RESUMO
JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS A dor crônica (DC) afeta cerca de 30% da população mundial e constitui um dos maiores desafios para os sistemas de saúde, gerando impactos físicos, psicológicos, sociais e econômicos significativos. Nessa perspectiva, imagina-se que o cuidado farmacêutico, quando integrado a equipes multiprofissionais, seja capaz de reduzir a intensidade da dor, melhorar a adesão ao tratamento e racionalizar a farmacoterapia em pacientes com DC. O objetivo deste estudo foi avaliar a efetividade do cuidado farmacêutico no manejo da DC em pacientes atendidos pelo Programa de Extensão EDUCADOR da Universidade Federal de Alfenas.
MÉTODOS Trata-se de um estudo observacional, descritivo, quantitativo e prospectivo, realizado com 22 pacientes diagnosticados com DC. O acompanhamento seguiu protocolos clínicos reconhecidos, como o método de dados Subjetivos, Objetivos, Avaliação e Plano de Cuidado (SOAP) para registro das consultas, o método da American Society of Hospital Pharmacists (ASHP) para revisão da farmacoterapia e a Resolução CM. RES (2020)3 como diretriz de qualidade. Para mensuração dos desfechos clínicos, foram utilizados instrumentos validados: Brief Pain Inventory (BPI) para intensidade e interferência da dor, Índice de Complexidade da Farmacoterapia (ICFT) para avaliação da prescrição, Escala ARMS para adesão farmacológica e CPM-ES-ES para percepção do manejo da dor.
RESULTADOS Os resultados demonstraram redução significativa na intensidade da dor (mediana inicial de 10,0 para 2,5 após intervenção, p<0,001), bem como diminuição no número de fármacos por paciente (mediana de 4,0 para 3,0, p<0,001). Além disso, houve melhora relevante nos indicadores de adesão (81%) e no acesso aos serviços de saúde (95%), com redução expressiva das visitas devido à dor (86%).
CONCLUSÃO O cuidado farmacêutico, aliado ao acompanhamento multiprofissional, contribuiu de forma significativa para a melhora clínica e a racionalização da farmacoterapia, reforçando sua importância como prática essencial e custo-efetiva no manejo da DC.
Descritores:
Adesão à medicação; Cuidado farmacêutico; Dor crônica; Manejo da dor; Serviços de farmácia clínica
DESTAQUES
Implementação de estratégias para melhorar a adesão à terapia e o controle de sintomas
Monitoramento e revisão contínuos para promover o uso apropriado de fármacos
Atuação para integrar usuários aos serviços de saúde e ampliar o acesso
Cuidado colaborativo para prevenir complicações e melhorar a qualidade de vida
Acompanhamento contínuo para garantir a segurança e efetividade da farmacoterapia
ABSTRACT
BACKGROUND AND OBJECTIVES Chronic pain (CP) affects about 30% of the global population and constitutes one of the greatest challenges for healthcare systems, generating significant physical, psychological, social, and economic impacts. From this perspective, it is imagined that pharmaceutical care, when integrated into multiprofessional teams, can reduce the intensity of pain, improve treatment adherence, and rationalize pharmacotherapy in patients with CP. The present study aimed to evaluate the effectiveness of pharmaceutical care in the management of chronic pain in patients seen at the EDUCADOR Extension Program of the Federal University of Alfenas.
METHODS This is an observational, descriptive, quantitative, and prospective study conducted with 22 patients diagnosed with CP. The follow-up adhered to recognized clinical protocols, such as the Subjective, Objective, Plan and Assessment (SOAP) method for recording consultations, the American Society of Hospital Pharmacists (ASHP) method for reviewing pharmacotherapy, and Resolution CM. RES (2020)3 as a quality guideline. For the measurement of clinical outcomes, validated instruments were used: Brief Pain Inventory (BPI) for pain intensity and interference, Medication Regimen Complexity Index (MRCI) for prescription evaluation, ARMS Scale for drug adherence, and CPM-ES-ES for pain management perception.
