Open-access COVID-19 E DESIGUALDADE PROFISSIONAL ENTRE EGRESSOS COTISTAS E NÃO COTISTAS DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS

Covid-19 and professional inequality between quota and non-quota graduates of federal universities

Covid-19 y desigualdad profesional entre egresados de cuota y no cuota de universidades federales

RESUMO

O objetivo do artigo foi verificar se a pandemia de Covid-19 afetou mais negativamente a situação no mercado de trabalho de egressos cotistas do que a de egressos não cotistas das universidades federais brasileiras. Para tanto, aplicamos, em 2021, um questionário a uma expressiva amostra de 11.458 egressos, de todas as áreas do conhecimento, de 18 universidades federais. Com o uso do Teste U de Mann-Whitney e regressão logística ordinal, os resultados sugerem que, durante a pandemia de Covid-19, egressos cotistas sentiram que o processo de obter um emprego ou promoção foi mais difícil e que a situação no mercado de trabalho, em geral, foi piorada mais para eles do que para os egressos não cotistas. Nossos resultados sugerem que crises como a da pandemia de Covid-19 incidem mais fortemente na situação profissional de populações mais vulneráveis socioeconomicamente, mesmo quando são altamente escolarizadas e qualificadas.

Palavras-chave:
ação afirmativa; pandemia; ensino superior; estudantes; mercado de trabalho.

ABSTRACT

The aim of this article was to verify whether the COVID-19 pandemic negatively affected the labor market situation of quota graduates from Brazilian federal universities more than that of non-quota graduates. To this end, in 2021, we applied a questionnaire to a significant sample of 11,458 graduates from all fields of knowledge at 18 federal universities. Using the Mann-Whitney U test and ordinal logistic regression methods, the results suggest that, during the COVID-19 pandemic, quota graduates felt that the process of obtaining employment or promotion was more difficult and that the labor market situation, in general, worsened more for them than for non-quota graduates. Our results suggest that crises such as the COVID-19 pandemic can more significantly threaten the professional situation of more socioeconomically vulnerable populations, even when they are highly educated and qualified.

Keywords:
affirmative action; pandemic; higher education; students; labor market.

RESUMEN

El objetivo de este artículo fue verificar si la pandemia de COVID-19 afectó negativamente la situación laboral de los graduados de cuota de las universidades federales brasileñas más que la de los graduados fuera de cuota. Para ello, en 2021, aplicamos un cuestionario a una muestra significativa de 11.458 graduados de todas las áreas de conocimiento en 18 universidades federales. Utilizando la prueba U de Mann-Whitney y métodos de regresión logística ordinal, los resultados sugieren que, durante la pandemia de COVID-19, los graduados de cuota sintieron que el proceso de obtención de empleo o ascenso fue más difícil y que la situación laboral, en general, empeoró más para ellos que para los graduados fuera de cuota. Nuestros resultados sugieren que crisis como la pandemia de COVID-19 pueden amenazar de forma más significativa la situación profesional de las poblaciones socioeconómicamente más vulnerables, incluso cuando tienen un alto nivel educativo y cualificado.

Palabras clave:
acción afirmativa; pandemia; educación superior; estudiantes; mercado laboral.

INTRODUÇÃO

Foi em um contexto de desigualdade no acesso ao ensino superior público e de qualidade que, em 2012, se instituiu a política de cotas (Lei n. 12.711), a qual determina que as universidades federais reservem ao menos 50% das vagas de graduação a estudantes oriundos do ensino médio público, incluindo recortes específicos por renda, raça/cor, deficiência e pertencimento indígena. Os estudantes que ingressam por esse sistema são popularmente denominados cotistas, enquanto os demais são classificados como não cotistas. A implementação da política constitui uma medida legítima de enfrentamento às desigualdades historicamente presentes nas universidades públicas brasileiras (Silva et al., 2020).

