Open-access NORMAS LOCAIS E SUPRALOCAIS NO PROCESSO DE (RE)ACOMODAÇÃO LINGUÍSTICA NA MIGRAÇÃO DE RETORNO

RESUMO

Esta pesquisa analisa os efeitos do retorno a Alagoas na preservação ou abandono de variantes paulistas por alagoanos que residiram no estado de São Paulo. Para tanto, investigam-se correlações entre fatores sociais e três variáveis diferenciadoras de dialetos – (i) /R/ em coda medial (‘po[ɻ,ɾ,h]ta’); (ii) /S/ em coda medial (‘pa[s,ʃ]ta’); e (iii) /t, d/ diante de [i] (‘[dʒ,d]ia’) – em gravações com 32 alagoanos. As análises, com base nos pressupostos teórico-metodológicos da Sociolinguística Variacionista (Labov, 2008) e na literatura sobre contato dialetal (Trudgill, 1986; Chambers, 1992) e normas (Milroy, 2002), demonstram que as variantes paulistas persistem após o retorno a Alagoas e exibem dinâmicas próprias que as diferenciam em termos de reconhecimento social, frequência de uso e valores normativos. O Estilo foi a única variável que se correlacionou com as três variáveis resposta: o contexto de leitura desfavorece a variante paulista de (R) e favorece as variantes paulistas de (S) e (TD). Esses resultados apontam que os migrantes se orientam por normas supralocais no estilo mais monitorado, um reflexo de sua experiência multidialetal, diferentemente da fala de não migrantes, que tendem a se orientar pelas normas locais.

Contato dialetal; Migração de retorno; Acomodação dialetal; Alagoas; São Paulo

ABSTRACT

This study analyzes the effects of returning to Alagoas on the preservation or abandonment of São Paulo dialectal variants by Alagoans who previously lived in the state of São Paulo. To this end, it investigates correlations between social factors and three dialect–distinguishing variables: (i) medial coda /R/ (‘po[ɻ,ɾ,h]ta’); (ii) medial coda /S/ (‘pa[s,ʃ]ta’); and (iii) /t, d/ before [i] (‘[dʒ,d]ia’), based on recordings of 32 Alagoan speakers. The analysis, grounded in the theoretical and methodological framework of Variationist Sociolinguistics (Labov, 1978 [1972]) and in literature on dialect contact (Trudgill, 1986; Chambers, 1992) and norms (Milroy, 2002), shows that São Paulo variants persist after return migration to Alagoas and display distinct dynamics in terms of social recognition, frequency of use, and normative values. Style was the only variable correlated with all three sociolinguistic variables: the reading context disfavors the São Paulo variant of (R) and favors the São Paulo variants of (S) and (TD). These findings suggest that return migrants orient themselves toward supralocal norms in more monitored speech styles – a reflection of their multidialectal experience – unlike non–migrants, who tend to orient toward local norms.

Dialect contact; Return migration; Dialect accommodation; Alagoas; São Paulo

Introdução

A migração interna no Brasil, intrinsecamente ligada à dinâmica socioeconômica do país, tem moldado a distribuição demográfica ao longo da história, influenciada pela vasta extensão territorial e pela marcante diversidade regional. Esses movimentos populacionais permitiram uma multiplicidade de influências étnicas, linguísticas e culturais, que contribuem para a formação de uma identidade nacional complexa e diversificada. Dentro desse contexto, a migração de alagoanos para São Paulo e seu retorno a Alagoas representam um fenômeno relevante para compreender o impacto do contato dialetal sobre as transformações linguísticas e culturais decorrentes dessa interação.

Vale observar que, no Brasil, as pesquisas sobre contato dialetal ainda são escassas (Oushiro et al., 2023) e, até o momento, não se identificou nenhum estudo que aborde especificamente o contato dialetal em contextos de migração de retorno, como é o caso de migrantes nordestinos que voltaram ao Nordeste. Essa ausência de pesquisas confere a este estudo um caráter pioneiro, que alarga o escopo dos estudos sociolinguísticos ao oferecer perspectivas de reflexão sobre a variação linguística produzida por falantes em situações de retorno migratório.

Esta pesquisa analisa a acomodação dialetal (Trudgill, 1986) de alagoanos que residiram no estado de São Paulo e a preservação ou abandono de algumas variantes linguísticas tipicamente paulistas após o retorno a Alagoas. Em particular, analisa-se o emprego de três variáveis diferenciadoras de dialeto: (i) /R/ em coda medial – doravante (R) – como aproximante retroflexa [ɻ]/tepe [ɾ] vs. fricativa [h], em palavras como ‘porta’ e ‘carta’; (ii) a fricativa alveolar /S/ em coda medial antes de /t, d/ – doravante (S) – como alveolar [s, z] ou palatal [ʃ, ʒ], em palavras como ‘pasta’ e ‘desde’; e (iii) /t, d/ diante de [i] – doravante (TD) – como africada [tʃ, dʒ] ou oclusiva [t, d], em palavras como ‘dente’, ‘político’ e ‘dia’. Em todos os casos, a análise se desenvolve a partir da perspectiva da primeira variante, associada à variedade paulista.

O objetivo geral da pesquisa é analisar o efeito do retorno a Alagoas na preservação ou abandono das variantes linguísticas assimiladas em São Paulo pelos alagoanos migrantes. Para isso, investiga-se a correlação entre as variáveis resposta e as variáveis sociais Gênero do falante (feminino, masculino), Tempo de Residência em São Paulo (01 a 21 anos), Tempo de Retorno a Alagoas (01 a 49 anos), Anos de Escolaridade (01 a 12 anos), Classe Social (B, C, D), Experiência em São Paulo (positiva, neutra, negativa) e Logradouro atual (rural, urbano), além da variável Estilo (conversação, leitura; Labov, 2001), visando a observar se esses aspectos têm correlação com os usos das variantes paulistas. Para tanto, analisaram-se amostras de fala de 32 alagoanos, balanceados por Gênero, Tempo de Residência em São Paulo (mais ou menos de 5 anos) e Tempo de Retorno (mais ou menos de 5 anos). Os pressupostos teórico-metodológicos são da Sociolinguística Variacionista (Labov, 2008), com aporte adicional de estudos sobre contato dialetal (Trudgill, 1986; Chambers, 1992) e normas locais e supralocais (Milroy, 2002; Milroy; Gordon, 2003).

Os resultados indicam que o Estilo é a variável previsora mais fortemente correlacionada com as três variáveis resposta, no sentido laboviano de grau de atenção à fala (Labov, 2008, 2001), considerando-se tanto seu efeito isolado quanto em interação com outros previsores sociais (Gênero, Escolaridade, Classe Social e Logradouro). Contudo, as correlações não são sempre na mesma direção: a produção anteriorizada de /R/ teve produção inibida em contexto de leitura de lista de palavras, enquanto a despalatalização de /S/ e a palatalização de /t, d/ foram favorecidas nesse contexto. Embora aparentemente conflitantes, esses resultados indicam que os migrantes se orientam por normas supralocais no estilo mais monitorado – o emprego de /R/ fricativo, /S/ alveolar e /t, d/ antes de /i/ palatalizados –, um reflexo de sua experiência multidialetal, diferentemente do que ocorre com a fala de não migrantes, que se orientam pelas normas locais.

Este artigo está estruturado em cinco seções principais. Na próxima seção, revisam-se pesquisas que embasam a presente discussão, sobre o contato dialetal na fala de nordestinos em São Paulo, sobre as variáveis (R), (S) e (TD), e sobre a variação estilística na perspectiva laboviana. Na seção Metodologia, são detalhados os procedimentos de coleta de dados e análise estatística empregados neste estudo. Posteriormente, na seção Resultados, são apresentados os achados de modelos estatísticos referentes a cada uma das variáveis investigadas. Em seguida, na seção Discussão, apresentam-se considerações teóricas e interpretações dos resultados encontrados. Finalmente, na Conclusão, os resultados são sintetizados e delineiam-se questões que surgem a partir desta pesquisa, as quais podem guiar investigações futuras.

