Open-access Experimentando conceitos – A invenção do impossível: gênero e as poéticas de abertura

Gomes Pereira, Pedro Paulo. A invenção do impossível: gênero e as poéticas de abertura. São Paulo: Annablume, 2023

Em um pequeno, mas denso texto, escrito como prefácio a Queer in the tropics, Judith Butler (2019) lembra da proposta de Pedro Paulo Gomes Pereira, de “experimentar conceitos”. A filósofa norte-americana comenta ainda sobre a “vasta contribuição para a teoria de gênero” realizada por ele (Butler, 2019:xv). Essas afirmações, vindas de uma das maiores teóricas contemporâneas, levaram-me a tentar localizar, na obra de Pedro Paulo, esse “experimentar” e, mesmo, sua contribuição para os estudos de gênero de que fala Butler. Foi justamente nessa busca que me deparei com A invenção do impossível: gênero e as poéticas de abertura, sua tese de titularidade, publicada em 2023 pela editora Annablume – na qual o autor retoma e amplia a sua formulação sobre “experiência”.

A primeira dimensão do que Pedro Paulo denomina de “experiência” está no fazer etnográfico. Ele argumenta, de início, que há uma dimensão de temporalidade nesse fazer, pois experiências que surgiram em uma pesquisa refletem na outra e podem ser lembradas e reinterpretadas (Peirano, 2008; 2014). Por exemplo, ele transita da brilhante etnografia tramada em um abrigo para pessoas vivendo com HIV (Pereira, 2004), entre 1998 e 2000, para uma pesquisa que orientou, sobre itinerários das travestis de Santa Maria, Rio Grande do Sul (cujos achados estão presentes nos capítulos 1 e 2 de A invenção do impossível). Aponta, também, como essas experiências o conduziram ao centro de São Paulo e às travestis na Cracolândia (capítulo 3). Há, contudo, outra dimensão do fazer etnográfico sobre a qual também comenta.

Pedro Paulo nos convida ao deslocamento, a seguir seus movimentos entre campo e processos de reelaboração, nos quais é interpelado por pesquisadores, gestores e profissionais de saúde que lhe propõe desafios e demandam pesquisas colaborativas. Esses/as pesquisadores/as, gestores/as, profissionais de saúde e corpos e subjetividades dissidentes trazem suas experiências, ingredientes de um cotidiano com muitos problemas – no trabalho, no dia a dia, nos relacionamentos, nas formas de cuidado, nas mudanças corporais –, e formulam teorias para enfrentamento dos dilemas e dos obstáculos, em reflexões sobre o que sentem ou fazem. Afetado por esse processo, buscando registrar o que falavam, Pedro Paulo vai nomear essa composição de uma “antropologia interpelada”. E é no processo do fazer etnográfico que vai aprendendo algo sobre as “poéticas de abertura”.

Esse modo de fazer junto pode ser acompanhado por todo o livro. Por exemplo, no decorrer de uma pesquisa na cidade de Santa Maria (RS), ele é enredado nas experiências e invenções de corpos dissidentes, sendo desafiado pelos processos de invenção dos corpos de travestis, “percorrendo algo de sua economia estilística, da fabricação de beleza, da invenção de complexas formas de incorporação em suas experiências de trânsito e fluxo” (Pereira, 2023:31). Essa experiência o faz prestar mais atenção naquilo que denomina “poética dos corpos dissidentes” e em suas possibilidades de reinvenções ‒ uma poética de imaginação desestabilizadora. Logo no segundo capítulo, As incorporações e suas poéticas, as invenções poéticas tomam o primeiro plano da argumentação do livro, e Pedro Paulo passa a desenhar a questão das poéticas de abertura.

