Resumo
Objetivo Realizar um mapeamento exploratório das evidências científicas disponíveis sobre os efeitos diretos e indiretos do uso de dispositivos eletrônicos para fumar na voz.
Estratégia de pesquisa Revisão de escopo conduzida segundo as diretrizes do manual do Joanna Briggs Institute e as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses—Extension for Scoping Reviews, com protocolo registrado na Open Science Framework. Foram utilizadas as bases de dados Embase, MEDLINE, Scopus, Web of Science, CINAHL e LILACS.
Critérios de seleção Foram incluídos estudos publicados em português, inglês ou espanhol, sem limitação temporal. Foram excluídos estudos com restrição de acesso ou não disponíveis na íntegra, mesmo após contato com os autores, bem como documentos provenientes da literatura cinzenta, além de cartas ao editor, artigos de opinião e resenhas.
Resultados Dos 279 estudos identificados, 6 atenderam aos critérios de elegibilidade. Achados diretos incluíram disfonia, alterações em parâmetros acústicos e impactos na qualidade de vida vocal. Achados indiretos incluíram epiglotite, inflamação supraglótica, lesões químicas e citotoxicidade das pregas vocais, que podem influenciar a função vocal ao longo do tempo.
Conclusão O mapeamento exploratório sugere que o uso de dispositivos eletrônicos para fumar pode afetar a voz por meio de efeitos diretos e indiretos. Apesar desses achados, as evidências disponíveis permanecem limitadas, destacando a necessidade de estudos longitudinais e experimentais para compreender com mais precisão os impactos do cigarro eletrônico sobre a função vocal e a saúde laríngea.
Palavras-chave:
Cigarro eletrônico; Voz; Distúrbios de voz; Revisão; Revisão de escopo
Abstract
Purpose To conduct an exploratory mapping of the available scientific evidence on the direct and indirect effects of Electronic Nicotine Delivery Systems (ENDS) use on the voice.
Research strategy A scoping review conducted according to the Joanna Briggs Institute guidelines and the Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses—Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR), with the protocol registered on the Open Science Framework. The databases searched included Embase, MEDLINE, SCOPUS, Web of Science, CINAHL, and LILACS.
Selection criteria Studies published in Portuguese, English, or Spanish were included, without time restrictions. Studies with restricted access or not available in full text, even after contacting the authors, as well as grey literature, letters to the editor, opinion articles, and reviews, were excluded.
Results Of the 279 studies identified, 6 met the eligibility criteria. Direct findings included dysphonia, changes in acoustic parameters, and impacts on voice-related quality of life. Indirect findings included epiglottitis, supraglottic inflammation, chemical lesions, and cytotoxicity of the vocal folds, which may influence vocal function over time.
Conclusion The exploratory mapping suggests that the use of ENDS may affect the voice due to both direct and indirect effects. Despite these findings, the available evidence remains limited, highlighting the need for longitudinal and experimental studies to better understand the impacts of electronic cigarettes on vocal function and laryngeal health.
Keywords:
E-cigarette; Voice; Voice disorders; Review; Scoping review
INTRODUÇÃO
O tabaco é reconhecido mundialmente como uma das principais causas de morbidade e mortalidade humana(1). Essa substância é o principal fator de risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como neoplasias e patologias cardiovasculares e respiratórias, a exemplo da doença pulmonar obstrutiva crônica(2) .Em 2019, mais de sete milhões de mortes foram atribuídas ao seu consumo, além de mais de um milhão relacionadas à exposição ao fumo passivo(3).
Diante desse cenário, diversos países têm firmado compromissos globais voltados à cessação do tabagismo, por meio de ações integradas de prevenção de agravos e promoção da saúde. Contudo, o surgimento de novos produtos no mercado, como os dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), representa um desafio para essas estratégias, uma vez que seu uso tem sido associado ao aumento do risco de iniciação ao tabagismo(4).
