Open-access PRESENÇA DE PRINCÍPIOS ATIVOS TÓXICOS NAS SEMENTES DA LEGUMINOSA SESBANIA VIRGATA

"Toxic active principles in seeds of the leguminous plant Sesbania virgata"

RESUMO

Demonstrou-se a toxicidade das sementes da Sesbania virgata através da determinação de DL50 (0,79g/kg) em cobaias por via oral. Os animais apresentaram sinais e sintomas do tipo diarréia profusa, cólicas abdominais, depressão e anorexia. Na histopatologia, foram diagnosticadas lesões de gastroenterite hemorrágica e congestão de órgãos internos. Tais resultados sugerem a presença de substâncias irritantes à mucosa do trato gastrintestinal. A fração butanólica obtida do extrato etanólico das sementes de S. virgata mostrou-se tóxica para cobaias com dose letal em torno de 0,04g/kg, por via oral. Dessa fração, foram isolados e identificados os seguintes flavonóides: catequina, quercetina-3-galactosídeo e quercetina-3-glicosídeo.

PALAVRA-CHAVE
Sesbania virgata; flavonóides; gastroenterite hemorrágica.

SUMMARY

The toxicity of crude extract of seeds was investig•ated in guinea pigs. The DL50 value of the extract of seeds 0.89 g/kg. Diarrhea abdominal muscle contractions, depression and anorexia were observed in -most animals after drug administration. Histopatology examination showed hemorrhagic gastroenteritis and congestion of internal organs. Such results suggest the presence of irritant compounds to the mucosal surface of the gastrointestinal tract. Butanolic fraction obtained from ethanolic extract of S. virgata seeds showed toxic for guinea pigs weth lethal dose value of 0.04 g/kg, po. From this fraction, the following flavonoids were isolated and identified: catechin, quercetin-3-galactoside and quercetin-3-glucoside.

KEY-WORDS
Sesbania virgata; flavonoids; hemorrhagic gastroenteritis.

INTRODUÇÃO

Sesbania virgata (Figura 1) é uma leguminosa tóxica para bovinos, caprinos, ovinos, suínos e aViários, à semelhança de outras espécies do mesmo gênero tais como Sesbania drummondii (Daubentonia longifolia ou D. drummondii), S. punicea (D. punicea), S. vesicaria (Glottidium vesicarium), S. cananillesii e S. cannabine (2, 7, 8, 9, 15, 17, 18). Muitos compostos foram isolados entre os quais sesbanimidas com atividade citotóxicas (10, 13); drummondonas (12), justicidina-B (5), kaempferol-3-7-0dirramnosídeo (3); kaempferol-3-7-0-diglicosídeo, leucociannidina e cianidinna-3-glicosídeo (1) e sapogenina (ácido aleanólico e ácido queratoróico) (11). Entretanto, seus princípios tóxicos são ainda desconhecidos.

A Seção de Bioquímica Animal do Instituto Biológico de São Paulo recebeu amostras de favas de Sesbania virgata, planta muito cultivada em áreas públicas, para verificar a presença de toxicidade visto que foi constatada a ocorrência de intoxicação acidental em crianças de uma creche do Município de São Paulo em 1986.

Devido a ausência de relatos na literatura sobre esta planta, iniciou-se a pesquisa com suas sementes pois elas representam a parte mais tóxica das espécies do gênero Sesbania.

MATERIAL E MÉTODOS

Preparação do sumo - As folhas, favas frescas e secas da S. virgata foram coletadas na área metropolitana do município de São Paulo (Cidade Universitária) nos meses de abril e maio, época em que ocorre a maturação da semente. A planta foi identificada no herbário do Instituto de Botânica de São Paulo. O sumo foi obtido de 30g de folhas e favas frescas por prensagem hidráulica. Da mesma forma por prensagem, preparou-se o sumo das sementes após umedecimento com pequeno volume de água.

FIGURA 1
Sementes da leguminosa Sesbania virgata.

Animais - Utilizaram-se cobaias de ambos os sexos, de peso compreendido entre 250 e 300g, as quais foram mantidas em jejum por 12h, previamente, às experiências, dandolhes apenas água.

