O livro Transfiction and bordering approaches to theorizing translation: essays in dialogue with the work of Rosemary Arrojo, coletânea organizada por D. M. Spitzer e Paulo Oliveira, na coleção “Routlege Advances in Tanslating and Interpreting Studies”, é uma justa homenagem ao pensamento de Rosemary Arrojo desenvolvido em quase quarenta anos de dedicação aos Estudos da Tradução. Na década de 1980, em um mundo muito mais patriarcal e dual, surge no Brasil nos Estudos da Tradução Rosemary Arrojo, com sua abordagem desconstrutivista à época minoritária. Malgré elle, fazia parte também de outra minoria subjugada na Academia, a das mulheres. Como pesquisadora, trouxe à tona argumentos que animaram os debates brasileiros na área e, com um discurso eloquente, inaugurou uma corrente de pensamento no país contra o chamado logocentrismo, fazendo uso de noções e conceitos necessários para repensar a tradução, como o inconsciente freudiano, a comunidade interpretativa de Fish, a relatividade da verdade e da realidade nietzschiana e, evidentemente, a desconstrução de Derrida. Por sua voz, fomos e ainda somos convidadas a redefinir os conceitos de original, de fidelidade e, consequentemente, de tradução. Seu pensamento que tanto inspira, como mostra o volume, está para cá e para lá das fronteiras. Trata-se de um gesto ímpar, a começar pela cronologia completa das publicações da professora, de 1983 a 2018, incluída na coletânea após a Introdução. Isto posto, o trabalho louvável de D. M. Spitzer e Paulo Oliveira, em companhia das autoras e autores dos capítulos, é mais que uma homenagem a Rosemary Arrojo: traz estudos importantes a partir de uma perspectiva que ganha cada vez mais relevo na área, a da transficção, e abre-nos um espaço para que sejam interpretadas outras “histórias” e “contadas” outras reflexões sobre tradução.
A língua de publicação escolhida é o inglês. Já em sua “Introduction: bordering approaches & trans-bordering themes in dialogue with the work of Rosemary Arrojo”, D. M. Spitzer, da Universidade de Binghamton, assume essa responsabilidade numa espécie de autocrítica. Embora considere esse fato uma violência, já que as autoras e os autores falam diferentes línguas (alemão, coreano, espanhol, português e inglês), ele avalia a importância dessa língua na visibilidade internacional da obra e também dá a ver que os escritos de Rosemary Arrojo alcançam os cinco continentes. E é nesse texto introdutório de Spitzer que leitoras e leitores entenderão o fio condutor da coletânea, cujos capítulos trazem tensões relacionadas a fronteiras disciplinares e teóricas e as articulam no cruzamento de outras, permeadas conceitualmente pelo lugar político, autoral, criativo, temporal, geográfico, cultural, ético que a tradução suscita e que estão presentes nas reflexões de Rosemary Arrojo. Também são revolvidas e desconstruídas noções referentes ao poder patriarcal que emergem contra a corrente da unidade, do controle e da dominação; são trazidas à tona as fragilidades das línguas e a potência do sujeito que atua de modo visível na construção dos sentidos em sua posição social. No correr das páginas dos catorze textos reunidos, conceitos enunciados por Rosemary Arrojo em sua extensa carreira são revisitados como fonte de inspiração e como modo de reflexão por tradutoras e tradutores, pesquisadoras e pesquisadores de renomadas universidades brasileiras e estrangeiras: abordagens limítrofes e transficções, como diz o próprio título do volume, se desenham para falar de e com a tradução. A coletânea permite, assim, ampliar o seu entendimento, especialmente no que se refere ao conceito de fronteira em sua diversidade e heterogeneidade. Spitzer consubstancia, de modo pontual e esclarecedor, os principais pontos levantados pelas autoras e autores do livro, enfatizando a complexidade do alcance do pensamento de Arrojo tanto em trabalhos sobre tradução como em áreas correlatas.
