RESUMO
O estudo analisa a relação entre as características de sofisticação financeira dos Chief executive officers (CEOs) e remunerações executivas por meio de análise com 272 empresas brasileiras de capital aberto de 2010 a 2022. Os modelos foram estimados pelo Generalized Method of Moments (GMM-Sys). Os CEOs investigados possuem considerável formação acadêmica e experiência profissional para subsidiar a tomada de decisão. As características de formação acadêmica nos negócios e formação internacional têm sido requeridas e proporcionado melhores remunerações, constituindo-se como determinantes das remunerações. Identificamos que as empresas têm remunerado mais expressivamente CEOs com experiências no setor de atuação, setor financeiro e em cargos financeiros. Os achados suscitam questões pertinentes sobre restrições financeiras que dificultam a contratação de CEOs com muitas características dada a dificuldade de remunerá-los adequadamente. O estudo contribui com empresas e literatura nacional e de países emergentes, evidenciando aspectos sobre como os CEOs são remunerados e que características têm contribuído para a variação dos salários, conduzindo a constatações importantes e que ainda são incipientes no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE:
Remuneração executiva; Características dos CEOs; Sofisticação financeira; Formação acadêmica; Experiência profissional
ABSTRACT
This study examines the relationship between the financial sophistication characteristics of Chief Executive Officers (CEOs) and executive compensation through an analysis of 272 publicly traded Brazilian companies from 2010 to 2022. The models were estimated using the Generalized Method of Moments (GMM-Sys). The CEOs investigated possessed substantial academic qualifications and professional experience to support decision-making. Academic backgrounds in business and international education have been increasingly sought after and have led to higher compensation, establishing themselves as determinants of remuneration. We identified that companies have been offering higher compensation to CEOs wwho have experience in their sector, experience in the financial sector, and have held previous financial roles. The findings highlight important questions regarding financial constraints that limit the ability to hire highly qualified CEOs due to challenges in providing adequate compensation. This study contributes to both companies and the literature on national and emerging markets by offering insights into how CEOs are compensated and identifying the characteristics that influence compensation variations, addressing areas that remain underexplored in Brazil.
KEYWORDS:
Executive compensation; CEO characteristics; Financial sophistication; Academic qualifications; Professional experience
1. INTRODUÇÃO
O Chief Executive Officer (CEO) é o cargo mais elevado na hierarquia organizacional e o principal tomador de decisões. Estudos têm dado atenção a esses executivos, conjecturando que suas características interferem na forma como processam e utilizam as informações (Kaplan et al., 2012; Shen, 2021). Nesse sentido, a Teoria dos Escalões Superiores (TES) de Hambrick e Mason (1984), postula que as características observáveis dos executivos podem influenciar o desempenho e os resultados corporativos. De acordo com a TES, idade, experiência profissional e escolaridade podem influenciar o comportamento dos gestores nas decisões. Essa concepção embasou estudos que buscaram compreender o efeito dos executivos nas organizações (Conyon et al., 2019; Main & Silva, 2021; Setiawan & Gestanti, 2022).
Hambrick (2007), em atualização a TES, apontou a existência de relação entre as características e remunerações executivas, pois os comportamentos tenderiam a mudar em face das remunerações recebidas. Após esse apontamento, estudos emergiram explorando a relação, no entanto, indicaram que muito ainda precisa ser investigado, pois essa relação variava entre indivíduos, empresas, setores, países e planos remuneratórios, além de os estudos se concentrarem fortemente em economias desenvolvidas (Conyon et al., 2019; Malik et al., 2020; Schmid & Baldermann, 2021; Jaggia & Thosar, 2022).
A remuneração executiva é um tema envolto em polêmicas, pois a mídia e academia se concentraram no debate dos altos salários (Devers et al., 2007; Hendriks et al., 2023). Ainda, a relação entre a contratação ótima e a remuneração não é evidente e os efeitos da remuneração do CEO no desempenho não são claros, sendo também heterogêneos entre corporações, o que contribui para falta de consenso dos determinantes (Frydman & Jenter, 2010). Segundo Murphy (1999), nas definições salariais dos executivos, poderiam ser consideradas a experiência profissional e formação. Assim, as remunerações refletiriam os atributos dos gestores.