Embora a política de cotas seja relevante para ampliar o acesso ao ensino superior, ainda são escassos os estudos que analisam a inserção dos egressos cotistas no mercado de trabalho, especialmente em comparação com os não cotistas. Evidências empíricas indicam que egressos cotistas tendem a apresentar rendimentos inferiores, sendo o capital social um fator que favorece os não cotistas (Guimarães et al., 2019). Ademais, estudos realizados na Universidade de Brasília e na Universidade Federal de Pernambuco apontam que mulheres egressas enfrentam menores oportunidades de mobilidade social, e que estudantes negros de baixa renda possuem menor probabilidade de alcançar os níveis mais elevados de rendimento econômico (Duryea et al., 2019; Francis-Tan & Tannuri-Pianto, 2018).

Até o momento, ao melhor de nosso conhecimento, não identificamos estudos que tenham analisado comparativamente a situação no mercado de trabalho de egressos cotistas e não cotistas das universidades federais brasileiras durante a pandemia de Covid-19. A literatura sobre o período pandêmico concentrou-se sobretudo em análises sobre a crise sanitária e humanitária (Nunes, 2020), nas desigualdades socioespaciais urbanas (Bógus & Magalhães, 2022) e nas transformações nos formatos de ensino e trabalho, como a transição para o ensino remoto e o trabalho a distância (Araújo & Lua, 2021; Magalhães, 2021; Neves et al., 2021). Em contraste, são raras as análises voltadas aos efeitos da pandemia sobre o mercado de trabalho (Bridi, 2020; Costa, 2020; Mattei & Heinen, 2020; Paula et al., 2023; Tavares et al., 2023), especialmente de profissionais altamente qualificados, como egressos do ensino superior.

A pandemia de Covid-19 constituiu um marco para as análises sobre o mercado de trabalho ao intensificar vulnerabilidades estruturais e ampliar a instabilidade econômica já observada no País (Bridi, 2020). A ausência de políticas públicas coordenadas de preservação do emprego e da renda contribuiu para o avanço da desocupação e da informalidade, afetando de modo desigual diferentes grupos sociais (Mattei & Heinen, 2020). Evidências indicam que as desigualdades de gênero e raça foram agravadas no período, com impactos mais severos sobre trabalhadores informais e grupos historicamente vulneráveis (Cruz et al., 2022; Mattei & Heinen, 2020; Ramos et al., 2021; Tavares et al., 2023), o que sugere que o impacto da crise pode ter sido mediado pelas características socioeconômicas dos indivíduos, mesmo entre profissionais com ensino superior.

Nesse contexto, questionamos: a Covid-19 afetou mais negativamente a situação no mercado de trabalho dos egressos cotistas em comparação aos não cotistas das universidades federais? Para responder a essa questão, o objetivo deste artigo é verificar se a pandemia de Covid-19 afetou mais negativamente a situação no mercado de trabalho de egressos cotistas do que a de egressos não cotistas das universidades federais brasileiras. Com base nas evidências disponíveis na literatura, a hipótese do estudo é que a pandemia de Covid-19 afetou mais negativamente a situação profissional dos egressos cotistas em relação aos não cotistas das universidades federais brasileiras.

POLÍTICA DE COTAS DO ENSINO SUPERIOR

A política de cotas no ensino superior, enquanto iniciativa de ação afirmativa, foi criada para ampliar o acesso a universidades públicas de prestígio para grupos historicamente sub-representados nesse nível educacional (Lopes, 2016). Seus objetivos incluem a redução das desigualdades educacionais entre negros e brancos (Duryea et al., 2019) e a promoção de maior justiça e inclusão social (Biazotto et al., 2022b). Ao considerar critérios como raça, deficiência, condição socioeconômica e origem escolar, essa política busca combater desigualdades raciais e sociais, ampliando oportunidades de mobilidade social no curto e no longo prazo, em consonância com a evidência que associa positivamente educação e renda (Andrews, 2014; Becker, 1964).

A relação positiva entre escolaridade e renda assume especial relevância em países em desenvolvimento, como o Brasil, marcados por profundas desigualdades educacionais (Becker, 1964). Nesse contexto, as ações afirmativas no ensino superior buscam fortalecer grupos historicamente marginalizados, favorecendo sua ascensão a posições de maior prestígio social (Silame et al., 2020). Assim, a política de cotas não apenas altera o perfil social dos estudantes nas universidades federais, mas também pode operar como um mecanismo de redistribuição de renda de longo prazo, dada a associação positiva entre educação e rendimentos (Becker, 1964; Silva et al., 2020).