Os DEFs se diferenciam dos cigarros convencionais por não envolverem a combustão do tabaco. Em geral, são compostos por uma bateria de lítio, atomizador e reservatório de líquido, que pode conter nicotina, propilenoglicol, glicerina vegetal e aromatizantes(5,6).
Embora o conceito remonte à década de 1960, os DEFs foram introduzidos comercialmente no início dos anos 2000 por uma empresa chinesa e difundiram-se amplamente sob diferentes denominações(7). Esses dispositivos podem apresentar formatos semelhantes aos cigarros tradicionais, charutos, cachimbos ou até mesmo a objetos cotidianos, como canetas e pendrives (8-10). O mercado é dinâmico, com lançamentos constantes de novos modelos(11), e a indústria frequentemente os promove como produtos de menor impacto à saúde(12).
Apesar da proibição de comercialização em alguns países, os DEFs continuam sendo facilmente adquiridos pela internet, o que evidencia a necessidade de fortalecer as políticas de regulação e controle. A publicidade digital desempenha papel central nessa disseminação: segundo estudo(13), a internet favorece a promoção dos DEFs mesmo em contextos de forte regulação, configurando um desafio relevante para a saúde pública.
Essa popularização tem motivado o aumento de pesquisas sobre seus efeitos na saúde humana; nesse sentido, autores(14) observaram crescimento expressivo no uso dos DEFs, tanto entre fumantes (de 7,8% para 18,3%), quanto entre não fumantes (de 1,1% para 2,2%), atribuindo esse aumento à percepção equivocada de que seriam inofensivos. Dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) confirmam essa tendência: 6,7% dos adultos brasileiros já utilizaram DEF e 2,32% são usuários atuais, o que corresponde a, aproximadamente, 2,4 milhões de pessoas com experiência de uso e cerca de 800 mil consumidores habituais ou ocasionais(6).
Diversos estudos já documentaram os efeitos adversos do tabagismo convencional sobre a laringe, as vias aéreas superiores e a qualidade vocal(15-17). Contudo, os impactos dos DEFs sobre essas estruturas e sobre a voz ainda permanecem pouco esclarecidos. Paralelamente, há evidências robustas sobre a crescente popularidade desses dispositivos, especialmente entre jovens(18,19).
Diante da rápida expansão do uso dos DEFs, de sua potencial associação com o tabaco convencional e da possibilidade de efeitos negativos sobre a saúde geral e vocal, torna-se fundamental compreender o cenário atual das evidências científicas sobre o tema. Tal compreensão é essencial para subsidiar estratégias de prevenção de agravos, promoção da saúde vocal e desenvolvimento de abordagens terapêuticas direcionadas aos possíveis danos decorrentes do uso desses dispositivos.
OBJETIVOS
Realizar um mapeamento exploratório das evidências científicas disponíveis sobre os efeitos diretos e indiretos do uso de dispositivos eletrônicos para fumar na voz.
ESTRATÉGIA DE PESQUISA
Trata-se de uma revisão de escopo conduzida de acordo com as diretrizes metodológicas do Joanna Briggs Institute (JBI). A redação e a organização do manuscrito, por sua vez, seguiram as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses — Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR). O protocolo desta revisão foi previamente registrado na plataforma Open Science Framework, sob o registro OSF.IO/DNR3A.
Foram definidas as seguintes etapas para o desenvolvimento do estudo: 1) identificação da questão de pesquisa; 2) estabelecimento dos critérios de elegibilidade alinhados à questão de investigação e ao objetivo proposto; 3) elaboração da estratégia de busca; 4) identificação e seleção dos estudos relevantes; 5) extração dos dados; 6) sumarização dos resultados obtidos.
Com base no acrônimo PCC (população, conceito e contexto), em que população corresponde aos usuários de DEFs e conceito refere-se aos impactos vocais decorrentes do uso dos DEFs, definiu-se a seguinte questão de investigação: “Quais são as evidências científicas sobre os efeitos direitos e indiretos dos dispositivos eletrônicos para fumar na voz?”.
