Resumo
Este trabalho é resultado de uma pesquisa empírica que buscou demonstrar em campo o potencial da obra do renomado geógrafo brasileiro Milton Santos para os estudos de cultura e consumo. Em primeiro lugar, foi realizado um esforço de conceitualização a partir das categorias do geógrafo de verticalidade e horizontalidade, que são configurações distintas de partições do espaço. No primeiro caso, o espaço está normalmente atrelado a relações de imposição com centros de densidade técnica de países do Norte Global e, no segundo, a relações locais e orgânicas. O passo seguinte foi o de identificar padrões distintos de consumo, conforme a respectiva direcionalidade do espaço. Com isso, identificamos padrões de consumo solidários, estrangeiros e antropofágicos. Nossa pesquisa, de caráter qualitativo, foi realizada em uma comunidade rural da cidade de Divinópolis, Minas Gerais, onde identificamos que a adoção de novas técnicas pelos residentes foi realizada por meio de estratégias adaptativas e motivada pela busca de uma nova temporalidade local, melhorando a qualidade de vida dos indivíduos. Por fim, acreditamos no potencial dessa conceitualização para problematizar relações globais entre dois tipos distintos de lugares: aqueles que mandam e aqueles que fazem.
Palavras-chave:
Consumo; Espaço; Milton Santos
Abstract
This work is the result of empirical research that demonstrated in the field the potential of the work of the renowned geographer Milton Santos to the culture and consumption studies. First, we conducted a process of conceptualization using the geographer categories of verticality and horizontality, which are different configurations of space partitions. While the former is normally linked to relations of imposition involving dense centers of techniques in the Global North, the latter is formed by local and organic relations in general. The next step was to identify the different types of consumption, according to their respective directionality of space. In doing so, we identified patterns of solidary, foreign, and anthropophagic consumption. Our qualitative research, examined a rural community in the Brazilian city of Divinópolis, where we found out that adoption of new technologies by residents was made by means of adaptive strategies motivated by the search for a new local temporality, improving the individuals’ quality of life. Finally, we believe in the potential of this conceptualization in order to problematize global relations between two kinds of places: the rulers and the executors.
Keywords:
Consumption; Space; Milton Santos
Resumen
Este trabajo es el resultado de una investigación empírica que buscó demostrar en campo el potencial de la obra del reconocido geógrafo brasileño, Milton Santos, para los estudios sobre cultura y consumo. En primer lugar, se intentó conceptualizar las categorías de verticalidad y horizontalidad del geógrafo, que son configuraciones diferentes de las particiones del espacio. En el primer caso, el espacio suele vincularse a relaciones de imposición con centros de densidad técnica en países del norte global, y en el segundo, a relaciones locales y orgánicas. El siguiente paso fue identificar diferentes patrones de consumo, según la respectiva direccionalidad del espacio. Con ello, identificamos patrones de consumo solidarios, foráneos y antropofágicos. Nuestra investigación cualitativa se llevó a cabo en una comunidad rural de la ciudad de Divinópolis, Minas Gerais, donde identificamos que la adopción de nuevas técnicas por parte de los residentes se realizaba a través de estrategias adaptativas y motivadas por la búsqueda de una nueva temporalidad local, mejorando la calidad de vida de los individuos. Por último, creemos en el potencial de esta conceptualización para problematizar las relaciones globales entre dos tipos distintos de lugares: los que mandan y los que hacen.
Palabras clave:
Consumo; Espacio; Milton Santos
INTRODUÇÃO
Devido à natureza eclética da Consumer Culture Theory (CCT) (Arnould & Thompson, 2005, 2007; Thompson et al., 2013), pesquisadores passaram a se interessar por uma variedade de temas, incluindo o estudo do espaço. Diversos trabalhos enfocaram o consumo no e do espaço (por exemplo, Castilhos, 2019; Castilhos & Dolbec, 2018; Moor, 2003; Warnaby & Medway, 2013; Visconti et al., 2010). Consequentemente, o viés não-cartesiano que inicialmente influenciou o campo tem estimulado um exame mais amplo de lugares, regiões e territórios para além de sua mera materialidade geográfica. Nessa perspectiva de pesquisa, o espaço é visto como vivido, complexo e dependente das ações dos indivíduos para a criação de significado. Castilhos et al. (2017), por exemplo, exploraram essa visão ao categorizar vários tipos de lugares como manifestações do fenômeno espacial.
Para contribuir com o campo, tomamos como marco teórico a obra do renomado geógrafo brasileiro Milton Santos. Mais do que um conjunto de conceitos ou uma teoria, Milton Santos estabeleceu uma poderosa escola de pensamento (Melgaço, 2017). Este artigo demonstrará que incorporar o trabalho de Santos aos estudos de consumo e espaço esclarece questões vitais para pesquisadores de países em desenvolvimento. Santos estava profundamente preocupado com as dinâmicas da globalização e os papéis que países desenvolvidos e subdesenvolvidos desempenham no cenário global. Em suas obras, é muito comum encontrar discussões sobre os lugares que mandam e os lugares que fazem (Santos, 2013). Essas imposições são feitas pelos primeiros, que exportam técnicas e objetos técnicos aos segundos.
Argumentamos aqui que é possível categorizar o consumo fazendo referência às suas relações com as partições do espaço, que é formado por um sistema de objetos e um sistema de ações. Essas partições possuem direcionalidades, emergindo como verticais ou horizontais, pelas quais as técnicas circulam. As configurações verticais se relacionam com as dinâmicas internacionais de produção e consumo, enquanto as horizontais abordam relações de produção-consumo mais próximas—e, na maioria das vezes, tradicionais. Assim, normalmente o Norte Global e as empresas multinacionais “exportam” e impõem técnicas ao Sul. A “importação” de técnicas pelos países subdesenvolvidos gera, em seus espaços, configurações consideradas estrangeiras e “não-naturais”. Por fim, defendemos que os padrões de consumo ligados a cada direcionalidade têm diferentes funções dentro da respectiva partição espacial. Como pesquisadores do Sul Global, sentimos que é nossa responsabilidade desenvolver conceitualizações que nos permitam explorar um fenômeno pouco estudado: as imposições e seus padrões de consumo associados. Como cidadãos do Sul, estamos apenas importando técnicas do Norte e as replicando em nosso território? Se estamos importando técnicas, fazemos de forma crítica? Estamos realizando essas importações como forma de melhorar nossas vidas? O livro Toward an Other Globalization: From the Single Thought to Universal Conscience (Santos, 2017b) é um esforço de levar a obra de Santos ao mundo anglófono para outros trabalhos do geógrafo em inglês, ver (Santos, 1974, 1977a, 1977b, 1977c, 1979, 1980).
