Resumo
A educação formal de pessoas surdas no Brasil remonta a 1857, com a predominância do paradigma oralista, centrado na leitura labial e na fala, em detrimento da Língua Brasileira de Sinais (Libras). A inflexão rumo ao bilinguismo começou na década de 1990, impulsionada pela mobilização do movimento surdo, pelos avanços nos estudos linguísticos das línguas de sinais e pelas recomendações internacionais de inclusão. Apesar desses avanços no campo normativo e teórico, observa-se que os educadores ainda enfrentam dificuldades significativas para acessar e utilizar materiais didáticos acessíveis, especialmente aqueles adequados às especificidades da educação bilíngue de surdos. Nesse sentido, esta pesquisa realizou uma revisão sistemática de literatura (RSL) com o objetivo de analisar produções acadêmicas que elaboraram e aplicaram materiais acessíveis de matemática voltados a educandos da educação bilíngue de surdos. Foram analisados 15 trabalhos publicados entre 2013 e 2023, cujos resumos foram processados por meio do software Iramuteq, possibilitando uma análise lexical e categorial dos dados. Os resultados indicam uma baixa produção de materiais voltados ao ensino de matemática para esse público, com foco predominante nos anos finais do ensino fundamental. Além disso, verificou-se que a maioria dos recursos não apresenta a Libras diretamente inserida nos materiais como primeira língua, limitando sua acessibilidade. Esses achados reforçam a necessidade de ampliar a produção de materiais didáticos bilíngues e acessíveis, fundamentais para garantir uma educação matemática inclusiva e equitativa para os educandos do PEBS.
Palavras-chave:
Educação bilíngue de surdos - Matemática - Libras - Materiais acessíveis - Deficiência auditiva.
Abstract
The formal education for the deaf in Brazil dates to 1857, with predominance of oralist paradigm, centered on lip and speech reading, to the detriment of the Brazilian Sign Language (Libras). The inflexion towards bilingualism started in the 1990s, driven by the deaf movement mobilization, the advances in linguistic sign studies, and the international recommendations for inclusion. Despite these advances in the normative and theoretical fields, it can be noted that educators still face significant difficulties to access and use accessible didactic materials, especially those appropriate to the particularities of the deaf bilingual education. In this sense, this research performed a Systematic Literature Review (SLR) aiming at analyzing academic productions that prepared and applied accessible materials of mathematics for deaf students of bilingual education. Fifteen papers published between 2013-2023 were reviewed, which abstracts were processed by the Iramuteq software, making possible to conduct a lexical and categorical analysis of the data. The results indicate a low production of materials for mathematics teaching to this public, focusing predominantly in the final years of elementary education. In addition, it was found that most of the resources do not introduce Libras directly inserted in the materials as first language, thus limiting its accessibility. Such findings reinforce the need for extending the production of bilingual didactic and accessible materials, which are critical to ensure an inclusive and equitative mathematics education for students of PEBS.
Keywords:
Bilingual deaf education - Mathematics - Libras - Accessible materials - Hearing impairment.
Introdução
A educação de pessoas surdas no Brasil iniciou-se em 1857, com a criação do Imperial Instituto de Surdos-Mudos - denominação que, após um século, deu lugar ao atual Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES), onde prevaleceu, durante décadas, o paradigma oralista, em detrimento da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Uma educação bilíngue e que valoriza a língua de sinais ocorreu somente por volta de 1990 (Lacerda, 1998). Esse novo paradigma foi juridicamente se consolidando ao longo dos anos, por legislações como a Lei nº 10.436/2002, que reconheceu a Libras como meio legal de comunicação e expressão, e pelo Decreto nº 5.626/2005, que regulamentou seu uso na educação. Assim, desde então, o INES adota oficialmente a Educação Bilíngue de Surdos, na qual a Libras é empregada como primeira língua de instrução e o português escrito, como segunda.
Nessa perspectiva, a instituição oferece, de forma gratuita, tanto a formação básica quanto cursos de graduação e pós-graduação a estudantes surdos e ouvintes, constituindo-se em referência nacional para a promoção de práticas educacionais bilíngues. Segundo a Lei nº 14.191, de 3 de agosto de 2021, a educação bilíngue de surdos é uma modalidade de ensino “independente” e que perpassa os diferentes níveis da educação brasileira, de forma transversal, e tem como principais características o ensino da Libras como primeira língua e a Língua Portuguesa escrita como segunda língua (Brasil, 2021). Como público da educação bilíngue de surdos (PEBS), caracterizam-se educandos “[...] surdos, surdo- cegos, alunos com deficiência auditiva sinalizantes, surdos com altas habilidades ou superdotação ou com outras deficiências associadas [...]” (Brasil, 2021, art. 60-A, sic).
De acordo com Rocha, Lacerda e Prieto (2024) e o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) (2024a), entre 2016 e 2024, o pico do número de educandos do PEBS matriculados em escolas e classes especializadas e comuns ocorreu em 2018, com 65.612 matrículas. Contudo, após o pico, o número de matrículas apresentou quedas sucessivas até alcançar a mínima de 61.409 em 2021, durante a pandemia da Covid-19 (INEP, 2021). No período pós-pandemia, entretanto, o quadro é de estabilidade, com números que variam entre 61.500 e 62.200 (INEP, 2024a). Apesar disso, verifica-se que o comportamento das matrículas não tem sido uniforme entre os principais grupos que constituem o PEBS. No primeiro ano da série temporal analisada por Rocha, Lacerda e Prieto (2024), havia 27.527 matrículas de educandos surdos, 35.642 matrículas de educandos com deficiência auditiva e 444 matrículas de educandos com surdocegueira. Nos anos subsequentes, as matrículas de educandos surdos caíram gradualmente, chegando a 18.561 em 2024. Entretanto, para os outros dois grupos, observou-se um movimento contrário, com 42.440 matrículas de educandos com deficiência auditiva e 622 matrículas de educandos com surdocegueira (INEP, 2024a). Segundo os autores, contudo, “[...] tal redução merece investigações específicas com aprofundamento em questões qualitativas, inclusive relacionadas ao ensino ofertado a esses sujeitos” (Rocha; Lacerda; Prieto, 2024, p. 10).