1 Revisão bibliográfica

O contato dialetal é um fenômeno linguístico dinâmico que ocorre quando falantes de diferentes variedades linguísticas interagem, seja por proximidade geográfica, como em ambientes de fronteiras, seja por migração dos falantes (Trudgill, 1986), como nordestinos em São Paulo. No contato dialetal, os falantes em interação podem passar por um processo de acomodação linguística (Giles, 1973) diante de características sociais e culturais dos grupos envolvidos.

O processo de acomodação pode ocorrer por meio de convergência ou divergência (Giles, 1973), sendo a primeira observada quando os falantes adotam características da variedade de seus interlocutores. Isso é notado especialmente em situações em que falantes de diferentes regiões passam a conviver e um dos grupos, ou ambos, gradualmente começa a adotar características gramaticais do outro (Milroy; Milroy, 2012). O processo de divergência, de modo oposto, ocorre quando o falante deseja se distanciar do interlocutor, possivelmente devido a características, atitudes ou crenças desfavoráveis (Giles, 1973), enfatizando as diferenças linguísticas.

Schilling-Estes (2002) aborda esse dilema, destacando as forças que impulsionam a adoção de formas linguísticas mais amplamente aceitas em detrimento do desejo de manter uma identidade social e linguística autênticas. Nesse contexto, os falantes enfrentam pressões conflitantes, em que a necessidade de se adaptar a padrões linguísticos mais generalizados frequentemente contrasta com o desejo de preservar suas características locais distintivas.

Podemos explicar a inovação e a variação em isolamento apontando tanto para fatores cognitivos quanto sociais: os falantes em comunidades isoladas não enfrentam normas de uso heterogêneas de variedades externas e a pressão de nivelamento que essa heterogeneidade traz. Além disso, as redes sociais coesas que muitas vezes caracterizam essas comunidades reforçam a capacidade da comunidade de manter e transmitir normas complexas de uso e de inovar formas incomuns que podem ser menos facilmente aprendidas3 (Schilling-Estes, 2002, p. 80, tradução própria).

A adoção de formas linguísticas mais amplamente aceitas pode ser motivada pelo desejo de aceitação e integração social, enquanto a preservação das variantes de origem pode ser impulsionada pelo desejo de manter uma identidade cultural e linguística autêntica (Milroy; Gordon, 2003). Essas pressões conflitantes podem moldar os usos linguísticos individuais e influenciar o processo de acomodação linguística em contextos de contato dialetal (Trudgill, 1986).

Assim, a acomodação observada no contato dialetal de migrantes ou migrantes de retorno também envolve as subjetividades do falante e sua possível suscetibilidade aos valores e crenças estabelecidas, levando a uma negociação ativa na construção da identidade individual e coletiva em relação ao grupo em que se está inserido. Para tanto, são mobilizados esforços adaptativos de natureza social e linguística com vistas à integração do falante à comunidade receptora. É importante estabelecer, portanto, os traços linguísticos a que o migrante alagoano pode vir a se acomodar em contato com a variedade de São Paulo e em seu retorno a Alagoas.

1.1 Pesquisas sobre (R), (S) e (TD) em fala de nativos e em situação de contato dialetal

As variáveis fonéticas (R), (S) e (TD) foram escolhidas neste estudo por diferenciarem dialetalmente os falares em São Paulo e Alagoas, de modo que permitem aferir os graus de acomodação dos migrantes alagoanos que residiram em São Paulo. Convém, primeiramente, descrever tais diferenças, uma vez que as taxas de emprego das variantes dessas variáveis não são necessariamente categóricas nos dois estados.

A variável (R) é aquela que apresenta diferenças mais extremas entre os dialetos. Ainda que haja variação em cada uma das localidades, de acordo com os dados do Atlas Linguístico do Brasil (ALiB; Cardoso et al., 2014: carta F04 C6),4 em São Paulo as taxas de /R/ glotal e velar foram de 0%, observando-se apenas ocorrências de /R/ retroflexo e tepe – sendo este último mais frequente, acima de 75% –, ao passo que a distribuição é inversa em Alagoas, com 0% de retroflexo e tepe, 75% de glotal e 25% de velar. Na fala de 118 paulistanos nativos, Oushiro (2015) observou a ocorrência marginal de apenas 0,4% de /R/ glotal ou velar. No caso da variável /R/, portanto, pode-se assumir que ocorrências de retroflexo ou tepe na fala de migrantes alagoanos de retorno se devem ao contato com o dialeto paulista.

A variável (S) antes de /t, d/, por sua vez, embora não apresente a mesma distribuição extrema de /R/ no contraste entre os estados, também se configura como um importante diferenciador dialetal em termos de frequências de suas variantes. Em São Paulo, a frequência de /S/ palatalizado diante de [t]5 é menor do que 25%, enquanto em Alagoas é maior do que 90% (Cardoso et al., 2014: carta F05 C3).

A variável (TD), em seu turno, ocorreu categoricamente na forma palatalizada em São Paulo e em menos de 25% das ocorrências em Alagoas nos dados do ALiB (Cardoso et al., 2014: carta F06 C1). Esta é uma variável que tem passado por rápida mudança na direção da palatalização em diversas regiões do país, estando os estados do Sul e do Sudeste à frente da mudança (Abaurre; Pagotto, 2002). Contudo, não se trata necessariamente de uma variável que diferencia os dialetos do norte e do sul do país, mas que parece se relacionar mais com o continuum rural-urbano (Bortoni-Ricardo, 1985), uma vez que se observam o uso de /t, d/ oclusivos no interior de São Paulo (ver, p.ex., Plaza, 2019 sobre a fala em Itatiba-SP e Carreão, 2018 sobre a fala em Louveira-SP) e mudança na direção das variantes [t͡ʃ, d͡ʒ] em diversas localidades brasileiras em que a mudança não está completa. Falcão (2021) bem exemplifica esta tendência de mudança em Alagoas: ao contrastar a realização de /t, d/ diante de [i] nos municípios de Maceió, Arapiraca e Delmiro Gouveia, cidades progressivamente mais distantes do litoral, Falcão (2021) observou respectivamente 7,1%, 3,6% e 2,9% de palatalização, o que indicia o espalhamento da variante da capital para as cidades do interior.

Por outro lado, estudos sobre o contato dialetal de nordestinos em São Paulo têm destacado o processo de acomodação à anteriorização da fricativa glotal /R/ (Hora; Wetzels, 2010; Oliveira, 2020; Oushiro, 2020a), a despalatalização da fricativa alveolar /S/ em coda medial (Silva, 2016; Barbosa, 2022) e a palatalização regressiva de /t, d/ diante de [i] (Santana, 2021; Oushiro, 2020a).

Oliveira (2020), ao analisar 584 ocorrências de /R/ em posição de coda silábica na fala de 12 migrantes baianos na cidade de Bauru-SP, identificou que a produção da variante retroflexa gira em torno de 25% na fala desses migrantes, o que mostra um claro movimento de acomodação dialetal na direção da variante da comunidade de destino. Segundo o autor, as variáveis Atitude, Idade, Escolaridade, Estilo, Contato com Baianos, Tempo em Bauru e Idade de Chegada apresentaram correlação significativa com o processo de acomodação.

