Resumo
O presente artigo objetivou mapear as consequências práticas vivenciadas pelos membros durante o uso da plataforma LinkedIn e a partir dos conteúdos que circulam dentro e para fora dela. Para explorar como ocorre o complexo entrelaçamento tecnologia e membro e suas consequências práticas, abraçamos o referencial latouriano (Latour, 2019) dos modos de existência; e o framework biografia da plataforma para o estudo das dimensões constituintes das redes sociais plataformizadas, proposto (Burgess & Baym, 2020). O ferramental teórico-conceitual e a metalinguagem dos modos de existência promovem o entendimento de quem somos e o que fundamenta nossas práticas, ao mesmo tempo que abarca as transformações durante esse processo. Para realização do estudo foi utilizada a etnografia digital ou para a internet (Hine, 2015), que consiste na adaptação do método etnográfico tradicional para o ambiente online. A partir do framework da biografia da plataforma e dos modos de existência os achados em campo revelam elementos que, de forma conjunta e interrelacionada, constituem o entrelaçamento complexo do LinkedIn e de seus membros (Latour, 2019). Esses elementos demonstram as múltiplas dimensões que compõem o LinkedIn como tecnologia e organização-plataforma, criando condições de possibilidade e impossibilidade para a constituição de diferentes existências e significados (Burgess & Baym, 2020).
Palavras-chave:
Práticas organizativas do LinkedIn; Modos de existência; Etnografia digital; Biografia da plataforma; Organização-plataforma
Abstract
This article maps the practical consequences of the content shared within the LinkedIn platform in its users’ life. To explore the complex entanglement of technology and users and its practical consequences, the study adopts the Latourian framework of modes of existence (Latour, 2019) and the platform biography framework for studying the constituent dimensions of platformized social networks, proposed by Burgess and Baym (2020). The conceptual-theoretical tools and the metalanguage of the modes of existence promote understanding of who we are and what underlies our practices, while encompassing the transformations during this process. Digital or internet ethnography was used (Hine, 2015), which consists of adapting the traditional ethnographic method to the online environment. Based on the platform biography framework and the framework of modes of existence, the findings reveal elements that constitute the complex intertwining of LinkedIn and its users. These elements demonstrate the multiple dimensions that make up LinkedIn as a technology and platform-organization, creating conditions of possibility and impossibility for the constitution of different existences and meanings. The intertwining of technology and users and its practical consequences were investigated by combining these two promising frameworks that have been little explored in the area of organizational studies.
Keywords:
LinkedIn’s organizational practices; Modes of existence; Digital ethnography; Platform biography; Organization-platform
Resumen
Este artículo tuvo como objetivo mapear las consecuencias prácticas experimentadas por miembros durante el uso de la plataforma LinkedIn, a partir de los contenidos que circulan dentro y fuera de ella. Para explorar cómo se produce el complejo entrelazamiento de la tecnología y miembro y sus consecuencias prácticas, adoptamos el marco de modos de existencia latouriano (Latour, 2019); y el marco de la biografía de plataforma para el estudio de las dimensiones constituyentes de las redes sociales plataformizadas, propuesto (Burgess & Baym, 2020). Las herramientas teóricas conceptuales y el metalenguaje de los modos de existencia promueven la comprensión de quiénes somos y qué subyace en nuestras prácticas, al tiempo que abarcan las transformaciones durante este proceso. Para llevar a cabo el estudio se utilizó la etnografía digital (Hine, 2015), que consiste en adaptar el método etnográfico tradicional al entorno online. Desde el marco de la biografía de la plataforma y los modos de existencia, los hallazgos en el campo revelan elementos que, interrelacionados, constituyen el complejo entrelazamiento de LinkedIn y sus miembros (Latour, 2019). Estos elementos demuestran las múltiples dimensiones que conforman LinkedIn como tecnología y organización-plataforma, creando condiciones de posibilidad e imposibilidad para la constitución de diferentes existencias y significados (Burgess & Baym, 2020).
Palabras clave:
Prácticas organizativas de LinkedIn; Modos de existencia; Etnografía digital; Biografía de la plataforma; Organización-plataforma
INTRODUÇÃO
Sociedade da informação; sociedade em rede; sociedade do conhecimento; sociedade do cansaço; capitalismo de vigilância, de plataforma e economia de dados estão entre os termos utilizados amplamente para se referir ao contexto contemporâneo em que tecnologias digitais, como a plataforma e rede social profissional e corporativa LinkedIn, organizam e dirigem a vida cotidiana (D’Andréa, 2020; Silveira, 2017; Zuboff, 2020). Esse fenômeno é compreendido pelos estudos organizacionais como digitalização, as “formas como a vida social é organizada por meio de e em torno das tecnologias digitais” (Leonardi & Treem, 2020, p. 1602, tradução nossa).
Estudos sobre as práticas organizativas das organizações-plataformas enfatizam aspectos positivos da incorporação tecnológica, como aumento na eficiência e agilidade dos processos (Trittin-Ulbrich et al., 2020). Perspectivas críticas sobre as plataformas costumam se debruçar sobre aspectos infraestruturais e institucionais do fenômeno, com pouca ênfase em como as plataformas moldam e são moldadas de forma recíproca pelos membros, em uma configuração sociotécnica (Poell et al., 2020). Ressaltamos que, no decorrer do artigo, optamos pelo uso do termo “membro” em vez de “usuário”, por se tratar da nomenclatura utilizada pelo próprio LinkedIn, caracterizado como uma comunidade de profissionais.
Pesquisas sobre o LinkedIn, habitualmente, abordam: estratégias para busca por emprego e desenvolvimento da carreira; construção de reputação e marca pessoal, engajamento; e, em particular, investigam a opinião de recrutadores (organizações), agências (profissionais de RH) ou comportamentos de membros (Garcia et al., 2022; Pardim et al., 2022). O LinkedIn é destacado como um meio e uma ferramenta para estabelecer networking profissional, anunciar e se candidatar a vagas de emprego, fazer cursos profissionais e informar-se. Já estudos com viés crítico, como o de Rodrigues e Pedro (2016), analisam a plataforma pelas lentes da vigilância, da subjetivação e do controle.
Para Khorshidi et al. (2025), o LinkedIn emergiu como uma plataforma dominante para networking profissional e desenvolvimento de carreira, mas análises sobre essa plataforma e seu cenário acadêmico permanecem escassas. Estes autores desenvolveram uma análise bibliométrica e mapearam sistematicamente as publicações tendo como tema central o LinkedIn. Como resultados identificaram que alguns veículos de publicação impulsionaram discussões sobre o papel do LinkedIn nas interações profissionais, na comunicação estratégica e na gestão da reputação corporativa. Já em relação às tendências emergentes, identificaram que há uma mudança recente em direção ao recrutamento impulsionado por inteligência artificial (IA), preocupações com a privacidade e a adaptação do LinkedIn durante a COVID-19. Destacam, ainda, a convergência interdisciplinar, conectando o LinkedIn a tecnologia educacional, redes de saúde e ciências sociais computacionais. Essas descobertas sinalizam a influência crescente do LinkedIn para além das disciplinas de gestão de pessoas e negócios, com uma crescente relevância na tomada de decisões orientadas por dados e na disseminação de conhecimento.
Os insights permitidos pela bibliometria desenvolvida têm aplicações diretas para pesquisadores, profissionais de gestão de pessoas, educadores e estrategistas corporativos. A crescente integração do LinkedIn em modelos de contratação baseados em IA exige mais pesquisas sobre transparência algorítmica, justiça e validade preditiva em recomendações de emprego, por exemplo. Em termos de visibilidade acadêmica, o papel do LinkedIn nos estudos digitais, na vida das pessoas, na construção de marca profissional e na influência de citações ainda é pouco explorado. Estudos futuros poderiam examinar como o algoritmo do LinkedIn amplifica ou suprime determinados conteúdos profissionais, afetando a mobilidade profissional e a assimetria de informações nas práticas de contratação. Além disso, preocupações com privacidade de dados, definição de perfis éticos e tomada de decisões mediadas por IA exigem escrutínio regulatório e atenção acadêmica.
Por fim, esses autores sugerem uma agenda de estudos futuros que visem complementar a análise bibliométrica empregando metodologias qualitativas de pesquisa, perspectivas teóricas e abordagens empíricas para fornecer uma compreensão mais holística do conhecimento acadêmico acerca do LinkedIn, à medida que os algoritmos e o engajamento dos membros do LinkedIn evoluem. Sugerem o desenvolvimento de estudos longitudinais que acompanhem a adaptação do LinkedIn à transformação digital; às mudanças globais na força de trabalho; à governança da plataforma e às tendências emergentes, dado que serão cruciais para compreender seu impacto sustentado.
No contexto brasileiro, uma busca realizada na base de dados Spell, pelo período de 2019 a julho de 2025, resultou em 4 artigos sobre o LinkedIn. Tais estudos versam sobre temáticas da presença digital de CEOs na plataforma, comportamento de jovens em início de carreira, uso do LinkedIn para auxílio à pesquisa e discussões sobre capitalismo consciente em grupos da rede social. Nos anais do Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (EnANPAD) foi identificado um artigo que trata do fenômeno dos digital micro influencers. Os resultados dessas buscas demonstram a escassez de estudos sobre a plataforma e o potencial de problematização dos seus reflexos em trajetórias de existência.
A necessidade de reflexões críticas sobre o pensar e fazer organizacional com os entrelaçamentos digitais culminou na criação de um Grupo de Trabalho (GT) no EnANPAD, em 2021, voltado para estudos sobre “Capitalismo de plataforma, digitalização e controle no contexto das organizações”, tema 7 da área de Estudos Organizacionais. Acompanhando a evolução conceitual, o GT mudou de nome, em 2022, para “Plataformas Digitais, Organizações e Tecnologia”.