O objetivo deste artigo é demonstrar a força do argumento exposto no parágrafo anterior, mais bem explicado na seção de conceitualização. Felizmente, alcançamos isso por meio de uma pesquisa de campo em uma pequena comunidade rural chamada Quilombo (apesar do nome, não se trata de uma comunidade quilombola), onde a conexão com a internet tornou-se amplamente acessível apenas em 2018. Como relatamos aqui, quando a infraestrutura de internet chegou à comunidade, o contraste entre verticalidades e horizontalidades tornou-se evidente. O método de pesquisa escolhido para compreender esse fenômeno foi qualitativo, com observações de campo e entrevistas analisadas por meio da análise de discurso.
Além disso, defendemos que entender como o consumo ocorre dentro dos sistemas de objetos e ações, em qualquer partição do espaço, é valioso para nós enquanto pesquisadores e cidadãos do Sul Global. Exemplos de pesquisas que abordam criticamente o fenômeno do espaço em países subdesenvolvidos são citados ao longo deste trabalho. Um deles é o estudo de Castilhos (2019), que explorou como práticas (verticais) de desenvolvimento urbano privado excluíram grupos vulneráveis de bairros de baixa renda. De forma semelhante, nossa pesquisa busca contribuir com o campo por meio de um novo conjunto de ferramentas teóricas para investigações futuras.
O ESPAÇO E SUA “NATUREZA” CONFORME MILTON SANTOS
Na visão de Milton Santos, o estudo do espaço exige a consideração de dois elementos fundamentais: o sistema de objetos e o sistema de ações (Santos, 1997). O sistema de objetos constitui o aspecto material de sua ontologia, uma vez que tudo tende a assumir o status de objeto a partir do momento em que seres humanos empregam qualquer coisa material como ponto de referência. Por outro lado, o sistema de ações molda o espaço como uma entidade vibrante e dinâmica. Juntos, esses dois elementos compõem a essência do espaço. Ontologicamente, o construto de espaço é formado por duas categorias correlacionadas e interdependentes: objetos e ações. Essa abordagem do fenômeno espacial, além de ser não-cartesiana (Costa, 2024), é também muito semelhante à teoria da estruturação de Giddens (2013), segundo a qual as ações dos atores constroem estruturas (regras e recursos) em suas performances cotidianas, enquanto essas mesmas estruturas condicionam ou possibilitam as ações dos indivíduos. O que há de semelhante entre essas duas perspectivas ontológicas é que o mundo (e o espaço) não é uma entidade externa aos indivíduos, mas sim construído e composto por eles. É, portanto, uma perspectiva não-cartesiana.
Com essa abordagem ontológica do fenômeno espacial, podemos, na próxima camada deste trabalho científico, ser mais específicos e identificar outros elementos que sustentem nossas decisões. Além disso, o que também distingue a obra de Milton Santos e a torna relevante para nosso campo de estudo é a ênfase que ele dá às técnicas e aos objetos técnicos dentro de um contexto global. Segundo o autor, os objetos técnicos funcionam como verdadeiros “cavalos de Troia” (Santos, 1977d), pois infiltram-se nos países carregando consigo sua programação técnica.
Neste ponto, é crucial estabelecer uma distinção clara entre espaço e lugar, pois utilizaremos esses dois conceitos no decorrer do texto. O espaço deve ser considerado mais como uma categoria analítica e não deve ser confundido com cidades, estados, regiões ou países, ainda que esses também possam ser vistos como espaços. Por outro lado, quando nos referimos à categoria de lugar, estamos abordando as experiências vividas pelos indivíduos em sua forma mais tangível. Os lugares são onde a vida acontece, onde os indivíduos vivem.
Milton Santos afirma que a técnica tem importância central na geografia global (Santos, 1997). Essa importância é reforçada pela dinâmica global em que centros altamente industrializados no hemisfério norte, abundantes em técnicas, exportam essas técnicas para locais tecnologicamente menos avançados no hemisfério sul. Nesse processo, as intenções incorporadas aos objetos técnicos—já que toda técnica é um programa para ação (Santos, 2013)—juntamente com as próprias técnicas, geram ações nos países subdesenvolvidos. Consequentemente, essas nações acabam por importar técnicas e ações estrangeiras, pois não foram criadas e desenvolvidas em seus próprios territórios. Em espaços caracterizados como híbridos, enriquecidos por várias técnicas, especialmente em países do Sul, tende-se a privilegiar as técnicas da “razão”—predominantemente produzidas no Norte—em detrimento das técnicas da “emoção”, que são orgânicas do Sul (Santos, 1997). As técnicas “atrasadas” que persistem nesses locais são chamadas por Santos de “rugosidades”.
Santos às vezes é vago na definição de técnica. No entanto, é possível destacar em seus escritos que a técnica possui dimensões materiais e imateriais. Em sua dimensão material, as técnicas estão associadas aos objetos como forma-conteúdo, ou objetos técnicos. “Não mais se pode ver as formas como desprovidas da força de criar ou de determinar relacionamentos.” (Santos, 1997d, p. 33). Por outro lado, em sua dimensão imaterial, as técnicas também podem ser vistas como programas para ação, como mencionado anteriormente. Essa visão das técnicas é muito próxima da de Latour (1994, p. 61, tradução nossa), para quem “[a]s técnicas, aprendemos com os arqueólogos, são subprogramas articulados de ação que subsistem (no tempo) e se expandem (no espaço)”. Mesmo na antiguidade clássica, é possível perceber a ideia da téchne como uma entidade imaterial, como uma categoria de conhecimento.
Como mencionamos brevemente acima, segundo Milton Santos, as técnicas atuam como Cavalos de Troia em uma dinâmica global. Nesse contexto, há dois outros conceitos que, associados às técnicas, são muito úteis à nossa teorização: verticalidade e horizontalidade. Vejamos a perspectiva de Milton Santos sobre esses conceitos:
As segmentações e partições presentes no espaço sugerem, pelo menos, que se admitam dois recortes. De um lado, há extensões formadas de pontos que se agregam sem descontinuidade, como na definição tradicional de região. São as horizontalidades. De outro lado, há pontos no espaço que, separados uns dos outros, asseguram o funcionamento global da sociedade e da economia. São as verticalidades. O espaço se compõe de uns e de outros desses recortes, inseparavelmente. É a partir dessas novas subdivisões que devemos pensar novas categorias analíticas. (Santos, 1997, p. 225).