Evidências empíricas no Brasil indicam que as universidades desempenham papel central na promoção da mobilidade social de estudantes em situação de vulnerabilidade econômica beneficiados pelas cotas (Biazotto et al., 2022a; Biazotto et al., 2022b; Carvalho et al., 2024; Duryea et al., 2019; Francis-Tan & Tannuri-Pianto, 2018, 2024; Guimarães et al., 2019; Machado et al., 2021). Ademais, facilitar o ingresso de alunos oriundos de famílias de baixa renda em uma instituição de renome tende, ao longo do tempo, a diminuir os salários dos egressos não contemplados pelas cotas que já estavam na universidade antes da implementação dessa política (Machado et al., 2021). Isso significa que a política de cotas pode contribuir para uma maior equidade salarial no mercado de trabalho entre egressos de distintas origens socioeconômicas, reduzindo a concentração de altos salários entre os graduados da elite e aumentando os salários de profissionais de classes sociais menos favorecidas, promovendo, assim, uma redistribuição da renda de maneira mais equitativa.

Essas evidências reforçam que o acesso ao ensino superior pode desempenhar papel central na ruptura do ciclo de pobreza entre famílias de baixa renda, conforme indicado por estudos sobre estratificação social (Karlson, 2019). À luz da Teoria do Capital Humano, a formação acadêmica constitui um dos principais determinantes da posição ocupacional e dos rendimentos no mercado de trabalho, sustentando a ideia de uma sociedade baseada no mérito, na qual o diploma universitário ampliaria as oportunidades profissionais dos indivíduos (Becker, 1964).

Críticas à Teoria do Capital Humano apontam que, embora o diploma universitário possa favorecer a ascensão social de estudantes de baixa renda, seus rendimentos no mercado de trabalho podem permanecer inferiores aos de graduados oriundos de famílias com maior poder aquisitivo, mesmo quando frequentam instituições ou cursos de prestígio (Guimarães et al., 2019; Niu et al., 2020; Oh & Kim, 2020; Tomaszewski et al., 2021). Assim, diferenças de origem familiar podem continuar a se refletir nos rendimentos, contribuindo para a persistência da desigualdade social.

EFEITOS DA PANDEMIA DE COVID-19 SOBRE O MERCADO DE TRABALHO BRASILEIRO

A pandemia global de Covid-19 consolidou um cenário de profundas transformações e retrocessos no mercado de trabalho brasileiro, exacerbando vulnerabilidades estruturais preexistentes e atingindo de maneira heterogênea distintos perfis de trabalhadores. Evidências indicam que os mais prejudicados foram os trabalhadores do setor privado, com e sem carteira assinada, especialmente aqueles situados nas faixas salariais mais baixas, o que resultou em elevação do desemprego, expansão da informalidade e aprofundamento das desigualdades sociais (Bridi, 2020; Mattei & Heinen, 2020).

A eclosão da crise sanitária no primeiro trimestre de 2020 provocou uma retração de 4,1% no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, afetando de maneira assimétrica os setores econômicos e as probabilidades de inserção no mercado formal (Paula et al., 2023). Esse processo aprofundou desigualdades de gênero e raça, uma vez que mulheres negras e brancas apresentaram menores probabilidades de ocupação em comparação aos homens brancos (Mattei & Heinen, 2020; Tavares et al., 2023). Assim, a pandemia não apenas ampliou o desemprego, mas intensificou vulnerabilidades históricas, à medida que a desocupação avançou ao longo de 2020 em um contexto de retração da oferta de trabalho (Tavares et al., 2023).