No capítulo seguinte, o autor entra no fluxo das experiências na Cracolândia. Ao acompanhar as travestis envolvidas na cena de crack no centro da cidade de São Paulo e ao atender a demandas de gestores e pesquisadores da área, ele se encontra com as construções de gênero das travestis no local. O capítulo Espaço, corpo e gesto delineia essas inextricáveis relações. Pedro Paulo descreve como, à medida que vão se aprofundando na imersão no fluxo, as pessoas modificam seus corpos, e a cidade atua sobre os corpos e transforma-os. Nas travestis, os corpos transformados no fluxo se distanciam do ideal da beleza e de sua poética da reinvenção, como visto em Santa Maria. No entanto, os corpos dissidentes mudam a paisagem, e os gestos assinalam outra poética e apontam uma possibilidade de vida. Essa poética, constituída de potências da vida, resulta em (re)invenções. Em face delas, ele se pergunta sobre a possibilidade de pensar gênero como abertura. Os assassinatos de algumas das travestis, em Santa Maria, depois de terminada a pesquisa que ele coordenava, produziram novos movimentos. Os processos de incorporação aprendidos com elas formaram trilhas, e Pedro Paulo segue, no penúltimo capítulo, essa série de assassinatos e narrativas sobre violência em Santa Maria, sempre procurando ver para onde esses eventos e essas histórias levam.

Esse percurso vai revelando o outro sentido do “experienciar” – o de “experimentar conceitos”, tal como salientou Butler (2019). Evidentemente, essas dimensões da experiência devem ser imaginadas sempre juntas, pois, como já salientei, foram as experiências de uma “antropologia interpelada” (de uma “antropologia com”) que possibilitaram a Pedro Paulo provocar o próprio conceito de gênero.

Por meio da reflexão sobre essas experiências e do acompanhamento das invenções dos corpos e das subjetividades dissidentes, ele descreve as poéticas desestabilizadoras do regramento das subjetividades. A provocação é pensar gênero não como norma, mas como “abertura, devir e capacidade de escapar das normas que atuariam para estancar a reinvenção poética de novas formas de subjetivação” (Deslandes, 2023:14).

Em diálogo com Butler, Pedro Paulo vai propor uma inversão. Como se sabe, gênero se consolida na obra de Butler (1993) como algo da ordem do regulatório. A performatividade de gênero não pode ser teorizada separadamente da prática forçosa e reiterativa dos regimes sexuais regulatórios. Butler (2006) alerta, também, que as normas podem desconectar-se, mostrar sua instabilidade e abrir-se à ressignificação, pois o desejo não está inteiramente determinado, nem a sexualidade chega a ser capturada totalmente numa regra. A sexualidade nunca pode reduzir-se ao efeito de uma regra. Há, assim, espaço para fugas e aberturas. Ao seguir este último movimento de Butler, a instigante proposta do autor é: e se colocarmos o desejo como prioritário, e não as normas e o poder? Consequentemente, quem sabe, possamos trocar as metáforas de “recipiente” ou de arquitetura (como as de Butler e de Foucault) para tropos de fuga, de gás e de fluxos? Gênero não poderia ser definido como abertura?

Sem se preocupar com a elaboração de uma resposta, a narrativa de Pedro Paulo vai nos convencendo de que, se pensarmos na intensidade e nas potências das aberturas poéticas, não haveria como definir gênero sem, no mínimo, dizer que essa abertura o revelaria em igual proporção às estruturas, às normas e aos atos. E indaga: o que as normas fazem? Não seria, também, estancar, tapar, vedar as possibilidades, ainda que sob violência, que as aberturas insistem em enunciar? Convém lembrar que a abertura nunca é o constituído (de alguma forma, já envolto nas normas), mas uma instância que assinala a possiblidade de invenção e transformação. Para ele, o que a abertura assinala “é o devir: há sempre um mais além” (Pereira, 2023:32).

Os corpos e as subjetividades dissidentes inventam outras possibilidades ainda não imaginadas, outros prazeres, e indicam que há sempre a pressuposição de falha (dos atos repetitivos), sempre um lapso que as normas não alcançam totalmente; há sempre algo que escapa – uma abertura que aponta uma política do impossível. A potência da teoria estaria em apontar para o impossível, assinalar a sua possibilidade e afirmar que ele é a condição da ação. A invenção do impossível seria constituída pelos movimentos das poéticas de abertura de gênero, capazes de desestabilizar as relações de poder; capazes, mesmo, de inventar um ‘fora do poder’. A contribuição de Pedro Paulo para o conceito de gênero seria, então, uma proposta de inversão: não focalizar as normas no processo de definição, mas as aberturas poéticas.

