Open-access A ópera dos produtos educacionais: o intérprete educacional de Libras e os estudantes surdos na cena dos programas profissionais de pós-graduação da área de Ensino

The opera of educational products: the educational interpreter of Brazilian Sign Language (Libras) and deaf students within professional postgraduate teaching programs

Resumo

Assim como em uma ópera, na qual diferentes papéis se articulam para compor uma obra coletiva, este estudo constrói o estado do conhecimento sobre os Produtos Educacionais (PEs) oriundos dos Programas Profissionais de Pós-Graduação da Área de Ensino, especialmente os voltados ao ensino de matemática para estudantes surdos. A partir de uma abordagem qualitativa, investiga-se a presença e a participação do Intérprete Educacional de Libras (IEL) e dos estudantes surdos na concepção desses materiais. As análises evidenciam três características fundamentais: o uso da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua de mediação; a valorização da visualidade nos materiais; e o emprego de tecnologias digitais como recursos de inclusão. Os resultados do estudo revelam a escassez de recursos que atendam às especificidades linguísticas e metodológicas dos estudantes surdos, bem como a invisibilidade dos IELs na elaboração dos PEs, indicando a necessidade de práticas pedagógicas mais inclusivas.

Palavras-chave:
ensino de matemática; intérprete educacional de Libras; educação de surdos; pós-graduação profissional; estado do conhecimento.

Abstract:

Just as in an opera, where different roles come together to create a collective work, this study examines the current state of knowledge regarding Educational Products (EPs) developed by professional graduate programs in education, particularly those focused on teaching mathematics to deaf students. Using a qualitative approach, the study investigates the presence and participation of the Educational Sign Language Interpreter (ESLI) and deaf students in the creation of these materials. The analyses highlight three fundamental characteristics: the use of Brazilian Sign Language (Libras) as a language of mediation, an emphasis on visuality in the materials, and the use of digital technologies as inclusion resources. The results reveal a scarcity of resources addressing the linguistic and methodological specificities of deaf students and the invisibility of ESLIs in the development of the PEs, indicating the need for more inclusive pedagogical practices.

Keywords:
mathematics teaching; educational interpreter of Libras; Brazilian sign language; deaf education; professional postgraduate studies; state of knowledge.

Abertura em três atos - notas iniciais de uma ópera educacional

Assim como em uma ópera, o processo de construção de um produto educacional (PE) é constituído por múltiplas vozes, tensões e papéis que se articulam em torno de um enredo comum: a prática docente e seus desafios cotidianos. A metáfora da ópera, oriunda do latim opus, que significa obra ou trabalho (Rodrigues, 2014), foi adotada para intitular este estudo por representar, simbolicamente, a complexidade e, por vezes, o caráter dramático que atravessa a produção educacional no contexto escolar. Nesse cenário, diferentes sujeitos ocupam o palco e interagem na tessitura do conhecimento, entre eles o professor, o estudante surdo e o profissional responsável pela mediação linguística.

É nesse contexto que se insere o Intérprete Educacional de Libras (IEL), cuja denominação é adotada neste estudo em lugar de tradutor e intérprete, em razão das especificidades de sua atuação no ambiente escolar. Embora a profissão tenha sido regulamentada apenas em 2010, por meio da Lei nº 12.319 (Brasil, 2010), sua prática é marcada por condições singulares, como a ausência de revezamento, o acesso restrito aos conteúdos curriculares e a carência de formação específica em áreas como a matemática. Soma-se a isso a sobrecarga frequentemente enfrentada por esses profissionais, que, em muitos contextos, atuam como o principal e, por vezes, único elo de comunicação entre o estudante surdo e a comunidade escolar (Borges; Nogueira, 2016). Assim, o IEL configura-se como uma voz central nessa ópera educacional, ainda que, muitas vezes, permaneça invisibilizado nos processos de produção pedagógica.

Tal como as grandes óperas que narram histórias permeadas por conflitos, desafios e superações, a criação de PEs voltados ao ensino de matemática para estudantes surdos emerge de um cenário igualmente complexo, marcado por lacunas formativas, limitações institucionais e pela busca constante por práticas pedagógicas mais inclusivas (Yahata; Pinto, 2020). Nessa tessitura simbólica, a metáfora operística se intensifica ao observarmos que, assim como nos dramas encenados, os sujeitos envolvidos enfrentam desafios profundos na tentativa de construir uma educação acessível e equitativa. Um exemplo emblemático é O Guarani, primeira ópera brasileira de repercussão internacional, que encena a luta por um amor tido como impossível entre Cecília, filha de um nobre português, e Peri, indígena brasileiro (Ceribeli, 2019). Curiosamente, é nesse mesmo período histórico, meados do século XIX, que se inicia a trajetória do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), marco inaugural da luta por uma educação bilíngue no Brasil, pautada pelo respeito às singularidades linguísticas e culturais da comunidade surda (Rocha, 2008).

Passado mais de um século, o enredo educacional ainda é atravessado por silenciamentos e desafios. O cenário atual das pesquisas voltadas ao ensino de matemática para estudantes surdos evidencia a escassez de recursos didáticos que contemplem suas especificidades linguísticas e metodológicas (Borges; Nogueira, 2013; Grutzmann; Lebedeff; Böhm, 2023). Tal ausência se conecta diretamente à insuficiente formação inicial dos professores de matemática para atuar com esse público. Muitos docentes ouvintes, sem domínio da Língua Brasileira de Sinais (Libras), só passam a refletir sobre essas especificidades quando se deparam, na prática, com a presença do estudante surdo em sala de aula. Momento em que emergem improvisos, inseguranças e, muitas vezes, a transferência da responsabilidade pelo ensino ao IEL, que, por ser o único capaz de estabelecer comunicação direta com o estudante, acaba sendo visto como responsável pela mediação do conteúdo. No entanto, tal transferência revela uma compreensão inadequada sobre o papel do IEL, cuja função, embora essencial na mediação comunicacional, não substitui a responsabilidade pedagógica do professor (Borges, 2013; Pinto, 2018).

Diante desse cenário, em que a formação inicial não contempla adequadamente as demandas de uma educação inclusiva para estudantes surdos, muitos professores recorrem à formação continuada como estratégia para ressignificar suas práticas e enfrentar os desafios impostos pela inclusão do estudante surdo. Nesse contexto, os Programas de Pós-Graduação, em especial os de modalidade profissional, surgem como espaços privilegiados de reflexão, troca de saberes e elaboração de respostas pedagógicas alinhadas à realidade escolar. Voltados à aproximação entre teoria e prática, esses Programas têm como propósito qualificar a atuação docente de forma crítica e transformadora, promovendo a produção de conhecimentos aplicados (Capes, 2009). Como destaca Moreira (2016), trata-se de uma formação comprometida com os desafios cotidianos da sala de aula, cuja materialização se dá por meio dos PEs, construídos a partir de demandas concretas vividas pelos próprios professores.

Nesse cenário, este estudo tem como objetivo construir um estado do conhecimento sobre os PEs oriundos dos Programas Profissionais de Pós-Graduação na Área 46 de Ensino da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), com atenção especial àqueles voltados ao ensino de matemática para estudantes surdos. Por meio de uma abordagem qualitativa de pesquisa, busca-se também investigar a presença e a participação dos IELs e dos estudantes surdos na concepção desses materiais, a partir das seguintes questões: quais são as principais características dos PEs destinados ao ensino de matemática para estudantes surdos? Em que medida é possível identificar a contribuição dos IELs e dos estudantes surdos em sua elaboração?

Para isso, esta abertura em três atos propõe-se como o prelúdio de uma composição mais ampla. À semelhança da criação de uma ópera, o percurso investigativo exige escuta atenta, sensibilidade interpretativa e articulação harmônica entre as múltiplas vozes que compõem essa partitura educacional, especialmente aquelas que, como a do IEL, foram historicamente silenciadas. O enredo desta pesquisa se organiza em três atos principais, além desta abertura: o primeiro apresenta a metodologia adotada na constituição do corpus e nos critérios de análise, o segundo expõe e discute os achados, com base no mapeamento dos PEs identificados, e o terceiro reúne as considerações finais, que convocam novas investigações e reforçam a urgência de que outras óperas possam emergir; desta vez, conduzidas pelas experiências vividas por aqueles que, cotidianamente, habitam, interpretam e transformam a cena pedagógica.

Ato 1 - Partitura metodológica: composição do corpus e ritmos da análise

A presente investigação configura-se como um estudo do tipo estado do conhecimento, modalidade de levantamento bibliográfico que se distingue do estado da arte por seu recorte mais específico e delimitado. Enquanto o estado da arte busca abranger uma ampla área do saber, incluindo seus diversos aspectos e abordagens, o estado do conhecimento concentra-se em um setor particular das produções científicas, considerando um período delimitado e uma temática específica (Ferreira, 2002; Pereira, 2013). Nesse sentido, filiamo-nos às perspectivas teóricas de Romanowski e Ens (2006), bem como às contribuições de Morosini e Fernandes (2014), ao compreender que esse tipo de levantamento vai além da simples identificação das produções, envolvendo também a categorização, análise e discussão dos materiais catalogados, com o objetivo de evidenciar semelhanças, distinções e lacunas ainda existentes.

A abordagem metodológica adotada neste estudo foi organizada em cinco etapas principais para garantir a sistematização e a fidedignidade do levantamento realizado, conforme a figura 1. As quatro primeiras etapas concentraram-se na identificação e seleção das produções pertinentes, enquanto a quinta etapa voltou-se à análise qualitativa dos dados coletados.

Figura 1
Passos seguidos para a elaboração do estado do conhecimento

Inicialmente, foram mapeados os Programas de Pós-Graduação Profissionais stricto sensu da área de Ensino da Capes em atividade no Brasil, utilizando a Plataforma Sucupira (Capes, 2026) como fonte primária1. Essa plataforma, segundo Carvalho, Migliato e Argoud (2021), constitui-se em um robusto banco de dados que reúne informações sobre os cursos stricto sensu de todo o país, incluindo mestrados e doutorados acadêmicos e profissionais, além de dados sobre docentes, discentes e produção científica. Definido o universo dos Programas, procedeu-se à consulta dos repositórios institucionais vinculados a cada um deles, de forma a localizar as dissertações, teses e seus respectivos PEs.

O recorte temporal compreendido entre os anos de 2010 e 2024 foi adotado com base no marco legal estabelecido pela Lei nº 12.319 (Brasil, 2010), que regulamenta a profissão de tradutor e intérprete de Libras, conferindo maior formalização ao papel desempenhado por esses profissionais, especialmente no contexto educacional. Complementarmente, nos casos em que os PEs não estavam disponíveis nos repositórios institucionais, recorreu-se ao portal EduCapes, plataforma digital que reúne milhares de objetos educacionais de acesso aberto, incluindo teses, dissertações, materiais didáticos e outros recursos voltados ao ensino e à pesquisa. De acordo com sua própria descrição, o portal disponibiliza objetos de aprendizagem licenciados de forma aberta, sob autorização expressa dos autores ou em domínio público (Capes, 2025).

Para fins de seleção, foram consideradas apenas as dissertações e teses que apresentavam, em seus títulos, relação explícita com a disciplina de matemática, por meio da presença de termos como matrizes, divisão de números decimais, geometria, noções de função, tabelas e gráficos estatísticos, entre outros. Essa escolha visou garantir a objetividade e a precisão da amostra, assegurando que os PEs analisados abordassem diretamente conteúdos matemáticos no contexto da educação de estudantes surdos. Cada publicação está identificada por um número de 1 a 37, conforme o quadro 1, no qual também constam os respectivos Programas, Instituições, títulos das produções, títulos dos PEs, autores e referências.

Quadro 1
Trabalhos analisados

Por fim, a etapa de análise dos dados fundamentou-se em uma abordagem qualitativa, conforme defendem Borba e Araújo (2004), que destacam o caráter descritivo e interpretativo dessa perspectiva, especialmente apropriada quando se busca compreender os significados das ações e experiências envolvidas nas práticas educativas. Nesse sentido, os PEs catalogados foram categorizados e analisados com o objetivo de identificar suas principais características, bem como as possíveis contribuições do IEL e dos estudantes surdos em sua concepção e desenvolvimento.

A investigação da participação desse profissional mostra-se ainda mais relevante diante de sua centralidade no processo comunicativo com estudantes surdos em salas de aula inclusivas, potencialmente bilíngues. Isso porque, diferentemente das classes bilíngues, nas quais há acesso pleno à comunicação e à instrução em Libras, além do uso de metodologias específicas, as chamadas classes inclusivas mantêm práticas pedagógicas predominantemente orientadas aos estudantes ouvintes, restringindo, em grande medida, a comunicação do estudante surdo à mediação do IEL (Yahata; Pinto, 2020).

Ato 2 - Entre invisibilidades e potencialidades: análise crítica dos produtos educacionais voltados ao ensino de matemática para estudantes surdos

Este ato tem como objetivo analisar criticamente as características e os públicos-alvo dos PEs voltados ao ensino de matemática para estudantes surdos, com atenção especial à presença (ou ausência) de sujeitos centrais, como o estudante surdo e o IEL. A discussão está estruturada em duas subseções complementares. A primeira, intitulada Análise crítica dos títulos, natureza e públicos-alvo dos Produtos Educacionais, examina a invisibilidade recorrente do estudante surdo e do IEL nos materiais analisados e evidencia os impactos dessa exclusão na construção de práticas pedagógicas inclusivas e bilíngues. A segunda subseção, Características pedagógicas dos PEs: língua, visualidade e tecnologia na educação de surdos, é dedicada à identificação e à problematização dos elementos estruturantes dos PEs - como o uso da Libras, da visualidade e das tecnologias digitais, discutindo suas contribuições e fragilidades no que diz respeito à promoção de uma aprendizagem culturalmente sensível para estudantes surdos.

Análise crítica dos títulos, natureza e públicos-alvo dos Produtos Educacionais

A análise dos títulos dos PEs mapeados evidencia uma lacuna relevante no que se refere à explicitação de seus objetivos e públicos. Em determinados casos, observa-se que nem a disciplina de matemática nem o estudante surdo são mencionados de forma direta. Especificamente, os produtos de números 2, 3, 4, 15, 19 e 27 não fazem alusão explícita à matemática em seus títulos. De maneira análoga, os produtos 1, 3, 5, 10, 16, 18, 20, 23, 27, 29, 33 e 36 não indicam de forma clara o estudante surdo como sujeito central da proposta.

Segundo Morosini, Nascimento e Nez (2021), a correspondência entre os títulos das produções e os descritores utilizados pelo pesquisador é fundamental para sua adequada identificação em levantamentos do tipo estado do conhecimento. Assim, a escolha criteriosa dos termos que compõem os títulos torna-se importante, uma vez que tais palavras, futuramente, funcionam como descritores que afetam diretamente a localização dos materiais na literatura científica. Brandau, Monteiro e Braile (2005) reforçam essa perspectiva ao apontar que tanto os títulos quanto os descritores são determinantes para a visibilidade das produções em bases de dados acadêmicas.

Em relação à natureza dos PEs, foram identificadas três categorias: digitais, não digitais e híbridos. Os Recursos Educacionais Digitais (REDs) incluem os produtos 1, 4, 9, 14, 15, 16, 17, 21, 27, 29, 30, 31, 34, 36 e 37, abrangendo glossários em vídeo, canais no YouTube, blogs, jogos online, sites e cursos em ambientes virtuais. Conforme Dias (2023), os REDs constituem mídias ou arquivos digitais com finalidades educativas. Para Medeiros et al. (2018), embora diversos em forma e conteúdo, esses recursos compartilham a característica de serem veiculados digitalmente. A literatura aponta seu crescente uso nas escolas, promovendo metodologias inovadoras e práticas pedagógicas mais acessíveis (Guardia, 2021).

Os PEs não digitais englobam materiais como sequências didáticas, livretos, cartilhas, planos de aula e jogos físicos elaborados com materiais concretos. Já os PEs híbridos (números 7, 12 e 31) combinam recursos físicos, como listas de exercícios, e digitais, como vídeos ou aplicativos (por exemplo, o GeoGebra), compondo propostas pedagógicas que transitam entre o analógico e o digital.

Dentre os REDs, destaca-se um subconjunto formado por glossários bilíngues em vídeo (produtos 1, 4, 21, 30 e 34), que surgem em resposta à escassez de sinais específicos para a área de matemática, fator que compromete tanto a comunicação na comunidade escolar quanto a compreensão dos conteúdos por estudantes surdos (Oliveira; Stumpf, 2013). Diferentemente dos dicionários impressos, que apresentam limitações visuais, os glossários em vídeo permitem uma visualização mais fiel dos sinais, favorecendo sua apropriação por parte da comunidade surda, dado o caráter visual-espacial da Libras (Sofiato; Reily, 2014).

Embora esses glossários representem avanços significativos no campo da acessibilidade linguística, sua simples disponibilização não assegura, por si só, a compreensão efetiva dos conceitos matemáticos. Isso porque a Libras possui estrutura gramatical própria, distinta do português, exigindo abordagens metodológicas específicas e sensíveis às particularidades culturais e linguísticas da comunidade surda (Quadros, 1997, 2004; Quadros; Karnopp, 2004). Assim, tais glossários devem ser compreendidos como recursos complementares dentro de um conjunto mais amplo de estratégias pedagógicas inclusivas.

De maneira geral, os REDs têm desempenhado papel relevante no processo de ensino-aprendizagem de estudantes surdos, por ampliarem o acesso à Libras por meio de mídias digitais, softwares e plataformas. Esses recursos possibilitam diferentes formas de representação da informação, promovendo maior visualidade e favorecendo a compreensão dos conteúdos. No entanto, enfrentam limitações: frequentemente são desenvolvidos sem a participação ativa de pessoas surdas, o que compromete sua adequação pedagógica, linguística e cultural. Ademais, a simples transposição de conteúdos para vídeos não garante uma mediação didática qualificada, especialmente em disciplinas como a matemática, que exigem estratégias mais estruturadas (Yahata; Pinto, 2020).

Como afirmam Cruz, Alves e Nunes (2023), a acessibilidade digital somente se torna efetiva quando articulada a práticas pedagógicas contextualizadas, voltadas às reais necessidades da comunidade surda. Nessa direção, a análise dos públicos-alvo dos PEs revela uma tendência predominante à centralização no professor de matemática (produtos 2, 3, 5, 6, 7, 8, 10, 11, 12, 13, 19, 20, 22, 23, 24, 25, 26, 27, 28, 31, 32, 33, 35, 36 e 37). Poucos materiais são direcionados exclusivamente aos estudantes surdos (1, 9, 14, 16, 18 e 29), e apenas quatro contemplam professor e estudante simultaneamente (15, 17, 30 e 34).

A presença do IEL como sujeito formativo é ainda mais escassa, apenas os produtos 4 e 21 o incluem explicitamente como público-alvo, em conjunto com o professor. Essa lacuna evidencia uma dupla invisibilidade: a do estudante surdo enquanto sujeito autônomo e a do IEL como profissional central na mediação entre a Libras e o conteúdo curricular, sobretudo na matemática, que demanda domínio tanto da língua quanto de conceitos abstratos.

A ausência do IEL nos materiais é particularmente preocupante. Quando ignorada sua função, transfere-se toda a responsabilidade da mediação ao professor, que, muitas vezes, não tem formação específica para trabalhar com estudantes surdos. Isso perpetua práticas excludentes e dificulta a construção de metodologias inclusivas que atendam às especificidades do estudante surdo. A literatura tem destacado a necessidade de práticas que promovam a autonomia dos estudantes surdos, considerando sua primeira língua (Libras), os aspectos visuais do ensino e a língua portuguesa escrita como segunda língua (Borges; Nogueira, 2013; Yahata; Pinto, 2020). A omissão desses elementos, somada à invisibilidade do IEL, compromete a efetividade pedagógica dos PEs e perpetua barreiras ao acesso à educação.

Essa centralização no professor pode ser explicada por dois fatores interligados: a crença generalizada de que a acessibilidade é de responsabilidade exclusiva do professor, e as lacunas na formação inicial docente, que frequentemente não contempla os princípios da educação bilíngue de surdos (Segadas-Vianna et al., 2016). Nesse contexto, os PEs acabam por funcionar como complementos à prática docente, sendo frequentemente integrados à formação continuada. No entanto, ao colocar o professor como único mediador possível, reforça-se uma lógica capacitista que exclui outros sujeitos, como o IEL e os próprios estudantes surdos.

Dentre os poucos PEs que articulam ações voltadas ao professor e ao estudante, predominam os formatos digitais (blogs, sites, glossários), que disponibilizam vídeos em Libras e sinais específicos da área de matemática. Embora esses materiais ampliem a acessibilidade, ainda carecem de uma abordagem pedagógica mais consistente, que articule o conhecimento matemático às especificidades dos estudantes surdos, possibilitando uma mediação potencialmente bilíngue.

O paradoxo se acentua quando se considera o papel estratégico do IEL na mediação do conhecimento em matemática. A literatura tem destacado os desafios enfrentados por esses profissionais: a escassez de sinais específicos, a dificuldade de compreensão conceitual e a sobrecarga funcional, sobretudo em escolas onde o IEL é o único interlocutor em Libras (Abreu, 2016; Carvalho, 2017; Lobato, 2015; Martins, 2019; Smolski, 2016). Surge, então, uma indagação: como se esperar que o IEL atue de forma qualificada se sua formação raramente contempla conteúdos matemáticos e se os materiais disponíveis ignoram suas necessidades?

A exclusão do IEL dos processos formativos e da elaboração de PEs indica não apenas uma negligência institucional, mas também a reprodução de uma estrutura educacional que o posiciona como mero auxiliar técnico, desconsiderando o saber que emerge de sua atuação cotidiana ao lado dos estudantes surdos. Tal invisibilização compromete a construção de práticas pedagógicas inclusivas, pois ignora uma das vozes mais potentes e experientes na mediação entre os saberes escolares e a experiência surda. Avançar na construção de uma pedagogia inclusiva, com características bilíngues, que respeite as especificidades linguísticas e culturais dessa população requer, portanto, ampliar o escopo dos PEs, reconhecendo tanto o IEL quanto o estudante surdo como sujeitos centrais, ativos e coautores na cena educacional.

Características pedagógicas dos Produtos Educacionais: língua, visualidade e tecnologia na educação de surdos

Os autores dos PEs analisados destacam três aspectos pedagógicos centrais: (i) o uso da Libras como primeira língua; (ii) a exploração da visualidade; e (iii) o emprego de tecnologias como recurso metodológico. Tais elementos conferem aos materiais uma potencialidade bilíngue, ao atenderem às especificidades linguísticas e cognitivas dos estudantes surdos. No entanto, a presença isolada desses aspectos não garante, por si só, a construção de uma educação inclusiva, sendo necessário problematizar como esses recursos são concebidos e utilizados.

Para Skliar (1997), a principal característica da comunidade surda é a apropriação de uma língua de sinais, elemento central de sua identidade. De acordo com o Decreto nº 5.626 (Brasil, 2005), principal norma que regulamenta o uso da Libras como meio legal de comunicação e expressão, considera-se pessoa surda aquela que compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais e manifesta sua cultura, sobretudo, pelo uso da Libras. A Libras não é apenas um meio de comunicação; ela também expressa valores culturais e modos próprios de ser e estar no mundo. Nesse sentido, os autores dos produtos 6, 8, 9, 10, 11, 14, 15, 19, 22 e 37 enfatizam que a Libras é fundamental para o desenvolvimento comunicativo e cognitivo dos estudantes surdos. Seu uso no cotidiano escolar é condição indispensável para a promoção da equidade educacional.

Borges e Nogueira (2013), Pagliaro e Kritzer (2013) e Yahata e Pinto (2020) apontam que muitas das dificuldades enfrentadas por estudantes surdos na matemática decorrem de entraves linguísticos. Cardoso (2023), autor do PE 6, destaca que o estudante surdo adquire inicialmente a Libras, para então desenvolver competência na língua portuguesa escrita, e que essa mediação depende tanto da presença do IEL quanto da existência de materiais acessíveis. Tal concepção está em consonância com a Lei nº 14.191 (Brasil, 2021), que estabelece a educação bilíngue de surdos como modalidade, assegurando a Libras como primeira língua e o português escrito como segunda.

Outro aspecto recorrente é a ênfase na visualidade, destacada nos produtos 2, 9, 11, 15, 17, 32 e 37 como elemento estruturante dos materiais destinados a estudantes surdos. Conforme Campello (2008) e Segadas-Vianna et al. (2016), a visualidade é essencial à construção de sentidos, pois está diretamente relacionada às características visuoespaciais da Libras. Contudo, os autores dos produtos 6 e 9 alertam que é necessário superar a lógica da simples adaptação de materiais pensados para ouvintes. Defendem, ao contrário, a produção de recursos específicos, que respeitem as formas próprias de aprendizado dos estudantes surdos. Os produtos 10 e 37, por exemplo, evidenciam a importância de materiais manipuláveis que estimulem a curiosidade, promovam experiências concretas e favoreçam o raciocínio matemático. Assim, os recursos visuais não devem ser vistos como adornos, mas como recursos centrais na mediação do conhecimento.

Quanto ao uso das tecnologias digitais, os produtos 3, 7, 9, 11, 12, 17, 29 e 32 apontam seu potencial em ampliar as possibilidades pedagógicas, promovendo comunicação, interatividade e visualidade. No ensino da matemática, esses recursos ajudam a representar conceitos abstratos, tornando as aulas mais dinâmicas e acessíveis (Borges; Nogueira, 2013). Todavia, os autores também destacam entraves estruturais, como a precariedade da infraestrutura escolar, a escassez de equipamentos e o despreparo docente para o uso qualificado da tecnologia.

Zwan (2016), autor do PE 29, defende que a tecnologia deve ser compreendida como aliada do professor, enriquecendo o ambiente educativo e favorecendo a participação ativa dos estudantes surdos. Em linha semelhante, Guardia (2021), autor do PE 32, argumenta que a tecnologia representa uma oportunidade concreta de inclusão, ao criar meios para que estudantes surdos atinjam seus objetivos educacionais.

Apesar dessas contribuições, observa-se uma baixa participação efetiva de sujeitos surdos e de IELs na elaboração dos PEs. Embora os discursos sobre a centralidade da cultura surda sejam frequentes, essa centralidade raramente se concretiza na prática. Os estudantes surdos, quando participam das pesquisas, tendem a ser colocados em atividades previamente elaboradas, sem espaço para expressar suas experiências ou dificuldades em relação à matemática.

Quanto ao IEL, sua presença nos estudos é igualmente negligenciada. Apesar de sua importância no cotidiano escolar dos estudantes surdos, sua experiência e conhecimento raramente são considerados. Essa omissão aponta para uma contradição: ao mesmo tempo em que o IEL é reconhecido como mediador essencial, sua formação e atuação seguem invisibilizadas. Essa lacuna evidencia a necessidade de se repensar não apenas o conteúdo e a forma dos materiais, mas também os processos que os originam, garantindo escuta ativa e participação efetiva de todos os sujeitos envolvidos na educação inclusiva de surdos.

Ato 3 - Notas finais de uma ópera inacabada: a educação de surdos entre recursos e resistências

Esta pesquisa teve como objetivo geral construir um estado do conhecimento acerca dos PEs oriundos dos Programas Profissionais de Pós-Graduação na Área de Ensino da Capes, com foco nos materiais voltados ao ensino de matemática para estudantes surdos. Buscou-se identificar as principais características desses produtos, bem como investigar a participação dos IELs e estudantes surdos em sua elaboração, respondendo às seguintes questões: quais são as principais características dos PEs destinados ao ensino de matemática para estudantes surdos? É possível identificar a participação dos IELs e estudantes surdos na elaboração desses PEs?

A partir de uma abordagem qualitativa, foram realizadas análises e discussões críticas sobre os PEs encontrados, com especial atenção à visibilidade dos sujeitos envolvidos e às estratégias didáticas empregadas. Constatou-se que muitos dos PEs analisados não explicitam, em seus títulos, a articulação entre matemática e a comunidade surda, o que dificulta sua identificação em pesquisas por palavras-chave. Foi necessário, portanto, rastrear esses materiais por meio das dissertações e teses às quais estão vinculados, como descrito na seção metodológica.

No que diz respeito à natureza dos PEs, observou-se um equilíbrio entre recursos digitais e não digitais, com apenas três materiais classificados como híbridos. Entre os recursos digitais, destacaram-se os glossários bilíngues (Língua Portuguesa e Libras), que, ao utilizarem vídeos em Libras, mostram-se sensíveis às especificidades linguísticas e visuais do estudante surdo, diferentemente dos glossários impressos, que enfrentam limitações inerentes à transposição de uma língua visuoespacial para o suporte escrito.

Um dado particularmente relevante refere-se ao público-alvo desses materiais. Observa-se que a maioria dos PEs é voltada aos professores, enquanto apenas uma pequena parcela é direcionada diretamente aos estudantes surdos. Essa disparidade evidencia uma preocupação maior em subsidiar o trabalho docente do que em garantir o acesso autônomo dos estudantes ao conhecimento. Tal cenário se explica, em parte, pela constatação dos próprios autores de que muitos materiais didáticos disponíveis não são metodologicamente adequados para que os estudantes surdos possam conduzir sua aprendizagem de forma independente, tornando necessária a mediação constante do professor ou do IEL. Assim, diante da percepção de que o estudante surdo não teria condições de utilizar os materiais sozinho, por conta de sua inadequação linguística ou pedagógica, opta-se por direcioná-los exclusivamente ao professor. No entanto, mesmo considerando o papel fundamental do IEL nesse processo de mediação, poucos PEs são pensados para apoiar ou potencializar sua atuação. Essa ausência aponta para uma invisibilidade que não é apenas profissional, mas também científica e política, ao silenciar um sujeito que ocupa um lugar estratégico na construção de práticas pedagógicas inclusivas.

Emergiram da análise três características consideradas fundamentais pelos autores dos PEs para a efetividade do ensino de matemática para surdos: (1) o uso da Libras, tanto na mediação do conteúdo quanto na linguagem dos próprios materiais, como garantia legal e ética de acesso linguístico, em conformidade com a Lei 14.191 (Brasil, 2021); (2) a valorização da visualidade nos recursos educacionais, respeitando uma das principais formas de apreensão do mundo pelo sujeito surdo; e (3) o uso das tecnologias digitais como recurso de inclusão e potencialização do processo de ensino-aprendizagem, ao possibilitar, por exemplo, maior interatividade, dinamismo e acessibilidade nos conteúdos.

Contudo, ainda que os PEs tenham como público-alvo o estudante surdo, sua voz raramente é considerada nos processos de concepção e elaboração desses materiais. Ocupando um lugar periférico, quase sempre silenciado, o estudante surdo figura como destinatário, mas não como sujeito ativo da construção de recursos que deveriam atender às suas especificidades linguísticas, culturais e cognitivas. Suas experiências, modos de aprender, percepções visuais e estratégias comunicacionais são frequentemente intuídas por outrem, e não expressas a partir de sua própria vivência. Essa marginalização evidencia uma contradição fundamental: constrói-se para o estudante surdo, mas raramente com ele.