Oushiro (2020a) analisou a realização de 15.130 ocorrências de /R/ em coda na fala de 21 migrantes alagoanos e 11 paraibanos na cidade de São Paulo, e observou que a taxa de realização do /R/ paulista (tepe e retroflexa) foi próxima a 19%. A pesquisa revela que a produção dessa variável se correlacionou com a Escolaridade, Idade de Migração, Tempo em SP e Proporção de Vida em SP, sendo a anteriorização de /R/ favorecida pelos falantes com os níveis de escolaridade mais baixos, que migraram mais cedo e que viveram mais tempo em São Paulo, tanto em número de anos quanto em termos proporcionais à idade do falante.

Silva (2016), ao investigar 843 ocorrências da fricativa /S/ em coda medial antes de t/d na fala de 10 paraibanos residentes em São Paulo, observou um avançado processo de acomodação dialetal, com níveis de realização da fricativa alveolar [s, z] próximos a 70%. Nessa pesquisa, o autor destaca que o uso da variante paulista é mais comum entre falantes com níveis mais elevados de instrução escolar, aqueles que têm menor contato com falantes paraibanos, os que mantêm um contato frequente com paulistas, além de ser mais frequente na fala de mulheres e pessoas jovens.

Por sua vez, Barbosa (2022), a partir de 40 entrevistas sociolinguísticas de nordestinos (22 alagoanos e 18 paraibanos) residentes na cidade de Campinas, analisou a realização de 6.512 ocorrências de /s/ em coda, das quais 76% foram do uso da fricativa alveolar. A variável se correlaciona com a Idade de Migração e o Tempo de Residência, no sentido que quanto mais velho o falante nordestino migrou e quanto menor seu tempo de residência em São Paulo, menores são as chances de esse falante produzir a variante paulista. A autora também observou que a inclusão de outras variáveis (Grau de “Paulistanidade”, Grau de “Nordestinidade”, Índice de Rede do Nordeste e Índice de Hábitos) alteraram as estimativas de correlação da despalatalização da fricativa /S/ com o Tempo de Residência, e que a inclusão da variável Índice de Nordestinidade tornou a Idade de Migração não significativa para o processo. A autora interpreta essa interação entre variáveis como uma possível indissociação entre a atitude dos falantes em relação à comunidade anfitriã e o tempo de exposição à variante paulista, tal como proposto por Oushiro (no prelo).

Quanto à palatalização regressiva de /t, d/, Santana (2021) investigou 2.160 ocorrências da variável na fala de 27 sergipanos residentes em São Paulo. Os resultados encontrados pela autora mostram que enquanto os sergipanos que não migraram têm uma produção média de palatalização das oclusivas alveolares em torno de 10%, entre os sergipanos residentes em São Paulo, essa frequência de realização é superior a 60%. Ademais, a autora nota que aqueles que migraram mais jovens e que estudaram em São Paulo apresentam as maiores taxas de palatalização.

No estudo de Oushiro (2020a), dentre as 22.158 ocorrências de /t, d/ antes de [i] na fala de alagoanos e paraibanos, o percentual médio de produção da variante paulista pelos migrantes está pouco acima de 40%. Os resultados apontam que os mais jovens e os que migraram mais cedo favorecem as realizações africadas, não havendo correlação com outras variáveis previsoras sociais. Em expansão do estudo em nova amostra de 23 alagoanos e 17 paraibanos na região de Campinas-SP, estratificada de acordo com o Gênero, Idade de Migração e Tempo de Residência em São Paulo, Oushiro (2020b) verificou correlação entre (TD) e as duas primeiras variáveis previsoras, sendo a africada favorecida pelas mulheres e falantes que migraram mais cedo.

As pesquisas acima não se dedicaram à análise de um mesmo conjunto de variáveis previsoras, mas permitem constatar que (R), (S) e (TD) apresentam correlações distintas com diferentes variáveis sociais. Por exemplo, enquanto Silva (2016) e Oushiro (2020b) observaram o favorecimento de variantes paulistas de (S) e (TD) pelas mulheres, a correlação com Gênero nem sempre é observada. De modo semelhante, a variável Tempo de Residência em São Paulo se mostrou correlacionada com (R) e (S), mas não com (TD). A variável Escolaridade apresenta correlações em direções opostas: enquanto Oushiro (2020a) verificou o favorecimento de (R) paulista entre os menos escolarizados, Silva (2016) e Santana (2021) constataram o favorecimento de (S) e (TD) paulistas entre os mais escolarizados.

Por outro lado, as variáveis Experiência em São Paulo, Logradouro, Classe Social e Tempo de Retorno a Alagoas – esta última, diretamente associada à experiência do migrante de retorno – ainda não foram analisadas detalhadamente. A presente análise trará subsídios para discutir o efeito dessas variáveis. Por hipótese, espera-se que as variantes paulistas sejam mais frequentes entre os falantes que tiveram experiências positivas, que hoje habitam a zona rural e que retornaram há menos tempo.

Por fim, as expectativas para a variável Estilo, foco principal do presente estudo, são discutidas de modo pormenorizado na próxima seção.

1.2 Variação estilística e normas linguísticas

A acomodação dos migrantes a formas linguísticas da nova comunidade perpassa o conjunto de valores e significados sociais que atravessam normas locais e supralocais. A norma local se refere aos padrões linguísticos específicos de uma região ou comunidade, enquanto a norma supralocal representa um padrão linguístico mais amplo e reconhecido que transcende fronteiras geográficas e é frequentemente associada a uma variedade culta da língua (Milroy; Gordon, 2003).

O contato entre falantes de diferentes variedades pode exercer uma influência significativa sobre as escolhas linguísticas de um indivíduo, mas também reflete os valores subjetivos que permeiam a interação.

Com base em evidências da pesquisa sobre atitudes linguísticas, os sociolinguistas frequentemente assumem uma motivação ideológica subjacente à manutenção a longo prazo de normas locais distintas, muitas vezes estigmatizadas, diante das pressões de comunidades linguísticas numericamente ou socialmente mais poderosas6 (Milroy; Gordon, 2003, p. 132, tradução própria).

Uma das formas de acessar as atitudes dos falantes quanto a variantes linguísticas é analisar a variação estilística. Na definição laboviana de Estilo como “grau de atenção prestado à fala” (Labov, 2001, 2008), o autor recorre diretamente à noção de prestígio.7 Nos diferentes estilos eliciados durante a entrevista sociolinguística (fala casual, cuidadosa, leitura de textos, leitura de lista de palavras, leitura de pares mínimos), assume-se que as variantes empregadas pelos falantes nos estilos mais monitorados são aquelas consideradas mais “corretas” ou de prestígio dentro da comunidade. Um dos principais achados de Labov (2006) em sua pesquisa pioneira em Nova Iorque foi a de que as variantes que tendem a ser empregadas nos estilos mais monitorados são as formas que também tendem a ser empregadas pelas classes mais altas.

Trata-se de uma forma indireta de investigar o prestígio de variantes dentro de uma comunidade. Tal avaliação, com efeito, é central na definição de Labov de uma comunidade de fala:

[...] a comunidade de fala não é definida por nenhuma concordância marcada no uso de elementos linguísticos, mas sim pela participação num conjunto de normas compartilhadas; essas normas podem ser observadas em tipos de comportamento avaliativo explícito e pela uniformidade de padrões abstratos de variação que são invariantes no tocante a níveis particulares de uso (Labov, 2008, p. 150, grifo próprio).

De acordo com Labov (2008), fazem parte de uma mesma comunidade de fala os indivíduos que compartilham normas de avaliação e de padrões abstratos de variação. Dessa mesma definição, decorre, portanto, que indivíduos que não compartilham esses dois tipos de normas (de avaliação e de uso) não fazem parte da comunidade de fala. Assim, estadunidenses e ingleses, por exemplo, ainda que compartilhem a língua inglesa, constituem diferentes comunidades de fala, uma vez que diferem quanto à avaliação sobre as variantes de /r/ pós-vocálico, como em car ‘carro’ e part ‘parte’: enquanto a norma estadunidense é a realização do segmento (sendo o apagamento estigmatizado), na Inglaterra a norma padrão é seu apagamento (sendo a realização estigmatizada).

