Resumo
Leitura crítica de alguma poesia de Pedro Mexia, destacando modos de pensar a relação entre poesia e ética diante do discurso neoliberal dominante na sociedade contemporânea. A obra Contratempo (2016) e sua perspectiva distópica em relação à contemporaneidade, por meio do olhar de um poeta urbano que caminha pela cidade de Lisboa figurada como espaço ruinoso. Ao descrever as situações degradadoras impostas aos indivíduos pela economia neoliberal, os poemas enfatizam circunstâncias banais presentes na paisagem urbana marcada por detritos e restos. Análise do processo descritivo nos poemas de Mexia para reverberar o desencanto, o fracasso e sobretudo a melancolia do sujeito contemporâneo. Essa abordagem é elaborada sob a perspectiva da psicopolítica (Safatle, 2022; Han, 2017; 2018), questionando-se a resistência do discurso poético às demandas economicistas do neoliberalismo que afetam profundamente a vida dos indivíduos contemporâneos.
Palavras-chave:
Poesia portuguesa contemporânea; Pedro Mexia; neoliberalismo; psicopolítica; melancolia
Abstract
Critical reading of some poetry by Pedro Mexia, highlighting ways of thinking about the relationship between poetry and ethics in the face of the dominant neoliberal discourse in contemporary society. The work Contratempo (2016) and its dystopian perspective in relation to contemporary times, through the eyes of an urban poet who walks through the city of Lisbon represented as a ruinous space. When describing the degrading situations imposed on individuals by the neoliberal economy, the poems emphasize banal circumstances present in the urban landscape marked by debris and remains. We analyze the descriptive process in Mexia’s poems in order to reverberate the disenchantment, failure and above all the melancholy of the contemporary subject. This approach is developed from the perspective of psychopolitics (SAFATLE, 2022; HAN, 2017 and 2018), questioning the resistance of poetic discourse to the economistic demands of neoliberalism that profoundly affect the lives of contemporary individuals.
Keywords:
Contemporary Portuguese poetry; Pedro Mexia; Neoliberalism; Psychopolitics; Melancholy
Resumen
Lectura crítica de algunas poesías de Pedro Mexia, destacando formas de pensar la relación entre poesía y ética frente al discurso neoliberal dominante en la sociedad contemporánea. La obra Contratempo (2016) y su perspectiva distópica en relación a la época contemporánea, a través de la mirada de un poeta urbano que camina por la ciudad de Lisboa representada como un espacio ruinoso. Al describir a las situaciones degradantes impuestas a los individuos por la economía neoliberal, los poemas ponen en relieve circunstancias banales presentes en el paisaje urbano marcado por escombros y restos. El análisis del proceso descriptivo en los poemas de Mexia reverbera el desencanto, el fracaso y sobre todo la melancolía del sujeto contemporáneo. Este enfoque se desarrolla desde la perspectiva de la psicopolítica (Safatle, 2022; Han, 2017 y 2018) cuestionando la resistencia del discurso poético a las demandas economicistas del neoliberalismo que afectan profundamente la vida de los individuos contemporáneos.
Palabras clave:
Poesía portuguesa contemporânea; Pedro Mexia; neoliberalismo; psicopolítica; melancolia
Podemos falar em “instauração” porque a força do neoliberalismo é performativa. Ela não atua meramente como coerção comportamental, ao modo de uma disciplina que regula ideais, identificações e visões de mundo. Ela molda nossos desejos, e, nesse sentido, a perfomatividade neoliberal tem igualmente efeitos ontológicos na determinação e produção do sofrimento. Ela recodifica identidades, valores e modos de vida por meio dos quais os sujeitos realmente modificam a si próprios, e não apenas o que eles representam de si próprios. - Safatle, Junior e Dunker.
