Resumo
Introdução Esta pesquisa analisou o perfil dos estudantes dos cursos de graduação em terapia ocupacional em instituições públicas brasileiras, com enfoque na relação entre estudo e trabalho. Além disso, o estudo explora as diferentes interações entre os papéis de estudante e de trabalhador, levando em conta variáveis como idade, gênero, origem étnico-racial e trajetória escolar.
Objetivo Comparar o perfil de estudantes que conciliam trabalho e estudo com o de estudantes em tempo integral nos cursos de terapia ocupacional em instituições públicas no Brasil.
Método Estudo quantitativo transversal, no qual estudantes de instituições públicas preencheram um questionário online sobre características demográficas, acadêmicas e profissionais. Foram realizadas análises de correspondência múltipla (ACM) para construir os perfis e regressões logísticas (binomial) para investigar a relação entre variáveis socioeconômicas e acadêmicas, com uso de softwares.
Resultados Participaram 277 estudantes das cinco regiões do Brasil. A ACM revelou perfis regionais distintos. No perfil nacional, observou-se que estudantes brancos tendem a não trabalhar, não ser cotistas, ser egressos de escola particular e não receber auxílio estudantil, enquanto estudantes pretos e pardos são mais propensos a ser cotistas, ser egressos de escola pública, receber auxílio e trabalhar. A regressão logística binomial indicou que trabalhar aumenta a chance de reprovação, de não participar de projetos acadêmicos e de trancar disciplinas. Além disso, pessoas pretas e pardas apresentam maior probabilidade de reprovação do que pessoas brancas.
Conclusão A pesquisa evidenciou não só a influência do trabalho, como também da origem étnico-racial no cotidiano de estudantes de terapia ocupacional em instituições públicas do Brasil.
Palavras-chave:
Formação Acadêmica; Ensino Superior; Terapia Ocupacional; Trabalhadores
Abstract
Introduction This research analyzed the profile of students in Occupational Therapy programs at public institutions in Brazil, focusing on the relationship between study and work. Additionally, the study explores the different interactions between the roles of student and worker, considering variables such as age, gender, ethnic-racial background, and education.
Objective To compare the profiles of students who balance work and study with those of full-time students in Occupational Therapy programs at public institutions in Brazil.
Method A quantitative cross-sectional study in which students from public institutions completed an online questionnaire about demographic, academic, and professional characteristics. Multiple Correspondence Analysis (MCA) was conducted to build profiles, and Binary Logistic Regression was used to investigate the relationship between socioeconomic and academic variables, with data analysis assisted by software.
Results A total of 277 students from all five regions of Brazil participated. MCA revealed distinct regional profiles. At the national level, it was observed that white students are more likely not to work, not to be in affirmative action programs, to have attended private schools, and not to receive student aid. In contrast, black and brown students are more likely to be in affirmative action programs, come from public schools, receive student aid, and be working students. Binary logistic regression indicated that working increases the likelihood of failing courses, not participating in academic projects, and needing to drop courses. Moreover, black and brown students have a higher probability of failure compared to white students.
Conclusion The research highlighted not only the influence of work but also the impact of ethnic-racial background on the daily lives of students in Occupational Therapy programs at public institutions in Brazil.
Keywords:
Teaching; Universities; Occupational Therapy; Occupational Groups
Introdução
O acesso ao ensino superior desde 2007 foi consideravelmente ampliado por uma iniciativa do Governo Federal ao criar o Programa de Apoio de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) a partir do Decreto nº 6.096, com o objetivo de promover a expansão, reestruturação e melhorias nas Universidades Federais do Brasil (Brasil, 2007). Este programa visou a transformação no cenário da educação superior no país e também o benefício dos estudantes trabalhadores, ao proporcionar melhores condições de permanência durante o período de graduação, bem como a expansão de cursos noturnos.
