Este primeiro volume de 2026 da revista Alea reúne textos críticos de tema livre, mas com um eixo em comum: todos transitam por diferentes âmbitos do grande universo das letras neolatinas. Nessa linha, organizamos um sumário que, como sempre, sugere um possível mapa de leitura. Os quatro primeiros artigos estão direitamente focados em temas da cultura e do pensamento francês. O primeiro estuda a relação entre o sublime e o trauma na obra de Didi-Huberman, retomando seu valioso pensamento em torno da memória e da imagem e, de maneira pontual, a sua reflexão sobre as imagens de Auschwitz. O segundo explora momentos em que as obras de Georges Bataille e Jean-Paul Sartre entraram em contato, ressaltando a constante presença de duas palavras-chave nesse diálogo - escolha e decisão -, palavras que, segundo o autor do artigo, ainda poderiam ser pertinentes, para uma reavaliação da noção de engajamento na crítica e na teoria literária. O terceiro ensaio aproxima os trabalhos de Lacan, Deleuze e Guattari, para elaborar um horizonte conceitual que permite, ao autor, analisar o filme de Alain Resnais, com roteiro de Marguerite Duras, Hiroshima, mon amour (1959) , colocando em movimento noções como o real, o imaginário, o simbólico, o desejo, o sonho, dentre outros. No quarto artigo deste bloco, analisa-se a perspectiva do fantasma na obra de Hélène Cixous, sobretudo, o rastro fantasmagórico do primogênito negado que atravessa o seu primeiro livro ficcional, Le prénom de Dieu (1967), e o romance Le jour où je n’étais pas là (2000).
Na sequência, articulamos outro núcleo de textos que transitam pelos estudos comparados e tecem uma fina rede de aproximações entre autores do cânone da literatura francesa e autores de outros universos culturais e linguísticos: ecos de Michel de Montaigne em Il Gattopardo (2002), de Giuseppe Tomasi di Lampedusa; entrelaçamentos entre as obras e as vidas de Marcel Proust e Oscar Wilde, ambos leitores de Balzac, mostrando como certos movimentos da escrita de Proust evidenciam a leitura de Oscar Wilde, sob a sombra de Balzac; e fechamos esse conjunto com um original estudo comparado do poema em prosa “Mundo renovado”, de Manoel de Barros, e um dos últimos poemas que compõem Le Spleen de Paris de Charles Baudelaire, partindo da observação de aspectos da natureza e sua relação com a memória e a origem.
Desenhando outro segmento no mapa de leitura que o sumario propõe, apresentamos dois artigos que estudam textos da literatura brasileira: uma análise das relações cosmológicas entre as personagens humanas e não-humanas no romance O som do rugido da onça (2021), de Micheliny Verunschk, e um exame do livro Tá pronto, Seu Lobo? e outros poemas (2014), de Eloí Bocheco, focado na recuperação da tradição poética oral das parlendas na escrita contemporânea da poesia infantil brasileira.
Já na reta final do sumário, traçamos outro movimento de leitura voltado para o sistema literário hispano-americano. Esse núcleo de textos abre com um estudo de Kentukis (2021), de Samanta Schweblin, que retoma o tema da relação animalidade/humanidade mediada pelo dispositivo, postulando que, no romance de Schweblin, o conceito de dispositivo, notável por distinguir o homem de sua animalidade, toma outra forma: é o veículo para uma inversão ontológica, meio por onde o homem retoma a sua animalidade. Seguindo esse movimento hispano-americano, incluímos um texto que tece uma valiosa constelação conceitual (imaginação pornográfica, corpo utópico, heterotopias, pornotopias) para estudar a obra de Copi, o escritor e dramaturgo argentino, especificamente, a peça teatral que estreia em 1971, El homosexual o la dificultad de expresarse (2004). Já uma aproximação entre Octavio Paz e Roberto Bolaño é explorada no texto que segue, examinando uma concepção compartilhada da criação poética como uma forma de maternidade. A partir da interpretação que Paz faz de Sóror Juana Inés de la Cruz, o estudo investiga o papel das figuras poéticas femininas nas obras de Bolaño.
O tema da escrita da intimidade nos diários é o eixo de estudo do quarto texto deste último movimento de leitura de propensão hispano-americana no volume. Trata-se de uma reflexão sobre o diário da bailarina e professora argentina Natalia Perez, Apuntes de clase (2020) , um livro em que a experiência educativa, a escrita e a reflexão sobre o corpo se entrelaçam para configurar um verdadeiro espaço vital. Na sequência, incluímos um estudo que explora as transformações e desafios da crítica literária latino-americana na contemporaneidade, em face dos debates sociopolíticos e das mutações da literatura nas últimas décadas. O autor realiza um estudo, em diacronia, de noções e problemáticas da crítica literária nos séculos XX e XXI e desenha caminhos possíveis para uma prática crítica no futuro, consequente com os entraves do nosso tempo.