Ainda sobre o PEBS, para os fins deste trabalho, ressalta-se a importância da distinção entre os termos “deficiência auditiva” e “surdez”. Nesse sentido, de acordo com o decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, art. 2º: “considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva, compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais - Libras” (Brasil, 2005). Da mesma maneira, segundo Brasil (2013, p. 22), utiliza-se o termo “‘Surdez’, para indicar estudantes que utilizam Língua de Sinais e ‘Deficiência Auditiva’, para indicar estudantes que, por ouvirem um pouco, utilizam, mesmo que precariamente, a modalidade oral da Língua Portuguesa”. Por fim, no caderno de glossário do censo da educação básica de 2024, a definição proposta é dividida em graus de perda auditiva, assim “consiste em impedimentos permanentes de natureza auditiva, ou seja, na perda parcial (deficiência auditiva) ou total (surdez) da audição [...]”. Por fim, o documento ressalta que “Cabe destacar que os alunos surdos usuários da Língua Brasileira de Sinais (Libras) demandam a priorização e valorização dessa língua, como primeira língua, e a organização de todo o processo educacional na perspectiva da educação bilíngue” (INEP, 2024b, p. 6).
Sobre a Libras, destaca-se que, segundo a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, o termo refere-se à Língua Brasileira de Sinais, compreendida como uma “forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil” (Brasil, 2002). Portanto, o acrônimo refere-se a língua em “Li”, e não a linguagem. Segundo Quadros (2004, p. 8), linguagem “é utilizada num sentido mais abstrato do que língua, ou seja, refere-se ao conhecimento interno dos falantes-ouvintes de uma língua”. Ainda nessa senda, Libras é língua, pois apresenta “[...] as propriedades específicas das línguas naturais, sendo, portanto, reconhecidas enquanto línguas pela Linguística” (Quadros, 2004, p. 8).
Em relação aos procedimentos didáticos que orientam a educação bilíngue de surdos, é importante destacar que a didática voltada ao ensino de pessoas surdas não se confunde com aquela direcionada às pessoas com surdocegueira, uma vez que essas condições implicam demandas educacionais, comunicacionais e pedagógicas distintas. Enquanto a educação de estudantes surdos, especialmente no contexto da educação bilíngue, estrutura-se prioritariamente na visualidade e no uso da Libras como primeira língua, a educação de pessoas com surdocegueira requer abordagens didáticas baseadas na comunicação tátil, no uso de sistemas alternativos e ampliados de comunicação e em estratégias que integrem múltiplos canais sensoriais, respeitando o grau e o momento de aquisição das perdas sensoriais. Assim, a simples transposição de materiais e metodologias elaboradas para educandos surdos não garante acessibilidade pedagógica a estudantes com surdocegueira, o que reforça a necessidade de pesquisas e produções específicas que considerem as singularidades desse público e fundamentem práticas didáticas próprias, coerentes com suas formas de percepção, comunicação e aprendizagem (Rocha; Vasconcelos; Costa, 2021).
No entanto, a despeito das legislações e recomendações supracitadas em relação à educação bilíngue de surdos, Kumada et al. (2022) ressalta que educadores frequentemente enfrentam dificuldades em encontrar materiais didáticos bilíngues em Libras e Língua Portuguesa, fato que compromete a formação do educando do PEBS na medida em que o português escrito não é a sua primeira língua. Dessa forma, o objetivo desta pesquisa foi analisar produções acadêmicas que elaboraram e aplicaram materiais acessíveis de matemática voltados a educandos do PEBS, a fim de auxiliar educadores na busca por materiais didáticos adequados às necessidades do público pesquisado. Optou-se por limitar o estudo a trabalhos sobre a disciplina de matemática devido à formação acadêmica dos autores. Os materiais encontrados foram adicionados a uma plataforma digital acessível e gratuita2, de modo a democratizar o acesso aos recursos encontrados.
Método
A fim de alcançar os objetivos propostos, esta pesquisa caracteriza-se como qualitativa, exploratória e configura-se como uma Revisão Sistemática de Literatura (RSL). A abordagem qualitativa justifica-se pelo fato de os dados analisados corresponderem a conteúdos textuais extraídos dos trabalhos selecionados, permitindo a interpretação de sentidos, recorrências e enfoques analíticos. O caráter exploratório decorre da ainda incipiente produção acadêmica sobre materiais acessíveis de matemática voltados à educação bilíngue de surdos, o que dificulta a formulação de hipóteses previamente delimitadas (Gil, 2008).
Etapas da Revisão Sistemática de Literatura
A RSL foi desenvolvida de forma sistematizada, organizada em quatro etapas principais, de modo a assegurar transparência, rigor metodológico e possibilidade de replicação do estudo.
Etapa 1 - Definição da estratégia de busca
Inicialmente, definiu-se o escopo da revisão, delimitando-se as bases de dados, o recorte temporal, o idioma e os descritores utilizados. As buscas foram realizadas nas bases Scientific Electronic Library Online (SciELO) Brasil e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), por se tratarem de repositórios amplamente reconhecidos e relevantes para a produção científica nacional nas áreas da Educação e Educação Especial. O recorte temporal compreendeu o período de 2013 (ano anterior ao Plano Nacional de Educação - PNE) a 2023 (ano anterior ao início da pesquisa), e o idioma selecionado foi a língua portuguesa, considerando o foco da pesquisa na realidade brasileira e a necessidade de uniformidade linguística para a análise textual no software utilizado.
As palavras-chave foram selecionadas com base nos conceitos discutidos na seção teórica, resultando nos seguintes descritores combinados por meio do operador booleano AND: matemática AND Libras; matemática AND surdez; matemática AND Língua Brasileira de Sinais; matemática AND deficiência auditiva; e matemática AND Linguagem de Sinais. A inclusão do termo “Linguagem de Sinais”, embora conceitualmente inadequado, teve caráter estratégico, visando ampliar o alcance das buscas diante do uso recorrente e equivocado dessa nomenclatura em produções acadêmicas.
Etapa 2 - Triagem inicial dos estudos
Na SciELO Brasil, as buscas foram realizadas nos campos “All indexes” e “Abstract”, em razão das diferenças nos resultados obtidos conforme o campo selecionado. Na BDTD, optou-se pelo campo “All fields”, uma vez que buscas em outros campos não produziram variações significativas. Nessa etapa, procedeu-se à leitura dos títulos e resumos, aplicando-se os critérios de inclusão: (i) foco na Educação Básica; e (ii) abordagem de materiais voltados ao ensino de matemática para educandos da educação bilíngue de surdos.
Etapa 3 - Aplicação dos critérios de exclusão e seleção final
Após a triagem inicial, aplicaram-se os critérios de exclusão: (i) estudos duplicados; (ii) revisões de literatura; (iii) trabalhos indisponíveis na íntegra; e (iv) estudos que não envolvessem a aplicação dos materiais com educandos da educação bilíngue de surdos no contexto da Educação Básica brasileira. Esses critérios foram definidos com o objetivo de assegurar a análise de produções empíricas, diretamente relacionadas à elaboração e aplicação de materiais acessíveis, em consonância com o objetivo da revisão.
Ao final desse processo, foram selecionados 15 trabalhos, que compõem o corpus analítico da pesquisa e cujos resultados são apresentados e discutidos na seção seguinte.
Etapa 4 - Análise dos dados e uso do software Iramuteq
A análise dos dados foi realizada a partir dos resumos dos trabalhos selecionados, processados no software Iramuteq. A escolha por esse recurso metodológico fundamenta- se na possibilidade de realizar uma análise textual pormenorizada, permitindo identificar regularidades, recorrências lexicais e estruturas de sentido presentes nos textos, conforme destacado por Rocha e Oliveira (2022). Segundo os autores, o uso do Iramuteq contribui para a sistematização e visualização dos dados textuais, favorecendo análises mais rigorosas e menos intuitivas, especialmente em pesquisas de caráter documental e textual. No contexto desta pesquisa, o software foi empregado como ferramenta de apoio à análise qualitativa, não substituindo a interpretação teórica dos dados, mas subsidiando a identificação de padrões discursivos relacionados à produção de materiais acessíveis de matemática para educandos do PEBS. Conforme destacam Rocha e Oliveira (2022), o uso do Iramuteq contribui para análises mais rigorosas e menos intuitivas em pesquisas documentais e textuais ao permitir a organização e o tratamento estatístico do corpus. No entanto, o emprego do software também apresenta limitações, especialmente por operar sobre unidades lexicais, não substituindo a interpretação teórica e crítica do pesquisador. Além disso, quando aplicado exclusivamente a resumos, como no caso deste estudo, pode restringir a apreensão de aspectos metodológicos e contextuais mais aprofundados dos trabalhos analisados. Ainda assim, quando utilizado de forma criteriosa e articulado a uma análise qualitativa reflexiva, o Iramuteq mostra-se uma ferramenta relevante na formação de pesquisadores(as) ao favorecer maior transparência, sistematização e rigor analítico no tratamento de dados textuais.
Previamente ao processamento, os textos dos resumos foram adaptados conforme as diretrizes do manual do Iramuteq, incluindo a padronização lexical, a união de termos compostos por meio de underline e a escrita por extenso de algarismos numéricos. O Quadro 1 apresenta os principais procedimentos de padronização adotados.
Com a padronização das palavras e seguindo as orientações do manual do Iramuteq, foram criadas linhas de comando para cada resumo, que seguiram o formato: **** *Art_1, seguido pelo texto do resumo padronizado; e assim sucessivamente, até o último resumo selecionado, gerando um documento .txt em formato 8-bit Unicode Transformation Format (UTF-8), que foi utilizado no processamento das informações no software e cujos resultados são apresentados na próxima seção.
Resultados
Nesta seção são apresentados os resultados obtidos após a busca nas bases de dados selecionadas e a análise dos resumos dos trabalhos encontrados, realizada por meio do software Iramuteq.
Visão geral das buscas nas bases de dados
A primeira etapa da RSL consistiu na busca nas bases de dados selecionadas e resultou em 577 trabalhos (de 2013 a 2023), entre artigos, teses e dissertações, sendo 24 na SciELO Brasil (20 na busca “All indexes” e 4 na busca “Abstract”) e 553 na BDTD. A Tabela 1 apresenta a quantidade de trabalhos encontrados com cada descritor. Nela, verifica-se que as palavras Libras e Língua Brasileira de Sinais, apesar de referirem-se a um mesmo conceito, apresentaram números significativamente distintos, mostrando a importância de se valer de diferentes variações de um mesmo termo para expandir os resultados da pesquisa.
Na segunda etapa da RSL, foram analisados os títulos e resumos dos 577 trabalhos, que foram submetidos aos critérios de inclusão apresentados na seção anterior. Dessa forma, restaram 49 trabalhos, que foram lidos na íntegra e submetidos aos critérios de exclusão (seção Método). Desse total, 24 estudos foram excluídos por serem duplicados, ou seja, por aparecerem em mais de uma busca; um estudo foi excluído por se tratar de revisão de literatura; três foram excluídos por não estarem disponíveis na íntegra; e seis foram excluídos por não terem sido aplicados na Educação Básica. Restaram, portanto, 15 trabalhos, que compõem os resultados desta pesquisa e cujos resumos foram processados e analisados via software Iramuteq. Desse total, dois são artigos, 12 são dissertações de mestrado e um é uma tese de doutorado. O Quadro 2 apresenta a síntese dos trabalhos selecionados, com destaque para as unidades temáticas3 abordadas, o segmento escolar, o público-alvo e o local de aplicação das pesquisas.
Visão geral das análises realizadas por meio do Iramuteq
Os resumos dos 15 trabalhos sintetizados no Quadro 2 foram padronizados conforme os métodos descritos na seção anterior (Método) e analisados por meio do software Iramuteq. Desse modo, foram obtidos os seguintes dados:
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Segmentos de texto: 123
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Número de formas distintas: 1170
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Número de ocorrências: 4265
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Número de palavras que aparecem apenas uma vez: 731
Com esses resultados, gerou-se recursos visuais de análise, como a nuvem de palavras (Figura 1), a análise de similitude (Figura 2) e o Método de Reinert (Figura 3), que serão apresentados e discutidos nas seções subsequentes. Para a elaboração das Figuras 1 e 2, devido à quantidade de palavras distintas presentes nos resumos (731), optamos por escolher palavras com frequência absoluta maior ou igual a 15 (ou seja, que aparecem, em média, uma vez por resumo analisado). A Tabela 2 apresenta as palavras selecionadas.
Contudo, mesmo com a aplicação do critério descrito (pela frequência em que aparecem nos 15 resumos), verificamos que algumas não agregavam valor à análise, pois, isoladamente, não tinham significado (“como”, “ao” e “ano”). Dessa forma, optamos por manter somente palavras relacionadas a fatores didáticos e metodológicos (“pesquisa”, “material”, “ensino”, “matemática”, “didático”, “aprendizagem”, “conceito”, “matemático”, “sequência” e “estudo”), com foco no público-alvo da pesquisa (“educandos_surdos”, “libra” e “surdo”) e sobre o local de aplicação dos materiais (“escola”), totalizando 15 das 19 palavras descritas na Tabela 2. Optou-se pela retirada da palavra “professor” por esse grupo não compor o foco da pesquisa.
Discussão
A discussão dos resultados obtidos em ambas as fases descritas na seção anterior (Resultados) é realizada nas seções a seguir, que foram separadas para facilitar a leitura e compreensão dos principais pontos encontrados.
Discussão dos trabalhos encontrados
Com base nas categorias indicadas no Quadro 2, nesta seção são discutidos os principais pontos dos trabalhos selecionados.
Sobre os segmentos escolares e público-alvo
Em relação aos segmentos escolares nos quais os trabalhos foram aplicados, verifica-se que, dos 15 trabalhos, quatro foram desenvolvidos para os anos iniciais do ensino fundamental (Bohm, 2018; Colaço, 2018; Gonçalves, 2022; Morás, 2023), oito para os anos finais do ensino fundamental (Arnoldo Jr. et al., 2013; Atayde, 2019; Caldeira, 2014; Galvão, 2017; Nogueira, 2020; Rocha, 2014; Santos, 2018; Silveira, 2019), dois para o ensino médio (Souza, 2019; Zanoni, 2016) e um pode ser aplicado a qualquer segmento (Kumada et al., 2022). Esses resultados demonstram a predominância de trabalhos com foco nos anos finais do ensino fundamental em detrimento dos demais segmentos escolares. Para a educação infantil, não foram encontrados trabalhos. Sobre o público-alvo, nove trabalhos foram aplicados exclusivamente com educandos surdos (Arnoldo Jr. et al., 2013; Atayde, 2019; Bohm, 2018; Caldeira, 2014; Colaço, 2018; Rocha, 2014; Silveira, 2019; Souza, 2019; Zanoni, 2016), cinco com educandos surdos (Gonçalves, 2022; Kumada et al., 2022; Morás, 2023; Nogueira, 2020; Santos, 2018) e ouvintes e um com educandos com surdocegueira (Galvão, 2017).
Reflexões acerca das unidades temáticas e tipos de materiais utilizados
A análise das unidades temáticas demonstrou que há equilíbrio na produção de trabalhos para as unidades “Geometria”, “Números” e “Álgebra”, com cinco, quatro e três produções, respectivamente. Para a unidade temática “Grandezas e Medidas”, encontrou- se somente um trabalho, enquanto nenhum trabalho foi encontrado para a unidade “Probabilidade e Estatística”. Em pesquisa similar, que objetivou a busca de materiais acessíveis para o ensino de matemática para educandos com cegueira e deficiência visual, Minholi e Rocha (2024) identificaram que as unidades “Geometria” e “Álgebra”, seguidas pela unidade “Números”, foram as mais abordadas nos estudos encontrados para os públicos pesquisados, cujo foco, no caso das duas primeiras, era a “representação de formas geométricas e construção de gráficos de funções, principalmente com o uso do Multiplano”, favorecendo, dessa forma, a manipulação tátil dos objetos matemáticos.
Nesse sentido, em resultado semelhante, os trabalhos selecionados voltados para a “Geometria” possuem foco em tópicos da Geometria Plana e Espacial, como cálculo de áreas (Galvão, 2017; Santos, 2018), nomenclatura e propriedades de polígonos e poliedros (Caldeira, 2014; Rocha, 2014) e pensamento geométrico (Arnoldo Jr. et al., 2013). Além disso, todos os trabalhos utilizam materiais manipulativos, como o multiplano, sólidos geométricos tridimensionais e materiais cotidianos, como palitos de madeira e papel, o que explora a visualidade da pessoa surda e questões palpáveis.
Em “Números”, o foco majoritário dos trabalhos está no ensino das operações básicas (Bohm, 2018; Gonçalves, 2022) e de conjuntos numéricos (Morás, 2023; Souza, 2019). Diferentemente do observado nos trabalhos relacionados à geometria, os autores utilizaram materiais de naturezas distintas, como materiais táteis (tangram, tampas de garrafa e botões), materiais digitais (vídeos no YouTube) e tarefas matemáticas em papel. Na unidade “Álgebra”, os temas abordados foram equações do 2° grau (Silveira, 2019), funções (Zanoni, 2016) e produtos notáveis (Nogueira, 2020). Da mesma forma que na unidade “Números”, os trabalhos com foco em álgebra utilizaram diferentes tipos de materiais, classificados como materiais táteis (dominó em Libras), materiais digitais (Geogebra) e tarefas matemáticas em papel.
Por fim, em “Grandezas e Medidas”, Colaço (2018) aborda o sistema monetário brasileiro por meio de tarefas matemáticas em papel. Ressaltamos que os trabalhos de Atayde (2019) e Kumada et al. (2022), por se tratarem, respectivamente, de um glossário em Libras e da produção de vídeos didáticos (cujos métodos podem ser aplicados para qualquer tema), não foram alocados em nenhuma unidade temática específica, pois aplicam-se a todas elas.
Dessa forma, observa-se que os trabalhos utilizam diferentes tipos de materiais para atuar no processo de ensino e aprendizagem de educandos do PEBS. Um ponto de destaque refere-se à unidade temática “Geometria”, cujos trabalhos utilizaram apenas materiais considerados como manipulativos, diferentemente do observado nas outras unidades, que apresentaram uma maior variedade de tipos de materiais. No entanto, esse fato está possivelmente relacionado à tangibilidade dos conteúdos abordados pelos autores (Geometria Plana e Espacial), enquanto nas outras unidades temáticas os conteúdos abordados são de natureza mais abstrata.
Síntese dos locais de aplicação
Sobre os locais de aplicação, destacam-se dois ambientes distintos: I) Escolas Comuns, definidas aqui como instituições de ensino cuja língua de instrução é a Língua Portuguesa; e II) Escolas Bilíngues de Surdos, definidas aqui como instituições exclusivas para educandos do PEBS cuja língua de instrução é a Libras, sendo a Língua Portuguesa na modalidade escrita utilizada como segunda língua. Dessa forma, os trabalhos de Arnoldo Jr. et al. (2013), Atayde (2019), Bohm (2018), Caldeira (2014), Colaço (2018), Silveira (2019), Souza (2019) e Zanoni (2016) foram aplicados em Escolas Bilíngues de Surdos. Já os trabalhos de Galvão (2017), Gonçalves (2022), Nogueira (2020), Rocha (2014) e Santos (2018) foram aplicados em Escolas Comuns. No caso de Rocha (2014), a pesquisa foi realizada em uma turma exclusiva para educandos do PEBS em uma escola comum. Já o trabalho de Morás (2023) foi aplicado em ambas as instituições.
Discussão das análises realizadas por meio do Iramuteq
Os dados textuais provenientes dos resumos dos trabalhos selecionados na RSL foram utilizados no software Iramuteq para a criação de elementos visuais de análise, que são discutidos a seguir.
Discussão da nuvem de palavras
A Figura 1 é uma nuvem de palavras em fundo amarelo, representando os termos mais frequentes relacionados ao estudo realizado. As palavras estão dispostas com tamanhos proporcionais à sua frequência absoluta, destacando-se:
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educandos_surdos, que aparece com a maior frequência (47), é o termo central e maior da nuvem.
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pesquisa (38), material (34), ensino (31), matemática (30) são visivelmente destacadas em tamanho médio-grande.
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Outros termos como escola (28), didático (27), libra (26), aprendizagem (25) e conceito (23) têm tamanhos intermediários.
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Termos menos frequentes, como matemático (18) e representação (15), aparecem menores.
A nuvem organiza visualmente os termos mais recorrentes do estudo, facilitando a identificação de tópicos principais relacionados ao tema. Dessa maneira, a análise da Figura 1, em conjunto com a Tabela 2, ressalta a alta ocorrência das palavras “educandos_surdos”, “material”, “ensino” e “matemática”, nos permitindo concluir que os trabalhos selecionados na RSL convergem com os objetivos da pesquisa de encontrar materiais didáticos de matemática elaborados e aplicados para educandos do PEBS. Os resultados mostram que o foco das produções, dentro do grupo do PEBS, tem sido os educandos surdos, contendo apenas um trabalho com foco em outros educandos do PEBS (educandos surdocegos).
Nesse sentido, Arnoldo Jr. et al. (2013) afirmam que “muitos estudos têm demonstrado que, tanto em espaços bilíngues quanto em situações de inclusão escolar em turmas de ouvintes, os surdos estão vivenciando barreiras comunicativas” devido às diferenças significativas entre a Libras e a Língua Portuguesa. Especificamente sobre a matemática, os autores sugerem que grande parte dessas barreiras são formadas pela existência de conceitos matemáticos que não possuem sinais. De modo semelhante, Zanoni (2016) afirma que uma barreira vivenciada por educandos surdos está na natureza abstrata da disciplina, que é amplificada pela necessidade do sujeito de, durante o processo de aprendizagem, ter que realizar a transição entre ambas as línguas. Dessa forma, a elaboração de glossários, como o apresentado por Atayde (2019), surgem como uma solução para a eliminação dessas barreiras linguísticas, pois a Libras é a primeira língua das pessoas surdas e, além disso, “o sentido da visão é o mais utilizado por ela, e sua comunicação se dá através de elementos visuais” (Atayde, 2019, p. 76).
Desse modo, a produção de materiais em uma perspectiva bilíngue (em Libras e Língua Portuguesa), por meio da adição de sinais em Libras que auxiliem os educandos surdos a identificarem, em sua primeira língua, os conceitos matemáticos expostos, é uma possibilidade para a eliminação das barreiras descritas (Brasil, 2023, p. 6). Contudo, segundo Kumada et al. (2022), encontrar materiais nessa perspectiva ainda é um desafio enfrentado pelos educadores. Ademais, aproveitando-se da visualidade do educando surdo, os resultados apontam para o uso de materiais táteis como potencializados no aprendizado da matemática. Um exemplo de material é o apresentado por Arnoldo Jr. (2013), que utilizou o Multiplano para desenvolver o pensamento geométrico de educandos surdos. Da mesma forma, os trabalhos de Bohm (2018), Galvão (2017), Gonçalves (2022) e Nogueira (2020) aplicaram, junto a educandos surdos, materiais táteis em atividades específicas, enquanto Caldeira (2014), Colaço (2018), Rocha (2014) e Santos (2018) utilizaram esse tipo de material em sequências didáticas. Um ponto interessante e relevante sobre esses materiais está em sua capacidade integradora, na medida em que um mesmo material possa ser utilizado por educandos com diferentes características (Minholi; Rocha, 2024).
Discussão da análise de similitude
Assim como a Figura 1, a análise da Figura 2 nos permite identificar fatos semelhantes. O ponto central da análise de similitude são os “educandos_surdos”, pois estes representam o público-alvo da RSL. A partir desse termo, verifica-se a existência de quatro ramos principais.
O primeiro ramo, representado pela palavra “material”, que relaciona-se com as palavras “conceito” e “matemático”, significa que os trabalhos objetivaram a apresentação de materiais com foco em conceitos matemáticos, como os de conjuntos numéricos, área, polígonos, poliedros e funções (Caldeira, 2014; Galvão, 2017; Morás, 2023; Rocha, 2014;
Santos, 2018; Souza, 2019; Zanoni, 2016).
O segundo e terceiro ramos, representados pelas palavras “didático” e “escola”, apesar de separados, estão diretamente conectados na medida em que, além de terem sido aplicados em instituições de ensino, aproximadamente 50% dos trabalhos apresentam sequências didáticas voltadas para o ensino de conteúdos matemáticos (Caldeira, 2014; Colaço, 2018; Galvão, 2017; Morás, 2023; Rocha, 2014; Santos, 2018; Zanoni, 2016).
Por fim, o último ramo, representado pela palavra “ensino”, reforça o objetivo dos trabalhos de apresentarem produtos com foco no processo de ensino-aprendizagem da matemática. Porém, nesse ramo há um ponto importante, que é a conexão entre as palavras “matemática”, “libra” e “representação”. Essa conexão indica que os trabalhos utilizaram representações na língua de sinais (a Libras) para ensinar matemática (Arnoldo Jr. et al., 2013; Atayde, 2019; Galvão, 2017; Kumada et al., 2022; Nogueira, 2020), fato importante e necessário, na medida em que essa língua constitui-se como a primeira língua das pessoas surdas (Brasil, 2023, p. 6). Portanto, excluindo da soma os trabalhos repetidos em dois ou mais dos quatro ramos principais descritos, verifica-se a presença de 12 dos 15 trabalhos selecionados, o que demonstra que as divisões realizadas pelo software contemplam a maioria dos estudos analisados.
Discussão do Método de Reinert
A Figura 3 apresenta o Método de Reinert, que foi o último instrumento de análise visual gerado com o Iramuteq. O método utilizou a totalidade das palavras que compõem o corpus textual analisado (os resumos dos trabalhos).
Com os resultados obtidos, verifica-se a presença de cinco classes principais. A Classe 1, que contém as palavras “investigação”, “metodológico”, “aplicação”, “didático”, “sequência” e “registro”, refere-se às metodologias de aplicação dos materiais. Dos 15 trabalhos selecionados, sete propõem a aplicação dos materiais por meio de sequências didáticas (Caldeira, 2014; Colaço, 2018; Galvão, 2017; Morás, 2023; Rocha, 2014; Santos, 2018; Zanoni, 2016), quatro apresentam a aplicação de materiais manipulativos (como o multiplano e o tangram) por meio de atividades específicas (Arnoldo Jr, et al., 2013; Bohm, 2018; Galvão, 2017; Nogueira, 2020), três propõem a utilização de recursos digitais, como o Geogebra e vídeos (Gonçalves, 2022; Kumada et al., 2022; Silveira, 2019) e um apresenta a produção um glossário para sinais matemáticos em Libras (Atayde, 2019).
A Classe 2, que representa 23% do corpus e contém as palavras “pesquisa”, “escola”, “qualitativo”, “aplicado”, “ensino_fundamental”, “bilíngue” e “ação”, diz respeito à metodologia das pesquisas e dos locais de aplicação dos materiais (já descritos anteriormente). Todas as pesquisas são de natureza qualitativa. Contudo, classificam-se em categorias diferentes, como: I) estudo de caso (Arnoldo Jr. et al., 2013; Atayde, 2019; Caldeira, 2014; Colaço, 2018; Galvão, 2017; Gonçalves, 2022; Morás, 2023; Rocha, 2014; Silveira, 2019; Souza, 2019); II) pesquisa ação (Bohm, 2018; Zanoni, 2016); III) pesquisa intervenção (Nogueira, 2020); IV) engenharia didática (Santos, 2018); e V) pesquisa aplicada (Kumada et al., 2022).
A Classe 3, que contém as palavras “ensino”, “intérprete”, “processo”, “educados_ surdos”, “regente” e “professor”, refere-se aos sujeitos envolvidos no processo de aplicação e utilização dos materiais apresentados, sugerindo que a mediação de professores e intérpretes é essencial para a efetividade dos materiais. Durante a primeira etapa da RSL, verificou-se a existência de diversos trabalhos com foco na formação de professores e intérpretes de Libras para atuarem com educandos do PEBS, mas que não foram incluídos nos resultados dados os objetivos da pesquisa.
A Classe 4, que contém as palavras “língua”, “visual”, “vergnaud” e “significativo”, diz respeito às características específicas dos materiais apresentados, bem como algumas das teorias de aprendizagem utilizadas. De fato, os trabalhos de Arnoldo Jr. et al. (2013), Bohm (2018), Caldeira (2014), Colaço (2018), Galvão (2017), Gonçalves (2022), Nogueira (2020), Rocha (2014), Santos (2018) e Souza (2019) apresentam materiais manipulativos, permitindo a visualização dos conteúdos matemáticos por meio de outros sentido que não somente a audição ou por meio da leitura de textos em Língua Portuguesa, assim como os trabalhos de Gonçalves (2022), Kumada et al. (2022) e Silveira (2019), que utilizam recursos digitais para facilitar a visualização de conceitos e procedimentos matemáticos de maneira visual. Em relação às características linguísticas das produções, destaca-se que os trabalhos de Arnoldo Jr. et al. (2013), Atayde (2019), Galvão (2017), Kumada et al. (2022) e Nogueira (2020) apresentam a Libras inserida diretamente nos materiais produzidos em conjunto com a Língua Portuguesa, favorecendo, dessa forma, que o mesmo material possa ser utilizado, com eficácia, por educandos surdos (que possuem a Libras como primeira língua) e educandos que possuem a Língua Portuguesa como primeira língua. Por outro lado, os trabalhos de Bohm (2018), Caldeira (2014), Colaço (2018), Gonçalves (2022), Morás (2023), Rocha (2014), Santos (2018), Silveira (2019), Souza (2019) e Zanoni (2016) utilizam a Libras apenas durante a explicação dos conteúdos propostos, sendo os materiais confeccionados em Língua Portuguesa. Em relação às teorias de aprendizagem, os autores Gérard Vergnaud e David Ausubel aparecem, explicitamente, nos trabalhos de Bohm (2018) e Morás (2023), e Bohm (2018), Colaço (2018) e Silveira (2019), respectivamente.
A Classe 5, que contém as palavras “aula”, “sala”, “atividade” e “manipulável”, refere-se ao momento de aplicação dos materiais. Nesse sentido, os estudos de Arnoldo Jr. et al. (2013), Colaço (2018), Gonçalves (2022), Santos (2018), Silveira (2019) e Zanoni (2016) foram realizados em aulas/oficinas no contraturno escolar. Já os trabalhos de Atayde (2019), Bohm (2018), Caldeira (2014), Galvão (2017), Morás (2023), Nogueira (2020), Rocha (2014) e Souza (2019) foram realizados nos períodos regulares de aula.
Conclusões
Este trabalho teve como objetivo apresentar uma RSL sobre produções acadêmicas que elaboraram e aplicaram materiais acessíveis de matemática voltados a educandos da educação bilíngue de surdos, nesse sentido, a pesquisa resultou na análise de 15 trabalhos, entre artigos, teses e dissertações, publicadas de 2013 a 2023, nas bases de dados SciELO Brasil e BDTD, cujos resumos foram analisados por meio do software Iramuteq e os textos lidos e analisados na íntegra pelos pesquisadores. Os resultados apontam para a baixa produção e aplicação de trabalhos para o público pesquisado e que, dentro do grupo do PEBS, as produções têm tido como foco majoritário os educandos surdos, de modo que somente um dos 15 trabalhos foi realizado com educandos com surdocegueira. Apesar disso, destaca-se que os materiais possuem potencial para atender às demandas de educandos com deficiência auditiva sinalizantes (na medida em que também utilizam a língua de sinais), mesmo que este grupo não tenha feito parte dos testes dos materiais apresentados. No entanto, não se pode afirmar o mesmo para os educandos com surdocegueira, cujas demandas educacionais distinguem-se das apresentadas por educandos surdos. Dessa forma, os resultados sugerem que é necessário investigar e produzir recursos adequados às necessidades dos outros públicos que compõem o PEBS, como educandos surdocegos, surdos com altas habilidades ou superdotação e surdos com deficiências outras associadas. Entre as principais características dos materiais encontrados, destaca-se a utilização de materiais manipulativos (em dez dos 15 trabalhos), dada a visualidade do sujeito surdo. Do ponto de vista de conteúdos específicos, a RSL mostrou haver equilíbrio entre as produções para as unidades temáticas “Números”, “Geometria” e “Álgebra”. No entanto, os trabalhos pouco ou nada abordam conteúdos referentes às unidades temáticas “Grandezas e Medidas” e “Probabilidade e Estatística”, sendo essas duas igualmente importantes para o desenvolvimento do indivíduo e temas recorrentes dos principais vestibulares do país, além de que tais unidades são temáticas obrigatórias a serem ministradas em consonância à BNCC.
