RESUMO
Objetivo: Analisar a relação entre características sociodemográficas e clínicas e o declínio da mobilidade física de idosos hospitalizados.
Método: Estudo transversal analítico conduzido em enfermarias de um hospital público do Sul do Brasil, com amostra probabilística de 547 idosos, entre março de 2022 e julho de 2023. Aplicouse questionário com variáveis sociodemográficas, morbidades, fragilidade física, delirium (Confusion Assessment Method) e mobilidade física (Perme Escore). Utilizouse estatística descritiva e modelos lineares múltiplos para verificar associações entre as variáveis independentes e o Perme Escore, adotando-se significância de 5%. As análises foram realizadas no R 4.2.2.
Resultados: O declínio da mobilidade associou-se à idade entre 70 e 80 anos (p=0,007) e >80 anos (p<0,001), viuvez (p=0,005), fragilidade física (p<0,001), demência (p<0,001), delirium (p<0,001), câncer (p=0,041) e esquizofrenia (p=0,045).
Conclusão: O declínio da mobilidade relaciona-se ao envelhecimento e a fatores modificáveis, cujo gerenciamento durante a hospitalização pode prevenir ou atenuar a perda funcional em idosos.
DESCRITORES:
Características da População; Idoso Fragilizado; Pacientes Internados; Deambulação Precoce; Limitação da Mobilidade
HIGHLIGHTS
1. Aumento da idade está relacionado à diminuição da mobilidade.
2. Mobilidade reduzida associou-se à fragilidade e delirium, variáveis modificáveis.
3. Avaliação e mobilização precoce otimizam o cuidado ao idoso hospitalizado.
4. Perme Escore pode identificar fatores associados à mobilidade em enfermarias.
ABSTRACT
Objective: To analyze the relationship between sociodemographic/clinical characteristics and physical mobility decline in hospitalized aged individuals.
Method: A cross-sectional analytical study conducted between March 2022 and July 2023 with a probability sample comprised by 547 aged individuals at wards from a public hospital in southern Brazil. A questionnaire with sociodemographic variables, morbidities, physical frailty, delirium (Confusion Assessment Method) and physical mobility (Perme Score) was applied. Descriptive statistics and multiple linear models were used to verify associations between the independent variables and the Perme Score, adopting 5% significance. All the analyses were performed in R 4.2.2.
Results: Mobility decline was associated with age between 70 and 80 years old (p=0.007) and >80 years old (p<0.001), widowhood (p=0.005), physical frailty (p<0.001), dementia (p<0.001), delirium (p<0.001), cancer (p=0.041) and schizophrenia (p=0.045).
Conclusion: Mobility decline is related to aging and to modifiable factors, whose management during hospitalization can prevent or attenuate functional losses in aged individuals.
DESCRIPTORS:
Population Characteristics; Frail Elderly; Inpatients; Early Ambulation; Mobility Limitation
HIGHLIGHTS
Advanced age is related to reduced mobility.
Reduced mobility was associated with frailty and delirium, which are modifiable variables.
Early evaluation and mobilization optimize the care provided to hospitalized aged individuals.
The Perme Score can identify factors associated with mobility in wards.
RESUMEN
Objetivo: Analizar la relación entre las características sociodemográficas y clínicas y la disminución de la movilidad física de adultos mayores hospitalizados.
Método: Se realizó un estudio transversal analítico en salas de internación de un hospital público del sur de Brasil, con una muestra probabilística de 547 adultos mayores, entre marzo de 2022 y julio de 2023. Se aplicó un cuestionario con variables sociodemográficas, morbilidades, fragilidad física, delirio (Confusion Assesment Method) y movilidad física (Perme Score). Se utilizaron estadísticas descriptivas y modelos lineales múltiples para verificar las asociaciones entre las variables independientes y la Escala Perme, adoptando un nivel de significancia del 5%. Los análisis se realizaron con el programa R 4.2.2.