As empresas tendem a buscar por gestores talentosos, de modo que um CEO com background acadêmico e expertise profissional se mais capacitado para liderar a tomada estratégica de decisão, tornando-se sofisticado financeiramente (Custódio & Metzger, 2014; Bortoli & Soares, 2021). Segundo Bortoli e Soares (2021), a sofisticação financeira, definida como aglomerado de conhecimentos decorrentes da formação acadêmica e experiência profissional relacionada aos negócios, pode contribuir na tomada de decisão do CEO.
A formação acadêmica do CEO tem sido apontada como determinante da remuneração, agregando perspicácia na administração dos negócios (Custódio et al., 2013; Gupta & Mahakud, 2020). A experiência profissional também tem sido discutida na literatura de remuneração executiva. Custódio et al. (2013) e Conyon et al. (2019) destacam que CEOs com habilidades adquiridas ao longo de sua trajetória profissional recebem remunerações mais elevadas. Desse modo, as características de Sofisticação Financeira do CEO constituem-se como potencialmente valiosas para a empresa, podendo influenciar nas remunerações. Diante disso, o presente estudo busca analisar a relação entre as características de sofisticação financeira dos CEOs e as remunerações executivas.
A pesquisa atende ao chamado de Hambrick (2007), contribuindo para a teoria e estudos que têm se debruçado na investigação. Além disso, amplia a literatura que tem buscado expandir e explorar as características executivas, inserindo nessas discussões as características de sofisticação financeira e relacionando-as com as remunerações. A pesquisa lança luz sobre potenciais determinantes das remunerações dos CEOs, e ajuda a entender se as características investigadas são valorizadas e como estão sendo remuneradas.
A relação levantada tem sido considerada mais fortemente em estudos com economias desenvolvidas, devido a maior transparência nesses contextos (Conyon et al., 2019; Schmid & Baldermann, 2021; Jaggia & Thosar, 2022). Assim, a pesquisa visa contribuir para a literatura de mercados emergentes, trazendo essa problemática ao ambiente brasileiro. No Brasil, os estudos que investigaram a relação são recentes, provavelmente devido ao fato de as informações sobre as remunerações executivas começarem a ser publicadas somente após a Instrução Normativa CVM nº 480 de 2009, que também trouxe à tona as informações curriculares dos CEOs das empresas listadas em bolsa (Pereira et al., 2016; Oliveira et al., 2021). Portanto, a pesquisa contribui para a literatura sobre o Brasil, que ainda é incipiente (Oliveira et al., 2021; Dutra & Ceretta, 2023).
2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1 Características de sofisticação financeira
Os CEOs possuem características valiosas para os negócios, que podem contribuir para sua sofisticação financeira (Custódio & Metzger, 2014). Bortoli e Soares (2021) apresentam as características de sofisticação financeira do CEO no construto de “Sofisticação Financeira”, definido pelos autores como um conjunto de conhecimentos derivados da formação acadêmica e da experiência profissional em finanças.
A formação acadêmica é uma característica importante porque executivos mais instruídos processam melhor informações complexas, além de ser fonte de sabedoria para a empresa (Saidu, 2019; Shen, 2021). Essa formação alinhada aos negócios traz benefícios tangíveis, proporcionando perspicácia nas decisões sobre políticas financeiras (Gupta & Mahakud, 2020). Segundo Ghardallou et al. (2020), o desempenho empresarial melhora quando o CEO possui formação em administração, finanças, economia e contabilidade. A formação do CEO alinhada aos negócios influencia os investimentos, gastos com P&D e saúde financeira da empresa (Naseem et al., 2020; Setiawan & Gestanti, 2022). Estudos também ressaltam a formação internacional, destacando que contribui para que os CEOs sejam hábeis perante incertezas econômicas e identifiquem investimentos estrangeiros (Jiang & Liu, 2020; Sun et al., 2021).
A experiência profissional do CEO também é considerada na literatura, que indica que quanto maior a experiência, maior capacidade para administrar os negócios (Ghardallou et al., 2020; Sun et al., 2021). Essa experiência é adquirida de várias maneiras. A experiência como CEO permite ao gestor conhecer a empresa, contribuindo para mudanças estratégicas (Naseem et al., 2020; Darouichi et al., 2021). A experiência no setor de atuação concede astúcia perante competitividade e possibilita identificar oportunidades de investimentos (Ma et al., 2021; Agnihotri e Bhattacharya, 2021). A experiência no setor financeiro traz visão refinada das informações bancárias e melhora a divulgação de informações (Gounopoulos & Pham, 2018; Gupta & Mahakud, 2020, Shahab et al., 2020). A experiência financeira em cargos como CFO, contador e controller capacita para decisões estratégicas, incluindo endividamento e captação de recursos (Serra et al., 2016; Gounopoulos & Pham, 2018; Oradi et al., 2020; Li et al., 2023). A experiência internacional amplia a visão estratégica global e impulsiona inovação sustentável (Jiang & Liu, 2020; Schmid & Baldermann, 2021).
