em outras funções biológicas não-visuais. Foi aprovada pelo comitê de ética do KIT, em 2/12/2014, previamente à coleta de dados com participantes recrutados pelos pesquisadores3.
2.3.1 Ambiente experimental
O LOBSTER é composto por duas salas contíguas, equipadas à maneira de escritórios, com mesas, cadeiras e computadores, configurando estações de trabalho (Figura 1). Cada sala possui uma fachada envidraçada, que permite a entrada de luz solar; cada janela também apresenta um sistema blackout, que permite obstruir completamente a entrada de luz natural para estudos com iluminação elétrica. Sua base é apoiada a um trilho circular que permite o giro da câmara em até 350°, possibilitando posicionar a fachada envidraçada em diferentes orientações cardeais.
As janelas dos ambientes-teste possuem dois tipos de vidro. Nas partes operáveis, aplicou-se vidro triplo com transmitância de luz visível (Visible Light Transmittance – VLT) igual a 70. Nas partes fixas, empregou-se vidro com VLT 72. Informações sobre o dimensionamento dos ambientes, bem como as relações janela-piso (Window to floor ratio - WFR) e janela-parede (Window to wall ratio – WWR) são descritas no Quadro 3.
As orientações de fachada adotadas nos experimentos foram determinadas com base em resultados de simulações computacionais (Weiss; Krüger; Tamura, 2015), a fim de se obter a máxima diferenciação no acesso à luz natural entre as fachadas e garantir a não ocorrência de ofuscamento no campo visual (à altura dos olhos). Com base nestes critérios e considerando obstruções do entorno e as condições de iluminação na latitude local, definiram-se as seguintes orientações de fachada:
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N/NW (azimute 335° - fachada não-equatorial) e SO (azimute 225°- fachada equatorial), para o inverno; e
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N/NW (azimute 335° - fachada não equatorial) e S/SO (azimute 200° - fachada equatorial), para primavera e verão.
Além dessas situações de luz natural, testou-se a situação de iluminação elétrica, sem contribuição de luz natural, com as venezianas fechadas. A cada estação, consideraram-se três dias para cada situação: exposição à fachada equatorial, não-equatorial e sem acesso à luz natural, com persianas fechadas e iluminação elétrica. Nos dias de experimento com iluminação elétrica, foram utilizadas lâmpadas fluorescentes OSRAM, com luz branca fria de 6500K e IRC≥70 (OSRAM, 2025). Em cada ambiente-teste, foram distribuídas quatro lâmpadas, e as luminárias foram direcionadas para o teto, de modo que a luz no plano de trabalho resultasse difusa.
As estações de trabalho dos participantes estavam centralizadas em relação à sala, entre a janela e a porta. Na extremidade das mesas, próximos à janela, estavam os espectrorradiômetros. Observa-se, ainda, que ambas as estações de trabalho se situam dentro da distância máxima da janela necessária para atender ao pré-requisito L05 da certificação WELL para espaços com iluminação solar otimizada. A transparência do vidro também atende ao pré-requisito de ser superior a 40% (Quadro 2).
2.3.2 Amostra obtida
A amostra é composta por 16 indivíduos, recrutados pelos pesquisadores por meio de anúncio no KIT, e devidamente remunerados. São estudantes alemães do sexo masculino, saudáveis, com as seguintes características: altura média de 1,80 m (± 0,06 m), peso médio de 80 kg (± 8,9 kg) e faixa etária de 25 anos (± 3,6 anos). Os participantes tiveram a alimentação e a vestimenta padronizadas durante a exposição, de modo a minimizar possíveis interferências na percepção subjetiva e na resposta fisiológica durante as campanhas experimentais. Os monitores de computador tiveram seu brilho ajustado de forma padronizada, sendo vedado o uso de aparelhos externos que emitem luz. Foi também proibida a realização de qualquer alteração no ambiente, como a abertura de janelas ou persianas. De modo a avaliar a heterogeneidade da amostra, foram aplicados questionários que possibilitassem a caracterização dos indivíduos em relação a variáveis cronobiológicas e ao sono: foram analisados o Índice de Massa Corporal (IMC), a qualidade do sono, a sonolência excessiva diurna, traços de ansiedade, estresse e desordem afetiva sazonal. Esses dados, de cunho confidencial, foram posteriormente anonimizados. Análises estatísticas posteriores comprovaram baixa significância estatística entre tais dados e as análises de percepção subjetiva.