Resultados: La disminución de la movilidad se asoció con la edad entre 70 y 80 años (p=0,007) y >80 años (p<0,001), viudez (p=0,005), fragilidad física (p<0,001), demencia (p<0,001), delirio (p< 0,001), cáncer (p=0,041) y esquizofrenia (p=0,045).
Conclusión: La disminución de la movilidad está relacionada con el envejecimiento y factores modificables, cuyo manejo durante la hospitalización puede prevenir o mitigar la pérdida funcional en los adultos mayores.
DESCRIPTORES:
Características de la Población; Anciano Frágil; Pacientes Internos; Ambulación Precoz; Limitación de la Movilidad
HIGHLIGHTS
1. El aumento de la edad está relacionado con una disminución de la movilidad.
2. La movilidad reducida se asoció con fragilidad y delirio, ambas variables modificables.
3. La evaluación temprana y la movilización optimizan la atención de adultos mayores hospitalizados.
4. La Escala Perme puede identificar factores asociados con la movilidad en las salas de internamiento.
INTRODUÇÃO
O envelhecimento saudável é definido como o processo de desenvolvimento e manutenção da capacidade funcional que sustenta o bem-estar na velhice1. Entre os componentes centrais dessa capacidade, a mobilidade física destaca-se por possibilitar autonomia, independência e participação social2. O declínio da mobilidade tende a aumentar com a idade, resultado de mecanismos multifatoriais que envolvem alterações fisiológicas do envelhecimento, presença de doenças crônicas e fatores ambientais3. Estima-se que limitações de mobilidade afetem cerca de um terço das pessoas com 70 anos ou mais de idade e a maioria daquelas acima de 85 anos4. No Brasil, dados nacionais indicaram prevalência de 15%, chegando a 24% entre indivíduos maiores de 70 anos de idade5.
Estudos populacionais reforçam que o declínio da mobilidade resulta da interação entre condições clínicas e determinantes socioeconômicos. O Estudo Saúde, Bem-Estar e Envelhecimento, SABE, conduzido em São Paulo, evidenciou que pessoas idosas com histórico de acidente vascular encefálico exibiram 43% maior prevalência de mobilidade reduzida (RP 1,43; IC95% 1,29–1,58), enquanto aqueles acometidos por doenças osteoarticulares apresentaram prevalência 35% mais alta (RP 1,35; IC95% 1,23–1,49). A insuficiência de renda mostrou-se também associada a um incremento de 17% na prevalência dessa condição (RP 1,17; IC95% 1,07–1,28)6. Tais achados corroboram a literatura atual, que evidencia a redução da mobilidade física como complicação frequente em pessoas idosas hospitalizados. Uma meta-análise envolvendo 7.375 idosos estimou a prevalência combinada de incapacidade associada à hospitalização em 30% (IC95% 24–33%; p<0,001), destacando a relevância clínica desse fenômeno para a população idosa hospitalizada7.
Embora existam estudos de base populacional e revisões sobre limitação da mobilidade em pessoas idosas, poucas pesquisas descrevem as combinações de fatores clínicos e funcionais nessa população em instituições públicas brasileiras, ambiente no qual o perfil de morbidade, a organização do cuidado e a exposição a medidas de restrição e repouso são específicos. Além disso, poucos estudos nacionais utilizaram instrumentos abrangentes que avaliassem simultaneamente componentes intrínsecos e extrínsecos da mobilidade no contexto hospitalar. Nesse sentido, a aplicação do Perme Escore, originalmente desenvolvido para terapia intensiva, mas capaz de captar barreiras ambientais relevantes em enfermarias, pode ampliar a capacidade de identificação precoce de risco funcional e orientar estratégias de mobilização.
Frente ao exposto, este estudo tem como objetivo analisar a relação entre as características sociodemográficas e clínicas e o declínio da mobilidade física de idosos hospitalizados.