2.2 A influência das características dos ceos nas remunerações executivas
A escolaridade do CEO é um potencial determinante das remunerações (Banghøj et al., 2010; Cole & Mehran, 2016). Os CEOs com formação alinhada aos negócios são mais habilidosos, e a remuneração funciona como incentivo para assunção de risco (King et al., 2016; Jaggia & Thosar, 2022). De acordo com Malik et al. (2020), CEOs bem remunerados são decisivos na divulgação da Responsabilidade Social Corporativa. Para Choi et al. (2022), a remuneração possui efeito moderador entre o nível de educação do CEO e o valor corporativo. No Brasil, os estudos que exploram a relação entre a formação acadêmica do CEO e suas remunerações são recentes e produziram resultados mistos, encontrando relações positivas (Pereira et al., 2016), negativas (Machado et al., 2023) e não significativas (Rissatti et al., 2019; Dutra & Ceretta, 2023).
Estudos também buscaram investigar a relação entre a experiência profissional do CEO e suas remunerações, indicando que a remuneração é maior para executivos que possuem experiência profissional, sobretudo constituída internacionalmente (Custódio et al., 2013; Conyon et al., 2019; Schmid & Baldermann, 2021). Além disso, para Jbir et al. (2021), os níveis salariais ajudam a controlar comportamentos oportunistas. No cenário brasileiro, as pesquisas que investigam a relação entre remunerações e experiência dos CEOs têm encontrado resultados divergentes. Para Pereira et al. (2016) e Machado et al. (2023), a experiência no cargo e a vivência internacional estão associadas a uma maior remuneração. Contudo, segundo Dutra e Ceretta (2023), a experiência profissional do CEO parece não ser importante nas determinações salariais.
Entendendo que CEOs com formação acadêmica e experiência profissional são sofisticados financeiramente e agregam conhecimentos e habilidades à empresa, é plausível que recebam melhores remunerações.Assim, emergem as seguintes hipóteses:
H1: As características de sofisticação financeira do CEOs estão positiva e significativamente relacionadas às suas remunerações no Brasil.
H1a: A formação acadêmica do CEO está positiva e significativamente relacionada à sua remuneração no Brasil.
H1b: A experiência profissional do CEO está positiva e significativamente relacionada à sua remuneração no Brasil.
3. METODOLOGIA
3.1 Amostra e dados
A amostra foi composta por 272 empresas brasileiras de capital aberto, no período de 2010 a 2022. A tabela 1 apresenta a distribuição amostral do estudo. O período justifica-se pela instituição da Instrução Normativa nº 480 de 2009 da CVM, que padronizou a divulgação das informações no formulário de referência das empresas (FRE), possibilitando identificação de dados pessoais e curriculares dos CEOs, e obrigou a divulgação das informações referentes às remunerações executivas.
Os dados relativos às características pessoais e de sofisticação financeira dos CEOs foram coletadas manualmente de diversas fontes, na seguinte ordem: (I) Formulário de Referência das Empresas (FRE); (II) websites das empresas; (III) Bloomberg; (IV) LinkedIn; (V) Refinitiv Eikon®; e (VI) websites de notícias (G1, Veja, Valor e Estadão). Os valores das remunerações executivas foram coletados manualmente no FRE, no item “13 - Remuneração dos Administradores”. Os dados financeiros referentes às variáveis de controle foram extraídos da base de dados Refinitiv Eikon®.
3.2 Variáveis dependentes
No Brasil, os dados sobre a remuneração do CEO não são divulgados separadamente. O item 13 do FRE apresenta informações sobre a remuneração da Diretoria Estatutária, da qual o CEO faz parte. Esse documento disponibiliza dados sobre o número de membros nas diretorias, os elementos que compõem os pacotes salariais, e os valores médios, mínimos e máximos pagos aos executivos por órgão.Com base nessas informações, foram adotadas quatro proxies, para identificação da remuneração do CEO, apresentadas na tabela 2.