RESULTS The results demonstrated a significant reduction in pain intensity (initial median from 10.0 to 2.5 after intervention, p<0.001), as well as a decrease in the number of drugs per patient (median from 4.0 to 3.0, p<0.001). Furthermore, there was a significant improvement in adherence indicators (81%) and access to healthcare services (95%), with a substantial reduction in visits due to pain (86%).
CONCLUSION It is concluded that pharmaceutical care, combined with multidisciplinary follow-up, significantly contributed to clinical improvement and the rationalization of pharmacotherapy, reinforcing its importance as an essential and cost-effective practice in the management of CP.
Keywords:
Clinical pharmacy services; Chronic pain; Medication adherence; Pain management; Pharmaceutical care
HIGHLIGHTS
Implementation of strategies to improve therapy adherence and symptom control
Continuous monitoring and review to promote the appropriate use of drugs
Acting to integrate users into health services and expand access
Collaborative care to prevent complications and improve quality of life
Continuous monitoring to ensure the safety and effectiveness of pharmacotherapy
INTRODUÇÃO
O cuidado farmacêutico consiste em uma prática profissional na qual o farmacêutico estabelece vínculo com o paciente e com a equipe multiprofissional, com o objetivo de alinhar metas terapêuticas de curto e longo prazo e incorporar tecnologias e estratégias inovadoras para potencializar os resultados em saúde1. Essa prática tem se mostrado de grande relevância, pois contribui para a racionalização da farmacoterapia, a detecção e solução de Problemas Relacionados a Medicamentos (PRMs), a promoção da educação em saúde e a articulação do cuidado multiprofissional no tratamento da dor2,3.
Programas de cuidado farmacêutico têm evidenciado resultados positivos no manejo da dor, no aumento da adesão terapêutica e na diminuição do uso inapropriado de fármacos, sobretudo em serviços de atenção primária e em equipes de caráter multiprofissional4. Nessa perspectiva, considera-se a hipótese de que a intervenção farmacêutica estruturada, associada ao acompanhamento multiprofissional, possa contribuir para a redução da intensidade da dor, favorecer a adesão ao tratamento e otimizar a farmacoterapia em indivíduos com dor crônica (DC).
A dor é uma experiência sensorial e emocional desagradável, associada ou semelhante àquela associada a uma lesão tecidual real ou potencial. A DC é definida pela sua persistência por mais de três a seis meses ou por estender-se além do tempo normalmente esperado para a cicatrização tecidual5. Trata-se de uma condição multifatorial, que pode resultar de causas neurológicas, musculoesqueléticas, inflamatórias ou psicossociai6,7. Estudos estimam que aproximadamente 30% da população mundial sofre de DC, afetando negativamente a qualidade de vida e o bem-estar psicológico dos indivíduos7. No Brasil, a prevalência alcança 37%, sendo mais comum em idosos e mulheres8. Essa condição está associada a custos econômicos substanciais, decorrentes da perda de produtividade, absenteísmo, aposentadoria precoce e uso frequente de serviços de saúde9-11.
Além disso, a DC costuma estar vinculada ao uso contínuo de analgésicos, anti-inflamatórios, opioides e fármacos adjuvantes, o que pode resultar em efeitos adversos, interações farmacológicas, desenvolvimento de dependência química e aumento do risco de hospitalizações10.
Com o objetivo de assegurar a padronização metodológica e a mensuração precisa dos desfechos, foram aplicados instrumentos e protocolos clínicos validados. O Índice de Capacidade Funcional do Indivíduo (ICFI)12 foi utilizado para avaliar a funcionalidade e a capacidade de execução das atividades cotidianas, possibilitando compreender o impacto da dor sobre a autonomia e o desempenho do paciente. Já o Brief Pain Inventory (BPI) permitiu mensurar tanto a intensidade da dor quanto sua interferência em diferentes aspectos da vida, como humor, sono, atividades diárias e trabalho. Para essa avaliação, empregou-se uma escala de 0 a 10, que classifica a dor em leve, moderada ou intensa13.
Além disso, o Questionário de Percepção do Manejo da Dor em Pacientes Espanhóis (CPM-ES-ES), validado para português14, foi utilizado para avaliar a percepção dos pacientes sobre o controle da dor e a efetividade das estratégias terapêuticas15,16. A Escala ARMS (Adherence to Refills and Medications Scale), por sua vez, possibilitou mensurar a adesão ao tratamento, fornecendo informações essenciais para a análise da efetividade da farmacoterapia17.