Contudo, a definição laboviana foi formulada considerando-se principalmente os nativos de uma comunidade, e não pessoas que para lá migraram em diferentes períodos de suas vidas. A fala de nordestinos e sudestinos, alagoanos e paulistas, difere não apenas nas taxas de emprego das variantes de (R), (S) e (TD), mas presumivelmente também nos valores atribuídos às variantes. Por exemplo, enquanto [ɾ, ɻ] constituem a norma local paulistana da pronúncia de /R/ em coda, em Alagoas a norma é a realização fricativa, não apenas em termos de produção, mas também de avaliação.

É plausível assumir que migrantes em situação de contato dialetal estão relativamente mais expostos a diferentes normas linguísticas. Dessa forma, uma questão que se abre é como se comportam os migrantes diante de normas possivelmente distintas: em contexto mais monitorado, qual norma adotam: a da comunidade de origem ou da comunidade de destino?

Hora e Wetzels (2010) analisaram o papel da variável Estilo (fala mais ou menos cuidada) na realização dos róticos por falantes paraibanos que vivem em São Paulo. Ao contrapor dados de produção de fala espontânea (9.859 ocorrências) de paraibanos na Paraíba (do corpus VALPB) com trechos da entrevista que refletem o uso de fala cuidada de quatro paraibanos residentes em São Paulo, os autores notaram que os migrantes evitam a variante paulista em trechos de fala cuidada, diferentemente da expectativa inicial, que previa o favorecimento de tepe – variante de prestígio em São Paulo – no estilo de leitura. Oushiro (no prelo), ao analisar a variação estilística das variáveis (R) e (S) em amostra com 40 alagoanos e paraibanos em Campinas, verifica igualmente que as variantes paulistas [ɻ, ɾ] são desfavorecidas no contexto de leitura, e que, no caso de (S), a variante alagoana [ʃ] é desfavorecida nesse contexto. A autora interpreta os resultados diferentemente de Hora e Wetzels (2010): os falantes, em estilo cuidadoso de fala, não se orientariam pela norma local (emprego de /R/ tepe ou retroflexo) como os paulistanos nativos, tampouco pela norma do local de origem (emprego de /S/ palatalizado), mas sim por uma norma supralocal (emprego de /R/ fricativo e /S/ alveolar).

A interpretação de Oushiro (no prelo) é aqui tomada como hipótese a ser testada. A presente análise das variáveis (R), (S) e (TD), cujas normas supralocais ora se alinham com as normas alagoanas (como é o caso de /R/), ora se alinham com as normas paulistas (como é o caso de /S/) e ora, ainda, se alinham com normas urbanas (como é o caso de /t, d/), permitirá mais bem separar o papel de normas locais e supralocais na acomodação linguística de migrantes.

2 Metodologia

Nesta seção, descrevem-se os procedimentos metodológicos empregados na obtenção dos dados linguísticos e na análise estatística. O estudo adota uma abordagem quantitativa, fundamentada na Sociolinguística Variacionista, visando à compreensão dos efeitos do contato dialetal na fala de alagoanos retornados do estado de São Paulo.

2.1 Coleta de dados

Foram coletados dados semiespontâneos, por meio de entrevistas sociolinguísticas, da fala de 32 falantes nativos alagoanos que haviam morado ao menos um ano no estado de São Paulo.8 Os participantes foram estratificados de acordo com o Gênero (masculino, feminino), Tempo de Residência em São Paulo (menos de 5 anos, 5 anos ou mais) e Tempo de Retorno a Alagoas (menos de 5 anos, cinco anos ou mais), de modo a haver 4 participantes por célula de investigação. Todas as gravações foram realizadas por falantes nativos de Alagoas.9

Seguindo a estrutura de uma entrevista sociolinguística laboviana (Becker, 2013) e com base no roteiro de Oushiro (2023), as entrevistas foram divididas em três momentos. O primeiro momento consistiu em um conjunto de perguntas sobre a infância, experiência de migração e expectativas de retorno, cujo objetivo foi o de obter amostras de fala relativamente mais espontâneas, priorizando uma fala menos monitorada do participante (Labov, 2008; Becker, 2013).

O segundo momento foi uma conversa estruturada – com questões sobre redes sociais, histórico de migração, escolaridade, hábitos e identidade – que teve o intuito de obter informações mais detalhadas sobre os motivos da migração, hábitos diários, densidade das redes sociais, nível de instrução próprio e de seus familiares, e aspectos subjetivos relacionados à identificação com as culturas paulista e alagoana.

O terceiro momento envolveu a leitura de uma lista de 75 palavras que continham as variáveis investigadas na pesquisa, a fim de averiguar o comportamento linguístico do falante em estilo de leitura em oposição à fala semiespontânea da conversação. No conjunto de palavras com (R), foram controlados os contextos fonológicos referentes à posição em coda medial, à vogal precedente e à tonicidade da sílaba (tônica ou átona), em itens lexicais como arma, cerca, irmão, gordo e urgente. Para as palavras com (S), foram igualmente considerados os fatores relativos à vogal precedente, à posição em coda medial e à tonicidade da sílaba, com exemplos como astúcia, peste, Cristo e custoso. Já no caso das palavras contendo as consoantes (TD), foram controladas as variáveis referentes à vogal precedente e à tonicidade da sílaba, como atitude, retina, político, ponte e executivo.

Os participantes, por fim, foram convidados a preencher, de forma opcional, um questionário socioeconômico que continha informações sobre renda e consumo, a partir do qual se classificam os falantes em classes sociais. As entrevistas foram preferencialmente realizadas no domicílio dos participantes, mas também aconteceram em outros espaços de acordo com suas preferências, como em seus locais de trabalho.

Após a realização das entrevistas, as 32 gravações foram transcritas e codificadas no software ELAN (Hellwig; Geerts, 2013) e em seguida, via script da plataforma R (R Core Team, 2024-2025), foi realizada a extração e codificação automática de variáveis previsoras, por meio do aplicativo dmsocio (Oushiro, 2018), para subsequente tratamento estatístico.

2.2 Variáveis resposta e previsoras

As variáveis resposta (R), (S) e (TD) foram operacionalizadas nos seguintes fatores: (i) anteriorização da fricativa glotal /R/, em palavras como ‘po[ɻ,ɾ]ta’ e ‘ca[ɻ,ɾ]ta’ vs. a realização menos anterior [h]; (ii) despalatalização da fricativa alveolar /S/ em coda medial diante de /t/ e /d/, em palavras como ‘pa[s]ta’ e ‘de[z]de’ vs. [ʃ, ʒ]; e (iii) palatalização regressiva de /t, d/ diante de /i/ em palavras como ‘polí[tʃ]ico’ e ‘[dʒ]ia’ vs. sua oclusão [t, d].

As três variáveis resposta foram contrapostas às variáveis previsoras categóricas Gênero (feminino, masculino), Estilo (conversação, leitura), Logradouro (rural, urbano), Classe social (B, C, D) e Experiência em São Paulo (positiva, neutra e negativa); e às variáveis lineares Escolaridade (de 01 a 12 anos), Tempo de Residência em São Paulo (de 01 a 21 anos) e Tempo de Retorno a Alagoas (de 01 a 49 anos).