Os dados de remuneração foram ajustados pela inflação, utilizando 2010 como ano-base e tendo como referência o IPCA, conforme informações obtidas no site do IBGE. Esse ajuste visou garantir a comparabilidade dos valores ao longo do tempo, permitindo a análise da evolução real dos salários e sua relação com as variáveis explicativas.
3.3 Características de sofisticação financeira
Foram utilizadas as variáveis componentes do constructo de Sofisticação Financeira proposto por Bortoli e Soares (2021). Os autores apresentam uma métrica denominada de Índice de Sofisticação Financeira, no entanto, neste estudo consideram-se as características em sua forma de coleta primária, a fim de investigar as relações de maneira individualizada. Assim, as características componentes da sofisticação financeira do CEO são utilizadas separadamente, e não combinadas em um índice composto. As definições e mensurações dos das características de sofisticação foram embasadas na Teoria dos Escalões Superiores e em estudos anteriores e são apresentadas na tabela 3 (Custódio et al., 2013; Custódio & Metzger, 2014; Gounopoulos & Pham, 2018; Gupta & Mahakud, 2020; Jiang & Liu, 2020; Oradi et al., 2020; Darouichi et al., 2021; Schmid & Baldermann, 2021; Sun et al., 2021; Ma et al., 2021; Bortoli & Soares, 2021; Ding et al., 2022; Li et al., 2023).
3.4 Variáveis de controle
Estudos constataram que idade do CEO (Custódio & Metzger, 2014; Conyon et al., 2019), gênero (Oliveira et al., 2021), dualidade (Dutra & Ceretta, 2023), CEO familiar (Graziano & Rondi, 2021), tamanho da empresa (Aguiar & Pimentel, 2017; Zhou et al., 2021), desempenho empresarial (Conyon et al., 2019), endividamento (Choi et al., 2022; Machado et al., 2023), idade da empresa (Serra et al., 2016) e controle definido (Freitas et al., 2020) são importantes para explicar a remuneração. Ainda, entendendo que a pandemia de Covid-19 trouxe impactos aos negócios, incluiu-se variável dicotômica para o período. A tabela 4 apresenta as variáveis de controle e mensurações.
3.5 Procedimentos econométricos
A pesquisa reconhece a possibilidade de endogeneidade, uma vez que a remuneração executiva pode tanto influenciar quanto ser influenciada pelas variáveis adotadas. Além disso, possíveis omissões de variáveis podem acarretar problemas e comprometer as análises. Para atenuar esse problema, utilizou-se o GMM Sistêmico (Generalized Method of Moments), que é recomendado como adequado ao se trabalhar remunerações e características executivas (Aguiar & Pimentel, 2017; Shahab et al., 2020; Oliveira et al., 2021; Zhou et al., 2021; Machado et al., 2023; Dutra & Ceretta, 2023).
O GMM foi desenvolvido por Arellano e Bover (1995) e Blundell e Bond (1998), e consiste em método dinâmico de regressão em painel, potente para tratar a endogeneidade, suavizando o problema por meio da instrumentalização das próprias variáveis, com eficiência na obtenção de estimadores assintóticos. Para ajustamento e validação dos modelos, foram realizados testes de autocorrelação de primeira e segunda ordem, e teste de Hansen (Roodman, 2009). Para tratamento de outliers os dados foram winsorizados nos percentis 1 e 99. As equações 1 e 2 apresentam os modelos testados.
Em que:
RMi,t, = Maior remuneração da Diretoria estatutária da empresa i no período t;
RMEDi,t = Remuneração Média da diretoria estatutária da empresa i no período t;
RFi,t = Remuneração fixa da diretoria estatutária da empresa i no período t;
RVi,t = Remuneração variável da diretoria estatutária da empresa i no período t;
FAi,t = Formação acadêmica do CEO da empresa i no período t;
EPi,t = Experiência profissional do CEO da empresa i no período t.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
4.1 Análises descritivas
A tabela 5 apresenta as remunerações dos executivos em perspectiva geral e por setor econômico, ajustadas considerando a inflação. Como observado também por outros estudos, as remunerações apresentaram fortes oscilações no contexto brasileiro, no período de 2010 a 2022 (Pereira et al., 2016; Oliveira et al., 2021).
Quanto às remunerações totais, de acordo com a tabela 5, os CEOs receberam médias salariais de R$ 2.505.137,57 e R$ 1.407.190,35 (painel A), chegando ao valor de R$ 56.110.254,73, cerca de 22 vezes acima da média, o que revela elevadas remunerações. Dentre os setores, o de comunicações possui a menor quantidade de empresas, no entanto, paga os maiores salários, como também observaram Oliveira et al. (2021). Esse achado é condizente com a ascensão dos setores de tecnologia no mercado contemporâneo. Ainda, observa-se que as remunerações variáveis são maiores que as compensações fixas, resultado alinhado com estudo anterior (Rissatti et al., 2019). As remunerações variáveis funcionam como incentivos para os gestores utilizarem suas habilidades na administração dos negócios.
De acordo com a figura 1, as remunerações aumentam e diminuem em sincronia, e percebe-se que a parcela variável aumentou com o tempo. Nos últimos anos, é possível observar crescimento salarial expressivo, como destaca literatura recente (Hendriks et al., 2023). Em 2020 e nos anos subsequentes, mesmo diante da pandemia de Covid-19, que atingiu todos os setores da sociedade, houve crescimento das remunerações totais e variáveis, indicando que as remunerações dos CEOs no Brasil parecem ter sido pouco afetadas pela crise, reforçando a ideia de que podem de fato existirem subjetividades nas definições salariais.
As empresas da amostra foram comandadas por 613 CEOs no período de 2010 a 2022, a tabela 6 apresenta as características de sofisticação financeira destes CEOs.
Conforme a tabela 6, 65,58 % dos CEOs possuem formação alinhada as finanças, o que demonstra grau de instrução elevado da teoria para subsidiar as decisões e, ainda, 35,07 % dos CEOs têm formação internacional. Quanto à experiência, os CEOs possuem 22,19 % de experiência no setor financeiro e 32,30 % de experiência na área financeira, já tendo atuado em cargos como auditor e contador. Além disso, 20,23 % dos CEOs trabalharam em empresas fora do Brasil, agregando experiência estrangeira a empresa. Os CEOs possuem, em média, 7 anos de experiência no cargo e 22,39 anos de experiência no mesmo setor, evidenciando que os executivos possuem estratégias quanto à competitividade.
A tabela 7 apresenta a estatística descritiva de todas as utilizadas na pesquisa.
4.2 Principais resultados
Nas tabelas 8, 9, 10 e 11 são apresentados os resultados das análises do GMM sistêmico e dos testes para ajustamento dos modelos. O teste AR (1) não permite rejeitar a hipótese de que existe autocorrelação de primeira ordem, enquanto o teste AR (2) não apresentou significância nos testes, sugerindo a ausência de autocorrelação de segunda ordem, e confirmando a boa especificação dos modelos. O teste de Hansen também não apresentou significância nos testes, assim não é rejeitada a hipótese de que os instrumentos são exógenos, permitindo afirmar que os conjuntos de instrumentos são válidos.
Os resultados do GMM sistêmico evidenciam que a taxa de variação das remunerações em t é influenciada pela variação das remunerações em t-1. Como observado na etapa descritiva e destacado em estudos recentes (Hendriks et al., 2023), as remunerações apresentam elevado crescimento. Nesse contexto, as variações dos salários anteriores servem de base para os aumentos salariais. Ademais, nas definições de contratos, promoções e progressões de carreira são considerados, dentre outros parâmetros, valores pagos aos CEOs em anos anteriores. No entanto, é importante destacar que definir remunerações é complexo, devido a uma variedade de razões subjetivas que variam entre empresas (Frydman & Jenter, 2010).
De acordo com a tabela 9 (modelos 1 e 2), as características de formação acadêmica apresentaram relação positiva e significativa; assim, não se rejeita H1a. Os resultados indicam que formação em finanças e formação internacional contribuem positivamente para o aumento de 8,1 % e 10,3 % na remuneração. Com respaldo na TES e comprovado por estudos, CEOs com maior nível educacional agregam benefícios e favorecem a gestão estratégica (Hambrick & Mason, 1984; Gupta & Mahakud, 2020). Quando essa formação está alinhada às finanças, melhora o desempenho empresarial e impacta positivamente nas decisões de investimento, preparando melhor para as intempéries do mercado (Ghardallou et al., 2020; Naseem et al., 2020; Main & Silva, 2021; Setiawan & Gestanti, 2022). Assim, os resultados indicam que empresas no Brasil reconhecem a importância de CEOs com formação nos negócios, incentivando o uso dessas habilidades nas decisões empresariais.
Os resultados obtidos sugerem que há uma valorização da formação acadêmica internacional no Brasil. essa característica concede conhecimento da dinâmica empresarial internacional e facilita o reconhecimento de oportunidades de investimentos estrangeiros (Jiang & Liu, 2020; Sun et al., 2021). Esses resultados corroboram estudos anteriores (Conyon et al., 2019; Schmid & Baldermann, 2021), demonstrando que a formação internacional dos CEOs é requisitada no Brasil, levando as empresas a oferecerem remunerações mais altas como reconhecimento.
No Brasil, estudos sobre a relação entre a formação acadêmica do CEO e sua remuneração tiveram resultados variados (Pereira et al., 2016; Machado et al., 2023; Dutra e Ceretta, 2023). Este estudo contribui ao explorar um período extenso, fornecendo achados significativos para a literatura nacional, indicando que o background acadêmico dos CEOs é demandado e influencia suas remunerações.
Com base nas tabelas 8, 9, 10 e 11, algumas características da experiência profissional do CEO não foram significativas, levando à rejeição da H1b. Esses resultados divergem dos estudos internacionais (Custódio et al., 2013; Schmid & Baldermann, 2021), mas estão alinhados aos achados de Dutra e Ceretta (2023) no contexto nacional. Os resultados sugerem que a existência de experiências específicas dos CEOs implica aumentos nas suas remunerações.
Os resultados apresentados nas Tabelas 9 e 11 (Modelo 5) indicam que a experiência do CEO no setor financeiro está associada a um aumento de 8 % na remuneração total e de 12 % na remuneração variável. Essa experiência melhora a capacidade de processar informações bancárias, e devido à sua vivência nesses ambientes tende a facilitar a compreensão das burocracias na captação de dívidas, e concede perspicácia no trato com investidores (King et al., 2016; Shahab et al., 2020). Assim, as empresas no Brasil parecem reconhecer a importância dessa experiência, refletindo em melhores remunerações.
Conforme os dados das Tabelas 9 e 10 (Modelo 6), os resultados revelam que a experiência financeira dos CEOs contribui para um aumento de 7 % nas remunerações totais e de 5 % nas remunerações fixas. Estudos indicam que essa experiência capacita os gestores para lidar com ambientes dinâmicos, entender decisões contábeis e aprimorar controles internos para reduzir ineficiências nos investimentos (Gounopoulos & Pham, 2018; Oradi et al., 2020; Li et al., 2023). Na tabela 10 (modelos 4 e 8), os resultados indicam que ter experiência no setor contribui para um aumento de 0,3 % na remuneração fixa. A experiência no setor auxilia na compreensão de suas particularidades, alocação de recursos e competitividade (Custódio et al., 2013; Ma et al., 2021; Agnihotri & Bhattacharya, 2021).
Os resultados das Tabelas 10 (Modelos 3 e 8) e 11 (Modelos 3 e 8) indicam que a experiência como CEO está associada a reduções de 0,3 % nas remunerações fixas e de 1,3 % nas remunerações variáveis. Essa tendência é consistente com a Teoria dos Escalões Superiores, que sugere que gestores mais experientes podem ser menos propensos a assumir riscos e podem desenvolver comportamento oportunista ao longo de seus mandatos (Naseem et al., 2020; Oware & Awunyo-Vitor, 2021; Jbir et al., 2021). Os resultados sugerem que CEOs com experiência prolongada no cargo podem não ser tão valorizados, refletindo-se em reduções nas suas remunerações. Outra possível explicação é que os CEOs contratados recebam um prêmio inicial como atração ao cargo, maior do que os possíveis aumentos salariais posteriores no mesmo cargo.
Ao analisar os resultados do GMM sistêmico, identificou-se que algumas características de sofisticação financeira se mostraram relevantes, enquanto outras não apresentaram significância. CEOs com essas características possuem maior know-how para administrar os negócios, e, em valorização, poderiam receber aumentos em suas remunerações (Custódio & Metzger, 2014; Ghardallou et al., 2020; Bortoli & Soares, 2021; Main & Silva, 2021). Entretanto, os achados sugerem que, no Brasil, as características de sofisticação financeira dos CEOs parecem não contribuir para aumento das remunerações. Isso suscita discussões importantes: evidencia que existem nas definições salariais dos CEOs subjetividades que vão além das qualificações técnicas; as empresas podem não estar interessadas em muitas características, mas em atributos específicos; e possibilita especular que em mercados emergentes, como no Brasil, as limitações de recursos podem também impor limitações às características exigidas dos CEOs pelas empresas.