Cada participante foi avaliado durante três sessões ao longo de três estações do ano e, durante as sessões, encontravam três configurações diferentes no ambiente-teste, em ordem aleatória: fachada com aberturas com orientação equatorial, com maior incidência de luz direta, fachada com aberturas voltadas em orientação não-equatorial, com luz predominantemente difusa, e iluminação elétrica com bloqueio da entrada de luz natural, por meio de persiana externas na fachada. Ao todo, cada indivíduo participou de nove sessões, com 12 campanhas experimentais em três estações do ano (inverno, primavera, verão), totalizando 36 campanhas.
2.3.3 Equipamentos utilizados, protocolo experimental e questionários aplicados
Os dados analisados no presente estudo referem-se a medições realizadas por dois espectrorradiômetros JETI, modelo Specbos 1201, previamente calibrados, um em cada ambiente-teste. Cada qual foi posicionado sobre a mesa dos participantes, em cada ambiente-teste, com altura de 0,75 m a partir do piso interno e distância de 1,50 m das janelas. A frequência das medições foi ajustada para cada 5 minutos, e os dados de outros momentos foram obtidos por interpolação. Para aferição dos níveis de Ev na altura dos olhos dos indivíduos, utilizou-se um actímetro com luxímetro acoplado, modelo Actiwatch Spectrum®, da Philips Respironics, fixado à testa de cada participante por meio de uma bandana. A partir desses equipamentos, foram obtidos os seguintes dados:
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com o espectrorradiômetro, distribuição espectral da fonte luminosa, TCC e comprimento de onda predominante;
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com o HOBO Lux Temp logger, a iluminância horizontal no plano de trabalho; e
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com o actímetro, a Ev próxima à altura dos olhos. Maiores detalhes de cada equipamento são apresentados no Quadro 5.
O experimento ocorreu das 8h às 13h no horário local, com cada ambiente-teste ocupado simultaneamente por dois participantes. Durante esse período, foram aplicados questionários idênticos de satisfação e de percepção do ambiente em três horários: às 8h50, às 10h30 e às 12h30. A intenção inicial era que as perguntas fossem respondidas a cada duas horas, mas o horário foi ajustado das 8h30 para as 8h50, assumindo-se um período mínimo de 50 minutos de permanência prévia no ambiente interno, a fim de garantir o controle térmico e a aclimatação dos participantes no curto prazo. Dado o objetivo deste estudo, consideraram-se somente as respostas para a seguinte pergunta: “O quão satisfeito você está com a iluminação?” As respostas foram registradas sob a forma de voto, em uma escala de -3 a +3, na qual valores mais baixos indicavam insatisfação, valores mais altos, satisfação, e 0, neutralidade. O questionário completo é apresentado por Tamura (2017), sendo que as questões relativas ao conforto visual foram baseadas no Questionário para Avaliação de Situações de Luz (da Deutsche Lichttechnische Gesellschaft e.V., Expertenforum Innenbeleuchtung - EFI).
O controle térmico foi realizado para padronizar as condições de exposição interna durante as sessões. As condições térmicas em ambos ambientes-teste (Sala 1 e Sala 2) foram controladas por meio de monitoramento em tempo real na Sala de Controle adjacente (conforme a Figura 1b). Tais condições foram ajustadas permanentemente de modo a permanecerem dentro da faixa de conforto térmico classificada de acordo com a ISO 7730 (ISO, 2005) como de ambientes Classe B. Para tais ambientes, a ISO 7730 prescreve que o Voto Médio Predito (PMV) deve permanecer entre ±0,5. Para tanto, as condições térmicas foram monitoradas internamente com um confortímetro ALMEMO 2690, em tempo real, processadas com a ferramenta online CBE Thermal Comfort da UC Berkeley (https://comfort.cbe.berkeley.edu/) e, quando identificados desvios significativos da faixa de conforto almejada, a temperatura na sala de controle foi ajustada pelos pesquisadores.
As condições de céu variaram ao longo das sessões. O Quadro 4 apresenta o planejamento experimental e as condições de céu observadas por sessão.