Toxicidade aguda - O ensaio de toxicidade aguda da S. virgata foi realizado, administrado a cobaias o sumo total obtido de folhas ou de sementes por via oral, através de sonda gástrica. As cobaias mortas foram submetidas à necropsia e seus órgãos fixados em solução de formol (20%), para posterior exame anatomopatológico. Os cortes teciduais foram efetuados pelo método de congelamento e a coloração pela hematoxilina e eosina. A fração butanólica do extrato etanólico, descrita em seguida, foi também utilizada para o estudo toxicológico. Os valores de DL5() foram calculados pelo método de THOMPSON (16) usando tabela de WEIL (19).

Isolamento de princwios - As sementes, secas e moídas, foram submetidas a extraçáo por Soxhlet e fracionadas por partição em diversos solventes, segundo metodologia adotada por POWELL (9) (Figura 2). A fraçáo butanólica foi fracionada por coluna cromatográfica em sílica-gel G (200300 mesh) e eluída com mistura de clorofórmio e metanol com polaridade crescente. As fraçóes coletadas foram controladas por placas cromatográficas em camada delgada em sílica-gel G, desenvolvida em clorofórmio-metanol (7:3) e reveladas com vapores de iodo e de amónia e em seguida visualizada em lâmpada de Wood. Os compostos puros foram posteriormente identificados através de métodos espectroscópicos em infravermelho, ultravioleta, ressonância magnética nuclear de prótons e carbono 13, além de espectro de massa.

FIGURA 1
Processo de extração e fracionamento com as sementes secas de Sesbania virgata. (+ letal e - não letal para cobaias por via oral).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O sumo da planta 3. fresca (folhas e favas) foi letal para cobaias 7h após sua administração por via oral , observando-se, nesses animais diarréia 4. profusa, cólicas abdominais, prostação, anorexia e gastroenterite hemorrágica. Efeitos semelhantes ocorreram após o tratamento das cobaias com o extrato de sementes secas ume- 5. decidas em água.

O extrato butanólico de sementes mostrou toxicidade 6. maior (0,04g/kg, per os) do que extrato de sementes secas umedecidas com água, com o valor de DL50 de 0,79g/kg.

Além dos sinais e sintomas já descritos, observaram-se dispnéia, mucosas cianóticas e episódios convulsi- 7. vos. Frente a esses achados, o extrato butanólico foi submeti8. do a fracionamento utilizando diversos solventes. Com exceção do extrato etérico, todos os demais causaram efeito letal 9. com a dose de 2g/kg, "peros'

A necropsia mostrou enterite levemente hemorrágica, congestão das vísceras, principalmente fígado e baço, mucosa gástrica hiperêmica, bexiga e vesícula biliar repletas, permeáveis e com conteúdo aparentemente normal. As altera- 11. çóes histopatológicas observadas foram: acentuadas lesões de endo e miocardite não purulenta, lesões de pneumonia intersticial crônica congestiva, áreas de enfisema e estenose 12. vasculares nos pulmões (alterações não relacionadas com princípio ativo), hiperplasia dos folículos linfóides no baço, estômago com discreta inflamação monolinfocitária, grave enterite crônica no segmento delgado e focos de lise da mu- 13. cosa, infiltração discreta de células monolinfocitária no segmento do intestino.

As sintomatologias clínicas, a letalidade e as alterações anátomo-histopatológicas descritas indicam presença de princípio(s) ativo(s) nas sementes da S. virgata capaz de causar irritação ao nível da mucosa do trato gastrintestinal.

O fracionamento do extrato butanólico permitiu o isolamento e identificação química de seguintes flavonóides: catequina (4), quercetina-3-galactosídeo e quercetina-3-17. glicosídeo (6). Pretende-se dar continuidade aos experimentos a fim de isolar e identificar as substâncias tóxicas.

AGRADECIMENTOS

A Dra. Elisabete A. Lopes do Instituto de Botânica de São Paulo, da Seção de Briologia e Pteriologia pela identificação botânica da planta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1989

Histórico

  • Recebido
    19 Jun 1989
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Instituto Biológico Av. Conselheiro Rodrigues Alves, 1252 - Vila Mariana - São Paulo - SP, 04014-002 - São Paulo - SP - Brazil
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