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Open-access CONSTRUINDO PONTES GERACIONAIS: BENEFÍCIOS E DESAFIOS DA INCLUSÃO DE PESSOAS IDOSAS NA UNIVERSIDADE

CONSTRUYENDO PUENTES GENERACIONALES: BENEFICIOS Y DESAFÍOS DE INCLUIR A LAS PERSONAS MAYORES EN LA UNIVERSIDAD

Resumo:

O envelhecimento da população aponta para a necessidade de as universidades se tornarem espaços de ampla inclusão para as pessoas idosas, seja como estudante, profissional ou participante de projetos, como os de extensão. Diante desse contexto, o presente estudo teve como objetivo geral sistematizar a produção acadêmica acerca das relações e das práticas intergeracionais no ambiente universitário. Os objetivos específicos foram: explorar os benefícios e desafios das relações intergeracionais nesse contexto, além de investigar se as práticas adotadas vão ao encontro dos 10 princípios da Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa (Age-Friendly University Global Network). Este estudo caracteriza-se como uma revisão da literatura, que utilizou o PubMed, o Scopus e a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) como bases de dados, em uma busca conduzida entre setembro e outubro de 2024. Foram utilizados os seguintes critérios de inclusão: artigos científicos com participantes da comunidade acadêmica que apresentassem relações e práticas intergeracionais e seus efeitos, publicados nos últimos 10 anos. Ao final da busca, foram selecionados 15 artigos. Todas as publicações analisadas elencaram diversos benefícios da intergeracionalidade, sendo que a maioria identificou o idadismo como o principal desafio dessa relação. Dos 10 princípios propostos pela Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa, cinco não foram identificados nas práticas intergeracionais analisadas. A escassez de práticas intergeracionais no contexto universitário, especialmente para além da modalidade de projetos de extensão, apontam para a urgência de iniciativas que incentivem essas ações.

Palavras-chave:
Intergeracionalidade; práticas universitárias; idoso; Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa

Abstract: As populations age, universities have the opportunity to become inclusive spaces for older adults-whether as students, professionals, or participants in community-based initiatives such as extension projects. This study aimed to systematize academic research on intergenerational relationships and practices in university environments. The specific objectives were to explore the benefits and challenges of intergenerational relationships within this context and to evaluate whether existing practices align with the ten principles of the Age-Friendly University Global Network. This research was conducted as an integrative literature review. Searches were carried out in the PubMed, Scopus, and VHL databases between September and October 2024. Inclusion criteria required scientific articles featuring participants from the academic community, focusing on intergenerational relationships, their practices, and outcomes, published within the last decade. A total of 15 articles were selected for review. The findings highlighted numerous benefits of intergenerational practices, with most studies identifying ageism as the primary challenge. However, five of the ten principles of the Age-Friendly University Global Network were absent from the intergenerational practices reviewed. The lack of robust intergenerational initiatives within university settings, particularly in environments without extension projects, underscores the urgent need for policies and practices that foster meaningful intergenerational connections.

Keywords:
Intergenerationality; university practices; older adults persons; Age-Friendly University Global Network.


Resumen:

El envejecimiento de la población apunta a la necesidad de que las universidades se conviertan en espacios de amplia inclusión para las personas mayores, ya sea como estudiantes, profesionales o participantes de proyectos, como los de extensión. En este contexto, el objetivo general de este estudio es sistematizar la literatura académica sobre las relaciones y prácticas intergeneracionales en el ámbito universitario. Los objetivos específicos son explorar los beneficios y desafíos de las relaciones intergeneracionales en este contexto, así como investigar las prácticas adoptadas para cumplir los diez principios de la Red Global de Universidades Amigables con las Personas Mayores. Este estudio se caracteriza por ser una revisión integradora de la literatura, que utilizó como bases de datos PubMed, Scopus y la Biblioteca Virtual en Salud (BVS), en una búsqueda realizada entre septiembre y octubre de 2024. Se utilizaron los siguientes criterios: inclusión: artículos científicos con participantes de la comunidad académica, que presentó las relaciones y prácticas intergeneracionales y sus efectos, publicados en los últimos 10 años. Al final de la búsqueda se seleccionaron 15 artículos. Todas las publicaciones analizadas enumeraron varios beneficios de la intergeneracionalidad, y la mayoría identificó la discriminación por edad como el principal desafío de esta relación. De los 10 principios propuestos por la Red Global de Universidades Amigas de las Personas Mayores, cinco no fueron identificados en las prácticas intergeneracionales analizadas. La escasez de prácticas intergeneracionales en el contexto universitario, especialmente más allá de los proyectos de extensión, apunta a la urgencia de iniciativas que fomenten estas acciones.

