Open-access Rede de correlações entre qualidade de vida, resiliência e desequilíbrio esforço-recompensa em policiais militares

Resumo

Objetivo:   Analisar a rede de correlações entre as dimensões do Modelo Desequilíbrio Esforço-Recompensa (DER), resiliência e qualidade de vida em policiais militares.

Método:   Estudo transversal realizado com 258 policiais do Batalhão de Operações Especiais (BOE) da Polícia Militar de uma cidade do Rio Grande do Sul. As escalas do Modelo DER, de resiliência e World Health Quality of Life (WHOQOL-bref) avaliaram o estresse psicossocial, resiliência e qualidade de vida. Foram realizadas estatísticas descritiva e analítica, com análise de rede.

Resultados:   As dimensões do Modelo DER e a resiliência se correlacionaram com todos os domínios do WHOQOL (p<0,001). O modelo de rede indicou associação negativa entre o esforço, o excesso de comprometimento e os domínios físico e meio ambiente. O domínio meio ambiente foi associado positivamente à recompensa, e a resiliência associou-se positivamente com os domínios geral, físico e psicológico.

Conclusão:   Concluiu-se que o estresse psicossocial interfere na qualidade de vida dos policiais militares e a resiliência pode atuar como um fator de proteção.

Palavras-chave
Saúde do trabalhador; Polícia; Resiliência psicológica; Estresse psicológico; Qualidade de vida

Abstract

Objective:   To analyze the network of correlations between the realms of the Effor t-Reward Imbalance (ERI) model, resilience, and quality of life among military police officers.

Method:   This is a cross-sectional study conducted with 258 police officers from the Special Opera tions Battalion of the Military Police in a city in Rio Grande do Sul, Brazil. The scales of the ERI model, resilience, and World Health Quality of Life (WHOQOL-bref) assessed psychosocial stress, resilience, and quality of life. Descriptive and analytical statistics were performed em ploying the network analysis.

Results:   The realms of the ERI model and resilience correlated with all the WHOQOL’s realms (p<0.001). The network model showed a negative association between effort, overcommitment, and physical and environmental realms. The environmental realm was positively associated with reward, while resilience was positively associated with the general, physical, and psychological realms.

Conclusion:   We concluded that psychosocial stress interferes in the quality of life of military police officers, and resi lience may work as a protective factor.

Key words:
Occupational health; Police; Resilience; Psychological; Stress; Quality of life.

Introdução

O trabalho policial, em todos os países do mundo é caracterizado pela exposição ao estresse e risco de morte1-3, principalmente entre policiais militares. O nível de estresse é superior ao de outras categorias profissionais devido às características das atividades realizadas, à sobrecarga de trabalho, às relações interpessoais, à baixa remuneração4, e às precárias condições de trabalho5.

Congregado a estas condições, a violência urbana é um dos grandes problemas sociais de países pobres e desiguais6. No Brasil, há forte relação entre espaço geográfico e criminalidade, visto que nas regiões onde há maior taxa de urbanização e densidade demográfica há maior prevalência de violências7. Além do mais, as precárias condições de trabalho e a responsabilidade com a segurança pública em um contexto de grande criminalidade no país demonstram um alto empenho exercido e baixas recompensas, que podem levar à situação de estresse psicossocial.

A avaliação do estresse psicossocial pode ser realizada pelo Modelo Desequilíbrio Esforço-Recompensa (DER), desenvolvido para identificar efeitos adversos à saúde ante a estressores laborais e condições precárias no mundo do trabalho em países desenvolvidos e em rápido desenvolvimento. Postula que a falta de reciprocidade no trabalho, caracterizado pelo “alto custo/baixo ganho”, ou seja, a frustração de recompensas após esforços apropriados, aumenta o risco de transtornos relacionados ao estresse8.

O estresse psicossocial pode estar associado a fatores organizacionais do trabalho e a aspectos individuais e subjetivos dos profissionais, especialmente a resiliência, caracterizada pela adaptação criativa e individual frente aos riscos e adversidades do cotidiano do trabalho9. Dessa forma, a resiliência é importante para a saúde mental dos trabalhadores, e se constitui como um fator de proteção contra o estresse laboral9 e um dispositivo de melhoria da qualidade de vida.