Salienta-se que, no que tange ao contexto, houve uma decisão deliberada de não delimitá-lo por meio de descritores específicos. Tal opção metodológica visou assegurar a máxima abrangência do mapeamento, permitindo a inclusão de evidências provenientes de qualquer cenário geográfico, cultural ou clínico, sem restrições que pudessem limitar o alcance dos resultados obtidos.
CRITÉRIOS DE SELEÇÃO
Foram incluídos estudos publicados em português, inglês ou espanhol, independentemente do período de publicação. Foram excluídos estudos com restrição de acesso (disponíveis apenas mediante assinatura) ou não disponíveis na íntegra, mesmo após contato com os autores por e-mail, bem como documentos provenientes da literatura cinzenta (resumos de congressos, anais de eventos, capítulos de livros, dissertações e teses), além de cartas ao editor, artigos de opinião e resenhas.
Ressalta-se que os pesquisadores tiveram acesso gratuito a diversos periódicos científicos por meio da rede interna da Universidade de São Paulo, Brasil. Em razão da novidade do tema e a limitada quantidade de estudos disponíveis, esta revisão adotou uma abordagem exploratória, com o propósito de mapear as evidências existentes, identificar lacunas na literatura e oferecer subsídios para investigações futuras.
As palavras-chave e os descritores utilizados na busca foram identificados nos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH), além de buscas prévias na literatura. Com base nos descritores selecionados, realizou-se a busca nas bases de dados Embase, MEDLINE, Scopus, Web of Science, CINAHL e LILACS, em maio de 2025 (Quadro 1).
Além disso, a partir dos textos incluídos, procedeu-se à análise de suas respectivas listas de referências, a fim de identificar e incorporar outros estudos que atendessem ao tema da pesquisa e aos critérios de elegibilidade previamente estabelecidos.
Análise dos dados
Os dados foram exportados e organizados na plataforma Rayyan (20). A triagem inicial foi conduzida por dois pesquisadores independentes, e um terceiro avaliador foi convidado a intervir em casos de divergência, contribuindo para a decisão final.
Os estudos selecionados nessa etapa foram submetidos à leitura na íntegra, permitindo análise criteriosa de sua relevância e adequação aos objetivos da revisão. A extração dos dados foi realizada por meio de uma ficha padronizada, elaborada pelos autores. Foram coletadas as seguintes informações: autor(es), ano e país de publicação, objetivo do estudo, participantes envolvidos, tipo de estudo e principais resultados.
RESULTADOS
A busca inicial recuperou 279 estudos, dos quais 169 foram removidos por duplicidade. Os 110 registros remanescentes foram submetidos à triagem de títulos e resumos, resultando na exclusão de 93 artigos que não atendiam aos critérios de inclusão. Dos 17 estudos selecionados para a leitura do texto completo, 11 foram excluídos após análise minuciosa.
Adicionalmente, procedeu-se à análise das referências dos estudos lidos na íntegra, o que resultou na identificação de 3 estudos potenciais. Contudo, esses documentos não foram contabilizados, pois já estavam contemplados nas buscas realizadas nas bases de dados. Ao final, 6(21-26) artigos compuseram esta revisão, conforme ilustrado na Figura 1.
Fluxograma Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses—Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)
Os estudos incluídos foram publicados entre 2015 e 2024, sendo 1(21) em 2015, 1(22) em 2019, 1(23) em 2020, 1(24) em 2023 e 2(25,26) em 2024, distribuídos em três países: 3(23,24,26) provenientes dos Estados Unidos da América, 2(21,22) da Turquia e 1 da França(25). A caracterização dos estudos pode ser visualizada no Quadro 2.