Palabras clave:
Intergeneracionalidad; prácticas universitárias; anciano; Red Global de Universidades Amigas de las Personas Mayores

Introdução

O envelhecimento da população brasileira está ocorrendo de forma mais acelerada do que em países desenvolvidos já considerados envelhecidos, como o Japão e a Itália (Mrejen; Nunes; Giacomin, 2023). Esse cenário acarreta diversos desafios, exigindo reconfigurações sociais, culturais e educacionais, especialmente no que diz respeito à intergeracionalidade.

A intergeracionalidade refere-se ao convívio entre diferentes gerações, para a promoção da troca de conhecimentos, experiências e a transmissão de valores e práticas. Esse processo permite que os mais jovens aprendam com os mais velhos e vice-versa, além de também possibilitar a adaptação e a ressignificação de modelos passados, influenciados pelas mudanças culturais e sociais (Leite; França, 2016). Além disso, Cohen-Mansfield e Jensen (2015) apontam que os programas em contexto escolar que estimulam a intergeracionalidade têm efetos positivos no desempenho acadêmico, como mais disposição para estudar, melhora no comportamento em sala de aula, maior frequência e participação nas aulas.

Apesar dos diversos benefícios da intergeracionalidade, alguns desafios precisam ser vencidos, sendo o idadismo um dos principais. O idadismo, também conhecido com etarismo ou ageísmo, acontece quando “a idade é usada para categorizar e dividir as pessoas de maneiras que levam a danos, desvantagens e injustiças e que corroem a solidariedade entre gerações” (World Health Organization [WHO], 2021, p. 2, tradução nossa).

No Relatório Global sobre idadismo, da Organização Mundial de Saúde - OMS (OMS, 2021), dados sobre diversos países apontam que o idadismo ocorre em diferentes esferas, como nas políticas públicas de saúde e assistência social, nos locais de trabalho, na mídia, no sistema de acesso à justiça e na educação. Entretanto, é importante salientar que as pesquisas sobre idadismo e educação são escassas e recentes (WHO, 2021).

As relações intergeracionais são uma importante ferramenta de combate ao idadismo, principalmente nas instituições escolares; intervenções educacionais e a intergeracionalidade podem melhorar atitudes e conhecimentos sobre o envelhecimento, beneficiando tanto a formação dos estudantes quanto a qualidade do cuidado e do convívio social oferecido às pessoas idosas (Tuohy et al., 2023). O relatório da OMS (OMS, 2021) apontou que há três estratégias que funcionam para reduzir o idadismo: políticas e leis, atividades educativas e intervenções de contato intergeracional (WHO, 2021).

No contexto universitário, a intergeracionalidade se apresenta como uma oportunidade estratégica para promover reflexões, desconstruir estigmas associados à velhice e incentivar práticas inclusivas que beneficiem tanto jovens quanto idosos. Fomentar a intergeracionalidade em programas acadêmicos permite o desenvolvimento de habilidades importantes, como a comunicação efetiva, e contribui para o enfrentamento ao idadismo (WHO, 2021).

Estudos apontam que o contato intergeracional em universidades favorece o desenvolvimento mútuo (Leite; França, 2016): jovens adquirem maior compreensão do processo de envelhecimento, enquanto pessoas idosas se beneficiam da renovação proporcionada pelas interações e fortalecem sua identidade como membros produtivos e participantes da sociedade. Apesar desses avanços, desafios persistem, como a ausência de ações voltadas às pessoas idosas e o baixo número de alunos mais velhos nas universidades, o que limita a potencialidade desse tipo de convivência.

Uma importante iniciativa para mudar esse cenário é a Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa, uma associação de instituições de ensino superior comprometida com a promoção do envelhecimento positivo e saudável e com a melhoria da qualidade da vida dos membros mais velhos da comunidade global. Essa associação cria programas educativos inovadores e agendas de investigação, além de incentivar o desenvolvimento curricular, a educação on-line, atividades de saúde e bem-estar, programas de artes e cultura e o envolvimento cívico (Age-Friendly University Global Network [AFU]).

A Rede foi criada em 2012, na Irlanda, por iniciativa de pesquisadores da Dublin City University, e atualmente conta com 138 universidades, em 14 países, sendo duas no Brasil, a Pontifícia Universidade Católica de Campinas, São Paulo e, em setembro de 2025, a Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais.