Portanto, ao abordar a análise de um fenômeno a partir da perspectiva dessas direcionalidades, buscamos discernir o local de origem das técnicas envolvidas. Por exemplo, o gosto cosmopolita cultivado em países subdesenvolvidos pode ser visto predominantemente como consequência das verticalidades. Isso é exemplificado por comunidades de motociclistas de Harley Davidson no Brasil ou pela disseminação de vídeos com “danças” feitas por moradores de comunidades rurais em redes sociais. Em contrapartida, práticas como iniciativas comunitárias de saúde encontradas em certas cidades e comunidades brasileiras pequenas, como identificamos em nosso estudo, podem ser predominantemente caracterizadas como resultado de uma partição horizontal do espaço, já que tais configurações seriam quase impraticáveis em locais marcados por alta densidade técnica e razão sistematizada, como os grandes centros urbanos.
Esses dois conceitos são, na teoria de Santos, o ápice de sua tentativa de compreender o fenômeno dos sistemas que impulsionam a configuração espacial nos países subdesenvolvidos. Em um artigo sobre economia urbana, Santos (1977/2017a) denominou esses dois subsistemas como superior e inferior. O autor ainda relata que anteriormente os nomeava, respectivamente, de moderno e tradicional. Mesmo que Santos tenha abandonado esses termos em suas obras mais recentes, acreditamos que eles nos ajudam a entender algumas nuances discutidas ao enquadrar verticalidades e horizontalidades no espaço.
Em outras palavras, as dinâmicas presentes em partições verticais de espaço em qualquer lugar do globo refletem, em grande parte, o Norte Global, que é tecnicamente mais denso do que o Sul. Consequentemente, Norte e Sul possuem temporalidades e “razões” diferentes (Santos, 1997, 1977/2017a). Enquanto o Norte é mais rápido e “racional”, o Sul é mais lento e “emocional”.
Assim, como mostramos na próxima seção, a teoria do geógrafo pode nos ajudar a identificar certas imposições ou resistências às técnicas nas dinâmicas do consumo. Isso só é possível porque a ontologia do autor pressupõe uma forma complexa de abordar a formação do espaço. Trabalhos anteriores, como os de Chatzidakis et al. (2018) e Giovanardi e Lucarelli (2018), já demonstraram a complexidade do espaço e suas subjetividades. Mesmo dentro do campo da geografia, há uma abordagem que trata os mercados como muito mais do que um mero espaço de troca de mercadorias (Cohen, 2018).
UMA CONCEITUALIZAÇÃO
Após a breve explicação sobre a “natureza” do espaço e com base nos trabalhos de Milton Santos, argumentamos que padrões distintos de consumo emergem conforme a presença das direcionalidades no espaço. Cada partição espacial possui uma composição única de seus elementos constitutivos: objetos, indivíduos e suas ações. Esses “recortes”, devido à sua heterogeneidade inerente, jamais são completamente verticais ou horizontais.
Afirmamos que, por estar inerentemente associado ao espaço e às suas direcionalidades, cada tipo de consumo reflete a direcionalidade com a qual está associado. Portanto, ao analisar um padrão de consumo ligado a uma partição do espaço predominantemente horizontal, nós o categorizamos como consumo solidário. Esse construto se refere à ideia de que dentro de uma partição horizontal do espaço existe uma forma de solidariedade (compreendida como conexões, em seu sentido miltoniano) que está associada a ações individuais “irracionais”, “inferiores” ou não-modernas. Essa forma orgânica de conexão se assemelha à noção de senso comum de “solidariedade”, uma forma “atrasada” de conexão. Por outro lado, a solidariedade “moderna” e urbana é tipicamente mediada por racionalidades, geralmente originárias do Norte Global.
Inversamente, ao examinar um padrão de consumo associado a uma partição predominantemente vertical do espaço, classificamos esse consumo como estrangeiro, uma vez que a prática em si é originária de lugares distantes. As conexões que que emergem deste tipo de partição são consideradas “racionais”, “superiores” ou modernas. Nesse contexto, ações individuais são amplamente influenciadas pelos centros de expertise técnica, como é o caso das corporações multinacionais. Como resultado, certas ações individuais ou relacionamentos tendem a parecer um pouco distantes, não-naturais ou estrangeiros.
No entanto, ao observarmos um padrão de consumo no qual a partição espacial associada não se encaixa muito bem nas duas categorias citadas acima, podemos nos referir a esse padrão como antropofágico. Este último construto é inspirado no Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que, em 1928, como parte do movimento modernista, incentivava artistas a absorver a cultura estrangeira, “digeri-la” e transformá-la em parte vital da criação artística predominantemente brasileira. Retomaremos essas categorias na seção de discussão. O Quadro 1 ilustra nossa conceitualização.
Resta agora confirmar a utilidade desses construtos em um cenário empírico. Nossa abordagem está alinhada com McInnis (2011), que enfatiza que “artigos que contribuem para a identificação nos fazem perceber o que estávamos deixando de ver” (p. 143, tradução nossa). Como indivíduos do Sul Global, estamos nos esquecendo do fato de que consumimos imposições? Estamos consumindo técnicas que não estão alinhadas à nossa realidade? Substituir o consumo estrangeiro por padrões mais solidários melhoraria nossas relações com outros indivíduos e com o espaço?
MÉTODO
Para ilustrar nossa conceitualização, selecionamos a Comunidade do Quilombo, situada na zona rural de Divinópolis, Minas Gerais, Brasil. Vale ressaltar que, apesar do nome, não se trata de uma comunidade quilombola. Segundo relatos orais, o nome da comunidade vem da existência de um antigo quilombo na região. Escolhemos esse local devido à recente introdução da internet banda larga em 2018, o que provocou mudanças significativas nos padrões de consumo da comunidade. Naquele ano, foi instalada uma torre de transmissão de internet via rádio, retransmitindo o sinal de um provedor localizado em uma cidade vizinha. Essa inovação foi fruto do esforço conjunto da associação comunitária e de empresas privadas. Não se tratava de um projeto gerido pelo governo, por exemplo. Antes da instalação dessa infraestrutura técnica, os moradores já possuíam smartphones, mas a conectividade era precária, muitas vezes exigindo que eles se deslocassem até campos abertos para obter sinal.
A partir do referencial ontoepistemológico que fundamenta nossa pesquisa nesse campo, empregamos métodos inspirados na etnografia para a coleta de dados (Belk & Casotti, 2014), incluindo observação participante e registro em diário de campo. Além disso, realizamos doze entrevistas em profundidade, com abordagens semiestruturadas e não estruturadas. A seleção dos entrevistados foi guiada pela amostragem teórica (Flick, 2004). Os perfis dos entrevistados são heterogêneos em termos de idade e relação com a comunidade.