Embora o acesso à educação superior tenha sido ampliado, possibilitando assim o ingresso de mais estudantes, existe uma discrepância nas condições de permanência e de oportunidades para esses sujeitos (Trópia & Souza, 2023). Enquanto alguns estudantes conseguem se dedicar integralmente aos estudos, outros têm a necessidade de conciliar suas atividades acadêmicas com o trabalho. Sendo que esta situação é ainda mais emergente quando se refere a sujeitos em contextos socioeconômicos desfavorecidos, que seguem desassistidos pelo Estado (Trópia & Souza, 2023).
Neste sentido, é preciso caracterizar as diferentes interações que podem existir entre os papéis de quem trabalha e de quem se dedica integralmente aos estudos. É preciso propor a distinção entre o estudante que trabalha e o que não trabalha. No qual o estudante que trabalha precisa equilibrar as obrigações acadêmicas e de trabalho, muitas vezes dedicando menos tempo aos estudos e outras atividades acadêmicas. Em oposto a isso, o estudante que não trabalha pode optar por cursos e carreiras que demandam investimento de tempo integral e participar mais ativamente de atividades acadêmicas, já que não precisa dividir seu tempo entre estudar e trabalhar (Vargas & Paula, 2013).
A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES) realizou uma pesquisa, em 2018, e indicou que 29,9% dos estudantes de ensino superior das Universidades Federais conciliam trabalho e estudo. Destes, 61,5% possuem renda per capita de até um e meio salário mínimo. Fato esse que evidencia a vulnerabilidade social de uma parcela expressiva de graduandos.
Além disso, ainda há aqueles que possuem uma sobrecarga de trabalho, que muitas vezes é necessária para viabilizar a vida estudantil, gerando uma dificuldade de equilibrar os dois papéis (Ambiel et al., 2021).
Outra barreira importante que os estudantes podem ter, exigindo que equilibrem além de trabalho e estudos, é a responsabilidade familiar, pois também assumem o cuidado com o outro e têm tempo limitado para exercer suas obrigações acadêmicas (Maier & Mattos, 2016). Em vista disso, encontrar uma rede de apoio adequada, gerenciar o tempo e manter-se na universidade é um desafio contínuo no cotidiano desses indivíduos.
Ademais, questões étnico-raciais também influenciam este cenário. Segundo a V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos (as) Graduandos (as) das IFES da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (2019), o número de pretos e pardos nas instituições foi expandido, porém ainda estão em maior desvantagem econômica. Além disso, os dados ainda demonstram que apesar de todos os esforços das ações governamentais, o racismo perdura e tem como principal desafio a inclusão e a equidade no âmbito acadêmico.
Percebe-se, então, que a relação entre trabalho e estudo faz com que esses estudantes enfrentem diversos obstáculos para sua permanência nas universidades, tais como assistência deficitária, a limitação no usufruto de oportunidades acadêmicas ea própria dificuldade de conclusão do curso, em função das variáveis acima citadas: sobrecarga de trabalho, dificuldades financeiras, responsabilidade pela família e a protelação da formatura (Ambiel et al., 2021).
Dessa forma, entende-se que o trabalho é um fator que influencia o perfil dos estudantes. E apesar deste ser um tema amplamente estudado, não foram encontrados estudos que analisam estas influências em estudantes de graduação de terapia ocupacional. Questiona-se, portanto, como o trabalho influencia na vida acadêmica dos estudantes dos cursos de graduação em terapia ocupacional. O objetivo desta pesquisa é analisar o perfil dos estudantes que trabalham e dos estudantes em tempo integral dos cursos de terapia ocupacional de instituições públicas no Brasil.
Método
Trata-se de um estudo quantitativo transversal que identifica os perfis sociodemográficos dos estudantes e a situação acadêmica frente a relação com o trabalho. Para a coleta de dados foi utilizado um questionário online com perguntas fechadas e abertas. Este questionário foi dividido em seis seções, sendo elas: características demográficas, características acadêmicas, características profissionais, objetivos e motivações, comportamento e preferências e rede de apoio. Neste artigo serão apresentados os dados dos perfis sociodemográficos e suas características acadêmicas e profissionais.