No poema “Abandono”, publicado no livro Contratempo (edição brasileira, 2016), o poeta português Pedro Mexia1 evidencia uma subjetividade lírica desencantada na contemplação do espaço citadino contemporâneo, o qual, em sua perspectiva crítica, apresenta-se desolador e repleto de detritos. As escolhas lexicais, no campo semântico da negatividade, ressaltam as coisas banais do cotidiano notadas pela sujidade, pela inutilidade ou pelo abandono, acumulando-se nas vias urbanas percorridas pelo sujeito lírico. Nessas imagens citadinas facilmente reconhecíveis pelos leitores de hoje, observam-se os “prédios semidevolutos”, os “detritos visíveis”, tais como o “guarda-chuva desfeito” e os “jornais desfolhados”, figurando a degradação urbana que cerca o sujeito.
Têm décadas as persianas
dos prédios semidevolutos
que me vêem regressar a casa,
fechadas quase até o fundo
mas com detritos visíveis
ao princípio do negrume,
por exemplo um guarda-chuva
desfeito, jornais desfolhados.
Escuras de sujidade
e abandono, já viram passar
tantas gerações e circunstâncias
que quase me pedem para
que saiba ver como elas
a nenhuma importância
dos mortais eventos da semana.
(Mexia, 2016, p. 66).
O desencanto e certa melancolia do sujeito poético, fortemente sensoriais - “escura”, “negrume”, “sujidade” -, reforçam a ideia de abandono, que, propositalmente, intitula o poema. A degradação da cena urbana é reforçada pela atenção aos resquícios de materiais em decomposição e presentes já no primeiro verso, nas já desgastadas “persianas” de janelas sujas dos prédios abandonados. Esses lugares em deterioração, figurados como “infernos cotidianos”, os quais estarão presentes também em poemas de outros poetas2 portugueses contemporâneos, provocam certo mal-estar no poeta, que, insatisfeito com o que vê e vivencia, demanda outra cidade, interior e íntima, não sublimada ou imaginada, mas “terrestre” e humana, ou seja, na medida de um homem que a habita plenamente, criando sua história, sua memória: “uma cidade para que eu possa / inaugurar o passado das ruas / e, sem outro propósito, respirar.”, como se lê no poema intitulado “Alexandria” (Mexia, 2016, p. 67)
Nesse poema, aliás, reverbera o incômodo do sujeito poético que atravessa o movimento urbano e, a todo momento, experimenta a indiferenciação dos diversos lugares - “sítios” - em que transita. Sem desejar uma “unreal city”, construída para o consumismo turístico ou pela ficcionalidade literária, o sujeito deseja uma cidade comum, “sem posteridade ou idioma”, uma cidade vivida na sua existência cotidiana.
Alexandria não passa de uma metrópole
em versos subida e sublimada, a sua geometria,
as incisões do pequeno desespero.
Dêem-me uma cidade, que esta minha
está cansada e não quero outra,
escadarias em que se desce sempre,
velhas varandas apalaçadas,
dêem-me uma Alexandria do pensamento,
com uma antiguidade a dourar cada hora,
cada entardecer, mas uma antiguidade
falsa, hiperbólica,
subtil e tão imaginada, unreal city.
Lisboa não é Alexandria e está cansada, houve sítios
que conheci, outros ocultos,
percursos que adivinho no avanço
das multidões, dias de festa,
lambris de janelas, amuradas.
Não quero este rio, nem o outro,
heraclitiano, que me oferecem
umas breves obras completas na estante.
Dêem-me uma cidade terrestre, sem posteridade
ou idioma, uma cidade para que eu possa
inaugurar o passado das ruas
e, sem outro propósito, respirar.
(Mexia, 2016, p. 67).