2.3.4 Monitoramento da Temperatura da Superfície da Pele (Tsp)
Em estudo anterior, avaliou-se se a Tsp poderia ser um indicador viável da resposta fisiológica às mudanças na exposição à luz (Tamura et al., 2021). Com relação a este marcador biológico, indaga-se, no presente estudo, se a exposição a três condições de luz (fachada equatorial e não-equatorial em condições de iluminação natural versus exposição à iluminação elétrica) impacta o funcionamento da Tsp ao longo de todo o período de 5 horas de exposição no ambiente termicamente controlado.
A Tsp (em °C) de cada participante foi medida em quatro pontos do corpo, de acordo com a norma ISO/FDIS 9886 (ISO, 2003), nomeadamente no pescoço, na escápula direita, na tíbia direita e na mão esquerda, com coeficientes de ponderação de 0,28 para os três primeiros pontos e de 0,16 para o último. As medições foram realizadas com sensores Thermochron iButton ‘DS1921H-F5 (Ibuttonlink, 2024). A seleção do sensor baseou-se nos resultados de Van Marken Lichtenbelt et al. (2006), que validaram o uso do equipamento para monitoramento da Tsp. A Figura 2 apresenta o equipamento iButton.
As especificações e precisão dos equipamentos utilizados para a coleta de dados, bem como as faixas de operação e frequência de registro são apresentados no Quadro 5.
Calcularam-se os valores médios dos dados fisiológicos coletados dos quatro participantes de cada sessão de experimento, obtidos em três sessões de exposição (para as duas orientações de fachada - equatorial ou não-equatorial, contrastadas com uma exposição à iluminação elétrica, sem contribuição de luz natural - persianas externas fechadas). Em termos de Tsp, consideraram-se as seguintes verificações:
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se há diferenças nos dados de temperatura nos ambientes-teste em função do tipo de iluminação (se o controle térmico é efetivo e não afetado pelas sessões com luz natural);
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se há diferenças nos dados de Tsp nas três estações do ano, para as três exposições de luz testadas; e
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se há diferenças notáveis nos dados de Tsp agrupados, observadas nas sessões com luz natural e com iluminação elétrica.
Para tanto, utilizou-se o teste t de Student pareado de modo a se comparar as médias de dois conjuntos de medições relacionadas, verificando-se sua significância estatística no software SPSS. A rejeição da hipótese nula (de não haver significância estatística) foi adotada com um nível de significância de 5%. Para avaliar a magnitude ou o tamanho do efeito das diferenças entre séries, utilizou-se o valor d de Cohen, com d ≤ 0,2 indicando um tamanho de efeito fraco, 0,2 < d ≤ 0,5 efeito modesto, 0,5 < d ≤ 1 efeito moderado, e d > 1 efeito forte (Yelpaze; Yakar, 2020).
2.4 Cálculo dos índices
Para o cálculo dos índices escolhidos, foram utilizadas ferramentas disponibilizadas pelo Light and Health Research Center (LHRC), a planilha online “CS Calculator 2.0” (https://cscalc.light-health.org/), e pelo International Well Building Institute (IWBI, 2022). Utilizando-se os dados das medições da distribuição espectral da fonte de luz e da Ev (coletada individualmente para cada participante), foi possível calcular cada índice, obtendo-se um resultado individual, em cada um dos três horários de resposta do questionário, para cada dia do experimento.
Para os cálculos de EML com iluminação natural, adicionaram-se os dados espectrais como fontes de luz customizadas na planilha “Melanopic Ratio” que resultaram em um valor de M/P, que, multiplicado por Ev, resultou na obtenção dos respectivos valores de EML. Para os cálculos de EML com iluminação elétrica, utilizou-se um valor constante de M/P, com base na distribuição espectral medida no experimento. Após o cálculo dos índices, procedeu-se à verificação de conformidade dos mesmos com base nos parâmetros de referência apresentados no Quadro 1.
Para os cálculos de CS com iluminação natural, foi utilizada a distribuição espectral resultante da medição in loco, utilizando-se o modo de fonte customizada de luz no “CS Calculator 2.0”. Para cada dia, horário e sala, foi adicionada uma nova fonte, aproximando-a da descrição do tipo de céu predominante em cada sessão. Para os cálculos de CS com iluminação elétrica, foi adotado o mesmo procedimento, adicionando-se uma distribuição espectral padronizada.