Participaram desta pesquisa estudantes dos cursos de terapia ocupacional de instituições públicas do Brasil. Conforme dados retirados no sistema e-MEC, do Ministério da Educação, existem, no Brasil, 20 cursos de graduação em bacharelado em terapia ocupacional ativos em instituições públicas no país, sendo um na região Centro-Oeste, cinco na região Nordeste, dois na região Norte, nove na região Sudeste e três na Região Sul. Estes cursos ofertam de 50 a 100 vagas anuais, cada. Os critérios de inclusão para a participação na pesquisa foram estar matriculado em cursos de terapia ocupacional em instituições públicas no Brasil e ser capaz de responder ao questionário da pesquisa. Já os critérios de exclusão foram ser menor de 18 anos e estar cursando o primeiro semestre da graduação.
Antes da pesquisa ser amplamente divulgada, foi realizado um pré-teste do questionário, o qual, posteriormente, foi analisado criteriosamente por duas avaliadoras. As sugestões dos participantes desta etapa também foram consideradas para a versão aplicada.
Na sequência, as pesquisadoras elaboraram um cartaz digital para divulgar a pesquisa, incluindo um QR Code e o link do formulário no Google Forms. A divulgação da pesquisa foi realizada em grupos do Facebook e WhatsApp, além de perfis que promovem a terapia ocupacional nas redes sociais.
Para caracterização da amostra foi realizada uma análise de frequência absoluta e relativa dos dados sociodemográficos e acadêmicos. Para a análise, geral e por região, do perfil dos estudantes, foi utilizado a Análise de Correspondência Múltipla (MCA) que é uma técnica estatística utilizada para explorar e visualizar associações em conjuntos de dados que possuem diversas variáveis categóricas. Ela permite identificar padrões e perfis ao mapear as relações entre categorias das variáveis em um espaço de duas ou mais dimensões. A MCA transforma as variáveis categóricas em coordenadas numéricas, permitindo a criação de um gráfico bidimensional onde a proximidade entre as categorias indica a força da associação entre elas (Ayele et al., 2014). Para realização dos perfis foram consideradas as seguintes variáveis: cor/etnia; origem escolar; condição de cotista; recebimento de auxílios e inserção no mercado de trabalho. Já para investigar a relação entre variáveis socioeconômicas e características acadêmicas dos estudantes foram realizadas regressões logísticas binomiais que permitiram modelar a probabilidade de ocorrência dos desfechos acadêmicos binários, dados os fatores de risco identificados. Como covariáveis independentes ou preditoras foram consideradas: inserção no mercado de trabalho, origem escolar, condição de cotista, recebimento de auxílio, cor/etnia e região do Brasil. E como variáveis dependentes (VD) para os desfechos acadêmicos específicos foram consideradas: reprovação em disciplinas, trancamento de matrícula ou disciplinas, redução do número de disciplinas por semestre, participação em projetos e recebimento de bolsa em projetos. Cada variável foi modelada separadamente resultando em cinco modelos de regressão distintos. Para facilitar a interpretação, os odds ratios (OR) foram calculados para cada covariável, indicando a mudança nas chances de ocorrência do desfecho associada a cada fator. A significância dos coeficientes foi testada com valores de p, com um nível de significância de 5% (p < 0,05) para determinar quais variáveis foram preditoras significativas para cada desfecho. As análises foram realizadas com auxílio dos softwares SPSS, versão 27.0 e Jamovi 2.6.13.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pelotas, sob o CAAE: 76595023.6.0000.5317 e respeitou os princípios éticos norteados pela resolução 466/12 e 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e tiveram resguardada sua identidade.
Resultados
Em relação às características sociodemográficas os participantes dessa pesquisa são em maioria estudantes em tempo integral (67,4%), mulheres (88,8%), solteiros (89,1%), em período da juventude (80,8%), brancos (55,8%), oriundos de escola pública (65,9%), que residem com a família (66,7%), em imóvel próprio (52,5%), sem filhos (88,4%), e oriundos de família com pessoas que cursaram ensino superior completo (62,3%). Desses participantes, 2,2% são da região Centro-Oeste, 19,9% da região Nordeste, 12% da região Norte, 33% são da região Sudeste e 33% da região Sul, conforme detalhado na Tabela 1.