O corpus da pesquisa consiste principalmente em doze entrevistas gravadas, totalizando 8 horas de gravações. Uma vez transcritas, essas entrevistas resultaram em 81 páginas e mais de 53 mil palavras. Além desse conjunto principal de dados, arquivamos 18 conversas do aplicativo WhatsApp, incluindo imagens, mensagens de áudio e textos trocados com informantes selecionados. Realizamos também sete visitas a campo entre 13 de setembro de 2021 e 21 de dezembro de 2022, com impressões registradas em um diário de campo em arquivo Word com 10 páginas e 4.224 palavras. Além disso, coletamos capturas de tela de redes sociais como Facebook e Instagram, com conversas, vídeos, imagens e textos criados por moradores e visitantes da comunidade. Por fim, arquivamos a página da Diocese de Divinópolis que contém um breve histórico da formação da Comunidade do Quilombo como comunidade rural.
Para explorar os dados, utilizamos a análise de discurso de linha francesa (Orlandi, 2005). O discurso nos é apresentado em sua materialidade (textos, notas etc.), mas não se reduz a ela. O discurso é o espaço onde os enunciados se relacionam entre si, atribuindo sentidos à realidade (Orlandi, 2005; Foucault, 2008). Ao explorar a materialidade dos discursos, podemos acessar a realidade e os significados presentes na vida dos indivíduos, iluminando como são construídos. Argumentamos que essa escolha metodológica nos permite acessar a camada de significados por trás da superfície da fala, tratando os textos como construções sociais. Essa visão está fortemente alinhada à nossa perspectiva ontoepistemológica não-cartesiana.
Para assegurar a qualidade e o rigor da análise, fizemos inicialmente quatro perguntas: (a) como abordar o corpus previamente? (b) como selecionar as categorias de análise? (c) quais são as falas que devem ser analisadas? (d) como transcender a análise de dados para um nível ontológico?
A solução para alcançar essa qualidade foi: (1) partir da materialidade do discurso (áudios e transcrições); (2) encontrar elementos semelhantes nas entrevistas para formar as categorias de análise; (3) identificar outros elementos que, embora não semelhantes, sejam relevantes para a pesquisa; (4) em cada categoria de análise, destacar partições de objetos e ações que ilustrem nosso referencial teórico; (5) selecionar as falas mais ilustrativas segundo nossos referenciais teóricos; (6) triangular a análise de discurso com outros materiais (notas de campo, fotos, conversas arquivadas etc.).
ANÁLISE E DISCUSSÃO
Enquanto explorávamos o corpus da pesquisa, emergiram três categorias analíticas, cada uma ilustrando nossa conceitualização. A primeira é denominada permeabilidade do espaço, a segunda foca na adaptabilidade e, por fim, introduzimos a categoria conhecida como uma nova temporalidade.
Permeabilidade do espaço
“Hoje em dia, se parar, fica pra trás, não pode parar, tem que acompanhar, né? O mundo invém trazendo as coisas então e, se parar, fica na beira do caminho.” (Seu Vaqueiro).
O que Seu Vaqueiro quer dizer com “fica pra trás” ou “na beira do caminho”? E sobre “o mundo invém trazendo as coisas”? Essa escolha lexical pode ser a chave para desbloquear uma perspectiva mais ampla. Dentro dessa perspectiva estão os elementos que nos ajudarão a ilustrar o conceito de permeabilidade do espaço e como pontos de permeabilidade no espaço facilitam o fluxo de técnicas.
Para alguém ficar “pra trás”, deve haver algo indo adiante. Mas o que está adiante? No mesmo trecho, Seu Vaqueiro oferece uma resposta, dizendo que “o mundo invém trazendo as coisas”. O “mundo” ao qual ele se refere parece ser uma entidade externa que está sempre avançando e exige acompanhamento; caso contrário, resta-lhe ficar à margem, “na beira do caminho”. Esse trecho foi uma resposta à pergunta sobre se ele gostava de ver a Comunidade do Quilombo conectada à internet. Após afirmar que sim, o informante expressa a sensação de estar à margem quando não consegue integrar plenamente o aparato técnico introduzido por esse “mundo externo” em sua vida cotidiana. Em essência, esse fragmento discursivo ilustra a relação entre um mundo mais lento (onde reside Seu Vaqueiro) e um mundo mais rápido que o ultrapassa.
Nesse hiato revelado pela análise de discurso, podemos explorar o universo miltoniano. O mundo externo que introduz técnicas concorrentes, deixando outras “pra trás”, representa a camada mais cosmopolita, densa e veloz do espaço. Técnicas originadas dessa camada carregam consigo certos tipos de ações, que geram novas configurações dentro da Comunidade do Quilombo. Durante nossas observações na casa de Seu Vaqueiro, notamos um dispositivo tecnológico instalado na sala de estar que aumentava a segurança de sua residência modesta. Essa imagem contrastava com a circunvizinha paisagem—uma categoria da análise miltoniana que se refere à configuração dos objetos. Seu Vaqueiro mencionou que o sistema foi sugerido por seu neto, que é eletricista. Assim, o sistema de segurança alterou a maneira como ele recebe visitas e interage com entregadores e transeuntes suspeitos. Para melhorar a comunicação com o avô, o neto criou pontos de permeabilidade no espaço e introduziu, de fato, novas técnicas e práticas. O primeiro autor anotou no diário de campo:
Era uma casa suntuosa, com um portão branco eletrônico de grade. Quando me aproximei do portão, alguns cães latiram para proteger a propriedade, fiquei meio reticente. Contudo, o portão da casa se destacava dos demais por haver um interfone com câmera e motor eletrônico. Quando chamei na casa, lembro de ter pensado: será que há um monitor dentro da casa? (notas do diário de campo).
É comum que os moradores da Comunidade do Quilombo transitem entre cidades próximas e, especialmente, até o centro urbano de Divinópolis. As crianças da comunidade podem frequentar o ensino fundamental em áreas rurais ao se matricularem na escola municipal da comunidade vizinha, chamada Comunidade do Choro. No entanto, para cursar o ensino médio, precisam ir aos bairros urbanos. Seja por educação, trabalho ou lazer, as pessoas se deslocam frequentemente entre o urbano e o rural. Além disso, há indivíduos considerados sitiantes, que possuem propriedades onde passam os fins de semana com a família. Esse movimento constante também estabelece pontos de permeabilidade dentro da comunidade, conectando-a ao “mundo externo” e facilitando a importação de técnicas. Consequentemente, o espaço da comunidade se torna povoado por objetos técnicos e informações originárias de espaços onde o tempo é vivido de forma diferente, gerando assim a sensação de ficar “pra trás”.