Como visto na Seção 2.1, as variáveis Gênero, Tempo de Residência em São Paulo e Tempo de Retorno a Alagoas são estratificadoras da amostra, e a variável Estilo foi prevista no roteiro por meio das seções de conversação e de leitura de lista de palavras. Já as variáveis Logradouro, Classe Social, Experiência e Escolaridade foram organizadas a partir de análise qualitativa, o que acarretou a distribuição pouco equilibrada entre algumas variáveis. Por exemplo, dos 32 falantes da amostra, somente dois disseram ter tido uma experiência em São Paulo avaliada como “neutra”, enquanto 25 informantes relataram experiências positivas e cinco reportaram experiências negativas na migração. Para Classe Social,10 há apenas dois falantes na classe B, ao passo que há 19 na classe C e 11 na classe D, não havendo falantes da classe mais alta (A) ou mais baixa (E). Para contornar a falta de ortogonalidade que essas distribuições causariam, amalgamaram-se os fatores “neutra” e “negativa” na categoria “não positiva” (vs. positiva) para a variável Experiência em São Paulo, e as classes “B” e “C” (vs. “D”) para a variável Classe Social. Testes de ortogonalidade foram feitos por meio da função vif, do pacote car (Fox; Weisberg, 2019), e os ajustes dessas categorias foram implementados como forma de corrigir a multicolinearidade dentro dos modelos multivariados.

A análise estatística foi realizada na plataforma R (R Core Team, 2024-2025), com auxílio dos pacotes como ‘lme4’ (Bates et al., 2015), ‘gmodels’ (Warnes, 2024), ‘multcomp’ (Hothorn; Bretz; Westfall, 2008), ‘effects’ (Fox; Weisberg, 2019) e ‘ggplot2’ (Wickham, 2016). Foram criados três modelos, cada qual com foco em uma variável linguística específica: (R), (S) e (TD). Tais modelos incluíram as variáveis previsoras do estudo, além das variáveis de efeito aleatório Participante e Item Lexical. A partir do modelo completo foi extraído um sumário do GLMM (Modelos Lineares Generalizados Mistos), que fornece informações detalhadas sobre o modelo, incluindo estimativas de parâmetros e erros padrão.

3 Resultados

A Figura 1 mostra as proporções médias de emprego das variantes paulistas e alagoanas na fala dos migrantes de retorno. As variantes paulistas ocorreram 9,5%, 15,6% e 11,4% respectivamente para (R), (S) e (TD).

Figura 1
– Distribuição das variantes paulistas e alagoanas para as variáveis anteriorização da fricativa glotal /R/ em coda medial, despalatalização de /S/ em coda medial antes /t, d/ e palatalização regressiva das oclusivas alveolares /t, d/

Conforme descrito na Seção 2.1, na fala de alagoanos nativos não migrantes, não é esperada a produção de /R/ anteriorizado (tepe e retroflexo) e esperam-se taxas mínimas, menores do que 10%, de /S/ alveolar e /t, d/ antes de [i] palatalizados. As proporções de uso de variantes paulistas na Figura 1 estão todas acima das taxas médias de alagoanos não migrantes, o que pode ser interpretado como efeito do contato dialetal que foi preservado na migração de retorno. Por outro lado, tais taxas também se encontram abaixo daquelas observadas na fala de migrantes nordestinos que residem no estado de São Paulo – cf. para (R): 19%-25% (Oushiro, 2020a; Oliveira, 2020); para (S): 70%-76% (Silva, 2016; Barbosa, 2022); para (TD): 40%-60% (Oushiro, 2020a; Santana, 2021) –, o que aponta para a tendência de diminuição de uso de variantes não nativas ao retornar ao local de origem.

Os modelos de regressão logística buscaram inferir as variáveis que se correlacionam com a manutenção ou diminuição de uso das variantes paulistas: [ɾ, ɻ], [s, z] e [tʃ, dʒ]. Na Tabela 1, para as três variáveis, os resultados são reportados da perspectiva dessas variantes.

Tabela 1
– Modelos de regressão logística das variáveis respostas anteriorização da fricativa glotal /R/ em coda medial, palatalização regressiva das oclusivas alveolares /t, d/ e a despalatalização de /S/ em coda medial antes /t, d/.

Os resultados da Tabela 1 mostram que a variável previsora Estilo foi a única que apresentou correlações estatísticas significativas (p < 0,05) com as três variáveis resposta. Além dessas correlações com Estilo, a única outra variável que apresenta correlação é Gênero, e apenas com a realização de (TD). Chama atenção, inicialmente, a falta de correlações com variáveis previsoras para as quais, em estudos prévios sobre a fala de migrantes (ver Seção 2.1), observaram-se efeitos do contato migratório, como Classe Social e Escolaridade. De especial importância neste estudo é a falta de correlação com o Tempo de Residência em São Paulo e o Tempo de Retorno a Alagoas, pertinentes ao processo de retorno desses falantes.

A falta de correlações com a maior parte das variáveis previsoras pode ser explicada pela variância das variáveis aleatórias Item Lexical e Falante, sobretudo esta última. De acordo com os valores de CCI, os indivíduos são responsáveis por 39,4% da variância nos dados de (R), 55,5% nos dados de (S) e 46,6% nos dados de (TD). Em outras palavras, cerca de metade da variação nos dados é explicada pelas diferenças inter-falantes, e não por variáveis fixas como Classe Social e Gênero, o que sugere trajetórias únicas para cada um desses indivíduos.

Por outro lado, a correlação sistemática com a variável Estilo aponta para a importância dos significados sociais das variantes em contato no que concerne a seu prestígio ou estigma, causando oscilações mais amplas ao comparar a fala menos monitorada com o estilo de leitura. Reportam-se a seguir análises mais detalhadas de cada uma das variáveis resposta, com especial atenção ao Estilo e às interações entre Estilo e outras variáveis previsoras, a fim de verificar se esses padrões se repetem em todos os subgrupos sociais.

3.1 Anteriorização da fricativa glotal /R/ em coda medial

Os resultados da Tabela 1 para a variável (R) são retomados na Figura 2, que mostra que as variantes paulistas tepe e retroflexo são desfavorecidas (logodds –1.256) em estilo de leitura em relação à conversação. Este resultado é semelhante àquele verificado por Hora e Wetzels (2010), sobre a fala de paraibanos em São Paulo, e de Oushiro (no prelo), sobre a fala de paraibanos e alagoanos em Campinas.

Figura 2
– Estimativas de log-odds e intervalos de confiança para a anteriorização da fricativa glotal /R/ em coda medial

Embora não haja correlação significativa para as demais variáveis sociais, foram testados os cenários possíveis de interação com a variável Estilo. De todas as interações testadas, mostrou-se significativa aquela entre Estilo e Gênero do falante, conforme ilustra a Figura 3.

Figura 3
– Interação entre as variáveis Estilo e Gênero na análise de anteriorização da fricativa glotal /R/ em coda medial

Aí se observa que o migrante alagoano de retorno, no geral, em contexto de maior monitoramento de fala, evita a realização das variantes paulistas, já que tanto homens quanto mulheres têm menor probabilidade de emprego de /R/ tepe ou retroflexo em estilo de leitura do que na conversação. Isso indica que, em Alagoas, essas variantes parecem não carregar significados sociais positivos. Entretanto, o impacto dessa mudança de estilo é mais evidente entre os homens, que reduzem consideravelmente o uso da variante paulista ao passar de um estilo mais espontâneo (conversação) para um mais formal (leitura). As mulheres, por outro lado, apresentam variação menos acentuada entre os estilos. Isso pode ser indicativo de um monitoramento linguístico mais constante por parte das mulheres, inclusive em contextos de menor monitoramento, como o de conversação.

3.2 Despalatalização de /S/ em coda medial antes /t, d/

A Figura 4 retoma graficamente os resultados da Tabela 1 para a variável (S) e ilustra o favorecimento do contexto de leitura para a produção do (S) paulista (logodds 2.811).