Percebemos, então, por meio da leitura desses dois poemas, bem como de vários outros que compõem a antologia Contratempo (2016), uma determinada perspectiva de escrita crítica a uma realidade citadina da atualidade marcada por interesses econômicos da ordem neoliberal, os quais modificam os espaços urbanos por causa de empreendimentos nada preocupados com relações de memória e preservação de certos lugares importantes para a cidade e seus habitantes. Essa percepção negativa das transformações impostas ao espaço urbano por interesses financeiros que desprezam memória, lugares de afeto e de convívio é fruto também das demandas psíquicas de uma política neoliberal, geradoras de novas formas de sofrimento individual e social entranhadas em nosso dia a dia. A esse respeito, Vladimir Safatle, Nelson da Silva Junior e Christian Dunker (2022), em Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, examinam um conjunto de práticas de gerenciamento de mal-estar estritamente ligadas ao excesso de positividade imposto pela perspectiva empreendedora neoliberalista. Na introdução à obra (2022, p. 11), discutem como o neoliberalismo molda nossos desejos, bem como “recodifica identidades, valores e modos de vida por meio dos quais os sujeitos realmente modificam a si próprios”. Podemos seguir essa problemática pensada em muita poesia portuguesa de hoje, caso da escrita de Pedro Mexia, a qual acaba por se impor como uma “contra-dicção” à imposição mercadológica neoliberal tão dominante na sociedade atual. A leitura crítica de seus poemas provoca a reflexão sobre o modo como o pensamento neoliberal tem se tornado mais do que um modelo econômico, para se tornar uma engenharia social que destrói a pólis, tornando a cidade, no caso, Lisboa, com a exaltação consumista (turística) de sua luz, da beleza do rio Tejo, do movimento das ruas da Baixa,3 uma mercadoria espacial extremada. Os projetos de exploração dos espaços, para atingir suas metas econômicas, precisam se expandir com a posse de estabelecimentos antigos e edificações várias que marcavam a memória das ruas lisboetas, transformando-os para uso e satisfação momentâneos dos turistas, o que acarreta a desfiguração de tantos lugares lisboetas icônicos para o estabelecimento de prédios de hospedagem e de restauração.
Com lucidez, o poeta, ao caminhar pelos diversos espaços urbanos descaracterizados, denuncia os efeitos desse modelo perverso, cujos fundamentos são “a extensão e a disseminação dos valores de mercado à política social e a todas as instituições” (Brown, 2007, p. 50). Logo, “descubras que és um estranho entre as gentes / (não conheces mais de um terço / do que vês e chamas-lhe a tua cidade) (Mexia, 2016, p. 74). Resta ao poeta partilhar com seu leitor o pesar pela alienação de seus sítios e vivências afetivas, por meio de uma linguagem descritivo-memorialística que pontua a perda, a ausência e o abandono. Por essa razão, deparamos com uma poesia muito marcada de memórias e de restos de objetos ou recantos citadinos, onde a ausência afetiva se torna mais evidente. Bom exemplo desse ponto de vista é o poema “Memória descritiva”, no qual o olhar pousa sobre diferentes elementos esquecidos, abandonados em espaços outrora habitados e agora arruinados. O sujeito experimenta a opressão (“não deixa respirar”), a morte (“a pintura / esboroada como os ossos”) e a solidão (“uma arca da qual ninguém / se aproxima)”.
A sombra dos tectos altos
não deixa respirar. A pintura
esboroada como os ossos.
A moldura verde das portas
na solidão de ferro abandonada.
As cortinas de fumo sujo.
Serradura nas frestas da madeira.
Gonzos, chaves, uma gaveta
com bocados de uma cama.
Luzes ímpares em jornais antigos.
Ganchos, fios, fendas.
Uma almofada, restos
dum romance francês, o metal
de um candeeiro. Recantos,
esquinas, manchas irregulares,
pratos, móveis trôpegos, uma parede
onde estala a cal. Tábuas pequenas,
traves, bolor num espelho, vidrinhos,
relógios, autocolantes, fechaduras,
uma arca da qual ninguém
se aproxima, pedaços de tecido
alegre e tantas cadeiras.
(Mexia, 2016, p. 44).