No campo normativo, foi utilizada a Resolução sobre a implementação da assistência farmacêutica em benefício dos pacientes e dos serviços de saúde (CM/Res-2020/3) do Conselho da Europa, como referência para qualidade e segurança nos serviços farmacêuticos clínicos, que reforçam a prática baseada em evidências e a integração multiprofissional17.
Para padronizar os atendimentos clínicos, foram adotados protocolos reconhecidos internacionalmente. O método SOAP (Subjetivo, Objetivo, Avaliação e Plano de Cuidado) estruturou o registro das consultas, organizando informações subjetivas e objetivas, avaliação e plano de cuidado, o que facilitou a análise da farmacoterapia, a identificação de PRMs e o planejamento das intervenções terapêuticas18. De forma complementar, o método da ASHP orientou a revisão da farmacoterapia, abrangendo desde a detecção de PRMs até a proposição de intervenções adequadas16,17.
Dessa forma, a combinação de questionários validados, protocolos clínicos estruturados e diretrizes internacionais permitiu um acompanhamento sistemático e seguro dos pacientes, favorecendo tanto a avaliação da dor quanto a análise da farmacoterapia e da adesão ao tratamento. Essa abordagem metodológica reforça a robustez científica do estudo e evidencia a importância da padronização e da integração do cuidado farmacêutico no manejo da DC.
Os participantes foram selecionados entre os pacientes atendidos pelo Projeto EDUCADOR, realizado no Ambulatório de Dor da Universidade Federal de Alfenas. O projeto foi coordenado por um professor de Fisioterapia, doutor em Farmacologia da Dor, em parceria com um médico neurologista especialista em dor e um professor de Farmácia, doutor em Farmacologia, com experiência em farmacovigilância e cuidado farmacêutico. A equipe contou ainda com discentes bolsistas e voluntários dos cursos de Medicina, Fisioterapia e Farmácia, que realizavam os atendimentos sob supervisão dos professores coordenadores, compondo uma equipe multiprofissional integrada.
MÉTODOS
Este estudo tem delineamento observacional, descritivo e prospectivo, com abordagem quantitativa. Foi conduzido no período de março de 2023 a março de 2024, envolvendo pacientes atendidos pelo Programa de Extensão “EDUCADOR” da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), situado em Alfenas, Minas Gerais.
Participantes
O estudo envolveu indivíduos com diagnóstico de DC acompanhados pelo Programa EDUCADOR. Foram incluídos aqueles pacientes atendidos durante o período da pesquisa que consentiram em participar do acompanhamento farmacêutico.
Critérios de inclusão e exclusão
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Inclusão: pacientes adultos com diagnóstico de DC com queixa persistente de 3 meses, maiores de 18 anos e que permaneceram no atendimento durante os 5 meses de presença do farmacêutico no programa.
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Exclusão: pacientes com diagnóstico de dor aguda, com idade menor que 18 anos ou que desistiram do acompanhamento farmacêutico.
Amostra
Para este estudo, adotou-se uma amostragem por conveniência, uma vez que não houve seleção probabilística nem randomização dos participantes. Esse tipo de amostragem consiste na inclusão dos indivíduos mais acessíveis ao pesquisador e é comumente utilizado em estudos clínicos e observacionais, especialmente em contextos de extensão universitária e serviços de saúde, nos quais a captação de voluntários segue o fluxo natural do atendimento. Ao todo, foram identificados 45 pacientes, dos quais 22 atenderam aos critérios de inclusão e foram efetivamente incluídos no estudo.
Abordagem de cuidado farmacêutico
O cuidado farmacêutico foi realizado por uma discente do curso de farmácia supervisionada por farmacêuticos docentes. O atendimento seguiu o processo dado pela Resolução (CM/Res)317, sobre a implementação do cuidado farmacêutico um roteiro baseado no método da ASHP16, foram coletados: nome, endereço, idade, ocupação, prescrições, sintomas, sinais vitais, história médica, informações laboratoriais, alergias, preocupações acerca do tratamento, atividades diárias, alimentação, background étnico e situação financeira. Os dados foram divididos em Subjetivos; Objetivos; Avaliação do paciente e da sua condição de saúde e Plano de Cuidado (SOAP), que contempla as intervenções da equipe e do profissional farmacêutico, com foco na identificação de PRMs18.