Em síntese, os estudos apresentaram delineamentos variados, desde experimentais até relatos de casos clínicos. No âmbito experimental e laboratorial, autores(24) observaram citotoxicidade em fibroblastos de pregas vocais humanas in vitro, enquanto outros(21) identificaram alterações morfológicas (hiperplasia e metaplasia) na mucosa laríngea de ratos expostos ao vapor.
Quanto aos estudos clínicos e de caso, as evidências em humanos descreveram danos agudos graves, como epiglotite em adolescente(23), ulceração em pregas vocais(25) e queimaduras térmicas em vias aéreas(26), manifestando-se clinicamente por rouquidão, disfagia e pigarro. Por fim, em estudo transversal com 81 voluntários, os autores(22) demonstraram que, embora o impacto acústico seja menor que o do cigarro convencional, usuários de dispositivos eletrônicos apresentam maior desvantagem vocal e alterações em medidas de ruído (Relação Harmônico-Ruído - HNR) quando comparados a não fumantes.
DISCUSSÃO
A presente revisão de escopo evidenciou que os efeitos diretos e indiretos dos DEFs sobre a voz configuram-se como um fenômeno multifacetado, em que agressões térmicas e químicas convergem para prejuízos teciduais e funcionais. Embora a literatura sobre o tema ainda seja emergente, os dados sugerem que a transição do tabaco convencional para os DEFs não elimina o risco vocal; ao contrário, introduz novos padrões de citotoxicidade e inflamação que desafiam a prática fonoaudiológica contemporânea.
Ao analisar a faixa etária dos participantes das amostras, notou-se um espectro que se estende da adolescência à terceira idade, confirmando a precocidade do acesso aos DEFs. Tal achado converge com a literatura atual, que destaca a popularidade desses dispositivos entre jovens, sem negligenciar sua presença em faixas etárias mais elevadas(27,28). Esse início precoce representa um agravante crítico para a saúde pública, exigindo que o rastreio do uso de DEFs seja incorporado precocemente às práticas fonoaudiológicas clínicas e preventivas.
Três(23,25,26) estudos de caso identificaram manifestações vocais importantes associadas ao uso dos DEFs, sendo a mais frequente a disfonia, caracterizada por rugosidade, soprosidade, rouquidão, dor faríngea, sensação de globus pharyngeus, afonia persistente, pigarro e secreção mucosa. Tais alterações laríngeas impactaram diretamente a voz dos indivíduos avaliados.
Estudo(29) salientou que a disfonia pode afetar significativamente a vida social e profissional das pessoas. Segundo os autores, independentemente da etiologia, a qualidade de vida tende a piorar devido às repercussões negativas que ultrapassam o campo da comunicação. Em paralelo, sintomas como rouquidão, soprosidade e fraqueza vocal também foram atribuídos ao uso da cannabis(30).
No plano clínico, as evidências de edema epiglótico e aritenóideo, lesões químicas, eritema e ulcerações em pregas vocais são alarmantes. Autores(31) confirmam essa gravidade ao descreverem alterações na coloração das pregas vocais e prejuízos respiratórios associados à inalação de vapores. Tais achados reiteram a urgência de estudos longitudinais que estabeleçam correlações precisas entre a vaporização de DEFs e danos laríngeos permanentes.
A variabilidade dos dispositivos e dos modos de uso surge como um fator de risco adicional; a troca frequente de líquidos e a transição entre o cigarro convencional e os DEFs podem potencializar os danos. Nesse contexto, estudo(32) destacou a magnitude do problema ao identificar mais de sete mil sabores e centenas de marcas no mercado, o que dificulta a padronização de análises toxicológicas e o controle de danos.
Ainda, autores(33) alertam que o uso dos DEFs entre adolescentes está associado à maior probabilidade de progressão para o tabagismo convencional. Esse achado reforça o entendimento dos DEFs como uma potencial “porta de entrada” para a dependência de nicotina, especialmente em um contexto marcado por estratégias de marketing atrativas, normalização do consumo e apelo direcionado a públicos jovens, o que amplia o risco epidemiológico de iniciação e manutenção do uso de produtos derivados do tabaco.