3 Resultados
Os resultados são apresentados separadamente para iluminação elétrica e natural, quanto às métricas circadianas (MCs). É apresentado um comparativo entre os dois tipos de iluminação avaliados, uma análise das respostas subjetivas e, por fim, a análise das respostas fisiológicas dos participantes sob diferentes exposições à luz, em contraponto aos resultados obtidos nas MCs.
3.1 Resultados para iluminação elétrica – MCs
No Quadro 6, apresentam-se valores referentes à razão M/P, os valores médios dos dois ambientes-teste, para a condição de iluminação elétrica, e os coeficientes de variação, calculados como a razão desvio padrão/média.
Razão entre lux melanópico e lux fotópico (M/P) - valores médios para as dois ambientes-teste e coeficientes de variação – iluminação elétrica
Para iluminação elétrica, os índices calculados de CS e EML, exceto em medições pontuais (2,1% das observações), superaram o valor mínimo para estímulo circadiano (Tabela 1). Embora a iluminação elétrica seja constante e apresente as mesmas características em todos os dias e horários, por se tratar de uma medição dependente de uma posição fixa no ambiente, desvios eventuais da posição adotada pelos indivíduos no ambiente-teste podem ter causado alguma alteração nos resultados.
3.2 Resultados para iluminação natural – MCs
De acordo com o guia da UL Design Guideline 24480 (Underwriters Laboratories, 2019) e a certificação WELL (WELL v2 Q2 2025), verificou-se a conformidade com os valores mínimos exigidos nas sessões experimentais, por estação. A partir desses resultados, observa-se que as duas métricas apresentam convergência (Figuras 3a e 3b).
A Figura 4 apresenta a porcentagem de dias nos quais, segundo dados das medições in loco, os indivíduos receberam estímulo circadiano suficiente, por pelo menos duas horas ou quatro horas consecutivas de estímulo circadiano, para CS e EML, respectivamente. Obteve-se um desempenho inferior para EML, devido à exigência mais rigorosa de quatro horas consecutivas de exposição.
Percentual de adequação às MCs, segundo tempos de exposição indicado pela certificação WELL e pela UL Design Guideline 24480 (2019)
3.3 Comparativo entre iluminação elétrica e iluminação natural
Nos boxplots, (Figuras 5a, 5b, 5c e 5d) são apresentados os principais valores e sua distribuição, por horário e por tipo de iluminação, com médias, valores mínimos e máximos, além do intervalo interquartil. Nota-se um aumento dos valores ao longo da manhã para os índices EML e CS quando a iluminação é natural, enquanto para a iluminação elétrica, há estaticidade nos valores. Desconsiderando-se os valores mínimos calculados para as MCs em todos os casos, o 1° quartil se encontra sempre acima do limite mínimo estabelecido para as métricas. Além disso, nota-se uma variação nesses limites entre iluminação natural e elétrica para EML, considerando-se flexibilidade quanto aos tipos de iluminação estabelecidos pela referência WELL, com níveis mínimos mais rigorosos para iluminação elétrica (Figura 5d).
3.4 Satisfação do usuário e conformidade com CS e EML
Analisam-se as percepções dos usuários em relação às situações de conformidade e não-conformidade com as MCs. Agruparam-se as respostas obtidas a partir da pergunta “O quão satisfeito você está com a iluminação?” em três categorias de percepção do usuário: positiva, neutra ou negativa, conforme o Quadro 7.
As respostas foram analisadas por estações do ano. Considerando que primavera e inverno mostraram majoritariamente situações de conformidade quanto às métricas, considerou-se relevante apresentar apenas dados de inverno. Foram analisadas as situações em que os resultados dos índices CS e EML estavam em conformidade ou não conformidade, avaliando-se as respostas de satisfação dos usuários (Figura 6).
Situações de conformidade e não conformidade versus satisfação do usuário (percepções positiva, neutra e negativa) para situações de luz natural no inverno
Foi possível notar que, em ambas as situações, houve o mesmo percentual de insatisfação; porém, nas situações de não conformidade, o percentual de satisfeitos (percepção positiva) foi maior. As situações de neutralidade, nas quais o participante mostrou-se indiferente quanto à iluminação, foram mais pronunciadas nas condições de conformidade. Na Figura 7, apresenta-se o mesmo para a condição de iluminação elétrica, para todas as sessões, nos três horários de aplicação de questionário, quanto ao grau de satisfação do usuário em relação à iluminação do ambiente.