O conceito de qualidade de vida é subjetivo, multidimensional e inclui elementos positivos e negativos. É caracterizado pela percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura, nos sistemas de valores nos quais vive e na relação com seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações10. É um conceito amplo e complexo, que engloba a saúde física, estado psicológico, nível de independência, relações sociais, crenças pessoais e relação com as características do meio ambiente11.

Ao longo dos últimos anos foram realizados poucos estudos no Brasil e no mundo sobre resiliência em policiais12, alterações psíquicas e sua relação com qualidade de vida2,13. Assim, a relação entre as dimensões do Modelo DER, resiliência e qualidade de vida em policiais militares permanece como lacuna na produção do conhecimento.

Nesta perspectiva, a polícia militar representa um coletivo vulnerável de trabalhadores, que sente o impacto negativo da atividade laboral na saúde e na qualidade de vida. Este efeito é agravado pelos acréscimos permanentes na responsabilidade de zelar pela segurança da população, em contraponto do aumento da criminalidade e diminuição dos investimentos na segurança pública nos últimos anos no Brasil. Este desnível entre a alta demanda dos profissionais, associado às baixas recompensas, podem ser fatores de risco para o desenvolvimento de estresse psicossocial e prejuízos à qualidade de vida. Ante o exposto, este estudo tem como objetivo analisar a rede de correlações entre as dimensões do Modelo DER, resiliência e qualidade de vida em policiais militares.

Método

Estudo transversal realizado no Batalhão de Operações Especiais (BOE) da Polícia Militar de uma cidade de grande porte populacional do estado do Rio Grande do Sul. A população do estudo era composta de 416 policiais. Foram incluídos na amostra os sujeitos ativos, na faixa etária entre 18 e 65 anos, lotados no BOE. Estabeleceram-se como critérios de exclusão da amostra os policiais afastados da sua função ou em licença por qualquer motivo no período de coleta dos dados, os com tempo de trabalho inferior a um ano na corporação, e os do sexo feminino, por ser inferior a 5% da amostra. Com base nesses critérios, a população elegível do estudo foi de 263 policiais militares. Todos os sujeitos elegíveis foram abordados. Destes, 258 responderam o instrumento de coleta de dados.

Sobre os dados, referiu-se a coletas de informações relativas às características sociolaborais, estresse psicossocial e resiliência, no ano de 2013, na sede do BOE.

Os dados sociolaborais compreenderam a idade, situação conjugal, posto/graduação, tempo de trabalho na função, trabalho em outro lugar, horas extras, turno de trabalho, tabagismo, horas de sono, problemas de saúde, lazer, medidas antropométricas e cardiovasculares (pressão arterial, peso, altura, índice de massa corporal, circunferência abdominal, circunferência do quadril).

O estresse psicossocial foi mensurado por meio da escala do Modelo Desequilíbrio Esforço- Recompensa (DER), versão curta14, validada no Brasil15 e considerada confiável (α=0,703). Realizou-se, neste estudo, a análise fatorial da escala, na qual as questões ficaram agrupadas em três fatores: recompensa, esforço e excesso de comprometimento. Os dados das três dimensões foram analisados de modo contínuos.

Para avaliar a resiliência usou-se o instrumento desenvolvido por Wagnild e Young16, validado no Brasil17. O instrumento World Health Quality of Life (WHOQOL-bref) foi utilizado para avaliação da qualidade de vida, desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde e adaptado e validado no Brasil18. O WHOQOL-bref possui 26 questões agrupadas em cinco domínios: físico (DF), psicológico (DP), relações sociais (DRS), meio ambiente (DMA) e geral (DG).