A chegada da internet, como argumentamos, aumentou significativamente a permeabilidade do espaço da comunidade. Recebemos relatos de novos hábitos, como assistir a séries na Netflix, por exemplo. Essa plataforma de streaming norte-americana oferece uma ampla gama de conteúdos audiovisuais, funcionando como outro meio de difusão estética entre espaços com diferentes níveis de densidade técnica.
Além da chegada da internet, outros elementos ligados à infraestrutura técnica emergiram da pesquisa de campo como catalisadores de permeabilidade entre diferentes enquadramentos espaciais. Informações coletadas com os moradores, corroboradas pelo site da Diocese de Divinópolis, indicam que a comunidade foi fundada majoritariamente por um patriarca, o Sr. Antônio Francisco Soares, e sua família. Por isso, há um certo grau de parentesco entre muitos moradores, o que explica por que mesmo entre alguns entrevistados observam-se características compartilhadas, como olhos azul-claros muito marcantes. Com o tempo, a outrora homogênea comunidade diversificou-se cultural e antropologicamente, tendo a infraestrutura técnica um papel fundamental nesse processo. As técnicas mais recentes convivem com as mais antigas.
“[O posto de saúde local] passaria despercebido por uma passada de carro despretensiosa [por causa de sua simplicidade]. O calçamento da rua termina um pouco antes de chegar ao posto e continua com uma terra batida e avermelhada.” (notas do diário de campo).
Sobre a evolução técnica da comunidade, vários entrevistados mencionaram que o asfaltamento da rodovia, a pouco mais de um quilômetro dali, trouxe certos benefícios, incluindo o acesso facilitado à área urbana, embora também tenha gerado preocupações com a segurança. Além disso, a chegada da energia elétrica foi destacada como um marco importante na história da comunidade e em seu desenvolvimento. A internet representa a adição mais recente a essa série de avanços técnicos ao longo da história da Comunidade do Quilombo. Esse conjunto de técnicas, importadas ou não, tem desempenhado papel crucial em tornar o espaço mais permeável a diferentes formas de influência e a novos moradores. Alguns relatos indicam, inclusive, um fluxo recente de pessoas oriundas da região norte do estado de Minas Gerais.
Embora a introdução de infraestrutura técnica, como estradas pavimentadas, asfalto nas proximidades, eletricidade e internet, tenha sem dúvida aumentado a permeabilidade do espaço, os moradores ainda se referem ao local como “roça”. Por exemplo, como o entrevistado Danilo Pedro afirmou: “o Quilombo é roça que já não pode mais ser chamada de roça”. Esse sentimento é bastante ilustrativo, pois reflete a percepção dos moradores de que não pertencem completamente ao centro urbano, apesar da presença de muitas comodidades técnicas atualmente. É como se desfrutassem simultaneamente do melhor da “roça” e da “cidade”. Vale destacar que uma comunidade vizinha, a Comunidade do Choro, perdeu essa característica distintiva que a do Quilombo mantém. O entrevistado Renato chegou a comentar: “lá virou bairro demais e casa demais. É ruim a gente falar, mas parecendo mais ser uma favelinha”.
O sentimento de distanciamento do centro urbano e de pertencimento ao campo está fortemente ligado à configuração dos objetos no espaço. Assim, uma comunidade rural pode usufruir de certas comodidades técnicas sem perder sua essência rural. Vários fatores podem facilitar essa coexistência, como o espaçamento entre as casas, a presença de matas e vegetação, o posicionamento dos sítios entre as moradias e a ausência de asfalto no centro da comunidade. É crucial enfatizar que os significados atribuídos aos objetos não são exclusivamente produto da mente humana nem dos próprios objetos. Essa observação também reforça a importância do método de análise de discurso que utilizamos.
Embora existam, de fato, múltiplos pontos de permeabilidade na Comunidade do Quilombo, eles ainda não foram suficientes para transformar a área em apenas mais um bairro urbano de Divinópolis, como aparentemente ocorreu com a comunidade vizinha. O trecho a seguir ilustra que ainda existem diversos aspectos impermeáveis nesse espaço: “Essa é a parte boa de não ter iFood, que a gente come arroz com feijão, mais saudável.” (Lúcia).
Lúcia, que reside em uma área urbana para facilitar os estudos, afirmou que uma das coisas de que mais sente falta ao voltar para a comunidade é do aplicativo iFood. No apartamento que divide com uma colega de faculdade, ela adquiriu o hábito de pedir lanches por meio desses apps. Assim, apesar da presença de vários pontos de permeabilidade, o espaço da Comunidade do Quilombo ainda não é altamente permeável.
Adaptabilidade e estratégias
Iniciamos esta seção com um trecho bastante ilustrativo:
“Alguns pontos dá sinal, mas é muito instável. Por exemplo, se eu chegar ali na praça, no rumo de uma arvorezinha, o telefone dá 4G, entendeu? Mas se eu sair dali pra mim ligar eu tenho que ficar no viva voz pra conversar uma conversa assim normal, porque se eu colocar no ouvido a ligação já cai, aí você tem que ficar com ele aqui pertinho assim, não pode tremer, não pode mexer, não pode fazer nada. Aí você liga e consegue. Eu tenho Wi-Fi na minha casa. Então quando eu tenho que resolver alguma coisa eu resolvo em casa e já saio. Aí quando as pessoas precisam de me mandar mensagem eu só recebo quando eu tenho acesso à internet”. (Tamara).
É essa a adaptabilidade à qual nos referimos. Nesse contexto, diversos entrevistados relataram as dificuldades enfrentadas e descreveram as estratégias que adotam para contornar as deficiências da infraestrutura técnica da Comunidade do Quilombo. Esse fragmento discursivo, quando analisado como uma via de compreensão da realidade da comunidade, revela suas características de espaço híbrido, um lugar onde horizontalidades e verticalidades estão entrelaçadas e, por conta disso, os indivíduos precisam criar estratégias adaptativas para melhorar suas vidas em um cruzamento entre dois circuitos distintos: o vertical e o horizontal. A seleção lexical “quando eu tenho que resolver alguma coisa eu resolvo em casa e já saio”, demonstra uma rotina estruturada dentro de estratégias complexas e específicas desenvolvidas pela entrevistada. Os entrevistados desenvolveram estratégias bem definidas para desempenhar suas atividades, especialmente quando muitas das mensagens enviadas a partir de casa têm objetivos profissionais. Em outras palavras, existe uma disparidade perceptível entre o potencial oferecido pelas técnicas disponíveis e os objetos técnicos já presentes com os moradores da comunidade, e a infraestrutura efetivamente existente no local.