MÉTODO
O presente estudo caracteriza-se pelo delineamento transversal analítico e foi elaborado seguindo as diretrizes do instrumento STrengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE)8.
O estudo foi conduzido na cidade de Curitiba, capital do estado do Paraná, localizada na região Sul do Brasil. Com uma população estimada em 1.829.225 habitantes, Curitiba ocupa a oitava posição entre as cidades mais populosas do país e apresenta a maior densidade demográfica na região Sul. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 322.000 residentes têm 60 anos ou mais, representando 18% da população local. As projeções demográficas do IBGE indicam que, até 2030, esse percentual deverá alcançar 21,90%, superando a média nacional prevista de 18,73%. Esses indicadores evidenciam o processo de envelhecimento populacional em curso no município, em consonância com as tendências observadas tanto no contexto nacional quanto internacional9.
O estudo foi realizado nas enfermarias clínicas e cirúrgicas de um hospital que atende exclusivamente o Sistema Unico de Saúde (SUS) especializado no atendimento à pessoa idosa. O hospital oferece ao SUS 145 leitos, sendo 30 leitos em Centro de Terapia Intensiva, seis leitos em Unidade de Observação e 109 leitos em Unidades de Internamento. Atua nas áreas de média complexidade, nos cenários ambulatorial e hospitalar.
Os critérios de inclusão foram: ter idade igual ou superior a 60 anos; estar hospitalizado para tratamento clínico ou cirúrgico nas enfermarias e ter a mobilidade física avaliada nas primeiras 48 horas de hospitalização. Embora a escala tenha sido originalmente desenvolvida para utilização em unidades de terapia intensiva, optouse por aplicá-la nas enfermarias clínicas e cirúrgicas, considerando tanto o crescente declínio de mobilidade observado na população idosa hospitalizada quanto a relevância da mobilização precoce para o processo de recuperação funcional. Essa decisão metodológica permitiu avaliar de forma sistemática os fatores relacionados ao risco de limitação de mobilidade no contexto das internações clínicas e cirúrgicas, onde tais alterações são frequentes e impactam diretamente a evolução do paciente.
Os critérios de exclusão foram: instabilidade clínica que impossibilitasse a aplicação dos testes, indicação de transferência para Unidade de Terapia Intensiva e situação de precaução para gotículas ou aerossóis. Não houve exclusões relacionadas ao Perme Escore, apenas aos critérios clínicos mencionados.
A amostra foi do tipo probabilística com método de amostragem aleatória simples. Utilizou-se o cálculo amostral para população de tamanho conhecido, referente ao banco de dados do estudo matriz “Fragilidade física e os desfechos clínicos, funcionais, psicossociais, nutricionais e na demanda de cuidados em idosos hospitalizados”. Fixouse o nível de confiança em 95% e erro amostral em 5%. Assim, considerados os valores para cada parâmetro, obteve-se o tamanho amostral mínimo de 352 indivíduos. Neste estudo, optou-se por ampliar o tamanho da amostra, a fim de diminuir o erro amostral, totalizando 547 indivíduos.
Previamente à coleta de dados e com o intuito de padronizar a execução e minimizar vieses de coleta, treinamentos teóricos e práticos foram realizados com os examinadores membros do grupo de pesquisa, constituído por discentes de graduação, residência multiprofissional e pós-graduação de uma Instituição Federal de Ensino. Os dados foram obtidos entre março de 2022 e julho de 2023 nas enfermarias do hospital, com tempo médio de aplicação dos instrumentos de 30 minutos.
Inicialmente, foi realizado o rastreio cognitivo. Quando o paciente apresentava um escore inferior ao ponto de corte esperado para sua escolaridade, conforme o Miniexame do Estado Mental (MEEM) validado para o português do Brasil10, o acompanhante era convidado a responder às questões da pesquisa. Os critérios de inclusão do acompanhante foram: ter idade igual ou superior a 18 anos; realizar os cuidados do idoso há pelo menos três meses e apresentar cognição preservada pelo MEEM segundo a escolaridade para os acompanhantes com idade maior ou igual a 60 anos. A ausência de pontuação mínima no teste de rastreio cognitivo (MEEM), do idoso e de seu cuidador, com idade maior ou igual a 60 anos, foram considerados critérios para a não inclusão do idoso no presente estudo. Já o critério de exclusão foi apresentar dificuldade de comunicação (fala ou audição).