Os dados coletados foram organizados em planilhas no programa Excel®. Em seguida, realizou-se a transposição deles no programa SPSS® (Statistical Package for the Social Sciences, SPSS Inc, Chicago) versão 18.0 para Windows. Por conseguinte, analisados por meio de técnicas de estatística descritiva e inferencial. As variáveis categóricas foram apresentadas com frequências absolutas e relativas. As variáveis contínuas, apresentadas como medidas de tendência central (média e mediana) e de dispersão (desvio-padrão e intervalos quartis). Realizou-se o teste de normalidade de Shapiro-Wilk para verificar a distribuição das variáveis, além dos valores de assimetria e curtose. O teste t de Student foi utilizado para associação entre variáveis com distribuição simétrica, enquanto que para assimétrica utilizou-se o Mann-Whitney. Foram realizadas correlações bivariadas de Pearson (para variáveis simétricas) e de Spearman (para variáveis assimétricas) para avaliar a relação entre variáveis contínuas e o desfecho qualidade de vida.

Para investigar as relações entre os domínios de qualidade de vida, a resiliência e as dimensões do Modelo DER, foi conduzida uma análise de rede que compreende duas etapas: a primeira consiste em estimar a matriz de correlações parciais regularizadas; a segunda representa a matriz de correlações parciais em um plano bidimensional em um objeto gráfico. Vértices representam as variáveis investigadas e arestas representam a relação parcial entre elas, podendo variar em espessura (magnitude) e padrão (positiva ou negativa). Um algoritmo de posicionamento é utilizado, no qual aproxima/afasta as variáveis em função de sua associação19. Medidas descritivas da rede também foram reportadas, o que indica o nível de associação e influência esperada de cada variável.

Por fim, foram conduzidas análises de comunidades para identificar subgrupos presentes dentro do sistema. O algoritmo utilizado foi um método hierárquico20, o qual se baseia na otimização da medida de modularidade (associação intravértices), partindo do modelo mais simples, de um agrupamento, seguindo para a divisão do grafo em n subgrupos. O número de agrupamentos é definido pelo menor valor da modularidade. Esta análise teve por objetivo identificar agrupamentos de preditores no sistema investigado.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Foram respeitados os princípios éticos e todos os sujeitos que participaram da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

Os policiais militares apresentaram mediana de 36 anos de idade (31-45), 11 anos de estudo (11-13) e 1 filho (0-2). O maior percentual possuía companheiro (69,0%), era soldado (75,1%), possuía outro emprego (61,6%) e realizava horas extras (67,4%). Quando avaliado o estilo de vida, os policiais apresentaram mediana de 6 horas de sono diárias (6-7), 89,5% não era tabagista, 64% possuíam pouco tempo para lazer, 23,8% apresentavam problemas de saúde e 15,5% faziam uso de medicações.

Com relação às características antropométricas e cardiovasculares dos policiais, a mediana da pressão sistólica foi 134 mmHg (125;145); pressão diastólica 86 mmHg (77,75; 94,0); circunferência abdominal 91,5 cm (85,75; 97); e circunferência do quadril 103 cm (99; 108). O peso e a altura apresentaram as médias 84,6±10,6 kg e 176,6±6,2,4 cm, respectivamente.

Os policiais que não apresentavam problemas de saúde, que não faziam uso de medicamentos e que não trabalhavam em outro emprego apresentaram maiores médias no domínio físico (DF) do WHOQOL-breve (p<0,05). Houve correlação entre as variáveis peso (r=-0,148; p=0,020), circunferência abdominal (r=-0,193; p=0,002) variável hora de sono (r=0,180; p=0,005) e o DF. O domínio psicológico (DP) apresentou maiores médias para os polìciais não fumantes, sem companheiro, que não apresentavam problemas de saúde e não possuíam outro emprego (p<0,05).

Os policiais com problemas de saúde e com outro trabalho apresentaram menores médias no domínio das relações sociais (DRS) (p<0,05). O mesmo domínio se correlacionou inversamente com a circunferência abdominal (r=-0,150; p=0,018). O domínio meio ambiente (DMA) apresentou maiores médias para a categoria trabalho diurno (p=0,037) e correlacionou-se com a satisfação com a remuneração (r=0,325; p<0,001).

O domínio geral (DG) do WHOQOL apresentou maiores médias para os policiais não tabagistas, que não possuíam problemas de saúde, não faziam uso de medicações e que trabalhavam no turno diurno. Adicionalmente, apresentou correlação com circunferência abdominal (r=-0,143; 0,021), pressão arterial sistólica (r=0,136; p=0,039) e horas de sono (r=0,203;p=0,001).

