Open-access Autopercepção negativa da saúde entre professores da educação básica pública: prevalência e fatores associados

Negative self-perception of health among public basic education teachers: prevalence and associated factors

Resumo

Introdução:  A autopercepção da saúde é um indicador subjetivo amplamente utilizado, com reconhecida capacidade de predizer desfechos em saúde.

Objetivo:  Analisar fatores associados à autopercepção negativa da saúde entre professores da educação básica de Minas Gerais.

Métodos:  Websurvey realizado com envio de formulários ao e-mail institucional dos docentes. A variável dependente foi a "autopercepção da saúde" (positiva vs. negativa). As variáveis independentes foram organizadas em blocos temáticos: características sociodemográficas e econômicas; características do emprego; comportamentos e estilo de vida; situação de saúde. Conduziu-se regressão de Poisson com variância robusta.

Resultados:  Entre os 1.907 professores, a prevalência de autopercepção negativa foi de 51,2%. Esta prevalência foi maior entre professores negros/pardos/amarelos/indígenas, indiferentes/insatisfeitos com o trabalho, alimentação inadequada, inativos fisicamente, pior qualidade do sono, diagnóstico de ansiedade e/ou depressão, transtorno mental comum, doenças crônicas, predisposição a distúrbios vocais, e dor nas costas.

Conclusão:  A elevada prevalência de autopercepção negativa da saúde entre professores esteve associada a hábitos de vida menos saudáveis, saúde física e mental comprometida e insatisfação com o trabalho. Há necessidade de maior entendimento sobre a influência de fatores modificáveis que interferem na autopercepção de saúde docente.

Palavras-chave:
autopercepção; condições de saúde; saúde do trabalhador; professores escolares; prevalência; inquérito epidemiológico

Abstract

Background:  Self-rated health is a widely used subjective indicator with a recognized ability to predict health outcomes.

Objective:  To analyze factors associated with negative self-rated health among basic education teachers in Minas Gerais.

Methods:  A websurvey was conducted by sending forms to the institutional email of the teachers. The dependent variable was "self-rated health" (positive vs. negative). Independent variables were organized into thematic blocks: sociodemographic and economic characteristics; employment characteristics; behaviors and lifestyle; health status. Poisson regression with robust variance was conducted.

Results:  Among the 1,907 teachers, the prevalence of negative self-rated health was 51.2%. This prevalence was higher among Black/Brown/Yellow/Indigenous teachers, those indifferent/dissatisfied with their work, those with inadequate nutrition, physically inactive, those with worse sleep quality, diagnosis of anxiety and/or depression, common mental disorder, chronic diseases, predisposition to voice disorders, and back pain.

Conclusion:  The high prevalence of negative self-rated health among teachers was associated with less healthy lifestyle habits, compromised physical and mental health, and job dissatisfaction. There is a need for greater understanding of the influence of modifiable factors that interfere with teachers’ self-rated health.

Keywords:
self-perception; health conditions; worker’s health; school teachers; prevalence; epidemiological survey

INTRODUÇÃO

A autopercepção da saúde refere-se à capacidade de o indivíduo perceber subjetivamente seu estado de saúde1,2. É uma estratégia validada internacionalmente e consiste em ferramenta útil para obter aspectos centrados na percepção do próprio indivíduo em relação ao seu estado geral de saúde, qualidade de vida e bem-estar, sendo capaz de predizer declínio funcional, procura por cuidados de saúde e a aceitação de planos de tratamento1,2. Estudos envolvendo autorrelatos de saúde vêm sendo cada vez mais recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela capacidade de obter-se informações de forma relativamente rápida e simplificada3. Trata-se de medida multidimensional composta por vários fatores que a influenciam, como aspectos sociodemográficos, estilos de vida, saúde física e psicológica2,4. O ambiente físico e social bem como as relações de trabalho influenciam fortemente a autopercepção da saúde2,5,6.

O trabalho docente tem sido destaque frequente na literatura com foco na relação entre as condições de trabalho e os riscos à saúde dos professores, que representam uma categoria vulnerável ao adoecimento físico e mental1,2,5,7. Essa relação se agravou ainda mais com a crise sanitária iniciada em 2020 devido à pandemia da COVID-19, quando os professores vivenciaram mudanças desafiadoras em seu cotidiano em decorrência de novas tecnologias e mudanças no sistema educacional e na forma de organizar o trabalho e acessar alunos8,9. Estudos realizados com professores no período pré-pandemia observaram associações entre autopercepção negativa da saúde e distúrbios vocais, transtornos mentais comuns, jornada de trabalho excessiva, entre outros fatores1,2,5. Entretanto, não há, ainda, uma compreensão ampla desse desfecho no período após a ocorrência da pandemia.

Assim, objetivou-se aprofundar o entendimento da autopercepção negativa da saúde entre professores da educação básica da rede estadual de Minas Gerais no período de volta às atividades presenciais pós-pandemia da COVID-19.

MÉTODOS

Trata-se de um recorte transversal (baseline) do Projeto ProfSMinas "Condições de saúde e trabalho de professores da educação básica do estado de Minas Gerais: estudo longitudinal". O ProfSMinas é um websurvey realizado com professores da educação básica (educação infantil, ensino fundamental e médio) das escolas da rede pública estadual de ensino de Minas Gerais (MG), Brasil. O estado de Minas Gerais tem aproximadamente 90 mil professores da educação básica, atuantes em 3.441 escolas públicas estaduais (comunicação pessoal, Secretaria de Estado de Educação – SEE-MG, mediante folha de pagamento de julho/2021).

Por se tratar de websurvey, é difícil para os pesquisadores garantirem controle total sobre o número de participantes na coleta de dados. Entretanto, para garantir um número mínimo necessário, foi realizado cálculo amostral. Considerou-se população finita (n=90 mil), erro de 3%, prevalência de 50% do evento de interesse com a intenção de obter o maior tamanho amostral e acréscimo de 20% para compensar possíveis perdas. Assim, estimou-se necessidade de coletar dados de 1.266 professores das escolas estaduais de MG.

Foram obtidas autorizações e uma parceria firmada com a SEE-MG, que recomendou e encorajou a participação dos professores. A coleta de dados ocorreu de outubro a dezembro/2021. O link do formulário online (Google Forms) foi enviado pela SEE-MG para as 47 Superintendências Regionais de Educação (SREs-MG), sendo solicitado que essas repassassem para os e-mails institucionais dos professores.

Segundo dados do estudo-piloto realizado com 16 professores, o preenchimento do formulário consumia 40 minutos. Para evitar o preenchimento automático, foi utilizado um reCAPTCHA com testes em imagens. Endereço eletrônico e número de MASP (Matrícula do Servidor Público – MG) foram coletados a fim de garantir se tratar do público-alvo da pesquisa e evitar o preenchimento do formulário em duplicata.

Foram incluídos somente aqueles com cargo de professor da educação básica em escola estadual de Minas Gerais no momento da coleta e que aceitaram participar da pesquisa. Foram excluídos professores que declararam desvio da função docente, aposentados e que responderam "não" quando perguntados se aceitavam participar do estudo.

A variável dependente adotada — autopercepção de saúde — foi obtida por meio da questão: "Em geral, você diria que sua saúde é:" As opções de resposta seguiram escala Likert de cinco pontos (excelente, bom, regular, ruim e péssimo). As três categorias que retratavam maior insatisfação foram agrupadas para caracterizar a autopercepção negativa da saúde.

As variáveis independentes (Quadro 1) foram organizadas em 4 blocos temáticos inspirados nos modelos teóricos propostos em estudos anteriores que investigaram fatores associados à autopercepção de saúde1,4.

Quadro 1
Modelo teórico dos fatores associados à autopercepção de saúde entre professores da educação básica de escolas estaduais do estado de Minas Gerais, Brasil, 2021.

O primeiro bloco foi de Características sociodemográficas e econômicas: sexo, idade, cor da pele autodeclarada, situação conjugal, nível de escolaridade e renda familiar.

O segundo bloco foi composto por Características do emprego: tempo de trabalho atuando como professor, jornada de trabalho semanal, tipo de vínculo de emprego e satisfação com o trabalho. A satisfação com o trabalho docente foi mensurada pela questão "Você está satisfeito(a) com o seu trabalho?", aferida em escala Likert e posteriormente dicotomizada em satisfeitos vs. indiferentes/insatisfeitos.

As variáveis de Comportamentos e estilo de vida compuseram o terceiro bloco: consumo de álcool, tabagismo, avaliação da alimentação, hábito de atividade física há pelo menos seis meses e qualidade do sono autorreferida. O consumo de álcool foi aferido pela questão "Com que frequência você consome bebidas alcoólicas?". As respostas foram agrupadas em "nunca consome", "consumo esporádico" (no máximo até três vezes/mês) e "consumo frequente" (semanalmente). O tabagismo foi aferido pelas respostas à questão "Você fuma?". As opções de resposta eram: não, nunca fumei; sim, fumo atualmente; e sou ex-fumante. A avaliação da alimentação foi realizada pela Escala para avaliação da alimentação10, instrumento contendo 24 questões com o objetivo de mensurar práticas alimentares saudáveis de acordo com as recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira. As opções de respostas são apresentadas em escala Likert de quatro pontos. O escore total é obtido por meio da somatória dos itens (1 a 24), sendo categorizado em: alimentação inadequada (até 31 pontos), necessita de modificação (entre 31 e 41 pontos) e alimentação saudável (acima de 41 pontos). O hábito de atividade física foi aferido por questão extraída do Modelo Transteórico para Mudança nos Estágios de Atividade Física: "Marque a opção que melhor representa seus hábitos em relação à prática de atividade física". Havia cinco opções de respostas, sendo que as três primeiras indicavam que o indivíduo não apresentava o referido hábito, diferindo apenas na intenção de começar a praticar. As duas últimas opções de respostas indicavam que o indivíduo fazia atividade física, diferindo apenas há quanto tempo se dava essa prática11. As três primeiras foram agrupadas na categoria "não" e as duas últimas, agrupadas em "sim".

O quarto bloco apresenta variáveis referentes à Situação de saúde: diagnóstico de depressão e/ou ansiedade, presença de Transtorno Mental Comum (TMC), diagnóstico médico de Doenças Crônicas não Transmissíveis (DCNT), Índice de Massa Corporal (IMC), predisposição a distúrbios vocais, relato de dor nas costas e impacto da saúde bucal na qualidade de vida. O diagnóstico de depressão e/ou ansiedade foi proveniente do agrupamento das respostas dadas às seguintes perguntas: "Você tem ou teve diagnóstico médico de depressão nos últimos 12 meses?" e "Você tem ou teve diagnóstico médico de ansiedade nos últimos 12 meses?". Indivíduos que responderam "sim" a pelo menos uma das perguntas foram alocados na categoria "sim" da variável construída. A presença de TMC foi avaliada pelo Self Reporting Questionnaire (SRQ-20). O instrumento afere situações de saúde que não apresentam critérios suficientes para o diagnóstico de depressão e/ou ansiedade, mas caracterizam-se por sintomas tais como insônia, fadiga, esquecimento, irritabilidade e dificuldade de concentração12. O SRQ-20 apresenta 20 questões com respostas sim vs. não, referentes aos últimos 30 dias. O ponto de corte para suspeitos de TMC foi apresentar sete ou mais respostas positivas12. A presença de DCNT considerou relatos de diagnóstico médico de diabetes, hipertensão, problemas cardíacos e/ou circulatórios — doenças que compartilham fatores de risco comportamentais13. A classificação do IMC se baseou nas recomendações da OMS para adultos14, sendo classificado em normal (≤24,99), sobrepeso (25 a 29,99) ou obesidade (≥30). A predisposição a distúrbios vocais foi avaliada pelo Índice de Triagem de Distúrbio de Voz15, instrumento que apresenta uma relação de 12 sinais e sintomas relacionados à voz, com respostas seguindo escala Likert de quatro pontos, sendo um ponto para cada sintoma assinalado como "sempre" e "às vezes", enquanto as respostas "nunca" ou "raramente" não são pontuadas. Pontuação maior ou igual a 5 é considerada como predisposição a distúrbios vocais. Já a dor nas costas foi avaliada pela questão "Nos últimos 6 meses, você sentiu dores nas costas?". Por fim, o impacto da saúde bucal na qualidade de vida foi avaliado pela versão compacta e validada do instrumento Perfil de Impacto da Saúde Bucal (OHIP-14)16, instrumento composto por 14 questões que buscam descobrir se o paciente sofreu, nos últimos seis meses, incidente social devido a problemas com seus dentes, boca ou próteses. Adotou-se o método da simples contagem, sendo considerados com impacto os indivíduos que responderam os códigos 3 ou 4 ("frequentemente" e "sempre", respectivamente) para uma ou mais questões do instrumento16.

A análise dos dados foi realizada no Statistical Package for the Social Sciences, versão 29.0®. Foram conduzidas análises descritivas e, sequencialmente, análises bivariadas por meio do teste qui-quadrado de Pearson. As variáveis que apresentaram valor de p≤0,20 nas análises bivariadas foram selecionadas para iniciar a modelagem múltipla. Nos modelos múltiplos, adotou-se a regressão de Poisson com variância robusta. Os modelos foram manualmente ajustados, adotando-se nível de significância de 5%. Foram estimadas Razões de Prevalência (RP), seus Intervalos de 95% de Confiança (IC95%) e nível descritivo (p-valor).

A pesquisa cumpriu os preceitos éticos determinados pela resolução 466 de 2012, que regulamenta pesquisas envolvendo seres humanos17. Foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) (parecer no 4.964.125/2021) e recebeu consentimento formal de realização pela gestão da SEE-MG. No início do formulário digital foi apresentado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

Foram coletados 1.982 formulários. Desses, 75 foram excluídos: 18 declararam não desejar participar do estudo, e 57 responderam "não" à pergunta "Você tem cargo de professor da educação básica em escola estadual de Minas Gerais?". Após tais exclusões, 1.907 formulários foram considerados válidos e utilizados neste estudo.

Houve participação de professores atuantes em todos os 6 Polos Regionais de Ensino de MG e de 46 das 47 SREs-MG. Houve participantes de 352 diferentes municípios mineiros (41,3%). Do total de escolas, 89,4% estavam localizadas na zona urbana dos municípios.

Houve predomínio de mulheres, com idade entre 40 e 59 anos e com união estável. A maioria era concursada/efetiva e relatou indiferença/insatisfação com o trabalho docente. A maioria não fumava, não bebia e não praticava atividade física. Quanto às condições de saúde, a maioria apresentava sobrepeso e relatou dor nas costas. A prevalência de autopercepção negativa da saúde foi de 51,2% (IC95% 48,96–53,44%). As análises descritivas e bivariadas estão apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
Análise descritiva e bivariada da autopercepção da saúde, segundo características sociodemográficas e econômicas, características do emprego, comportamento e estilo de vida, e situação de saúde entre professores da educação básica de escolas estaduais de Minas Gerais, 2021, n=1.907.

O modelo múltiplo ajustado revelou que a prevalência de autopercepção negativa da saúde foi maior entre professores negros/pardos/amarelos/indígenas, que estavam indiferentes/insatisfeitos com o trabalho docente, com alimentação inadequada, que não praticavam atividades físicas, com qualidade ruim/muito ruim do sono, diagnóstico médico de ansiedade ou depressão, presença de TCM e DCNT, com predisposição a distúrbios vocais e que sofriam de dor nas costas (Tabela 2).

Tabela 2
Modelo múltiplo de regressão de Poisson final ajustado das variáveis associadas à autopercepção negativa da saúde entre professores da educação básica de escolas estaduais de Minas Gerais, 2021, n=1.907.

DISCUSSÃO

Este estudo revelou elevada prevalência de autopercepção negativa da saúde entre docentes da educação básica no período de retomada das atividades presenciais, no "pós-pandemia" da COVID-19. Maiores prevalências de autopercepção negativa da saúde foram observadas entre professores de cor da pele não branca, insatisfeitos com o trabalho, com alimentação inadequada, que não praticavam atividade física, com pior qualidade do sono, diagnóstico médico de ansiedade e/ou depressão, TMC, DCNT, distúrbios vocais e dores nas costas. Com exceção da cor da pele, os demais fatores identificados como associados à autopercepção da saúde configuram-se como modificáveis, merecendo maior atenção no contexto da saúde docente. Além disso, observa-se a complexidade e o caráter multidimensional da autopercepção da saúde, bem como a adequação do modelo teórico adotado, já que variáveis de todos os blocos considerados permaneceram no modelo final.

Em Minas Gerais, as aulas presenciais na educação básica pública foram suspensas em março de 2020 por meio do Decreto no 47.89118 como medida de prevenção à disseminação da COVID-19. Em meados de 2021, as escolas da rede estadual passaram a adotar o modelo de ensino híbrido, que combinava atividades presenciais e remotas, conforme a realidade de cada região. A retomada das aulas presenciais após a pandemia foi gradual e variou de acordo com as regiões e as decisões das autoridades locais e estaduais19. À época da coleta de dados deste estudo (final de 2021), algumas escolas já haviam retomado as atividades presenciais, enquanto outras ainda estavam oferecendo aulas online ou em formato híbrido. O momento vivenciado pela educação básica durante a coleta de dados é importante para a interpretação dos achados.

Aproximadamente metade dos professores (51,2%) apresentou autopercepção negativa da saúde. Estudos prévios, realizados com professores antes da pandemia, encontraram prevalências de autopercepção negativa de 32,9%1 e de 16,4%2, no entanto, esse último estudo não considerou a autopercepção "regular" na categoria de autopercepção negativa da saúde, divergindo da nossa forma de agrupar a variável e constituindo provável explicação para a diferença pronunciada. Já entre adultos e idosos da população em geral, foi observada prevalência de 41,6% de autopercepção negativa20. Assim, a prevalência de autopercepção negativa parece ter aumentado durante a pandemia entre professores, o que pode ter afetado a capacidade de desempenharem suas funções docentes, além do comprometimento do seu bem estar geral.

Indivíduos que se autodeclararam com cor da pele não branca apresentaram maiores prevalências de autopercepção negativa da saúde, associação já observada na literatura21. Esse achado pode estar relacionado a maior dificuldade do uso de serviços de saúde por pessoas não brancas, sendo a cor da pele um fator restritivo na utilização dos serviços de saúde no Brasil22. Diferentemente de estudos internacionais que comumente aferem a raça geneticamente determinada, no Brasil, devido à grande miscigenação, adota-se mais a avaliação da cor da pele autodeclarada. Essa variável parece remeter mais a uma questão social do que a um padrão genético.

A relação entre insatisfação com o trabalho e a autopercepção negativa da saúde chama a atenção e merece destaque. Estudos prévios também verificaram relação entre autopercepção da saúde e insatisfação com o trabalho8,23. A pandemia levou ao excesso de trabalho, sofrimento e à falta de reconhecimento de muitas categorias profissionais, incluindo professores. As mudanças no sistema educacional provocadas pela pandemia da COVID-19 impactaram a rotina do trabalho docente, ocasionando sobrecarga e contribuindo para a insatisfação com o trabalho desses profissionais8,9. A satisfação com o trabalho e a realização profissional são circunstanciais e, portanto, modificáveis, refletindo o momento e o contexto em que o indivíduo se insere. Estas estão interligadas com a qualidade de vida, que por sua vez se liga à percepção da própria saúde24. Estudo com 601 professores da rede pública de ensino na cidade de Pelotas (RS) observou que quanto maior o esgotamento profissional, pior a qualidade de vida, e houve relação direta com a autopercepção de saúde23. Essa relação precisa ser mais explorada e cuidada. Políticas públicas voltadas a maior valorização e reconhecimento do trabalho docente possivelmente contribuiriam para melhorar a autoestima do professor e sua satisfação com o trabalho.

Durante o período de isolamento social na pandemia da COVID-19, a educação precisou se adaptar rapidamente para garantir a continuidade do processo de ensino/aprendizagem9,25,26. Em MG foram adotadas diferentes estratégias para manter o aprendizado dos alunos, como aulas remotas, apostilas, livros e lista de exercícios para que eles pudessem continuar estudando em casa27. Os professores precisaram se adaptar a essa nova realidade, buscando formas de manter o contato com os alunos e famílias9,26. Há que se reconhecer que foi um período desafiador, e isso possivelmente contribuiu para a maior insatisfação com o trabalho docente. É pertinente destacar que as mudanças no trabalho não foram acompanhadas por uma recompensa adequada. Os professores não receberam horas extras pelo trabalho adicional realizado, não houve um aumento proporcional em seus salários e nem mesmo o reconhecimento por parte dos gestores, governantes e até mesmo dos pais e alunos9. Ao contrário, houve uma precarização das condições de trabalho, uma vez que, de forma repentina, os professores passaram a utilizar seus equipamentos pessoais, como telefones e computadores, para ficarem disponíveis aos alunos9,26. Além disso, foram vetados reajustes salariais durante o período da pandemia28. Essa falta de recompensa e reconhecimento adequados resulta em um desequilíbrio na dimensão esforço-recompensa, fator importante para predizer a saúde dos trabalhadores24 e, possivelmente, a maneira como os professores percebem a própria saúde.

Hábitos menos saudáveis em relação à alimentação também se mostraram associados à autopercepção negativa da saúde entre professores. É razoável interpretar que indivíduos que apresentam pior padrão alimentar sintam-se menos saudáveis do que aqueles que apresentem melhor padrão alimentar, relação já identificada previamente20. Um estudo verificou que, durante a pandemia da COVID-19, fatores como a intensificação do trabalho e o maior tempo em casa contribuíram para uma alimentação baseada no que é prático e rápido, provocando maior consumo de alimentos ultraprocessados29. Uma alimentação inadequada pode levar ao surgimento ou agravamento de DCNT29 e, consequentemente, gerar uma percepção negativa da saúde.

Estudos anteriores envolvendo professores confirmaram a associação entre a falta de prática de atividade física e a autopercepção negativa da saúde1,2, assim como em estudos abrangentes envolvendo a população em geral20,30. É importante destacar que a atividade física está relacionada a diversos outros desfechos, como saúde mental, DCNT, aptidão física, dores musculoesqueléticas e sono2,21. Dessa forma, sua prática regular parece influenciar direta e indiretamente a autopercepção da saúde por meio desses outros fatores2,21. Além disso, pessoas que são fisicamente ativas geralmente têm conhecimento dos benefícios da atividade física, o que pode levar a uma melhor percepção de saúde ou, de fato, a se sentirem melhor2,21.

A qualidade do sono e sua relação com a autopercepção negativa são de extrema relevância31. O sono é uma necessidade básica, e há evidências de que sua privação e os distúrbios decorrentes dela podem afetar processos metabólicos e inflamatórios, com impactos negativos na saúde32. A baixa qualidade do sono acarreta prejuízos nas atividades diárias dos indivíduos, incluindo queda de rendimento no trabalho e na qualidade de vida32, além do impacto na autopercepção da saúde. Na população em geral, observou-se prevalência de 29,1% de sono negativamente autoavaliado, significativamente maior entre aqueles com autopercepção negativa da saúde, nas mulheres, em indivíduos de 40 a 50 anos de idade, fisicamente inativos, com TMC, com maior número de problemas de saúde e que manifestavam insatisfação com a vida33 — traçando um perfil de risco semelhante ao aqui verificado.

Em relação à saúde mental, houve associação entre autopercepção negativa da saúde, sintomas de depressão/ansiedade e presença de TMC, resultado encontrado previamente entre professores2. O professor está submetido a circunstâncias que podem contribuir para um desequilíbrio físico ou mental, fato este já reconhecido antes da pandemia7. Estudo com modelagem de equação estrutural identificou inter-relações que influenciam sintomas depressivos, e seu aumento associou-se a insatisfação com o trabalho docente e estilo de vida menos saudável34. De forma geral, parece que percepções mais negativas da vida e da saúde, assim como comportamentos menos saudáveis, se associam e se retroalimentam1,20,34. Com a pandemia, houve um aumento importante do comprometimento mental, apontando indicadores de sofrimento psíquico na população em geral29,35. O desgaste emocional interfere no desempenho profissional e na realização de tarefas rotineiras, além de trazer consequências importantes para o bem-estar dos indivíduos, incluindo sua percepção de si e de sua saúde1. Novamente, enfatiza-se a necessidade de estratégias que valorizem o professor e a sua saúde, com busca de reconhecimento da sociedade e tentativa de fornecer subsídios para evitar o sofrimento psíquico no trabalho docente.

Não surpreendeu que a presença de DCNT fosse o fator que mais contribuiu para a autopercepção negativa da saúde, já que se trata de um indicador objetivo de comprometimento da saúde. A relação entre a presença de DCNT e percepção negativa da saúde já é reconhecida na literatura2,20,36,37. Estudos observaram que quanto maior o número de morbidades, maior a prevalência de autopercepção negativa da saúde36,37. A maioria das DCNT é associada a um aumento da exposição a fatores de risco evitáveis29.

Os resultados revelaram uma associação significativa entre a predisposição a distúrbios vocais e a autopercepção negativa da saúde. Esses achados estão em consonância com um estudo anterior que destacou o distúrbio vocal como o principal problema de saúde que afasta os professores da sala de aula38. A docência é uma das profissões mais afetadas pelos distúrbios vocais, com alta prevalência de fadiga vocal, rouquidão e alterações vocais39.

A voz é essencial para as relações e para o trabalho docente, e quando há um desequilíbrio dos fatores orgânicos e emocionais, o resultado é uma comunicação oral ineficaz, que pode influenciar tanto sua saúde vocal quanto geral1,5,40. Assim, não é difícil compreender a relação entre comprometimento vocal e autopercepção negativa da saúde entre professores2. A necessidade de orientar o professor da rede pública estadual sobre a forma adequada de usar a voz em sala de aula é tão notória que existe a iniciativa da Escola de Formação e Desenvolvimento Profissional de Educadores da SEE-MG nesse sentido. O curso Saúde Vocal do Professor é gratuito e foi disponibilizado online41, se constituindo em uma estratégia que precisa ser valorizada. Ampla divulgação e estímulo à adesão ao curso e às práticas relativas aos cuidados vocais nele repassadas são importantes para se desenvolver cuidado vocal docente como hábito. Adotar medidas preventivas, oferecer suporte emocional adequado e promover a conscientização sobre os distúrbios vocais são ações essenciais para garantir o bem-estar dos professores, especialmente durante períodos desafiadores.

A presença de dor nas costas também se revelou associada à autopercepção negativa da saúde entre os docentes investigados. Diversos fatores ocupacionais são reconhecidos como associados aos agravos do sistema musculoesquelético dos docentes, tais como a longa duração de tempo da aula em pé, carregamento de materiais didáticos, mobiliário escolar inadequado e o longo tempo na posição sentada5. A pandemia da COVID-19 parece ter agravado o problema29. Estudo prévio entre professores da educação básica pública observou que cerca de 58% dos professores relataram dores nas costas devido a mudanças nas atividades rotineiras na pandemia, achado associado a excesso de trabalho, dificuldade em trabalhar à distância, ansiedade e depressão, aumento do tempo de uso do computador ou tablet e sobrecarga de tarefas domésticas42. A dor é um indicador fortemente relacionado à autopercepção da saúde43, havendo relação direta entre intensidade e tempo de dor crônica e o aumento da percepção negativa da saúde44.

Por fim, existe a tendência de agrupamento de comportamentos de risco (ou de proteção), ou seja, pessoas com uma alimentação saudável e ativas tendem a ter outros comportamentos saudáveis, como não fumar, não consumir álcool em excesso e ter um sono adequado20,21,34. É interessante observar que a maior parte dos fatores associados a pior autopercepção da saúde é modificável, ou seja, estão ligados ao estilo de vida, cujo efeito cumulativo pode acarretar o surgimento de múltiplas morbidades importantes. Com base nos achados e nas evidências apresentadas, acredita-se que a promoção da saúde entre os professores seja uma estratégia fundamental e promissora para melhorar não apenas sua saúde física, mas também sua saúde mental, qualidade de vida e o desempenho de suas funções docentes.

Admitem-se limitações neste estudo. Em websurveys não é possível ter controle sobre a amostra investigada. Não é possível aos pesquisadores garantir que a amostra seja equiprobabilística entre os elementos da população investigada e nem estimar a taxa de resposta, limitações estas já reconhecidas pela literatura45. Além disso, embora muitos dos instrumentos utilizados nesta pesquisa sejam validados pela literatura científica, nem todos tiveram suas propriedades psicométricas aferidas ao serem utilizados em websurveys, o que também representa uma limitação. Apesar disso, vantagens merecem ser destacadas. Pesquisas via web são promissoras e foi o método mais plausível no âmbito da pandemia, pela possibilidade de se obter informações sem risco inerente à entrevista face a face. Elas possuem baixo custo e permitem rastrear conhecimentos, comportamentos, estilos de vida e percepções em contextos de acelerada ascensão de doenças infecciosas29. Cabe destacar, ainda, que as características sociodemográficas da amostra investigada foram coerentes com estudo prévio conduzido com 16 mil professores da educação básica estadual de Minas Gerais8, bem como com dados do Ministério da Educação para professores da educação básica brasileira46, sugerindo adequação da amostra.

Informações baseadas no autorrelato podem estar suscetíveis a vieses de memória ou à desejabilidade social, em que o respondente pode se sentir constrangido em revelar baixa adesão às práticas preconizadas35. Em um delineamento transversal, as associações observadas não permitem afirmar relação de causalidade, havendo também a possibilidade de causalidade reversa. Dessa forma, sugerem-se investigações longitudinais, que permitirão avaliar como os fatores pesquisados se comportam ao longo da evolução da epidemia. Apesar das limitações do estudo, considera-se que a pesquisa apresenta informações originais relacionadas aos fatores associados à autopercepção negativa de saúde entre professores no período pós-pandemia, utilizando amostra de todo o estado de Minas Gerais e avaliando indicadores relevantes relacionados à saúde docente.

CONCLUSÃO

A maioria dos professores da educação básica das escolas estaduais de MG apresentou autopercepção negativa de saúde no período de retomada das atividades presenciais no pós-pandemia da COVID-19. A prevalência de autopercepção negativa da saúde entre tais professores esteve associada a cor da pele não branca, insatisfação com o trabalho, alimentação inadequada, inatividade física, pior qualidade do sono, diagnóstico de ansiedade e/ou depressão, presença de TMC, DCNT, predisposição a distúrbios vocais e dores nas costas. Assim, observou-se que ela esteve diretamente associada a hábitos de vida menos saudáveis, saúde física e mental comprometida e insatisfação com o trabalho docente. Há necessidade de maior entendimento sobre a influência de fatores modificáveis que têm interferido na autopercepção de saúde, a fim de contribuir para o desenvolvimento de estratégias para melhorar a saúde, o bem-estar e a valorização docente.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais – Fapemig (Demanda Universal, processo APQ-00901-22). DS HAIKAL é bolsista de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, Processo 311377/2021-1). REC Barbosa é bolsista do Programa de Excelência Acadêmica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes, Processo 88887.494263/2020-00). Agradecemos também aos participantes deste estudo.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:

O conjunto de dados gerado e analisado no presente estudo não está publicamente disponível devido a restrições éticas e de privacidade, uma vez que contém informações sobre os serviços escolares e os processos de trabalho que permitem identificar os locais onde estavam inseridos os respondentes, mas estão disponíveis com o autor correspondente mediante solicitação.

  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

Como citar:

Jesus LS, Ribeiro MVL, Rodrigues CS, Barbosa RECB, Haikal DAS. Autopercepção negativa da saúde entre professores da educação básica pública: prevalência e fatores associados. Cad. Saúde Colet., 2026;34(2):e34020132. https://doi.org/10.1590/1414-462X202634020132

REFERÊNCIAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Maio 2023
  • Aceito
    02 Ago 2023
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