Já considerando as características acadêmicas, a maioria dos estudantes não ingressou pelo sistema de cotas (51,4%). A maioria não recebe auxílios estudantis (69,2%) e conseguem participar de projetos de ensino, pesquisa e extensão (73,6%). Entretanto, não receberam ou recebem bolsa de projetos de ensino, pesquisa e extensão (70,7%). Também nunca precisaram trancar disciplinas ao longo do curso (63,4%) e não precisaram se inscrever em menos disciplinas que o previsto na grade curricular (59,4%). Por fim, 70,3% nunca reprovaram em uma disciplina, conforme detalhado na Tabela 1.
Quanto às características profissionais, 32,6% dos participantes trabalham, com carga horária de 21 a 30 horas de trabalho por semana (43,3%), sendo a informalidade a categoria de trabalho mais frequente (31,1%). Questionados sobre a busca por emprego, 45,1% dos participantes responderam que não estão à procura de trabalho, enquanto 23,6% afirmaram estar em busca de emprego. E, por fim, dos estudantes que trabalham 52,1% se declararam brancos.
Ao analisar os perfis formados pela MCA foram observadas similaridades entre as regiões conforme demonstrado nas Figuras 1, 2 e 3.
Observa-se que ao analisar o Perfil Nacional, na Figura 1, há uma maior proximidade das variáveis ser branco, não trabalhar, não ser cotista, ser egresso de escola particular, não receber auxílio. Outro grupo de associação possível é ser pardo e trabalhador, e por fim, ser cotista, precisar de auxílio e ser egresso de escola pública.
Investigando cada região do país, foi observado que o perfil é similar ao perfil nacional, com distinções mais discrepantes com relação às variáveis cor/etnia e trabalho. Em todas as regiões, existe um padrão consistente no perfil dos estudantes brancos, sendo, possivelmente: egressos de escola particular, não cotistas, que não recebem auxílio estudantil e não trabalham. Além disso, o grupo de estudantes indígenas apresenta isolamento entre as variáveis, refletindo uma possível baixa representatividade desse grupo na pesquisa. No entanto, outros grupos apresentam peculiaridades por região.
Os estudantes pretos, por exemplo, possivelmente têm associação em serem oriundos de escola pública, cotistas e que recebem auxílio estudantil nas regiões Nordeste, Norte e Sudeste, conforme nas Figuras 2 e 3. Entretanto, nas regiões Centro-Oeste e Sul, ilustradas nas Figuras 1 e 3, além das características citadas, inclui-se associação com a necessidade de trabalhar.
Observou-se forte associação em ser pardo e trabalhar em todas as regiões, também aproximando-se entre ser cotista e egresso de escola pública, mas sem proximidade a receber auxílio estudantil.
Considerando a associação entre variáveis sociodemográficas e características acadêmicas dos estudantes, os resultados das regressões logísticas binomiais, de acordo com a Tabela 2 e 3, mostram que quem trabalha tem 3,34 vezes mais chance de reprovar em disciplinas do que quem não trabalha (p=<0.001).
Também na reprovação, além do trabalho, o fator cor/etnia revela dados estatisticamente significativos, indicando que pessoas pretas têm 3,07 vezes mais chance de reprovação (p=0.034) e pessoas pardas têm 2,44 vezes mais chance de reprovação (p=0.024) quando comparadas às pessoas brancas.
Além disso, quem trabalha tem 2,4 vezes mais chance de não conseguir participar de projetos de ensino, pesquisa e extensão (p=0.018). Consequentemente 2,1 vezes mais chance de não ser bolsista em projetos da mesma natureza (p=0.049).
Por fim, quem trabalha tem 2,11 vezes mais chance de precisar trancar disciplinas e matrículas do que quem não trabalha (p=0.02). A única variável acadêmica que não apresentou diferença estatística ao analisar o trabalho foi “reduzir o número de disciplinas por semestre” (p=0.059).