As dimensões recompensa (R) e esforço (E) do Modelo DER, o excesso de comprometimento (EC) e a resiliência (Res) correlacionaram-se com todos os domínios do WHOQOL (p<0,001), conforme Tabela 1.

Tabela 1
Distribuição dos domínios da qualidade de vida (WHOQOL-bref), segundo variáveis laborais e de estilo de vida. Porto Alegre, RS, Brasil, 2013 (n=258).

A rede de correlações parciais regularizadas entre os domínios de qualidade de vida, resiliência e as dimensões do Modelo DER é representada na Figura 1.

Figura 1
Rede de correlações parciais regularizadas entre os domínios de qualidade de vida (DF, DP, DMA, DRS e DG), resiliência (R) e dimensões do Modelo DER (E, Res e EC). Vértices representam variáveis e arestas representam associações positivas (traço contínuo) e negativas (traço pontilhado). A cor do vértices representam comunidades (subgrupos) identificados na análise de comunidades.

As arestas indicam associações positivas entre os domínios de qualidade de vida, resiliência e dimensão de “recompensa” do Modelo DER (linhas contínuas), e associações negativas entre os domínios físico e meio ambiente e as dimensões “esforço” do Modelo DER e “excesso de comprometimento”. Nesta figura é possível perceber também os subagrupamentos identificados pelo algoritmo de Louvain. Este resultado indica que, diferentemente dos domínios da qualidade de vida, o domínio “meio ambiente” está mais associado à dimensão “recompensa” do Modelo DER. As demais variáveis possuem associações maiores com seus próprios agrupamentos.

Analisando as medidas de centralidade da rede de correlações parciais regularizadas (Figura 2) é possível identificar variáveis mais relevantes neste sistema, possíveis candidatas à intervenção, no sentido de produzir mudanças nas demais variáveis. A medida de proximidade indica o domínio físico da qualidade de vida como variável mais associada às demais variáveis no sistema. Isto indica que ela pode ser uma variável importante para transmitir efeitos do estresse nos demais domínios da qualidade de vida. Sendo assim, ela é a variável que mais se relaciona aos fatores de risco, e por isso, acaba por influenciar negativamente a percepção de qualidade de vida em outros domínios. Já a medida de influência esperada indica as variáveis que, uma vez ativadas, possuem uma maior probabilidade de gerar variações (positivas ou negativas) nas variáveis próximas. Os domínios geral e psicológico da qualidade de vida, uma vez modificados, tendem a produzir variações positivas nas variáveis próximas, no caso, os demais domínios de qualidade de vida. Já a variável excesso de comprometimento, uma vez ativada, tende a produzir variações negativas nas variáveis próximas, no caso, os domínios de qualidade de vida, especialmente físico e meio ambiente.

Figura 2
Medidas padronizadas de proximidade (closeness) e de influência esperada (expected influence) para a rede de correlações parciais regularizadas. A medida de closeness indica as variáveis mais associadas às demais variáveis no sistema (altos valores positivos). A medida de influência esperada indica as variáveis que desativam (altos valores negativos) e ativam (altos valores positivos) outras variáveis no sistema.

Discussão

Os resultados apresentados neste artigo despertam reflexões sobre os fatores que podem interferir na qualidade de vida dos policiais militares, dentre eles características pessoais, laborais, estresse psicossocial e resiliência. Algumas características individuais como problemas de saúde, uso de medicamentos, horas de sono, consumo de tabaco, circunferência abdominal, bem como variáveis laborais (possuir outro emprego, satisfação com a remuneração e turno de trabalho) repercutiram na qualidade de vida dos policiais militares deste estudo.

As médias mais altas do domínio físico (DF) se relacionaram com a ausência de um segundo emprego e inversamente ao peso, à circunferência abdominal e ao sono, logo sugere que uma carga de trabalho maior interfere na qualidade de vida dos policiais e, consequentemente, em menor tempo para descanso, atividades físicas e cuidados com a saúde. Estudo realizado no estado de Minas Gerais identificou que a menor percepção dos policiais sobre o domínio físico está associada a características da sua atividade laboral militar, as mudanças de turnos de trabalho, o tipo de atividade a qual o militar é submetido e a relação das jornadas de trabalho e repouso interferem drasticamente em parâmetros ligados a qualidade de vida como o sono e a manutenção da atividade física regular21.