Em relação aos segmentos escolares, a produção de materiais tem se concentrado nos anos finais do ensino fundamental (com dez de 15 trabalhos) e pouca atenção tem-se dado ao ensino médio, aos anos iniciais do ensino fundamental e à educação infantil. Uma hipótese para tal fato seria a de que as produções estão relacionadas aos segmentos de atuação dos pesquisadores de cada trabalho, informação que não pôde ser obtida por meio das análises feitas. Contudo, ao pensarmos nos anos finais do ensino fundamental como um estágio intermediário da educação de qualquer sujeito, a concentração de produções para esse segmento específico limita a formação robusta de educandos do PEBS, principalmente àqueles inseridos em classes comuns, pois, no início de sua formação (educação infantil e anos iniciais), há dificuldades em acessar materiais e sequências didáticas adequadas às suas necessidades, bem no estágio de formação de conceitos, técnicas, procedimentos e tipos de raciocínios primordiais para a construção de conhecimentos matemáticos mais complexos. Por outro lado, quando esse mesmo educando passa pelos anos finais do ensino fundamental, surge a dificuldade de encontrar recursos que permitam o aprofundamento em conteúdos mais complexos, trabalhados durante o ensino médio.
Um outro resultado relevante refere-se ao aspecto linguístico dos materiais. Dos 15 trabalhos selecionados, apenas cinco possuem a Libras inserida diretamente no recurso produzido. Os outros dez materiais, por outro lado, foram produzidos exclusivamente em Língua Portuguesa e exigem a presença de um intérprete para as suas aplicações, caso o educando não tenha domínio da modalidade escrita da Língua Portuguesa. Desse modo, além da baixa quantidade de materiais produzidos e testados com educandos do PEBS, a maioria deles não possui como foco a Libras, sendo a língua utilizada somente pelo intérprete/professor responsável durante o ensino do conteúdo específico, o que pode resultar em perda de autonomia dos educandos na ausência de um intérprete.
Outro ponto a ser considerado refere-se à importância da formação continuada de professores da educação básica para atuarem na educação bilíngue de surdos. O desenvolvimento de programas de capacitação específicos pode potencializar a aplicação dos materiais existentes e incentivar a criação de novos recursos pedagógicos bilíngues, alinhados às necessidades e características do PEBS. Além disso, políticas educacionais que incentivem a pesquisa e o desenvolvimento de materiais bilíngues devem ser prioridade, a fim de suprir as lacunas observadas nesta revisão.
De forma sintética, os principais achados desta revisão sistemática evidenciam: (i) a reduzida produção de materiais acessíveis de matemática voltados à educação bilíngue de surdos; (ii) a concentração das produções nos anos finais do ensino fundamental; (iii) a predominância de materiais manipulativos, em detrimento de recursos bilíngues que integrem a Libras como língua de instrução; e (iv) lacunas expressivas em determinadas unidades temáticas, especialmente “Grandezas e Medidas” e “Probabilidade e Estatística”. Tais resultados indicam a necessidade de ampliar investigações futuras que contemplem outros segmentos escolares, diferentes perfis de educandos do PEBS e a elaboração de materiais que incorporem a Libras de forma estruturante, bem como estudos que analisem processos de implementação, validação pedagógica e formação docente associada ao uso desses recursos.
Com essa pesquisa, esperamos contribuir para que novas produções para esse público sejam desenvolvidas no futuro. Ademais, esperamos promover a reflexão sobre a necessidade de que os novos materiais contenham tanto a Língua Portuguesa quanto a Libras, para que possam ser utilizados de maneira democrática, autônoma e integral por qualquer educando, seja ele do PEBS ou ouvinte, tornando, dessa maneira, o ensino de matemática equitativo e acessível.
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Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado na plataforma Zenodo e pode ser acessado em https://doi.org/10.5281/zenodo.18787102
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Plataforma digital denominada “Acessiteca”, disponível em: https://lirte.pesquisa.ufabc.edu.br/acessiteca/
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3
Segmentações didáticas propostas pela Base Nacional Comum Curricular - BNCC na disciplina de Matemática (Brasil, 2018).
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Editor:
Prof. Dr. Fabio de Barros Silva
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi disponibilizado na plataforma Zenodo e pode ser acessado em https://doi.org/10.5281/zenodo.18787102






Fonte: Elaboração própria com base nas diretrizes de formatação do software Iramuteq (2024).


Fonte: elaboração própria - figura gerada pelo software Iramuteq (2024).