Essa enumeração de restos materiais onde o toque humano se perdeu, nas ruínas, talvez, de uma casa familiar abandonada, fora do tempo atual, indicia o contraste entre um passado de experiências, histórias e vivências e um presente onde nada mais disso faz sentido e será definitivamente jogado fora, destruído, para que outro espaço se erga aí, indiferente ao que houve e ao que se viveu.
Recorrentemente marcados por resquícios materiais, os poemas de Mexia descrevem deslocamentos pela cidade, um perambular pelas ruas e avenidas, partilhando com o leitor a distopia de casas vazias, arruinadas, que serão depois postas abaixo para novas construções. Assim ocorre na antologia4Contratempo, em que deparamos, por meio do olhar lírico melancólico pontuado, por vezes, de ironia, com espaços abandonados - antes carregados de memórias - e, agora, destituídos de história e de vida afetiva, como experimentamos no poema “Prédio”.
Não tem nenhum interesse saber
como se chama esta rua.
As traseiras esventradas
de um prédio, a sala de jantar
um fosso contínuo,
Já não tilintam talheres.
Quando chega a extinção
o entulho e a própria melancolia
a casa é um andaime com
dezenas de janelas
sem janela e portas sem porta,
a relva lírica, a ferrugem
lamentosa, uma ópera de fantasmas
emociona os que se lembram.
(Mexia, 2016, p. 77).
De forma análoga, no que se refere ao ato de caminhar e refletir sobre o espaço urbano arruinado, a também poeta portuguesa contemporânea Golgona Anghel (2016), em um ensaio intitulado “Dissidentes, peregrinos e excursionistas: passear e pensar”, destaca a figura do poeta caminhante que circula pelos grandes centros urbanos em alguma poesia portuguesa recente. Essa associação entre o ato de perambular e o de refletir, ou melhor, de um pensamento que deambula e segue o compasso dos movimentos das ruas da atualidade, encontra ressonância na poética de Pedro Mexia, na medida em que o ato de caminhar pelos espaços provoca a reflexão sobre os malefícios que a ordem neoliberal, muitas vezes de forma imperceptível, tem causado aos sujeitos. A esse respeito, Mexia, em seu “Poema de amor”, embora de forma acentuadamente irônica, com seus dois únicos versos compostos com nomes de medicamentos, trata dos sofrimentos psíquicos que têm acometido a sociedade movida pelas demandas de produção e que têm tornado a todos empreendedores de si mesmos. A solução para que a “produção” não seja afetada está nos ansiolíticos: “Alprazolam, domipramina, noradrenalina,/ monoamina, serotonina, fluoxetina” (Mexia, 2016, p. 62).
Esse olhar irônico, portanto crítico, de quem já vive em desencanto na grande cidade ocupada por sujeitos anônimos pressionados pelas demandas neoliberais, mesmo em suas vidas pessoais, tem se consolidado como uma das principais linhas de força da recente lírica portuguesa5. Na poética de Pedro Mexia, isso igualmente se manifesta com uma dicção questionadora a respeito das incoerências e precariedade da vida urbana hiperacelerada do tempo presente. Seus poemas mostram a artificialidade de determinados comportamentos provocados pela economia neoliberal, preocupada com a rentabilidade e o individualismo. Diante da realidade citadina em degradação ao redor do mundo, avulta a crítica à falta de sustentabilidade e de cuidado ecológico, que acarretam transtornos às pessoas e significam mais destruição e deterioração social. O poema “Cheias” é bem ilustrativo desse olhar
benefícios agrícolas e outros
para a terra onde nada
se perde e tudo se retoma,
mas os ritmos do mundo,
essa inumana harmonia
que as forças procuram, pode
tantas vezes aparecer apenas
como outra tragédia cíclica,
bruta mesmo se necessária,
improdutiva, agnóstica,
um alarme sem estética.