É preciso, portanto, deslocar essa lógica e reconhecer o estudante surdo como protagonista legítimo na criação de práticas pedagógicas e materiais que, para serem realmente significativos, devem nascer do diálogo com sua cultura visual, com sua forma própria de estar, ler e interpretar o mundo (Freire, 2019). Inspirada na perspectiva freireana, essa mudança exige o rompimento com modelos que tratam o estudante surdo como mero receptor de conteúdos, valorizando, em vez disso, sua experiência, sua língua e sua capacidade de construir conhecimento em diálogo com o outro.

Nesse cenário de silenciamento, o IEL também ocupa uma posição ambígua: embora esteja imerso no cotidiano escolar e atue como elo comunicacional entre o professor ouvinte e o estudante surdo, sua experiência raramente é convocada nos processos de elaboração dos PEs. O IEL, que presencia de forma contínua os desafios, as lacunas e as possibilidades reais da mediação pedagógica em sala de aula, possui um saber construído na prática, atento às nuances da aprendizagem do estudante surdo - saber esse que permanece à margem. Sua atuação, marcada por tensões e contradições entre a tradução e a mediação, entre a neutralidade esperada e a intervenção necessária, precisa ser ressignificada. É urgente reconhecer o IEL como sujeito epistêmico e agente formativo, cuja escuta e participação podem enriquecer de forma decisiva a construção de materiais mais coerentes com as demandas de uma educação potencialmente bilíngue e inclusiva.

Nesse processo, o ensino da matemática se impõe como um campo que amplifica os desafios já mencionados. Com sua linguagem simbólica, seus teoremas e abstrações, essa disciplina exige abordagens didáticas específicas, que considerem a experiência visual e cultural dos estudantes surdos. Ensinar matemática a esse público vai além da tradução de conteúdos, mas requer práticas que respeitem a singularidade da experiência surda, dialoguem com sua cultura e sejam permeadas pela Libras, por materiais visuais e por tecnologias acessíveis. Dificilmente um recurso didático, se trabalhado de forma isolada, será suficiente. O verdadeiro desafio está na forma como esse recurso é utilizado, nos métodos empregados e, sobretudo, no reconhecimento das vivências desses sujeitos historicamente silenciados.

A escola, nesse contexto, não pode se limitar a transpor metodologias pensadas para ouvintes. Deve, ao contrário, reinventar-se constantemente, promovendo espaços de trocas, criação e pertencimento para os estudantes surdos. A identidade surda, constituída dentro de uma cultura visual, exige uma pedagogia que vá além da simples tradução: uma pedagogia que celebre a diferença como potência e que reconheça o valor da multiplicidade de olhares.

Assim, ao final desta pesquisa, retornamos à metáfora que a guiou desde o início. A produção de um PE é como a escrita de uma ópera. Cada cena, cada personagem, cada escolha estética e didática compõem uma grande obra coletiva, repleta de tensões, ausências e harmonias. Mas, diferentemente de algumas óperas trágicas em que certas vozes permanecem silenciadas até o fim, esta pesquisa propõe uma ruptura no roteiro: que o IEL possa subir ao palco, não apenas como figura de apoio, mas como intérprete protagonista de uma nova narrativa pedagógica. Que os estudantes surdos possam ser vistos não como platéia passiva, mas como agentes ativos da cena educativa. Que os professores, diretores, pesquisadores e (re)formuladores de políticas públicas deixem de reger a ópera sozinhos e abram espaço para a construção de uma sinfonia inclusiva, onde todas as vozes, sobretudo aquelas historicamente abafadas, possam ser respeitadas e celebradas.

Esta pesquisa, portanto, não se propõe a dar um ponto final ao enredo. Ao invés disso, deseja ser o prólogo de novas investigações, de novas partituras e de novas cenas em que o ensino de matemática para surdos possa se revelar, enfim, como um espetáculo de justiça, sensibilidade e transformação. Que outras óperas possam emergir, compostas a muitas mãos, regidas pelas experiências concretas de estudantes surdos, IELs, professores e demais sujeitos que constroem cotidianamente os bastidores da inclusão. É preciso que novas vozes ocupem o centro do palco, que os silenciamentos sejam rompidos e que as histórias educacionais deixem de ser compostas apenas por solos, para se tornarem polifonias potentes. Que cada nova produção pedagógica (re)conheça a singularidade da experiência surda, esteja aberto para compartilhar os saberes da prática e se comprometa com a construção de uma escola que não apenas acolha, mas celebre a diferença como parte essencial da sua harmonia.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Os dados da pesquisa estão incluídos no próprio texto do manuscrito.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Abr 2025
  • Aceito
    30 Out 2025
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