O capítulo “The centrality of the margins: the translator’s footnote as a parergon”, assinado por Klaus Kaindl da Universidade de Viena, apresenta a literatura como possibilidade para uma nova perspectiva em tradução pela centralidade das margens, num espaço de transficção. Transcender os limites fronteiriços do texto literário em prol de pontos de vista diferentes, valorizando o olhar do outro, é uma das premissas do autor. Kaindl não deixa de lembrar que Rosemary Arrojo foi uma das primeiras da área a abordar a tradução pela transficção, e com ela dialoga colocando em destaque tanto a visibilidade das tradutoras e dos tradutores e das traduções na ficção, indo da marginalidade das notas à centralidade da mediação, quanto o modo pelo qual o pesquisador pode aprender com isso. Pelo conceito de parergon de Derrida, o autor pensa a tradução como “parte orgânica da obra (original), [que se projeta] [...] de fora para dentro” (Kaindl, 2023, pp. 28-29, tradução minha), e reflete sobre a existência ativa da tradutora e tradutor frente às fronteiras estabelecidas, utilizando como objeto de observação os romances de Carlos Somoza, La caverna de las ideas, e de Mark Z. Danielewski, House of leaves. Para o teórico, as notas de rodapé transficcionais, em sua duplicidade, são uma instância narrativa literária independente e, contrariamente ao conceito de paratexto segundo Genette, um espaço visual não hierárquico, cuja função transficcional age sobre o texto principal, também ele uma tradução. Kaindl, em sua detalhada análise sobre a função das notas de rodapé nos romances de Somoza e Danielewski, discute conceitos-chave como a mutabilidade do significado e a visibilidade das tradutoras e tradutores e da tradução.
Inspirada em um artigo de 2000 da homenageada, “O tradutor ‘invisível’ por ele mesmo: Paulo Henriques Britto entre a humildade e a onipotência”, Alice Leal, da Universidade de Viena, no texto “Between omnipotence and humility: Scliar’s fictional translator and Borge’s Pierre Menard”, retoma as reflexões de Rosemary Arrojo a partir da literatura sobre a visibilidade do tradutor. Para tanto, a autora convoca quatro textos: “As aspas da Tradução”, entrevista publicada em jornal, em que Britto assume uma posição mais conservadora relacionada à autoria do tradutor; “Notas ao pé da página”, de Moacyr Scliar, texto ficcional em que um tradutor, ao traduzir um autor, apresenta páginas em branco e somente notas, tomando o lugar da autoria desse autor; “Pierre Menard, autor del Quijote”, de Jorge Luis Borges, em que a leitura e a convencionalidade vêm se acoplar à invisibilidade; “Tradução e Criação”, texto mais tardio de Britto, em que são desenvolvidos os conceitos de aproximação e autonomização para diferenciar os atos de criação de um original e de uma tradução. Nesse emaranhado bem descrito pela autora, Leal observa similaridades, apesar das diferenças entre Arrojo e Britto, no pensamento de uma e outro, o que já se antevê no paradoxo do título, “onipotência e humildade”, e aborda o patriarcado nas oposições entre os papéis da mulher e do homem, do ler e do escrever, da tradução e do original, do sujeito e do objeto, apontando para a questão do feminismo nos Estudos da Tradução, mas também da autoria. Recheado de menções a autores e pesquisas relacionadas aos temas cuidadosamente levantados, o artigo ainda discute os limites entre teoria e prática, traduzibilidade e natureza da linguagem, contrapondo cada uma dessas perspectivas.
Leila Darin, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em seu texto “The representation of translator in Chico Buarque de Holanda’s Essa gente: impertinente letter, irony, and co-authorship”, revisita conceitos como a (in)visibilidade da tradutora e do tradutor, a leitora e leitor, a revisora e revisor, tomando como base a tradução da canção “Essa Gente”, de Chico Buarque. Lembra o “fictional turn”, a virada ficcional nos Estudos da Tradução nos anos de 1990 – também citada por Leal no capítulo anterior –, o pós-estruturalismo e textos clássicos de Rosemary Arrojo, dos anos de 1980 e de 2010. É especialmente com base em Fictional translators: rethinking translation through literature, de Rosemary Arrojo, 2018, que Darin aponta para uma faceta da definição de transficção no cenário dos Estudos da Tradução, destacando que Arrojo “reflete sobre o papel tradicionalmente dado às tradutoras e tradutores ao examinar como temas e agentes relacionados à tradução foram retratados em contos e romances por autores de diferentes tradições e períodos históricos” (Darin, 2023, p. 54, tradução minha). Ao longo de sua análise, ressalta ainda a discussão a respeito da impossibilidade de domar as palavras, as quais, em oposição ao processo de constante negociação linguística, são muitas vezes ilusoriamente alocadas em sólidas estruturas textuais.