Satisfação do usuário (percepções positiva, neutra e negativa) para situações de iluminação elétrica em todas as sessões por horário de preenchimento do questionário
Percebe-se uma diminuição gradual dos percentuais de insatisfação com a exposição prolongada à iluminação elétrica, o que pode indicar um ajuste no voto de satisfação inicial, uma vez que a iluminação elétrica é invariável. Considerando que a condição de iluminação elétrica está em conformidade com as MCs, notam-se percentuais significativos de percepções negativas (de até ¼ das respostas no primeiro horário).
3.5 Respostas fisiológicas: resultados de Tsp
Do total de 36 sessões experimentais, observou-se que a maioria das condições apresentou valores médios de PMV entre -0,2 e +0,2, correspondentes à faixa de ambientes térmicos classificados, de acordo com a ISO 7730 (ISO, 2005), como ‘Classe A’. No conjunto, as variações de PMV ficaram todas dentro da faixa de -0,5 < PMV < +0,5, classificadas pela mesma norma como ambientes de ‘Classe B’. Como os dias de teste foram consecutivos, as condições térmicas internas são bastante semelhantes entre os ambientes, em uma comparação pareada. O rigoroso controle térmico foi considerado suficiente para compensar possíveis impactos das condições térmicas do ambiente-teste sobre os dados termofisiológicos, neste caso, sobre a Tsp. Quanto a diferenças de temperaturas internas nos ambientes, em função do tipo de iluminação, o teste t de Student apontou uma diferença desprezível entre a sala com maior incidência de luz natural (orientação equatorial) e com iluminação elétrica (0,05 °C ± 0,50 °C, p > 0,05). Em contraste, o comportamento de Tsp nas 3 exposições luminosas apresentou tendências distintas (Figura 8), com diferenças estatisticamente significativas em cada uma delas.
Observa-se que a natureza estática da iluminação elétrica, sem flutuações significativas de intensidade e de composição espectral ao longo do tempo, pode ter influenciado o comportamento da Tsp. Estas características podem ter ocasionado a menor amplitude de sua variação, quando comparada às obtidas sob exposição a situações com iluminação natural. Esta baixa variabilidade é evidenciada ao analisar os valores de R² da evolução da Tsp nas situações de Iluminação Equatorial (Eq), Iluminação Não Equatorial (Neq) e Iluminação Equatorial (Elét). Os mesmos possuem, respectivamente, coeficientes de determinação que indicam alta precisão (92,72%), média (76,8%) e ajuste fraco (16,9%) dos valores de Tsp ao modelo de regressão linear simples. Tais fatores potencialmente levaram a alterações no ritmo circadiano.
A verificação das diferenças nos dados de Tsp entre as três estações do ano e entre as três exposições de luz testadas é apresentada na Tabela 2, com os resultados do teste t pareado por tipo de exposição.
Resultados do teste t pareado por tipo de exposição, por estação do ano, com tamanho de efeito (d)
Notam-se diferenças estatisticamente significativas na Tsp entre os 3 tipos de exposição, com tamanho de efeito (d de Cohen) de modesto a forte na comparação entre luz natural, seja esta equatorial ou não equatorial (Eq ou Neq), e iluminação elétrica (Elét), sendo mais destacado na comparação Eq vs. Elét, nas três estações. Entre Eq e Neq, exceto no verão, o tamanho do efeito é de modesto a moderado. Em termos de diferença média entre Tsp, a comparação entre Eq e Elét apresentou resultados mais significativos, corroborando as tendências observadas na Figura 8.
Evolução da Tsp média entre 9h e 13h, após permanência de 1 hora no ambiente, para as 3 exposições luminosas (Eq – luz natural com orientação equatorial da janela, Neq – luz natural com orientação não-equatorial da janela, Elét – iluminação elétrica)
Por fim, verificou-se se houve diferenças notáveis nos dados de Tsp agrupados, observadas nas sessões com iluminação natural e elétrica, em geral. A Tabela 3 apresenta os resultados do teste t pareado por tipo de exposição, incluindo o tamanho do efeito em cada caso e as correlações de Pearson (r) observadas entre os pares.