Nesse cenário, o presente estudo teve como objetivo geral sistematizar a produção acadêmica acerca das relações e das práticas intergeracionais no ambiente universitário. Os objetivos específicos foram: explorar os benefícios e desafios das relações intergeracionais nesse contexto, além de investigar se as práticas adotadas vão ao encontro dos 10 princípios da Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa (Age-Friendly University Global Network).

Por meio da revisão da literatura, espera-se propor reflexões para fortalecer a intergeracionalidade no ambiente universitário, fomentando uma convivência mais rica, inclusiva e transformadora para todas as pessoas envolvidas.

Métodos

Este estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura que, de acordo com Souza, Silva e Carvalho (2010, p. 102), consiste na “síntese do conhecimento e a incorporação da aplicabilidade de resultados de estudos significativos na prática”. Inicialmente, foi realizada uma busca sistemática em bases de dados científicas, para selecionar artigos relevantes das áreas de saúde, educação e ciências sociais e humanas. As bases de dados escolhidas foram: PubMed,2 Scopus3 e BVS,4 devido à sua abrangência e relevância como repositórios de estudos acadêmicos de qualidade.

Na busca, conduzida entre setembro e outubro de 2024, foram utilizados descritores e expressões de busca específicas, como intergenerational relations, relação entre gerações, convívio intergeracional, e seus equivalentes em espanhol e inglês, combinados com termos como universities, higher education e academic spaces. Inicialmente, não houve limitação em relação ao ano de publicação ou idioma, mas, para refinar os resultados, foram incluídos nesta pesquisa exclusivamente artigos produzidos nos últimos 10 anos, publicados em português, inglês ou espanhol e cujas versões completas podem ser acessadas de forma gratuita. Portanto, foram excluídos livros, resenhas, dissertações, artigos publicados há mais de 10 anos e estudos que não abordassem relações e práticas intergeracionais em espaços acadêmicos. Ao final da busca, foram selecionados 15 artigos, sendo três provenientes da PubMed, sete da BVS e cinco da Scopus, conforme mostra o Quadro 1:

Quadro 1
Artigos encontrados por bases de dados

A análise dos estudos selecionados consistiu na identificação e categorização das práticas intergeracionais descritas, dos impactos percebidos nas relações entre gerações e dos desafios associados a essas práticas no contexto universitário, além da investigação de quais dessas práticas vão ao encontro dos 10 princípios apresentados pela Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa. Assim, foram elencadas as seguintes categorias de análise: 1) Intergeracionalidade e Universidades; 2) Iniciativas e princípios de uma universidade amiga da pessoa idosa.

A revisão integrativa permitiu uma compreensão do estado atual do conhecimento sobre as relações e as práticas intergeracionais no ambiente acadêmico, o que pode contribuir para o fortalecimento dessas iniciativas e sua aplicação em futuras propostas educacionais e institucionais.

Resultados e discussão

Dos 15 artigos selecionados, um foi publicado em 2016; um, em 2018; quatro, em 2019; três, no ano de 2020; quatro, em 2023; dois, em 2024. A maior parte dos artigos (10) são do Brasil, seguido dos Estados Unidos (dois), sendo que Canadá, Irlanda e Portugal possuem um artigo cada, conforme o Quadro 2 (que seguiu ordem crescente do ano de publicação: do artigo mais antigo ao mais recente).

Quadro 2
Dados dos artigos analisados

A análise da literatura sobre as relações intergeracionais nos espaços acadêmicos revelou diferentes abordagens e implicações quanto ao convívio entre gerações, destacando a importância de iniciativas educacionais e sociais para integrar idosos em ambientes universitários.

Leite e França (2016), em seu trabalho intitulado A importância da intergeracionalidade para o desenvolvimento de universitários mais velhos, analisaram, em duas instituições privadas de ensino superior da região metropolitana do Rio de Janeiro, como as relações intergeracionais influenciam o desenvolvimento de estudantes mais velhos. A pesquisa, conduzida com uma abordagem qualitativa, incluiu entrevistas semiestruturadas com 20 estudantes, divididos em dois grupos etários (10 idosos com mais de 60 anos e 10 jovens entre 18 e 25 anos), além de três professores e dois funcionários. Os resultados apontaram que, embora professores e funcionários não estivessem plenamente preparados para atender às demandas específicas dos estudantes mais velhos, a convivência intergeracional gerou inúmeros benefícios. Para os idosos, o contato com os jovens favoreceu a renovação pessoal, permitindo-lhes acompanhar as rápidas mudanças da sociedade contemporânea. Essa interação também reforçou o sentimento de pertencimento e a identidade, fazendo com que os idosos se sentissem integrantes produtivos do ambiente acadêmico, além de promover a inclusão social por meio de trocas enriquecedoras entre gerações.