A frequência de uso relatada em um estudo(23) demonstrou relação direta com o diagnóstico de epiglotite, caracterizada pela inflamação aguda da cartilagem epiglótica, que pode evoluir para a obstrução das vias aéreas superiores. Fisiopatologicamente, a exposição frequente ao vapor e às substâncias químicas do DEFs podem causar injúria térmica e química direta na mucosa supraglótica, causando uma irritação severa e acúmulo de líquido nos tecidos. Esse processo dificulta a respiração e impede que as pregas vocais vibrem livremente, prejudicando a voz.
Estudo(22) evidenciou que nenhuma diferença significativa em relação aos valores de F0, jitter e shimmer entre os grupos (usuários de DEFS, usuários de cigarros convencionais e não fumantes que nunca haviam fumado) foi detectada. Contudo, uma diferença significativa foi detectada em relação aos valores de decibéis (dB) e razão de hormônio-ruído entre os grupos, o que os autores denominaram de "efeitos vocais leves". Esses achados reforçam a necessidade de novas investigações que explorem a relação entre frequência, quantidade e intensidade de uso dos DEFs e as manifestações vocais observadas. Sabe-se que variáveis como frequência de consumo, doses mensais e níveis de intoxicação são preditores de sintomas respiratórios, problemas sociais e dependência entre usuários de cannabis, e cada parâmetro de investigação pode produzir diferentes resultados(34).
Em estudo com fibroblastos de pregas vocais (24), foi demonstrado que os DEFs não são inertes às células: os resultados indicaram que não apenas a nicotina, mas também outros componentes dos produtos podem causar danos celulares. De acordo com outro estudo(35), o propilenoglicol e a glicerina vegetal, quando submetidos a altas temperaturas, formam compostos carbonílicos, substâncias químicas com toxicidade inalatória aguda e propriedades irritantes. Autores(36) acrescentam que a alta temperatura pode ocorrer de forma intencional, para produzir mais aerossol, ou acidentalmente, devido ao superaquecimento.
Em contrapartida, os estudos que avaliaram efeitos laríngeos e vocais dos DEFs apontaram, predominantemente, alterações discretas ou sem significância estatística. Em modelos experimentais com animais, os autores(37) identificaram alterações celulares e inflamatórias mínimas na laringe, enquanto outros(21) observaram hiperplasia e metaplasia da mucosa laríngea em ratos, ainda que tais achados não tenham alcançado relevância estatística.
No campo da avaliação vocal, o único estudo que analisou parâmetros acústicos(22), como já mencionado, revelou efeitos vocais leves dos DEFs quando comparados aos cigarros convencionais. De forma convergente, outros autores(38) não identificaram diferenças significativas nos parâmetros acústicos (frequência fundamental, jitter, shimmer e razão harmônico-ruído) entre fumantes e não fumantes. Esses resultados sugerem que, embora os DEFs possam induzir alterações iniciais ou subclínicas, especialmente em contextos experimentais ou de curto prazo, os efeitos vocais mensuráveis tendem a ser sutis, o que não exclui a possibilidade de agravamento progressivo com a manutenção do uso ou maior tempo de exposição.
A pontuação do Índice de Desvantagem Vocal (IDV) apresentou variações entre os participantes dos estudos(22,25), apesar de todos os indivíduos serem saudáveis e não possuírem alterações laringes prévias. Estudo(22) apontou que os valores médios do IDV dos usuários de cigarros convencionais foram maiores do que os dos usuários de DEFs (que relataram valores significativamente baixos) e do grupo de controle. Já em outro estudo(25), a disfonia foi percebida como grave e o IDV foi de 60 (grau moderado a severo de desvantagem vocal). Segundo autores(39), o IDV pode ser influenciado por aspectos subjetivos, uma vez que se trata de um instrumento de autoavaliação, e os efeitos do tabagismo podem ser percebidos de diferentes formas pelos indivíduos.