A entrevistada Tamara também mencionou que, quando vai a uma comunidade vizinha para trabalhar, ela já tem salvas no celular as senhas das redes Wi-Fi dos moradores:
“Eu acho que eu tenho a senha de todo mundo lá. Então, tipo assim, quando eu chego lá meu telefone já tá vibrando. Porque fica captando Wi-Fi. Eu saio de um e pego o Wi-Fi de outro, e fica captando.” (Tamara).
Esse uso da adaptabilidade exemplifica a naturalização de estratégias para driblar a falta de infraestrutura técnica no local. Por exemplo, em um centro urbano, não seria necessário ter salvas no celular as senhas de Wi-Fi de vários moradores do bairro. Dentro da prática de comunicação via mensagens em um centro urbano, tal estratégia seria desnecessária. No entanto, há um pequeno deslocamento e adaptação na prática da troca de mensagens quando ela ocorre em um lugar como a Comunidade do Quilombo.
Uma das informantes também discutiu suas estratégias de uso da internet em áreas rurais. Contudo, durante a entrevista em que foi debatida a diferença entre a comunidade e o centro urbano de Divinópolis, ela fez a seguinte afirmação:
“Eu acho que se não tivesse internet aqui [na Comunidade do Quilombo] eu tava morando lá [em Divinópolis]. Por causa de facilidade. Tudo que eu faço hoje eu preciso de internet.” (Andreia).
Se o espaço da Comunidade do Quilombo fosse impermeável às camadas de espaço com maior densidade técnica, Andreia seria obrigada a se mudar para o centro urbano. Dessa forma, a adaptabilidade cria pontos de permeabilidade no espaço e oferece aos moradores estratégias para não ficarem “pra trás” no tempo. A entrevistada Andreia e outros informantes destacam a tranquilidade da comunidade e dizem que, por essa razão, preferem o local em detrimento da área urbana de Divinópolis. A adaptabilidade, ao criar pontos de permeabilidade, também ajuda a manter a Comunidade do Quilombo atrativa em relação ao espaço urbano.
O fragmento discursivo a seguir complementa o anterior ao demonstrar que a adaptabilidade, ao criar permeabilidades no espaço, contribui para que a comunidade permaneça atrativa aos moradores:
“Porque antes aqui era uma roça, roça mesmo. Não tinha lazer, não tinha nada... Hoje você já consegue acessibilidade mais fácil pra isso. Antes aqui era roça. Hoje não. Hoje o Quilombo não pode falar assim. É uma roça que não é roça. A gente tem internet fibra ótica. Tem posto de saúde ali com atendimento com coisas mais simples, muito bom. Tem açougue, tem bar, tem lanchonete, tem tudo. Então imagina isso há 25 anos atrás. Não tinha. Tinha uma vendinha ali só... Só vendia pinga e cerveja... Aí foi evoluindo e a comunidade evoluiu com o processo de evolução do mundo.” (Danilo Pedro).
A seleção lexical “a comunidade evoluiu com o processo de evolução do mundo” serviria perfeitamente para ilustrar a seção anterior sobre permeabilidade do espaço. A decisão de utilizar esse fragmento aqui se deve à sua capacidade de complementar o trecho da entrevistada Andreia, reforçando a ideia de que as inovações técnicas que chegaram à comunidade podem tornar o espaço mais atrativo aos moradores. O termo “gambiarra”, usado por outro informante, Lucas, também pode ser visto como o resultado material de uma série de estratégias adaptativas. Essa estratégia teleológica está relacionada ao desejo e esforço de manter o espaço comunitário ao mesmo tempo agradável e funcional, preservando a tranquilidade do ambiente rural junto a alguns elementos do meio urbano.
Uma nova temporalidade
Como mencionamos anteriormente, horizontalidades e verticalidades possuem temporalidades e racionalidades distintas. Consequentemente, um novo aparato técnico de comunicação em qualquer tipo de espaço altera suas dinâmicas. Outro elemento que emergiu em todas as entrevistas foi a dinâmica da comunicação facilitada pelo uso do aplicativo WhatsApp.
“[...] hoje você fica sabendo da fofoca instantaneamente. E antes você tinha que ir no boteco pra buscar ela.” (Lucas).
A chegada da internet à comunidade trouxe uma experiência temporal distinta. No caso do trecho discursivo acima, há uma nova forma de perceber o tempo em relação à comunicação interna na comunidade. Para Lucas, a demarcação entre o “hoje” e o “antes” é justamente a introdução da internet. O advérbio “instantaneamente” possui relevância, pois evidencia a nova orientação temporal do entrevistado após o uso da internet, sendo compreendido apenas em contraste com o “antes”. Esse termo não deve ser interpretado de forma literal. Afinal, será que Lucas realmente recebe a fofoca instantaneamente? E quanto ao tempo entre enviar, receber e ler uma mensagem? No contexto da Comunidade do Quilombo, a chegada da nova tecnologia proporcionou o surgimento de uma nova temporalidade.
O leitor pode se perguntar o que torna o caso da Comunidade do Quilombo diferente, já que qualquer introdução tecnológica pode alterar as dinâmicas temporais de um espaço. A principal distinção está na enorme lacuna entre densidades técnicas que cada um dos dois subsistemas (vertical e horizontal). Em áreas cosmopolitas, a inovação tecnológica tende a se integrar mais suavemente ao sistema técnico existente, obedecendo com maior facilidade aos centros de comando (Santos, 2013). Por outro lado, no caso da Comunidade do Quilombo, como observamos, a adaptação à infraestrutura técnica local exige adaptabilidade, dada sua menor densidade tecnológica. Consequentemente, a transição de uma temporalidade para outra dentro da comunidade ocorre de forma abrupta e é mais perceptível.
Por essa razão, a rugosidade (técnicas “atrasadas”) do espaço persiste—e o grupo do WhatsApp por si só não é capaz de eliminá-la:
[...] “tem um grupo que é da questão da segurança, que chama base comunitária rural, que é da Polícia Militar, que faz aquela rede de vizinhos protegidos. A gente comunica. Tem um sinal, que um vizinho pode emitir, que é um sinal sonoro, tipo uma corneta que tem o número de vezes que a gente tem que entender que tá passando por uma dificuldade que precisa de um tipo de ajuda. Aí o outro vizinho conecta a polícia. Se estiver acontecendo um assalto na minha casa, por esse sinal sonoro o vizinho consegue acionar a polícia sem o ladrão perceber [...] e a comunidade toda se mobiliza pelo WhatsApp até a chegada da polícia.” (Lucas).