4.3 Análises adicionais
Para verificar os efeitos das variáveis explicativas ao longo da distribuição das remunerações dos CEOs, a amostra foi segregada nos percentis 25 e 75 para cada uma das variáveis dependentes do estudo. Utilizou-se o GMM-Sys para estimar os modelos em cada uma das amostras segmentadas. O intuito é verificar as relações entre as características dos CEOs e os diferentes níveis de remunerações, reconhecendo que salários mais baixos ou mais altos podem ser associados a características distintas, e isso pode trazer novos achados e fornecer insights interessantes.
A Tabela 12 sintetiza os resultados obtidos, fornecendo uma visão abrangente do efeito das variáveis explicativas nos extremos da distribuição das remunerações. Quanto aos testes de ajustamentos dos modelos, o teste AR (2) não apresentou significância em nenhum dos modelos, indicando ausência de correlação de segunda ordem nos resíduos. O teste de Hansen também não apresentou significância em nenhum dos testes, reforçando adequação dos conjuntos de instrumentos. A análise das regressões aplicadas aos percentis 25 e 75 revela nuances importantes sobre a relação entre as características de formação acadêmica e a experiência profissional dos CEOs com os níveis salariais.
O percentil 25 reflete as empresas que oferecem as remunerações mais baixas entre as empresas analisadas. Conforme observado na Tabela 12, nessas empresas a variação da remuneração está positivamente associada às características de formação acadêmica, à experiência no setor financeiro, experiência financeira e experiência internacional. As variações das remunerações fixas estão positivamente associadas à experiência no setor financeiro e experiência financeira. Por sua vez, as das remunerações variáveis estão relacionadas às características de formação acadêmica e à experiência no cargo CEO.
Considerando que empresas menores e mais jovens geralmente oferecem salários mais modestos, alinhados com seu porte e estágio de maturidade, os resultados sugerem que essas empresas valorizam a formação acadêmica do CEO como um fator importante para a gestão dos negócios. Esse reconhecimento, traduzido em compensações, reflete o entendimento de que a qualificação do CEO desempenha um papel importante na sua capacidade de liderança, ensejo da tomada de decisão e no crescimento da empresa. Além disso, a expertise profissional dos CEOs surge como um fator para ajudar essas empresas a se destacarem em mercados competitivos, promovendo a expansão e consolidação dos negócios. Todas as experiências, exceto experiência no setor, se mostraram positivamente relacionadas às variações das remunerações no percentil 25, e isso pode indicar que empresas com menores níveis salariais apostam na experiência profissional do CEO.
No percentil 75, que agrupa as empresas que pagam as maiores remunerações, observa-se que as empresas demonstram valorização do background acadêmico dos CEOs. Essas empresas oferecem melhores pacotes de remuneração total e variável para aqueles com formação alinhada aos negócios e formação internacional, fatores que conferem aos CEOs a capacidade de definir estratégias, garantindo a continuidade e o sucesso empresarial. Experiências específicas, como experiência como CEO, no setor de atuação e em cargos financeiros, estão associadas a um aumento das remunerações totais. Em relação à remuneração fixa, tanto a experiência no setor financeiro quanto a experiência financeira aparecem como fatores importantes para explicar os aumentos da compensação dos CEOs.
Ainda considerando os níveis salariais superiores, a experiência no setor de atuação está relacionada a um aumento das remunerações variáveis, entretanto, a experiência como CEO e experiência no setor financeiro parecem não ser tão relevantes nas empresas com níveis salariais maiores. Esses resultados sugerem que, para empresas que oferecem pacotes de remuneração superiores, o diferencial está menos associado a uma simples experiência no setor ou no cargo de CEO e mais vinculado a uma combinação de formação acadêmica e experiências pontuais. Assim, em empresas maiores e mais estabelecidas, o foco pode estar em perfis de liderança mais globais e academicamente robustos, capazes de sustentar a inovação e a competitividade em um ambiente de negócios em constante evolução.