“The sequestered home: translation and counter-families in Jane Ayre”, capítulo de Michelle Woods, da Universidade do Estado de Nova York, faz ao leitor um convite para revisitar a obra Jane Eyre, de Charlotte Brontë. A autora segue caminho transficcional similar ao de Arrojo (2018), em que as personagens das obras “Notas de Rodapé” de Scliar e Se una notte d’inverno un viaggiatore de Calvino, N. e Ludmilla, respectivamente, são vistas como “representações ficcionais de um texto”, denunciam a “necessidade masculina de possuir e autorizar esse texto” (Woods, 2023, p. 67, tradução minha) estampam a instabilidade do original, o poder e a autoria em sua relação com a tradução, o masculino e o feminino. Woods, no entanto, observa em Jane Eyre não somente uma tradutora, mas uma comunidade de tradutoras: as personagens Jane, Diana e Mary (e suas traduções do alemão). Pelas metáforas de counter-family e mother Nature, a autora vê nessas mulheres e em sua “casa isolada”, e consequentemente na tradução, o papel de submissão, mas também de refúgio, pelo qual conseguem alcançar um espaço de herança, de negociação por atos compartilhados de leitura, os communal acts, e de independência e liberdade por atos de tradução, compartilhados entre as personagens.
No capítulo “Detours of Babel”, D. M. Spitzer retoma o clássico texto de Jacques Derrida sobre tradução, “Des tours de Babel”, para relembrar que o plural do título original conduz a uma multiplicidade de leituras; afinal, a torre bíblica de Babel, que seria uma só (a unidade universal), nem mesmo chegou a ser erigida (devido à resistência). Acrescentando ao desconstrutivismo derridiano uma perspectiva feminista e um certo olhar transficcional, propõe pensar não em uma “representação transficcional” da tradução, mas em “gestos translativos – ações narrativas que podem ser entendidas como tradução similar e figurada” (Spitzer, 2023, p. 79, tradução minha). Nesse sentido, o autor segue com a metáfora dos tijolos de Derrida numa “leitura transficcional reversa” (Spitzer, 2023, p. 79), em que atuam também o fogo (o antes e o depois) e a água (o antes e o depois). Numa minuciosa leitura dos gestos vistos nos versos da cena babélica, o autor nota que se misturam línguas, construção, suspensão, tradução (lança mão das traduções bíblicas de André Chouraqui e de Louis Segond). De um lado, o fogo figura o masculino, a estabilidade, a uniformidade dos sentidos; de outro, a água-fluidez divina desestabiliza a unidade ou a pura língua ou linguagem (die reine Sprache), numa lógica da multiplicação ou de um dilúvio feminino.