Nesse mesmo movimento de leitura, que circula por temas da literatura hispano-americana, articulam-se os quatro últimos artigos do volume. Assim, é possível ler um estudo da relação de Horacio Quiroga com o fenômeno da tradução literária, acompanhado de uma recopilação da obra traduzida de Quiroga entre de 1906 e 1938, composta por setenta e quatro textos traduzidos do espanhol para nove idiomas. O artigo seguinte traz uma aproximação à correspondência da poeta cubana Reina María Rodríguez, que participa da mudança no paradigma estético da poesia insular nos anos 1980, e acompanha as profundas tensões institucionais que esse cambio gerou, dados que aparecem comentados nos diálogos epistolares da escritora. O texto subsequente é um estudo das ficções da história no romance El Polvo y el oro (1998), do escritor cubano Julio Travieso, apontando para o tema da família e seu lugar na constituição da nação cubana. Para fechar a seção de artigos, incluímos uma reflexão sobre a carta, como modelo literário, como forma que molda o destino de certos textos e como fonte para o estudo de obras, autores e períodos históricos, particularizando com exemplos literários das Américas e revisando a longa discussão teórica que o gênero tem suscitado.
Fechando o sumário, na seção de Resenhas, incluímos um texto que apresenta a edição de Diário incontínuo (2024), do escritor português Mario Claudio, publicada pela editora Dom Quixote, de Lisboa. Trata-se de um livro que dialoga com a melhor tradição de escrita da intimidade, sem se restringir a ser um simples registro da vida cotidiana, mas um espaço estético e filosófico de elaboração do vivido. Neste diário, as memórias pessoais fundem-se com reflexões sobre a literatura, a arte e a condição humana, de modo que a dimensão individual se abre para um horizonte coletivo e cultural.
Colaboraram, com este número, pesquisadores das seguintes instituições brasileiras: Universidade Estadual de Campinas, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Londrina, Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Ceará, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Universidade Estadual da Paraíba e Universidade Estadual de Montes Claros.
Também contribuíram com o número pesquisadores das seguintes universidades estrangeiras: Universidade NOVA de Lisboa (Portugal); Universidad de Wuppertal (Alemanha); Universidad Científica del Sur (Peru); Universidade Nacional de Mar del Plata (Argentina); Universidad Autónoma de Coahuila (México); Instituto Superior Pedagógico Félix Varela de Villa Clara (Cuba) e Universidad de la República (Uruguai).
Agradecemos a todos por sua valiosa colaboração com Alea. Estendemos também nosso agradecimento à equipe de pareceristas que participou no processo de avaliação de originais, pelo tempo dedicado, pelas avaliações emitidas e pelo diálogo que alguns avaliadores mantiveram com os autores, mediado pelos editores, um diálogo sempre bem-vindo, porque garante a qualidade do que publicamos.
Esperamos que os textos que integram o volume e que o caminho de leitura que propomos na organização do sumário sejam de interesse para nossos leitores. Como sempre, desejamos a todos boas e produtivas leituras.
Referências:
- BOCHECO, Eloí. Tá pronto, Seu Lobo? E outros poemas São Paulo: Formato, 2014.
- CIXOUS, Hélène. Le Prénom de Dieu Paris: Grasset, 1967.
- CIXOUS, Hélène. Le jour où je n’étais pas là Paris: Galilée, 2000.
- COPI, Raúl Damonte Botana. El homosexual o la dificultad de expresarse México DF: Ed. El Milagro, CNCA, 2004.
- DI LAMPEDUSA Giuseppe T . Il Gattopardo Milão: Feltrinelli Editoriale, 2002.
- HIROSHIMA, mon amour Alain Resnais (diretor), Marguerite Duras (roteiro), Argos Films, 1959.
- PEREZ, Natalia. Apuntes de clases Rosario: Riobelbo, 2020.
- SCHWEBLIN, Samanta. Kentukis São Paulo: Editora Fósforo, 2021.
- TRAVIESO, Julio. El polvo y el oro La Habana. Ed. Letras Cubanas. 1998.
- VERUNSCHK, Micheliny. O som do rugido da onça São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
