Uma pessoa está sentada no canto da sala. Ela tem um lápis e um caderno: a figura nasce do desenho de observação. Em seguida, ela fotografa seu trabalho. Agora, como arquivo digital, o desenho encontra seu caminho online, vai para bancos de dados que alimentam sistemas algorítmicos de reconhecimento figurativo. Nas telas, através do pixel, as informações numéricas se tornam luz, intocáveis. Mas, e se desejarmos o seu retorno ao papel, mil vezes copiado?
Os caminhos das imagens implicam decisões estéticas vinculadas a interesses econômicos e políticos que cada técnica prevê, revelando que a visualidade não é imaterial, tampouco neutra: relaciona-se a contextos de trabalho como a indústria gráfica, os dispositivos fílmicos e digitais, a infraestrutura da internet, entre outros. Investigar essas esferas de produção e circulação permite uma busca por autonomia em prol dos interesses de quem cria as imagens, e não uma obediência em relação às padronizações — e intenções — inscritas nos aparelhos.
Em seus textos de filosofia da educação, o professor e pedagogo Jorge Larrosa (2003, p.102), afirma que um dos seus mestres, Basil Bernstein, lhe ensinou que para conhecer a estrutura profunda de uma prática institucional devemos interrogar sobre o que ela proíbe, sobre quais formas de escrita foram derrotadas ou rebaixadas, propondo como desafio a identificação das formas de saber e de pensar que dominam o mundo acadêmico. Os dispositivos de controle do conhecimento são sempre dispositivos de controle da linguagem e da nossa relação com a linguagem. Entre essas formas desvalorizadas pelo conhecimento dito racional, está o ensaio. Assim como ele, outros gêneros literário-filosóficos, como as epístolas morais, os diálogos filosóficos, os preceitos espirituais, os tratados breves, as confissões, as consolações, entre outros, são considerados modos de expressão de pouca utilidade pela academia, uma vez que não condizem com as métricas e outras estratégias de controle que regulam esse contexto.
A escola de artes recebe estudantes em diferentes momentos da sua formação e expressão visual. Intuições relacionadas a temáticas, procedimentos artísticos, técnicas, perspectivas, participam desse percurso, de tal modo que a universidade possa fornecer instrumentos e infraestrutura para que a experimentação e a pesquisa em artes se realize. Entre a abertura para o fluxo de imagens novas e a variação de formas que se cristalizam no contato do corpo com a matéria, em técnicas como a gravura, a escultura, o desenho, entre outras, tudo pode acontecer. As perguntas são elaboradas em forma de pesquisa, troca de conhecimento, intimidade e interlocução: como acolher a abertura para as possibilidades que um percurso de formação artística prevê? E como perceber que, mais do que trilhar um caminho imposto, mais do que ouvir o tempo todo o que deve ou não ser feito, a pessoa que trilha uma formação nas artes tem que permanecer aberta para algo inusitado, para traçar o próprio caminho? E por onde começar a aprender? Ou melhor: uma vez que detemos algum saber, como disseminar para quem chega os princípios de operação da linguagem à qual nos dedicamos anos a fio?