O autor do capítulo seguinte, Brian James Baer, da Universidade do Estado de Kent, inicia seu texto “Transfiction in late soviet society: the imaginary East in semyon Lipkin’s Dekada” lembrando que Jon Thiem (“The translator as hero in postmodern fiction”, 1995), apesar de tratar do global no contexto pós-moderno, apenas faz referências a trabalhos da Europa ocidental. Como a transficção, segundo Baer, está muito ligada a contextos culturais específicos, o autor propõe olhar para ela no contexto da extinta cultura soviética. Por esse motivo, rememora trabalhos importantes que tratam especificamente dessa cultura, de seus valores e ideais, colocando em perspectiva o svoi, ou o próprio dela, e o unye, ou o fora dela, mas não em oposição a ela. Nos diversos momentos históricos que construíram ou desconstruíram as culturas soviéticas (Guerra Fria, cultura oficial, identidade, cosmopolitismo, internacionalismo, desterritorialização, colapso), o autor percebe a criação tanto de um Ocidente imaginário quanto de um Oriente imaginário. Nota que o investimento soviético massivo em traduções a partir de 1918, numa espécie de internacionalismo com a abertura para outras culturas, se dá por um controle igualmente massivo da interpretação dessas traduções pela produção de muitos materiais paratextuais, o que não é simplesmente uma reflexão sobre o mundo ocidental desconhecido, mas uma reflexão negativa. Com minúcia, Baer mostra por um olhar de dentro, apoiado em muitos autores, o movimento político soviético de tradução intranacional, que se deu com trabalhos pouco inspiradores, fábricas de fake-lore, pseudo-traduções e traduções a partir de textos interlineares. Este contexto, em que se percebe a falta de necessidade de domínio e de conhecimento das outras línguas e culturas, mostra-se a favor do programa soviético e sua estética (Realismo Socialista) e se dá em detrimento da produção de originais de autores não publicados que são chamados a trabalharem como tradutores, em uma corrente de repressão, em um trabalho controlado e, nas palavras do autor, “hackeado” pelo Estado (Baer, 2023, p. 100). Seguindo o curso de seu texto, o leitor é convidado a adentrar esse mundo visto de dentro numa visada cronológica necessária, dos anos de 1910 até de 1990, citando a passagem do dentro para fora da “máquina do estado” em tradução e em produção (Baer, 2023, p. 106), com destaque para Lipkin e Bodorskii. Terminando com um poema de Lipkin, o autor mostra como a prática da tradução interlinear acaba por contribuir com a desterritorialização interna do mundo soviético, e, após o seu colapso, o surgimento da transficção pós-soviética.
A partir de três romances colombianos e inspirados por Arrojo (2018), mas também por Édouard Glissant, Juan G. Ramírez, da Universidade de Antioquia, e Laura Esperanza Venegas Piracón, da Universidade Nacional da Colômbia, revisitam conceitos caros aos Estudos da Tradução, relacionando-os à ficção e vice-versa, no capítulo “Scrambled tongues united in a single voice: transfiction in contemporary colombian literature”. Em sua leitura transficcional de La sombra del licántropo, de Hugo Chaparro Valderrama, discorrem sobre interpretação e ética na construção dos sentidos, tanto do lado da ficção policial quanto da tradução, uma vez que não há somente uma verdade para desvendar na montagem de um quebra-cabeças apergaminhado, seja ele um mistério ou um original por uma individualidade contingencial. Em Changó, el gran putas, de Manuel Zapata Oliveira, a tradução colonial, na figura de um intérprete que lidera uma revolta de escravos, é colocada à prova. Nesse sentido, destacam-se as noções de poder, transparência e monolinguismo em contraposição ao silenciamento, à escravidão e ao aniquilamento, em que outras linguagens são necessárias para a sobrevida da diversidade cultural e da alteridade na relação com o Outro em uma experiência abissal. Em Latin moon in Manhattan, de Jaime Manrique, a subjetividade é colocada em destaque, em contraposição à visão conservadora da transferência dos sentidos, pelo viés de uma personagem dicotômica, um tradutor, que reflete sobre sua identidade colombiana e a assimilação da cultura estadunidense. Como intérprete de migrantes em juízo com suas dicotomias (interpretar e escrever, mediar e agir, pertencer e não pertencer), sente empatia em relação a essas vidas, o que faz emergir uma tensão entre a subjetividade e a objetividade, entre a liberdade e a opressão. Nessa tensão, a personagem, em sua individualidade, expressa reações físicas que não controla em situações extremas na corte. É a sua subjetividade incontrolada em sua individualidade e o controle exercido pelo ambiente objetivo da lei, subjacente à interpretação, que metaforizam as fronteiras da objetividade, da subjetividade e da individualidade do tradutor, temas maiores desse capítulo. Por fim, contrapondo a importância dada aos textos latinos em relação às produções ocidentais, os autores enfatizam o papel da tradutora-leitora/tradutor-leitor como participante ativa e ativo da construção dos sentidos.