Para avançar esta discussão, o presente artigo, decorrente de uma pesquisa de tese, objetivou mapear as consequências práticas vivenciadas pelos membros durante o uso da plataforma LinkedIn, e a partir dos conteúdos que circulam dentro e para fora dela. Para explorar como ocorre o complexo entrelaçamento tecnologia e membro e suas consequências práticas, abraçamos o referencial latouriano dos modos de existência (Latour, 2019); e o framework biografia da plataforma para o estudo das dimensões constituintes das redes sociais plataformizadas, proposto por Burgess e Baym (2020). Dessa forma, seguindo algumas sugestões de Khorshidi et al. (2025) para estudos futuros, o artigo traz contribuições pelo emprego de metodologia qualitativa, uso de referenciais teóricos complexos e pouco explorados no campo da administração - os modos de existência de Latour - e do framework da biografia da plataforma para propor um olhar distinto acerca do LinkedIn como organização-plataforma.
O ferramental teórico-conceitual e a metalinguagem dos modos de existência promovem o entendimento de quem somos e o que fundamenta nossas práticas, ao mesmo tempo que abarca as transformações durante esse processo (Hämäläinen & Lehtonen, 2016). Dessa forma, podemos ter um vislumbre dos significados do momento sócio, histórico e cultural em que vivemos, para além das adjetivações como do capitalismo de plataforma, compreendendo formas pelas quais ocorre a “interpenetração entre redes digitais e territórios físicos existenciais” (Firmino & Bruno, 2023).
Para endereçar o objetivo elencado, o artigo está dividido em cinco seções, além desta introdução. Em ordem, no referencial teórico, apresentamos a noção de modos de existência (Latour, 2019) e as dimensões propostas para análise de redes sociais plataformizadas (Burgess & Baym, 2020). Nos procedimentos metodológicos discorremos sobre como a etnografia digital, conforme descrita por Hine (2015), foi operacionalizada durante a pesquisa.
Na seção de discussão de resultados apresentamos consequências decorrentes de possibilidades e constrangimentos advindos da configuração tecnológica e das práticas organizativas do LinkedIn, as quais ilustram implicações para os membros, características de nossa época, analisadas a partir das perspectivas teóricas críticas que animam este artigo. Por fim, nas considerações finais, apontamos para os principais achados da pesquisa e sugerimos caminhos para estudos futuros.
REFERENCIAL TEÓRICO: MODOS DE EXISTÊNCIA E BIOGRAFIA DA PLATAFORMA
O estudo dos modos de existência é um projeto e atualização das proposições de Latour, consolidando a busca que ele afirma ter realizado ao longo de pelo menos um quarto de século, para explicar quem somos (Latour, 2019). O autor retoma discussões levantadas em publicações anteriores, como em Jamais fomos modernos, para explicar o que os modernos fazem e com o que se preocupam. Em contraste com seu trabalho desenvolvido anteriormente em Antropologia da Ciência, Latour não descreve práticas, formas de falar ou de fazer dos modernos, mas modos de ser, a partir de uma perspectiva ontológica pluralista (Delchambre & Marquis, 2013).
Modernos são definidos por Latour como aqueles que se empenharam em negar seus vínculos com o passado e realizar um trabalho de purificação promovendo dicotomias, como as rupturas entre sociedade e natureza, e ciência e política. Segundo o autor, os modernos falharam em seus esforços, pois ao olharmos para a sociedade como rede, os híbridos proliferam. O presente se mostra politemporal, congregando diferentes tempos simultaneamente (Latour, 2019). Jamais fomos modernos, pois o trabalho de purificação não aconteceu e, por isso, o discurso moderno não acompanha a experiência prática (Weber, 2016).
A noção de experiência, tomada por empréstimo de William James, é central na proposição latouriana dos modos de existência. As experiências são todos os acontecimentos no fluxo cotidiano, contínuo e imediato da vida, constituidoras de um sistema por meio do qual se estabelecem realidades e conhecimentos (James, 2004). Reconectar o fio da experiência é a tarefa realizada por Latour (2019) para compreender como persistem os seres no mundo. Para descrever e qualificar as existências o autor emprega os conceitos de rede e de preposições.
As redes são um conjunto de elementos articulados, os quais trabalham na instauração de determinadas realidades. Já as preposições apontam para diferentes possibilidades de relação e conexão entre os elementos que compõem uma rede: “e, por, se, ou, pois, então” (Melo & Moraes, 2016, p. 28), identificando os antecessores e os sucessores de um curso de ação e delimitando os movimentos e as trajetórias dos existentes. As preposições são a linguagem utilizada por Latour para qualificar as inúmeras relações que podem ser estabelecidas com e no mundo.
Para Latour (2019, p. 29), “a questão dos modos de existência” é “uma questão de metafísica, ou melhor, de ONTOLOGIA - certamente regional, uma vez que diz respeito aos Modernos e às suas peregrinações”. Por isso, o autor desloca sua atenção da antropologia para a filosofia, para tornar a linguagem capaz de abarcar a multiplicidade de seres e mundos que constituem o cosmos e compará-los. Latour não está propondo uma nova ontologia, mas um protocolo, de forma experimental, para trazer à tona existências diversas, seres que se definem a partir do contraste com outras existências - como é o caso das tecnologias (Maniglier, 2014).
A diferença da proposição latouriana daqueles que o antecederam não é o conteúdo, mas a maneira diplomática como a metafísica é posta em ação para “negociar encontros e confusões de ontologias no plural”. Em síntese, a metafísica latouriana é “relacional, actancial, processual e plana” (Maniglier, 2014) e abrange as diferenças que compõem o mundo para ampliar a margem de manobra no estabelecimento de negociações entre valores políticos dos modernos (Dias et al., 2014).
Modos de existência são distintas formas de ser relacionadas a diferentes regimes de verdade. Eles canalizam e são compostos por nossas ações no mundo (Latour, 2019). Os modos instituem seres, ao invés de meras representações ou discursos acerca da realidade (Dias et al., 2014). Todo modo de existência é um modo de coexistência, pois, contrariando a visão essencialista, não existe um ser enquanto ser, mas apenas um ser com outros, com os quais precisamos estar em relação para existir (Stangl, 2016; Weber, 2016).
Por intermédio do projeto dos modos de existência, Latour convidou pesquisadores para redefinições e revisões criativas (Gilbert, 2020). Com base nas questões canônicas elencadas por Latour para identificação de modos de existência, Tummons (2020) estudou a validade da avaliação educacional no contexto do ensino superior como fenômeno social, com foco na preparação de professores para se tornarem praticantes reflexivos.
Para além da identificação de outros modos, o projeto de Latour suscitou reflexões entre estudiosos ambientais acerca dos limites e das possiblidades dos formatos digitais na prática acadêmica; bem como sobre o estabelecimento de harmonia entre as vozes da ecologia e do meio ambiente (Lousley & Posthumus, 2016). Outra reflexão suscitada por este referencial foi sobre como os seres da ficção, presentes na cultura japonesa e no mundo da mídia, em associação com aspectos tecnológicos e da devoção dos fãs, tensionam as maneiras tradicionais de ser, as relações espaço-temporais, dissolvendo barreiras entre humanos e não humanos (Bissonnette, 2022).
Buzato (2016, p. 496, tradução nossa) empregou o referencial dos modos de existência como um “dispositivo reflexivo” para “equipes interdisciplinares tomarem consciência das implicações éticas de traduzir entidades em diferentes modos de existência e de descobrir formas de proteger estas dimensões éticas no fio de experiência dos “membros”. Tummons (2021) cita que o referencial dos modos de existência já foi empregado, de forma crítica, para o estabelecimento de discussões nos campos da teoria jurídica, política, pós-política e educação. Na área dos estudos organizacionais são raros os trabalhos que utilizam tal referencial, como o desenvolvido por Júlio e Fantinel (2021) para estudar as relações entre humanos e outros seres na produção da pandemia de COVID-19.
Com base na perspectiva dos modos de existência, as tecnologias são concebidas neste artigo como mais do que um elemento não humano, a partir dos múltiplos relacionamentos estabelecidos com aqueles que a colocam em uso (Tummons, 2021) e frente a seus acoplamentos e desacoplamentos ao longo do tempo (Latour, 2019). Isso envolve contemplar, além dos criadores de tecnologias, o design dos sistemas, as pessoas que se relacionam com elas no dia a dia reconfigurando seu funcionamento e inspirando a criação de novas funcionalidades, e os sentidos e interesses circulantes na rede.
O ferramental teórico-conceitual e a metalinguagem dos modos de existência fornecem subsídios para compreender como determinadas existências, quase-humanas e de quase-objetos, se constituem na plataforma digital LinkedIn. No entanto, esse referencial não define as dimensões de análise da tecnologia a ser investigada e, por isso, o associamos ao framework biografia da plataforma, desenvolvido por Burgess e Baym (2020) para o estudo de redes sociais plataformizadas.
A biografia da plataforma, ao analisar de forma sistemática estruturas e dinâmicas, sem perder de vista transformações constantes, permite “olhar atentamente como características nos ajudam a ver como [uma plataforma] é organizada, em cujos interesses e como esses arranjos mudaram ao longo do tempo” (Burgess & Baym, 2020, p. 110). Assim como a biografia humana, a da plataforma é sempre parcial, incompleta e suscetível a mudanças conforme quem a elabora e em que momento. O framework permite tanto aprofundar o conhecimento sobre uma plataforma quanto fazer análises comparativas entre redes sociais, a partir de funcionalidades e aspectos-chave pelos quais sua história pode ser contada, tais como: mudanças de hardware, software e na interface; práticas e experiências dos membros; estratégias e modelos de negócios; e apresentações próprias e por terceiros em mídias diversas.
Os elementos inter-relacionados constituidores de uma plataforma e que devem ser considerados como dimensões de análise e forças que se influenciam reciprocamente são: modelo de negócios; aspectos do design da tecnologia, tais como infraestrutura técnica (software, algoritmos e APIs), características da interface, funcionalidades, e ecossistema de dispositivos e serviços necessários para a plataforma funcionar. E aspectos da cultura de uso, tais como conteúdo comunicativo e expressivo; práticas e compreensão dos membros; discurso público e representações midiáticas sobre a plataforma (Burgess & Baym, 2020).