O relato de experiência de acadêmicos de enfermagem na Universidade Estadual Vale do Acaraú, em parceria com o Centro de Saúde da Família Sumaré, em Sobral, Ceará, descreve atividades intergeracionais voltadas para a promoção da saúde de idosos. Durante o módulo Práticas Interdisciplinares de Ensino, Pesquisa e Extensão foram realizadas ações educativas baseadas nos interesses dos participantes, como resgate de memórias, exercícios físicos, alimentação saudável e prevenção de quedas. As atividades, conduzidas semanalmente no Centro de Saúde, buscavam ressignificar a convivência social e estimular a interação grupal entre os idosos, promovendo benefícios como maior adesão a práticas coletivas e fortalecimento de vínculos sociais. O estudo destaca que o trabalho em grupo, aliado a uma abordagem interdisciplinar envolvendo estudantes de diferentes áreas, contribuiu para a inclusão social e o bem-estar dos idosos, evidenciando a relevância da intergeracionalidade na promoção da saúde (Damasceno et al., 2018).

A revisão sistemática de Maximiano-Barreto, Luchesi e Chagas (2019) sobre as atitudes implícitas em relação aos idosos por parte de profissionais de saúde e estudantes de cursos da área da saúde revelou que, de maneira geral, existe uma tendência a atitudes implícitas negativas em relação aos idosos, especialmente entre os participantes da pesquisa, que eram acadêmicos e profissionais da saúde com idades entre 18 e 35 anos. A maioria dos estudos revisados, realizados em países desenvolvidos, demonstrou que os homens apresentavam atitudes mais negativas em comparação às mulheres. Além disso, o estudo identificou que um dos principais fatores que contribuem para essas atitudes negativas é a falta de convivência e interação dos estudantes com pessoas idosas durante o período universitário, o que dificulta o desenvolvimento de uma perspectiva mais positiva sobre o envelhecimento. A utilização do Teste de Avaliação Implícita (IAT) em todos os estudos permitiu evidenciar a preferência implícita dos profissionais entrevistados por um público-alvo mais jovem, refletindo um preconceito sutil, que pode influenciar a prática profissional, especialmente nos cursos de psicologia, enfermagem e medicina (Maximiano-Barreo; Luchesi, Chagas, 2019).

A pesquisa de Luna, Melo e Vaz (2019), intitulada Entre chegadas e partidas: conversas intergeracionais no Projeto de Extensão Saúde do Idoso, analisou narrativas de 18 estudantes de medicina participantes do Projeto na Faculdade de Ciências Médicas da Paraíba. O Projeto promoveu encontros com idosos de uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), buscando sensibilizar os estudantes sobre as múltiplas dimensões da velhice. A análise temática de conteúdo identificou quatro categorias principais: as chegadas, as diferentes velhices, as conversas e as partidas. Os resultados indicaram que a convivência intergeracional contribuiu para desconstruir estereótipos sobre idosos institucionalizados e ampliou a compreensão dos estudantes sobre a velhice. Além disso, o Projeto facilitou a troca de saberes entre a comunidade acadêmica e os idosos, promovendo um aprendizado significativo e humanizado sobre o envelhecimento.

Nunes et al. (2019) investigaram o impacto do Projeto Intervoice, que aplicou a metodologia Photovoice em uma Estrutura Residencial para Pessoas Idosas, em Portugal, com foco no bem-estar e na autoestima dos residentes. A pesquisa qualitativa envolveu idosos e estudantes de psicologia, visando estimular a aprendizagem de novas tecnologias, promover a interação entre gerações e aprofundar a compreensão sobre o envelhecimento e a institucionalização. A fotografia emergiu como ferramenta eficaz para os participantes expressarem suas percepções e narrativas pessoais, além de facilitar as relações com funcionários e outros residentes. Contudo, o estudo também evidenciou desafios relacionados ao ambiente físico, como o tamanho dos quartos e a decoração dos corredores, que afetam a adaptação dos idosos.