No capítulo “Fidelity and performability in theater (translation)”, Ruth Bohunovsky, da Universidade Federal do Paraná, parte das reflexões de Rosemary Arrojo em Oficina de Tradução, de 1986, para questionar visões ainda tradicionais sobre a tradução teatral. Segundo Bohunovsky, a tradução enriquece e transforma, pela autoria de quem traduz, o original. E, como o texto teatral implica performance, os caminhos do tradutor e do diretor desse tipo de tradução em sua posição autoral na reescrita desse original devem ser questionados. Nesse contexto, a autora aborda a questão da fidelidade por dois supostos tipos distintos de tradução teatral, aqueles “para a página” (for page) e aqueles “para o palco” (for stage) (Bohunovsky, 2023, p. 126-127). Para tanto, convoca Susan Bassnett e outros autores a fim de discorrer sobre estratégias de tradução, lembrando que as traduções para o palco nem sempre são publicadas, mas existem na performance do palco, em que atuam noções ligadas à fala, à ação e à encenação; nesse sentido, lembra também a noção de adaptação. Com exemplos, sem esquecer a tradução literária e poética, vê a tradução teatral enquanto resultado de estratégias tradutórias e argumentativas como um caminho para o dilema de quem decide o que será levado para o palco. Isto, para a autora, não depende apenas do aspecto linguístico do texto, mas da decisão referente à performabilidade do texto a partir do material linguístico. Indaga, portanto, a respeito do que seria, desse texto, performável. Para ela, a leitura de Oficina é indispensável para olhar para a reescritura na tradução teatral, e em qualquer outro texto traduzido, sob a perspectiva da transformação.
No texto “Translation dilemas in South Corea” sobre o papel do tradutor de obras sul-coreanas traduzidas para o inglês – Parasite, de Bong Joon-Ho, The vegetarian, de Han Kang, e Please look after mom, de Kyung-sook Shin – e com base em Arrojo (“Deconstruction, psychoanalysis, and the teaching of translation”, 2012; Fictional translators: rethinking translation through literature, 2018), Youn Soo Kim Goldstein, da Universidade do Estado de Weber, discorre sobre a suposta hierarquia na relação entre autora/autor e original e tradutora/tradutor e tradução, afirmando que os prêmios que as obras receberam igualam essas oposições. Para entender esse equilíbrio, Goldstein observa as narrativas epitextuais e as estratégias discursivas das traduções. Estas, tendendo à domesticação, fizeram que a recepção das obras fosse exitosa. Chama também a atenção para os agentes e fatores que participam do processo além do tradutor, mostrando que a tradução é o resultado de um trabalho de equipe. Nesse raiado de relações, têm destaque a ilusão da transparência, a (in)visibilidade, a fidelidade, o preconceito e as lutas internas. Com os exemplos de Parasite, The vegetarian e Please look after mom, Goldstein ressalta o movimento de intensa globalização e valorização de uma cultura antes marginalizada. E percebe, aqui, o poder transformador da tradução, que trouxe novas perspectivas para a tradução literária sul-coreana. Como disse Deborah Smith, tradutora de The vegetarian, a popularidade dessas traduções deve-se não apenas ao foco na língua de chegada, mas a saber usá-la para recriar os estilos coreanos de escrita e de narrativa.
Com um título sugestivo, “The unfaithful faithfulness: the practice of translation and Arrojo’s post-nietzschean insights”, Lauro Maia Amorim, da Universidade Estadual Paulista, mostra uma perspectiva mais materializada dos argumentos que defende sobre a fidelidade, uma vez que apresenta excertos de originais e traduções de épocas diferentes. Mounin (Les problèmes théoriques de la traduction, 1963), Derrida (Of grammatology, 1997), Foucault (“What is na author?”, 1977), Barthes (“The death of the author”, 1986) e, principalmente, Arrojo (“A desconstrução do sentido e a origem do significado”, 1992), são alguns dos autores que embasam o texto de Amorim, principalmente no que se refere a (in)fidelidade, pontos de vista e (re)criação. Partindo da contraposição entre noções de fidelidade, a mais tradicional e a de Rosemary Arrojo, revela como a tradutora, ou o tradutor, está sujeita às contingências social e contextual, de tempo e espaço, ao interpretar um original e traduzi-lo; evidencia, assim, que seu ponto de vista não é somente individual, mas socialmente construído. Conclui que toda e qualquer interpretação de um texto, e sua consequente tradução, é “inerentemente infiel” (Amorim, 2023, p. 168).