A escolha por referenciais teóricos e analíticos processuais pressupõe que a metodologia de pesquisa, para manter sua coerência, também seja processual; por isso, elencamos a etnografia digital para realização da pesquisa, a qual é descrita na seção subsequente.
PERCURSO METODOLÓGICO
A etnografia é um fazer antropológico caracterizado por povoar o mundo de diferenças e singularidades advindas da experiência. Trata-se de um estudo com pessoas e não de ou sobre pessoas. O objetivo da etnografia, em uma perspectiva contemporânea, não é descrever para explicar pessoas e realidades, mas dialogar com a diversidade e provisoriedade do mundo, instituído por distintos modos de viver (Ingold, 2019). Compatível com a proposição latouriana, a etnografia remete a descrições que não aceitam divisões prévias, como as dicotomias entre natureza e sociedade, e subjetivo e objetivo.
O cerne da etnografia como método é o estudo da experiência como processo, fonte de modos situados de ser, estar no mundo e compreender realidades (Hine, 2015). Tradicionalmente, os estudos etnográficos estavam centrados em encontros face a face, nos quais se estabelecia a sincronicidade e as observações poderiam ser realizadas in loco. Nos ambientes digitais estudados as interações ocorreram predominantemente de forma assíncrona, por meio de leituras de notícias, posts, reações, comentários e recompartilhamentos. Foram analisadas textualidades e gramáticas (D’Andréa, 2020) impostas pelas regras da rede social de forma mais global e pelos acordos de membros e de grupos, em particular.
Com base nesta abordagem, lançamos luz sobre práticas e significados situados, seguindo conexões ao invés de focar em uma localidade circunscrita, a partir de engajamentos específicos e circunstanciais do LinkedIn no cotidiano das pessoas (Hine, 2015). A imersão no campo digital, assim como na etnografia clássica, consiste na familiarização profunda com o campo de pesquisa, por meio do envolvimento prolongado (Hine, 2015). Esta ocorreu mediante engajamento na plataforma digital LinkedIn e em comunidade virtual, ambiências nas quais as interações se desenvolvem. Foram observadas, de forma oculta (Amaral, 2010), as práticas e os significados produzidos nesses contextos, em relação às possibilidades e aos constrangimentos técnicos existentes. A imersão permitiu explorar a experiência dos membros sob múltiplos aspectos, bem como refletir e ajustar as perguntas e estratégias de pesquisa.
O papel do pesquisador na imersão etnográfica é conviver com o diferente, para conhecer sua realidade e seu ponto de vista com maior nitidez, em um movimento contínuo de aproximação e distanciamento (Ingold, 2019). Nos campos digitais estudados essa interação foi mediada pela agência algorítmica, a qual seleciona os conteúdos a serem visualizados por cada membro, constituindo diferentes mundos, por vezes opostos, dentro das plataformas. Essa característica sublinha a experiência situada do pesquisador em campo.
O campo foi esculpido intencionalmente no decorrer da imersão, a partir dos objetivos da pesquisa, bem como das conexões, dos fluxos e das relações seguidas (Hine, 2015). Com base nas incursões exploratórias em campo, escolhemos como via de acesso documentos, reportagens e postagens de membros que realizam a contestação do conteúdo circulante, tanto dentro quanto fora do LinkedIn, embora a tese não se restrinja a estes. A escolha pela contestação é justificada por fornecer uma visão alternativa a do mainstream acerca da plataforma, a qual exalta suas funcionalidades e seus benefícios em termos de empregabilidade e desenvolvimento pessoal.
A não restrição ao LinkedIn como plataforma para a pesquisa está alinhada com o princípio da etnografia digital de abandonar a busca por uma localidade circunscrita e com barreiras fixas, acompanhando mudanças nas formas de conexão e aspectos inesperados, como a repercussão de eventos considerados pouco significativos inicialmente. Seguir conexões nas diferentes ambiências nas quais a experiência do LinkedIn acontece permitiu acompanhar o fluxo da experiência, seus antecedentes e consequentes (Latour, 2019), para compreender determinados eventos e encadeamentos.
Os documentos para a investigação foram reunidos entre fevereiro de 2021 e abril de 2023. Foram selecionados para apreciação documentos, reportagens, registros de entrevistas e observações que apontavam para características, funcionalidades, atualizações e aprimoramentos, conteúdos promocionais e recomendações para o uso do LinkedIn. Entre esses documentos foram filtrados acontecimentos que geraram mobilizações no interior da plataforma e fora dela, ocasionando consequências práticas para a existência dos membros.
Os objetivos da pesquisa foram investigados a partir da triangulação de elementos sobre o funcionamento da plataforma, seus algoritmos e a experiência dos membros constantes em:
-
Páginas e documentos oficiais do LinkedIn (Contrato do Usuário, Política de Cookies, Política de Privacidade, Blog de Engenharia do LinkedIn, Relatórios emitidos pela plataforma);
-
Reportagens sobre a dimensão tecnológica da plataforma e a experiência dos membros, divulgadas em blogs, newsletters e sites de tecnologia, tais como Baguete, CanalTech, Data Hackers, DigiLabour, Garimpo, Every, HRBrew, InternetLab, Manual do usuário, TechCrunch, TAB e TILT da Uol; e
-
Relatos sobre a experiência dos membros na plataforma, obtidos por meio de sete entrevistas em profundidade e observações de postagens, interações e comentários na plataforma em si e em grupo do Facebook que se articula em torno de conteúdos do LinkedIn.
Os materiais reunidos totalizaram 365 horas de observação, 105 documentos incluindo reportagens e páginas oficiais da plataforma, 97 laudas de entrevistas e 85 laudas de diário de campo. O registro dos dados foi realizado em caderno de campo, principal ferramenta da etnografia tradicional (Ingold, 2019).
A análise contemplou a elaboração de classificações e recortes, levando em consideração o referencial teórico, mas também as teorias desenvolvidas pelos próprios participantes a partir de suas experiências singulares, mediadas algoritmicamente pelas ambiências digitais. A escrita resultante relata a descrição de um grupo cultural específico, ao mesmo tempo que o constrói (Cesarino et al., 2023). Seguindo essa linha, os documentos e as reportagens sobre o LinkedIn foram analisados não apenas como arquivos ou memórias estáticas, mas pelo seu potencial de produzir a plataforma, realidades, membros, bem como modos de ser e estar no mundo.
Em síntese, a unidade de análise da pesquisa foi a experiência do membro no LinkedIn como constituidora de existências e reflexo de possibilidades, constrangimentos, colaborações, potencialidades e inibições decorrentes de determinadas dinâmicas da e na plataforma (D’Andréa, 2020). Como exercício de reflexividade, outra característica do método etnográfico, cabe salientar que as práticas culturais e de sociabilidades apresentadas aqui são emergentes e próprias das configurações situadas e circunstanciadas do LinkedIn. O percurso metodológico subsidiou as análises descritas na próxima seção.
RESULTADOS E ANÁLISES
A análise das dimensões constituidoras no LinkedIn (Burgess & Baym, 2020), incluindo a evolução de suas funcionalidades ao longo do tempo, indica mudanças nas possibilidades e constrangimentos dos membros a partir das configurações tecnológicas da plataforma. A biografia do LinkedIn se entrelaça com a do membro à medida que soluções são utilizadas, testadas ou rejeitadas, e práticas dos membros são incorporadas no design da plataforma. Um exemplo de incorporação dessas práticas foi a criação do programa oficial de criadores de conteúdo do LinkedIn, inaugurado após a crescente disseminação de conteúdos produzidos por membros na ambiência da plataforma.
Esses conteúdos circulantes na interface do LinkedIn caracterizam a dimensão de conteúdo comunicativo e expressivo da plataforma, ou seja, o que e como as pessoas publicam, comentam e compartilham (Burgess & Baym, 2020). Além de constituir a identidade do LinkedIn como plataforma profissional e corporativa, esse tipo de conteúdo participa na trajetória de instauração e significação dos membros do LinkedIn.
Esta seção apresenta situações em que acontecimentos no e a partir do LinkedIn afetaram a subsistência dos membros da plataforma, com a reverberação também para fora dela: implicações sociais para o ecossistema no qual o LinkedIn está inserido (Trittin-Ulbrich et al., 2020). Tais momentos-chave remetem a associações produtoras de diferenças na existência de seres: de uma trajetória de aparente sucesso para o insucesso; da denúncia a uma investigação criminal; da exclusão à validação de ações afirmativas; e de um experimento à restrição algorítmica no acesso a vagas de emprego (Latour, 2019).
Vale tudo pelo engajamento da audiência?
Bait é um termo advindo do marketing e apropriado por membros de redes sociais em geral e não só do LinkedIn para se referir a postagens que visam chamar a atenção da audiência, podendo tanto ser fake news quanto conteúdo de qualidade. Um membro do LinkedIn conhecido por esse tipo de prática foi duramente criticado no X (antigo Twitter) por postar um longo texto relatando que mandou sua esposa para o hospital, com uma foto dela em uma maca. A postagem, que inicialmente se pareceu com um caso de violência doméstica, na verdade remetia ao pagamento de um procedimento estético para sua esposa (R. Prá, comunicação pessoal, 21 de maio de 2021).
Pela mesma postagem, o membro também foi bastante criticado no LinkedIn, dado ser reincidente em comportamentos considerados inadequados na rede. As críticas direcionadas a ele remetem a sua tentativa de chamar atenção “a qualquer custo”. A essas críticas, o autor da postagem respondeu alegando não se importar com a opinião alheia e considerá-las indevidas. Para Selma, uma das entrevistadas, o comportamento deste membro é resultado de fatores individuais, mas também coletivos: “Eu acho que ele também é reflexo, ele também é produto do meio dele. De uma sociedade que diz que a gente tem que fazer o que tem que fazer pra ganhar dinheiro”.