Todos os participantes e acompanhantes foram informados quanto aos objetivos e procedimentos da pesquisa, assim como assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, conforme as recomendações contidas na Resolução nº 466 do Conselho Nacional de Saúde, de 12 de dezembro de 2012.
A coleta de dados consistiu na aplicação do questionário adaptado do Censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2020)11, com as seguintes variáveis sociodemográficas de resposta: idade, sexo, cor, estado civil, escolaridade, com quem reside e renda do idoso. Além disso, avaliaram-se a presença das variáveis clínicas: hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus, dislipidemia, demência, acidente vascular encefálico, doença renal crônica, insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica, hiperplasia de próstata benigna, câncer, epilepsia, doença de Parkinson, fibrilação atrial, esquizofrenia, fragilidade física e delirium.
A fragilidade física foi identificada considerando-se os cinco componentes do fenótipo de Fried12, a saber: perda de peso não intencional, velocidade de marcha, força de preensão manual, autorrelato de fadiga ou exaustão e gasto energético. O indivíduo que apresenta três ou mais dessas características é considerado frágil, aquele que apresenta uma ou duas é caracterizado como pré-frágil e a pessoa idosa que não apresenta nenhuma característica é considerado não frágil.
A ocorrência delirium foi avaliada pelo Confusion Assessment Method13 validado para a língua portuguesa do Brasil14. Neste constructo, avaliam-se quatro características cardinais: 1) início agudo e evolução flutuante, 2) déficit de atenção, 3) pensamento desorganizado e 4) alteração do nível de consciência. O diagnóstico de delirium é dado pela presença dos critérios 1 e 2 acrescidos dos critérios 3 ou 4. A mobilidade física foi avaliada pelo Perme Intensive Care Unit Mobility Score (Perme Escore)15.
O Perme Escore fornece uma pontuação total da mobilidade física, a qual varia de 0 a 32 pontos sendo que, quanto mais alta, menor a assistência necessária. A escala possui 15 ítens agrupados em 7 categorias com pontuações que variam entre 3 e 9 pontos.
As categorias são divididas entre: 1) estado mental: nível de alerta e capacidade de seguir comandos; 2) potenciais barreiras para mobilidade: uso de ventilação mecânica ou ventilação não invasiva, presença de dor, acessos venosos, cateteres, sondas e drenos; 3) força funcional: capacidade de realizar flexão de ombro de 45° e flexão de quadril de 20°; 4) mobilidade no leito: transferências de posição supina para sentada e equilíbrio na posição com possibilidade de assistência máxima, moderada e mínima; 5) transferência: capacidade do paciente se mover da posição sentada para em pé, equilíbrio estático em pé e a capacidade de se transferir para outras superfícies; 6) marcha: capacidade de deambular com ou sem dispositivos com assistência máxima, moderada ou mínima; e 7) endurance: distância percorrida em 2 minutos com ou sem dispositivos de auxílio15.
O Perme Escore mostra grande potencial de uso em diferentes cenários, apesar da sua utilização majoritária em unidades de tratamento intensivo. Trata-se de um instrumento que permite mensurar a mobilidade funcional de forma rápida, objetiva e específica, além de considerar condições extrínsecas ao paciente16, razão pela qual foi utilizada no presente estudo.