Perceba que a comunidade desenvolveu uma estratégia híbrida de autoproteção. Ao mesmo tempo que utiliza o grupo no WhatsApp para alertar os vizinhos sobre questões de segurança, ela também recorre a um dispositivo “rudimentar”—uma buzina de gás—como parte de seu sistema de vigilância. Este é um exemplo claro de como técnicas distintas coexistem e se organizam no mesmo espaço. A buzina representa uma rugosidade, um resíduo técnico no espaço. Ainda assim, a estratégia de proteção adotada pela comunidade busca maximizar o número de ações em menor tempo possível, graças ao acesso à internet.
A popularização da internet e dos smartphones consolidou essa nova prática de vigilância, convivendo com objetos herdados de práticas anteriores. Essa nova prática, no contexto das temporalidades, opera em um ritmo mais acelerado, diminuindo o tempo de resposta em caso de incidentes policiais. Cada técnica, espaço e prática tem sua própria dimensão temporal, coexistindo dentro daquele lugar.
A nova temporalidade introduzida pelo fluxo de informações entre os moradores tornou a vida mais conveniente. Nesse sentido, considere o seguinte fragmento:
“Uai, eu tenho um negócio pra resolver, igual essa pinga que eu tenho de Cláudio [uma cidade próxima]. Eu vou buscar em Divinópolis. Se eu chegar lá e a mulher não tiver lá pra me vender a pinga, eu perco a viagem. Eu faço outras coisas, mas eu perdi a minha pinga. Eu [hoje] já pego aqui [o smartphone], mando uma mensagem pra ela [...]. Imagina uma viagem de caminhonete ou de carro daqui em Divinópolis, lá no bairro São José.” (Renato).
As mensagens trocadas entre os moradores ajudam a coordenar atividades do cotidiano. Ao fazer isso, eles experimentam uma nova temporalidade, evidenciando como o ajuste das atividades está ligado à maneira como os indivíduos percebem o tempo. Como fica claro no trecho acima, o entrevistado já adaptou sua rotina e a organização de suas atividades, reconhecendo que qualquer desalinhamento pode gerar uma “perda”, como ele afirma: “se eu chegar lá e a mulher não tiver lá pra me vender a pinga, eu perco a viagem”. Será que essa noção de “perder”, nesse contexto, existia antes de Renato começar a usar o WhatsApp?
Não é possível contemplar uma nova experiência do tempo sem considerar a influência de objetos, técnicas, paisagens, configurações materiais e ações dos indivíduos, que contemplam aspectos físicos e mecanismos imateriais. Além disso, o conceito de tempo pode ser “acelerado” pela capacidade do espaço de acolher elementos “estrangeiros” oriundos de camadas cosmopolitas que têm pontos de contato com áreas globais altamente tecnológicas.
Discussão: endossando a conceitualização
Agora que a análise do discurso demonstrou a força de algumas das dinâmicas que discutimos anteriormente em nosso referencial teórico, como as dinâmicas das técnicas nos lugares, suas conexões com verticalidades e horizontalidades e como o espaço—com seus objetos e ações—responde a isso, podemos avançar na análise do consumo, seus contextos e padrões. O próximo passo é endossar nossa conceitualização.
Para cada uma das categorias de análise discutidas anteriormente, temos exemplos de consumo de internet. No primeiro caso, vimos como o consumo da internet abriu pontos de permeabilidade no espaço. Em segundo lugar, discutimos as estratégias dos indivíduos para consumir internet diante da escassez de técnicas na Comunidade do Quilombo. Em terceiro lugar, analisamos como o consumo da internet levou a comunidade a vivenciar uma nova temporalidade.
Como argumentamos, o consumo está associado à partição específica do espaço onde ocorre. Para explorar e ilustrar o consumo e suas dinâmicas no contexto das partições espaciais—sejam elas verticais ou horizontais—, escolhemos três práticas existentes na Comunidade do Quilombo: o monitoramento comunitário de saúde, a vigilância comunitária e o uso de redes sociais para lazer e entretenimento (veja o Quadro 2).
As linhas divisórias entre partições verticais e horizontais do espaço não são absolutamente rígidas (Santos, 2017a). No entanto, é necessário estabelecer alguns parâmetros para manipular os construtos separadamente. Nós alcançamos isso observando as origens das técnicas e dos objetos técnicos presentes nos quadros de análise. Por exemplo, na prática de monitoramento comunitário de saúde, os agentes de saúde oferecem um cuidado ativo ao monitorar pacientes, agendar consultas ou, como no caso da pandemia de COVID-19, organizar a fila de vacinação. Esse acompanhamento individualizado e efetivamente solidário seria difícil de implementar em áreas urbanas extremamente densas. Essa horizontalidade, portanto, é orgânica ao local da Comunidade do Quilombo e resiste às imposições verticais das técnicas de gestão da saúde pública. Nesse caso, o consumo da internet é classificado como solidário.
Por outro lado, o uso das redes sociais para lazer e entretenimento é predominantemente vertical, e o consumo de dados da internet, nesse caso, é estrangeiro. Em nossos arquivos e observações nas redes sociais, vimos uma série de atividades com gosto cosmopolita, como a publicação de vídeos curtos com danças do TikTok. As imagens que arquivamos ilustram bem o caráter híbrido do espaço, atravessado por verticalidades e horizontalidades, um espaço repleto de rugosidades e técnicas avançadas. A prática de uso das redes sociais para lazer é essencialmente vertical e, quando chega ao espaço, se “mistura” com certas horizontalidades. Imagine, caro leitor, um usuário do Instagram dançando uma coreografia de gosto urbano e cosmopolita tendo, ao fundo, um pasto compondo a cena. Obviamente, esse tipo de uso da internet e das redes sociais não foi criado no local.
Na Comunidade do Quilombo, a prática de vigilância comunitária não tem uma direcionalidade predominante, pois tanto o senso de comunidade rural quanto o sentimento de insegurança oriundo das áreas urbanas foram determinantes para sua conformação no lugar. Portanto, o consumo de internet associado a essa prática pode ser categorizado como antropofágico. Essa prática envolve diversos elementos, incluindo técnicas modernas, como o uso do WhatsApp, e métodos tradicionais, como alertar os vizinhos com uma buzina de gás. É uma prática complexa que utiliza ferramentas técnicas e os fortes laços sociais entre os moradores. Por conhecerem a rotina do bairro, os moradores conseguem identificar com facilidade qualquer movimentação incomum. Diferentemente das partições anteriores, que classificamos como verticais ou horizontais, esta é mais fluida e variada, dificultando uma rotulação definitiva. Assim, categorizamos sua direcionalidade como indiferenciada.