Discussão
Na dinâmica de ser um estudante trabalhador, percebe-se que essa condição afeta o desempenho e as oportunidades acadêmicas, pois quem trabalha reprova mais do que estudantes em tempo integral. Segundo Souza et al. (2020), o trabalho gera implicações no ensino, uma vez que, além da sobrecarga de trabalho, também podem ser observados, com frequência, em sujeitos que estudam e trabalham, alterações do sono, estresse, falta de tempo para lazer, desmotivação e prejuízo acadêmico. A sobrecarga e ausência de tempo para dedicar-se às atividades acadêmicas afetam os estudantes que, muitas vezes, dependem do próprio trabalho para garantir sua própria subsistência, transformando-o em uma necessidade, não em uma escolha.
Para tanto, dos 20 cursos de terapia ocupacional em instituições públicas no país, 19 são em período integral e todos possuem pelo menos um turno diurno. Podendo, frequentemente, tornar inviável a conciliação entre trabalho e estudos, sobretudo porque, como revela a pesquisa, a maioria dos estudantes trabalha de maneira informal. Por conta disso, há possibilidade de ocorrer baixo rendimento acadêmico e represamento no curso, pois, para manterem-se financeiramente estável, os estudos ficam em segundo plano ou, em alguns casos, chegam à evasão.
É importante analisar dados de retenção e evasão a fim de repensar estratégias que colaborem no processo de aprendizado desses alunos, pois são diversos os motivos que levam os alunos a enfrentarem essas dificuldades durante sua trajetória no ensino superior (Abbad et al., 2014).
No que tange a evasão na graduação, existe uma preocupação crescente das universidades. A V pesquisa da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (2019) revela que mais da metade (52,8%) dos estudantes de graduação já pensaram em abandonar o curso, e, dos que abandonam, 23,6% estão relacionados às dificuldades para conciliar estudo e trabalho.
Em relação à reprovação, Freitas et al. (2017, p. 3) alertam: “pode haver uma culpabilização do aluno pelas dificuldades de entrada e permanência no Ensino Superior, como se essas dificuldades estivessem relacionadas à falta de capacidade dos mesmos”. Essa perspectiva, não considera o contexto social dos discentes, e corrobora com seu sentimento de incapacidade (Veras, 2022), potencializando a evasão e, segundo Daolio & Neufeld (2017), problemas de saúde mental irreversíveis.
A Constituição Federal, em seu artigo 207, aborda o ensino, a pesquisa e a extensão como indissociáveis no ensino superior para promover uma educação de qualidade (Brasil, 1988). Essa tríade é fundamental para construir uma universidade inclusiva e que valoriza a ciência como forma de criação de saberes. A oportunidade de participar em projetos é um fator crucial para os estudantes, pois, sem dúvida, aproxima os discentes das práticas do curso e da profissão. Sem conseguir se dedicar a essas atividades, isso, consequentemente, acarreta não conseguir bolsas, que são tão importantes para estimular a participação estudantil e permanência acadêmica (Universidade Federal de Santa Maria, 2023)
Ademais, as bolsas acadêmicas exigem uma carga horária de 10 a 20 horas semanais e uma dedicação de 6 meses a 1 ano, o que, somado à jornada de trabalho dos estudantes, torna inviável conciliar essas atividades. Apesar disso, o valor das bolsas, que gira em torno de 700 reais (Brasil, 2023), também é insuficiente para que os discentes possam abrir mão de seus empregos, já que não cobre as necessidades básicas de sustento, mesmo após reajuste com aumento de 75% no valor recebido (Brasil, 2023).
Tendo em vista que os estudantes que trabalham apresentam mais chances de trancar disciplinas e a taxa de reprovação entre eles também é um dado significativo, mesmo com os percalços, a quantidade de disciplinas em que se matriculam não diminuiu, o que indica que apesar da sobrecarga que enfrentam, há um desejo de seguir com os estudos, muitas vezes movidos pela possibilidade de obter ascensão social, mas sem condições estruturais para conciliar as atividades.