A análise estatística foi conduzida utilizando-se estatística descritiva, com apresentação de média, desvio-padrão, mediana, valores máximo e mínimo, além de tabelas de frequência, nas quais foi contabilizado o número de indivíduos por característica, proporções e intervalos de confiança de 95%. Para a análise bivariada, foram estimadas as razões de chance (OR) brutas de cada variável em relação ao desfecho de interesse. Na regressão logística múltipla, foram incluídas as variáveis que apresentaram associação significativa na análise bivariada, bem como variáveis de ajuste consideradas relevantes pelo contexto clínico do estudo.
O modelo final foi composto por todas as variáveis independentes, sem considerar a significância estatística na análise bivariada, de modo a expressar a chance de ocorrência do evento ajustada por todas as demais variáveis incluídas. O ajuste foi realizado por meio de modelos logísticos múltiplos, utilizando o software R4.2.2. Os fatores de confusão foram controlados pelo ajuste simultâneo de todas as variáveis no modelo, permitindo o controle dos efeitos de confusão decorrentes de variáveis correlacionadas. A medida de associação utilizada foi a razão de chances (OR), tanto bruta quanto ajustada, com respectivos intervalos de confiança de 95%.
Este estudo é subprojeto do estudo matriz “Fragilidade física e os desfechos clínicos, funcionais, psicossociais, nutricionais e na demanda de cuidados em idosos hospitalizados”, registrado na Plataforma Brasil e aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Setor de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Paraná (parecer nº 7.412.928) e da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba (parecer nº 6.667.157). O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi obtido do idoso ou acompanhante antes do início da pesquisa, conforme a Resolução 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. O sigilo e a confidencialidade dos dados foram respeitados de acordo com as Resoluções nº 510/2016, nº 580/2018 e demais normativas vigentes à época do estudo.
RESULTADOS
Na Tabela 1, observa-se que 68,9% (n=377) da amostra era composta por indivíduos de raça/cor branca, com média de idade de 76,2 anos (DP = 9,52) sendo 44,1% (n=241) casados. Em relação à escolaridade, 24,5% (n=134) apresentavam ensino fundamental incompleto, e 19% (n=104) eram analfabetos. A renda mensal predominante foi de 1,1 a 3 salários mínimos, correspondendo a 45,5% (n=249) dos participantes e a maioria, 74,4% (n=407), residia com cônjuge e/ou filhos.
Distribuição de frequência das características sociodemográficas dos idosos hospitalizados. Curitiba, PR, Brasil, 2025
Na Tabela 2 observa-se as principais morbidades que acometem os idosos, entre elas: hipertensão arterial sistêmica 73,7% (n=403), diabetes mellitus 37,3% (n=204), dislipidemia 30,9% (n=169), demência 21,6% (n=118) e acidente vascular encefálico prévio 20,8% (n=114).
Distribuição de frequência das morbidades dos idosos hospitalizados. Curitiba, PR, Brasil, 2025
Na Tabela 3 verifica-se a associação entre o Perme Escore e as características sociodemográficas. Idade entre 70 e 80 anos reduz, em média, 2.6 pontos do escore e idade 80 anos ou mais, 5.07; ser viúvo reduz 2.84 pontos; e residir com outras pessoas (diferentes de cônjuge, filhos, pais e/ou irmãos ou de viver sozinho) diminui, em média, 4.61 pontos.
Associação entre mobilidade física, pontuação da Perme Escore, e características sociodemográficas dos idosos hospitalizados. Curitiba, PR, Brasil, 2025
Verifica-se na Tabela 4, a associação entre Perme Escore e as características clínicas. Apresentar fragilidade física diminui 10.3 pontos no escore; diagnóstico de delirium 3.99 pontos; ser um paciente não responsivo 10.1 pontos; demência 4.63 pontos; assim como possuir os diagnósticos de câncer (2.36) ou esquizofrenia (7.23).
Associação entre mobilidade física, pontuação da Perme Escore, e morbidades dos idosos hospitalizados. Curitiba, PR, Brasil, 2025
DISCUSSÃO
O declínio da mobilidade física do idoso hospitalizado associou-se à idade entre 70 e 80 anos, idade maior que 80 anos, viuvez, fragilidade física, demência, delirium, câncer e esquizofrenia. Esses achados convergiram parcialmente com evidências nacionais e internacionais que apontam tais condições como determinantes para o prejuízo funcional durante a hospitalização.