Ao apresentar um conceito de tradução pós-terapêutico (Oliveira, 2023, p. 171), Paulo Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas, lembra em seu capítulo “A post-therapeutic ‘translation’ concept” a segmentação que se vê nos Estudos da Tradução por subáreas e questiona se é possível ter somente um conceito de tradução que as perpasse. Como, segundo Arrojo (“Lessons learned from Babel”, 2002), o verdadeiro objeto das indagações da área é a tradução, Oliveira considera que uma teoria geral da tradução apresenta pelo menos dois riscos: o de talvez não conformar a complexidade conceitual de seu objeto e o da (in)coerência ao lidar com esse aspecto. A começar daí, desenvolve sua reflexão transficcional para discutir o estar-entre o normativo e o descritivo do uso dos conceitos pelo filme de Ridley Scott, Blade runner (do romance de Philip Dick), e por escritos de várias autoras e autores, como Gideon Toury (adequação, normas), Jacques Derrida (desconstrução), Arley Moreno (epistemologia do uso), mas notadamente Ludwig Wittgenstein (linguagem, semelhanças de família, vago conceitual). É a partir desse imponente arcabouço, no espaço entre culturas, na inter ou na transdisciplinaridade, nos usos metafóricos, nas condições semióticas, que o autor nos leva à construção de seu conceito pós-terapêutico de tradução; ao expandir o conceito de tradução pela noção do vago, mostra que é possível abordá-la de diversas formas, em variados contextos e condições, e não apenas nos Estudos da Tradução.
Em suas “Notes on translation, alterity, and relationality: from the regimes of indistinction to the disclosure of relation”, Mauricio Mendonça Cardozo, da Universidade Federal do Paraná, discute a relacionalidade da tradução em sua dimensão de poiesis, baseado nos escritos de Arrojo (“A tradução como paradigma dos intercâmbios linguísticos”, 1993), Berman (L’épreuve de l’étranger, 1984), Derrida (Le toucher, Jean-Luc Nancy, 2000), e Jean-Luc Nancy (Être singulier pluriel, 2013). Para tanto, parte de uma definição: tradução é relação. Nela, o autor destaca dois pontos: a tradução como relação e o caminho pelo qual a tradução acontece como relação. Em seguida, acrescenta que, como acontecimento, a condição relacional do texto traduzido deve ser levada em conta em termos de alteridade e de singularidade, afinal, o tradutor faz tanto a tradução quanto a relação, numa forma de escrever-em-relação e ler-em-relação e num entendimento relacional do ser. Em vista disso, Cardozo acrescenta que relação é transformação, numa poiesis relacional, em que a alteridade permite ver a tradução como uma forma de vida do original e ver ela mesma, em sua relacionalidade, constituída como uma forma de vida. Não deixamos de ver aqui uma possível inspiração de Walter Benjamin e seu clássico “A tarefa do tradutor” sobre a “forma de vida” de que fala Cardozo.