Problemas Relacionados a Medicamentos (PRMs)
A Pharmaceutical Care Network Europe Association (PCNE) é uma entidade científica que congrega pesquisadores e profissionais da farmácia clínica com a finalidade de promover e uniformizar a prática do cuidado farmacêutico. Entre suas contribuições, destaca-se a padronização dos PRM, definidos como eventos ou circunstâncias que afetam, ou têm o potencial de afetar, os resultados esperados da farmacoterapia. Esses problemas podem comprometer a efetividade, a necessidade, a segurança ou a adesão ao tratamento, englobando situações como efeitos clínicos indesejados, reações tóxicas, seleção inadequada do fármaco, da forma farmacêutica, da dose ou da duração da terapia, além de falhas na compreensão da prescrição, na dispensação do fármaco ou ainda fatores ligados às características e ao comportamento do paciente18.
Avaliação da dor
A intensidade da dor foi mensurada utilizando o BPI, instrumento validado e amplamente empregado na avaliação clínica e em pesquisas. O BPI permite quantificar tanto a intensidade da dor quanto sua interferência em diferentes aspectos da vida diária, como atividades gerais, humor, capacidade de trabalho e sono. A escala de intensidade baseia-se na Escala Numérica de Dor (END), em que o paciente atribui um valor de 0 a 10: 0 representa ausência de dor e 10 a pior dor imaginável. A classificação da dor segue os critérios convencionais: leve (1-3), moderada (4–6) e intensa (7-10). Essa abordagem proporciona uma visão abrangente do impacto da dor sobre o paciente e possibilita avaliar a efetividade das intervenções propostas13.
Questionários de verificação de aderência farmacológica
A adesão ao tratamento foi avaliada utilizando um questionário e uma escala, o Questionário de Percepção do Manejo da Dor em Pacientes Espanhóis (CPM-ES-ES) que investiga a percepção do paciente sobre o manejo da dor e a efetividade das estratégias terapêuticas. As intervenções farmacêuticas foram implementadas e verificou-se se as sugestões foram aceitas pelos pacientes, fator que influencia diretamente a adesão e a Adherence to Refills and Medications Scale (ARMS) avalia a adesão do paciente à farmacoterapia, investigando a frequência com que ele segue corretamente o regime farmacológico, omite doses ou altera a posologia, além de atrasos na renovação de receitas ou aquisição de fármacos.
O questionário foi aplicado na primeira consulta, ao final do período de acompanhamento de cinco meses. As respostas possíveis eram: nunca (1), algumas vezes (2), frequentemente (3) e sempre (4), gerando uma pontuação total de 12 (adesão ótima) a 48 (adesão muito baixa). Dessa forma, a adesão foi avaliada considerando a terapia intervencionista, a evolução clínica do paciente e o aumento da compreensão sobre sua condição de saúde16.
Índice de complexidade da farmacoterapia (ICFT)
A complexidade da farmacoterapia dos pacientes foi avaliada por meio do ICFT, que quantifica a complexidade do regime terapêutico considerando formas farmacêuticas, frequência de administração e instruções especiais. O objetivo foi identificar pacientes que possam se beneficiar de simplificação do regime, educação sobre o uso dos fármacos ou revisão da prescrição12.
Estudo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alfenas (CLAEE 46727215.7.0000.5142).
Análise estatística
Os dados foram analisados utilizando o software Bioestat 5.0. Para avaliar a significância estatística da redução do escore de dor e do número de fármacos, foi utilizado o Teste de Wilcoxon para amostras pareadas, devido à natureza não paramétrica dos dados. A adesão ao tratamento e outros desfechos binários foram analisados pelo teste de McNemar. O nível de significância adotado foi de p<0,05.