O perfil sociodemográfico encontrado com predomínio de mulheres, idosos longevos e maior proporção de pessoas brancas, foi compatível com dados populacionais do IBGE (2022) para o município de Curitiba, local do presente estudo, os quais apontam o predomínio de mulheres (52,8%), de cor da pele branca (74,4%) e com renda média de até 3,7 salários mínimos17.
A associação entre idade avançada e menor mobilidade reforçou tendências registradas em pesquisas populacionais, como a PNS (2019)18, a qual apontou que a limitação funcional nas atividades de vida diária está diretamente relacionada ao aumento da idade (5,3% de 60 a 64 anos e 18,5% aos 75 anos ou mais). Estudos brasileiros realizados em enfermarias também corroboram a redução funcional entre idosos hospitalizados, sobretudo nos mais longevos19.
Entretanto, duas variáveis sociodemográficas apresentaram resultados divergentes da literatura: cor da pele não branca e morar sozinho, ambas associadas a maior pontuação no Perme Escore. A literatura aponta maior limitação funcional entre idosos negros na comunidade18; porém, a discrepância pode refletir diferenças entre perfis comunitários e hospitalares ou características específicas da rede de cuidado do município. Já o viver sozinho, tradicionalmente associado a maior vulnerabilidade social20, mostrou-se como potencial marcador de preservação funcional, alinhado a estudos que sugerem que pessoas idosas independentes tendem a permanecer vivendo sozinhos por preferência e autonomia21. Tais achados reforçam a necessidade de reavaliar pressupostos sobre suporte social e funcionalidade em contextos hospitalares.
A fragilidade física, avaliada pelo fenótipo de Fried12, mostrou-se fortemente associada à redução da mobilidade. A literatura aponta a fragilidade como um dos principais preditores de incapacidade e perda funcional em pessoas idosas19. A associação observada neste estudo amplia o conhecimento ao fornecer evidências inéditas para a população hospitalizada em unidades de enfermaria, lacuna ainda presente na literatura nacional.
A hospitalização é um fator de risco que ocasiona ou potencializa o declínio cognitivo, tanto durante a hospitalização quanto após a alta, contribuindo para a queda funcional19. Nesse sentido, as causas intrínsecas do declínio da mobilidade na demência são multifatoriais e incluem alterações neurodegenerativas, doenças cerebrovasculares e declínio musculoesquelético e/ou sensorial relacionados à idade. As alterações cognitivas e sintomas neuropsiquiátricos afetam a capacidade de lidar com o ambiente, o que pode afetar a mobilidade22.
O diagnóstico de demência também esteve relacionado a menor mobilidade, achado similar a estudos que demonstraram impacto negativo da perda cognitiva, sintomas neuropsiquiátricos e alterações neurodegenerativas sobre a funcionalidade22. A hospitalização, por sua vez, tende a potencializar o declínio cognitivo e funcional, como descrito em estudos internacionais19.
O delirium apresentou importante redução da mobilidade, fato compatível com pesquisas que identificaram pior desempenho motor durante episódios de delirium e melhora após sua resolução23,24. Pacientes com delirium tiveram resultados piores em testes de desempenho físico (Escala de Tinetti e teste de controle de tronco) e os resultados melhoraram com a resolução do delirium23. Pacientes com delirium na admissão das enfermarias apresentavam funções motoras reduzidas no teste Hierarchical Assessment of Balance and Mobility24. Esses resultados reforçaram a importância de incluir a avaliação da mobilidade como elemento sensível para rastreamento e gerenciamento dessa condição.