Em outra situação, as postagens polêmicas de um empresário tornaram o membro mais visível na rede, o que resultou em engajamento para seus conteúdos, oportunidades de negócios, mas também na vigilância de suas ações por membros que as desaprovavam. Diante dessa visibilidade, uma postagem no LinkedIn do empresário, para divulgação de uma vaga de emprego na empresa de Recursos Humanos (RH) fundada por ele, repercutiu negativamente para fora da plataforma.
De acordo com o relato deste membro (Prado, 2022), ele elaborou uma postagem sarcástica, quando estava em busca de um sócio. Outro membro do LinkedIn denunciou a publicação ao Ministério Público Federal (MPF), alegando se tratar de trabalho escravo. Investigações foram conduzidas, incluindo o contato com clientes do empresário. Como resultado, este último relata ter falido e perdido cerca de R$ 300 mil.
Este exemplo pode ser analisado pelo menos sob duas perspectivas. A primeira, a partir da ótica do próprio empresário, é sobre a cultura do cancelamento (Prado, 2022) e o ódio aos empreendedores, suscitando uma denúncia sem a compreensão do contexto da postagem. A segunda revela as relações estabelecidas no percurso da experiência, resultando em consequências práticas (Latour, 2019): a interpretação da publicação como trabalho escravo e os impactos na vida pessoal e profissional do empresário.
Só mais um fanfiqueiro?
As postagens de outro membro do LinkedIn foram bastante comentadas em um grupo do Facebook contemplado durante as observações, em função do tipo de conteúdo divulgado. Em suas primeiras postagens, o autointitulado profissional de RH solicitou doações diante da situação de desemprego e falta de recursos financeiros para seu sustento. Na sequência de suas postagens, no entanto, relatava histórias sobre como a empresa de recrutamento e seleção que criou estaria auxiliando candidatos e candidatas em sua inserção e recolocação profissionais, especialmente mães solteiras e pessoas acima de 40 anos; e sobre suas ações oferecendo alimentos ou empréstimo de dinheiro para candidatos(as) necessitados(as).
Uma de suas publicações, inclusive, resultou em uma reportagem no site do UOL - fundado em 1996 como o primeiro portal de conteúdo do Brasil, hoje uma empresa brasileira de conteúdo, produtos e serviços de internet do Grupo Folha/SP. O membro publicou uma postagem no LinkedIn dizendo que foi eliminado de um processo seletivo realizado em uma empresa de recursos humanos na região de Piracicaba, em virtude de racismo. Após a publicação, leitores do UOL assinalaram informações inconsistentes em seu relato. Isso levou o UOL (2021) a fazer uma investigação e, após excluir a reportagem original, lançar outra intitulada “Denúncia de racismo em processo de seleção em Piracicaba (SP) era falsa”, pois a empresa citada pelo membro não existia, e no endereço indicado nunca houve um estabelecimento desse tipo - inconsistências que o denunciante não conseguiu explicar.
Entre as consequências práticas da ação deste membro podemos destacar o prejuízo financeiro de pessoas que o ajudaram e supostamente foram “enganadas” por ele; o bloqueio de pessoas que ofereceram ajuda ao profissional; a revolta e a incerteza permanente sobre a veracidade dos conteúdos publicados, o que o transformou em pauta frequente no grupo observado (Pra, 2022). O membro mencionado, por sua vez, passou a ser investigado a partir de denúncias de suas ações no LinkedIn.
Moderação de conteúdo versus ações afirmativas
Ao recomendar postagens sobre determinados assuntos e vagas de emprego, o LinkedIn participa na definição de realidades e das oportunidades que as pessoas terão acesso (Bucher, 2018; O’Neil, 2016). A política global de moderação de conteúdo do LinkedIn inclusive já foi responsabilizada por ações que perpetuavam desigualdades sociais históricas no Brasil. Em 19 de março de 2022 o LinkedIn removeu o anúncio de uma vaga postada pelo Centro de Análise de Liberdade e do Autoritarismo (LAUT), o qual manifestava preferência por candidatos negros (pretos e pardos) e indígenas. O motivo alegado pela plataforma a partir de sua política de moderação de conteúdo e publicação de vagas é de que seria uma forma de discriminação demonstrar preferência por determinados indivíduos (Ghedin, 2022; Nexo, 2022).
Diante do acontecimento, o MPF solicitou esclarecimentos ao LinkedIn sobre tal política. Foi alegada e investigada pelo MPF uma possível violação de diretos humanos fundamentais com a exclusão do anúncio, pois este se referia a ações afirmativas. Como resultado da repercussão desse assunto, o LinkedIn revisou e atualizou sua política global de publicação de vagas e processos seletivos, permitindo a divulgação de prioridades nos requisitos segundo os critérios das ações afirmativas. Em países como o Brasil isso não é considerado discriminação, pelo contrário, é incentivado para superar desigualdades sociais historicamente constituídas (Ghedin, 2022; Nexo, 2022).
Nesse exemplo podemos reconhecer a política de moderação de conteúdo e publicação de vagas do LinkedIn atuando de forma semelhante aos modelos preditivos citados por O’Neil (2016), por poderem perpetuar injustiças quanto a ingresso e permanência em empregos, acesso a financiamentos, ingresso em universidades, entre outras. A remoção do anúncio limitou a igualdade de oportunidades entre atores em um contexto específico. Porém, a mobilização dos membros e do MPF permitiu ajustes no funcionamento da plataforma e sua tecnologia, com o intuito de preservar a justiça social.
Experimento do LinkedIn
Usamos os dados pessoais disponíveis para pesquisar tendências sociais, econômicas e de ambientes de trabalho, como disponibilidade de vagas, qualificações necessárias para essas vagas e políticas que ajudem a preencher as lacunas em diversos setores e áreas geográficas. Em alguns casos, nós trabalhamos com empresas externas de confiança para realizar essas pesquisas, sob condições controladas, desenvolvidas para proteger a sua privacidade. Publicamos e permitimos que outras pessoas publiquem insights econômicos, apresentados como dados agregados, e não pessoais (LinkedIn, 2020).
O trecho citado da política de privacidade do LinkedIn informa sobre como os dados pessoais dos membros podem ser empregados na realização de pesquisas com o intuito de aprimorar a experiência na plataforma e o acesso a oportunidades de trabalho. Ainda assim, não especifica que essas pesquisas podem ser conduzidas por meio de experimentos, como o realizado durante os anos de 2015 a 2019 pela plataforma.
No período identificado, o LinkedIn realizou um teste do tipo A/B, o qual expõe grupos de membros a diferentes conteúdos, variando a experiência de algoritmos, design e recursos, para identificar quais deles apresentavam os melhores resultados. O teste foi conduzido com 20 milhões de membros, a partir da teoria sociológica dos laços fracos, em uma parceria entre pesquisadores do LinkedIn, do MIT, de Stanford e de Harvard (Singer, 2022).
Para tanto, o LinkedIn variou de forma aleatória a sugestão de contatos com os quais os membros mantinham laços fracos (distantes) e fortes (próximos), por meio da programação do algoritmo “Pessoas que talvez você conheça”, o qual realiza a recomendação automática de novas conexões com base em dados como histórico profissional e avaliação da probabilidade de envio e aceite de novos convites na rede. O objetivo do estudo foi verificar qual tipo de laço ampliava a possibilidade de obtenção de melhores oportunidades profissionais, para aprimorar o próprio algoritmo, melhorar e tornar igualitárias as ofertas de trabalho aos membros. Os resultados da pesquisa confirmaram a teoria dos laços fracos, demostrando que pessoas expostas a sugestões de contatos mais distantes ampliaram em duas vezes mais seu acesso ao trabalho (Singer, 2022).
Ainda que o resultado almejado fosse aprimorar as ofertas de emprego para os membros, podemos depreender que durante o período de realização da pesquisa, o LinkedIn afetou o acesso dos membros a oportunidades profissionais, em todo o mundo, e por um período significativo de tempo, privilegiando alguns e prejudicando outros.
Os acontecimentos e relatos apresentados ao longo destas subseções demonstram que o existir-junto (Rabelo & Souza, 2021) ao LinkedIn e às conexões advindas dessa rede profissional apresentam potencial para proporcionar experiências diversas aos membros. O LinkedIn, como ser da técnica que existe independentemente de seu criador, assume usos diversos daqueles para que foi criado (Latour, 2019), adquirindo diferentes significados na trajetória de seus usuários, podendo ser tanto uma fonte de renda, contatos de negócios e conhecimento, quanto de investigações e adoecimento psíquico. É possível identificar experiências negativas, como a falência, as fraudes e os vazamentos de dados; e positivas, como mudanças na perspectiva sobre o trabalho, e atendimento de demandas que, pelos canais convencionais, não foram devidamente acolhidas. Já o LinkedIn, como organização-plataforma, configura a existência dos membros por meio de sua tecnologia e suas funcionalidades, programadas a partir de valores e vieses dos desenvolvedores e do seu modelo de negócios, o qual busca atender a seus diversos stakeholders (Bucher, 2018; O’Neil, 2016). Esta configuração não ocorre de forma isolada, mas em conjunto com o ecossistema digital em seu entorno e outros mediadores, como as práticas dos membros, os conteúdos, as redes sociais nas quais discussões sobre o LinkedIn acontecem, o discurso público, as representações midiáticas e os atravessamentos sócio-histórico-culturais.
Em síntese, os achados em campo evidenciam que existem distintas formas de existir com e no LinkedIn, as quais não se restringem às apresentadas até aqui e se relacionam com o contexto sócio-histórico-cultural de forma mais ampla. O curso de ação dos membros se estabelece a partir da experiência de uso da plataforma, bem como pela leitura de conteúdos sobre o que e como produzir, interagir e monetizar no LinkedIn. Os conteúdos comunicativos e expressivos (Burgess & Baym, 2020) participam da trajetória de instauração desses profissionais e dos demais membros do LinkedIn, à medida que circulam nessa ambiência e para fora dela, e constituem a identidade da plataforma.