Inicialmente composto por um pequeno número de estudantes de graduação e pós-graduação em 2010, a constituição do grupo de pesquisa esteve atrelado à criação do Laboratório Digital de Tratamento e Impressão do CAP (Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP). Estávamos animados pela prática diante da instalação da impressão digital no departamento. Com apoio do PPGav (Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais), a partir da doação de uma impressora à jato de tinta e de um primeiro monitor, foi possível montar um espaço que tornava a impressão fine art acessível aos alunos do Departamento de Artes Plásticas. Procuramos entender o princípio técnico dos equipamentos, o desenvolvimento da poética, a operação sensível de traduzir imagens entre diversos suportes e técnicas, desde a captura em câmera, passando pela impressão de provas, até a finalização de publicações em gráficas. Considerávamos a importância de ter provas de estado das fotografias, colocá-las na mesa, aproximá-las da imagem sustentada no monitor e submetê-las à análise do grupo de pesquisa. Assim era possível percorrer o caminho em direção à imagem almejada, observá-la sob uma luz adequada, neutra, que possibilitasse uma avaliação criteriosa, para vislumbrar as possibilidades de mudança ou obter a segurança do que ela representava. Nas Artes a importância de vivenciar de perto a aparição da primeira prova da imagem e ter a condição e o conhecimento para conduzi-la ao lugar desejado faz com que as questões que envolvem sua produção possam ser discutidas em nome de um desenho, de um projeto. A construção de um perfil para impressão em papel, a calibragem de um monitor, critérios de digitalização, a escolha de um meio para a reprodução de exemplares são alguns dos pontos que unem o trabalho artístico a uma esfera da difusão e a um circuito de fruição do trabalho. Submeter a prova à apreciação coletiva, colocar em discussão uma série de fotografias, pensar graficamente um livro, tornou-se um cotidiano entre as pessoas participantes deste grupo. Aos poucos, todos se envolveram em pesquisas em Poéticas Visuais. As pesquisas elaboradas pelas pessoas que constituem o grupo assumiram a forma de livros, projetos de exposições, entre outras elaborações sempre atreladas à prática da edição de imagens, construção de arquivos digitais confiáveis e impressão de provas em papel.
O que fará parte deste dossiê é uma pequena amostra das pesquisas desenvolvidas durante esses 16 anos, oferecendo pistas e organizando saberes elaborados no Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP, os quais podem ser encontrados na biblioteca da Escola. A forma física, o objeto, o livro realizado, as imagens em papel são a experiência reportada das defesas das teses, dissertações e TCCs.
Cabe como esclarecimento final lembrar a liberdade que o próprio grupo e seus membros convocaram para si. Cada pessoa procurava seu modo de expressão, a construção de sua poética, do seu estudo, guiado pela experiência prática de tal maneira que fosse possível contemplar os processos de aprendizagem específicos à arte e evitar que fossem prejudicados por exigências acadêmicas provenientes de outros campos do conhecimento. A aventura foi colocada à frente de um objetivo pré-determinado, valorizando o erro como parte integrante do aprendizado. Os sucessivos testes comprovavam ou reelaboravam resultados e, ao final, por vezes era possível aceitar apenas o esboço, ou a narrativa de uma experiência. Essas premissas permitiram que projetos de publicações, roteiros de produções audiovisuais ou exposições pudessem constituir a finalização de uma etapa formativa, apontando caminhos a serem percorridos. O dossiê procura dar espaço ao depoimento, à incerteza, ao ensaio como forma capaz de contemplar a prática artística como necessidade.
Como proposta anterior ao dossiê, em 2024, foi realizada a exposição Em prata, tinta e papel: pesquisas em impressão fotográfica, no Espaço das Artes, acompanhada por um ciclo de conversas com seus integrantes e convidados. A mostra reuniu obras e experimentações elaboradas em investigações de graduação, mestrado, doutorado e livre-docência por parte das pessoas que integram o grupo de pesquisa. Na primeira sala do espaço expositivo, foram organizados trabalhos em diferentes etapas de desenvolvimento representativos das principais frentes de atuação do grupo de pesquisa: perfis de cor e impressão, digitalização e reprodução fotográfica, e edição de ensaios visuais. Nos demais espaços, foram expostas obras que davam a ver a conclusão de pesquisas vinculadas ao GPIF, as quais têm como ponto comum o desejo de se relacionar com um primeiro ímpeto criador que, nos caminhos da imagem por diversos suportes, se contamina e metamorfoseia, reverberando no tempo e no espaço.
Este dossiê, portanto, leva adiante essas transformações das imagens e dos conhecimentos veiculados por elas que, aqui, assumem o estado de ensaios visuais, textuais e artigos, constituindo uma publicação universitária.
Declaração de disponibilidade de dados:
os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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Editora responsável:
Liliane Benetti https://orcid.org/0000-0002-1517-1465