Alguns pontos merecem destaque. Na remuneração total, a formação financeira e internacional do CEO apresenta significância no percentil inferior, enquanto não se mostra significativa no percentil superior. Esse achado sugere que a formação acadêmica é mais valorizada em níveis salariais mais baixos, possivelmente por proporcionar aos CEOs as habilidades necessárias para ascensão empresarial, já em empresas maiores, essa característica pode ser substituída, por exemplo, pela expertise profissional do executivo. Quanto à remuneração total, a experiência internacional do CEO se mostra significativa no percentil inferior, mas não no superior. Esse resultado sugere que, em níveis salariais mais baixos, a experiência internacional é vista como um diferencial, trazendo à empresa expertise em negociações globais e inserção em novos contextos econômicos.
Na remuneração variável, a experiência como CEO apresenta uma significância negativa no percentil superior da amostra e positiva no inferior. Isso sugere que executivos contratados com salários mais altos tendem a enfrentar reajustes menos generosos ao longo do tempo ou atrelados ao cumprimento de metas. Quanto à experiência no setor financeiro, ela se mostrou negativamente significativa no percentil superior, enquanto não apresentou relevância no inferior. Esse resultado indica que executivos com maior experiência no setor financeiro podem ter sua remuneração variável vinculada a metas mais rigorosas, o que pode resultar em uma redução salarial caso essas metas não sejam alcançadas.
No geral, os resultados ressaltam a complexidade da relação entre formação e experiência dos CEOs e seus níveis salariais. As características que impulsionam a remuneração nas faixas inferiores podem diferir daquelas que influenciam os CEOs no topo da hierarquia salarial. Embora a formação acadêmica seja valorizada tanto em empresas que oferecem salários mais baixos quanto nas que pagam melhor, as experiências específicas variam conforme o contexto empresarial. Isso está em consonância com os achados dos testes anteriores, sugerindo que as empresas adotam diferentes estratégias de remuneração, buscando CEOs com perfis distintos, de acordo com o estágio de desenvolvimento da empresa ou os desafios específicos do mercado.
5. CONCLUSÕES
O estudo analisou a relação entre as características de Sofisticação Financeira dos CEOs e suas remunerações em empresas brasileiras de capital aberto. Os resultados sugerem que CEOs com formação acadêmica relacionada a finanças e formação internacional recebem maiores remunerações. Deste modo, no contexto brasileiro, assim como na Dinamarca (Banghøj et al., 2010), EUA (Cole & Meharan, 2016), Reino Unido (Conyon et al., 2019), China (Choi et al., 2022) e Europa (Schmid & Baldermann, 2021), o background acadêmico do CEO tem sido requerido, proporcionando aumento nas remunerações. A formação acadêmica se constitui como determinante das remunerações dos CEOs no Brasil, podendo ser um estímulo para que eles utilizem seus conhecimentos nos processos organizacionais.
No entanto, os achados indicam que empresas têm remunerado melhor experiências específicas, valorizando expertise profissional advinda do trabalho no setor financeiro, da atuação em cargos financeiros e da experiência no mesmo setor de atuação. Contudo, a experiência como CEO proporciona reduções nos salários fixos e variáveis. Esse achado é apoiado por estudos no Paquistão (Naseem et al., 2020) e Índia (Oware & Awunyo-Vitor, 2021), que ressaltam que CEOs com longos mandatos adotam comportamentos oportunistas, sendo considerados investimentos desnecessários. Ademais, os resultados sugerem que as políticas de reajuste salarial podem estar levando a uma defasagem salarial em relação a executivos recém-contratados.
Embora a formação acadêmica pareça importar nas determinações salariais, algumas características ligadas à experiência profissional não apresentaram significância. Portanto, não se pode afirmar que CEOs sofisticados financeiramente recebem maiores remunerações no Brasil. Esse resultado levanta questões relevantes: por se tratar de economia emergente, existem problemas de restrições financeiras, que impendem as empresas contratarem CEOs com muitas características, dada a dificuldade em remunerá-los adequadamente. Ademais, muitas características observadas são ainda incipientes entre os diretores executivos no Brasil.
Dentre as limitações, os valores das remunerações ficam restritos às informações divulgadas no FRE, disponíveis a partir de 2010 e, por vezes, com dados incompletos. Estudos futuros poderiam explorar as remunerações em setores específicos, a exemplo, no setor financeiro, ou, perquirir maiores explicações para o setor de comunicações possuir as maiores remunerações. Ainda, comparar as remunerações dos executivos no Brasil com as de outras economias emergentes. Novos estudos poderiam explorar outras caraterísticas executivas, focando em cognições específicas, amparando discussões entre estudos nacionais e de economias emergentes.
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