Outras implicações
As consequências práticas apresentadas, resultantes da relação entre membro e plataforma, revelam implicações das tecnologias digitais e dos processos organizativos de empresas-plataforma, como o LinkedIn, para seus membros. Implicações aos membros também podem advir de vazamentos de dados, os quais podem resultar em preocupação quanto ao uso destes, assim como em tentativas de golpes. Estima-se que em junho de 2021 os dados de 700 milhões de membros do LinkedIn, equivalente a 93% do total de pessoas da plataforma, vazaram (Gabriel, 2021).
O experimento de um membro do LinkedIn demonstra a consequência das fraudes. Este criou um perfil falso na plataforma e alegou no Twitter (atual X) que, em 24 horas, foi contatado por investidor interessado em fazer um aporte em seu fundo (Prá, 2023). A criação de perfis falsos no LinkedIn pode acarretar outras consequências práticas, como é relatado na reportagem que versa sobre residentes do Reino Unido que foram manipulados por esses perfis para disponibilizar informações secretas sobre as empresas em que atuavam (Corera, 2021).
Para além de consequências negativas, os conteúdos com direcionamentos para a rede podem resultar em ofertas de emprego e parcerias. A título de ilustração, um membro criou e divulgou uma planilha no Twitter para avaliar as condições dos banheiros das empresas, a qual “viralizou”, recebendo diversos compartilhamentos e curtidas. Em função da repercussão, o membro acrescentou a essa planilha um call to action (chamada para ação) para seu perfil no LinkedIn. Como resultado, recebeu diversos pedidos de conexão e um patrocinador, “a Metrea, uma empresa paulista especializada em banheiros de alto padrão” (Renner, 2022).
Matheus Rangel, em sua entrevista, relatou que iniciou a criação de conteúdo realizada no LinkedIn quando estava desempregado. Essa prática resultou em propostas de trabalho e permitiu a ele o estabelecimento de conexões em nível mundial, aumentando a sua visibilidade:
A plataforma ela me trazia duas coisas que são muito importantes [...] ela fortalecia a minha marca pessoal [...] ela me tornava referência naquilo que as pessoas buscavam e, consequente isso, aumentava minha visibilidade. E aí hoje eu consigo dar palestra [...] eu moro no interior do Rio. Aonde eu moro é tão longe, mas tão longe, que quando você respira poeira, quando você vai cuspir, sai um tijolo. É roça mesmo. Só que a internet não tem fronteiras [...]. Então, hoje eu já dei palestra para pessoas no Japão [...]. Juntou um grupo de pessoas que trabalhava na Toyota lá no Japão, que queriam saber um pouquinho mais da área de óleo e gás [...] e eles queriam entender um pouquinho sobre China, Japão, Coreia, como é um pouquinho mais dessa cadeia. Expliquei pra eles de uma maneira bem, é, simples, pra eles conseguirem entender o que que é o setor, mas sem ser muito técnico. Já dei palestra em faculdade. Esse ano mesmo, eu fui na UFRJ. É, semana passada, eu tava na Universidade Federal do Espírito Santo, na Universidade Federal de Santa Catarina. Já dei palestra pro pessoal da UFPEL aí de Pelotas. [...] daqui da minha cidade eu consegui chegar em vários lugares através do LinkedIn . Recentemente, eu tive que abrir uma empresa pra conseguir atender algumas demandas como influenciador nessa área, aonde eu fechei um dos maiores contratos da minha vida com uma empresa gigante da área de óleo e gás [...]. Até o momento nunca tinha pensado em abrir uma empresa, e o contrato era tão grande que eu não conseguia fazer isso sem [...] ter algo [...] estruturado. E aí foi onde que eu consegui isso, mas o LinkedIn foi a ferramenta que me... que eu utilizo hoje pra trazer, é, essa escalabilidade dentro da minha carreira, né? (Trecho de entrevista, grifo nosso).
Da mesma forma que Matheus, a entrevistada Marília reconhece que as publicações realizadas no LinkedIn tiveram um papel importante em sua carreira, o que a levou a optar por se desligar de um cargo CLT para se tornar autônoma e empreender.
O LinkedIn foi uma rede essencial pra minha carreira, porque foi a partir dele que eu tive coragem de pedir demissão da CLT pra realmente começar a ser freela e depois empreender e etc. Porque quanto mais eu produzia conteúdo mais as pessoas se identificavam [...] e vinha algumas propostas tipo “ah, gostei do que você escreve, vamo conversar pra você escrever pra minha marca”. É assim que funciona. Por isso que eu falo que essa prospecção passiva é muito importante. Porque, querendo ou não, você não tá fazendo nada, entre aspas, sabe? Você não tá se vendendo. Você tá lá escrevendo. Mas o que vai te vender é a sua escrita, a sua ideia, é o jeito que você pensa. Então, comigo sempre foi assim. Eu acho que 90, 95% dos meus clientes vieram pelo LinkedIn e, tipo, pelas pessoas me vendo e não porque eu fui atrás. Então, é muito importante, sabe? E principalmente pra quem quer um modelo de trabalho mais flexível, mais independente. No meu caso, por exemplo, eu sou do interior de São Paulo. Então, antes da pandemia, era inimaginável pensar que eu poderia trabalhar pra uma agência de São Paulo mesmo - que é, né, o polo mais importante assim da comunicação -, pro Rio de Janeiro. Hoje eu posso trabalhar pra, literalmente, qualquer empresa de qualquer lugar.
O LinkedIn também pode ser um canal de denúncias e resolução de problemas. Uma pessoa trans, Top Voice do LinkedIn, relatou um caso de transfobia por parte de uma empresa aérea. Esta se deparou com a dificuldade de alterar o seu nome no cadastro da empresa, apesar de a troca ter sido realizada há 20 anos. Após apresentar esse relato no LinkedIn, ela recebeu mensagens de apoio e sua postagem foi compartilhada por diversos outros membros. Como resultado, a companhia aérea alterou seu nome no cadastro, e o CEO da empresa lhe enviou um pedido de desculpas. Neste caso, o LinkedIn foi a “ponte” por meio da qual a solicitação foi atendida. A membra inclusive agradeceu à plataforma pela “união” e pelas “conexões” (Prá, 2022).
Os acontecimentos e relatos apresentados ao longo desta seção demonstram que o existir com o LinkedIn, os conteúdos e as conexões advindas dessa rede profissional apresentam potencial para proporcionar experiências diversas aos membros. Para além disso, problematizam “a separação (e consequentemente as relações verticais e hierárquicas) entre seres humanos (sujeito/mente) e outros modos de existência (objeto/matéria) em pólos opostos, com foco nas relações mediadas por processos organizativos” (Júlio & Fantinel, 2021, p. 446).
Tais experiências apontam que o relacionamento do membro com a plataforma não é efeito apenas de controle e manipulação. Os valores que levam as pessoas a se associarem a ela ampliam o uso do LinkedIn para além de uma plataforma para divulgação de vagas, candidatos, empresas e aprimoramento da produtividade, tornando-a uma rede de solidariedade, conscientização, crítica, denúncia, ampliação do alcance de pautas sociais e, consequentemente, para promoção de saúde mental. Dessa forma, é possível a criação de “outras práticas e imaginários sociotécnicos” (Firmino & Bruno, 2023), não só em relação às tecnologias digitais, mas a como e por que trabalhamos.
As experiências que remetem aos benefícios passíveis de serem obtidos por intermédio da plataforma, em termos de empregabilidade e oportunidades de negócios, reforçam a importância do estudo para saber utilizar o LinkedIn da forma correta. Para tanto, os membros se engajam em decifrar o enigma (Stengers & Latour, 2015) das funcionalidades da plataforma e seus códigos de conduta - por meio do uso, de cursos, de leituras, da participação em grupos e treinamentos, da observação do comportamento de outros membros e influenciadores, e da contratação dos serviços de especialistas no uso da plataforma. Os que não decifram o enigma são devorados: bloqueados, invisibilizados, investigados, processados e/ou condenados a permanecer no esquecimento e fora do mercado de trabalho.
O fluxo de relações apresentadas nesta seção, a partir do framework da biografia da plataforma e dos modos de existência, revela elementos que, de forma conjunta e inter-relacionada, constituem o entrelaçamento complexo do LinkedIn e de seus membros. Esses elementos demonstram as múltiplas dimensões que compõem o LinkedIn como tecnologia e organização-plataforma, criando condições de possibilidade e impossibilidade para a constituição de diferentes existências e significados.
Consequências das práticas organizativas do LinkedIn na vida contemporânea e as implicações para os estudos organizacionais
As pesquisas sobre plataformas digitais, no âmbito dos estudos organizacionais, se dedicam, especialmente, a gestão algorítmica e precarização das relações de trabalho decorrentes da instabilidade dos vínculos estabelecidos; falta de acesso a direitos sociais; transformação de trabalhadores em cartografias digitais; mudanças na performatividade do controle gerencial; e impossibilidade de diálogo direto com gestores (Newlands, 2020). Poucos estudos são dedicados a compreender essas plataformas como organizações e as implicações de seus modelos de negócios (Alaimo & Kallinikos, 2020). Já Poell et al. (2020) enfatizam a importância de estudar as plataformas como processos, sugerindo o uso do termo plataformização. Para os autores, os estudos sobre plataformas exploraram significativamente dimensões infraestruturais e institucionais do fenômeno e necessitam ampliar as investigações sobre como as práticas e os imaginários dos membros são transformados pelas plataformas - e, de forma recíproca, como os membros transformam as plataformas, em uma configuração sociotécnica.