A deterioração das condições de trabalho também atingiu de modo severo o setor informal, tradicionalmente caracterizado como um amortecedor de crises. O isolamento social provocou reduções expressivas de renda, variando entre 5% e 50%, em decorrência da perda de clientes e da interrupção de atividades, sem o respaldo de políticas públicas eficazes (Cruz et al., 2022). Essa precarização agravou os desafios relacionados à trabalhabilidade e à empregabilidade, exigindo que os indivíduos repensassem suas competências profissionais em um mercado em rápida transformação, com impactos particularmente intensos sobre os grupos mais vulneráveis (Ramos et al., 2021).

As estratégias para mitigar os impactos da pandemia incluem o aumento dos investimentos públicos em saúde e em setores estratégicos, com vistas à geração de empregos formais e à retomada econômica (Costa, 2020). Contudo, o principal desafio reside em promover crescimento econômico com justiça distributiva, o que demanda o fortalecimento do papel do Estado no estímulo à geração de empregos e na ampliação de programas sociais, especialmente para a proteção dos trabalhadores inseridos na informalidade (Bridi, 2020; Costa, 2020), visando combater a intensa desigualdade social existente no Brasil e agravada pela pandemia de Covid-19 desde 2020.

METODOLOGIA

Coleta de dados

A pesquisa adotou uma abordagem quantitativa, com delineamento do tipo cross-section, utilizando um questionário eletrônico aplicado via Google Formulários entre 15 de setembro e 31 de dezembro de 2021. Estudos recentes que analisam os efeitos da pandemia de Covid-19 sobre o mercado de trabalho também empregaram questionários como instrumento de coleta de dados (Cruz et al., 2022; Ramos et al., 2021).

A amostra foi composta por 11.458 egressos (n = 11.458), provenientes de 248 cursos de graduação de todas as áreas do conhecimento, vinculados a 18 universidades federais localizadas nas cinco regiões do País, com conclusão do curso entre 2016 e 2021. O Apêndice A apresenta a relação dos cursos e o Apêndice B, o modelo do questionário aplicado aos egressos, conforme apresentado no Scielo Data (https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.ZJFFYT). Ressalta-se que este artigo constitui um recorte de uma pesquisa mais ampla, cujo escopo excede a análise aqui desenvolvida.

A análise concentrou-se em egressos cotistas e não cotistas que concluíram a graduação entre 2016 e 2021, período posterior à consolidação da política de cotas nas universidades federais. Das 63 instituições inicialmente contatadas, 30 aceitaram participar da pesquisa, tendo 18 realizado o envio direto do questionário aos e-mails de seus egressos e apresentado taxas de resposta iguais ou superiores a 100 respondentes. Restringimos a amostra a essas 18 universidades, uma vez que Hair et al. (2009) recomendam o número mínimo de 100 observações para análises estatísticas robustas. A Tabela 1 apresenta a composição final da amostra por universidade, região e participação relativa.

Tabela 1
Amostra final e unidade de análise da pesquisa

Antes do envio às instituições participantes, o questionário foi revisado por dois pesquisadores da UFV com experiência em estudos baseados em survey e por um programador visual da UFES, com formação em Comunicação Social. Suas sugestões envolveram ajustes no formato das questões, nas opções de resposta, no design gráfico e na sequência do instrumento, visando aprimorar a clareza, a representatividade das respostas e a coleta dos dados. Todas as recomendações foram incorporadas à versão final do questionário.

Após essas adequações, realizamos um pré-teste com egressos dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e de Comunicação Social/Jornalismo da UFV, com o objetivo de ajustar as questões e avaliar a confiabilidade das respostas por meio do coeficiente Alfa de Cronbach. Participaram do pré-teste 22 egressos que responderam à escala Likert de 5 pontos e 16 egressos, à escala de 7 pontos. A escala de 7 pontos apresentou maior confiabilidade (α = 0,434), classificada como moderada (Landis & Koch, 1977), em comparação à escala de 5 pontos (α = 0,303), indicando maior consistência interna.