A conciliação entre trabalho e estudo, segundo a Organização Internacional do Trabalho e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (2015), apresenta muitos desafios para jovens de 15 a 29 anos que precisam trabalhar enquanto buscam o aumento da escolaridade. Nessa faixa etária, aqueles que conciliam trabalho e estudo apresentam maior taxa de informalidade em relação aos que apenas trabalham. Esse cenário pode ser explicado, em parte, pela maior incidência de informalidade em jornadas parciais1 de trabalho (Organização Internacional do Trabalho & Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2015). Os dados da pesquisa realizada alinham-se com esses resultados, pois demonstram que, entre os estudantes trabalhadores, a maioria está em situação de trabalho informal, representando 31,1%.
Para Zorzo & Reis (2024), a vivência universitária envolve uma série de investimentos, e não é incomum que os estudantes recorram ao trabalho informal para dispor de recursos materiais, considerando que possuem pouco ou nenhum meio de subsistência e execução limitada dos programas de assistência estudantil, como a Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), implementada na Lei nº 14.914 (Brasil, 2024), que realmente satisfaçam esse tipo de necessidade, desde o começo da graduação. É justamente nesse cenário em que o trabalho informal se apresenta para a juventude em situação de vulnerabilidade. Nesse contexto, o trabalho informal surge como uma alternativa recorrente para a juventude em situação de vulnerabilidade (Zorzo & Reis, 2024), juventude essa, que também é maioria (80,8%), segundo os resultados.
Em termos étnico-raciais, e para além do trabalho, já que a maioria dos estudantes trabalhadores são brancos, os resultados demonstraram que a cor/etnia influencia no sucesso acadêmico, uma vez que estudantes pretos e pardos têm maior probabilidade estatística para a reprovação. Parecendo demonstrar uma falha estrutural e institucional, que tem impacto substancial na trajetória acadêmica dessas pessoas. Este fenômeno pode ser considerado consequência de racismo estrutural e racismo institucional, que apesar de serem popularmente confundidos, segundo Almeida (2019), são fenômenos distintos e devem ser descritos dessa forma.
Para compreender de uma forma mais crítico-reflexiva, o racismo institucional, segundo Almeida (2019), é debatido como resultado do funcionamento das instituições, que agem em uma dinâmica que privilegia as pessoas baseadas em sua etnia. O público predominante de homens brancos em instituições públicas, fundamentam-se em padrões que dificultam a ascensão de negros e na ausência de espaços para discutir desigualdade racial, normalizando a dominação por esse grupo. Enquanto que o racismo estrutural está presente no funcionamento das relações políticas, econômicas, jurídicas e familiares. Não é um desvio, mas algo que faz parte da estrutura. Isso envolve tanto as ações das pessoas quanto as práticas das instituições, mostrando que o racismo está enraizado na sociedade. Dessa forma deve-se repensar as bases dessas relações que sustentam essa estrutura (Almeida, 2019).
Na universidade, essas dimensões podem se expressar em experiências de exclusão e em dificuldades para o acesso e permanência. A fragilidade de espaços institucionais destinados ao debate étnico-racial contribui para a reprodução do racismo nas relações institucionais, favorecendo a invisibilização de estudantes negros e a manutenção de um modelo universitário hegemônico nas universidades públicas brasileiras (Valério et al., 2021).
As pessoas brancas ainda ocupam lugares de maioria no ensino público, sendo 55,8% dos participantes. A Lei nº 12.711/2012, que regulamenta o sistema de cotas para o ingresso em instituições federais de ensino, ampliou o acesso de estudantes pretos, pardos e indígenas no ensino superior (Brasil, 2012). Embora a Lei de Cotas tenha promovido maior acesso desse público à educação, ainda existe um caminho longo para que este número seja equânime, o que fica evidenciado na amostra desta pesquisa. Ainda que alcancem o acesso, é necessário ampliar significativamente as políticas de permanência a fim de promover qualidade durante a graduação, já que mais de 67% dos estudantes que não trabalham fazem uso de algum tipo de auxílio estudantil.