O artigo de Mengatto e Camargo (2019) sobre o Programa Sênior, da UFPR, investigou o significado do trabalho para os servidores aposentados do Programa e o impacto dessa participação no convívio intergeracional. A pesquisa, de caráter exploratório e qualitativo, com coleta de dados por meio de entrevistas, revelou que o Programa tem um papel importante, pois permite que os aposentados mantenham uma relação contínua com a Universidade, promovendo a integração desses sujeitos à vida social e acadêmica. No entanto, o estudo também apontou que a dinâmica institucional ainda carece de estratégias que assegurem a transmissão de conhecimento e experiência dos servidores antes de seu desligamento definitivo da vida profissional. Apesar das limitações, o Programa foi considerado positivo para os aposentados, contribuindo para que eles se mantivessem ativos e produtivos. Além disso, favoreceu a qualidade de vida no envelhecimento, especialmente ao proporcionar um ambiente de interação intergeracional, com benefícios tanto para os aposentados quanto para os mais jovens da instituição (Mengatto; Camargo, 2019).

O trabalho de Simon, Masinda e Zakrajsek (2020) sobre a Age-Friendly University (AFU), da Eastern Michigan University (EMU), investigou as percepções de diferentes partes interessadas sobre as barreiras, oportunidades e apoios relacionados à convivência de diferentes faixas etárias na universidade. A pesquisa identificou aspectos positivos, como a riqueza das experiências intergeracionais, com os participantes destacando que a presença de estudantes mais velhos no campus contribui com uma vasta gama de perspectivas. Contudo, também foram evidenciadas várias barreiras que dificultam a inclusão de estudantes mais velhos, como a escassez de desenvolvimento profissional voltado para a inclusão etária. No nível micro, as dificuldades pessoais dos estudantes mais velhos, como os diferentes estilos de vida e a interação com outros grupos etários, foram destacadas. No nível macro, questões como idadismo, limitações financeiras da universidade e inacessibilidade dos espaços físicos e virtuais foram identificadas como desafios significativos. Além disso, a pesquisa revelou a necessidade de as instituições de ensino superior adaptarem suas práticas para atender melhor os estudantes mais velhos (Simon; Masinda; Zakrajsek, 2020).

Com base em grupos focais e análise temática, Morrow-Howell et al. (2020) exploraram os desafios e oportunidades envolvidos na inclusão de estudantes mais velhos na Washington University, nos Estados Unidos. A pesquisa revelou que esses estudantes são valorizados por sua determinação, maturidade e contribuição para os debates acadêmicos, mas enfrentam obstáculos significativos, como dificuldades com tecnologias, adaptação aos ambientes de aprendizagem e preocupações sobre o retorno do investimento educacional. Além disso, questões como preconceito etário e falta de valorização da diversidade de idades emergiram como barreiras importantes. Os participantes sugeriram estratégias para melhorar a inclusão e atender às demandas desse grupo, como grupos de apoio, aprendizado flexível, suporte financeiro e maior envolvimento comunitário. Embora haja entusiasmo em criar um campus mais inclusivo, o equilíbrio entre os benefícios e os desafios da diversidade etária requer a criação de políticas e práticas institucionais de apoio a esses estudantes.

Silva et al. (2020) investigaram o impacto do uso do software VIPAGE5 na formação de estudantes de farmácia, com ênfase no atendimento a pacientes geriátricos. Os achados apontaram uma melhoria significativa nas atitudes dos participantes em relação aos idosos, evidenciada pelo aumento na pontuação média da Escala de Atitudes Geriátricas. Além disso, houve um avanço no conhecimento sobre geriatria, demonstrado pela redução nas pontuações relacionadas à falta de entendimento nessa área. O VIPAGE revelou-se uma ferramenta eficaz para conscientizar os estudantes sobre os cuidados geriátricos e aprimorar suas habilidades nesse campo.

Em 2023, Lopes et al. analisaram as perspectivas de estudantes de medicina, enfermagem e biomedicina sobre a participação no programa intergeracional Tec-Idoso, promovido como projeto de extensão, na Universidade Federal do Vale do São Francisco, no Nordeste do Brasil. Utilizando uma abordagem qualitativa, os pesquisadores realizaram entrevistas semiestruturadas, via Google Meet, com seis participantes, abordando tópicos como o contato intergeracional, habilidades de comunicação e o impacto nas práticas profissionais futuras. Os resultados evidenciaram benefícios significativos, como o aprimoramento das habilidades de comunicação, a mudança positiva na percepção sobre o envelhecimento e a preparação para enfrentar desafios profissionais e pessoais. Além disso, constatou-se um impacto positivo no desempenho acadêmico, decorrente da interação e aprendizado com idosos, especialmente no uso de tecnologias, o que contribuiu para um entendimento mais empático e inclusivo das demandas geriátricas.