Figura 4
– Estimativas de log-odds e intervalos de confiança para a despalatalização da fricativa alveolar /S/ em coda medial antes /t, d/

Os testes de interação entre Estilo e demais variáveis previsoras indicaram interação entre Estilo e Logradouro (Figura 5) e Estilo e Classe Social (Figura 6).

Figura 5
– Interação entre as variáveis previsoras Estilo e Logradouro na análise da despalatalização da fricativa alveolar /S/ em coda medial antes /t, d/

Figura 6
– Interação entre as variáveis previsoras Estilo e Classe social na análise da despalatalização da fricativa alveolar /S/ em coda medial antes /t, d/

Os falantes que retornaram para viver em ambientes rurais foram os que mais realizaram a variante paulista em contexto de maior monitoramento de fala, estilo de leitura. É possível que esse comportamento linguístico seja decorrente da influência das redes sociais e da dinâmica da acomodação linguística. Ambientes rurais, por apresentarem menor densidade demográfica, tendem a ser relativamente mais refratários às pressões da norma dominante local do que ambientes urbanos. Características socioeconômicas da amostra reforçam essa interpretação: 12 dos 15 falantes que retornaram para áreas rurais são proprietários de terras e obtêm seu sustento dessa atividade, não estando inseridos no mercado de trabalho. Já entre os residentes urbanos, 15 dos 17 informantes possuem ocupações profissionais remuneradas, o que sugere uma maior exposição a normas linguísticas locais e a uma maior pressão pela acomodação ao padrão predominante. Dessa forma, as variantes adquiridas em São Paulo podem ter sido relativamente mais preservadas nos contextos rurais, sobretudo em estilo mais monitorado, devido à influência relativamente menor da norma local.

Em relação à variável classe social, a hipótese testada foi a de que as variantes próprias da norma linguística supralocal, como a fricativa alveolar [s, z] em contexto de coda medial, seriam mais produtivas na fala de pessoas com classes sociais mais elevadas – diferença não atestada no modelo de regressão.

Contudo, a Figura 6 mostra que há uma diferenciação entre as classes de acordo com o monitoramento da fala: em estilo menos monitorado (conversação), falantes de classes mais baixas preferem manter características linguísticas locais, o que pode ser interpretado como expressão de pertencimento, em oposição ao que é percebido como variantes externas (Labov, 2008). Para esses falantes, variantes associadas à norma supralocal podem ser percebidas como representativas de uma identidade linguística elitizada, afastando-se do cotidiano e das práticas sociais locais. Assim, o emprego dessa variante pode ser desencorajado, já que não parece ter valor simbólico positivo no que tange à identificação com a comunidade local, podendo até ser visto como uma tentativa de se distanciar cultural e simbolicamente de seu grupo. No estilo mais monitorado da leitura, contudo, nota-se que a diferença entre as classes sociais diminui consideravelmente e que o aumento na taxa de emprego da variante supralocal é maior para a classe mais baixa do que para as classes B-C. Esse resultado pode indicar insegurança linguística relativamente maior dos falantes de classe D em seu estilo mais monitorado.

3.3 Palatalização regressiva das oclusivas alveolares /t, d/

A Figura 7 apresenta graficamente os resultados do modelo de regressão logística da Tabela 1. A figura mostra que a palatalização regressiva de (TD) é desfavorecida na fala de homens (-1.416) e favorecida em estilo de leitura (1.256).

Figura 7
– Estimativas de log-odds e intervalos de confiança para a palatalização regressiva das oclusivas alveolares /t, d/

A correlação com o gênero dos falantes coincide com os resultados reportados em Oushiro (2020b) para (TD) e para a concordância nominal de número, duas variáveis relacionadas com o continuum rural-urbano (Bortoni-Ricardo, 1985). Na mesma amostra, Oushiro (2020b) não verificou correlação entre gênero e as variáveis (R) e negação sentencial, que diferenciam mais propriamente as variedades do Nordeste e de São Paulo. De modo semelhante, no presente estudo, as variáveis (R) e (S) tampouco apresentaram correlação com gênero.

Oushiro (2020b) interpreta tal padrão de correlações com gênero como uma tendência de as mulheres, em situação de contato dialetal entre alagoanos/paraibanos e paulistas, diferenciarem-se dos homens quanto à adoção de padrões urbanos (vs. rurais), mas não necessariamente paulistas (vs. nordestinos). Isso aponta para a complexidade do prestígio e dos significados sociais atrelados às múltiplas variantes em contato: para além do eixo Nordeste-Sudeste, os migrantes, sobretudo do gênero feminino, atentam-se aos significados do continuum rural-urbano, como “caipira”, “mateiro” e “sertanejo”, por oposição a noções de “cosmopolitismo” e “modernidade”. O favorecimento da variante palatalizada de (TD) por parte das mulheres indica que elas tendem a se afastar de variantes associadas à ruralidade.

Assim como para as variáveis (R) e (S), também se verifica correlação entre (TD) e o estilo de fala. Neste caso, a leitura favorece a variante palatalizada, forma não local alagoana, de modo semelhante a (S) e diferente de (R). Quanto às interações entre Estilo e demais variáveis sociais, observou-se correlação significativa apenas entre Estilo e Escolaridade, conforme a Figura 8.

Figura 8
– Interação entre as variáveis Estilo e Escolaridade na análise da palatalização regressiva das oclusivas alveolares /t, d/

A Figura 8 mostra que quanto maior o nível de escolaridade, maior é a tendência de emprego da palatalização regressiva de (TD), tanto em conversação quanto em leitura. Entretanto, a diferença entre os estilos é menor entre os falantes mais escolarizados, que mesmo em estilo de conversação fazem uso relativamente mais frequente da variante palatalizada. Por outro lado, a diferença entre os estilos de conversação e leitura é muito maior entre os falantes menos escolarizados, que tendem a adotar a variante supralocal apenas no estilo mais monitorado e a evitá-la em estilo menos monitorado em favor da variante oclusiva local.

4 Discussão

A pesquisa sociolinguística sobre a migração de retorno dos alagoanos que saíram de São Paulo para retornar a Alagoas oferece algumas reflexões sobre a dinâmica da variação linguística em contextos migratórios. A acomodação por nativos alagoanos às variantes linguísticas paulistas durante a migração parece desempenhar um papel ativo na construção da identidade e representa uma interseção entre escolhas linguísticas, dinâmicas sociais e aspirações individuais.

Este fenômeno social tem como consequência uma série de adaptações necessárias para que o falante navegue nas intrincadas redes sociais e culturais que permeiam tanto São Paulo quanto Alagoas. A necessidade de soar como alguém “local”, em São Paulo, além de ser uma busca por aceitação, está diretamente vinculada ao acesso a oportunidades e recursos específicos reservados aos nativos, conforme se ilustra no diálogo em (1) entre o pesquisador e uma das participantes da pesquisa.

(1)Entrevistador: em algum momento você teve que alterar a sua forma de falar para se adaptar a São Paulo?

Izadora:13 sim eu me esforçava bastante para falar do jeito deles lá... porque toda vez que eu falava do meu jeito era motivo de chacota

Entrevistador: você nesse sentido se sentia muito…

Izadora: sim... sentia sentia muito né... e fiquei assim meio é... frustrada né... teve dias lá eu dizia... eu vou embora... não dá para ficar aqui... é muito bom você trabalhar... ter o seu dinheiro né... não te falta nada... mas não dá... esse povo é muito estranho... esse povo quer ser melhor que a gente entendeu? aí eu falei não... eu vim aqui para vencer então eu vou vencer... melhor do que eu ir embora... não... é eu falar igual a eles vou falar igual a eles... aí quando eu cheguei... aí me esforcei tanto para falar do jeito deles que quando eu cheguei aqui eu fui motivo de chacota aqui... que eu cheguei falando como eles lá... eu fiquei seis anos seguidos lá sem vir aqui... quando eu vim aqui eu cheguei falando como eles... ah mas para quê? aí eu fui motivo de chacota aqui.