Ao utilizar o termo “solidário” para caracterizar o tipo de consumo encontrado na pesquisa, não podemos transpor o significado comum do termo diretamente para esse contexto. Na criação do construto “solidário”, referimo-nos, dentro do contexto da pesquisa, a uma derivação do que circula nos circuitos horizontais do espaço. O mesmo se aplica ao termo “estrangeiro”, que se refere ao que deriva das verticalidades. Ao escolhermos esses termos lexicais, tínhamos ciência do potencial viés de senso comum. Por exemplo, seria um equívoco pensar que a solidariedade (como a conhecemos no senso comum) só existe em partições horizontais do espaço.
Ao final desta seção, queremos resumir o que observamos na Comunidade do Quilombo através da lente da teoria de Milton Santos. Aqui mostramos como as três categorias encontradas em campo (permeabilidade, adaptabilidade e temporalidade) contribuíram para a criação dos três padrões de consumo que utilizamos como exemplos para ilustrar nosso referencial teórico. A materialidade que chegou à comunidade em 2018 criou a principal permeabilidade no espaço, abrindo aos moradores a oportunidade de conexão à internet. Através de sua adaptabilidade, os moradores acomodaram essas técnicas no local. Em alguns casos, criaram novas práticas; em outros, transformaram práticas anteriores. O telos primordial que guiou essa acomodação foi o desejo por uma nova temporalidade para melhorar a qualidade de vida.
As práticas de monitoramento de saúde e de vigilância comunitária, na visão dos entrevistados, melhoraram muito com os novos objetos técnicos e o uso da internet após 2018, porque “a internet interliga mais rápido essas pessoas” (Lucas). No caso do consumo de internet para acessar redes sociais e aplicativos de lazer e entretenimento, trata-se de uma adoção de técnicas externas, revelando uma partição do espaço que é mera verticalidade—e, portanto, consumo estrangeiro. Assim, no nosso caso, quando o consumo está associado ao desejo dos indivíduos de transformar técnicas tradicionais para melhorar suas vidas, ele tende a ser solidário ou antropofágico.
Vale destacar que os moradores da Comunidade do Quilombo valorizam, em geral, o consumo da internet. Em nossas entrevistas e observações, as reclamações quanto ao uso de smartphones foram apenas residuais e dirigidas, principalmente, ao consumo estrangeiro, quando os entrevistados mencionavam amigos ou conhecidos que usavam excessivamente as redes sociais e as telas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A obra de Milton Santos lança luz sobre as dinâmicas globais de poder entre os lugares que mandam e os lugares que fazem. De acordo com sua análise, o Norte Global e as empresas multinacionais impõem técnicas aos lugares dos países subdesenvolvidos. Esse fenômeno cria, nos espaços do Sul Global, partições verticais ligadas aos centros de comando do Norte. Essas verticalidades coexistem com horizontalidades, que são partições do espaço mais contíguas e orgânicas. Como pesquisadores do campo do consumo, nossa análise conclui com a descoberta do papel que os padrões de consumo exercem dentro das partições do espaço. Os consumos solidário, antropofágico e estrangeiro estão ligados, respectivamente, às partições horizontais, indiferenciadas e verticais do espaço.
O que descobrimos em nosso campo de pesquisa é que a acomodação das técnicas importadas foi motivada pela busca por uma nova temporalidade, a fim de melhorar a vida cotidiana da comunidade. Essa acomodação foi seguida por estratégias adaptativas realizadas pelos moradores, pois havia um descompasso entre as técnicas já existentes no lugar e as recém-chegadas. Em alguns casos, essa acomodação não alterou significativamente a direcionalidade da partição do espaço, que permaneceu horizontal. Em outros, a partição tornou-se híbrida. No primeiro caso, o consumo associado é solidário; no segundo, antropofágico. O padrão de consumo é estrangeiro quando associado a uma verticalidade, como é o caso do uso das redes sociais para lazer e entretenimento.
Como pesquisadores do Sul Global, consideramos de suma importância investigar se os consumos que estamos analisando estão conectados a centros de comando do Norte ou se as ações dos consumidores em nossa pesquisa são atos solidários, conscientes ou inconscientes de resistência, ou mera imitação de um gosto cosmopolita. Basta observar as práticas de monitoramento de saúde na Comunidade do Quilombo e como o consumo solidário da internet melhorou a qualidade de vida dos moradores. Quando perguntamos aos entrevistados sobre os benefícios da internet para a comunidade, raramente mencionavam o uso de redes sociais ou de aplicativos. O principal benefício, aos olhos dos entrevistados, foi o aperfeiçoamento das práticas de monitoramento de saúde e de vigilância, que evoluíram desde 2018 com a incorporação de novas técnicas.
Além disso, acreditamos que essa discussão pode contribuir para refletir sobre práticas empresariais de forma mais crítica. Como podemos preservar práticas horizontais de organizações que resistem em determinados lugares por meio de um padrão de consumo solidário? Que estratégias podemos adotar para evitar que as imposições das escolas de negócios apaguem as relações autênticas praticadas por pequenos negócios, que resistem às doutrinas das escolas de administração? Além disso, como as organizações da sociedade civil, como no caso investigado por Lacerda (2021) na favela da Papua, no Rio de Janeiro, podem resistir às imposições das verticalidades e manter sua gestão orgânica?
Para operacionalizar esta pesquisa, optamos por focar em uma pequena área rural, ainda que soubéssemos da existência de outras comunidades semelhantes em Divinópolis e em outras cidades. Essa decisão nos permitiu restringir o campo empírico para demonstrar nossa conceitualização. No entanto, incentivamos outros pesquisadores a explorarem campos semelhantes ou até mesmo espaços urbanos para investigações futuras.
A obra de Milton Santos é vasta, e neste artigo utilizamos apenas uma parte dela. Encorajamos outros pesquisadores a explorarem o rico universo miltoniano, seja para aprofundar nossos achados, seja para corrigir eventuais equívocos. Como pesquisadores do Sul Global, ter um referencial que nos ajude a abordar nossos desafios específicos é uma das razões pelas quais enfatizamos a importância deste trabalho, potencialmente estabelecendo um proeminente nicho de pesquisa.
Agradecimentos
Os autores agradecem o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)
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[Versão traduzida]
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
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PARECERISTAS
Ana Carolina Soares Oliveira (Instituto Federal do Sul de Minas, Inconfidentes / MG - Brasil)
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PARECERISTAS
Eloy Eros Silva Nogueira (Universidade Positivo, Curitiba / PR - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5234-496X
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PARECERISTAS
Filipe Cabacine Lopes Machado (Universidade Federal do Espírito Santo. Vitória/ ES - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6152-6079
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RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES
O relatório de revisão por pares está disponível neste link: https://periodicos.fgv.br/rap/article/view/94673
Editado por
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EDITOR-CHEFE
Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
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EDITOR-ADJUNTO
Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127
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Fonte: Elaborado pelos autores.
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