RESULTADOS
O estudo inclui 22 pacientes com DC, maioritariamente do sexo feminino (72,7%), com idade média de 57,05 anos (DP=11,85), variando entre 38 e 74 anos. O tempo médio de duração da dor foi de 67 anos (DP= 4,3). Os diagnósticos mais frequentes foram fibromialgia (27,7%), osteoartrite/dor articular degenerativa (13,6%) e dor demográficas e clínicas da amostra. (Tabelas 1, 2 e 3)
Método American Society of Hospital Pharmacists para cuidado farmacêutico em 22 pacientes com dor crônica.
Impacto na dor e na farmacoterapia
A intervenção farmacêutica resultou em uma redução altamente significativa tanto na intensidade da dor quanto no número de fármacos utilizados. A escala de dor, inicialmente com mediana no máximo (10,0), reduziu para 2,5 após a intervenção (p < 0,001). Da mesma forma, o número de fármacos apresentou redução significativa, passando de uma mediana de 4,0 para 3,0 (p < 0,001) (Tabelas 4, 5 e 6).
Efetividade da intervenção e indicadores de desfecho
Os indicadores de efetividade demonstraram excelentes resultados pós-intervenção (Tabela 3). Destacam-se a melhoria no manejo da dor (91%) e no acesso aos serviços de saúde (95%), a redução das visitas ao centro de saúde (86%) e a melhoria na adesão farmacológica (81%) dos pacientes (Tabelas 5, 6 e 7).
Efeitos adversos de fármacos inadequados
Dos 22 pacientes, 13 (59%) relataram efeitos adversos farmacológicos. A dipirona foi o fármaco com maior frequência de relatos (n=4), seguida por tramadol e amitriptilina (n=3 cada). O número médio de fármaco por paciente apresentou uma redução progressiva, passando de 7,85 no início para 3,64 após 5 meses de intervenção, representando uma redução total de 53,6% (Tabela 8).
Análise dos PRMs identificados
O PRM mais frequente foi a ineficácia do tratamento (P1.2), identificado em 20 pacientes (91%). Em seguida, observaram-se os eventos adversos (P2.1) em 13 pacientes (59%) e a terapia desnecessária, incluindo polifarmácia (P3.1), presente em 12 pacientes (54%). Outros PRMs registrados compreenderam o uso de fármaco inapropriado (C1.2) em 5 pacientes (23%), dose superior à necessária (C2.1) em 3 pacientes (14%), adesão insuficiente (C3.2) em 5 pacientes (23%) e déficit de conhecimento sobre o fármaco (C4.1) em 7 pacientes (32%) (Tabela 9).
Problemas Relacionados a Medicamentos segundo a classificação Pharmaceutical Care Network Europe Association (PCNE) v9.1 (n=22).
Esses resultados demonstram que a maior parte dos PRMs esteve associada à eficácia terapêutica insatisfatória, seguida por reações adversas e pelo emprego de terapias sem indicação, o que ressalta a necessidade de priorizar intervenções farmacêuticas direcionadas ao manejo da DC.
Os resultados demonstram, de forma consistente, que a integração do cuidado farmacêutico em uma equipe multidisciplinar promoveu melhoras significativas no controle da dor, na racionalização da farmacoterapia e na qualidade de vida dos pacientes com DC.
DISCUSSÃO
Os achados deste estudo evidenciam que a intervenção farmacêutica em pacientes com DC foi capaz de promover benefícios clínicos relevantes, incluindo a redução expressiva da intensidade da dor, a racionalização da farmacoterapia e a melhora da adesão ao tratamento. A amostra foi composta predominantemente por mulheres, com idade média de 57 anos, perfil compatível com a literatura, que aponta maior prevalência de DC em indivíduos do sexo feminino e em faixas etárias intermediárias e avançadas. Condições como fibromialgia e osteoartrite, diagnosticadas com maior frequência, reforçam a relação conhecida entre essas doenças, polifarmácia e impacto na qualidade de vida19.
A intervenção resultou em redução significativa da dor (mediana inicial 10,0 para 2,5; p<0,001) e do número de fármacos (mediana inicial 4,0 para 3,0; p<0,001), indicando otimização terapêutica e maior segurança no uso de fármacos. Esses achados corroboram estudos internacionais que descrevem a atuação do farmacêutico, associada à revisão da farmacoterapia, educação em saúde e acompanhamento contínuo, como estratégia eficaz para reduzir escores de dor em condições musculoesqueléticas e não musculoesqueléticas20,21.