O estudo de Viana e Helal (2023) abordou o idadismo no ambiente acadêmico da Universidade Federal do Piauí, utilizando a Escala de Ageísmo no Contexto Organizacional (EACO). O estudo indicou que a percepção sobre o idadismo varia conforme a faixa etária dos docentes, com professores mais velhos frequentemente identificando mais aspectos positivos do que negativos em relação ao envelhecimento no trabalho. Os resultados mostraram que o envelhecimento docente está relacionado a vivências laborais que promovem um "ageísmo positivo", refletindo uma valorização crescente das contribuições e competências dos professores mais experientes. No entanto, embora menos evidente entre docentes de faixas etárias mais elevadas, a pesquisa também identificou a presença de aspectos negativos associados ao etarismo, o que ressalta a complexidade das interações intergeracionais no meio acadêmico.

Roque et al. (2023) exploraram o idadismo no campo da fonoaudiologia, examinando suas repercussões no cuidado oferecido a pessoas idosas. Por meio de uma revisão integrativa de literatura, foi constatada a presença de etarismo entre estudantes e profissionais da área, expressa em estereótipos e atitudes negativas em relação ao envelhecimento. As pesquisas revisadas utilizaram instrumentos variados para avaliar o fenômeno, como o Facts on Aging Quiz e a Escala Kogan de Atitudes em Relação aos Idosos, revelando que o ageismo influencia tanto o olhar clínico quanto as interações terapêuticas com idosos. Apesar de as conclusões não permitirem generalizações amplas, o trabalho ressalta a importância da conscientização e da capacitação sobre o envelhecimento na fonoaudiologia, para reduzir preconceitos e aprimorar a qualidade do atendimento.

Uma revisão conduzida por Tuohy et al. (2023) sobre a aprendizagem intergeracional entre pessoas idosas e estudantes de enfermagem revelou que atividades como visitas regulares, jardinagem comunitária e narrativas intergeracionais exercem um impacto positivo na percepção dos estudantes acerca do envelhecimento. Esses projetos ajudam a reduzir o etarismo e estimulam a troca de conhecimentos e experiências. Com base em nove estudos, que envolveram de 12 a 210 estudantes e de cinco a 94 idosos, a análise destaca que a interação intergeracional em ambientes acadêmicos promove uma compreensão mais ampla sobre o envelhecimento, beneficiando ambas as gerações e incentivando uma abordagem mais inclusiva no ensino da enfermagem.

A pesquisa realizada por Guimarães et al. (2024) explorou, em três universidades públicas do Sul do Brasil, o impacto da educação gerontológica e do contato intergeracional na redução do idadismo entre estudantes de odontologia. Os resultados apontaram que, embora os participantes tenham relatado algum nível de educação gerontológica, essa formação parece ser insuficiente para prepará-los adequadamente para o atendimento à saúde bucal de idosos e para combater preconceitos relacionados à idade. Além disso, o estudo destacou a importância de valorizar os aspectos positivos das relações intergeracionais como uma estratégia para mitigar o idadismo entre futuros profissionais de odontologia.

O estudo conduzido por Brondani et al. (2024) investigou as autopercepções de estudantes de odontologia em relação ao envelhecimento, considerando como eles se imaginavam aos 65, 75 e 85 anos. A pesquisa foi realizada ao longo de 14 anos, com estudantes da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, por meio de ensaios individuais que integravam um curso de geriatria odontológica. Os resultados revelaram a presença de idadismo tanto em níveis individuais quanto estruturais, embora também tenham sido constatadas percepções positivas sobre o envelhecimento, como um maior realismo acerca das transformações corporais e condições de vida em idades avançadas. Apesar de expectativas pessimistas, como isolamento social e morte, os participantes demonstraram atitudes otimistas, que podem estar relacionadas a experiências pessoais ou projeções idealizadas. O artigo ressalta a necessidade de pesquisas longitudinais para analisar como a educação pode influenciar essas percepções e reforçar atitudes positivas durante a formação odontogeriátrica.

Os artigos citados apontam alguns desafios para a intergeracionalidade e, mais especificamente, para a entrada e permanência das pessoas idosas no contexto universitário, seja como estudante, professora ou participante de algum projeto. Uma importante ferramenta para enfrentar essas dificuldades seria a transformação das universidades em espaços amigos da pessoa idosa, conforme defendido pela Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa.