Na mesma linha, Bailey e Barley (2020) refletem que a administração muito se dedicou a estudar as tecnologias de forma situada para compreender sua incorporação em diferentes espaços organizacionais, para além de suas propriedades e usos previstos por desenvolvedores. Para os autores, futuros estudos devem ser tratados por equipes interdisciplinares que contemplem desde o design até as implicações sociais dessas tecnologias inteligentes em instituições como família e matrimônio.
Apesar da proeminência do LinkedIn em estudos de emprego e recrutamento, ainda existem lacunas na compreensão de vieses algorítmicos de contratação, resultados de carreira a longo prazo e normas sobre a evolução no ambiente de trabalho. Para Khorshidi et al. (2025), é notória a necessidade de novas direções de pesquisa que abordem o papel da evolução do LinkedIn no recrutamento orientado por IA, questões éticas na contratação algorítmica e a influência da plataforma nas trajetórias de carreira e na vida dos indivíduos. Ao mesmo tempo, a questão do uso crescente de aprendizado de máquina em rankings de perfis, avaliação de habilidades e recomendações profissionais levanta questões críticas sobre mitigação de vieses, justiça e transparência.
O presente estudo pautou-se pela orientação e por sugestões dos autores supracitados, e algumas conclusões provisórias sugerem que a existência no e com o LinkedIn é atravessada pelas dimensões que o constituem como empresa e tecnologia, as quais resultam em consequências práticas na configuração das experiências dos membros. O LinkedIn funciona como um ponto de passagem indispensável para a existência dos seus membros: estar ou não estar na plataforma torna-se uma escolha sobre existir ou não nesse espaço. Do mesmo modo, suas funcionalidades, bem como os conteúdos que nela circulam e que, a partir dela, se disseminam em outras ambiências, configuram e constituem mundos, os quais se manifestam tanto na manutenção de percursos já consolidados quanto na conformação de novas trajetórias nas relações estabelecidas com o trabalho.
A área de administração tem pesquisado tecnologias digitais, como o LinkedIn, sem estabelecer problematizações mais profundas sobre a organização-plataforma em si, seu modelo de negócios e seu papel como tecnologia mediadora e constituinte de realidades e consequências práticas para os membros. A presente pesquisa se soma aos estudos desenvolvidos pela Administração e por outras áreas de destaque nas pesquisas de mídias digitais, como a comunicação, as quais sublinham o LinkedIn como uma ferramenta do neoliberalismo e empreendedorismo de si, mas sem se restringir a esses aspectos, o que reduzia o debate (Couldry & Hepp, 2018). O mesmo aconteceria se a discussão enfatizasse exclusivamente o papel da plataforma como uma ferramenta estratégica e funcional para o trabalho e incremento da produtividade.
Autores favoráveis às tecnologias digitais, os otimistas ou apologéticos, defendem as transformações positivas resultantes dos aprimoramentos tecnológicos e seu potencial para promover coesão social, impulsionar inovações e gerar novos conhecimentos (Fuchs & Chandler, 2019; Segata, 2016). Os estudos organizacionais e de gestão mainstream, alinhados com as práticas corporativas, tendem a enfatizar esses aspectos positivos e os benefícios relacionados aos processos de digitalização, como: geração de eficiência no trabalho e sua organização, constituição de novos produtos e serviços, e capacidade de atingir e influenciar pessoas. Pouca atenção é destinada para as implicações inesperadas e negativas da digitalização para as organizações, seus processos, trabalhadores e os reflexos de suas ações no ecossistema e na comunidade próximos aos quais atuam (Trittin-Ulbrich et al., 2020).
Em contrapartida, os teóricos pessimistas ou apocalípticos, assim como os escritores das distopias, advertem sobre o uso das tecnologias como forma de controle social, além de fonte de alienação e desumanização (Fuchs & Chandler, 2019; Segata, 2016). Os posicionamentos extremos acerca das tecnologias digitais polarizam-se entre a tecnofilia - em conjunto com o tecnosolucionismo - e a tecnofobia (Pavloski, 2014), deixando de fora discussões importantes como: a que interesses as tecnologias e suas lógicas servem, quais são suas finalidades e quem se beneficia delas.
O potencial crítico do posicionamento Latouriano como caminho alternativo a essas ontologias não está em desafiá-las, mas em apresentar redescrições de nós mesmos à luz da alteridade (Maniglier, 2014). Enquanto conceitos como o de capitalismo de vigilância, de plataforma e sociedade em rede restringem caracterizações contextuais, os modos de existência ampliam o potencial analítico, ao abarcar elementos diversos nas redes que buscam explicar o presente e o futuro das organizações e da vida em sociedade. A proposição Latouriana evidencia que as tecnologias são mais do que apenas artefatos e instrumentos (Latour, 2019). A configuração sociomaterial das práticas performa realidades organizacionais, reconfigurando trabalhadores, organizações, sociedades e as próprias tecnologias (Orlikowski & Scott, 2008).
No âmbito dos estudos organizacionais não há um framework teórico unificado acerca das plataformas como uma forma específica de organização. Elas tanto podem ser compreendidas como organizações-plataforma, um tipo particular de organização formal dependente da infraestrutura tecnológica de sua plataforma digital, quanto pelo organizing da plataforma, seus processos atuantes no ordenamento do social em seu entorno, dentro e fora das organizações formais: o desenvolvimento e fornecimento da tecnologia; a regulação dos mercados; a integração de redes; e a orquestra da meta-organização emergente (Rachlitz, 2023). O presente estudo apresenta como o LinkedIn se enquadra em ambas as definições, apontando para a complexidade de sua constituição, para além da definição como tecnologia do capitalismo de vigilância.
A biografia do LinkedIn, incluindo seu modelo de negócios, evidencia que as plataformas digitais configuram um tipo especial de organização ao se confundir com sua tecnologia. Seus processos empresariais e suas práticas de dados estão direcionados para gerar valor para seus stakeholders, garantir a subsistência da tecnologia, bem como para articular, manter e aumentar constantemente seu número de membros - dispersos temporal e espacialmente. A separação da organização-plataforma de seu ambiente é difusa, pois a ordem social é reconfigurada a partir de suas práticas de dados. Os membros não são compreendidos como trabalhadores, tampouco exclusivamente como clientes nessa relação (Alaimo & Kallinikos, 2020).
O LinkedIn como organização-plataforma, considerando seu potencial no ordenamento do social, não pode ser reduzido a suas funcionalidades, seu modelo de negócios, seus relatórios e seus ranqueamentos. Da mesma forma, não pode ser reduzido aos seus aspectos infraestruturais e institucionais (Poell et al., 2020). No decorrer do estudo, olhamos para as diferentes dimensões que permeiam a experiência dos membros na e com a plataforma e para reciprocidade da relação humano, tecnologia e organização-plataforma em configurações sociotécnicas. Tais relações constituíram formas particulares de existência, evidenciando implicações para seu ecossistema de inserção (Trittin-Ulbrich et al., 2020), à medida que os membros decifram (ou não) o enigma do funcionamento do LinkedIn.
Os momentos-chave na constituição de existências também suscitam debates sobre questões éticas envolvidas nos testes realizados pela plataforma e o papel dos algoritmos na determinação dos conteúdos que serão visualizados pelos membros. Tratam-se de temas que se entrelaçam com trajetórias de carreira e de vida, endereçando questões importantes identificadas como carentes de investigações empíricas (Khorshidi et al., 2025), as quais possam ser problematizadas e contornadas em seus efeitos pervasivos para indivíduos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo mapeou as consequências práticas vivenciadas pelos membros durante o uso da plataforma LinkedIn, e a partir dos conteúdos circulantes dentro e para fora dela. Ilustrando, a partir de uma reflexão crítica sobre o pensar e fazer organizacional com os entrelaçamentos digitais, e para além das adjetivações atribuídas à época: os significados, as práticas organizativas e dos membros - características do período contemporâneo. Cabe salientar que o referencial utilizado e a experiência prática reforçam que esses significados não são universais, mas situados nas práticas cotidianas dos membros do LinkedIn.
O complexo entrelaçamento tecnologia e membro e suas consequências práticas foram investigados pela combinação de referenciais processuais e promissores, mas pouco explorados pela área de estudos organizacionais, quais sejam: os modos de existência propostos por Latour (2019); e o framework biografia da plataforma para o estudo das dimensões constituintes das redes sociais plataformizadas, proposto por Burgess e Baym (2020). Descrevemos e qualificamos formas de existência - de um ponto de vista infraestrutural, mas também das pessoas - e as implicações das práticas organizativas no ecossistema em que o LinkedIn opera.
Ao olhar para diferentes dimensões que permeiam a experiência dos membros na e com a plataforma, constituindo formas particulares de existência, este trabalho de pensamento apresentou algumas contribuições para a literatura acadêmica. Para os estudos organizacionais, a pesquisa avança na discussão acerca das implicações inesperadas e negativas, para além dos benefícios, dos processos de digitalização nas organizações em relação ao ecossistema em que estão inseridas (Trittin-Ulbrich et al., 2020). Ademais, o estudo não explorou apenas a plataforma como tecnologia digital, mas como organização constituída de forma indissociável de sua tecnologia (Alaimo & Kallinikos, 2020), o que aponta para particularidades de seu modelo de negócios e de sua existência.
Para os estudos de internet, a pesquisa buscou agregar ao estudar a plataforma digital LinkedIn como processo (Poell et al., 2020) e mediadora na constituição de realidades e existências. Para tanto, foram exploradas dimensões infraestruturais e institucionais, como comumente investigadas pelos estudos de plataforma, mas também foi discutido como as práticas e os imaginários dos membros são transformados pelo LinkedIn - e, de forma recíproca, como os membros transformam o LinkedIn, em uma configuração sociotécnica. Sendo assim, contribuiu ao trabalhar de forma conjunta com práticas, imaginários e aspectos infraestruturais, ampliando a perspectiva analítica. Dessa forma, a pesquisa não se restringiu a aspectos como o neoliberalismo (Couldry & Hepp, 2018) e o empreendedorismo de si, o que poderia ter reduzido o debate.