As questões relacionadas à pandemia de Covid-19 foram operacionalizadas em escala Likert de 7 pontos, variando de 1 (discordo totalmente) a 7 (concordo totalmente), e posteriormente convertidas em variáveis analíticas. A condição de cotista foi identificada por meio de variável categórica. As variáveis referentes à estabilidade no emprego e à remuneração durante a pandemia foram respondidas apenas pelos egressos empregados no momento da pesquisa, enquanto as demais estiveram disponíveis a todos os participantes. A Tabela 2 sintetiza a definição, o formato e a fundamentação teórica das variáveis utilizadas.

Tabela 2
Formato e descrição das variáveis

Análise de dados

Os dados foram organizados no Excel e analisados no SPSS (versão 23). O Alfa de Cronbach obtido no pré-teste (α = 0,434), classificado como moderado (Landis & Koch, 1977), referiu-se ao conjunto total de questões do questionário original, que extrapolava o escopo da pandemia de Covid-19. Considerando apenas as cinco questões relacionadas à pandemia, em escala Likert de 7 pontos (Tabela 2), o Alfa de Cronbach, feito após o conjunto final dos dados, foi de 0,804, valor considerado bom para a consistência interna (Hair et al., 2009), conforme apresentado na Tabela 3.

Tabela 3
Estatísticas de confiabilidade e matriz de correlação entre itens das questões em escala Likert descritas na Tabela 2

Utilizamos dois métodos de análise: o Teste U de Mann-Whitney e a Regressão Logística Ordinal. O Teste U de Mann-Whitney é um teste não paramétrico indicado para comparar a distribuição de duas amostras independentes quando a variável dependente é ordinal, como no caso de escalas Likert (Fávero & Belfiore, 2017). A estatística Z do teste considera ajustes para empates, conforme descrito por Fávero e Belfiore (2017). O Teste U de Mann-Whitney foi empregado para verificar diferenças nas percepções entre cotistas e não cotistas em relação às cinco variáveis dependentes associadas aos efeitos da pandemia de Covid-19 sobre a situação profissional. Contudo, esse teste não considera o efeito simultâneo de outras variáveis explicativas.

De modo complementar ao Teste U de Mann-Whitney, estimamos cinco regressões logísticas ordinais para verificar se as diferenças observadas entre cotistas e não cotistas persistiam após o controle por covariáveis (gênero, cor/raça e tempo de conclusão do curso). A regressão logística ordinal é indicada para analisar o efeito de múltiplas variáveis independentes sobre uma variável dependente ordinal, como escalas Likert (Abreu et al., 2009). As regressões logísticas ordinais foram estimadas com base no Modelo de Odds Proporcionais (MOP), que, segundo Abreu et al. (2009), pressupõe a constância dos efeitos das covariáveis ao longo dos pontos de corte da variável dependente, suposição que deve ser testada para cada modelo. Apresentamos os resultados do teste de linhas paralelas na Tabela 4.

Tabela 4
Teste de linhas paralelas para satisfação do pressuposto das odds proporcionais para os modelos de regressão logística ordinal das variáveis dependentes*

Embora o teste de linhas paralelas tenha indicado violação estatisticamente significativa da suposição de odds proporcionais em três das cinco variáveis dependentes, esse resultado pode ser interpretado à luz do grande tamanho amostral (n = 11.458). A literatura metodológica destaca que testes formais de proporcionalidade de odds são altamente sensíveis em amostras extensas, podendo rejeitar a hipótese nula mesmo diante de desvios de pequena magnitude (Brant, 1990; Liu et al., 2023; Peterson & Harrell, 1990). Nesses casos, os coeficientes do modelo logístico ordinal devem ser interpretados como efeitos médios ao longo das categorias da variável dependente. Assim, optamos por manter o modelo para todas as variáveis, privilegiando interpretações baseadas na direção e relevância substantiva dos efeitos.

Por fim, avaliamos, por meio de regressão múltipla, a presença de multicolinearidade entre as variáveis independentes por meio do fator de inflação da variância (VIF). A multicolinearidade ocorre quando variáveis explicativas apresentam elevada correlação entre si, podendo comprometer a estimação dos modelos (Hair et al., 2009). Embora fosse esperada alguma correlação entre a condição de cotista e a variável cor/raça, os resultados indicaram valores de VIF próximos a 1, conforme Tabela 5, sugerindo ausência de multicolinearidade relevante, segundo Hair et al. (2009).