O diálogo com a participante Izadora revela que a tentativa de adaptação à norma paulista não ocorre de forma espontânea, mas como um esforço consciente diante das pressões sociais, como a cobrança de aceitação e o temor da estigmatização. A dinâmica entre convergência e divergência na acomodação de variantes linguísticas reflete um processo estratégico influenciado pelas valorações sociais inerentes a cada comunidade. Em São Paulo, a produção de determinadas variantes linguísticas pode ser percebida como essencial para desempenhar certos papéis sociais específicos, como a inserção no mercado de trabalho.

A preservação das variantes paulistas em Alagoas pode ser compreendida como uma tentativa de manter uma identidade adquirida durante a estadia em São Paulo, mas essa escolha pode ser interpretada de maneira ambivalente, uma vez que a reprodução de variantes paulistas em Alagoas também pode ser interpretada negativamente, associada a uma tentativa forçada de parecer “diferente” ou “superior”. Isso pode resultar em uma construção negativa da imagem pessoal e reflete a resistência a uma identidade percebida como não autêntica ou fora de contexto local, como refletido no relato de Izadora.

É curioso notar, entretanto, que o retorno a Alagoas não implica na retomada imediata dos padrões linguísticos pré-migração, conforme se verifica no emprego em taxas relativamente mais elevadas de variantes não locais (/R/ tepe/retroflexo, /S/ despalatalizado e /t, d/ palatalizados diante de [i]) do que na fala de alagoanos que não migraram. Ao passo que a aquisição de variantes paulistas em São Paulo pode se dar de modo consciente, conforme o relato de Izadora, sua manutenção em Alagoas parece ocorrer de modo inconsciente, em decorrência da frequente acomodação prévia enquanto migrante e do alargamento de seu repertório de variantes e de normas linguísticas. A preservação dessas variantes, portanto, enfrenta o desafio de equilibrar a adaptação adquirida durante a migração com a necessidade de soar autêntico em sua comunidade de origem.

Conforme relato recorrente nas entrevistas, a variante paulista de (R) parece ser a mais saliente e suscetível à acomodação pelos migrantes alagoanos, conforme se ilustra na fala do participante Edson (2).

(2)Entrevistador: você já se adaptou na forma de falar paulista?

Edson: sem querer ou não você ainda pega umas palavras de lá entendeu... às vezes você utiliza porque de tanto você conviver com eles não é… aí sem querer ou não a gente de vez em quando fala uma palavra deles mesmo

Entrevistador: e essas palavras… elas seriam mais ou menos como? você poderia citar alguma?

Edson: ah lá eles têm uma linguagem lá que… deixa eu ver aqui uma que eles falavam muito lá que eles usam… é porque sei lá eles puxam mais pelo S pelo R entendeu… é pelo e tudo deles lá é diferente ... tipo vai chamar uma porta chama “po[h]ta” normal… eles lá não… é po[ɻ]ta… pronto… aí é essas coisas que é diferente entendeu?

No caso da despalatalização da fricativa alveolar /S/ em coda medial, a associação com uma identidade paulista é notória, mas relativamente menos marcada. Já a palatalização das oclusivas alveolares, em contrapartida, não parece sofrer qualquer tipo de pressão social contrária à sua realização em solo alagoano. Esta manifestação é influenciada pela experiência migratória do falante, caracterizada por uma transição de uma média de produção em fala espontânea inferior a 5% (Falcão, 2021) para uma média de produção superior a 10%. É relevante destacar que, embora essa variante já esteja presente nas expressões linguísticas espontâneas dos alagoanos, ainda que em uma proporção percentual diminuta, a sua saliência como uma variante paulista é atenuada. Esta variante parece ser reconhecida positivamente, mas não está diretamente associada a uma identidade paulista de forma proeminente (Falcão, 2024).

Como visto nos modelos de regressão logística, Estilo é o único preditor que se correlaciona com as três variáveis sob análise: enquanto as variantes paulistas de (R) são desfavorecidas em contexto de leitura, as variantes paulistas de (S) e (TD) são favorecidas. Esses três casos, entretanto, apontam para a mesma direção: em contexto de maior monitoramento da fala, é favorecida uma variante supralocal, que apenas coincidentemente corresponde à norma paulista ou à norma alagoana. Junto aos resultados de Hora e Wetzels (2010) e Oushiro (no prelo), que também verificaram favorecimento de /R/ fricativo e /S/ alveolar em estilo de leitura na fala de migrantes, nossos dados reforçam a importância de olhar para normas linguísticas além da comunidade local quando se trata de populações móveis.

A norma supralocal, conforme delineada por Milroy e Gordon (2003), refere-se a um conjunto de padrões linguísticos que transcende os limites geográficos e é frequentemente associado a centros urbanos ou a áreas de prestígio social. Os resultados observados neste estudo ilustram a relação entre variação linguística e ajuste normativo, na medida em que “[...] os significados sociais específicos indicados por variáveis linguísticas são locais, apesar do caráter supralocal robusto da relação entre linguagem e classe social.”14 (Milroy; Gordon, 2003, p. 90).

A persistência dessas variantes em Alagoas, após o retorno dos falantes que estiveram em São Paulo, é evidência de como a exposição a novas variedades dialetais amplia o repertório linguístico dos migrantes e organiza essas inovações em uma hierarquia de normas, do local ao supralocal. Ao retornarem, os migrantes ajustam seu uso linguístico de acordo com as demandas de contextos sociais distintos, demonstrando uma capacidade adaptativa que reflete a incorporação de novas configurações estruturais. Essa dinâmica sugere uma reorganização do repertório linguístico, como pode ser exemplificado na fala da participante Josenice:

(3)Josenice: aí só quem convive com eles mesmo lá... eu senti às vezes até eu falava do jeito deles porque você acostuma… você acostuma estando perto e vivendo muitos anos… você acostuma mas depois que eu cheguei aqui voltei pro nordestino... muitas palavras lá eu falava mas quando você tem aquela raiz… acabou-se

A habilidade de manter essas variantes em Alagoas, com variadas frequências de realização, demonstra a capacidade dos migrantes de adaptação seletiva e estratégica às normas linguísticas. Ao mesmo tempo, tais estratégias também são moduladas por características sociodemográficas dos indivíduos, como se pode inferir a partir das interações observadas entre Estilo e variáveis sociais. Os resultados das análises estatísticas indicam que a variação estilística entre os contextos de conversação e de leitura é maior entre os homens, no caso de (R); falantes que residem na zona rural e os falantes de classe mais alta, no caso de (S); e os falantes com menor nível de escolaridade, no caso de (TD). Isso pode ser indicativo de um monitoramento relativamente maior, ao longo de toda a situação de entrevista sociolinguística, por parte de mulheres, habitantes das zonas urbanas, falantes da classe média baixa e mais escolarizados, ou ainda maior grau de insegurança linguística dos grupos que mais tendem a alternar estilos de acordo com o monitoramento da fala. As interações específicas para cada variável (R), (S) e (TD) devem ser objeto de análises mais aprofundadas futuramente, sob a luz de seus significados sociais local e nacionalmente.