O número reduzido de estudos limitou os achados desta revisão, mas evidenciou tratar-se de um tema emergente e ainda incipiente na literatura científica, embora de grande relevância para a saúde pública. A exposição aos DEFs pode estar associada a consequências graves em longo prazo(40). Assim, conforme sugere estudo(21), os DEFs podem provocar alterações epiteliais nas pregas vocais. Entretanto, são necessárias pesquisas com amostras mais amplas e períodos prolongados de exposição para compreender plenamente seus efeitos em longo prazo.
Este estudo chama a atenção de especialistas clínicos e pesquisadores para algumas ações necessárias. Na prática clínica fonoaudiológica em voz, torna-se fundamental investigar, desde a adolescência, o uso de DEFs, bem como o tipo, a marca, a frequência e o consumo, sem, contudo, excluir essa investigação em faixas etárias mais elevadas.
Além disso, é essencial considerar as implicações fonoaudiológicas preventivas do uso dos DEFs. O fonoaudiólogo pode atuar na educação em saúde vocal, orientando indivíduos sobre os riscos potenciais desses dispositivos e promovendo hábitos de cuidado vocal desde cedo. A triagem sistemática de usuários de DEFs, com avaliação periódica da voz e das estruturas laríngeas, permite identificar precocemente alterações vocais e implementar estratégias preventivas ou de intervenção, contribuindo tanto para a redução de danos à saúde vocal, quanto para a promoção de comportamentos de prevenção na população.
Considerando a complexidade da produção vocal e sua interação com outros sistemas, como o respiratório, e os múltiplos fatores envolvidos, recomenda-se o desenvolvimento de pesquisas que relacionem essas variáveis. Tais estudos podem oferecer parâmetros mais precisos sobre o comportamento vocal e suas possíveis modificações decorrentes do uso contínuo dos DEFs.
A presente revisão resultou em uma quantidade reduzida de artigos e evidenciou heterogeneidade nos desenhos metodológicos, o que limitou a identificação de achados robustos de natureza epidemiológica, clínica ou terapêutica. Entre as limitações inerentes aos estudos incluídos, destacam-se o desenho da maioria das pesquisas, que impede a análise de alterações vocais ao longo do tempo, e a reduzida dimensão das amostras. Além disso, a falta de padronização na composição dos líquidos (variedade de marcas e teores de nicotina) e o conhecimento ainda incipiente sobre os mecanismos de lesão dificultam a generalização dos resultados.
Por outro lado, esse cenário evidencia lacunas importantes e aponta para a necessidade de investigações mais abrangentes e sistemáticas na área. As lacunas observadas reforçam a urgência de estudos longitudinais e experimentais que aprofundem a compreensão sobre as repercussões dos DEFs na voz, contribuindo para orientar condutas clínicas e subsidiar políticas de saúde voltadas à conscientização sobre os potenciais malefícios desses dispositivos.
CONCLUSÃO
O mapeamento exploratório sugere que o uso de DEFs pode afetar a voz por meio de efeitos diretos e indiretos. Apesar desses achados, as evidências disponíveis permanecem limitadas e fragmentadas, refletindo a escassez de estudos que investiguem de forma sistemática os impactos dos DEFs sobre a função vocal. Esses resultados destacam a necessidade de pesquisas longitudinais e experimentais, capazes de esclarecer os mecanismos subjacentes às alterações vocais e de fornecer subsídios para a prática clínica, prevenção e orientação de usuários quanto aos riscos do uso desses dispositivos para a saúde laríngea.
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Trabalho realizado na Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP – São Paulo (SP), Brasil.
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Declaração de Disponibilidade de Dados:
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo
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Financiamento:
Nada a declarar.
REFERÊNCIAS
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Editado por
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Editor-Chefe:
Renata Mota Mamede Carvallo.
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Editor Associado:
Leonardo Wanderley Lopes.
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