Tabela 5
Realização do teste VIF para satisfação do pressuposto de colinearidade entre as variáveis independentes dos modelos de regressão*

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As Tabelas 6 e 7 apresentam a estatística descritiva das variáveis independentes e dependentes.

Tabela 6
Estatística descritiva das variáveis independentes
Tabela 7
Estatística descritiva das variáveis dependentes em função da categoria do egresso

A Tabela 8 apresenta o resultado do Teste U de Mann-Whitney entre cotistas e não cotistas para as cinco variáveis dependentes.

Tabela 8
Sumarização do teste de hipótese (U de Mann-Whitney) entre cotistas e não cotistas para as variáveis dependentes

Os testes de Mann-Whitney indicam que não há diferenças estatisticamente significativas entre cotistas e não cotistas quanto às percepções sobre estabilidade do emprego, remuneração e perspectivas no mercado de trabalho pós-pandemia (p > 0,05). Em contraste, observaram-se diferenças significativas nas percepções de dificuldade para obtenção de emprego ou promoção e de piora da situação no mercado de trabalho durante a pandemia (p < 0,001), com postos médios mais elevados entre os cotistas, indicando avaliações mais negativas nesse grupo. A Tabela 9 apresenta os resultados dos modelos de regressão logística ordinal estimados para as cinco variáveis dependentes.

Tabela 9
Resultados dos modelos de regressão logísticas ordinais para as variáveis dependentes

Os modelos de regressão logística ordinal corroboram os resultados do Teste U de Mann-Whitney, mesmo após o controle por gênero, cor/raça e tempo de conclusão do curso, indicando percepções mais negativas entre os cotistas quanto às oportunidades de emprego ou promoção e à situação geral no mercado de trabalho durante a pandemia, sem diferenças significativas nos demais aspectos analisados. A interpretação dos modelos deve considerar que os resultados refletem percepções subjetivas dos respondentes sobre os efeitos da pandemia, não correspondendo necessariamente a medidas objetivas de sua situação profissional, o que requer uma leitura cautelosa e contextualizada dos achados.

No modelo referente à estabilidade do emprego durante a pandemia, a variável “Categoria do egresso” não apresentou coeficiente estatisticamente significativo, indicando percepções semelhantes entre cotistas e não cotistas quanto aos impactos da Covid-19 sobre a estabilidade dos vínculos empregatícios. Resultado semelhante é observado no modelo relativo à remuneração, no qual a ausência de significância estatística associada à categoria do egresso indica percepções similares entre cotistas e não cotistas quanto aos efeitos da pandemia sobre os rendimentos do trabalho.

Em contraste, no modelo que examina emprego ou promoção durante a pandemia, a categoria do egresso apresenta coeficiente positivo e estatisticamente significativo, indicando maior probabilidade de os cotistas se posicionarem em categorias mais pessimistas da escala. Esse resultado sugere que os cotistas perceberam de maneira mais intensa os efeitos negativos da pandemia sobre oportunidades de inserção ou progressão profissional. Resultado convergente é observado no modelo referente à situação no mercado de trabalho durante a pandemia, no qual a categoria do egresso apresenta efeito positivo e significativo. Isso indica que os cotistas tendem a relatar percepções mais negativas sobre sua posição no mercado de trabalho no período pandêmico. Em termos interpretativos, esses achados sugerem que os cotistas podem se perceber mais expostos ou vulneráveis às consequências da crise sanitária em relação à sua situação ocupacional geral, o que pode refletir maior insegurança subjetiva, expectativas mais pessimistas ou experiências prévias de maior instabilidade social e econômica que moldam a forma como os impactos da pandemia são avaliados.

Por fim, no modelo que analisa as perspectivas no mercado de trabalho pós-pandemia, não se observam diferenças estatisticamente significativas entre cotistas e não cotistas, sugerindo expectativas semelhantes e otimistas quanto às oportunidades profissionais futuras. Ademais, o menor ajuste global desse modelo reforça a interpretação de que as percepções prospectivas são menos estruturadas por características objetivas ou institucionais da trajetória do egresso e mais influenciadas por um contexto geral de incerteza que afetava ambos os grupos de maneira relativamente difusa.