As cheias submergem casas,
vidas, submergem árvores,
portos, tornam os telhados
uma comunidade, são como
a memória, admirável
e bíblica vista de fora
mas que por dentro
traz bocados de troncos,
detritos, sujidade, água
que é cinzenta e nos dá,
cantando, pelo pescoço.
(Mexia, 2016, p. 19).
O olhar descontente do poeta sobre os diversos (des)caminhos da cidade “pós-moderna” (passe o uso dessa adjetivação problemática...) registra espaços arruinados devido à ganância financeira responsável pela destruição da natureza. O poeta não só observa e descreve essas cenas calamitosas, mas também as vivencia, de certa maneira, em sua própria cidade europeia, o que dá uma tonalidade “realista” à poesia de Mexia. A respeito da atitude caminhante do sujeito lírico contemporâneo, Anghel (2016, p. 28) destaca sua constante movimentação pelos espaços urbanos, comparando-o ao flâneur baudelairiano, que circula entre a multidão de sujeitos despersonalizados. Juntos desses sujeitos, o poeta caminhante passa a compartilhar a solidão e o sentimento de vazio que atingem a todos, já que todos, poeta e seus semelhantes, partilham cenas comuns desse desamparo existencial ou dessa perda de memórias afetivas, como os triviais “almoços / em melancólicos restaurantes” (Mexia, 2016, p. 76) ou o poema breve “A Casa dos Trinta”:
Janelas com adesivos, escadas
a que faltam degraus, portas
abrem para um desvão.
Havia uma varanda, alguém a desfez.
(Mexia, 2016, p. 106).
Mexia está politicamente atento ao tempo presente e às mazelas globais e locais que interferem na vida de todos. Seus poemas partilham uma visão desalentada e depreciativa dos espaços e das coisas tornados, progressivamente, mercadorias. Lúcido na sua impotência diária, Mexia apresenta uma poética cuja dicção provoca nos leitores uma reflexão crítica sobre as práticas neoliberais que cercam as vidas de todos, transformando tudo em matéria de consumo. Seus poemas voltam-se contra essa demanda massificante que sufoca os indivíduos. Lisboa, espaço metonímico do mundo globalizado, é igualmente cena desse turbilhão de desejos que acaba gerando lixo e espaços abandonados, depredados e corroídos, em fluxo contínuo. Não à toa, o poema “Ferro-velho” vale-se de um inventário de diversos elementos a exalar abandono, ruína e inutilidade à volta de um corpo (do poeta/do poema) solitário.
das trazeiras, arrecadações,
escadas de caracol, marquises
desbotadas, antigas estufas,
barracas, vasos partidos,
paredes abertas, telhas,
ferro-velho, andares vazios,
degraus sem uso, o fosso
do elevador, fechaduras
de porões, gatos, cadeiras,
um sol sem préstimo,
ervas daninhas, um triciclo,
humidade, silêncio, azulejos,
sábado à tarde e o meu corpo.
(Mexia, 2016, p. 70).
No “ferro-velho”, espécie de alegoria da cidade em erosão, os azulejos quebrados, as paredes abertas, os degraus sem uso, as marquises desbotadas, os vasos partidos e tantos outras coisas abandonadas são partes de casa, de espaços arrasados para que novos empreendimentos se ergam numa cidade que continuamente se transforma e perde sua face, suas memórias e as relações de afetos. Nessa realidade, seria também a poesia algo inútil a ser encontrado no “ferro-velho”? A última palavra desse poema é corpo, “meu corpo”, esse espaço íntimo, privado, onde a linguagem se movimenta e a poesia persiste. Se a poesia é inútil para a percepção neoliberal, para esse sujeito ela é um ato resistente às imposições mercadológicas e um espaço de abrigo nesse território distópico. É também um elo comum entre sujeitos e corpos que se comunicam em meio a esse movimento ruinoso.