Para evitar qualquer uso descontextualizado do que propõe, no capítulo final, o autor se pergunta como evitar que a universalidade da aplicação de conceitos, como o de gênero, não acabe por violentar as categorias locais. Questiona-se sobre qual o sentido de perceber o conceito de gênero sempre como ponto de partida (anterior aos encontros), e não como um complexo processo de tradução em que o conceito se expanda, adquira outros sentidos não previstos. Talvez o objetivo seja o de assinalar formas de evitarmos aquela aplicação de teorias que geralmente se materializa em frases com “de acordo com”, seguidas de um resumo de uma teoria a ser aplicada em um contexto. Ao invés de simplesmente aplicar, torcer, movimentar e reinventar, em formas de aproximações que nos possibilitem (a todas e todos) aprender com as poéticas de abertura e com suas invenções do impossível. Aqui novamente percebemos que a reflexão de gênero como abertura é uma provocação, um chamado para evitarmos certa reificação do conceito.

Enfim, Pedro Paulo nos leva a indagar sobre a forma como manejamos teorias e sobre os movimentos dos conceitos, sobre as experiências de campo e sobre experimentar outros conceitos, provocando-nos, assim, a repensar o conceito de gênero. De minha parte, não obstante às provocações do autor, percebo que há um longo caminho, ainda, de pesquisas e debates teóricos que devemos percorrer. E se o antropólogo se afetou pelas invenções dos corpos dissidentes, cabe-nos a tarefa de nos perguntar, como o fez Deslandes (2013), se seria possível a invenção do impossível. Pedro Paulo me encanta ao sinalizar os desafios dessa dimensão, ao falar em “humildade e atenção [...] diante das possibilidades e dos contextos” (2013:130).

Creio que A invenção do impossível pode ser lido como um convite para atrair nosso olhar para determinados movimentos, experiências e temas contemporâneos; não uma proposta que procura redefinir de vez conceitos, e sim um olhar inquieto de quem compartilha suas experiências e nos instiga à experimentação; uma abertura ao diálogo, e não um discurso prescritivo; perguntas em fluxo, sem respostas prontas e estáveis, mas um chamado a repensar, a reinventar – como que atendendo ao clamor de Cecília Meireles (2001:411), para quem “a vida só é possível reinventada”.

Referências bibliográficas

  • BUTLER, Judith. Foreword - Experiencing Other Concepts. In: PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. Queer in the Tropics: Gender and Sexuality in the Global South. Cham Switzerland, Springer, 2019, pp.xiii-xv.
  • BUTLER, Judith. Deshacer el género Barcelona, Paidós, 2006.
  • BUTLER, Judith. Bodies that matter: On the discursive limits of sex New York, Routledge, 1993.
  • DESLANDES, Keila. Prefácio. In: PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. A invenção do impossível: gênero e as poéticas de abertura. São Paulo, Annablume, 2023, pp.13-15.
  • MEIRELES, Cecília. Poesia Completa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2001.
  • PEIRANO, Mariza. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, 20(42), 2014, pp.377-391 [ https://doi.org/10.1590/s0104-71832014000200015 - acesso em 02 abr. 2024].
    » https://doi.org/10.1590/s0104-71832014000200015
  • PEIRANO, Mariza. Etnografia, ou a teoria vivida. Ponto Urbe (2), 2008, pp.2-9 [ https://doi.org/10.4000/pontourbe.1890 - acesso em 02 abr. 2024].
    » https://doi.org/10.4000/pontourbe.1890
  • PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. A invenção do impossível: gênero e as poéticas de abertura. São Paulo, Annablume, 2023.
  • PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. O terror e a dádiva. Goiânia, Cânone e Vieira, 2004.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Out 2024
  • Data do Fascículo
    Set 2024

Histórico

  • Recebido
    12 Abr 2024
  • Aceito
    06 Maio 2024
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