Em síntese, os resultados indicam que a condição de cotista não se associa a percepções mais negativas em todas as dimensões analisadas, mas se relaciona especificamente a avaliações mais pessimistas quanto às oportunidades de emprego ou promoção e à situação no mercado de trabalho durante a pandemia. Esses achados dialogam tanto com a literatura que questiona o caráter plenamente meritocrático do diploma universitário e aponta maior vulnerabilidade de indivíduos oriundos de famílias de menor renda no mercado de trabalho (Guimarães et al., 2019; Niu et al., 2020; Oh & Kim, 2020; Tomaszewski et al., 2021) quanto, ao mesmo tempo, com evidências sobre os efeitos positivos da política de cotas em termos de inclusão e trajetória profissional dos estudantes cotistas (Biazotto et al., 2022a; Biazotto et al., 2022b; Carvalho et al., 2024; Duryea et al., 2019; Francis-Tan & Tannuri-Pianto, 2018, 2024; Guimarães et al., 2019; Machado et al., 2021).

Esses achados sugerem que a política de cotas não produz um padrão uniforme de vulnerabilidade percebida, mas que determinados aspectos da experiência laboral durante a pandemia foram subjetivamente vivenciados como mais adversos pelos cotistas, possivelmente em função de condições estruturais prévias, expectativas diferenciadas ou maior sensibilidade aos riscos associados a contextos de crise. Nesse sentido, nossos resultados convergem com evidências que apontam que grupos mais vulneráveis socialmente podem ser mais afetados negativamente no mercado de trabalho em contextos de crises sanitárias como a provocada pela pandemia de Covid-19 (Bridi, 2020; Costa, 2020; Mattei & Heinen, 2020; Paula et al., 2023; Tavares et al., 2023).

CONCLUSÃO

Avançamos no conhecimento ao conduzir uma ampla pesquisa que investiga a percepção de egressos de universidades federais sobre a sua situação laboral durante a pandemia de Covid-19. As evidências indicam que, na percepção dos egressos, os cotistas enfrentaram maiores desafios no mercado de trabalho durante a pandemia em comparação aos não cotistas, sugerindo que crises dessa natureza podem afetar de maneira mais severa grupos socialmente vulneráveis, em consonância com a literatura especializada (Bridi, 2020; Costa, 2020; Mattei & Heinen, 2020; Paula et al., 2023; Tavares et al., 2023). Esses achados reforçam a importância de políticas públicas voltadas à proteção do emprego, da renda e das oportunidades de trabalho em contextos de crise.

Entre as limitações do estudo, destaca-se o uso do questionário, que pode estar sujeito a vieses de seleção decorrentes da participação voluntária dos respondentes e também ao fato de os resultados refletirem percepções dos egressos, e não necessariamente a realidade. Ainda assim, diante da escassez de dados oficiais sistematizados sobre o tema, a pesquisa oferece evidências relevantes, reforçadas pela realização da coleta de dados ainda durante o período pandêmico, pelo amplo tamanho amostral e pela adoção de estratégias analíticas complementares, que contribuem para a robustez dos resultados.

Pesquisas futuras podem adotar abordagens longitudinais para examinar a evolução da inserção laboral de egressos cotistas e não cotistas no período pós-pandemia, bem como explorar a perspectiva dos empregadores, a fim de compreender como essas desigualdades são percebidas e reproduzidas no processo de contratação.

  • Os/As avaliadores/as não autorizaram a divulgação de sua identidade e relatório de avaliação por pares.
    Avaliado pelo sistema de revisão duplo-anônimo.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

DISPONIBILIDADE DOS DADOS

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado no SciELO Data e pode ser acessado em https://doi.org/10.48331/SCIELODATA.ZJFFYT.

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Editado por

  • Editora Associada:
    Andrea Leite Rodrigues

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    22 Abr 2025
  • Aceito
    13 Mar 2026
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