Os poemas que se fazem de circunstâncias banais testemunham vivências diárias e o seu tempo presente. Ao refletirem os problemas cotidianos na textualidade lírica, afirma-se que o poema contemporâneo não colhe mais o sublime ou o ideal. No poema “Metropolitanos”, essas vivências circunstanciais são o alvo crítico de sua reflexão:
sem saber o nosso destino,
à espera que o próprio caminho
o torne evidente (mas não),
somos todos assim metropolitanos (urbanos),
saímos na estação errada,
lemos cabeçalhos, vemos o envelhecimento
nos rostos que conosco através
de túneis dantescos (clichê),
e pensamos (ou dizemos agora que pensámos)
que há um plano que nos ultrapassa (rodoviário),
um plano (subterrâneo)
de linhas que se cruzam com as linhas
da mão, interceptadas em cores
e com o guarda-roupas do nosso
tempo (capitalismo tardio),
atravessamos (atrasados), sob o sol
que imaginamos em cima (platónico),
interrompidos pelo parêntesis irónico
da consciência que talvez queira fazer
a diferença mas não faz nada (nada).
(Mexia, 2016, p. 65).
Note-se que a vivência cotidiana nas cidades é representada pelo transitar contínuo e pelo desencontro, pela indiferença e pelo conformismo, bem como por não-lugares (estações de metrô, por exemplo). Essas cenas diárias de dispersão e inconsciência explicitam, no poema, a visão desencantada de cada um. Essas questões vêm sendo pensadas também, em âmbito português, por outros poetas já citados, que se colocam mais explicitamente contra as estratégias neoliberais na sociedade contemporânea. São, de certa forma, herdeiros de uma “geração dessatisfeita”6 que, após a Revolução dos Cravos, expressou-se num lirismo como o de Joaquim Manuel Magalhães - cuja poética muito tratou da “massificação dos desejos” e das “vivências do corpo”, chegando até ao arruinamento do próprio discurso poético em seus livros mais recentes, quando rejeitou parte do que escreveu, deixando de seus poemas passados restos, traços e fragmentos. Nesses poetas mais recentes, trata-se da figuração do poeta, habitante da cidade que vive rotineiramente o seu degradação. Ele anda por avenidas, atravessa ruas, transita pelos cafés e, nesses entrecruzamentos, vivencia problemas que são comuns a todos. Deve-se reconhecer que, sob um prisma social, essas poéticas buscam criar circuitos de afetos, isto é, espaços de abrigo, uma vez que somos afetados uns pelos outros, bem como pelos mesmos problemas urbanos e psicossociais. Diante dessa partilha, Rosa Maria Martelo (2022a) destaca a potência da poesia em se contrapor à aceleração do tempo, também objeto de consumo, já que a experiência do poético pertence à ordem do intervalo. Escrever e ler poesia possibilita formas de desaceleração, de lentidão, de intimidade e singularidade diante da vida apressada e quantificada, que foi institucionalizada como “normal” pelos ideais neoliberais. Em tempos de hiperaceleração, de hipermodernidade, da hiper-realidade e da extrema autoexploração, a velocidade se tornou nosso destino comum, uma vez que
[...] ver à nossa volta tantos sinais de uma aceleração inexorável no sentido da destruição já não reversível do mundo em que vivemos - apenas minorável - não pode deixar de ser paralisante. Mesmo se um dos traços distintivos do nosso tempo é a aceleração. Mas dir-se-ia que estamos paralisados pela aceleração, precisamente, pela cegueira que ela mesma produz; com ressalva de que os seres humanos não formam de modo algum uma categoria homogénea e não estamos todos paralisados da mesma forma nem pelas mesmas razões (Martelo, 2022, p. 196-197).