Esse cenário reflete heranças históricas de desigualdade étnico-racial, visto que os brancos se beneficiam do modo como a sociedade foi colocada, permitindo mais acesso e permanência no Ensino Superior. Ciente disso, Cida Bento aponta:
Descendentes de escravocratas e descendentes de escravizados lidam com as heranças acumuladas em histórias de muita dor e violência, que se refletem na vida concreta e simbólica das gerações contemporâneas. Fala-se muito na herança da escravidão e nos seus impactos negativos para as populações negras, mas quase nunca se fala na herança escravocrata e nos seus impactos positivos para as pessoas brancas (Bento, 2022, p. 23).
Diante disso, torna-se fundamental compreender os processos de opressão e dominação que atravessam a formação universitária, reconhecendo o apagamento histórico de saberes de grupos colonizados e incorporando perspectivas decoloniais como base para ações, práticas e engajamento nesse contexto (Ambrosio & Silva, 2022).
Apesar do gênero não ter sido utilizado nas análises inferenciais, observou-se um predomínio de pessoas do gênero feminino (88,8%), fenômeno cultural da área da saúde. O número expressivo de mulheres dos cursos de terapia ocupacional do Brasil reflete a feminilização da profissão. Haddad et al. (2010), realizou uma pesquisa entre os 14 cursos da saúde que evidencia estes dados, em que as mulheres eram maioria em cursos da saúde, exceto educação física. Neste estudo, os cursos de fonoaudiologia, serviço social, nutrição e terapia ocupacional, as mulheres somavam mais de 90% dos estudantes dos respectivos cursos, o que se alinha com o presente trabalho. Atrelada ao cuidado, esse papel atribui às mulheres a conduta de acolhimento e empatia, nas profissões que promovem saúde, bem-estar e qualidade de vida, pois são fruto da socialização que impõe o cuidado como atributo inato ao gênero feminino. Sendo construído na profissão desde o seu surgimento, como destacado por Figueiredo et al.:
O modelo de segregação de gênero influenciou o desenvolvimento de diversas profissões direcionadas às mulheres, como a terapia ocupacional, uma vez que requeriam a concretização de ações e papéis esperados pela mulher na sociedade. Os estereótipos associados à figura feminina, como a habilidade para “o cuidar” e para realizar tarefas que envolvessem movimentos finos associados às características de bondade infinita e paciência, constituíram qualidades exigidas para as primeiras terapeutas ocupacionais e influenciaram a questão do gênero feminino na terapia ocupacional (Figueiredo et al., 2018, p. 124).
Considerando o tema da relação entre trabalho e estudo, é importante destacar que as mulheres, predominantes nos cursos de terapia ocupacional, enfrentam exigências acadêmicas e profissionais que, por si só, já geram grande sobrecarga, além de também uma responsabilidade desproporcional pelas tarefas domésticas. A tripla jornada – profissão, família e educação – reflete desigualdades de gênero e papéis sociais que perpetuam essa sobrecarga. Como discutido por Pirrolas & Correia (2020), mesmo quando homens e mulheres possuem condições de trabalho semelhantes, as mulheres acabam enfrentando maior pressão devido à naturalização da divisão desigual de responsabilidades no âmbito doméstico e familiar.
Conclusão
Esta pesquisa evidencia a influência do trabalho e origem étnico-racial na vivência acadêmica dos estudantes de terapia ocupacional.
Dessa forma, é notável como a relação entre trabalho e estudo é afetada, especialmente quando é preciso conciliar as duas atividades. O trabalho informal, o qual apresenta número expressivo, por ser a fonte de sustento, acaba se tornando prioridade e gera sobrecarga de responsabilidades, comprometendo o rendimento acadêmico dos estudantes que trabalham, com maior chance de reprovação e de precisarem trancar alguma disciplina ou a própria matrícula do curso.
Esses estudantes enfrentam impasses em seu cotidiano acadêmico, como não conseguir inserir-se em projetos de ensino, pesquisa e extensão e impedimentos para conseguir bolsas nestes projetos. É importante ressaltar a resistência desses estudantes, que mesmo reprovando mais, não se matriculam em menos disciplinas ao longo do curso, mesmo um contexto desfavorável em que as Instituições Públicas de Ensino Superior não comportam suas realidades e nem oferecem o suporte necessário que possa atender às suas necessidades específicas.