No Quadro 3, são apresentados os 10 princípios das Universidades Amigas da Pessoa Idosa, com a identificação dos artigos que apresentam práticas intergeracionais correlacionadas a cada um deles:

Quadro 3
Correlação das iniciativas intergeracionais identificadas nos artigos analisados com os 10 princípios da Rede de Universidades Amigas da Pessoa Idosa

Considerando os 10 princípios propostos pela Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa, cinco (II, IV, VII, VIII e IX) foram identificados nas práticas intergeracionais das universidades, relatadas nas publicações analisadas e cinco não foram contemplados (I, III, V, VI e X).

Dos 15 artigos, apenas um trouxe o relato exclusivamente das pessoas idosas participantes, enquanto cinco se dedicaram à análise unicamente da narrativa dos jovens/adultos, seis consideraram as impressões tanto dos idosos como dos jovens/adultos envolvidos e três pesquisas eram revisões de literatura.

A investigação aponta que a opinião dos idosos foi menos valorizada do que a das pessoas jovens/adultas, pois 11 artigos ouviram os jovens/adultos e sete consideraram o relato dos idosos. Esse dado vai de encontro à proposta de envelhecimento saudável da Organização Mundial da Saúde (OMS, 2020), que defende a ampla participação das pessoas idosas na sociedade. Portanto, seria mais interessante que as publicações atentassem tanto para o ponto de vista dos idosos quanto dos jovens e adultos.

Das 15 publicações, nove descreveram/analisaram a realidade do contexto universitário, três artigos eram sobre projetos de extensão, um discorria acerca de uma disciplina e dois analisaram programas que não eram de extensão e nem de disciplinas.

Chama atenção a falta de artigos sobre estudantes universitários idosos, uma escassez que demonstra a conjuntura atual. No Brasil, por exemplo, de acordo com dados do Ministério da Educação, apenas 0,23% dos candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2024 tinham mais de 60 anos. Entre as matrículas de cursos de graduação no ano de 2023, as de pessoas idosas representavam menos de 16,5%. Vale destacar que, apesar de baixos, esses números estão aumentando (INEP, 2024).

Dentre as 15 pesquisas analisadas, quatro não anunciaram a área de estudo e as outras eram de cursos da área da saúde, mais especificamente, enfermagem, medicina e odontologia (dois de cada) e farmácia, fonoaudiologia e psicologia (uma publicação de cada). Dois dos artigos eram da saúde, mas não identificaram de qual área.

A prevalência de publicações oriundas da saúde demonstra que uma das quatro linhas de ação do Programa de Envelhecimento Ativo, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), está sendo respeitada, especialmente entre os profissionais em formação: “Alinhar os sistemas de saúde para que atendam às necessidades específicas das pessoas idosas” (OPAS, 2005, p. 45).

Quanto ao vínculo, nove publicações não apontaram se as pessoas idosas eram comunitárias ou não, duas pesquisaram idosos institucionalizados e quatro artigos relataram a experiência com idosos comunitários.

Todos os artigos analisados destacaram os benefícios das relações entre diferentes gerações no contexto universitário, sendo os principais deles: a inclusão social das pessoas idosas, a desconstrução de estereótipos etários, o enriquecimento do ambiente de aprendizagem, a melhora na capacidade de comunicação entre pessoas de diferentes idades, os efeitos positivos no desempenho acadêmico, a percepção dos estigmas relacionados à aprendizagem de pessoas idosas (e consequente possibilidade de mudanças), a aquisição de habilidades que irão impactar favoravelmente futuras práticas profissionais, a preparação para lidar de maneira mais assertiva com a população idosa, a melhoria no conhecimento sobre o processo de envelhecimento, o entendimento sobre as diferentes formas de envelhecer, a compreensão de que a velhice é uma etapa do desenvolvimento que não se restringe a doenças e a mudança da perspectiva biomédica para a psicossocial do envelhecimento.

Todos esses benefícios vão ao encontro das áreas de ações propostas pela OMS para promover o envelhecimento saudável (OMS, 2020, p. 6-7), como explícito no excerto a seguir:

[...] mudar a forma como pensamos, sentimos e agimos com relação à idade e ao envelhecimento; garantir que comunidades promovam as capacidades das pessoas idosas; entregar serviços de cuidados integrados e de atenção primária à saúde centrados na pessoa e adequados à pessoa idosa; propiciar o acesso a cuidados de longo prazo às pessoas idosas que necessitem.