O paradigma da biopolítica apresentada por Foucault - segundo o qual o Estado tinha a tutela sobre a vida e a morte dos indivíduos - e que décadas adiante seria reformulado por Achille Mbembe (2018) sob o rótulo da necropolítica, passou, no século XXI, a massificar os sujeitos, aniquilando suas subjetividades. Esse espaço da hipermodernidade faz-nos transitar permanentemente entre os lugares e os “não-lugares” (Augé, 2012), o que nos leva a assumir identidades provisórias. Ou, dito de outro modo, o espaço do não-lugar não cria identidade singular, mas apenas a solidão e a homogeneidade. Nesse sentido, para Han (2017; 2018), o extremo cansaço contemporâneo é o resultado de uma combinação do que ele entende pela virologia que afeta a imunidade - recentemente vivenciado pela pandemia da covid-19 - juntamente à extrema violência neuronal, instituída pelo excesso de positividade nas diversas formas de trabalho autoexplorado. Assim, a vivência cotidiana em comunidade torna-se pouco produtiva, pouco afetuosa, e a vida passa. Essa percepção descontente do sujeito poético de Mexia é visível no poema “Número” 5:
Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.
(Mexia, 2016, p. 10).
Por se tratar de versos que narrativizam a vida cotidiana, é constante o processo de deslocamento do sujeito lírico pelos diversos lugares da cidade. São poemas que buscam a aproximação com o cotidiano e o estranhamento aparece no momento em que o sujeito rompe o círculo de automatização das percepções. A nosso ver, nos poemas de Mexia, cria-se um circuito afetivo de reconhecimento mútuo, em que todos são marcados pelo sentimento cotidiano de perda e de vazio. O poeta e os leitores partilham, então, uma mesma sintaxe discursiva, oralizada e repleta de referências a objetos e a lugares comuns. Nos poemas, há cenas atravessadas por uma fraternidade, pois o poema torna-se também um lugar comum de partilha de problemas entre os sujeitos que escapam à aceleração, ao maquinismo, à massificação dos desejos. Esses momentos de partilha são circunscritos a lugares que possibilitam estar em conjunto, identificando-se uns com os problemas dos outros. Poeta e sujeitos (leitores de poesia) estão todos a aprender com o lixo que, como vimos, torna-se uma “ética”:
O lixo é uma ética.
Faz-se das coisas que dominamos
e não precisam de nós
nem mudam a sua natureza por causa
do abandono, das infiltrações,
o pó e a ferrugem não as ferem,
armazéns onde insectos e roedores
nem suspeitam que entre
bugigangas e comida há
nas almofadas vestígios
de epiderme e cabelos.
(Mexia, 2016, p. 46).
Por fim, note-se que o discurso poético de Pedro Mexia se vale de referências comuns, prosaicas, facilmente identificáveis, o que desvia essa poesia da ideia de alto lirismo. Isso possibilita que o poeta vá ao encontro dos outros, pessoas comuns nas ruas da cidade. Não à toa, em quase todos os poemas de Contratempo, o sujeito lírico se manifesta sempre na primeira pessoa do plural, no tempo presente do modo indicativo, em lugares públicos e de encontro: em ruas, avenidas, no metrô, nos cafés, na multidão. Assim, essa poesia contemporânea testemunha um modo de viver alterado por uma ordem social cada vez mais violenta e injusta. Além disso, é nítido, pela escolha das imagens de resíduos e de entulhos, o sentimento de descontentamento atual diante de uma experiência de vida urbana marcada dominantemente por exigências impostas pelo consumo desenfreado e pelo frenesi cotidiano, vivências conflituosas que todos compartilhamos nas grandes cidades. É por isso que o espaço do poema figura uma espécie de abrigo para todos que, lucidamente, procuram pensar seu tempo e resistir aos discursos dominantes capazes de transformar as pessoas em sujeitos indiferentes e inconscientes dos danos mentais, emocionais e mesmo físicos impostos pela política ou pelas estratégias neoliberais, em todos os níveis da nossa vida, no ritmo inumano deste início do século XXI.
Referências
- ANGHEL, Golgona. Dissidentes, peregrinos e excursionistas: passear e pensar. In: PEDROSA, Celia; ALVES, Ida (org.). Sobre poesia [outras vozes] Rio de Janeiro: 7 Letras, 2016. p. 26-34.
- AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Tradução de Maria Lúcia Pereira. Campinas: Papirus, 2012.
- BROWN, W. Les habits neufs de la politique mondiale: néolibéralisme et néo-conservatisme. Paris: Les Prairies Ordinaires, 2007.
-
CATTAPAN, Julio César Rodrigues. Modos de resistir: cinismo e testemunho na revista Cão Celeste Tese (Doutorado em Letras) -PPG Estudos de Literatura, UFF, Niterói, 2020. Disponível in: https://app.uff.br/riuff/bitstream/handle/1/14833/Tese%20de%20Doutorado%20de%20Julio%20Cattapan%20-%20vers%C3%A3o%20final.pdf?sequence=1 Acesso em: 29 abr. 2025.
» https://app.uff.br/riuff/bitstream/handle/1/14833/Tese%20de%20Doutorado%20de%20Julio%20Cattapan%20-%20vers%C3%A3o%20final.pdf?sequence=1 - HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópoles: Vozes, 2017.
- HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas formas de poder. Tradução de Maurício Liesen. Editora Âyiné: Belo Horizonte, 2018.
- MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Os dois crepúsculos: sobre poesia portuguesa actual e outras crónicas. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981.
- MARTELO, Rosa Maria. Devagar, a poesia. In: MARTELO, Rosa Maria. Devagar, a poesia Lisboa: Documenta, 2022a. p. 19-39.
- MARTELO, Rosa Maria. Notas para a salvação do mundo. In: MARTELO, Rosa Maria. Devagar, a poesia Lisboa: Documenta , 2022b. p. 195-212.
- MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte. Tradução de Libby Meintjes. São Paulo: N1 edições, 2018.
- MEXIA, Pedro. Contratempo Rio de Janeiro: Tinta-da-china Brasil, 2016.
- SAFATLE, Vladimir; JUNIOR, Nelson da Silva; DUNKER, Christian (orgs.). Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico Belo Horizonte: Autêntica, 2022.
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1
Nascido em 1972, Mexia é autor de cerca de 10 livros de poesia, além de crônicas, diários, peças de teatro, traduções e organização de edições de autores portugueses, de Graham Greene e do brasileiro Nelson Rodrigues. No Brasil, foram editados os livros Queria mais é que chovesse (2015) e Contratempo (2016), pela editora Tinta da China.
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2
Em poetas como Manuel de Freitas, Carlos Bessa e José Miguel Silva, são frequentes esses motivos urbanos e esse tom melancólico e distópico, os quais, de certa maneira, reconvocam pontos de vista questionadores de um Jorge de Sena (1919-1978) e Joaquim Manuel Magalhães (1945-).
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3
Baixa de Lisboa (Baixa Pombalina) é a região central da cidade, muito referida literariamente (como no Livro do Desassossego, de Bernardo Soares/Fernando Pessoa) e de forte apelo turístico por sua proximidade ao rio Tejo, ao Castelo de São Jorge e à zona do Chiado, com muitas lojas, restaurantes e hotéis.
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4
Nesta antologia, o poeta selecionou poemas dos seguintes livros: Duplo Império (1999), Em Memória (2000), Avalanche (2001), Eliot e outras observações (2003), Vida Oculta (2004), Senhor Fantasma (2007) e Uma vez que tudo se perdeu (2015).
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5
Sobre isso, consultar Cattapan (2020).
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6
Usamos a expressão de Joaquim Manuel Magalhães (1981, p. 368) Magalhães no texto que encerra o seu livro de crítica intitulado Os dois crespúsculos: “Mas pertencemos a uma geração dessatisfeita. Culturalmente, nenhum lado faz sentido, ou fez um sentido novo. Politicamente, nada esteve interessado na criação cultural fosse do que fosse”.
Editado por
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