Tendo em consideração a agitação causada pelo texto clássico de Christopher Norris Deconstruction: theory and practice (1982), que popularizou entre acadêmicos ocidentais, notadamente estadunidenses, o termo “desconstrução” de Derrida, superficialmente interpretado ou reduzido, Kanavilil Rajagopalan, da Universidade Estadual de Campinas, traz à tona em “Toward a grammatologically informed linguistics” as associações negativas que ainda fazem a esse conceito para, em contrapartida, mostrar como ele pode “nutrir” a Linguística em detrimento de seu “logocentrismo” (Rajagopalan, 2023, p. 201). Nesse caminho, debate a cientificidade dos estudos linguísticos, desde Saussure até Chomsky, passando por abordagens mais contemporâneas (sem esquecer gregos e romanos), a fim de questionar o próprio objeto da Linguística. Ao convocar Ricardo Otheguy, Ofelia Garcia e Wallis Reid (“Clarifying translanguaging and deconstructing named languages: a perspective from linguistics”, 2015), o autor reflete sobre o binarismo e o essencialismo para “rebutar” a disciplina – a Linguística – por um novo olhar sobre a linguagem, especialmente inspirado na Gramatologia derridiana (Rajagopalan, 2023, p. 211-212).
Lenita Rimoli Pisetta, da Universidade de São Paulo, propõe em seu capítulo “‘A modest proposal’ for a translation theory” um caminho para uma teoria da tradução. Partindo de Georges Mounin, e de sua afirmação de que a tradução constitui um escândalo para a linguística de sua época, já que ela implica outras dimensões que não somente a linguística, a autora faz, inicialmente, uma passagem por escritos de linguistas, como Jakobson, Saussure, Jespersen, Sapir, Bloomfield, para evocar que muitos deles sequer trataram do problema. Pergunta, então, como seria possível haver uma teoria da tradução se é difícil acomodá-la, como fenômeno, em uma teoria da linguagem. Discutindo Austin (tradução como ato performativo) e Douglas Robinson (anedota e ética), Pisetta faz uso do conceito de complexidade de Paul Cilliers (“Complexity, deconstruction and relativism”, 2005) para pensar a tradução também como um sistema complexo, que é, resumidamente, aberto e modesto. A modéstia, em particular, estaria ligada à responsabilidade ética de lidar com esse sistema complexo. Tomando como ilustração as indagações de Derrida a respeito da tradução de uma lexia do alemão para o português e do que seria uma tradução relevante, a autora apresenta uma proposta “modesta”, porém produtiva, para uma teoria da tradução.
O plural tributo a Rosemary Arrojo, cujo pensamento-palimpsesto mais precoce ainda ecoa em seus escritos transficcionais mais recentes, não só traz extensa e atual bibliografia sobre a área, como também faz da coletânea uma referência essencial para tradutores, professores e pesquisadores, iniciantes ou já experimentados, que queiram se (in)formar sobre transficção nos Estudos da Tradução.
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Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
Referências
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- Baer, B. J. (2023). Transfiction in Late Soviet Society: The Imaginary East in Semyon Lipkin’s Dekada. In D. M. Spitzer & P. Oliveira. (Eds), Transfiction and Bordering Approaches to Theorizing Translation: Essays in Dialogue with the Work of Rosemary Arrojo (pp. 94-110). Routledge.
- Bohunovsky, R. (2023). Fidelity and Performability in Theater (Translation). In D. M. Spitzer & P. Oliveira. (Eds), Transfiction and Bordering Approaches to Theorizing Translation: Essays in Dialogue with the Work of Rosemary Arrojo (pp. 125-138). Routledge.
- Darin, L. C. M. (2023). The Representation of the Translator in Chico Buarque de Holanda’s Essa gente: Impertinent Letter, Irony, and Co-authorship. In D. M. Spitzer & P. Oliveira. (Eds), Transfiction and Bordering Approaches to Theorizing Translation: Essays in Dialogue with the Work of Rosemary Arrojo (pp. 54-66). Routledge.
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- Spitzer, D. M., & Oliveira, P. (Eds.). (2023). Transfiction and bordering approaches to theorizing translation: Essays in dialogue with the work of Rosemary Arrojo Routlege.
- Woods, M. (2023). The Sequestered Home: Translation and Counter-Families in Jane Eyre. In D. M. Spitzer & P. Oliveira. (Eds), Transfiction and Bordering Approaches to Theorizing Translation: Essays in Dialogue with the Work of Rosemary Arrojo (pp. 67-78). Routledge.
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Editores de seção
Andréia Guerini – Willian Moura