Os achados mostraram que além de interferir no domínio físico, possuir outro emprego impacta no domínio das relações sociais e no domínio psicológico da qualidade de vida. Em consonância, estudo aponta que o convívio familiar e apoio social dos amigos são parâmetros indispensáveis para a qualidade de vida de policiais militares21, e podem ser prejudicados em decorrência do excesso de trabalho e acúmulo de funções dos policiais ao exercerem mais de um atividade.

O uso de tabaco somado à carência de hábitos de vida saudáveis impacta sobre a saúde. Estudo realizado na Etiópia mostrou que 88,2% dos policiais não possuíam alimentação saudável, que 70% consumiam álcool e que 36,1% eram inativos quanto à atividade física. Além disso, 6,7% eram tabagistas, sendo 83% fumantes diários, o que aponta prejuízos à qualidade de vida22. O domínio psicológico apresentou menores médias para os policiais tabagistas, podendo estar relacionado tanto às consequências quanto aos fatores que levam ao uso do tabaco. Além disso, policiais com problemas de saúde apresentaram menores médias no domínio das relações sociais.

Visto que o trabalho do policial militar requer uso intenso e frequente da força física, as variáveis antropométricas apresentaram valores limítrofes de referência, o que indica a necessidade de atenção para a saúde dos policiais, e demonstra relação com a menor qualidade de vida, menos domínios psicológico e físico, e problema nas relações sociais. Outro estudo brasileiro e que visa identificar o nível de atividade física dos policiais militares, mostrou que estavam fora da normalidade populacional no que se refere ao percentual de gordura, relação circunferência cintura-quadril, índice de massa corporal e inativos segundo o Questionário Internacional de Atividade Física, apresentando alto ou moderado risco à saúde23. No presente estudo, o domínio geral (DG) apresentou maiores médias para os policiais não tabagistas, que não têm problemas de saúde e que não fazem uso de medicamentos, o que apresenta relação com circunferência abdominal e pressão arterial sistólica.

O domínio meio ambiente (DMA) foi maior para os policiais que trabalhavam no turno diurno e que estavam mais satisfeitos com a renda mensal. Segundo estudo21, em relação ao domínio meio ambiente, a baixa percepção dos militares está associada ao fato de que todos os indivíduos avaliados estão lotados em companhias metropolitanas de polícia. Fatores estressantes presentes em grandes metrópoles como o tempo gasto no transporte, a falta de segurança física e a proteção para os militares e seus familiares, bem como o custo de vida, fazem com que a percepção sobre a qualidade de vida seja menor. Outro estudo apontou o comprometimento da qualidade de vida dos policiais militares do interior do estado de São Paulo nos fatores relacionados ao domínio meio ambiente, o que sugere a necessidade de melhorias para questões voltadas para a segurança física e proteção desses profissionais, as condições ambientais do local onde estão inseridos, os recursos financeiros e de transporte, além do ambiente no lar24.

No Brasil, além dos fatores de risco inerentes à profissão do policial militar, acrescenta-se a falta de estrutura para o desenvolvimento do trabalho, o que inclui a necessidade de apoio psicológico aos trabalhadores. Estudo realizado no Rio Grande do Sul (Brasil) apontou que há insatisfação entre policiais em relação ao trabalho e, quanto às dimensões que compõem esse modelo teórico, registrou-se insatisfação em relação ao salário e a promoções na carreira25.

Os policiais civis e militares que atuavam em Unidades de Operações Especiais no estado de Santa Catarina apresentaram percepção regular de suas condições de trabalho. Os componentes remuneração, benefícios e ambiente físico foram percebidos de forma mais negativa. Em relação ao estresse ocupacional, a maioria dos policiais considerou seu trabalho como de baixa demanda, controle e apoio social. Além disso, observou-se relação direta, de forma inversa, entre as condições de trabalho e o estresse ocupacional 5.

Estudo realizado na Grécia, com o objetivo de examinar o estresse percebido, satisfação no trabalho, qualidade de vida e suas relações, mostraram que os níveis de estresse percebidos têm um efeito negativo importante com relação à satisfação no trabalho e na qualidade de vida. Os oficiais de maior escalão tiveram maior nível de insatisfação com seu trabalho2.

Evidenciou-se neste estudo que o domínio geral (DG), o domínio psicológico (DP) e a resiliência podem atuar como fatores de proteção em relação ao estresse e à percepção negativa de outros domínios de qualidade de vida. A resiliência psicológica tem uma capacidade de evitar distúrbios de saúde mental em médio prazo, especificamente quando estes estão em fases iniciais12. Estudo aponta que, embora os governos de países desenvolvidos da Europa, Canadá e Estados Unidos tenham investido em treinamento tático e equipamentos tecnológicos, a resiliência não tem sido um componente da formação policial26. Acrescenta ainda que é fundamental fortalecer ferramentas para promover a resiliência e manter o bem estar pessoal, visto que os policiais são rotineiramente encarregados de enfrentar a vida em risco26.

A resiliência, como um fator de proteção, pode eventualmente ajudar a identificar indivíduos - como policiais, bombeiros e policiais militares - que estão com alto risco de desenvolver doenças relacionadas ao trauma27. Esta grande exposição a fatores de risco, inerentes à profissão, reflete na menor qualidade de vida com a presença de depressão, doença física e altos níveis de estresse28.

Estudo realizado na Índia destacou que a maioria das fontes percebidas de estresse no trabalho está relacionada a problemas no local de trabalho, podendo ser realizadas mudanças dentro do departamento de polícia para prevenir o estresse e seus efeitos. Entre as medidas estão o treinamento adequado para aliviar o estresse e aumentar a autoeficácia e habilidades de enfrentamento, e os programas departamentais de saúde mental para tratar problemas relacionados ao estresse. A instituição policial também pode inserir passos para a melhora da imagem pública da polícia29.

Programas de prevenção devem ser oferecidos aos policiais, com atividades pró-ativas dos trabalhadores relacionadas à análise crítica do estresse, investindo em preparações mentais empiricamente testadas e baseadas em evidências26. Ademais, a recompensa também exerce função fundamental na qualidade de vida do policial, e é fruto da valorização e condições adequadas de trabalho.

As limitações do estudo referem-se à carência de artigos sobre resiliência, estresse e qualidade de vida em policiais, o que permitiria avançar na discussão a respeito de fatores associados e preditores da qualidade de vida nesta corporação. Além disso, o delineamento transversal não permite inferências sobre causa-efeito.

Conclusão

A rede de correlações entre as dimensões do Modelo Desequilíbrio Esforço-Recompensa, resiliência e qualidade de vida em policiais militares indicou associação negativa entre esforço e excesso de comprometimento com os domínios físico e meio ambiente. O domínio meio ambiente foi associado positivamente à recompensa; e a resiliência, considerada um fator de proteção para a qualidade de vida nesta população, associou-se positivamente com os domínios geral, físico e psicológico. Constatou-se que o estresse psicossocial e a resiliência interferem na qualidade de vida dos policiais civis, uma vez que as dimensões esforço, recompensa e excesso de comprometimento do modelo DER e a resiliência se correlacionaram com todos os domínios do WHOQOL.

Trabalhadores como os policiais militares merecem maior atenção, uma vez que a atuação na segurança pública predispõe alto custo e baixo ganho, que reflete na capacidade produtiva do profissional e no serviço ofertado pelos mesmos. Profissionais de saúde têm competência para oferecer ações a favor da qualidade de vida e do rendimento laboral destes profissionais. Contudo, investimentos em infraestrutura e política de valorização da categoria são fundamentais para a saúde e segurança do grupo estudado.

Agradecimentos

Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Pró-Reitoria de Pesquisa da UFRGS (PROPESQ) pelo apoio financeiro.

À professora doutora Liana Lautert pela participação da concepção e planejamento do projeto de pesquisa.

Referências

  • Editores-chefes: Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Maio 2021
  • Data do Fascículo
    Maio 2021

Histórico

  • Recebido
    14 Abr 2019
  • Revisado
    24 Jul 2019
  • Aceito
    26 Jul 2019
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