Resultados do teste t pareado por tipo de exposição, para os dados de Tsp agrupados, com tamanho de efeito (d) e correlação de Pearson (r)
Observa-se clara associação entre Eq e Neq, com coeficiente de correlação forte, que perde força na associação à iluminação elétrica nas duas condições de luz natural. Não se observam diferenças estatisticamente significativas entre as duas exposições à luz natural (p>0,05); porém, essas diferenças se tornam significativas entre cada uma dessas exposições e a exposição à iluminação elétrica. O tamanho do efeito se torna evidente, com valores elevados e semelhantes nas duas condições, Eq e Neq, quanto à exposição à iluminação elétrica.
4 Discussão
No que se refere às condições de exposição à iluminação elétrica, a conformidade entre as métricas avaliadas, CS e EML, bem como entre os dados de Tsp e as respostas subjetivas, foi contrastante.
Em trabalho anterior, com base em dados coletados com a mesma amostra, segundo o mesmo protocolo (Krüger, 2022), concluiu-se que a sensibilidade à iluminação é sazonal e que, no inverno, com níveis mais baixos de iluminância, pequenos incrementos na luz natural disponível têm maior impacto na percepção subjetiva. Analisando aspectos de conformidade e não-conformidade das MCs com as condições dos ambientes versus respostas subjetivas para essa estação do ano, a discrepância entre as situações de conformidade e não-conformidade com as MCs e a percepção subjetiva quanto à satisfação com a iluminação foi evidente. Uma vez que as respostas à pergunta “O quão satisfeito você está com a iluminação?” avaliava a satisfação dos participantes com a iluminação do ambiente, esperava-se que os votos positivos fossem quase unânimes para situações em conformidade e pouco significativos para não-conformidade. Porém, isso não se observou. Particularmente relevante foi o maior percentual de votos positivos em situação de não-conformidade e o inverso disso para o caso de conformidade, a exemplo do caso da luz natural no inverno. Quanto à condição de iluminação elétrica, com 100% de conformidade com os requisitos das MCs no segundo e terceiro horários de questionamento, permaneceu ainda certo percentual de percepções negativas de satisfação.
Os impactos da iluminação natural no ritmo circadiano e na saúde dos ocupantes de edifícios são componentes essenciais do projeto de edifícios saudáveis, sendo que a iluminação elétrica muitas vezes não atinge os níveis necessários para a sincronização circadiana (Mukherjee; Boubekri, 2025). O acesso à luz natural é uma das características de ambientes restauradores, os quais contribuem para a saúde mental e física do usuário, com impactos em sua satisfação (Beute; De Kort, 2018).
Conforme discutido em estudo anterior (Tamura et al., 2021), verificou-se uma dependência entre a Tsp e a luz natural disponível, como apresentado neste estudo. A fonte de iluminação elétrica, estática, pode ter influenciado o padrão da Tsp, favorecendo sua variação reduzida ao longo das horas da manhã, quando comparada à exposição à luz natural, dinâmica, no mesmo período. Esse comportamento afetou características luminosas, como a temperatura de cor correlata, fortemente correlacionada com o córtex circadiano, conforme descrito por Kulve et al. (2016), que apresenta a propriedade de causar alterações em variáveis, como a temperatura corporal central.
Entre o período da manhã e o início da tarde, quando as sessões ocorreram, a exposição à luz potencialmente afeta o relógio circadiano, podendo aumentar o estado de alerta (Andersen; Mardaljevic; Lockley, 2012). Na exposição à luz natural, propriedades como intensidade, cor e dinamismo resultaram em um aumento mais intenso de Tsp, conforme esperado em adultos saudáveis com ritmo circadiano regulado. As consequências das perturbações na Tsp devido à falta de luz natural disponível podem ser significativas, como o risco de doenças físicas (disfunções da frequência cardíaca, diabetes, obesidade, câncer) e psicológicas (depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, transtorno de déficit de atenção) (Karatsoreos, 2012; Baron; Reid, 2014), além de consequências negativas para a saúde mental (Kulve et al., 2016).