Além disso, a questão racial emergiu como um fator determinante nessa pesquisa, mostrando desigualdades significativas no acesso e permanência dos estudantes de terapia ocupacional. Estudantes pretos e pardos enfrentam mais risco de reprovar em comparação aos estudantes brancos e estão mais associados à possível necessidade de trabalhar enquanto estudam.
Nesse contexto, a criação de políticas públicas específicas para atender estudantes trabalhadores é imprescindível, considerando as limitações na tarefa de conciliar os dois papéis. Para além disso, é urgente a ampliação da Política Nacional de Assistência Estudantil, para incluir esse público de maneira mais ampla, oferecendo suporte financeiro e acadêmico, que favoreça a conclusão da graduação, desenvolvendo também programas de apoio específicos para esse público, discutindo retenção e evasão de forma assertiva.
Cabe aos órgãos responsáveis repensar as diretrizes que incentivem as universidades públicas a ampliar a oferta de cursos de terapia ocupacional no período noturno, visando contribuir com o acesso e permanência dos estudantes trabalhadores, com maior flexibilidade no horário de estudos.
Adicionalmente, é necessário um esforço das coordenações e núcleos docentes estruturantes dos cursos de terapia ocupacional em preocupar-se com as necessidades dos estudantes trabalhadores, podendo promover ações que estimulem a permanência desses estudantes. Somado a isso, os docentes universitários poderiam flexibilizar e adaptar os horários nos projetos acadêmicos de ensino, pesquisa e extensão, levando em consideração a dupla -e até mesmo tripla- jornada que esse público enfrenta.
Por fim, é dever do Estado promover uma educação de qualidade para todos. No entanto, enquanto os estudantes trabalhadores não forem incluídos nas políticas educacionais, sendo garantido apoio e oportunidades acadêmicas, não alcançaremos uma educação verdadeiramente inclusiva e de qualidade.
Entretanto, algumas limitações devem ser consideradas ao interpretar esses resultados. No início da coleta de dados, 69 universidades federais deflagraram greve dos docentes e técnicos, dificultando o processo na divulgação da pesquisa, esse efeito pode explicar a baixa das respostas principalmente na região Centro-Oeste. Além disso, a diferença entre o número amostral entre as regiões limita a interpretação dos achados comparativos. Destaca-se, também, a baixa representatividade de indígenas, possivelmente refletindo os desafios históricos e estruturais que dificultam o acesso dessa população em ambientes acadêmicos. Sugere-se que novas pesquisas com outros desenhos metodológicos possam explorar o assunto, apresentando achados que possam contribuir com as discussões acerca do tema.
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O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada considera a jornada parcial quando o trabalhador trabalha até 30 horas semanais.
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Como citar:
Santos, G. D., & Girundi, C. (2026). Perfil dos estudantes de terapia ocupacional em instituições públicas de ensino no Brasil: uma análise da relação entre trabalho e estudo. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 34, e4124. https://doi.org/10.1590/2526-8910.cto418041241
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Disponibilidade de Dados
Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.
Referências
- Abbad, G. S., Bousquet-Santos, K., Lima Torres, A. A., Ferreira Parreira, C. M. S., & Moura Pinho, D. L. (2014). Estudo sobre reprovação de calouros de cursos interdisciplinares de saúde. Participação, 26, 39-46.
- Almeida, S. L. (2019). Racismo estrutural São Paulo: Jandaíra.
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Ambiel, R. A. M., Cortez, P. A., & Salvador, A. P. (2021). Predição da potencial evasão acadêmica entre estudantes trabalhadores e não trabalhadores. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 37, 1-10. http://doi.org/10.1590/0102.3772e37305
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Ambrosio, L., & Silva, C. R. (2022). Interseccionalidade: um conceito amefricano e diaspórico para a terapia ocupacional. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, 30, e3150. http://doi.org/10.1590/2526-8910.ctoen241431502
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Editora de seção
Profa. Dra. Patrícia Leme de Oliveira Borba
Os dados que sustentam os resultados deste estudo estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.