A efetividade da intervenção foi ainda refletida em indicadores positivos, como a melhora no manejo da dor (91%) e no acesso aos serviços de saúde (95%), bem como na redução de visitas ao centro de saúde (86%) e na adesão farmacológica (81%). Tais resultados estão em consonância com pesquisas que demonstram o impacto do farmacêutico não apenas no controle da dor, mas também na melhoria da adesão terapêutica, da qualidade de vida e na detecção precoce de eventos adversos relacionados a fármacos22,23.
Os PRMs identificados, com predominância da ineficácia terapêutica (91%), seguida por eventos adversos (59%) e terapias desnecessárias (54%) reforçam a importância da revisão clínica sistemática. Além disso, a redução do número médio de fármacos por paciente (de 7,85 para 3,64 em cinco meses, redução de 53,6%) demonstra a contribuição do cuidado farmacêutico na mitigação da polifarmácia e na prevenção de complicações. Evidências sugerem que, especialmente no contexto da atenção primária, o acompanhamento farmacêutico pode ampliar o conhecimento do paciente sobre sua condição e reduzir os escores de dor em médio prazo, reforçando sua importância no cuidado multiprofissional20,24.
Portanto, os resultados deste estudo, alinhados à literatura existente, reforçam que a integração do farmacêutico clínico às equipes multiprofissionais constitui estratégia essencial no manejo da DC. Além de favorecer o controle sintomático, essa prática contribui para a racionalização da farmacoterapia, a prevenção de PRMs e a melhoria da adesão, consolidando o farmacêutico como ator central no cuidado multidisciplinar voltado a essa população.
Limitações
O estudo apresentou limitações importantes. A participação reduzida (n=22) e a amostragem por conveniência podem restringir a generalização dos resultados. O acompanhamento de cinco meses pode não refletir efeitos de longo prazo, e a ausência de grupo controle impede comparações diretas. Além disso, a dependência de autorrelatos no BPI e CPM-ES-ES pode introduzir vieses. Estudos futuros com amostras maiores, delineamentos controlados e seguimento prolongado são recomendados.
CONCLUSÃO
O estudo demonstrou que o cuidado farmacêutico integrado à equipe multidisciplinar do Programa EDUCADOR contribuiu de forma significativa para o manejo da DC. Observou-se melhora clínica relevante, com redução da intensidade da dor, racionalização da farmacoterapia, aumento da adesão ao tratamento e diminuição da ocorrência de eventos adversos. Esses resultados evidenciam que a inserção do farmacêutico clínico em serviços de atenção à dor promove benefícios diretos aos pacientes e fortalece a segurança e a efetividade da farmacoterapia.
Assim, o cuidado farmacêutico deve ser reconhecido como componente essencial nas estratégias de manejo da DC, tanto em serviços de saúde quanto em programas de extensão universitária, constituindo uma prática inovadora e custo-efetiva.
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem à Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), em especial ao Programa de Extensão EDUCADOR, pela infraestrutura e apoio institucional, bem aos professores coordenadores e aos discentes de Medicina, Farmácia e Fisioterapia que participaram do acompanhamento clínico e contribuíram para a integração multidisciplinar do cuidado. Por fim, os autores gostariam de agradecer aos pacientes participantes pela confiança e disponibilidade em compartilhar suas experiências, sem os quais este estudo não teria sido possível.
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Fontes de fomento:
não há.
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Disponibilidade de dados
Os dados coletados envolvem informações pessoais de participantes humanos e, por razões éticas e de confidencialidade, não podem ser disponibilizados publicamente. Dados anonimizados podem ser fornecidos mediante solicitação aos autores.
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Editor associado responsável:
Anita Perpetua Carvalho Rocha de Castro https://orcid.org/0000-0002-1451-8164
Os dados coletados envolvem informações pessoais de participantes humanos e, por razões éticas e de confidencialidade, não podem ser disponibilizados publicamente. Dados anonimizados podem ser fornecidos mediante solicitação aos autores.