Conforme Mukherjee e Boubekri (2025), as métricas de iluminação circadiana avaliadas, CS e EML, consideram apenas a intensidade e o espectro da iluminação em um ponto fixo no tempo, não levando em conta a natureza dinâmica da iluminação natural. Considerando a importância da complementação da iluminação natural com a iluminação elétrica em sistemas responsivos (Bem, 2024), especialmente em períodos em que a luz natural é insuficiente (em razão da estação do ano ou de obstruções no entorno em ambientes urbanos), sob o aspecto puramente visual, as MCs analisadas podem não ser totalmente adequadas.
5 Conclusões
Pode-se observar a convergência das MCs para as situações avaliadas, no que se refere à promoção do estímulo circadiano conforme os limites estabelecidos entre elas, obtendo maiores divergências somente quanto ao número de horas de exposição mínima indicado por cada uma delas. Na comparação entre as condições luminosas do ambiente e a satisfação e bem-estar dos usuários, conforme obtidos em pesquisa de campo minuciosa, notaram-se discrepâncias com as MCs analisadas. Assim, evidenciam-se lacunas na padronização de parâmetros e limites de exposição.
Os resultados também evidenciam a consistência entre métricas de bases teóricas distintas, sugerindo que ambas podem ser aplicadas de forma complementar em avaliações de desempenho circadiano. No entanto, a não convergência entre a categorização favorável das condições de iluminação elétrica e os resultados da Tsp apontam para a necessidade de aprofundamento na discussão sobre a eficácia de MCs. Estas ainda não possuem a capacidade de abranger simultaneamente fatores fisiológicos e preferências subjetivas individuais, que podem inclusive se demonstrar antagônicas.
Ressalta-se que a satisfação quanto à iluminação ambiental pode estar diretamente ligada a fatores individuais como idade, atividade desenvolvida, tempo de exposição, patologias pré-existentes e mesmo fatores comportamentais. Assim, dada a complexidade e a natureza multidisciplinar do tema iluminação integrativa, continua sendo desafiador o processo de concepção de projetos lumínicos, cujas diretrizes contemplem de forma equânime necessidades fisiológicas, psicológicas e individuais de forma universal.
Os resultados da pesquisa sugerem que a consolidação de diretrizes normativas para iluminação integrativa deveria ser acompanhada de avaliações empíricas, com validação cruzada entre as metodologias, a fim de garantir recomendações mais precisas e aplicáveis.
Por fim, é importante ressaltar, como foi observado, que a correlação entre os níveis de conformidade luminosa e a satisfação dos usuários indica que, mesmo que haja uma tendência para uma opinião negativa em níveis de iluminância não conformes e para uma opinião positiva em situações de conformidade, é importante adotar, em futuros trabalhos de campo, uma abordagem sistêmica.
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Suporte Financeiro
Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pela concessão de Bolsa de Pós-Doutorado Júnior (Processo 152398/2024-4).
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MATTOS, F.; TAMURA, C.; KRÜGER, E. L. Iluminação integrativa: distinções entre métricas circadianas, normas e certificações e satisfação do usuário. Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 26, e153001, jan./dez. 2026. ISSN 1678-8621 Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. http://dx.doi.org/10.1590/s1678-86212026000100981
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Declaração sobre IA Generativa e Tecnologias Assistidas por IA no Processo de Escrita
Os autores declaram a não utilização de IA Generativa e Tecnologias Assistidas por IA no processo de escrita deste trabalho.
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1
Células ganglionares da retina intrinsecamente fotossensíveis, presentes em olhos de mamíferos.
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2
Centro de referência em pesquisas multidisciplinares orientadas à tecnologia da iluminação, vinculado ao Rensselaer Polytechnic Institute (RPI), localizado em Troy, Nova York, Estados Unidos.
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3
Observe-se que não há número do CAAE, uma vez que o Comitê de Ética é estrangeiro. Segue-se sistemática distinta, na qual o responsável pela pesquisa (ou o Principal Investigator – PI) defende a proposta de pesquisa perante um comitê da universidade, sendo elaborado um documento, sendo este apenas datado, com a decisão final do comitê.
Declaração de Disponibilidade de Dados
Dados de pesquisa somente disponíveis mediante solicitação ao autor correspondente.
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Enedir Ghisi









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