Quanto ao câncer, observou-se associação com menor mobilidade física; entretanto, o intervalo de confiança (IC95%: -4,61; -0,10) indica necessidade de cautela na interpretação. Estudos de coorte, como o Health, Aging and Body Composition Study25, já haviam demonstrado maior risco de incapacidade entre pessoas idosas com câncer, especialmente na fase inicial do tratamento ou durante descompensações clínicas.
O diagnóstico de esquizofrenia mostrou redução significativa da mobilidade física, mas novamente com cautela interpretativa devido ao intervalo de confiança alargado (IC95%: -14,29; -0,17). Esses achados convergem com evidências que apontam envelhecimento precoce, pior desempenho motor e maior risco cardiometabólico como fatores que comprometem a funcionalidade nessa população26.
Os achados deste estudo forneceram evidências relevantes para a prática clínica ao identificarem condições modificáveis que interferiram diretamente na mobilidade física de idosos hospitalizados. A utilização do Perme Escore em unidades de enfermaria mostrou-se uma estratégia factível e potencialmente efetiva para subsidiar protocolos institucionais de mobilização precoce, orientar planos terapêuticos individualizados, aprimorar a triagem de risco funcional na admissão e permitir o monitoramento contínuo da recuperação motora. Ademais, sua aplicação pode apoiar intervenções preventivas direcionadas a condições frequentes e potencialmente reversíveis, como delirium e fragilização.
Do ponto de vista da gestão hospitalar, os resultados reforçaram a necessidade de investir em estruturas físicas, além de processos de trabalho que favoreçam a mobilização precoce, bem como ampliar o treinamento das equipes multiprofissionais em avaliação geriátrica e no gerenciamento de síndromes geriátricas. A criação de fluxos assistenciais voltados à preservação da funcionalidade emerge como eixo fundamental para qualificar a assistência e reduzir os efeitos adversos da hospitalização.
No campo das Políticas Públicas, os achados sustentam a urgência de fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS) como eixo estruturante na prevenção do declínio funcional, articulando ações intersetoriais e integrando redes formais e informais de apoio. Reforça-se, ainda, que a consolidação da APS permanece como um dos maiores desafios para assegurar a integralidade do cuidado à população idosa, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade clínica e social.
Como limitação deste estudo, destaca-se o delineamento transversal, que impede estabelecer relações de causa e efeito, bem como a escassez de pesquisas que avaliem a mobilidade física de indivíduos idosos em enfermarias utilizando o Perme Escore, o que restringe comparações diretas com outros cenários. Como ponto forte, o estudo reuniu dados representativos de uma população idosa de alta complexidade, contribuindo com evidências aplicáveis à realidade assistencial do SUS e relevantes para o aprimoramento do cuidado, da segurança e da recuperação funcional durante a hospitalização.
CONCLUSÃO
O declínio da mobilidade física associou-se a características próprias do envelhecimento; contudo, destacam-se variáveis modificáveis que podem ser alvo de intervenção durante a hospitalização, especialmente a fragilidade física, o delirium e descompensações relacionadas a condições clínicas como câncer e esquizofrenia. A identificação e o gerenciamento precoce desses fatores podem atenuar a perda funcional, reforçando a importância de estratégias multidimensionais de cuidado para a prevenção do declínio da mobilidade em pessoas idosas hospitalizadas.
Os achados contribuem para a prática clínica ao reforçar a necessidade de equipes multiprofissionais adotarem estratégias de mobilização precoce, prevenção de delirium, e monitoramento funcional contínuo. Também subsidiam a melhoria de protocolos institucionais voltados ao cuidado da pessoa idosa hospitalizada e orientam gestores na implementação de ações alinhadas às políticas públicas de atenção à pessoa idosa.
AGRADECIMENTOS
O presente estudo foi realizado com apoio do Programa Nacional de Bolsas para Residências Multiprofissionais, Ministério da Saúde do Brasil, referente ao edital nº 12/2022 da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba – FEAS.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
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Editor associado:
Dra. Susanne Elero Betiolli