Para o ferramental teórico-conceitual dos modos de existência (Latour, 2019), a pesquisa buscou contribuir ao colocar a tecnologia no centro da discussão da virada ontológica (Hui, 2020) e abraçar sua vocação empírica (Fragoso, 2018). Dessa forma, acrescentou elementos teóricos e empíricos para discutir o papel dos objetos técnicos na configuração da vida cotidiana e explorar o entrelaçamento multimodal dos modos. Ainda que outros pesquisadores como Lemos e Pastor (2020) tenham explorado o entrelaçamento entre o referencial e os fenômenos digitais, o LinkedIn, até o momento, não foi estudado em profundidade. Ademais, a pesquisa explorou o enredamento de modos de existência, apontando para possibilidades multimodais e ultrapassando o cruzamento dois a dois, o qual limitaria a descrição (Gilbert, 2020).
O estudo também proporcionou visibilidade acadêmica para o papel do LinkedIn na vida e na carreira de seus membros, por meio de mecanismos como a seleção e exposição de conteúdos. Ainda, forneceu apontamentos para o aprofundamento de estudos sobre o emprego de decisões automatizadas por algoritmos e inteligência artificial pela plataforma e questões éticas decorrentes, aspectos críticos elencados como necessários de aprofundamento teórico e empírico, conforme (Khorshidi et al., 2025).
Em síntese, a contribuição teórica potencial está no estudo de uma plataforma digital pouco explorada em comparação com outras redes sociais, analisada sobre múltiplas dimensões (do modelo de negócios e da infraestrutura técnica a experiências, imaginários e práticas dos membros). Para a área de administração, a contribuição se concentrou nas consequências práticas da plataformização, da vigilância distribuída e imaginada, e da performatividade algorítmica, características de organizações como a organização-plataforma LinkedIn, na existência dos membros-trabalhadores. Como contribuições práticas, os materiais utilizados para a construção da pesquisa, sejam produções acadêmicas, jornalísticas, ou conteúdos das entrevistas, fornecem indicações sobre o funcionamento mais amplo da plataforma e seus algoritmos, e como utilizá-la para benefícios pessoais na busca por trabalho e emprego.
O LinkedIn é uma ambiência para a construção de marcas pessoais, profissionais e empresariais; para o compartilhamento de experiências corporativas que podem ser vivenciadas de forma passiva, ativa, estratégica e tantas outras, a depender da associação estabelecida com o membro. Também, é uma plataforma para estudo e produção de conteúdo. À medida que conteúdos são publicados na e pela plataforma e circulam, em função da ação dos algoritmos em conjunto com a humana - como reagir, comentar, compartilhar e realizar prints de tela -, estes reverberam, reiteram e/ou ressignificam as experiências corporativas de outros trabalhadores, configurando opiniões, visões de mundo e modos de ser e estar no mundo.
A partir das discussões e limitações da pesquisa, sugerimos que estudos futuros contemplem questionamentos que a literatura acadêmica não aprofundou acerca do LinkedIn e, também, advindos da experiência da pesquisa, como: a) qual o papel mediador exercido pela plataforma nas práticas de outras organizações?; b) como as culturas de trabalho excessivo, produtividade e positividade tóxica, que são exaltadas nos conteúdos circulantes no LinkedIn, configuram as organizações na contemporaneidade?; e c) qual o papel dos influenciadores que falam sobre as relações de trabalho, presentes no LinkedIn, nas dinâmicas das organizações na contemporaneidade?
AGRADECIMENTOS
As autoras agradecem o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa de estudo de doutorado concedida.
REFERÊNCIAS
-
Alaimo, C., & Kallinikos, J. (2020). Managing by data: algorithmic categories and organizing. Organization Studies, 42(9), 1385-1407. https://doi.org/10.1177/0170840620934062
» https://doi.org/10.1177/0170840620934062 -
Amaral, A. (2010). Etnografia e pesquisa em cibercultura: limites e insuficiências metodológicas. Revista USP, (86), 122-135. https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i86p122-135
» https://doi.org/10.11606/issn.2316-9036.v0i86p122-135 -
Bailey, D. E., & Barley, S. R. (2020). Beyond design and use: how scholars should study intelligent technologies.Information and Organization, 30(2), 100286. https://doi.org/10.1016/j.infoandorg.2019.100286
» https://doi.org/10.1016/j.infoandorg.2019.100286 -
Bissonnette, S. (2022). Introduction: modes of existence. Mechademia, 15(1), 1-11. https://doi.org/10.5749/mech.11.1.0001
» https://doi.org/10.5749/mech.11.1.0001 - Bucher, T. (2018). If... Then: algorithmic power and politics Oxford University Press.
- Burgess, J., & Baym, N. (2020). Twitter: a biography New York University Press.
-
Buzato, M. (2016). Por uma ética aplicada interdisciplinar das TIC: matéria de linguagem. Revista Brasileira De Linguística Aplicada, 16(3), 493-519. https://doi.org/10.1590/1984-6398201610240
» https://doi.org/10.1590/1984-6398201610240 - Cesarino, L., Walz, S., & Balistieri, T. (2023). Etnografia na ou da internet? Desafios epistemológicos e éticos do método etnográfico na era da plataformização. In I. Siqueira & V. Costa. Metodologia e relações internacionais: debates contemporâneos (Vol. 4, Cap. 1, pp. 17-46). PUC-Rio.
-
Corera, G. (2021, May 14). MI5 warns of spies using LinkedIn to trick staff into spilling secrets https://www.bbc.com/news/technology-56812746?utm_campaign=aeronews_45&utm_medium=email&utm_source=RD+Station
» https://www.bbc.com/news/technology-56812746?utm_campaign=aeronews_45&utm_medium=email&utm_source=RD+Station - Couldry, N., & Hepp, A. (2018). The mediated construction of reality John Wiley & Sons.
- D’Andréa, C. (2020). Pesquisando plataformas online: conceitos e métodos EdUFBA.
-
Delchambre, J., & Marquis, N. (2013). Modes of existence explained to the moderns, or Bruno Latour’s plural world. Social Antropology/Antropologie Sociale, 21(4), 564-575. https://doi.org/10.1111/1469-8676.12048
» https://doi.org/10.1111/1469-8676.1204 -
Dias, J. P., Sztutman, R., & Marras, S. (2014). Múltiplos e animados modos de existência: entrevista com Bruno Latour. Revista de Antropologia, 57(1), 499-519. https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2014.87772
» https://doi.org/10.11606/2179-0892.ra.2014.87772 -
Firmino, R. J., & Bruno, F. G. (2023). Construindo uma agenda latino-americana de estudos sobre vigilância, tecnologia e sociedade https://politics.org.br/pt-br/privacidade-e-vigilancia-news/construindo-uma-agenda-latino-americana-de-estudos-sobre-vigilancia
» https://politics.org.br/pt-br/privacidade-e-vigilancia-news/construindo-uma-agenda-latino-americana-de-estudos-sobre-vigilancia -
Fragoso, S. (2018). Os modos de existência do gameplay: um exercício de aplicação com Cities: Skylines. Matrizes, 12(2), 33-51. https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v12i2p33-51
» https://doi.org/10.11606/issn.1982-8160.v12i2p33-51 - Fuchs, C., & Chandler, D. (2019). Introduction. In D. Chandler & C. Fuchs (Eds.). Digital objects, digital subjects: interdisciplinary perspectives on capitalism, Labour and politics in the age of big data(pp. 1-20). University of Westminster Press.
-
Gabriel, C. (2021, Junho 29). LinkedIn é alvo de nova denúncia de vazamento de dados https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/06/29/vazamento-no-linkedin-expoe-dados-de-mais-de-90-dos-usuarios-o-que-fazer.htm
» https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2021/06/29/vazamento-no-linkedin-expoe-dados-de-mais-de-90-dos-usuarios-o-que-fazer.htm -
Garcia, R. L. F., Huang, Y., & Kwok, L. (2022). Virtual interviews vs. LinkedIn profiles: effects on human resource managers’ initial hiring decisions. Tourism Management, 94, 1-7. https://doi.org/10.1016/j.tourman.2022.104659
» https://doi.org/10.1016/j.tourman.2022.104659 -
Ghedin, R. (2022, Março 29). LinkedIn derruba veto a vagas afirmativas no Brasil https://manualdousuario.net/notinha-linkedin-derruba-veto-vagas-afirmativas-brasil/
» https://manualdousuario.net/notinha-linkedin-derruba-veto-vagas-afirmativas-brasil/ -
Gilbert, J. (2020). Form and/as mode of existence. Romanic Review, 111(1), 27-47. https://doi.org/10.1215/00358118-8007950
» https://doi.org/10.1215/00358118-8007950 -
Hämäläinen, N., & Lehtonen, T-K. (2016). Latour’s empirical metaphysics. Distinktion: Journal of Social Theory, 17(1), 20-37. https://doi.org/10.1080/1600910X.2016.1154883
» https://doi.org/10.1080/1600910X.2016.1154883 - Hine, C. (2015). Ethnography for the internet: embedded, embodied and everyday Bloomsbury Academic.
- Hui, Yuk. (2020).Tecnodiversidade Ubu Editora.
- Ingold, T. (2019).Antropologia: para que serve?Vozes.
- James, W. (2004). A pluralistic universe Hibbert lectures at Manchester College on the present situation in philosophy Longmans, Green, and Company. (Livro original publicado em 1909).
-
Júlio, A. C., & Fantinel, L. (2021). A produção da pandemia de covid-19 e as relações organizadas entre humanos e outros modos de existência. Revista Brasileira de Estudos Organizacionais, 7(2), 437-456. https://rbeo.emnuvens.com.br/rbeo/article/view/413
» https://rbeo.emnuvens.com.br/rbeo/article/view/413 -
Khorshidi, M. S., Merigó, J. M., & Beydoun, G. (2025). Scientific production on LinkedIn: a bibliometric review. Business and Professional Communication Quarterly, 23294906251345075. https://doi.org/10.1177/23294906251345075
» https://doi.org/10.1177/23294906251345075 - Latour, B. (2019). Investigação sobre os modos de existência: uma antropologia dos modernos Vozes.