Como desafios da intergeracionalidade na universidade identificados nos trabalhos analisados, destacaram-se: desinteresse e resistência de alguns idosos em se relacionar com os estudantes mais novos, necessidade de superar a perspectiva negativa dos estudantes jovens/adultos sobre a velhice, enfrentamento aos estereótipos construídos acerca do envelhecimento, urgência da adaptação às necessidades específicas das pessoas mais velhas e, principalmente, o idadismo.

No contexto universitário, o enfrentamento dessas dificuldades precisa ocorrer de maneira tanto institucional como micro. Em termos mais amplos, isso pode acontecer por meio da realização de pesquisas - como Intergeracionalidade e Envelhecimento: Práticas, Desafios e Oportunidades, da PUC Minas - e da criação de políticas, como a Política para o Envelhecer Saudável, Participativo e Cidadão, da UnB. Na conjuntura micro, podem ser pensadas estratégias como debates em sala de aula e apresentações de trabalhos acerca de temáticas relacionadas ao envelhecimento e às relações intergeracionais, além da realização de estágios com o público idoso.

Considerações finais

A presente pesquisa buscou sistematizar a produção acadêmica acerca da intergeracionalidade no ambiente universitário, analisando seus benefícios e desafios e investigando se as práticas relatadas vão ao encontro dos 10 princípios da Rede Global de Universidades Amigas da Pessoa Idosa.

Os estudos abordados focaram principalmente nos benefícios da intergeracionalidade no ambiente acadêmico. De forma geral, os desafios dizem respeito ao enfrentamento do idadismo e, para tanto, acredita-se que a maior convivência entre as gerações, em situações intra ou extrafamiliar, pode fazer com que o preconceito por conta da idade seja superado. Assim sendo, defende-se que ocorra uma educação para o desenvolvimento humano e, consequentemente, para o envelhecimento.

Especificamente no cenário universitário, a maior parte dos artigos tratava sobre projetos de extensão. Vale destacar a escassez de publicações acerca de ações voltadas para a pessoa idosa como estudante.

Dessa forma, fica evidente a relevância de iniciativas intergeracionais nas universidades e entre universidades como ferramentas para a promoção de uma sociedade mais equitativa e integrada, consciente de que todas as gerações podem contribuir para o ensino, a pesquisa e a extensão no meio acadêmico. Partindo do pressuposto de que a intergeracionalidade é benéfica para todas as pessoas envolvidas e que a América do Sul é a região com menor adesão à Rede Global de Universidades Amigas das Pessoas Idosas, o fomento de práticas intergeracionais e de pesquisas envolvendo várias universidades é um caminho promissor, que fortalece a Década do Envelhecimento Saudável (2021-2030) proposta pela Organização Mundial de Saúde e integra cursos, para além da área da saúde, que se destacam na temática da intergeracionalidade.

Desse modo, o presente estudo reforça a importância da continuidade das investigações sobre relações e práticas intergeracionais nas universidades, uma vez que essas pesquisas podem ser fomentadoras de ações de enfrentamento ao idadismo e da melhoria nas relações, bem como da implementação de ações que valorizem a convivência e o aprendizado mútuo entre gerações.

Referências

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  • 2
    PubMed é uma base de dados que reúne citações de literatura biomédica, periódicos de ciências biológicas e livros online.
  • 3
    De acordo com o Portal de Periódicos da Capes, “Scopus é a maior base de dados de resumos e citações de literatura revisada por pares, com ferramentas bibliométricas para acompanhar, analisar e visualizar a pesquisa”. Disponível em: https://www.periodicos.capes.gov.br/images/documents/Scopus_Guia%20de%20refer%C3%AAncia%20r%C3%A1pida_10.08.2016.pdf Acesso em: 22/08/2025.
  • 4
    Segundo o próprio site da BVS, “a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde é responsável pela veiculação das publicações bibliográficas produzidas pelo Ministério da Saúde, bem como informações gerais na área de ciências da saúde”. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/o-que-e-a-bvs-ms/. Acesso em: 22/08/2025.
  • 5
    VIPAGE é um softwary que usa pacientes virtuais para a educação em geriatria (Silva et al., 2020).
  • FINANCIAMENTO
    Fundo de Incentivo à Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - FIP PUC Minas
  • DECLARAÇÃO SOBRE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
  • 1
    Artigo publicado com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq/Brasil para os serviços de edição, diagramação e conversão de XML.

Editado por

  • Editor de seção:
    Suzana dos Santos Gomes

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

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