É digno de nota, igualmente, o fato de que diversas variáveis sociais estudadas em pesquisas prévias não exibiram correlação com o processo migratório, como o Tempo de Residência na nova localidade e o Tempo de Retorno. Aqui se interpreta a falta de correlação com essas variáveis como decorrente da grande variância nos padrões inter-individuais, como indicada pelos índices de CCI dos modelos de efeitos mistos, que revelam a preponderância desse efeito aleatório sobre a maior parte dos efeitos fixos. De fato, pode-se esperar que a experiência linguística de migrantes é mais variada do que aquela de não migrantes, o que pode conduzir a trajetórias únicas de cada um desses indivíduos e, portanto, maior variância entre si.

Assim, a assimilação e a preservação dessas variantes linguísticas por alagoanos durante a migração de retorno representam estratégias de negociações identitárias, das aspirações de pertencimento social e da adaptação aos diferentes contextos socioculturais. Essa variação, portanto, revela-se como um instrumento que não só reflete, mas também influencia as dinâmicas sociais, sendo um elemento ativo na construção e redefinição contínua das interações desses migrantes.

Conclusão

Cada uma das variantes investigadas parece carregar um conjunto de significados sociais específicos, que não são estáveis nem universalmente aplicáveis, mas que variam dependendo do contexto de interação conversacional. Para um nordestino em São Paulo, essas variantes podem ter implicações diferentes em comparação com o que significam para alguém que retornou para o Nordeste.

Os relatos dos participantes Izadora, Edson e Josenice ilustram a pressão social vivenciada por migrantes para alinhar sua fala à norma paulista, o que pode levar a um esforço consciente para abandonar traços linguísticos originais em prol de uma maior aceitação social. A exposição ao contexto paulista potencializa essa transformação, enquanto o retorno a Alagoas reativa os traços linguísticos locais, gerando uma tensão entre as normas locais e supralocais que moldam a fala dos migrantes.

A diversidade do repertório linguístico, estendido tanto pelas variantes paulistas quanto pelas alagoanas, permite a navegação por diferentes normas. Estas podem ser locais, atendendo às necessidades sociais do entorno imediato, ou supralocais, demonstrando o conhecimento de uma norma mais ampla. Assim, estabelece-se uma flexibilidade normativa, ajustando-se continuamente ao longo de uma gradiência normativa.

Essa alternância entre normas que o migrante de retorno experiencia não se configura como uma escolha binária entre a norma paulista ou alagoana, mas como um ajuste contínuo e dinâmico de determinadas variantes linguísticas em relação a um eixo que oscila entre a norma supralocal e as diferentes normas locais. Isso pode ser observado nos resultados para a variável Estilo, ao se observar que os falantes não apenas acessam diferentes padrões normativos, mas também modulam seu uso de acordo com as exigências contextuais ao longo da situação da entrevista. Assim, o principal efeito da experiência migratória parece ser, além da ampliação do repertório linguístico, a capacidade de transitar entre normas distintas e, de forma estratégica, aplicá-las conforme as demandas sociais e comunicativas do falante.

Essa complexidade certamente transcende os limites de fenômenos linguísticos isolados. Nesse contexto, surgem algumas questões que ainda carecem de respostas e, portanto, estimulam a continuidade da investigação e a abertura de novas perspectivas:

  • Qual é o impacto das redes sociais na acomodação dialetal das variantes linguísticas paulistas em território alagoano?

  • Quais são os significados sociais associados a cada uma das variantes paulistas (como /R/ retroflexo, a realização alveolar de /S/ em coda medial e a forma africada de /t, d/) na percepção dos falantes alagoanos?

  • Como ‘soar paulista’ em terras alagoanas impacta o convívio social desse migrante de retorno?

  • De que maneira as transformações sociais ocorridas no Nordeste ao longo das últimas décadas influenciam a atitude dos migrantes de retorno em relação à preservação das variantes linguísticas assimiladas em São Paulo?

  • Até que ponto as normas linguísticas vinculadas a São Paulo exercem influência sobre a variação linguística observada em Alagoas?

  • Como a construção subjetiva da identidade afeta as escolhas linguísticas desse migrante?

Assim, o texto se encerra com a consciência de que futuras investigações são necessárias para uma compreensão mais aprofundada das complexas dinâmicas linguísticas e sociais relacionadas ao fenômeno da migração de retorno.

Agradecimentos

Agradecemos o Prof. Dr. Emerson Souza, professor substituto da Universidade Federal da Bahia, e aos pareceristas anônimos, pela leitura prévia deste artigo e pelas valiosas sugestões oferecidas.

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  • 1
    No original: “We can explain innovation and variation in isolation by pointing to both cognitive and social factors: speakers in isolated communities do not confront heterogeneous usage norms from outside varieties and the leveling pressure such heterogeneity brings. In addition, the close-knit networks that often characterize isolated communities further reinforce the community’s ability to maintain and transmit complex usage norms and to innovate unusual forms that may be less readily learnable. Further, intracommunity distinctions are very important in close-knit, inward-looking communities, and so linguistic distinctions are preserved for social reasons as well.”
  • 2
    Os dados do ALIB em Cardoso et al. (2014) apresentam dados apenas de capitais; aqui, foram consultados os dados para São Paulo-capital e Maceió. Mesmo que nem todos os falantes da presente amostra sejam oriundos da capital alagoana ou tenham vivido na capital paulista, os dados permitem estabelecer contrastes regionais.
  • 3
    Cardoso et al. (2014) não apresentam as proporções de [ʒ] antes do segmento /d/ isoladamente.
  • 4
    No original: “On the basis of evidence from language attitudes research, sociolinguists commonly assume an ideological motivation to underlie the long-term maintenance of distinctive, often stigmatized, local norms in the face of pressures from numerically or socially more powerful speech communities.”
  • 5
    Sabe-se que a noção laboviana de Estilo convive com outras definições para a variação na fala individual, como o conceito de Bell (1984), definido com base na audiência, e o conceito de Eckert (2001), que o entende como o meio pelo qual os indivíduos projetam personae. Como se verá na Metodologia, este estudo coletou dados por meio de entrevistas sociolinguísticas labovianas, com controle do grau de atenção à fala, de modo que se limita a considerações sobre Estilo dentro do conceito laboviano.
  • 6
    A coleta de dados foi aprovada pelo Comitê de Ética com CAAE: 57956222.7.0000.5013.
  • 7
    As entrevistas, transcrições e codificações foram realizadas com a participação ativa dos membros do Grupo de Estudos em Variação Linguística de Alagoas (GEVAL): Carlos Colatino, Maria Clara, Nihirsi Costa, Samyra Costa, Gabriely Ferreira, Emanuelle Marques, Sivaldo Bezerra e Quitéria Costa, a quem destinamos nossos agradecimentos pelo empenho e dedicação.
  • 8
    Para a definição da Classe social dos falantes, foram cruzados dados relativos à renda, nível de escolaridade, ocupação e condições habitacionais, seguindo parâmetros estabelecidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), especialmente na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) (IBGE, 2014).
  • 9
    As variáveis escolaridade, tempo de residência e tempo de retorno são contínuas, por isso têm como índices de intercept a projeção do modelo caso tivessem o valor 0.
  • 10
    O coeficiente de correlação intraclasse (CCI) mede a proporção da variabilidade total atribuída às diferenças entre grupos em um modelo multinível com efeitos fixos e aleatórios. Valores em percentual indicam variabilidade dentro de cada grupo.
  • 11
    Pseudônimo para preservar a identidade da participante.
  • 12
    No original: “[...] that specific social meanings indexed by linguistic variables are local, despite the robust supralocal character of the relationship between language and social class.”
  • Declaração de disponibilidade de dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em arquivo pessoal a ser solicitado ao autor(es).
  • Editora responsável:
    Gisele Cássia de Sousa

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível em arquivo pessoal a ser solicitado ao autor(es).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Jun 2025
  • Aceito
    25 Fev 2026
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