-
Lemos, A., & Pastor, L. (2020). Experiência algorítmica: ação e prática de dado na plataforma Instagram. Contracampo: Brazilian Journal of Communication, 39(2), 132-146. https://doi.org/10.22409/contracampo.v0i0.40472
» https://doi.org/10.22409/contracampo.v0i0.40472 -
Leonardi, P. M., & Treem, J. W. (2020). Behavioral visibility: a new paradigm for organization studies in the age of digitization, digitalization, and datafication. Organization Studies, 41(12), 1601-1625. https://doi.org/10.1177/0170840620970728
» https://doi.org/10.1177/0170840620970728 -
LinkedIn. (2020, 11 de agosto). Política de privacidade do LinkedIn https://br.linkedin.com/legal/privacy-policy?
» https://br.linkedin.com/legal/privacy-policy? -
Lousley, C., & Posthumus, S. (2016). Canadian forum on Bruno Latour’s an inquiry into modes of existence. Resilience, 4(1), 110-113. https://doi.org/10.5250/resilience.4.1.0110
» https://doi.org/10.5250/resilience.4.1.0110 -
Maniglier, P. (2014). A metaphysical turn? Bruno Latour’s an inquiry into modes of existence. Radical Philosophy, (187), 37-44. https://www.radicalphilosophy.com/article/a-metaphysical-turn
» https://www.radicalphilosophy.com/article/a-metaphysical-turn -
Melo, M. F. A. Q., & Moraes, M. O. (2016). A técnica como modo de existência: um diálogo entre as ideias de Latour e Simondon. Memorandum, 31, 276-297. https://periodicos.ufmg.br/index.php/memorandum/article/view/6440
» https://periodicos.ufmg.br/index.php/memorandum/article/view/6440 -
Newlands, G. (2020). Algorithmic surveillance in the gig economy: the organization of work through Lefebvrian conceived space. Organization studies, 42(5), 719-737. https://doi.org/10.1177/0170840620937900
» https://doi.org/10.1177/0170840620937900 -
Nexo. (2022, Março 19) LinkedIn remove vaga prioritária a pessoas negras e indígenas.https://www.nexojornal.com.br/extra/2022/03/19/LinkedIn-remove-vaga-priorit%C3%A1ria-a-pessoas-negras-e-ind%C3%ADgenas
» https://www.nexojornal.com.br/extra/2022/03/19/LinkedIn-remove-vaga-priorit%C3%A1ria-a-pessoas-negras-e-ind%C3%ADgenas - O’Neil, C. (2016). Weapons of math destruction: how big data increases inequality and threatens democracy Crown Publishers.
-
Orlikowski, W. J., & Scott, S. V. (2008). The entangling of technology and work in organizations (Working Paper Series). The London School of Economics and Political Science, 178, 1-46. http://dx.doi.org/10.1080/19416520802211644
» https://doi.org/10.1080/19416520802211644 -
Pardim, V. I., Pinochet, L. H. C., Souza, C. A., & Viana, A. B. N. (2022). The behavior of young people at the beginning of their career through LinkedIn. RAM, 3(23), 1-28. https://doi.org/10.1590/1678-6971/eramg220064.en
» https://doi.org/10.1590/1678-6971/eramg220064.en - Pavloski, E. (2014). 1984: a distopia do indivíduo sob controle UEPG.
-
Poell, T., Nieborg, D., & Van Dijck, J. (2020). Plataformização. Fronteiras - estudos midiáticos, 22(1), 2-10. https://doi.org/10.4013/fem.2020.221.01
» https://doi.org/10. https://doi.org/10.4013/fem.2020.221.01 -
Prado, F. (2022, Fevereiro 18). Cancelado no LinkedIn, empreendedor faliu e teve prejuízo de R$ 300 mil. https://istoedinheiro.com.br/cancelado-no-linkedin-empreendedor-faliu-e-teve-prejuizo-de-r-300-mil/#.YhDBGLYJdl8.linkedin
» https://istoedinheiro.com.br/cancelado-no-linkedin-empreendedor-faliu-e-teve-prejuizo-de-r-300-mil/#.YhDBGLYJdl8.linkedin -
Rabelo, M. C., & Souza, I. M. D. A. (2021). Existências conjuntas e seus trajetos.Civitas-Revista de Ciências Sociais,21(1), 108-119. https://doi.org/10.15448/1984-7289.2021.1.39162
» https://doi.org/10.15448/1984-7289.2021.1.39162 -
Rachlitz, K. (2023). Platform organizing and platform organizations. PuntOorg International Journal, 8(1), 3-35. https://doi.org/10.19245/25.05.pij.8.1.2
» https://doi.org/10.19245/25.05.pij.8.1.2 - Prá, R. (2022). Diário de campo: pesquisa na plataforma LinkedIn [documento não publicado]. Arquivo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
- Prá, R. (2023). Diário de campo: pesquisa na plataforma LinkedIn [documento não publicado]. Arquivo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
-
Renner, M. (2022, Setembro 28). Planilha avalia banheiros das empresas https://www.baguete.com.br/noticias/28/07/2022/planilha-avalia-banheiros-das-empresas
» https://www.baguete.com.br/noticias/28/07/2022/planilha-avalia-banheiros-das-empresas -
Rodrigues, A. P., & Pedro, R. M. L. (2016). Google e LinkedIn: algumas questões articulando visibilidade, vigilância e subjetividade. Liinc em Revista, 12(2), 285-298. https://doi.org/10.18617/liinc.v12i2.908
» https://doi.org/10.18617/liinc.v12i2.908 -
Segata, J.(2016). Dos cibernautas às redes. In J. Segata & T. Rifiotis (Eds.). Políticas etnográficas no campo da cibercultura (Cap. 3, pp. 91-114). ABA. https://lume.ufrgs.br/handle/10183/214422
» https://lume.ufrgs.br/handle/10183/214422 - Silveira, S. A. S. (2017). Tudo sobre tod@s: redes digitais, privacidade e venda de dados pessoais Edições Sesc.
-
Singer, N. (2022, Setembro 27). LinkedIn realizou experimentos sociais com 20 milhões de usuários durante cinco anos https://www1.folha.uol.com.br/tec/2022/09/linkedin-realizou-experimentos-sociais-com-20-milhoes-de-usuarios-durante-cinco-anos.shtml
» https://www1.folha.uol.com.br/tec/2022/09/linkedin-realizou-experimentos-sociais-com-20-milhoes-de-usuarios-durante-cinco-anos.shtml -
Stangl, A. F. (2016). Modos de coexistência mediada: por uma ontologia da atenção distribuída digitalmente [Tese de Doutorado, Universidade de São Paulo]. Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP. https://doi.org/10.11606/T.27.2017.tde-20022017-150757
» https://doi.org/10.11606/T.27.2017.tde-20022017-150757 - Stengers, I., & Latour, B. (2015). The sphinx of the work. In E. Souriau. The different modes of existence (Cap. 1, pp. 11-94). Univocal Publishing.
-
Trittin-Ulbrich, H., Scherer, A. G., Munro, I., & Whelan, G. (2020). Exploring the dark and unexpected sides of digitalization: toward a critical agenda. Organization, 28(1), 1-18. https://doi.org/10.1177/1350508420968184
» https://doi.org/10.1177/1350508420968184 -
Tummons, J. (2020). Education as a mode of existence: a Latourian inquiry into assessment validity in higher education. Educational Philosophy and Theory, 52(1), 45-54. https://doi.org/10.1080/00131857.2019.1586530
» https://doi.org/10.1080/00131857.2019.1586530 -
Tummons, J. (2021). Ontological pluralism, modes of existence, and actor-network theory: upgrading Latour with Latour. Social Epistemology, 35(1), 1-11. https://doi.org/10.1080/02691728.2020.1774815
» https://doi.org/10.1080/02691728.2020.1774815 -
UOL. (2021, Março 18). Denúncia de racismo em processo de seleção em Piracicaba (SP) era falsa https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/03/18/empresa-racismo-piracicaba-nao-existe.htm?cmpid=copiaecola
» https://economia.uol.com.br/noticias/redacao/2021/03/18/empresa-racismo-piracicaba-nao-existe.htm?cmpid=copiaecola -
Weber, T. (2016). Metaphysics of the common world: whitehead, Latour, and the modes of existence. Journal of Speculative Philosophy, 30(4), 515-534. https://doi.org/10.5325/jspecphil.30.4.0515
» https://doi.org/10.5325/jspecphil.30.4.0515 - Zuboff, S. (2020). A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder Intrínseca.
-
DISPONIBILIDADE DE DADOS
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente
-
PARECERISTAS
Letícia Dias Fantinel (Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória / ES - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-4589-6352
-
11
Um dos revisores não autorizou a divulgação de sua identidade.
-
RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
O relatório de revisão por pares está disponível neste link: https://periodicos.fgv.br/cadernosebape/article/view/97420/90602
Editado por
-
EDITOR-CHEFE
Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
-
EDITOR-ADJUNTO
Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127
-
EDITORES CONVIDADOS
Carla Marisa Rebelo de Magalhães (Universidade Lusófona, Lisboa - Portugal). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-7956-0753
-
EDITORES CONVIDADOS
Claúdio Roberto Marques Gurgel (Universidade Federal Fluminense, Niterói / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0009-0003-7254-8980
-
EDITORES CONVIDADOS
Fernando Guilherme Tenório (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4082-4410
-
EDITORES CONVIDADOS
Fernando López Parra (Universidad Andina Simón Bolívar, Quito - Ecuador). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3948-5127
-
EDITORES CONVIDADOS
Javier Jasso (Universidad Nacional Autónoma de México, Coyoacán / CDMX - México). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5305-9936
O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente
