Open-access Gadamer e a tradução de poesia: escuta conjunta, hermenêutica e (in)traduzibilidade

Gadamer and the translation of poetry: Co-listening, hermeneutics, and (un)translatability

Resumo

Este artigo analisa as reflexões de Hans-Georg Gadamer sobre o ato da tradução poética, tendo como eixo central uma entrevista concedida pelo filósofo em Heidelberg, em 28 de setembro de 2001, e uma correspondência prévia entre ele e sua tradutora brasileira, de 9 de julho de 2001. Partindo da tese da (in)traduzibilidade da lírica e do conceito de escutar junto (mithören) no ato tradutório, o estudo articula a posição gadameriana com os fundamentos da hermenêutica filosófica, explorando suas implicações para uma epistemologia da tradução. Com reflexões sobre a lírica de Paul Celan, tópico da entrevista e da carta, examinamos esse “acorde” entre ler, interpretar e traduzir no ato de “escuta” do tradutor. O artigo identifica e explora as tensões constitutivas na posição gadameriana, propondo que sua contribuição específica reside em compreender a tradução como ato hermenêutico transformador que exige escuta conjunta, fidelidade radical ao poema de partida e criatividade responsável na língua de chegada.

Palavras-chave
Hans-Georg Gadamer; tradução poética; mithören ; hermenêutica filosófica; Paul Celan

Abstract

This article analyzes Hans-Georg Gadamer’s reflections on the act of poetic translation, focusing on an interview with the philosopher in Heidelberg on September 28, 2001, and a previous correspondence between Gadamer and her Brazilian translator dated July 9, 2001. Based on the thesis of the (un)translatability of lyrics and the concept of co-listening (mithören) in the act of translation, the study articulates Gadamer’s position with the foundations of philosophical hermeneutics, exploring its implications for an epistemology of translation. Through reflections on Paul Celan’s lyrics, topic of the interview and the letter, we examine this “chord” between reading, interpreting, and translating in the translator’s act of “listening”. The article identifies and explores the constitutive tensions in Gadamer’s position, proposing that his specific contribution lies in understanding translation as a transformative hermeneutic act that demands co-listening, radical fidelity to the source poem, and responsible creativity in the target language.

Keywords
Hans-Georg Gadamer; poetic translation; mithören ; philosophical hermeneutics; Paul Celan

1. Introdução

Em setembro de 2001 entrevistei o filósofo Hans-Georg Gadamer (1900-2002) em Heidelberg, um episódio que pode ser considerado mais do que simplesmente biográfico: seus resultados (uma entrevista e uma carta) representam um microcosmo dos princípios fundamentais da hermenêutica filosófica em ação, que tem como tópico a poesia de Paul Celan. Esse diálogo é um caso paradigmático que permite explorar as relações entre leitura/compreensão, interpretação e tradução na obra gadameriana. O encontro com Gadamer foi marcado por meio de cartas: em carta datada de 26 de junho de 2001, eu falava de minha intenção em traduzir o seu livro de comentários sobre a poesia de Paul Celan, Wer bin Ich und wer bist Du?, e solicitava um encontro para uma entrevista em setembro, ocasião em que eu estaria na Alemanha. A resposta dele foi escrita no dia 9 de julho de 2001, e a entrevista realizou-se em sua casa, em Heidelberg, em setembro de 2001.

Este artigo baseia-se na análise textual das duas fontes primárias mencionadas, a entrevista e a carta de Gadamer, com o objetivo de explorar as reflexões do filósofo sobre a tradução poética, articulando-as com os fundamentos de sua hermenêutica filosófica, e de compreender, num sentido amplo, uma de suas sensíveis definições na entrevista: a de que traduzir é “escutar junto” (mithören). O estudo iniciará com a contextualização desses dois documentos (a carta e a entrevista), neles destacando passagens significativas que serão analisadas nas seções seguintes, com ênfase nos conceitos de ler, interpretar e traduzir, suas inter-relações, consonâncias, dissonâncias e suas contribuições para os estudos da tradução de poesia.

2. Sobre a carta e a entrevista de Gadamer

Publicada em 2005 pela revista Forum Deutsch, sob o título “Uma das últimas entrevistas concedidas por Hans-Georg Gadamer” (Abi-Sâmara & Gadamer, 2005), a entrevista é antecedida por uma introdução informativa que escrevi sobre o momento da entrevista, que foi realizada em alemão, em 28 de setembro de 2001, dezessete dias após os ataques aéreos às torres gêmeas do World Trade Center e ao Pentágono dos Estados Unidos, episódios que são mencionados pelo filósofo em uma de suas respostas. A transcrição da entrevista gravada em fita cassete foi feita em março de 2004 pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg, aos cuidados do professor Rolf G. Renner e de sua assistente na ocasião, Kathrin Klohs. Traduzida para o português por Murilo Jardelino (in memoriam) e Heidi Berg, a entrevista foi publicada nos dois idiomas, em alemão e em português.

A carta, escrita e enviada para o Brasil por Gadamer em 9 de julho de 2001, consistia em uma resposta afirmativa à minha intenção de entrevistá-lo em Heidelberg e ao pedido de autorização para a publicação em português do seu livro, que era tema de minha pesquisa de doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e o qual eu estava traduzindo, intitulado Wer bin Ich und wer bist Du? Ein Kommentar zu Paul Celans Gedichtfolge ‘Atemkristall’. A carta de Gadamer foi publicada também em 2005, como um dos anexos da minha tradução de seu livro, assim intitulado, em português: Quem sou eu, quem és tu? Comentário sobre o ciclo de poemas Hausto-Cristal de Paul Celan1. No anexo, logo abaixo da cópia digitalizada da carta, lê-se uma tradução parcial da mesma.

Nas duas seções subsequentes, conforme a ordem cronológica dos dois documentos em questão, destacaremos passagens, da carta e da entrevista, que contextualizam e fundamentam as análises seguintes sobre a tradução de poesia e as contribuições da perspectiva gadameriana para essa área de estudos.

2.1. A carta

A resposta de Gadamer, redigida e enviada cerca de duas semanas depois de receber a minha carta, começava de maneira simpática e demonstrava uma certa surpresa por saber do meu interesse nos poemas celanianos e sobretudo em suas interpretações sobre esses poemas:

Receba o meu agradecimento por sua carta de 26 de junho. Que país notável [merkwürdiges Land] é esse e que posição notável você deve ocupar nele. O fato de que você esteja trabalhando com sucesso no meu livro deixa-me muito satisfeito, e alegra-me quase que ainda mais o fato de que alguém esteja interessado nos poemas de Celan e nas minhas interpretações deles

(Gadamer, 2005, p. 39).

As duas frases seguintes, na carta, são fulcrais para entendermos a hermenêutica gadameriana da tradução de poesia, pois revelam a aporia entre a tese da intraduzibilidade da poesia e a aceitação de sua traduzibilidade (se pensada, esta, por meio de um terceiro termo, o horizonte do intérprete e, explicitamente, o seu comentário):

É realmente um tipo de lírica que só pode ser compreendida por meio de um comentário, e disso resulta, nesse caso, que se deve até mesmo aceitar que a lírica pode ser traduzida. Seria preciso insistir, certamente, que os textos do poeta fossem também citados em seu idioma original, os quais receberiam a sua tradução

(Gadamer, 2005, p. 39).

Ao descrever a lírica de Celan, Gadamer faz uma referência clara ao seu comentário sobre ela, contido em seu livro, Wer bin Ich und wer bist Du?, em que comenta/interpreta, um a um, os poemas do ciclo “Atemkristall”. A aproximação entre “comentário” e “tradução” será explorada mais adiante, uma vez que a descrição desta passagem de Gadamer sobre a lírica celaniana dialoga com afirmações não menos fundamentais expressas na entrevista. Chamamos a atenção aqui para a advertência do filósofo na carta, na frase em que fala da necessidade de se insistir para que os textos do poeta sejam citados no idioma original, ao lado da tradução. Como veremos mais adiante, na entrevista, esta preocupação de Gadamer, aparentemente trivial, fundamenta-se em um modo singular de entendimento do ato de tradução, quando dirá, na entrevista, que traduzir é “escutar junto” (mithören).

No parágrafo final da carta, Gadamer coloca à minha disposição o seu livro de comentários sobre a poesia de Celan como instrumento de investigação e contraponto de diálogo e mostra-se receptivo com relação à entrevista em Heidelberg, planejada para setembro de 2001:

O meu comentário você pode usar a serviço dessa tarefa, conforme suas necessidades, seja para a fundamentar ou para a modificar. Para essa tarefa como tradutor, obviamente, você já atuou em muitas questões. E também estaria bem para mim se você me visitasse aqui em Heidelberg em setembro e marcasse comigo uma reunião

(Gadamer, 2005, p. 39).

A reunião com o filósofo foi marcada após o recebimento da carta, por meio do número de telefone residencial de Gadamer fornecido na correspondência. A partir desse ponto, procede-se à apreciação da entrevista.

2.2. A entrevista

Apresentarei, em seguida, algumas passagens essenciais da entrevista que fundamentarão as análises subsequentes, a começar pela primeira pergunta dirigida a Gadamer, se ele acreditava na traduzibilidade da lírica, ao que respondeu:

Não acredito que a lírica seja realmente traduzível. Acredito apenas que deve haver uma relação muito próxima com o som do original. E disso, só poucas pessoas são capazes. É um tipo de música. E quem não a escuta junto [mithört], também não pode traduzi-la

(Abi-Sâmara & Gadamer, 2005, p. 12).

Depois, perguntei-lhe: o que é que a lírica perde quando ela é traduzida, sendo a resposta: “Estorva o poema. Não se torna um poema. […] Minha opinião é que a lírica não deve ser impressa se não for acompanhada, ao lado, do original. Apenas isso. É essa abordagem que defendo” (Abi-Sâmara & Gadamer, 2005, p. 12). Mais adiante, ao ser perguntado se ele acreditava que a lírica de Celan podia ser entendida em outros contextos, como no Brasil, por exemplo, ele respondeu afirmativamente, dizendo:

Porque a senhora sabe alemão. É claro. Apenas por isso, […] o importante mesmo é saber: no original, há uma melodia própria, e ela não pode ser traduzida. […] Mas vocês só aproveitarão algo disto [referindo-se à lírica do Celan] se realmente tiverem a língua estrangeira no ouvido, ouvirem-na. Ela faz parte do conteúdo

(Abi-Sâmara & Gadamer, 2005, p. 13).

Em uma outra pergunta, quis saber se, em sua opinião, era clara a inscrição da experiência d o Holocausto na poética de Celan: “É verdade, mas no geral dá-se a isso demasiado valor. Provavelmente nem sempre se encontra algo a respeito. Ele deve referir-se com frequência ao alemão em sentido lato – e não [simplesmente / apenas] à Alemanha nazista” (Abi-Sâmara & Gadamer, 2005, p. 10).

Gadamer, como se sabe, reconhece a relevância da dimensão do testemunho na poesia de Celan, mas propõe outras entradas interpretativas e filosóficas para os seus poemas, como por exemplo a análise da relação entre “eu” e “tu” nos poemas de “Atemkristall”. Para Gadamer, a “poesia é sempre algo mais – e muito mais – do que aquilo que mesmo o leitor mais engajado já sabia antes. Senão, seria supérflua” (Gadamer, 2005, p. 157).

Nas próximas seções, discutiremos essas questões levantadas na carta e na entrevista de Gadamer. Elas se apoiam na tese da (in)traduzibilidade da lírica e permitem esboçar o conceito de “escutar junto” (mithören) no ato tradutório. A partir daí, exploraremos, na perspectiva gadameriana, a relação entre três atos fundamentais da tradução poética: ler, interpretar e traduzir.

3. “Traduzir é escutar junto”

Tanto na entrevista quanto na carta, Hans-Georg Gadamer insiste em um ponto, do qual não abre mão: os poemas de Paul Celan (ou quaisquer outros poemas), ao serem traduzidos e publicados em outros idiomas, devem sempre vir acompanhados dos poemas escritos na língua original. A tradução da poesia, conforme defende, nunca substituirá o poema-fonte, mas poderá ser uma ferramenta valiosa para uma leitura ampliada do poema no original. Se lêssemos essa afirmação num sentido estrito, sem considerarmos a potência filosófica do pensamento gadameriano sobre a linguagem, significaria que o poema traduzido teria como público-alvo o leitor de poesia que domina o idioma no qual o poema foi escrito. Esse posicionamento, se levado à risca, reduziria sensivelmente as chances de circulação da poesia fora do seu território linguístico. Como pensar na poesia-mundo ou nas poesias do mundo escritas por poetas tais como Celan, Anna Akhmátova, Baudelaire, Emily Dickinson, Maiakovski, Wislawa Szymborska, entre outros, sem a confiabilidade do leitor na tradução poética? Poucos são os leitores que dominam vários idiomas com profundidade suficiente para ler todos esses poetas no original. Mas, obviamente, Gadamer não se posiciona contra a tradução de poesia. Embora não acredite que a lírica seja realmente traduzível, como afirma logo no início da entrevista, isso não o impede de admitir que ela pode ser traduzida. É o que lemos anteriormente em sua carta, quando diz que a compreensão da poesia de Celan só pode se dar por meio de um comentário, e que “disso resulta, nesse caso, que se deve até mesmo aceitar que a lírica pode ser traduzida” (Gadamer, 2005, p. 39)2.

Comentário (ou interpretação) é o que Gadamer faz, no livro Wer bin Ich und wer bist Du? Ein Kommentar zu Paul Celans Gedichtfolge ‘Atemkristall’, para cada um dos poemas celanianos de “Atemkristall”. Se a lírica pode ser comentada por meio da linguagem do filósofo, ela também pode ser traduzida por meio da linguagem do tradutor, e, neste caso, é aceitável entender a tradução poética como um ato que pressupõe, digamos, uma espécie de comentário oculto do poema original, contrastando, em termos formais, com os comentários explícitos, como aqueles feitos por Gadamer aos poemas do ciclo “Atemkristall”. O comentário de um poema pode espraiar-se em sua exposição interpretativa, sem restrições formais, em termos linguísticos. Até mesmo porque, a função do intérprete e de sua interpretação, conforme o autor desenvolve em Verdade e método (Gadamer, 2002), é desaparecer após ser compreendido pelo leitor. O discurso do intérprete, no caso, apenas serviria ao texto, mas não se constituiria propriamente em texto. Para o filósofo, há uma relação muito parecida entre o texto e o leitor:

Após superar o elemento estranho de um texto, ajudando assim o leitor a compreendê-lo, a retirada do intérprete não significa desaparecimento em sentido negativo. Significa antes sua entrada na comunicação, resolvendo assim a tensão entre o horizonte do texto e o horizonte do leitor. É o que chamo de fusão de horizontes. Os horizontes separados como pontos de vista diferentes fundem-se num. Por isso a compreensão de um texto tende a integrar o leitor no que diz o texto. É justamente o texto que desaparece

(Gadamer, 2002, p. 405).

A tradução, em contrapartida, entendida como uma leitura ou, como propus anteriormente, como um texto que pressupõe um comentário oculto/implícito do tradutor, buscará repetir a natureza de autoapresentação (Selbstpräsentation) do texto poético, a fim de recriar o modo “como” é dito aquilo que o poema diz. Em dissonância com o comentário, a tradução poética resulta da preocupação do tradutor em manter o poema como forma verbal, em não descuidar da natureza estética, “eminente”3 do texto poético na tarefa da tradução. O ofício poético do tradutor inclui a interpretação sonora do poema original em outro idioma.

A tradução da lírica, para Gadamer, é entendida como um tipo de música, que deve ser escutada, pelo tradutor, juntamente, no processo de tradução. Num primeiro nível, poderíamos atribuir a essa frase um entendimento trivial, ou seja, como a busca e a escuta da musicalidade do poema original junto com a musicalidade do poema/comentário em sua tradução. No entanto, ao adentrarmos nos estudos hermenêuticos de Gadamer, perceberemos que há uma sofisticação nesse ato de escuta conjunta, que, entendida num nível mais sutil, implica uma escuta ampliada, que ocorre no campo de consciência do leitor/tradutor, no ato fenomenológico de ler, de dar luz ao texto, de trazê-lo para a vida-mundo (Lebenswelt).

Para Gadamer, a poesia é um lugar privilegiado na teoria da interpretação – ou seja, na hermenêutica –, por ser considerada um “texto eminente” (eminenter Text)4, cuja corporalidade (ou materialidade linguística) não desaparece no fenômeno da leitura, em que ocorre uma “fusão de horizontes” do leitor-tradutor-intérprete com o texto lido. Comentários (e, por extensão, traduções) e explicações conceituais, segundo Gadamer, nunca esgotam o conteúdo de uma criação poética. Em ensaio de 1983, “Text und Interpretation5, Gadamer fala desse caráter sui generis de um texto eminente: “um texto literário exige estar presente em sua manifestação de linguagem e não apenas exercer sua função comunicativa. Não basta lê-lo, é preciso escutá-lo, mesmo que somente no ouvido interior [im inneren Ohr]” (Gadamer, 1986, p. 352, tradução nossa)6.

A natureza eminente e autoapresentativa da poesia expõe, hermeneuticamente falando, a inesgotabilidade de interpretações e a inseparabilidade entre vida-mundo (Lebenswelt) e língua: se no princípio era o verbo, ainda continua sendo, e assim seguimos nos inscrevendo, atuando e atualiz===%ando esse verbo, numa relação dinâmica com a tradição da qual (e na qual) nos desenrolamos, seja como leitores, autores, intérpretes ou tradutores. A musicalidade da poesia, dissonante ou não, é ouvida pelo leitor, mesmo que numa leitura silenciosa. Suas texturas acústicas – tons, cortes, subtons, além-tons evocativos de imagens, memórias coletivas ou individuais, pausas abruptas ou agógicas, tudo isso é escutado no momento da leitura, na experiência linguística.

4. Ler, traduzir, interpretar: sonâncias

Ao ser perguntado, na entrevista, se acreditava na possibilidade de entendimento da lírica de Celan fora de seu contexto linguístico, Gadamer deu uma resposta afirmativa, apresentada parcialmente na seção anterior, não muito simples de ser compreendida:

Porque a senhora sabe alemão. É claro. Apenas por isso. Melhor do que qualquer tradução. Esta a senhora poderá utilizar – todavia, para ouvir o alemão. A senhora não deve ler isso [das] como a senhora traduz. Não deve apenas repetir a música de sua língua materna e vice-versa. A senhora tem de encontrar também a nova língua

(Abi-Sâmara & Gadamer, 2005, p. 12, grifo nosso).

Fica claro que a leitura dos poemas no original, em alemão, e não por meio de traduções, é o que permite o entendimento da lírica de Celan. No entanto, ao dizer que a tradução pode ser usada para que se ouça o alemão, não fica claro a que tradução está a se referir, se a traduções já existentes ou se àquela a ser feita por mim. De todo modo, faço aqui um paralelo da tradução com o comentário dos poemas de “Atemkristall”: tanto um quanto outra não substituem e não esgotam o poema, mas ampliam os sentidos deste, o que contribui para um volume maior na audição do poema em alemão.

Quando Gadamer diz que não se deve ler isso (das) como se traduz, cria algumas possibilidades de interpretação. O uso do “das” nessa frase tanto pode significar o dêitico “isso” e referir ao que foi dito antes, ou então pode ser um artigo determinado, de gênero neutro, “das” (o, a), que, de acordo com o contexto, refere-se a algum substantivo (de gênero neutro) omitido na fala, que no caso poderia ser “das Gedicht” (o poema) ou mesmo “das Deutsch” (o idioma alemão). O argumento central nessa frase, apesar de sua indecidibilidade semântica, é que não se deve ler como se traduz. Aqui, portanto, ler torna-se algo diferente de traduzir. Gadamer complementa sua resposta com a advertência de que na tradução não se deve apenas repetir a música do poema original no poema traduzido, e vice-versa. É importante que se encontre, na tradução, a “nova língua”, que entendemos aqui como sendo a língua do poeta (o universo, o todo singular, extraordinário e único do poema).

No ensaio “Lesen ist wie Übersetzen” [Ler é como traduzir], escrito em 1989, Gadamer defende uma dupla transposição (realização) na tarefa do tradutor, e compara a forma sonora de um texto eminente a um corpo celeste:

Ler é como trans-pôr [Über-setzen] de uma margem a uma outra distante, da escrita à fala. Do mesmo modo, o trabalho do tradutor de um “texto” é trans-pôr [Über-setzen] de costa a costa, de um continente [Festland] a outro. Traduzir é as duas coisas. As formas sonoras de diferentes línguas são intraduzíveis. Elas brilham/parecem [scheinen] como corpos celestes [Gestirne] separados entre si por anos-luz

(Gadamer, 1993, p. 284, tradução nossa, grifo nosso)7.

Um pouco antes dessa passagem, o filósofo faz a seguinte afirmação: “Todo leitor é como um meio-tradutor”8, e então pergunta ao leitor, retoricamente: “Não é na verdade o maior milagre, no fim, que se possa superar a distância entre as letras e a conversa mundana, mesmo se se trata ‘apenas’ da mesma língua?” (Gadamer, 1993, p. 284, tradução nossa)9. Gadamer refere-se aqui, em última instância, ao milagre da compreensão, ou seja, a produção de sentido para “textos eminentes”10. Em outra passagem do mesmo ensaio, lê-se o seguinte:

Em níveis bem diferentes, traduzir ou ler parecem uma mesma conquista [Leistung] hermenêutica. Até mesmo ler “textos” poéticos na própria língua materna é como uma tradução, quase como uma tradução para uma língua estrangeira. Pois é uma transposição [Umsetzung] de símbolos rígidos em um rio fluido de pensamentos e imagens

(Gadamer, 1993, pp. 283-284, tradução nossa)11.

Na sequência, o filósofo compara as três ações hermenêuticas, ou seja, ler, traduzir e interpretar:

A simples leitura de textos originais ou traduzidos é, na verdade, já uma interpretação através do tom e do ritmo, modulação e articulação – e tudo isso reside na “voz interior” [innere Stimme], e existe para o “ouvido interior” [innere Ohr] do leitor. Ler e traduzir já são “interpretação”. Ambos criam um novo todo textual de sentido e som. Ambos exigem uma transposição que se aproxima do ato da criação

(Gadamer, 1993, p. 284, tradução nossa)12

A “escuta” do texto pelo leitor que o lê silenciosamente, seja um texto original ou traduzido, acontece por causa e por meio de sua “voz interior”, aquela que produz um horizonte sonoro para o texto que é por ele lido. Essa performance “vocal” da leitura, ao proferir o som imaterialmente, possibilita a “escuta” desse leitor de sua própria voz. A interpretação nesse caso principia com a interpretação “vocal”, feita pela “voz interior” (innere Stimme) do leitor que vivifica as letras, desdobrando-as do plano bidimensional da página do livro para o espaço imaginário, acústico do horizonte sonoro. Essa primeira interpretação, “vocal”, traz em si marcas (ou texturas, cicatrizes) que resultam das ações-reações-interações no mundo-vida de um corpo – o corpo do dono daquela voz que profere no campo da consciência o que lê, ou seja, o corpo do leitor. Essa voz, única, com sua textura singular, uma espécie de “impressão digital acústica” do leitor, reúne em si uma combinação própria de “tom, ritmo, modulação, articulação”, e tudo isso, como observa Gadamer, existe para ser escutado pelo “ouvido interior” (inneres Ohr) do leitor.

Dois leitores que leiam o mesmo texto “ouvirão” certamente performances vocais diferentes, pois cada um ouvirá a performance de sua própria voz. A interpretação “vocal” do leitor é por este re-interpretada, ao ser ouvida por seu “ouvido interior”. Trata-se de uma escuta interpretativa que, por meio e por causa das nuances da interpretação da “voz interior”, cria “um novo todo textual de sentido e som”. Note-se que se fala aqui de um “novo todo” de sentido e som. Não se trata exatamente do mesmo todo de sentido e som estruturado anteriormente pelo autor daquele texto que é lido. Desse modo, entende-se que a interpretação do leitor/tradutor é quase tão criadora quanto a do texto lido, uma espécie de criação conjunta (a duas vozes) com o autor daquele texto – que já existia antes. Nas palavras finais da citação de Gadamer, ler e traduzir exigem uma realização (transposição) que se aproxima do ato de criação. Aproxima-se, no sentido comparativo, por ser quase tão criadora quanto o ato inaugural (o primeiro) do texto eminente, que é lido e/ou traduzido pelo leitor e/ou tradutor.

5. O que podemos aprender com as ideias de Gadamer?

No ensaio mencionado na seção anterior, “Lesen ist wie Übersetzen”, Gadamer (1993) posiciona-se de modo mais crítico do que na carta à tradutora brasileira, no que diz respeito à tradução de poesia. Na carta, escrita oito anos após o ensaio, admite que a lírica de Celan pode ser traduzida, uma vez que é passível de ser comentada e até mesmo necessita de um comentário para ser compreendida. No entanto, meses depois, ao ser perguntado, logo no início da entrevista, sobre o que é que a lírica perde ao ser traduzida, ele responde: “Estorva o poema. Não se torna um poema.” É sob essa ótica mais severa que considera a tradução de poesia no ensaio mencionado, em que inicia falando desta famosa máxima que atribui a Benedetto Croce (1866-1952): “Traduttore-traditore”. E surpreende-se com o fato de que Croce, que era um poliglota e um dos mais importantes estetas italianos, já não soubesse disso há muito, e conclui que:

Com o passar dos anos, torna-se [ele, Gadamer, ou, supõe-se, outros intérpretes] cada vez mais sensível diante de aproximações incompletas (pela metade ou pela quarta parte) da língua verdadeiramente viva que aparecem como traduções. Estas estão se tornando cada vez mais difíceis de serem suportadas e, acima de tudo, cada vez mais difíceis de serem entendidas

(Gadamer, 1993, p. 281, tradução nossa)13.

Em excerto anterior, Gadamer refere-se à tradução como um negócio deficitário:

De todo modo, é um mandamento hermenêutico não pensar tanto em graus de traduzibilidade, mas sim em graus de intraduzibilidade. […] Mesmo no negócio aparentemente desesperançoso e deficitário do traduzir [Verlustgeschäft des Übersetzens] não há apenas prejuízo maior ou menor, há também às vezes algum ganho, pelo menos um ganho de interpretação, um acréscimo de clareza e, também às vezes, de desambiguação [Eindeutigkeit] o que é um ganho

(Gadamer, 1993, p. 279, tradução nossa)14.

Ao longo dessas reflexões, Gadamer comenta algumas traduções de poesia, entre elas, a de Stefan George para Les Fleurs du Mal, de Charles Baudelaire, e a de Rainer Maria Rilke para “Le Cimetière marin”, de Paul Valéry:

As traduções de Baudelaire feitas por George continuam sendo “Les Fleurs du Mal”? Será que elas não soam mais como prelúdios de uma nova juventude? E as traduções de Valéry feitas por Rilke? Onde estão a claridade e a aspereza da Provença nas suaves e maravilhosas meditações sobre o “Cimetière marin”? Faríamos realmente bem em chamarmos essas coisas, preferencialmente, de reformulações poéticas [Umdichtungen] em vez de paráfrases [Nachdichtungen]. Já os excertos da Divina Comedia traduzidos por Stefan George poderiam ser chamados de uma paráfrase

(Gadamer, 1993, p. 284, tradução nossa)15.

Ler textos traduzidos, na perspectiva de Gadamer, não consiste em uma atividade de fruição, como confessa nesse ensaio:

Ler textos traduzidos é decepcionante. Falta a respiração [Atem] do falante, que inspira [anhaucht] a compreensão. Falta o volume da fala do original. Mas exatamente por isso, as traduções algumas vezes são uma verdadeira ajuda para aqueles que conhecem o original. Traduções de escritores gregos ou latinos para o francês ou de escritos alemães para o inglês são muitas vezes de uma clareza espantosa. Mas isso é um ganho, não é mesmo?

(Gadamer, 1993, p. 281, tradução nossa)16.

E aqui voltamos à questão colocada na entrevista: a tradução, entendida como uma espécie de comentário, serve para tornar a escuta do poema original ainda mais rica de tonalidades acústicas e semânticas, mas, claro, essa função de aumentar a escuta não deve ser útil para um leitor que não domine a língua do poema original. Sob o ponto de vista hermenêutico-filosófico, compreende-se o posicionamento pouco flexível de Gadamer com relação à tradução, uma vez que se trata de um raro leitor, com conhecimentos e interesses extraordinários pela língua e pela poesia. Por outro lado, se seguíssemos um mandamento hermenêutico baseado nos graus de intraduzibilidade da poesia, e não nos graus de traduzibilidade, o resultado seria um prejuízo muito grande para a literatura-mundo, para a poesia-mundo e para a humanidade, pois as fusões de horizontes (mesmo que horizontes de segunda ordem, abertos, projetados e encenados no mundo-vida por meio da tradução), que nos enriquecem e nos tornam seres mais humanos, aconteceriam com muito menos frequência em nossos dias, em nossos diálogos, trocas e experiências na vida mundana.

Há muito a se aprender sobre a tradução, portanto, a partir das ideias desenvolvidas por Gadamer, que, com sua escuta aguda da poesia, recorre a imagens surpreendentes e também, como vimos até mesmo aqui, a um sensível vocabulário musical. Ler, assim como traduzir, é “escutar junto” (mithören). A tradução e os comentários sobre os poemas devem ser utilizados para que se possa “ouvir” o poema original. Ao lermos um poema, o ouvimos, mesmo que somente com o nosso “ouvido interior” (inneres Ohr). O leitor, assim como o tradutor – e este é um fato hermenêutico explicado por Gadamer –, no caminho para a compreensão, tem de superar uma distância, superação que é alcançada por meio de perdas e de ganhos. Essa distância não é somente temporal. Há o risco de o tradutor, e também o próprio poeta, escrever coisas antes já escritas, repetições retóricas ou senso comum. Esta também é uma distância a ser superada.

A arte, segundo Gadamer (1993), supera todas as distâncias. Quando se trata de distância temporal com relação a um poema, Gadamer traça uma diferença básica entre o tradutor e o leitor. O tradutor encontra-se numa identificação, para ele por vezes inconsciente, com a sua contemporaneidade, e precisa recriar uma nova forma, em consonância com a forma do poema modelo. O leitor, por sua vez, lida de modo diferente com as traduções da literatura clássica grega ou latina, pois sua formação histórica e humanística (ou mesmo a falta desta) nele desperta uma consciência da distância temporal entre ele e a obra. O leitor aí mencionado por Gadamer é certamente um leitor erudito, sendo ele próprio um desses leitores. Se pensarmos em um leitor erudito que também traduza, essa diferença de consciência histórica deixaria talvez de existir?

6. Considerações finais

A partir da articulação entre a tese da (in)traduzibilidade da lírica e o conceito gadameriano de traduzir como “escutar junto” (mithören), este estudo propôs uma reflexão sobre a tradução poética como um ato hermenêutico transformador, que exige do tradutor não apenas competência linguística, mas uma escuta ampliada, sensível e responsável. A análise do encontro com Hans-Georg Gadamer, ocorrido em setembro de 2001, revelou-se um microcosmo exemplar da hermenêutica filosófica em ação, especialmente ao tratar da poesia de Paul Celan.

A insistência de Gadamer em que os poemas fossem sempre apresentados no idioma original, ao lado da tradução, não era uma exigência filológica, mas uma postura ética e ontológica diante da linguagem poética. Traduzir, para Gadamer, é escutar junto. Essa escuta conjunta não tem como finalidade a repetição da musicalidade do poema na língua de chegada, mas sim o encontro com a “nova língua” do poeta no ato da tradução, com o universo, o todo singular, extraordinário e único do poema, “corporificado” por meio da “voz interior” (innere Stimme) do leitor/tradutor, que existe para ser escutada juntamente pelo “ouvido interior” (inneres Ohr) do tradutor/leitor. Essa voz e essa escuta revivificam o poema em sua corporalidade de texto eminente, trazendo a respiração (Atem), o volume e a sua voz primeira (visto que a tradução/leitura é sempre uma atividade póstera). A tradução, nesse sentido, não substitui o poema-fonte, mas amplia seus sentidos (e, consequentemente, o volume de sua musicalidade), assim como o comentário (e aqui pensamos no comentário de Gadamer sobre os poemas do ciclo “Atemkristall” de Paul Celan), que não esgota o poema, mas o faz vibrar em novas frequências.

Ao considerar a leitura como uma forma de transposição (Über-setzen), Gadamer aproxima os atos de ler e traduzir como conquistas hermenêuticas equivalentes. Mesmo ler um poema na língua materna é, de certo modo, traduzi-lo, transformar símbolos rígidos em um fluxo vivo de imagens e pensamentos. Essa transposição envolve um encontro de horizontes entre leitor, tradutor e texto, onde a língua deixa de ser instrumento de troca e se revela como possibilidade de escuta do poema, possibilidade de ser-junto-no-mundo por meio dessa escuta. As formas poéticas, nesse contexto, brilham como corpos celestes, separados entre si por anos-luz, cuja intraduzibilidade não é um obstáculo, mas uma condição para o ganho interpretativo.

Por fim, a posição gadameriana não se fixa em graus de traduzibilidade, mas reconhece os graus de intraduzibilidade como espaço de criação e escuta. Mesmo no “negócio deficitário” da tradução, há ganhos: de clareza, de desambiguação, de interpretação. A tradução poética, portanto, é um gesto de hospitalidade hermenêutica, que acolhe o estrangeiro sem apagar sua origem, e que permite ao leitor escutar, junto com o tradutor, a voz do poema em sua língua primeira. Gadamer nos ensina que traduzir é dar ao texto uma nova vida – não como réplica, mas como ressonância – e que essa tarefa exige não apenas técnica, mas uma escuta radical, uma fidelidade criativa e uma abertura ao mistério da linguagem.

As ideias e proposições de Gadamer reveladas na carta e na entrevista analisadas inspiram muito mais a perguntas do que a conclusões definitivas de leitura, e abrem um novo campo para os estudos da tradução poética, quando o filósofo esboça o conceito que muito merece continuar sendo explorado, o de traduzir como escutar junto. Esperamos que essas reflexões iniciais possam ressoar em novas buscas nessa dimensão, assim como a hermenêutica filosófica continua sendo um caminho inesgotável de indagação no mundo atual.

Nesse espírito, concluímos aqui com as palavras de Gadamer, ao ser perguntado, na entrevista, sobre o significado da hermenêutica hoje em dia:

Eu espero que ela signifique um caminho para o pensar. Deve-se pensar por si mesmo. Não se aprende nada que não tenha sido pensado por si mesmo. Nisso a hermenêutica ajuda, uma vez que ela deixa muita coisa em aberto. É essa a natureza da hermenêutica, pois ela não diz exatamente o que se quer dizer. Ela é assim como toda pergunta: cada pergunta é um fenômeno hermenêutico. Pois a resposta não é definitiva

(Abi-Sâmara & Gadamer, 2005, p. 6).
  • Conjunto de dados de pesquisa
    Os dados da pesquisa fazem parte da tese de doutorado defendida pela autora deste artigo em 2004 na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, realizada com bolsa de pesquisa da Capes. As fontes primárias desta pesquisa, a carta de Gadamer e a entrevista por ele concedida à autora fazem parte de seu projeto de doutorado e foram publicadas em sua tese. A carta foi também publicada em Gadamer (2005). No mesmo ano, a entrevista concedida por Gadamer foi publicada na revista Forum Deutsch em uma edição bilíngue alemão-português (Abi-Sâmara & Gadamer, 2005). A transcrição da entrevista gravada em fita cassete foi feita em março de 2004 pela Albert-Ludwigs-Universität Freiburg, aos cuidados do professor Rolf G. Renner e de sua assistente na ocasião, Kathrin Klohs, e foi traduzida por Murilo Jardelino (in memoriam) e Heidi Berg.
  • Financiamento
    Não se aplica.
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa
    Não se aplica.
  • 1
    A cópia digitalizada da carta de Gadamer encontra-se na página 39 do livro. Os excertos da carta foram traduzidos por mim, e os excertos da entrevista foram traduzidos por Heidi Berg e Murilo Jardelino (in memoriam), com alguns mínimos ajustes gramaticais feitos por mim para a publicação do presente artigo.
  • 2
    O posicionamento paradoxal de Gadamer quanto à intraduzibilidade da poesia leva-nos a pensar aqui em outro filósofo alemão igualmente fundamental para os estudos da linguagem e da tradução, Walter Benjamin, para quem o paradoxo, conforme destaca Susana Kampff Lages, “por ser uma figura de linguagem que descreve precisamente uma dialética que só se deixa apreender em seus termos contraditórios, resistente a qualquer tentativa de unificação ou totalização, é o movimento por excelência do modus benjaminiano de reflexão” (Lages, 1998, p. 75). Embora o paradoxo não defina por excelência o modus operandi de Gadamer, como ocorre em Benjamin, comparece em algumas de suas reflexões, como um modo de resistência à unificação e enclausuramento do pensamento, como neste caso da intraduzibilidade da poesia.
  • 3
    A explicação sobre o que é um “texto eminente”, na perspectiva de Gadamer, pode ser lida no parágrafo seguinte.
  • 4
    Ver o ensaio “Der ‘eminente’ Text und seine Wahrheit” (Gadamer, 1986, pp. 286-295).
  • 5
  • 6
    [Trotzdem] verlangt ein literarischer Text, daß er in seiner sprachlichen Erscheinung präsent wird und nicht nur seine Mitteilungsfunktion ausübt. Er muß nicht nur gelesen, er muß auch gehört werden - wenn auch meist nur im inneren Ohr (Gadamer, 1986, p. 352).
  • 7
    Lesen ist wie ein Über-setzen von einem Ufer zu einem fernen anderen, von Schrift in Sprache. Ebenso ist das Tun des Übersetzers eines “Textes” Über-setzen von Küste zu Küste, von einem Festland zum anderen, von Text zu Text. Übersetzen ist beides. Die Lautgestalten verschiedener Zungen sind dabei unübersetzbar. Sie scheinen wie Gestirne durch Lichtjahre voneinander entfernt (Gadamer, 1993, p. 284).
  • 8
    Jeder Leser ist wie ein halber Übersetzer (Gadamer, 1993, p. 284).
  • 9
    Ist es nicht wahrlich am Ende das größere Wunder, daß man den Abstand zwischen Lettern und lebendiger Rede überhaupt zu überwinden vermag, selbst wenn es sich “nur” um die gleiche Sprache handelt? (Gadamer, 1993, p. 284).
  • 10
    A discussão sobre o “milagre” da compreensão de textos eminentes não será discutida aqui por estar além dos objetivos traçados para o presente texto.
  • 11
    Auf ganz verschiedenen Niveaus scheint es die gleiche hermeneutische Leistung, zu übersetzen oder zu lesen. Schon das Lesen von dichterischen “Texten” in der eigenen Muttersprache ist wie eine Übersetzung, fast wie eine Übersetzung in eine Fremdsprache. Denn sie ist Umsetzung von starren Zeichen in einen strömenden Fluß von Gedanken und Bildern (Gadamer, 1993, pp. 283-284).
  • 12
    Das bloße Lesen originaler oder übersetzter Texte ist in Wahrheit schon eine Auslegung durch Ton und Tempo, Modulation und Artikulation – und das alles liegt in der “inneren Stimme” und ist da für das “innere Ohr” des Lesers. Lesen und Übersetzen sind bereits “Auslegung”. Beide schaffen ein neues Textganzes aus Sinn und Klang. Beide verlangen eine ans Schöpferische grenzende Umsetzung (Gadamer, 1993, p. 284).
  • 13
    Man wird mit den Jahren immer empfindlicher gegen die Viertel- und Halbannäherungen an wirklich lebendige Sprache, die als Übersetzungen begegnen. Man findet sie immer schwerer zu ertragen und obendrein immer schwerer zu verstehen (Gadamer, 1993, p. 281).
  • 14
    Jedenfalls ist es ein hermeneutisches Gebot, nicht so sehr über Grade der Übersetzbarkeit, wie über Grade der Unübersetzbarkeit nachzudenken. []. Selbst bei dem hoffnungslos scheinenden Verlustgeschäft des Übersetzens gibt es nicht nur ein Mehr oder Weniger an Verlust, es gibt auch mitunter so etwas wie Gewinn, mindestens einen Interpretationsgewinn, einen Zuwachs an Deutlichkeit und mitunter auch an Eindeutigkeit, wo dies ein Gewinn ist (Gadamer, 1993, p. 279).
  • 15
    Georges Baudelaire-Übersetzungen, sind sie überhaupt noch Blumen des Bösen? Schallen sie nicht eher wie Vorklänge einer neuen Jugend? Oder Rilkes Valéry-Übersetzungen? Wo bleibt die Helle und die Härte der Provence in Rilkes wunderbar weichen Meditationen über den “Friedhof am Meer”? Wir täten wahrlich gut, so etwas weniger Nachdichtungen als Um-dichtungen zu nennen. Eher schon könnte man die von Stefan George übertragenen Partien aus der Divina Comedia eine Nachdichtung nennen (Gadamer, 1993, p. 284).
  • 16
    Übersetzte Texte zu lesen ist im allgemeinen enttäuschend. Es fehlt der Atem des Sprechenden, der das Verstehen anhaucht. Es fehlt der Sprache das Volumen des Originals. Gleichwohl sind Übersetzungen gerade deshalb manchmal für den Kenner des Originals echte Verständnishilfen. Übersetzungen von griechischen oder lateinischen Schriftstellern ins Französische oder von deutschen Schriftstellern ins Englische sind oft von verblüffender und erhellender Eindeutigkeit. Das ist doch wohl ein Gewinn. Oder? (Gadamer, 1993, p. 281).

Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa

Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelos(as) autores(as) mediante solicitação.

Referências

  • Abi-Sâmara, R., & Gadamer, H.-G. (2005). Uma das últimas entrevistas concedidas por Hans-Georg Gadamer (R. G. Renner & K. Klohs, Trans.; M. Jardelino & H. Berg, Trad.). Forum Deutsch, 9, 5-15.
  • Gadamer, H.-G. (1986). Gesammelte Werke 2, Wahrheit und Methode II: Ergänzungen, Register. Mohr.
  • Gadamer, H.-G. (1993). Gesammelte Werke 8, Ästhetik und Poetik I: Kunst als Aussage Mohr.
  • Gadamer, H.-G. (2002). Verdade e método II. Complementos e índice (E. P. Giachini, Trad.). Vozes.
  • Gadamer, H.-G. (2005). Quem sou eu, quem és tu? Comentário sobre o ciclo de poemas “Hausto-Cristal” de Paul Celan (R. Abi-Sâmara, Trad. e Org.). EdUERJ.
  • Lages, S. K. (1998). ‘A tarefa do tradutor’ e o seu duplo: A teoria da linguagem de Walter Benjamin como teoria da traduzibilidade. Cadernos de Tradução, 1(3), 63–68.

Editado por

  • Edição da seção
    Andréia Guerini – Willian Moura

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    29 Set 2025
  • Aceito
    29 Nov 2025
  • Revisado
    03 Dez 2025
  • Publicado
    Dez 2025
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Universidade Federal de Santa Catarina Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, Centro de Comunicação e Expressão, Bloco B, Sala 301, Telefone: +55 48 3721-6649 - Florianópolis - SC - Brazil
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